São Paulo, 5 de novembro de 2002



Entrevista:

 



Fernando Lemos

 

José Fernandes de Lemos nasceu em Lisboa, POrtugal, em 1926. Fotógrafo, pinto e poeta, porque poesia está no sangue dos portugueses. Frequentou a Escola de Artes Decorativas Antonio Arroio, entre 1938 e 1943. Estudou pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Dedica-se mais intensamente à fotografia no início da década de 1950, vinculando-se, filosoficamente, ao movimento surrealista. Desenhista delitografias industriais e colabora com poemas e ilustrações na revista Uni/Pentacórnio. Viaja para o Brasil e fixa-se, primeiro no Rio e depois, definitivamente, em São Paulo, em 1953. Passa a pintar e a desehar. Leciona artes gráficas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP. Entre 1968 e 1970, ocupa a presidência da Associação Brasileira de Desenho Industrial - ABDI, da qual é membro fundador. Como escritor e ilustrador, integra a redação do jornal Portugal Democrático, órgão dos exilados políticos portugueses no Brasil, entre 1955 e 1975. Em 2003, é publicado o livro Na Casca do Ovo, o Princípio do Desenho Industrial, com seus escritos sobre design, pela editora Rosari.

Fernando Lemos abre a porta de uma casa que fica em uma rua estreita do Butantã. Não chego a entrar totalmente, e percebo que a luz atravessa o enorme estúdio envidraçado, com janelas que ocupam a parede inteira. Limpo e arrumado, de uma ordem espartana, com nada fora do lugar, a gente entra e sabe que entrou em um outro mundo. Fernando começa a entrevista antes que eu comece. Ele sai andando e falando. Pega dois copos de dentro da geladeira: — “ para o copo também ficar fresquinho”, — uma garrafa de água e nos sentamos à mesa. Atrás de mim está a cidade. A vista é linda, é quase zen.

Jornaleco: Quando você começou a pintar?
Fernando: Desde garoto eu desenhava. Quando ingressei na Escola Industrial, já comecei a entrar em contacto com artistas. Depois fiz alguns cursos na Sociedade Nacional de Belas-Artes, estudei pintura, litografia. E também escrevia e fotografava.

Jornaleco: Nesse começo você teve alguma influência?
Fernando: Só aos 18 anos, quando eu estava na escola, é que comecei a ter acesso a todos os pintores, é que posso falar em influência. Então creio que foi Max Ernst, Marcel Duchamps. Mas em fotografia não tive influência de ninguém.

Jornaleco: Quando você teve contacto com a pintura Surrealista?
Fernando: Em 1949 houve uma primeira exposição surrealista em Lisboa. Fui ver essa exposição e fiquei completamente contaminado. Aquilo era a minha visão do mundo. Era a minha bandeira, aquilo que eu considerava liberdade. Automaticamente eu me entrosei com o grupo que fez a exposição, até que acabamos por nos dividir em dois grupos. Em 1952 fizemos, eu o grupo ao qual me filiei culturalmente, vamos dizer, uma exposição que foi um escândalo, que abalou Lisboa. Lisboa, nessa época, era uma cidade completamente conservadora. Então o bairro mais burguês de Lisboa, que é o Chiado, que tem aqueles comerciantes todos, a alta burguesia, fizeram um abaixo-assinado para a Câmara Municipal pedindo que a exposição fosse fechada, que nós fossemos presos. A partir desse momento as coisas começaram a ficar ainda piores para mim. Os caras da PIDE começaram a me seguir pela rua, iam atrás de mim até em casa. E isso não era só comigo, era com o grupo todo, e foi criando um certo pânico na gente. Tinha lá o café aonde a gente parava para conversar, e os caras da Pide espalhados ouvindo as conversas. Aí a coisa começou a ficar, pra mim, muito difícil. Para complicar, eu tinha as melhores relações com o Partido Comunista, embora não fosse filiado a ele.

Jornaleco: Você era comunista?
Fernando: Eu estava do lado dos comunistas porque todos nós só tínhamos um inimigo em comum, que era o Salazar. Tudo que fosse oposição ao Salazar convergia para um único ponto.

Jornaleco: Quando vocês fizeram essa exposição, em 52, o surrealismo já existia em Portugal, também na literatura?
Fernando: Também na literatura, já havia muita gente ligada ao surrealismo, grandes poetas como Mário Cesariny. Quando apareceu o discurso surrealista do Breton, o surrealismo já estava na língua portuguesa, porque a única coisa forte em Portugal é a poesia. Muito mais do que a pintura, do que qualquer outra coisa. Portugal é um país de poetas. Lá o sujeito mal aprende a ler e já sai escrevendo poesia.

Jornaleco: Como foi o encontro do seu grupo, ainda em Lisboa, com o grupo francês?
Fernando: O António Pedro foi quem teve os primeiros contactos com o Breton. Daí passamos a ter relações com eles à distância. Eu conheci o Benjamim Pérét na casa do Paulo Emilio, em Paris, o Paulo Emilio estava morando lá. Nosso contacto começou assim.

Jornaleco: Os intelectuais portugueses foram muito perseguidos pelo Salazar?
Fernando: Para você ter uma idéia: a minha geração era perseguida, mas a geração anterior já estava proibida de dar aulas, trabalhar nas universidades.

Jornaleco: E nessa época quem eram os grandes poetas portugueses?
Fernando: Tantos: António Maria Lisboa, Alexandre O´Neill, António Pedro, Jorge de Senna, que depois acabou vindo pra cá também.

Jornaleco: Aí você veio para o Brasil?
Fernando: Foi. Saí de Lisboa, entre outras razões, por causa de política. Eu estava muito envolvido com a resistência a Salazar. Eu, a minha geração, e gente mais velha do que eu. Fomos praticamente postos à margem em Portugal. Paralelo a isso, eu, e todos do meu grupo, tínhamos uma vontade imensa de conhecer o Brasil. Fui fazendo amizade com vários brasileiros que iam muito à Portugal: o Murilo Mendes, Marques Rebelo, a Maria Leontina, o Augusto Rodrigues. O Brasil era uma coisa importante pra gente. Não que o Brasil fosse o Portugal do futuro, mas era onde a gente via que a nossa língua tinha se tornado outra coisa. Claro que estou falando de pessoas já envolvidas com problemas culturais. Estudantes, intelectuais, que, embora fossem jovens, já eram suficientemente politizados. Então surgiu um anúncio, sobre a comemoração do IV Centenário da Fundação de São Paulo. Era um folheto, um folder, com toda a programação. Fiquei louco de vontade de vir. Consegui uma passagem e vim. E fiquei. Passei um ano morando no Rio. Eu detestava São Paulo no começo. Eu vinha pra cá e ficava até com um pouco de medo. Com o progresso acelerado demais, eu achava uma coisa torpe andar no centro da cidade. Só tinha tapumes, não se sabia o nome das ruas, era uma barulheira, só se faziam prédios, uma loucura. E a cidade tinha um aspecto, não de construções, de prédios sendo erguidos, mas de ruínas. Parecia que tudo estava sendo demolido. Mas aí eu comecei a me engrenar e a perceber que aqui eu ia ter trabalho. E no Rio não havia nada, coisa nenhuma em termos de trabalho. Como eu já conhecia várias pessoas, muitas das quais fiz amizade em Lisboa, outras como o Paulo Emílio Salles Gomes que conheci em Paris. Tive muito apoio aqui do Sérgio Milliet. Fui amigo do Sérgio Buarque de Hollanda, de freqüentar muito a casa dele.

Jornaleco: E aí você ficou.
Fernando: Eu tinha vinte e poucos anos. E sabia que não ia ter mais permissão de voltar à Portugal. Havia um monte de portugueses aqui exilados. Mesmo quando eu vim já foi muito difícil me darem passaporte. Venceu o meu visto, eu pedi um permanente, me deram, e um dia acabei me naturalizando. No começo dos anos 60.

Jornaleco: E quando você voltou a Portugal?
Fernando: Só em 1974, 22 anos depois, na Revolução dos Cravos. E aconteceu uma coisa engraçada. Eu estava com o Sarmento Pimentel e disse a ele: “vamos fazer uma coisa surrealista?” ele disse: “vamos, qual?”. Eu respondi: “vamos urinar no túmulo do Salazar?”. E lá fomos nós.

Jornaleco: Com esse problema do Salazar, tendo que sair de Lisboa, você não pensou em se radicar em Paris?
Fernando: A idéia de Paris não me agradou, como não me agrada hoje. Descobri que eu era mais uma figura de arregaçar as mangas e trabalhar do que virar um esnobe. Me imaginei andando em Paris, com trabalhos embaixo do braço, à procura do sucesso antes da obra feita...não era pra mim. Em Paris acabei voltando para expor, cinqüenta anos depois. Nem foi como pintor, mas como fotógrafo. Jamais me arrependi de ter vindo para o Brasil. Eu costumo dizer que tenho duas pátrias: uma que me fez e outra que estou ajudando a fazer.

Jornaleco: Fernando Pessoa em determinado momento apoiou Salazar, não foi? Ele dizia que tratava-se de uma ditadura econômica.
Fernando: O Fernando Pessoa era uma pessoa muito esdrúxula nesse sentido. Ele apoiou certas coisas de Salazar, e depois condenou-o por outras. Acabou esculhambando Salazar, dizendo que ele era o maior provinciano do mundo. E de fato era. Um homem que nunca viajou, que não saia de casa para nada.

Jornaleco: Então você mudou pra São Paulo...
Fernando: Na exposição do IV Centenário, em 54, foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro. Comecei a trabalhar aqui em São Paulo e fiz tudo na área de artes plásticas e gráficas, ou quase tudo. Capas de livro, fui ilustrador de revistas, trabalhei no Centro Cultural, no Patrimônio Histórico da Eletropaulo, no Memorial da América Latina. Uma boa parte da minha vida aqui foi em colaborações, que eu acho que todo imigrante deveria dar. E paralela à essa atividade, eu sempre mantive o meu estúdio e seguia pintando, desenhando e escrevendo.

Jornaleco: A sua primeira exposição aqui no Brasil foi quando?
Fernando: A primeira foi logo depois que eu cheguei. Fiz uma exposição de fotografia aqui em São Paulo, no Museu de Arte Moderna, que na época era na rua Sete de Abril, e também expus no Rio. Foi uma exposição que tinha a apresentação, o texto, do Manuel Bandeira. Naquele tempo ninguém expunha fotos em museus, aqui no Brasil. Depois disso comecei a expor também nas Bienais. Praticamente expus em todas as galerias de São Paulo. Montei eu mesmo uma Bienal. Lá fora eu comecei a expor a partir daqui, eu fiquei conhecido aqui primeiro e depois lá fora. E a partir de 74 eu comecei também a me integrar em exposições com artistas portugueses.

Jornaleco: Quer dizer que você entrou aqui pela porta da frente?
Fernando: Sim, só que estou agora meio posto de lado, como todas as pessoas da minha geração. Porque tudo que está aberto é pra gente jovem. Já não existe interesse na gente da minha geração, em fazer uma exposição. Isso dá pra gente se lamentar.

Jornaleco: O que mudou no fato de você ter se radicado aqui? a geografia teve uma influencia sobre a sua pintura?
Fernando: Diretamente sobre a pintura, arte, não. Já em Portugal eu não tinha nenhum conceito de uma pátria nesse sentido. Não acho que exista artista brasileiro, artista português. Existe uma pintura brasileira. O Brasil tem uma criatividade que pode ser um dia definida como alguma coisa nesse sentido. Não pela cor, porque isso é mentira. Pra ver cor você tem de ir ao Pantanal. Se você vai daqui a Campos de Jordão, não vê uma árvore colorida no caminho. Mas a criatividade aqui tem uma imagem, por causa da música. Quando você ouve uma música no Brasil, está automaticamente vendo alguma coisa se mexendo, dançando. Um pião. Música já é uma imagem. Tem uma força que passou pra lá da tonalidade. Um Villa-Lobos, um Carlos Gomes. Eu cada vez mais gosto de ouvir Carlos Gomes. Essa imagem eu sentia falta em Portugal. Portugal não tem isso. Acho que foi por isso que eu fui atrás da fotografia, pra ver se encontrava essa imagem.

Jornaleco: Quando você chegou aqui, o que te chamou a atenção em termos de arte?
Fernando: Eu me interessei muito pelos concretistas. Tive uma admiração muito grande por eles. Não me sentia muito longe deles. Numa outra raiz eu faço um pouco isso, mas sem as estruturas que eles usam, que são estruturas rígidas como propostas. O meu lado é mais instintivo. Gostei do desenho de Portinari, mas não da pintura. Gostei da Tarsila e de tantas outras pessoas. Mas eu sou um caso seminal, eu não tenho coerência. Tenho fases de trabalho completamente distintas umas das outras, vou atrás de uma coisa, fico meses fazendo aquilo, depois não volto a mexer, nem olho. Até me dá a impressão de que foi uma outra pessoa quem fez. Não volto a repetir aquilo. Vou á procura de outra raiz. A minha natureza é essa. Não me agrada o trabalho de artistas que vivem se repetindo.

Jornaleco: Qual a diferença conceitual entre pintar, fotografar e escrever poesia?
Fernando: Nenhuma. Eu gosto dos três, é a mesma necessidade de transformar o invisível em visível. Quando eu desenho, estou desenhando no sentido de alguma coisa que exija precisão. Pra mim, desenhar é uma coisa que não tem retoque. Com a pintura é diferente, a pintura é uma coisa de reflexão. Uma coisa que demora. Na pintura eu posso ir fazendo e mudando à medida que faço, posso chegar à uma certa altura e até rasgar a tela, depois pôr na máquina de costura, emendar, fazer uma modernice. A pintura é uma viagem no tempo. Você faz para que seja olhada e refletida à distância, o desenho você faz para trazer embaixo do braço e mostrar aos outros. É outra escala. Você pode ver o quanto a sua emoção e o seu propósito criativo estabelecem regras de trabalho. Se estou desenhando em uma folha de papel não é a mesma coisa que uma tela, na qual eu posso até fazer um pequeno modelo e depois ampliar. Já é uma outra viagem.

Jornaleco: Aqui neste livro estão fotos de quadros do Mário Cesariny. Eu não sabia que ele também pintava.
Fernando: Na cultura portuguesa, desde o modernismo, isso é muito freqüente. Gente que escreve e pinta. Mário Cesariny, António Pedro, o Almada Negreiros. Porque a fotografia e a pintura também são elaborações poéticas.


A mão e a faca - anos 50 - Lisboa (fotografia)

Jornaleco: E você parou de fotografar?
Fernando: Me perguntaram isso em França, em Aix-au-Provence, e eu respondi que hoje tem máquinas que são melhores do que os fotógrafos. Fotografei , principalmente, entre 1949 e 1953. E também não me incluo na categoria dos fotógrafos profissionais, essa coisa de carregar máquinas, equipamentos, essa tralha toda. Eu faço fotografia como pinto, como desenho, como escrevo. Hoje a fotografia é mais um processo industrial do que artístico. Um artista mesmo, compra uma máquina e usa aquilo a vida inteira. A Kodak e a Nikon não fazem fortuna com esse cara. Então as máquinas têm de vir fazendo tudo sozinhas, sem precisar de um fotógrafo atrás das suas lentes. No entanto, eu estou vindo de Barcelona, fiz uma exposição lá e estou na Europa, na lista dos fotógrafos europeus. A modernidade exige o automatismo.

Jornaleco: O que é essa modernidade?
Fernando: Essa modernidade é exatamente tudo que está sendo imposto como a grande defesa da nossa continuidade humana e humanística, que é nos apoiarmos na informática, na tecnologia avançada. É quase que ser obrigado a ter um computador,um celular. Se a pessoa não tem isso, fica com medo de ficar sozinho. Ou seja, as pessoas continuam com medo de ficarem sozinhas.

Jornaleco: Você disse lá atrás que há um desinteresse pela sua geração. É só no Brasil que acontece isso?
Fernando
: O Brasil é mais vítima disso, porque o Brasil não tem interesse histórico, não acredita na história e tem toda razão, porque a memória só traz más lembranças. O Brasil tem más lembranças históricas. Ainda se aprende na escola que o país foi “descoberto”. E isso é um trauma. Nenhum país no mundo sofre desse trauma. Porque então pesquisar? Ele nunca será um descobridor, ele já é o “descobrido”. Já é o resultado de uma pesquisa. O produto final. Acho que agora talvez a sociedade brasileira não tenha mais complexo de colonizado, ela já escolheu o próprio colonizador.

Jornaleco: Os Estados Unidos?
Fernando: É, os Estados Unidos. Observe que antigamente, mesmo sem todas essas facilidades de agora, havia espaço pra genialidade. A Igreja fazia o registro de tudo, era o computador da época, o banco de dados. Não foi o Guttenberg nem a indústria gráfica quem descobriu as obras de arte, e expôs em livro. Não fosse a Igreja e estaria tudo esquecido. Isso tudo é uma história mais pra trás, mas colocando no tempo de hoje o que eu quero dizer é que: me aflige que depois de 50 e tantos anos de trabalho no Brasil não tenho mais onde me apoiar porque a minha geração não tem mais papel aqui. A geração de 90 já comeu a de 80, imagine a geração de 50. A modernidade já engoliu tudo isso. Evidente que há lados bons. A internet, de cara, mostra hoje, como as pessoas são obrigadas a, pelo menos, falar direito. Porque se você não souber escrever, e for conversar com alguém através da internet, logo se vê que o nível cultural é baixo. Não só está se lendo mais, como as pessoas estão sendo despertadas através do ter de escrever, que é uma coisa que se estava perdendo. Eu, particularmente, continuo a escrever a mão. Eu quero ver a minha letra nascer. Mas, continuando, a internet obriga as pessoas a terem um outro nível da fala, da escrita. E isso pode recuperar muita coisa.

Jornaleco: A sua fotografia acabou sendo vista e entendida no mundo como “portuguesa” pelo lado poético dela?
Fernando: Isso mesmo. Essa é a coisa da imagem. Mas no Brasil, essa criatividade tem um lado ruim: no momento em que cria, o brasileiro já destrói. Não sabe preservar. Nesse aspecto é um desastre. E com todas os defeitos da sociedade portuguesa, isso, essa coisa da preservação, ela ainda tem. Essa coisa de fazer o grande levantamento das coisas culturais. Aqui não tem muito isso.


Armazém do Chiado- anos 50- Lisboa (fotografia)

Jornaleco: Corremos o risco de termos e doarmos ao futuro uma cultura efêmera e passageira?
Fernando: Sim, mas isso são os danos causados pela assimilação da modernidade do estilo americano. Por levar as coisas a toque de caixa, numa velocidade para a qual ele não está preparado. Há uma histeria implantada para ficar transformando o tempo numa coisa cada vez mais curta. Considero a velocidade uma das coisas mais danosas. A eletricidade foi a primeira grande velocidade que estragou a humanidade. A eletricidade, no fundo, não faz nada. Ela é apenas uma condutora de energia. Se não houver lá na ponta alguma coisa pra produzir ela não faz. E a velocidade é a mesma coisa.

Jornaleco: Isso afetou as relações humanas?
Fernando: Afetou. Mais adiante vai aparecer esse dano, porque isso prejudicou projetos. Sejam quais forem os processos históricos e civilizatórios, as coisas têm de levar o seu tempo adequado. Porque há a necessidade do estudo. Precisou-se dele, do estudo, pra muita coisa. As descobertas marítimas foram a primeira grande “porta paciente” pra se descobrir o mundo. As pessoas levavam anos dentro das cascas de nozes pra cruzar o mundo e depois voltar para fazer os mapas. Isso tudo é construção do tempo. A questão não é a energia, mas a voltagem dela que se aplica às coisas. Precisa-se ter cautela com a velocidade, porque estamos entrando numa espécie de vertigem. Uma vertigem individual e coletiva. Que já não se sabe mais a origem. Isso prejudica a arte porque a arte também acaba se deixando levar por essa velocidade, acaba se tornando um gesto imediatista. Torna-se mais difícil compreender a pintura. Só mesmo gente que tem um preparo melhor, pode ir à uma exposição, aonde nem sequer há bancos, porque os museus nunca põem um banco pra gente sentar. E precisa-se de tempo para olhar um quadro, meditar sobre o que se olha, ver o volume, o tempo, as distâncias. A distância é muito mais importante que o tempo. A distância que existe entre as coisas, os objetos, as pessoas. Não é só o movimento do outro, mas o próprio movimento. As distâncias que estão lá sendo colocadas entre as coisas, entre as formas de pensar que estão lá contidas. As distâncias como um volume. Isso se aprende com o cubismo: ao mesmo tempo que se pode, de um olhar só ver o mesmo objeto, sem ter de dar a volta nele pra você sentir todos os volumes que ele tem, todas as dimensões, sem ter de dar a volta por ele, porque ele está todo plasmado, ao mesmo tempo isso significa uma coisa minimalista que também implica noção de tempo, porque se você vê o objeto de uma virada só, diminui o seu tempo de compreensão.

Jornaleco: A luz acompanha essa noção de tempo?
Fernando: Sim, mas a luz é uma coisa muito estática, a luz não mudou nunca. Quando eu fotografava, nunca usei nada além de um sol ou de uma lâmpada acesa. Iluminação artificial é outra coisa, mas a luz permanece a mesma. Os impressionistas se interessaram em estudar a cor, e descobrirem qual o espaço de luz e cor que existe entre nós e a coisa observada. O espaço que vai entra as coisas. Captar isso foi o grande trabalho impressionista. Também é uma coisa específica do tempo em que os pintores pensavam. Hoje os pintores não pensam. E agora vem a tecnologia, esse negócio do digital que acha que resolve isso. Pintura como arte de pensamento muita gente apregoa que está morta.

Jornaleco: E você acredita nisso?
Fernando: Não. Eu acho que a arte pode dar uma virada qualquer.

Jornaleco: Você não se repete na escrita?
Fernando: Não. Eu já escrevi sob o automatismo surrealista, fiz coisas quase concretas. O valor da palavra por si, descobrir a dinâmica da palavra, independente do sentido que ela tenha. É na escrita até que eu tenho feito mais experiências.

Jornaleco: Frida Kahlo foi entendida como surrealista?
Fernando: Está sendo. Isso da humanidade vista por dentro, uma figura que não teve segredos, não explorou sentimentalismos e traumas, bem diferente do Salvador Dali. Ela foi tratada como um caso psíquico, mas a relação dela com a dor, com o sofrimento, vai muito além disso. Não estou dizendo que seja uma coisa mística, mas que há uma inteireza nela e nos momentos que ela viveu, as pessoas com as quais ela viveu que dão –lhe uma presença indiscutível, à medida que o surrealismo não é uma leviandade, não é uma aventura de paranóicos, e de gente desequilibrada, como se tornou a palavra no jargão popular. A Frida trouxe para o surrealismo a verdade que não implica aventuras sobre coisas esquisitas, mas a emoção. Ela não quis ser esquisita.

Jornaleco: Isso da palavra “surrealista” ter virado um jargão, já aconteceu no passado com o existencialismo.
Fernando: É, já. E incomoda bastante, a medida que cada coisa estranha que acontece, ela é chamada de surrealista.

Jornaleco: O que você disse à respeito da pintura surrealista, tem o equivalente na literatura surrealista?
Fernando: Não. Não existe essa relação porque a pintura é universal. E na literatura nós somos obrigados a certas exigências de comportamento, de maneira de ser. Isso implica tipo de cultura, a cultura de uma espécie, de uma raça, de um país. Que se diferencia e que é preciso defini-la bem. Na literatura há compromissos. Pode-se entender o que é a literatura francesa. Há mesmo escritores que nem são franceses e escrevem em francês, ainda assim não é uma literatura francesa. O Cortázar por exemplo, viveu na França, mas a coisa da criatividade inclui coisas de magia, essa magia da América do Sul, que trabalha muito com o desconhecido, descobrindo o desconhecido. Não por ter medo do conhecido, mas por saber que esse “desconhecido”, existe em algum lugar e tem de ser revelado.

Jornaleco: O Breton seguiu esse rumo do desconhecido em toda a sua obra, na prosa, na poesia e nos Manifestos. E fez tão bem que Nadja não teve um rosto, uma cor de cabelos e olhos, uma altura definida.
Fernando: Sim, mas morava em Paris. Fez com uma outra envergadura, vamos dizer, mais culturalizada. Num país como o nosso é por não saber qual é o tamanho da terra aonde ele está. Qual é o tamanho do quintal. Os franceses sabem qual é o tamanho da França, aonde Paris acaba e começa Nova York. Eles conhecem e passeiam por essas centralizações da cultura e nós não. Nós não temos nada pra centralizar. Ainda.

Jornaleco: Você diz "nós", você é totalmente brasileiro hoje?
Fernando: Sou, claro. E você não imagina o quanto isso significa pra mim. E não me arrependo. A única coisa que deu errada pra mim no Brasil foi o calor. Os portugueses deviam ter descoberto o Brasil num lugar menos quente.