19 de dezembro de 2002
Danilo Caymmi

Danilo Caymmi tem 54 anos, nasceu no Leblon, na beira da praia, rua General Artigas número 1, esquina com a Delfim Moreira. É filho de Dorival e de Stella, irmão de Dori e Nana, marido de Simone, e pai de três filhos. Mora atualmente em um apartamento na Barra de Tijuca. Danilo canta, toca, compõe, e interpreta. Faz parte de uma família de músicos que, assim como ele, mexeu com a cabeça e o coração de todos os brasileiros.
Jornaleco: Quando você descobriu sua vocação para a música?
Danilo: Lá pelos 14, 15 anos, quando meu pai me deu uma flauta, aí eu me encantei, comecei a tocar, ficava tocando em casa, fui pedindo outras flautas melhores. Na verdade, quando eu tinha 11, 12 anos, eu queria ser da Marinha, alguma coisa ligada à Marinha Mercante, uma coisa por aí. Eu sempre fui muito encantado com as coisas do mar, no sentido de viagens marítimas.
Jornaleco: O fato de você ser filho de Dorival não atrapalhou?
Danilo: Não, absolutamente. Pra nenhum de nós, nem pra mim, nem pro Dori, nem pra Nana. A partir do momento que as pessoas entendem que é uma coisa completamente diferente, que são públicos diferentes a carreira flui naturalmente. É chato que as portas estão abertas com mais facilidade, e na verdade seria melhor que elas tivessem um pouco mais de resistência. Às vezes, durante a carreira, a gente tem de voltar pra passar por alguma dessas portas de novo. Essas que estavam abertas.
Jornaleco: Você começou a tocar flauta e depois começou a compor?
Danilo: Eu tocava flauta e estudava, claro. Aí entrei na Faculdade de Arquitetura e nessa época é que comecei a compor. Antes eu já compunha alguma coisa, mas daí veio o contacto com o Edmundo Souto e o Paulinho Tapajós, que eram arquitetos. Então compusemos Andança, que inscrevemos no III Festival Internacional da Canção, no Rio, e a música foi muito bem sucedida, tirou o terceiro lugar. Por conta disso, e por conta de estarmos em 1968, que foi um ano politicamente muito difícil, aquela época de repressão, do AI-5, eu optei por largar a faculdade e estudar música mais a sério. Daí comecei a me envolver diretamente com música como profissão.
Jornaleco: Você não teve nenhum problema particular com censura?
Danilo: Não, mas existiam os riscos naturais da época, porque o simples fato de você pertencer a uma universidade já era um risco muito grande, ou de você conhecer uma pessoa relacionada com algum núcleo de esquerda no país já poderia representar até tortura, morte, essas coisas.
Jornaleco: Você estava em que ano da faculdade quando largou?
Danilo: No quarto pro quinto ano.
Jornaleco: Fora o seu pai, claro, quem mais foi importante na sua formação cultural?
Danilo: Tanta gente. Papai era contratado da Emi-Odeon durante muito tempo e sempre levava discos novos pra casa, a gente ouvia muito jazz, Sinatra, Sara Vaughan, música erudita — que faz parte da formação de qualquer músico — e também nós tínhamos acesso à uma biblioteca muito boa, de papai, e também a todo um mundo de artistas plásticos. Papai era relacionado com pintores importantes, e eu tive a oportunidade de conhecer o Cândido Portinari, no atelier dele, no Leme, conheci Clóvis Graciano, Rebolo, Pancetti, Bruno Giorgi, várias pessoas importantes nas artes plásticas do Brasil, assim como na música e na literatura, e isso tudo foi importante na minha formação.
Jornaleco: Rock você ouvia?
Danilo: Sim, mas em 71, 72, já aluno de flauta da Pró-Arte, eu gostava muito de ouvir Jimmy Hendrix, acho que ele foi um dos melhores guitarristas do mundo, não foi superado até hoje, e um pouco mais tarde, o Led Zepellin, que eu gosto até hoje, um rock mais pesado. Eu sou de uma geração que já tem uma mistura com isso muito grande. Eu não tive o caminho da MPB ortodoxa, não. Tanto que no meu próximo trabalho, já tem umas coisas sob a influência do rock dos anos 70, que eu admiro e gosto de ouvir.
Jornaleco: Como você compõe?
Danilo: Eu sou um compositor muito assim: eu não espero a inspiração, eu faço a inspiração. Gosto muito de compor sob pressão, tanto que eu tive um trabalho relativamente bem-sucedido na televisão por causa disso: eu gosto dessas coisas encomendadas. Quando a música vem naturalmente, a minha música é muito visual — a música, eu não sei a letra — então ela passa na minha cabeça como um filme. Ela tem de ter pra mim essa abertura. Sempre foi uma característica minha essa coisa visual, com estruturas também, talvez influência da arquitetura, eu gosto de trabalhar com estruturas definidas. Tipo uma arquitetura musical. A forma da canção sendo uma arquitetura musical.
Jornaleco: Você começou a cantar com o Tom, na Banda Nova?
Danilo: Foi. Na época eu não cantava, eu só tocava flauta. Participei de discos importantes nos anos 70, fui da banda do Milton Nascimento, comecei a trabalhar na banda do Edu Lobo, gravei com cantores importantes, mas só tocando flauta em estúdio. Aí a opção de cantar ainda não existia, tanto que se você pegar um disco meu, de produção independente, por exemplo Cheiro Verde, a voz é completamente diferente, estava fora da minha textura, fora completamente do que era pra eu cantar. Mas quando o Tom formou a Banda Nova, em 83, e me chamou, aí eu tive de ter aula de canto pra conhecer melhor esse instrumento que é a voz, porque eu tinha solos importantes na Banda, especificamente Samba do Avião e A Felicidade. Então eu tive de me preparar, estudei mesmo, o canto emprega uma técnica completamente diferente da técnica da flauta, de respiração, do uso do diafragma que pro canto é diferente. Daí é que começou um caminho, que no futuro acabou acontecendo, de eu fazer uma carreira solo de cantor, paralela à carreira de compositor.
Jornaleco: A carreira solo de cantor como começou?
Danilo: Eu fiz meu primeiro disco na RGE, produção do Mariozinho Rocha, foi em 93, e gravei algumas coisas que foram grandes sucessos em novelas, a música de Riacho Doce, Tereza Batista, era um aproveitamento do material que eu fiz para tevê. Depois eu fui pra produção do Roberto Menescal, o segundo disco na Emi. Esse primeiro disco foi muito bem-sucedido no mercado, teve duas músicas muito bem tocadas, uma é o Ziguezagueou e a outra é Nada a Perder, uma música do Lenine e Dudu Falcão, que foi tema de novela. Aí foi, até que chegou este ano e eu me cansei um pouco dessa coisa toda e resolvi fazer um disco totalmente autoral: idéias minhas, produção minha, trabalhando com um pessoal de São Paulo, jovens. Estou muito feliz com o trabalho.
Jornaleco: A música instrumental brasileira, é mais conhecida lá fora do que aqui?
Danilo: Aqui não tem uma cultura voltada para isso, essa é a razão. Eu estou fazendo um show aqui no Rio, com o Sebastião Tapajós, e que nós apresentamos na Europa, com muito sucesso, o ano passado, e é a primeira vez que a gente apresenta qui no Rio, mas só que eu misturei as coisas. Misturei instrumental, eu uso a voz como improvisação, como elemento, musical, como se fosse a flauta, e na verdade, essa mistura é uma música instrumental, só que o meu instrumento, no caso, é a voz. Eu misturei com algumas canções conhecidas, tratadas de uma outra maneira, e a gente estreou aqui no Bar do Tom, no Leblon, com muito sucesso. A gente, eu e o Sebastião, ate estávamos meio assim, pensando se deveríamos apresentar o trabalho aqui, mas estreamos ontem (dia 6 de dezembro) e foi um tremendo sucesso. Sou eu, o violonista Sebastião Tapajós, com a participação de um grande músico, Nei Conceição, no contrabaixo.
Jornaleco: Vai sair um cd desse show?
Danilo: Nós gravamos, falta mixar e masterizar, mas a idéia é mandar pra Alemanha. O Sebastião tem um público muito grande na Alemanha. Aí o ano que vem, a gente deve fazer os festivais de jazz. Com esse show nós estivemos na Finlândia, em Berlim, Frankfurt, Munique, em Santarém- Portugal, em Los Angeles, mas no Brasil foram poucas apresentações: uma em Belém, outra em Roraima e outra em São Paulo, no Sesc-Vila Mariana. É minha primeira excursão lá fora. Eu sou pouco conhecido lá, o Tião é bastante conhecido.
Jornaleco: Mas você tocou no Carnegie Hall com a banda do Tom.
Danilo: Toquei, mas não eram coisas que eu tivesse destaque como solista. O som era do Tom, da Banda.
Jornaleco: E teve a família Caymmi em Montreaux, não teve?
Danilo: Mas esses trabalhos são muito estanques, não apontam para uma carreira lá fora, e eu sempre optei por trabalhar aqui. E sempre passei minha música através da televisão que é uma mídia forte, o caso mais recente é a abertura do Porto dos Milagres. O centro das coisas é o Brasil. Eu detesto a idéia de morar no exterior, ainda mais agora que o mundo todo está muito conturbado, e você não tem segurança em lugar nenhum.
Jornaleco: Você faria o que o Baden fez, de ir morar no exterior?
Danilo: De jeito nenhum. Jamais.
Jornaleco: Você compôs com o Cacaso?
Danilo: Compus, fiz uma música chamada Chega de Tarde. Era um grande amigo meu, infelizmente fiz poucas coisas com ele. E essa música eu até dei um briefing a ele, que eu queria que ele fizesse uma letra baseada no filme Belle de Jour, então ele fez essa letra.
Jornaleco: Você conheceu então a turma de poesia do Cacaso, a Ana Cristina, o Armando Freitas Filho?
Danilo: Não, não conheci. Na época da minha parceria com o Cacaso, a Ana Cristina já tinha morrido. Mas eu era muito ligado ao Cacaso, gostava muito dele, tenho até aqui em casa, um quadro que ele fez e me deu. O Cacaso costumava ilustrar as poesias, os livros, as letras de música. A gente sempre falava em fazer mais coisas juntos. Ele estava fazendo um musical com o Nélson Ângelo e eu ia participar do musical, era uma história de amor. Aí não deu porque, infelizmente, prematuramente, o Cacaso morreu. Em 1987.
Jornaleco: Como está o mercado de música? o que fazem as gravadoras para promover os bons artistas?
Danilo: Nada, como sempre. O dinheiro vai pra outros lugares, essa coisa da pirataria é cada vez mais evidente e consistente. Acho difícil que mude a política, é uma politica antiga e sempre está na mesma. Quando você acha que já está no fundo do poço, os caras cavam mais um pouquinho.
Jornaleco: Porque está se gravando tanto essa coisa de pagode e assemelhados?
Danilo: Vamos pensar meio macro: isso tem a ver com educação, tem a ver com o social, com ignorância, falta de escola, com miséria, então o povo consome a música mais simples. Se você não dá educação, é muito natural que se consuma isso, porque um outro tipo de música vai ficar incompreensível.
Jornaleco: Qual o maior problema que se enfrenta ao se gravar um cd?
Danilo: O problema todo é na distribuição do cd. E tem de ser uma multinacional, porque elas têm um esquema de distribuição legal. O meu disco novo está sendo negociado com uma gravadora grande, porque o que interessa não é o marketing dela, mas a distribuição.
. Jornaleco: a MP3, como você vê?
Danilo: Acho ótimo, desde que se preserve os direitos dos compositores, artistas músicos, enfim, você não pode impedir essa evolução, praticamente em progressão geométrica, da internet, esses arquivos cada vez melhores, com mais qualidade, acho que, inclusive, é daí que vai se acabar com o negócio de pirataria.
Jornaleco: Quantos discos você gravou?
Danilo: Uns seis.
Jornaleco: Jorge Amado. Qual a dimensão dele na sua vida?
Danilo: O Jorge foi uma pessoa extremamente generosa, muito amigo, muito querido, da minha família toda. Sempre tivemos uma ligação muito forte com ele, artística inclusive. Papai musicou Gabriela, na tevê, meu irmão Dori fez músicas importantes, eu fiz Tereza Batista, estava trabalhando com o Tom quando ele fez o Gabriela pro cinema, enfim, a gente teve uma ligação muito forte com o Jorge, com a obra do Jorge. Eu conheci ele desde pequeno, estudei com o João Jorge no primário inteiro, a gente se freqüentava.
Jornaleco: Você sempre morou no Rio, nunca na Bahia?
Danilo: Sempre morei no Rio. Papai saiu de lá com 24 anos e não voltou mais. Houve uma tentativa deles morarem na Bahia, meu pai e minha mãe, mas não deu certo. Naquele tempo papai já estava em plena atividade artística e sair da Bahia para algum lugar, se deslocar de avião, era muito complicado, e muito lento também. Não havia essa versatilidade de opções de vôo que se tem hoje em dia. Os centros culturais importantes eram, e ainda são, São Paulo e Rio, então ficou complicado e eles ficaram aqui no Rio mesmo.
Jornaleco: Quem compõe muito bem hoje?
Danilo: O Chico César. Ele consegue misturar a simplicidade com alguma coisa mais sofisticada, acho um trabalho bastante inteligente. O Wisnik, o Manu Lafer, eu estou num momento muito voltado pro pessoal de São Paulo. Cantoras também, como a Mônica Salmaso, que é importantíssima.
Jornaleco: E as mulheres, estão compondo bem?
Danilo: Eu gosto muito da Sueli Costa, ela tem um trabalho mais consistente, como a Joyce também, que são compositoras mais da minha geração. O que eu vejo hoje, é falta de se pensar na música um pouco. Olha, eu sou um compositor assim: eu fico fazendo uma prospecção do que eu posso conseguir de uma coisa nova, não misturar coisas de maneira aleatória, isso é o que eu não gosto da maioria dos compositores. Mas tem muitos compositores novos, que você vê que é uma obra pensada. Isso vai muito do ensino da música. As pessoas começam a trabalhar com música sem ter um fundamento, depois não buscam se aprofundar porque o sucesso chega e param por aí. Ah, tem uma compositora bastante legal, que eu gosto muito, é a Adriana Calcanhoto. Você ouve as coisas dela e vê que tem um trabalho de harmonia atrás, que tem uma preocupação com estética, com sonoridade. Ela está sempre buscando alguma coisa diferente.Jornaleco: Eu vi no Trilhas, em São Paulo, você tocando duas flautas ao mesmo tempo.
Danilo: Eu toco essas flautas, desde Gabriela, pra tevê. Você pode, inclusive, fazer uma simulação de banda de pífaros.Jornaleco: O seu caminho musical é o mais diversificado possível?
Danilo: É, mas agora eu estou voltado para um lado mais autoral, eu estou num período de muita transformação, a minha música está na minha mão, ou a coisa é da minha maneira ou não é. Estou buscando algo mais parecido comigo, evitando regravações, e quero ver se passo os próximos anos, dando mais atenção a esse meu trabalho autoral, de pesquisa, de composição. Fiquei um bom tempo compondo apenas pra televisão, e nisso tem de se pensar no contexto da televisão, no público que você vai atingir, tem uma técnica por trás disso. E a minha música daqui pra frente vai ser o mais possível descompromissada da televisão. Pode até vir alguma coisa nesse sentido, pode até acontecer, mas não está nos meus planos imediatos. Estou voltado, nesse momento, pra música instrumental, e esse trabalho usando a minha técnica como cantor pra cantar o meu trabalho de compositor, sem compromissos com nada.
Jornaleco: Como é que é quando você “se ouve” cantando as suas composições?
Danilo: Eu gosto, eu até prefiro me ouvir, como meu pai, que gosta de “se ouvir” cantando as próprias composições. Eu gosto da maneira como abordo as minhas canções. Quando alguém grava, acaba gravando mais
ou menos perto daquilo que eu abordei.
Jornaleco: Seu cd mais recente, qual é?
Danilo: Esse disco de canções inéditas que estou dividindo com Manu Lafer, que é um compositor de São Paulo, que já tem dois discos gravados. É um grande letrista, um grande compositor. Eu estava vendo televisão, faz uns dois anos, o programa da Leda Nagle, Sem Censura, e vi um rapaz tocando violão muito bem, um encadeamento que me chamou a atenção e entrei em contacto com ele. Aí começamos a compor juntos, fizemos umas vinte músicas mais ou menos. Esse CD deve sair em março ou abril.
Jornaleco: E já tem nome?
Danilo: Já. Vai se chamar o Patriota.