São Paulo, 01 de junho de 2008
Entrevista
Cid Paroni Filho
Cid Paroni Filho nasceu em 19 de novembro de 1950, na rua Piratininga 413, no bairro do Brás, em São Paulo, Capital. Com 19 anos entrou na Faculdade de Medicina de Sorocaba, da Pontifícia Universidade Católica. Decidiu-se pela homeopatia por acreditar que esta terapia era uma verdadeira forma de curar os pacientes. É casado com Yara Ferrari, artesã, e tem quatro filhos: Amauri, Maurício, Mayra, e Márcio. Seu consultório fica na Vila Mariana.
Jornaleco: Cid, primeiro me conta como foi sua vida de estudante.
Cid: Eu estava no primeiro colegial, em uma turma misturada, destinada a quem ia fazer engenharia e medicina. Eu sempre gostei da parte de construção civil, e até pensava em fazer engenharia, mas de repente começou a idéia da medicina, e no segundo colegial quando tinha de optar qual a classe a ser seguida, escolhi a medicina. Terminei o colegial e fui fazer um cursinho, o Objetivo. Após um ano de estudo direto, — eu acordava às 3h da madrugada pra estudar e ia até às 6.30h, depois ia pro cursinho, aí voltava pra casa às 13h — almoçava e ia estudar de novo, só parava às 18h. Dava uma descansada, jantava, e ia ver o Repórter Esso, que era o Jornal Nacional da época. Logo em seguida via “Nino, o Italianinho”, uma novela com o Juca de Oliveira, e aí ia dormir para acordar às 3 e começar tudo de novo. Entrei na Faculdade de Sorocaba, e fui estudar e morar lá. Na medicina tínhamos grandes professores, aqui de São Paulo, que devido, à proximidade de Sorocaba iam lecionar lá. Lembro do Walter Edgar Maffei, que foi muito importante na minha vida. Maffei era professor de Patologia da Santa Casa de Misericórdia e com quem aprendi muito sobre a vida e a medicina. Ele brincava com a turma e dizia assim: “vocês vão acabar usando os remédios que os propagandistas falarem pra vocês usar”. Ele era contra o uso indiscriminado dos produtos da indústria farmacêutica. Naquela época, 1970, as bulas dos medicamentos vendidos aqui no Brasil eram diferentes das bulas dos mesmos medicamentos comercializados na Europa e nos Estados Unidos. Aqui faltava o código de defesa do consumidor, as bulas omitiam diversos efeitos colaterais. O Serviço de Fiscalização de Medicina e Farmácia permitia que as bulas daqui diferissem das feitas lá fora. Hoje este serviço de fiscalização é extremamente rigoroso. A própria classe médica sofria com isso. No começo da faculdade, eu tinha um amigo médico que foi fazer um curso nos Estados Unidos. Saiu daqui tomando um determinado antibiótico para uma infecção. Lá acabou o remédio e ele foi consultar um colega americano. Ele tinha de arrumar uma receita para conseguir comprar o medicamento e esse médico americano ao olhar o nome disse assim: “ahhh! esse antibiótico? Nós estamos esperando saber o resultado das experiências feitas em outros países para começar a usar aqui”. Ou seja, o meu amigo estava fazendo parte do experimento do resultado do antibiótico, porque lá ainda não tinha sido aprovado pelo sistema farmacológico americano. E eles têm um sistema de administração muito rigoroso. Foi preciso uma gritaria muito grande dos médicos aqui para que esse estado de coisas mudasse. Veja que a data de validade de produtos perecíveis aqui no Brasil é uma coisa bastante recente. Eu tenho 56 anos, e me lembro de quando era pequeno e ia ao empório e via aquelas latas, com comidas, totalmente enferrujadas, e à venda.Jornaleco: Quando você entrou na faculdade o que existia para você era a alopatia? Você era alopata? Como foi a mudança?
Cid: Claro. Antes de ser homeopata todos nós fomos alopatas. Porque a formação da Faculdade era, e é ainda hoje, alopata. Você é obrigado a prescrever remédios da alopatia. Nenhuma faculdade, infelizmente, permitia que se fizesse qualquer tipo de estudo de várias outras correntes naturais que pudessem estar aliviando o sofrimento humano. É isso que os alopatas têm dificuldade de entender: o que se busca é o alívio do sofrimento humano. Eu tive um colega na faculdade que, um dia, sentindo-se mal, com um peso na nuca, procurou o professor de Clínica Médica. Ele estava com um problema de pressão alta e o seu mestre disse assim: “você vai ter de tomar tal remédio para abaixar a pressão para o resto da sua vida”. Quando eu encontrei com ele, recentemente, aqui na Santa Casa, em São Paulo, ele me disse assim: “Cid, sabe quantos daqueles comprimidos eu tomei até hoje? Nenhum. Eu faço quinze minutos de meditação todo dia. Isso faz 30 anos”. Então veja, durante quinze minutos, diariamente, ele pára de pensar. O que é a pressão alta? Você se pressiona. Para ter pressão alta, você tem de ter um estado intenso de cobrança emocional interior. No momento em que você sai desse estado de pressão, você relaxa. Com a prática da meditação — poderia ser yoga — ele dispensou o uso do medicamento que o professor dele disse que ele ia ter que tomar para sempre.
E com as aulas e as idéias do Professor Maffei minha cabeça foi mudando. Ele falava sobre efeitos colaterais de remédios, ou seja, você receita um remédio que cura uma coisa, mas prejudica outra. Era um patologista, diferentementemente de um clínico, ele só fazia exames de células, anatomopatológicos, examinava os tecidos doentes e dava um diagnóstico. Escreveu um livro muito importante: “Os Fundamentos da Medicina”. O Maffei era um idealista, muito querido pelos alunos. Eu morava em uma república em Sorocaba e, freqüentemente, nós o convidávamos para almoçar e ele ia lá, almoçava junto com a gente. Tratava a gente de igual para igual. Eu acredito que a convivência com ele, com o idealismo dele, com a filosofia de trabalho dele, fez com que todos ali crescessem e aprendessem muita coisa, não só sobre medicina, mas sobre a própria vida. Desisti de fazer clinica médica, que tinha sido a minha primeira opção, e resolvi fazer ortopedia. A ortopedia é uma ciência quase exata, se a pessoa quebra um osso, você põe o osso no lugar, aí vem o processo de consolidação. Você faz menos uso de medicamentos. É um tratamento de reparo no qual o próprio organismo da pessoa se encarrega da regeneração. Então a minha idéia de fazer ortopedia, traumatologia, obedecia à esse pensamento. No sexto ano eu assisti à uma palestra na faculdade, dada pelo Alfredo Castro e Ana Kossak e aí tudo mudou, veio uma nova luz, uma nova opção, um novo caminho. Eles tinham um grupo de estudos de homeopatia aqui em São Paulo. Essa palestra foi numa terça-feira, e na primeira reunião que teve do grupo, depois da palestra, era uma quinta-feira, eu vim de Sorocaba para assistir. Então eu me encontrei com a homeopatia e pensei: “puxa vida, eles receitam medicamentos que curam sem intoxicar”.Jornaleco: E como foram os seus contactos com esse grupo de estudo?
Cid: Este grupo se reunia no centro da cidade de São Paulo, na Xavier de Toledo, no consultório do Alfredo Castro. Por incrível que pareça, no primeiro dia, apareceu uma médica, e quando ela entrou, todo mundo comentou baixinho: “ih...já chegou a velha chata...”. Mas como eu estou acostumado a olhar e analisar as pessoas com os meus próprios olhos e nunca com o dos outros , eu pensei: “deixa eu ver quem é essa mulher”. Ela começou a distribuir uns cartões e a dizer: “Olha, eu sou médica homeopata, quem quiser conversar sobre homeopatia e assistir alguma consulta minha, o meu endereço é tal”. E muitos dizendo: “essa mulher é chata”... Li seu cartão: Dra. Helena Minim, médica homeopata. Eu refleti: “bom, se ela disse que pode ir até lá e conversar, eu vou vê-la”. E no dia seguinte eu fui. Aí assisti algumas consultas dela. Ela me mostrou muitos livros, me ensinou muitas coisas sobre tudo. Helena foi responsável por fazer a Farmacopéia Homeopática Brasileira. Primeiro se formou em farmácia, e depois ela fez medicina. Falava cinco línguas, fora o português: russo, alemão, espanhol, francês, inglês. Era uma delícia estar junto com essa mulher. Ela estudou todas as farmacopéias homeopáticas do mundo pegando o que cada uma tinha de melhor para elaborar a brasileira. Ela era médica e farmacêutica e com tanto conhecimento ficou mais fácil fazer a nossa Farmacopéia. Eu sempre tive uma admiração e gratidão muito grande por ela. Desde o início ela começou a me ensinar homeopatia. Ela chegava, pegava o livro de botânica, abria e a gente começava a estudar o Pio Correia, que naquela época era uma das maiores autoridades de botânica no mundo. Virei assistente dela, ela me apresentava assim e eu assistia todas as suas consultas. Seu sistema de cobrar pelo seu atendimento era conforme o que o paciente podia pagar. Quando chegava um advogado ou um empresário o preço era o normal, digamos 150 reais hoje, se chegasse um jovem que trabalhava e estudava, era, digamos, 50. Lembro que se aparecesse uma pessoa que era realmente pobre ela atendia de graça e ainda escrevia uma observação na receita pra farmácia cobrar menos. Fui muito privilegiado de conviver com a Helena e ter sido seu maior discípulo. Seu nome sempre é sinônimo de competência, profissionalismo, inteligência, idealismo, coragem, amor à medicina, respeito e dedicação aos seres humanos. Pouco se fala sobre seu trabalho e sua obra no Brasil devido à sua maneira firme de se posicionar perante os profissionais que desrespeitavam o exercício da medicina e da farmácia procurando arrumar um jeitinho para exercer sua profissão fora dos padrões magistralmente elaborados por Helena.Jornaleco: Foi uma coincidência o seu irmão, Celso Paroni, também tornar-se homeopata? Ele também fazia parte desse grupo de estudos?
Cid: Eu comecei na homeopatia direto quando me formei, e dois anos após o Celso terminou a faculdade. Ele também estudou em Sorocaba e foi fazer patologia por influência do Professor Maffei. Ele estava satisfeito dentro de sua escolha quando o convidei para vir trabalhar comigo. Meu irmão também se apaixonou pela homeopatia. Passamos a estudar e trabalhar juntos. Nesta mesma época a Mara, esposa do Celso, foi convidada por ele para fazer parte desse time de homeopatas. Desde aquela época até hoje nós trabalhamos e permanecemos juntos.
Jornaleco: Hoje alguma nenhuma faculdade tem homeopatia em seu currículo?
Cid: Nos anos 80 o Alfredo Eugênio Vervrolet lecionou na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Atualmente não conheço nenhuma que ensine.Jornaleco: Por falar em Faculdade li em vários jornais sobre a falta de cadáveres nas escolas de medicina. Isso é mesmo um problema sério?
Cid: Em Sorocaba funcionava assim: cada quatro alunos dividiam um cadáver. Era pra gente dissecar. A prática da medicina é no dia-a-dia, você vê um cadáver para ter uma noção anatômica. Hoje eu não sei como está, mas imagino que com tantos recursos que há, visuais sobretudo, com tudo computadorizado, informatizado, com tanta simulação, com faculdades que utilizam robôs em aulas, em testes, eu creio que não. O importante é que nesses seis anos, nesse tempo de estudo, você tenha os seus mestres, os seus orientadores como estímulo para te ajudar a crescer. Lidar com a vida humana é muito delicado e o médico, para mim, deve estar mais preparado para isso. Acredito que deveria haver um acompanhamento emocional de todos os estudantes de medicina durante os seis anos de faculdade. Você tem que ter um entendimento, uma sensibilidade, uma compreensão muito grande de como funciona o pensamento humano.
Jornaleco: A farmacologia alopata evoluiu nos últimos anos?
Cid: Sim, muito. De um modo geral na medicina tradicional existe um lado ciência e um lado comércio. Eu, no meu idealismo, penso que toda indústria de medicamentos, homeopáticos e alopáticos, deveria ser uma fundação. Acredito que é uma responsabilidade dos dirigentes dos países ricos e da ONU proporcionar o direito a todo ser humano de ter acesso a um tratamento gratuito. Quando um medicamento vira exclusivamente possibilidade de lucratividade, isso me incomoda. No decorrer de 32 anos como médico, eu já vi muitas vezes a indústria farmacêutica voltar atrás nas estatísticas que elas nos haviam dado inicialmente: ...“porque aquele medicamento a eficácia dele é menor...os efeitos colaterais são maiores”... Então o interesse comercial passa a ser maior do que qualquer outro, o benefício financeiro vem em primeiro lugar.
Antes de ser homeopata eu fui alopata, aliás, todos foram.
Jornaleco: A maior crítica à alopatia seriam os efeitos colaterais?
Cid: Quando você tem um sintoma, o homeopata encara esse sintoma como um alerta de que de alguma forma o seu organismo está manifestando algum protesto e faz com que surja alguma doença. O inconsciente está tentando dizer que alguma coisa está ruim. Hoje, a medicina tradicional, leia-se: alopática, já admite mais de 150 doenças com origem comprovadamente emocional. Quando eu comecei a exercer a profissão, eu já acreditava nisso e dizia: “todas as doenças têm origem na emoção, todas”. Nesta época a medicina acreditava que apenas duas ou três se relacionavam com a emoção: gastrite, histeria, etc. A medicina tradicional procura apenas combater os sintomas: se você tem dor, receita-se um analgésico e se tem gripe, um antigripal. Esta é a principal diferença entre a nossa forma de curar e da alopatia. Quando você tem uma febre significa que, de alguma forma, existe algum invasor no seu organismo e o seu sistema de glóbulos brancos está combatendo esse processo, daí a febre. A cada grau que aumenta da sua temperatura duplica o número de anticorpos na corrente sanguínea. Se for uma infecção significa que se está brigando contra o agente infeccioso. Se eu abaixar a temperatura eu posso reduzir os glóbulos brancos que estão brigando com o agente infeccioso. A filosofia da homeopatia é o princípio do semelhante curando o semelhante. Se você for picado por uma surucucu, que é uma cobra venenosa, além da dor, do inchaço, etc, você vai ter ondas de calor, respiração curta, palpitações, como se estivesse na menopausa. Os últimos sintomas são de menopausa. Mais acentuados, mas são. Usa-se então o veneno da cobra diluído para quem tem esses calores muito intensos na menopausa. Diluído, bem entendido. Toda droga, segundo um princípio farmacológico tem efeitos diferentes conforme a quantidade administrada. A cafeína do café em doses fortes costuma despertar as pessoas dando-lhes mais ânimo e muitas vezes tirando-lhes o sono. Esta mesma cafeína, quando diluída, auxilia algumas pessoas, que têm dificuldade em conciliar o sono, a dormir, um efeito contrario do que apresenta quando em doses fortes.
Jornaleco: Como são diluídos os medicamentos homeopáticos?
Cid: A forma mais freqüente de diluir os medicamentos homeopáticos é quando eles se apresentam na forma líquida. Inicialmente você pega uma porção desse extrato da planta ou da substância química chamada de tintura-mãe e adiciona 99 partes de um soluto, que é geralmente o álcool. Conforme a substância pode haver uma mudança no solvente. Este é colocado em um tubo de ensaio e aí há um choque molecular entre o soluto e a tintura-mãe. Depois se pega de novo uma parte desse resultado e reinicia-se o mesmo processo de diluição. Até que se chegue ao resultado desejado. Isso com o veneno da surucucu, ou com qualquer outro medicamento. E concomitantemente, no tubo de ensaio, ao chacoalhar o produto, há um processo físico que se chama energização: você tem uma substância estática, em um primeiro momento, e faz com que ela se torne dinâmica, e ao se tornar dinâmica ela se modifica. Se você fizer uma pesquisa, e diluir um material de um pra cem, nove vezes, o princípio ativo desaparece.
Jornaleco: Quem descobriu como funcionam esses processos homeopáticos?
Cid: Foi Samuel Hanemman, um médico alemão. Em uma das suas traduções de um artigo de medicina ele viu essa diferença entre a concentração e seus efeitos sobre o corpo humano. Aí ele teve um insight e disse assim: eu posso diluir o medicamento. Aí ele viu que uma dose diluída dá um efeito contrário, semelhante a uma vacina.
Jornaleco: A maioria dos medicamentos foi catalogada pelo Dr. Hahnemann?
Cid: Hahnemann foi responsável por catalogar a maioria dos medicamentos hoje empregados dentro da homeopatia. No início muitos experimentos feitos com novos medicamentos foram testados nas próprias filhas de Samuel Hahnemann. Sempre nos testes realizados com a homeopatia eles são realizados em indivíduos saudáveis. Até hoje existe uma possibilidade imensa de utilizar novos princípios ativos, que depois de serem aplicados em doses fortes em pessoas saudáveis, serão diluídos posteriormente para serem utilizados na cura dos doentes que apresentem estes mesmos sintomas da intoxicação experimental. Este é o princípio que rege a homeopatia: a cura pelo semelhante e que foi preconizado pelo famoso médico grego, Hipócrates – o pai da medicina – que viveu 400 anos antes de Cristo.Jornaleco: Foram feitas diversas farmacopéias no mundo todo, ou existe uma universalidade dos remédios? Por exemplo, o Lachesis vem de uma cobra que só existe no Brasil: a surucucu. Como se dá a correspondência do Lachesis lá fora? ou da Cantárida aqui no Brasil?
Cid: Cada país tem a sua farmacopéia e as vezes divergem um do outro aspecto com relação ao preparo de algumas tinturas. Com relação à preparação dos medicamentos, a dinamização é a mesma. Quanto aos remédios apresentados nas farmacopéias de qualquer país são os mesmos. Lachesis é um medicamento original do Brasil assim como a Thuya officinalis tem origem na Europa o que deixa a homeopatia universalizada.
Jornaleco: Quer dizer que se você me prescrever uma receita contendo Lachesis, eu posso aviar em uma farmácia da Alemanha ou do Japão?
Cid: Exatamente.
"Todos os processos de extremos sempre me preocupam muito. Na verdade, o que me interessa é o benefício que a pessoa possa ter em qualquer linha de tratamento".
Jornaleco: Há duas correntes distintas na homeopatia: a pluralista e unicista. Me fale delas.
Cid: Há médicos que acreditam que um único remédio homeopático já é suficiente e outros, que é o meu caso, fazem associações. Às vezes eu também associo remédios alopatas junto, porque é necessário. É importante ressaltar que antes de sermos homeopatas, nós fomos, ainda somos, alopatas. Todos os processos de extremos sempre me preocupam muito. Na verdade, o que me interessa é o beneficio que a pessoa tem.Jornaleco: Quais as doenças que respondem melhor ao tratamento homeopático?
Cid: As infecções de modo geral, baixa imunidade, distúrbio gastrointestinais, cólicas menstruais, dores de cabeça, enxaqueca, amigdalites de repetição, distúrbios do fígado e da vesícula biliar, menopausa, impotência, sinusite, herpes simples e zoster, acne, diarréia, corrimento vaginal.
Jornaleco: E quais não respondem?
Cid: Câncer terminal, AIDS, esquizofrenia. Em algumas doenças venéreas complementamos o tratamento com antibióticos. Sempre numa situação de doença física há um desgaste emocional enorme e uma medicação homeopática vem sempre contribuir com medicamentos que melhoram as condições psicológicas do paciente.
Jornaleco: É verdade que as vacinas, em geral, têm muitos efeitos colaterais?
Cid: Sim eles existem e mesmo assim eu recomendo seu uso. Existem alguns homeopatas que são contra as vacinas. Eu sou partidário de se imunizar as pessoas. Eu acho muito responsabilidade um profissional chegar e dizer: você não vacina nada, nem contra a paralisia infantil.
Jornaleco: O Dr. Ricardo Veronese, infectologista, quando foi Secretário da Saúde do Município, disse que 90% dos casos que passam pelo Hospital das Clínicas poderiam ser tratados com homeopatia. Inclusive ele chegou a acusar o governo de jamais ter montado uma política homeopata nos hospitais públicos.
Cid: Eu concordo com o Veronese. Eu acho que o médico tem de trabalhar com a arte de curar — e a arte de curar é ampla —, de preferência com medicamentos com menos efeitos colaterais possíveis. E para isso você tem de mudar a mentalidade da cultura médica brasileira. Por exemplo, é comprovado que a yoga tem efeitos benéficos sobre a saúde da pessoa. E o acesso a esses caminhos tem de ser franqueado. Houve uma época em que a indústria farmacêutica foi pressionada por ter sido encontrada farinha misturada a alguns medicamentos. Imediatamente essa pressão foi desviada para os florais do Dr. Bach. Que viraram os vilões da história da medicina. Fizeram grandes campanhas contra os florais. Entravam em farmácias homeopáticas e confiscavam os kits de florais, como se tivessem pegando uma droga perigosa, uma cocaína, um ácido lisérgico.
Jornaleco: A homeopatia consegue tratar doenças mentais graves, como a esquizofrenia?
Cid: Não. Você consegue ajudar pessoas que apresentam sintomas de tristeza, autistas, pessoas que têm estados depressivos, medos, fobias. Mas com a esquizofrenia eu nunca tive resultados satisfatórios.
Jornaleco: Existe uma relação entre espiritualidade e homeopatia?
Cid: O que acontece é que existem sintomas de origem emocional que o homeopata pesquisa em qualquer consulta. Os medicamentos homeopatas vão mexer dentro da pessoa, na sua essência. Por ela ter essa profundidade, acaba às vezes correlacionada com religião. Religião quer dizer: religar-se com o Eu Superior. Na verdade eu acho que a homeopatia é religar a pessoa com ela mesma. Então ela faz essa ligação emocional sua com a sua saúde, com a alegria, com a vida, com o Deus que habita dentro de si e por isso é encarada por algumas pessoas como ligada à uma religião.
Jornaleco: Algumas pessoas contestam a ação da homeopatia devido à falta de comprovação científica dos seus efeitos, isto é verdade?
Cid: Durante muitos anos utilizei a homeopatia baseado nos princípios farmacológicos da própria medicina e era contestado. Os resultados sempre favoráveis à cura da maioria das doenças fez com que esta ciência permanecesse viva durante mais de 200 anos. A homeopatia é uma verdade curadora eterna. Hoje existe um trabalho científico realizado pela bióloga Dorly de Freitas Buchi com 300 pacientes portadores de HIV que após seis meses tiveram 100% de melhora na resposta imunológica. Alguns deles inclusive zeraram sua carga viral. Este medicamento homeopático age no sistema imunológico ativando os macrófagos e os linfócitos CD4, células de defesa que controlam o equilíbrio do organismo, e que são destruídas pelo HIV.
Jornaleco: Existe algumas ações da homeopatia nos atendimentos com a população geral?
Cid: Tem muitas ações realizadas na área de Saúde Pública. Nos anos de 1960 a 1963 o médico José de Schembri realizou e executou uma campanha gratuita e contou com o apoio cultural e financeiro da Dra.Helena Minin que, de uma maneira fraterna, viabilizou a manipulação farmacêutica. Este homem criou 130 postos nas vilas pobres e favelas de Belo Horizonte onde a população tinha acesso ao medicamento cientificamente elaborado por Schembri. Esta fórmula composta por três remédios homeopáticos foi registrada com o nome de Gastroenterina. O resultado da aplicação do medicamento preventivo e curativo foi extraordinário. A ponto do Dr. Schembri ser homenageado no Congresso Brasileiro de Homeopatia (1963) e receber o prêmio chileno Dr. Alberto Hochstetter no Congresso Latino Americano (1992). Outro trabalho que gostei muito foi realizado pelo homeopata Renan Marino com uma fórmula com três medicamentos usados em São José do Rio Preto (2001) com resultados altamente favoráveis obtendo a diminuição da epidemia de dengue. Isto ocorreu no bairro Cristo Rei e devido ao sucesso do tratamento foi realizada a utilização deste preparado na província Camaghey (Cuba) em 2006. A Dra. Nancy Cabrera Lopes do Ministério da Saúde Cubano disse que a resposta terapêutica desta fórmula teve uma ação pronta e eficaz no controle da epidemia da dengue clássica e da febre hemorrágica. Estou utilizando e divulgando esta fórmula de imunização em massa em creches assim como na minha clínica usando com todos pacientes. Orientei muitos médicos alopatas abertos a uma nova idéia, conscientes do valor da homeopatia para poder utilizar esta fórmula preventiva e curativa com seus pacientes.
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