Pedro
Ultrapassara pela quinquagésima terceira vez o signo de Leão. Perdera a pressa. Depois de reencontrar e se reconciliar com Marcos, seu filho, Pedro não sentira mais a urgência dentro da alma. Agora a vida corria de maneira mais uniforme, pensava, e estaria aberto para o que de bom ela pudesse lhe trazer.Deixara de ser um andarilho à busca do maldito colar, e construíra, ele mesmo, uma edícula nos fundos do terreno onde Marcos, que estava noivo e pensava em se casar no ano vindouro, fizera sua casa. O terreno, que estava sendo adquirido por Marcos à custa de infindáveis prestações, servia agora também para o pai erguer seu abrigo, enquanto sobrevivia de pequenos serviços, bom artífice que era. Pedro complementava as rendas do filho também, e assim conseguiam levar suas vidas de forma independente, mas com colaboração.
Lição difícil, Pedro tentava sempre respeitar a independência que o filho conquistara. Era o seu orgulho. Afinal, saíra rapazola de casa, em condições terríveis, com o pai injustamente lhe pondo o dedo em riste, culpando-o pela morte da mãe. Admirava a natureza do filho que, com tudo explicado, tivera a capacidade de perdoar, e mais que isso, reatar com o pai a ponto de resgatar os melhores momentos que viveram na infância, quando eram inseparáveis, se fazendo agora bons companheiros, num pacato dia-a-dia. Pedro realmente não tinha que ter pressa. A vida, enfim, sorrira para ele, depois de um período longo e nebuloso, onde foi posto a toda espécie de provas, qual Jó.
Poucas vezes com eles falei depois do episódio do Passaúna. Os caminhos não se cruzaram mais. Pensei ser como daquelas vezes em que a Irmandade atua e depois se desliga, sem mais. Não era. Caberia a ele me ensinar uma lição.
Lia procurara Renata, avisando que passaria um período em São Paulo, a fim de organizar a sua vida, que há muito estava cercada de tormentos. E assim fizera. Ela, talvez por não conseguir mais esperar que a porta certa se lhe abrisse, seguira, trôpega, em direção ao primeiro banco que se apresentou para descanso. Puro engano. O banco não tinha onde se recostar e uma de suas pernas era bamba. Lia continuava com a urgente necessidade de se equilibrar. Sabia que outros caminhos deveriam ser seguidos, no entanto ela não soubera ouvir. Parecia que se acostumara aos seus conselhos dos entes nos momentos difíceis, a ponto de não mais saber tomar as decisões graves por seus próprios meios, ou melhor, de depender apenas de seu arbítrio. E essa lição a própria vida teria que lhe dar. Acredito que era isso que estava acontecendo com ela, mas me era difícil falar com Lia. Perdêramos o contato, desde que ela empreendera viagem, a serviço de uma organização não governamental de defesa de não sei o quê no interior do Paraguai. Lia, por mais que tentasse, não conseguia se estabilizar, para poder crescer. E estava na sua hora. Era agora que ela tinha que ascender. Mas antes deveria aprender algo sobre si mesma: fazer escolhas, e a saber esperar pela oportunidade de optar pelas certas.
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Encontro Pedro enquanto cruzo o Largo Frederico Faria de Oliveira, em direção à Biblioteca. Eu o cumprimento e pergunto como está sua vida. Ele responde me contando como estava se adaptava com Marcos, e comenta estar voltando da Biblioteca Pública.
— Está pesquisando algo importante, Pedro?
— Sobre a mesma coisa.
— ...?
— Sobre o colar, Luca. Você sabia que ele também tinha poderes de cura para certos males? A minha futura nora está com problemas no olho direito, e caso se agrave pode até perder a visão.
— Puxa, sinto muito saber disso, Pedro. Ela está fazendo algum tratamento?
— Parece que o caso dela não tem muito o que fazer, a não ser tentar minorar o problema. Estava na biblioteca pesquisando sobre a doença dela, quando não resisti e fui ver se havia algo mais sobre aquele colar. E descobri que ele poderia ajudar a Marcos, então pensei....
— Pensou em que?Indago a Pedro de forma a antecipadamente reprovar o pensamento de tentar resgatar o Colar do lago do Passaúna, que a muito custo conseguimos arremessar naquela tarde horripilante, quando finalmente ele conseguiu se livrar da maldição e reencontrar seu filho.
— Ah, nem sei o que pensei, Dr. Luca. Melhor esquecer. Apareça lá em casa comer um pinhão na chapa, o fogão à lenha é muito bom.
— Está certo, Pedro, marcaremos um dia. Até mais.Eu me despeço dele, mas fico indagando, de mim para mim, se ele realmente seria capaz de ir atrás do colar. Preferi achar que não, mas a dúvida persistia, em meu íntimo. Terminei deixando o assunto de lado, preferindo me ater às preocupações do dia: os prazos, as pesquisas, o resultado do levantamento que Cléia ficara de fazer no escritório. O frio e a chuva, que quando chegavam juntos a compor o rigor do inverno curitibano, com a umidade penetrando nas casas e deixando carrancudos seus habitantes, traziam também consigo a beleza ímpar dessa cidade a se revelar na sua cor cinza entremeada com as cores do vestuário da estação. Perco-me nesses pensamentos, ao mesmo tempo em que organizo o dia.
Três semanas se passaram, e as preocupações também. Chego no meu prédio e me deparo com Lia e Renata, ansiosas a me esperar. Surpreso, pois sequer sabia que elas estavam em Curitiba, as cumprimento, manifestando minha alegria por reencontrar Lia. Mas logo a seguir sou interrompido por Renata, quando esta indaga:
— Não tenho tempo para explicar. Você tem uma marreta em casa?Casualmente havia uma marreta, usada na reforma do apartamento quando fiz uma janela da parede da cozinha para a sala, formando uma espécie de balcão, onde eu fazia minhas refeições rápidas. Conhecendo o ímpeto e as urgências de Renata, afirmei possuir uma no apartamento. Convidei-as a subir, no entanto elas dizem preferir aguardar em frente ao prédio. Quando retorno com a marreta Lia me pergunta:
— Sabe ir até o Passaúna?Gélida sensação me percorre a espinha. A um só tempo me vem a recordação da tarde em que arremessei o colar e a conversa que eu tivera com Pedro no mês passado. Pedi explicações, e Renata pediu que as levasse até o Parque, que no caminho explicaria. Entramos no carro, e elas se puseram a me contar tudo que ocorrera.
Lia havia contado a Renata como ajudara alguém a se infiltrar numa seita, em São Paulo, a fim de que certo talismã lhes fosse subtraído, pois havia sido aconselhada pelos entes a socorrer a um andarilho. Era Pedro. Com a história Renata logo o identificara. Não soubéramos disso à época porque ela estava em viagem, mas ela conhecia Pedro e o havia ajudado em sua empreitada. Pouco antes de chegar a São Paulo, Lia por três dias sonhara com o talismã, que se lhe apresentava como um colar, sem que Pedro lhe tivesse mencionado de que talismã se tratava quando esta o ajudou. No sonho, o colar ressurgia na forma de uma bola de fogo, poderoso e maligno, e uma voz lhe dizia que a Irmandade deveria ir até o lugar onde o talismã havia sido depositado, para dele se apossar e destruir, desfazendo-o em mil fragmentos. Contei-lhes, assombrado, a conversa que eu tivera com Pedro. Elas me dirigem um olhar de urgência. Acelero. paro no estacionamento do parque.
Fechamos o carro e seguimos a pé, no caminho de saibro. Renata com a marreta na mão. Descemos em direção à prainha do lago, mas no meio do caminho nos deparamos com Pedro e Marcos subindo em passos apressados, amparando como podiam uma jovem cambaleante, de cabeça baixa e capuz, ambos estampando pânico nas faces. A moça gemia e se contorcia. Reconheço-os imediatamente. Interpelo-os, e Marcos balbucia:
— O colar cegou minha Mirna!Pedro me dirige um olhar de culpa, como se esperasse de mim um gesto de compaixão. Compreendi o que ele tentara fazer e lhe neguei este olhar. Às vezes é necessário que as pessoas carreguem as próprias culpas até que tenham delas extraído a lição devida. O bálsamo poderia ficar para depois. Coisas mais urgentes se faziam necessárias naquele momento.
Auxiliando como podíamos, fomos até meu carro e rapidamente chegamos à casa de Marcos. Deitamos Mirna sobre a mesa da cozinha. Ela se contorcia de dor. Marcos a consolava. Eu e Pedro evitávamos que ela esfregasse as mãos no rosto e nos olhos, imobilizando-a. Renata e Lia preparavam no fogão à lenha uma infusão, com ervas que Lia sacava de sua enorme e inseparável bolsa. Embebem um pano na infusão. Renata segura os ombros de Mirna. Lia repousa o pano sobre os olhos da moça. Esta dá um grito descomunal, e com força sobre-humana, empurra a todos e senta-se sobre a mesa, com o rosto todo contorcido. A seguir desfalece, os seus sinais vitais se reduzem ao mínimo. Marcos a ampara. Nos entreolhamos. Renata toma a frente e determina:
— Marcos e Lia, levem-na para um quarto escuro e não desgrudem dela um momento sequer. Nenhum dos dois. Caso ela desperte evitem que ela faça qualquer movimento brusco, ela pode se machucar. Nem que para isso tenham que amarrá-la, está certo?
Ambos sinalizam afirmativamente. Lia por compreender, e Marcos por estar disposto a fazer qualquer coisa para que Mirna se recuperasse. Em seguida, Renata indaga a Pedro onde estaria o colar. Ele tira do bolso o saco imundo e meio decomposto onde estava o colar quando este foi atirado ao lago e o estende. Renata abre um outro saco de pano, com trama acurada e algumas inscrições, e ordena que o deposite ali. Ele obedece. Ela então olha para mim e para Pedro e diz:
— Vamos. Temos algo urgente para terminar.Eu sabia exatamente o que se passaria, mas pelo desenrolar dos acontecimentos a Pedro as coisas não estavam tão claras. Entramos no carro e voltamos ao parque. Seguimos o caminho até a prainha do lago. Estava ventando e frio, razão pela qual o parque se encontrava deserto. Eu levo a marreta. Renata o saco com o colar. Pedro vigia. Nenhuma palavra é dita. Um lagarto, sobre uma pedra ainda quente do sol, nos observa.
À beira do lago existem umas pedras. Sobre uma delas Renata deposita o colar. Olha para mim. Sei o que fazer. Reúno todas as minhas forças e concentração, e ergo sobre minha cabeça a marreta.
Nesse mesmo momento, Mirna, olhos vidrados e saltados, num ímpeto se senta na cama, estica as mãos e grita:
— Parem! Não!A marreta desce inexorável em direção ao saco que contém o colar.
Mirna se levanta, embora Lia e Marcos tentem, em vão, detê-la.
Como em transe, Pedro ali reproduz o comportamento de Mirna na casa, atirando-se na frente de Renata e colocando sua mão direita entre a marreta e o colar, no exato instante em que esta o atingiria.
Não pude me deter. A pesada marreta atinge em cheio as costas da mão de Pedro, que urra de dor ao ter seus ossos moídos com o impacto.
A situação não poderia ser mais caótica. Na casa, Lia e Marcos conseguem fazer com que Mirna fique na cama, embora esta se debata e profira toda a sorte de impropérios. À beira do lago, Renata fala entre os dentes para eu acabar logo com aquilo, enquanto amparava a Pedro, envolvendo com a manga que arrancara do próprio casaco a mão destruída e disforme do pobre homem. Eu repito a operação, e desço a marreta com toda a força, sentindo o colar se esmigalhar dentro dele. Ouço um uivo assustador vindo da mata. Repito a operação, fazendo com que por mais duas vezes a marreta atingisse o pequeno saco, moendo seu conteúdo, sem que, com isso o saco também se rompesse.
Renata então pede para que eu socorresse a Pedro, que delirava de dor. Ela acende uma vela ao abrigo das pedras, sobre um pano que traz o símbolo da Irmandade, toma o saco em suas mãos e entra no lago frio a passos firmes, sem hesitar, até que a água lhe cubra até a cintura. Abre o saco, desamarrando o barbante. De costas para a margem, faz movimentos em semi-círculo, deixando que os fragmentos do colar sejam arremessados pelo lago, separadamente. Terminando a operação, olha fixamente para a mata próxima, onde se identificam movimentos das folhas, e retorna para a margem. Queima o saco com a chama da vela, que também arremessa ao lago, e recolhe o pano com o Símbolo. Cobre-se com o casaco, que agora está sem uma manga. Vem até mim e carregamos Pedro, quase desfalecido, para o carro, seguindo direto para o Hospital Evangélico. Enquanto subíamos o caminho de saibro, uivos e latidos nos fazem olhar para trás, e vejo, enojado, que alguns cães sem dono, negros e sarnentos, disputam, na margem oposta, um pedaço qualquer de carniça.
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Mirna mergulha em sono profundo, do qual acordaria apenas trinta horas depois, mas recuperada da cegueira completa e das dores que o colar haviam lhe causado. Pedro já estava em casa, com a mão imobilizada e ciente que não haveria meios de recuperar seus movimentos. Talvez ela tivesse que ser amputada, e assim aconteceu. Uma prótese lhe servirá esteticamente, mas não lhe devolverá as habilidades de artesão das quais tanto se orgulhava.
Pedro arcara com o ônus da própria ousadia, ao tentar se valer de forças que ele mesmo não compreendia. Ele não soubera fazer a escolha. Desprezando os perigos, quis satisfazer uma ambição sua. Por nobres motivos, mas um desejo seu, e por tal razão deixou que a ilusão o dominasse, permitindo que as forças da escuridão tivessem a sua vingança.
Às vezes se perde. Quando uma lagartixa se põe em situação de perigo, permitindo a aproximação do predador, desprende sua cauda, para salvar sua vida. Quisera o destino que fosse assim. Mirna, Pedro e Marcos são pessoas que tiveram seus destinos cruzados na infindável luta, e que por ela tiveram seus caminhos alterados, ao compartilhar a dor da cauda que se separa para escapar do perigo.
É preciso saber fazer as escolhas certas.