O mistério da noite sagrada


 

Olgierd Sokolowski


 

Numa manhã do princípio de dezembro de mil novecentos e oitenta e nove, ritualmente, abro a porta do apartamento, e pelo lado de fora penduro o arranjo natalino, a indicar o início desta nova fase do ano. Eu sabia não ser o primeiro, nem o último, a realizar aquele ritual. Fazia-o consciente que estava nada mais a repetir senão o gesto de meus ancestrais e, sonhava, seriam repetidos por meus descendentes.

Atrás daquele símbolo estavam ainda outros símbolos. Atrás da palavra Natal escondiam-se centenas de lembranças de um povo. Atrás e somando com o Natal da Cristandade, tinham-se cada um dos emblemas que os fizeram resistir às velhas e recentes intempéries da História. E havia as crendices – e a sabedoria – de nossos avós. Aprendi assim a amar a Polônia, desde pequenino.

O espírito do Natal já batia à minha porta no começar do dezembro. É a minha preparação, pois esse Natal seria diferente de todos os outros natais. Eu o passaria comigo. Apenas comigo. Esses eram os planos. Meus planos.

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O mundo vai acabar. Não haverá outro ano. O ciclo envelheceu e o futuro acaba agora, e volta-se ao nada. Tudo se perde. Os Senhores dos Céus e da Terra não se compadecerão, pois não terão o que precisam do mundo para que se faça uma nova primavera, um novo verão, uma nova colheita. É o fim do ano, é o fim da vida, é o fim do mundo. É o fim do ciclo. O esgotamento das forças vivas da Terra.

Era no que se acreditava há muito tempo, há mil e quinhentos anos, antes do cristianismo chegar à Polônia. Era assim a cada vez, a cada inverno.

Tinha-se então que se tomar severas providências para que o ciclo se renovasse, o que somente se alcançaria através de rituais que os fizessem retornar às origens, ao momento da criação.

Desfazer o já antigo, dando espaço para o novo. Celebrar a vida incansavelmente, para que ela não faltasse. Repartir o pouco, para que a abundância se fizesse presente. Comungar com os animais e as plantas, para que perdurassem. Confraternizar com os seus, para que não se dispersassem. De todo modo proteger-se do mal, que deseja o fim e o fracasso.

Por conta desse pensamento as aldeias se cobriam de festa. E de misticismo. E as práticas mágicas se faziam presentes, a precipitar o fim de um ciclo, e assim permitir o nascimento de um novo.

Sob rigoroso inverno, na noite considerada sagrada, em cada um dos lares precisava-se festejar a vida para fortalecer a magia daquele momento especial. Como deveria ser assim, a casa era previamente preparada, ornada com os símbolos que lhe tornassem digna do que estava para acontecer. Isto se fazia trazendo, dias antes, para seu interior, um feixe de trigo e palha, que depositava-se em um canto especial da casa, que era enfeitada com ovos pintados e correntes de palha coloridas, e assim logravam trazer para aquele lar a força da natureza primaveril.

A mesa da ceia era o centro de toda essa magia da noite esperada. Nela se colocavam vários objetos, a fim de fazerem-se presentes as benesses da vida. Ornavam a mesa o pão e o dinheiro, e também o feno, a palha e os cereais, e desta forma acreditava-se que cada um desses elementos conferia seus poderes aos víveres que comporiam tão especial refeição, preparados com os frutos do campo – os cereais, e da horta as folhas verdes. Da água se trazia o peixe, e dos bosques os frutos e raízes e o mel. Para se beber, a compota de frutas secas e o álcool. Não se sacrificavam animais da terra, para comer-lhes a carne, nessa ocasião. Mas não poderia, jamais, faltar o ovo, poderoso símbolo da vida e da fecundidade.

Uma vez a mesa preparada, nela colocavam-se os diversos pratos a serem servidos, elaborados sobretudo com os peixes, cereais, hortaliças, leite, manteiga, requeijão, sementes de papoula, mel, nozes e maçãs, tudo reunido para essa solenidade. Nada deveria faltar à mesa. Cada um desses alimentos tinha sua própria magia, ao qual se somariam os poderes dos elementos decorativos que junto a eles foram apostos.

Tomavam nessa noite seu lugar, juntos, à mesa, os homens e as mulheres, as crianças e os velhos, os senhores e seus servos. Todos que habitavam o mesmo teto, as mesmas terras. Assegurados estavam os lugares a todos, vivos e mortos, pois para estes últimos deixava-se preparado um lugar à mesa, a simbolizar o seu assento. Era a reconciliação com o mundo.

O ritual atingia seu ápice com o ato de trocarem os comensais, entre si, antes da ceia. Pedaços de uma massa muito fina, feita unicamente do trigo mais puro, por três vezes peneirado, passando pelas três peneiras, cada uma de trama mais densa que a anterior.

Ao trocar seus nacos da massa, a cada vez ofertavam seus votos de vida, saúde, felicidade e opulência. Cria-se que se ingerida na Noite Sagrada, esta massa tinha o poder de afastar todo o mal, além de atribuir, a quem a comia, vida, fertilidade e abundância, os atributos do pão, de quem fazia as vezes nessa hora. Efetuado o ritual entre os convivas, estes seguiam para os estábulos, quando os pedaços desta mesma massa eram atiradas ao gado, pois a natureza também deveria compartilhar do banquete mágico, pois assim lhe retribuiria a homenagem.

Regressavam, então, à casa, e era dado início às festividades. O banquete iniciava, a alegria contagiava a todos, depois a dança, e assim se demoravam naquela confraternização. Após, e no outro dia, os restos eram distribuídos aos pássaros e aos animais, para que aquela magia se multiplicasse tanto quanto os pássaros do céu e os animais da terra.

Nos dias seguintes, do grande feixe de trigo e palha eram feitos menores, que deveriam ser amarrados às árvores para que estas continuassem a dar muitos frutos. Cumprido o ritual do lar, as pessoas saíam para se encontrar com as demais famílias da aldeia, e se desejavam felicidade e prosperidade, quando punhados de aveia eram espalhados na entrada das casas e nos campos, para trazer fartura, além de praticarem-se muitos rituais para que os solteiros do lugar logo encontrassem seu par.

Mas a tarefa não estava terminada. Grupos se reuniam para fazer travessuras, como pregar, à noite, as portas das casas para obrigar, no dia seguinte, seus moradores a sair pela janela, esconder objetos de uso corriqueiro nos telhados, vestir-se e agir de forma inusitada, tudo para semear a confusão, subverter o velho, promover o caos para dar lugar ao novo.

Quando finalmente o novo ciclo se fazia anunciar, promovia-se nova ceia, entre os do lar e seus vizinhos, quando também se servia a carne, como que antevendo a opulência, e se lhe dava boas-vindas com festas e alegria.

Nos outros dias começavam as andanças pelas terras: homens e mulheres fantasiados de animais e seres estranhos, simbolizando a transição. E assim se vencia a grande luta, e o mundo não mais acabaria, e a vida se renovava.

Com o passar dos ciclos, a menos de meio século do advento do primeiro milênio da nova era, a Polônia se converteu ao Cristianismo e à língua escrita, e muito dessa riqueza se incorporou à nova cultura que se sedimentava. A Noite Sagrada se converteu em Natal, o feno passou a ser o símbolo da manjedoura e o ovo a vida nova do cristão.

A massa fina do mais puro trigo se converteu em hóstia (Oplatek), e assim é até hoje compartilhada na ceia da véspera de Natal.

As brincadeiras da Aldeia passaram a homenagear Santo Estevão e Ano Novo é o novo ciclo, estendida a sua festa até Dia de Reis, quando se promovem as andanças pelas terras. Uma nova concepção, e uma nova compreensão do Universo se apresentou. E a Polônia a abraçou com o mesmo fervor.

De tudo aquilo, desde a primeira das aldeias, muito se trouxe até hoje, algo se escondeu entre uns poucos, e outro tanto se perdeu na neblina do tempo.

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Primeiro, o enfeite da porta. Isto estava pronto. Ele é quem deve anunciar a proximidade desse novo ciclo, da renovação. Um círculo de palha entremeado por uma fita verde, outra vermelha e um fio dourado. Um sino pendurado em seu interior, para anunciar a chegada de um novo tempo. O pequeno pinheiro de mesa, enfeitado com globos natalinos, pães de mel e estrelinhas, dá ao apartamento a lembrança devida da época.

A noite de Natal se aproxima, saio à cata dos ingredientes necessários para a ceia que decidi preparar. Tudo está certo. Dedico o dia aos últimos preparativos. O que não fiz, encomendei e fui buscar. Mergulho de corpo e alma nesse projeto para mim mesmo, sob protesto daqueles que ouviram minha recusa em participar da ceia de natal em família. Sentia um forte desejo de buscar as minhas origens, precisava executar a minha peregrinação interior. Pretendia me dar esta Noite Sagrada.

E ela finalmente chegou.

A casa pronta e a mesa posta, para três, posto que além dos antepassados também simbolizei os vivos de quem eu me apartara, para melhor compreender o significado de tudo aquilo.

Terminara, há poucos dias, a leitura do livro de Michener, e me pus a pensar sobre o tanto do espírito polonês que sobreviveu. O tanto das histórias e dos tempos antigos. Após o apogeu do grande reino e da decadência, das três partilhas, as invasões, o nazismo e o comunismo, tanto da Polônia sobreviveu pela história muitas vezes obrigada a se escrever nas entrelinhas das composições de Chopin, do gênio de Mikolaj Kopernik, nos sonhos libertários de Tadeusz Kosciuszko, na literatura de Henryk Sienkiewicz, na obstinação de Maria Sklodowska-Curie, e na esperança dos milhões de emigrantes que partiram levando consigo essa grande herança. São muitas as riquezas conservadas, e entre elas a maior das batalhas: a luta para que o mundo não acabe no fim do ciclo, e este é um dos grandes mistérios vividos na hoje Noite Sagrada do Natal.

Pondero como este ano de 1989, que já finda, foi especial para a Polônia, que se liberta e se assume como nação livre, e assim percebi a esperança, vinda lá da terra longínqua, deixada com sofrer por meus ascendentes. O mundo não poderia acabar agora.

Percebo então que desde que me pusera à mesa não estivera só um minuto sequer. Entendo que era a mais concreta realidade que se espelhava nas duas cadeiras vazias que deixei ao redor daquela mesa, e num impulso recolho apressada e desajeitadamente as iguarias que preparara com tanto esmero, ou comprara cuidadosamente, levo-as para o carro e empreendo uma pequena viagem até a casa de meus pais, onde encontro a todos e estes me recebem com alegria. Ofereço os quitutes que trouxera para que também compusessem a mesa da ceia da Noite Sagrada do Natal, e recebo sorrisos.

Conseguira chegar na exata hora de compartilhar a hóstia, e percebo, emocionado, que haviam dois lugares vagos na mesa já posta por minha mãe.

Jamais voltei a me sentir só.