Luz e Sombras
O lusco-fusco do final de tarde espelha com perfeição a maneira como as pessoas se sentem quando é jogada a luz sobre as trevas, de repente, e aparecem monstros onde se imaginava o nada, ou então anjos.Escândalo é a palavra.
As pessoas nunca sabem reagir aos escândalos. Acovardam-se, encolhem-se em seus próprios conceitos de certo e errado, permanecem estanques à espera que alguém lhes diga o que pensar. Perambulam cabisbaixas pelas ruas, formulam conceitos apressados sobre o que é o belo e o feio, e erram, erram conceitualmente no que se refere à vida.
Desde sempre se teve a luz como revelando o belo, como sendo o belo. Ensinaram e ainda pregam isso nas Igrejas. Ensinaram e ainda reafirmam isso nas escolas e nas casas. Até nos livros encontramos essa idéia. A Luz é o belo, a sombra o feio.
Ledo engano. A luz não se restringe ao belo, é o real.
E quando a luz recai sobre as trevas, revela uma realidade tal como ela é, seja boa ou não. Não é a escuridão em si que é ruim, é a ignorância que ela oculta de uma realidade que pode não ser bela. E é esse choque de realidade que não se acostuma o ser humano, condenando inapelavelmente ante a primeira luz que revela um fato novo e inesperado, ou apegando-se indefinidamente num velho sonho que ruiu.
Existe uma latente dificuldade de reação que aprisiona as almas frente a um novo paradigma. E uma preguiça tamanha em rever os seus pré conceitos.
Por tal razão que falamos, por tantas vezes, dos seres das trevas. O são das trevas porque querem ocultar a sua natureza do mal, que se exposta à luz do sol do conhecimento tornam-se inócuas, posto que nem as criancinhas se emaranham em suas artimanhas. Entendem instintivamente que dali é que vem o mal. E fogem para fora de seu alcance. E se não fogem, atacam o mal com ingênuos chistes, pois despido da ilusão que o disfarça não pode mais causar o dano pretendido.
Mas a vida não se apresenta tão simples. Tantas vezes a cantilena infantil de que “nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai” se faz presente, e se tropeça em ouros de tolo. Ora se confunde com ouro a pedra sem valor ou qualidade, ora se apregoa a queda da árvore robusta pelo simples balouçar de seus galhos ante um vento forte. E a realidade que se mostra não é assim. Mas antes ela, realidade dura, que a folia do oculto, onde imperam as mentiras e as ilusões de um mundo tacanho e vil.
O entardecer se anuncia no céu curitibano deste sábado de carnaval, nele se despedindo um sol que dias antes rareava. Luca, sentado em um banco no bosque do Papa lê o seu jornal. E espera que os leitores tenham a capacidade de mais se alegrar com a realidade que a luz revela do que maldizer a feia expressão do que estava oculto.