Esquinas

 


Olgierd Sokolowski

 



A crueza dos olhos de Larissa indicava que eu me enganara, anos atrás. A conheci em meio ao curso de Direito. Viera transferida, e se mostrava frágil, carente, alma indefesa a necessitar proteção. Aparentava não saber ser só, necessitava companhia alheia para não se sentir abandonada pelo mundo. Sempre precisava de amparo. Sempre alguém a amparava. Por vezes fui eu.

Naqueles tempos, em que todos nós convivíamos superficial e amigavelmente, achei que a poderia auxiliar na reescrita de seu destino, cujas linhas não mais apontavam para desfechos bons. Se foi prepotência, presunção de minha parte? Não sei, mas diria que foi apenas ingenuidade.

Agora, porém, curso concluído e anos passados, eu podia muito bem compreender qual o sentido de tudo aquilo. Desejo de poder. Puro e simples desejo de poder. A qualquer preço. Às custas de quem quer que fosse. Sempre fora essa a verdadeira essência de Larissa. E vejo agora que ela fez vítimas alguns incautos.

E quantas Larissas há! Que não se pergunte quando e onde ela se perdeu. Poderia ter a resposta precisa, e para muitos, eu sei, possuir tal resposta poderia levar ao mesmo ponto de perdição.

Não entendo bem o porquê tantos se desgarram assim, tão facilmente, dos caminhos claros. Não sei mesmo o porquê de as pessoas procurarem tanto as respostas onde elas não estão. Desconheço as razões de se acreditar que, mergulhando nas trevas, teríamos o dom de suplantar as luzes, se estas, incessantemente, devassam a escuridão.

Em uma das conversas que tenho amiúde com Renata, a indaguei sobre isso, e me lembro bem da resposta que ela, após um curto silêncio, ma deu:
— Depende do que você vê, Luca.
— Como assim? Perguntei.
— Quando se olha para o céu, em noite límpida, se tem a ilusão de um grande manto negro, com pontos de luz, e assim se conclui que a escuridão é maior.
— Verdade... Confirmei, na ocasião, sem saber direito onde ela queria chegar, mas então ela concluiu:
— Mas o que vemos não é o todo. Não somos capazes de perceber que a escuridão nada mais é que pálida sombra da grande luz, da verdadeira fonte, você entende?

Acho que entendi. Ou melhor, percebi o que Renata tentava me mostrar, que era esta nova perspectiva de realidade, que deixa desnudos, em verdade, aqueles que optam por se manter ao abrigo das trevas, em troca da perda da sua própria luz.

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Eu vencera. A parte representada por Larissa tivera que arcar com grande ônus. O meu cliente se sentira, se não plenamente recompensado pelas perdas que tivera, ao menos devidamente desagravado. E isso me rendera bons honorários, prestes a serem depositados. Agora eu poderia avançar um pouco mais em direção aos meus pequenos sonhos. Só um pouquinho mais, mas já estava muito bom. Confesso que fiquei perturbado, contudo, com o olhar de Larissa quando, poucos dias depois, a encontrei no Fórum, e ela me disse, quase entre os dentes, que aquela não fora a última batalha. Algo de soturno escapava daquela afirmativa, e que indicava se tratar de batalhas outras, que não as judiciais.

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A Irmandade tem seus objetivos definidos, claros para os que a integram, e também para os que dela se aproximam imantados pela luz que irradia. Os seus passos, seguros, as suas precisas incursões, são barreiras erigidas contra o avanço do mal. É a sua vibração, e não seus membros, que tornam a Irmandade poderosa, pois sua origem, ancestral, e suas tradições, precedem à palavra escrita. As palavras, quando não contidas, mais nos embaralham a compreensão do que esclarecem. O que importa são os signos secretos que carregam. Converter a Irmandade em palavras numa tábua seria reduzi-la em seu esplendor.

Não se escolhe pertencer à Irmandade. A ela somos chamados por possuirmos atributos, muitos dos quais sequer temos plena consciência antes de iniciados, mas somente depois, quando os podemos operar voltados para a Luz, e nessa cadeia de pensamento vibramos, unidos pela identificação cósmica e pelos propósitos. Nossas vidas seguem iguais, quando não pontuadas pelas tarefas ou desafios que nos são apresentados, e por sutis chamados nos alertam sobre os combates que se avizinham. Por vezes interiores.

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Quase quatro meses do último encontro, e sou surpreendido pelo telefonema de Larissa. Súbito me vem à lembrança a ameaça velada. Ela, contudo, com a delicada doçura de outrora, a que hoje assemelho a de uma serpente a deslizar em relva úmida, vem se desculpar pela forma fria como teria me tratado em nossa última conversa e, relembrando os tempos de Faculdade, tenta recuperar aquela imagem antiga, na qual eu não creio mais. Depois de muitos rodeios, passou a falar de lucrativas ações judiciais, e então me convida para um almoço na sexta-feira, que levaria alguém consigo, alguém sobre quem fez grande mistério, mas que ela tinha certeza que teria muito a oferecer em troca de meus serviços. Devoção foi a palavra que ela usou, e depois corrigiu para “grande dedicação”. Surpreso com a inusitada proposta, aceito o convite, deixando que ela marcasse o local.

A semana não transcorrera bem. Eu recebera notícia de falecimento de um primo querido em tristes circunstâncias. Também deixara de fechar um bom contrato. As contas venciam e os honorários, já ganhos, não entravam na conta. Bateram no meu carro, estacionado, e eu tinha a porta por desamassar. Tropecei numa pedra solta do pavoroso calçamento de “petit-pavet”, na Rua das Flores, a ponto de rasgar o couro do meu sapato favorito. Algo que eu comera não me fizera bem. Dormira mal por dias. Tivera pesadelos cujo significado não se me revelava. Dispensei um estagiário do escritório, pois descobri que ele traficava informações. Eu realmente me sentia frágil, desgastado, em busca de uma solução para este estado de coisas, que não era normal em minha vida. Parecia que todos meus projetos estavam estacionando ou se perdendo, e os canais, sempre abertos, não estavam agora ao alcance da minha visão. Estava fraco, abalado, e precisava por um termo nessa maré. — Quem sabe não houvesse uma forma rápida de sair desse sufoco? Pensava eu, já cansado da seqüência de revezes que se apresentavam, abandonando por vezes a objetividade para encontrar saídas fantasiosas para problemas reais.

Liguei para Renata, e conversamos, como sempre, longamente. A ausência de Lia se fazia sentir, pois tínhamos um ponto de contato a menos com o âmago da Irmandade. É certo que outro está lentamente a se estabelecer, e por enquanto se o guarda, para o seu fortalecimento. Parecia que todos estavam cercados de entreveros que os forçavam, de certa forma, a olhar mais para dentro de si. Ou talvez isso tudo se assemelhasse a um ritual de passagem, ou algo assim. Desligamos os telefones com interrogações em nossas mentes e corações.

Amanhecera a sexta-feira, e acordo com um impulso irresistível de visitar o Portal, um lugar mágico que me foi apresentado, e onde eu pude, de relance, fazer as pazes com um passado distante e aceitar um presente de promessas sinceras. Onde eu pude, em espelhos, revisar o tudo que acontecera em minha vida. Nove da manhã e estou lá, em meio à Colônia, sentado num banco de pedra entre árvores frondosas, perto do muro da Igreja. Abandonando as perguntas. Ouvindo o vazio. Esperando as respostas. Toca o celular. Identifico a chamada: é Lígia.
— Lígia, meu amor!

Ela ri gostosamente. Não consegue deixar de se surpreender ao ser identificada antes de falar ao telefone. Charminho. Pergunta onde estou e fica muito surpresa com a resposta. Num impulso, e com uma alegria que não sentira nos dias que se passaram, disse a ela que eu estava com uma vontade louca de desaparecer com ela para um lugar que fosse só nosso. Ela sabia onde era.
— Mas hoje, Luca? Assim, sem mais nem menos?
— Agora! — Posso pegá-la em sua casa em meia hora, preparo minhas coisas e nos damos um final de semana lá.
— Você é louco! Assim, sem planejar nada?
— É.
— Então... está bem, gostei da idéia. Venha, estou lhe esperando. Amo você.

Desligo o telefone e me posto entre as duas árvores, fazendo uma reverência ao Portal, em despedida. Sentia que as respostas já estavam por surgir. Entro no carro e pego a estrada de terra. O celular volta a tocar. Desta vez é Larissa, possivelmente para confirmar o almoço de hoje. Deixo tocar até que caia na caixa postal. Em seguida desligo o aparelho, sem atender, sem ouvir a mensagem. Não vou almoçar com Larissa. Não estou interessado nas propostas de seu senhor. Eu já me pertenço, e integro algo maior.

O carro desliza ágil pelo asfalto novo e seguimos, eu e Lígia, rumo ao nosso lugar especial, longe de tudo e de todos, nas cercanias de Bateias.

E eu não mais pensaria a respeito do convite de Larissa para almoçar no Devon’s.

Meu caminho é de Luz.