
Escolhas
Bastou se colocar a luz sobre o desembarque, e naufrágios e derivas na costa catarinense comoveram o país. Alguns resgatados, outros não. Pescadores da pequena vila pesqueira, denominada Sombrio, foram as vítimas. Coincidência talvez... o nome e a proximidade à Ilha de Santa Catarina. Mais ao norte da costa, um ex–ídolo do futebol paranaense sai para pescar com amigos, e fica à deriva por dias em virtude de uma inexplicável pane, até ser resgatado, e isto apenas uma semana depois do episódio dos pescadores. Enchentes, conflitos, desmoronamentos, crimes hediondos e inexplicáveis diante da própria condição humana. Teria, pois, o general conseguido desembarcar, e todo o combate da Irmandade fora em vão?Esses eram os pensamentos de Lia, enquanto caminhava ao alvorecer em sua ilha. A sua ilha, que não era a do desterro. A sua ilha do litoral paulista, cujas energias observava pulsar em cada segundo do dia, a ilha que aprendera a conhecer, e onde se punha a conversar com seus elementos.
É lá que ela acabava por encontrar a entidade que orientara o grupo na ilha do desterro. O ente, sentado em um tronco de árvore, manuseava distraidamente algumas ervas. Ela se assenta na relva ao redor. Fica em silêncio por instantes, e é o ente quem fala.
— Não tema, pequena guerreira. O desembarque não ocorreu.
— Mas e tantas catástrofes que se seguiram àquilo, o que significam então? Não foi para evitar essa sucessão de tragédias que lutamos?
— Não. Não foi para evitar a tragédia humana que vocês foram até a Ilha do Desterro. Foi para evitar que o general desembarcasse, e sugasse energia de todas essas tragédias, promovendo o caos e o desespero por onde passasse. O destino humano é escolhido a cada momento por cada um dos indivíduos que habitam a terra. Por suas atitudes, por suas omissões, por seus pensamentos. As tragédias, na verdade, são conseqüências. Pense nisso.
— Mas que atitudes poderiam ter gerado tantas tragédias, como as que se seguiram?
— Não é tão fácil assim identificar a causa exata. É a energia que se condensa e então se manifesta. É verdade que catalisadores, a serviço do general, atuam com empenho, a fim de vampirizar o sofrimento alheio. É a arma das trevas.
— E como saber? Se não houve o desembarque, porque tudo isso aconteceu?
— É como a chuva de finados, Lia. Ou o tempo instável no carnaval. Vem para purificar o ambiente carregado. Depois da manifestação da energia, há a queima do deletério. Quando isso não ocorre, tais dias ficam mais pesados – e mais violentos. Repare. Lembre que quando o general tentava desembarcar, seus discípulos mais graduados o aguardavam também lá. A frustração não os levou ao arrependimento, é evidente. Ao retornarem aos seus lugares de origem traçaram um rastro de energia em desequilíbrio, e propiciaram a ocorrência dessas coisas, sem contudo, ter o poder de causá-las. Entendeu? Repito: o poder pertence à humanidade, e é ela que coloca suas energias a serviço das trevas – ou da luz – conforme toma suas próprias decisões, tanto individuais como coletivas.Lia então se põe a pensar no que lhe fora dito, escolhendo pensamentos enquanto separava as gramíneas, arrancando as amareladas para dar espaço para as que queriam viçar. Cabeça baixa. Então um temor lhe ocorre e ela pergunta:
— E algum de nós foi afetado por aquela batalha? Trouxemos seqüelas?
— Não digo com toda rigidez que as seqüelas sejam geradas pelas próprias imperfeições, mas essas imperfeições, no momento da luta, certamente baixam a guarda, e permitem respingos na alma.
— Então algum de nós foi afetado?
— Mais de um, pequena guerreira. Mais de um.
— Quais de nós?
— Observe. Perceba. Você logo saberá. Se a Irmandade é da lagartixa, talvez em momento de perigo ela tenha liberado sua cauda. Mas saiba que isso não é irrecuperável. Ela se refaz.Uma tristeza envolve Lia, que fica a pensar, procurando alguma maneira de socorrer aquele que porventura estivesse por sucumbir.
— Há algo que eu possa fazer por quem foi afetado?
— É claro que sim. Não os combata, eles terão a própria batalha por enfrentar. E há mais uma coisa. Acredite na renovação. Fique atenta também a si mesma. Procure o aprimoramento. Reflita e aproveite as oportunidades que lhe cercam. Sua intuição e sua sede guerreira devem ser temperadas com o equilíbrio. E a sua fonte de equilíbrio está bem próxima a você. Agora com ela convive todos os dias. Beba dessa fonte e a guarde com atenção e carinho.Ela abaixa a cabeça, compreendendo as últimas palavras. Quando vai lhe fazer mais uma pergunta, percebe que ele não está mais lá. Ela sorri. Ele sempre fazia isso: terminava a conversa quando queria, e sempre a deixava com perguntas a responder. Ela sempre quis lhe perguntar o porquê de ser. justo ela, quem deveria ter o contato e repassar as suas orientações ao grupo, mas parecia que nunca teria oportunidade de perguntar.
Lia segue o caminho para casa, atravessa a varanda e entra pela sala, o sol refletindo um raio no seu no prato de porcelana que lhe chegara misteriosamente no natal, onde havia a gravura da lagartixa dourada. No prato, vê refletido um vulto e se vira, sorrindo, abraçando ao dar bom dia àquele jovem a quem ela dera a luz, e que agora lhe trazia luz, e a presenteava com o equilíbrio necessário para seu progresso.
A missão da ilha do desterro, contudo, fora concluída com sucesso pelos membros da Irmandade, cada qual a sua parte, e agora deveriam deixar seguir o curso da história. Que o próprio homem escolhesse seus caminhos, que eles estariam atentos, ligados ao Cosmos, quando as trevas tentassem interferir. À Irmandade somente caberia zelar para que este caminho estivesse aberto, mas cada indivíduo, por si, deve decidir que o quer trilhar ou não.
Alguns demoram mais em decidir, outros recalcitram, mas todos, um dia, ainda seguirão pelo caminho. E ele deve estar aberto, até o último caminhante.