Cristais de Garoa

Olgierd Sokolowski

 



As gotículas de garoa, quando se acumulam em uma lisa superfície,
Multiplicam às centenas as fontes de luz que nelas repousam,
formando incríveis realidades e reflexos de grande intensidade,
ofuscando a percepção daqueles que por demais as observam.

Para não se enlear com as luzes que sob a garoa brilham,
há que se conhecer os vários caminhos da eternidade,
desviando os olhos dos falsos clarões que cegam,
ocultando entre cristais e breu a realidade.

 

“Era setembro de mil novecentos e trinta e nove, e as preocupações com recém eclodida guerra na Europa deixaram passar quase desapercebida a tragédia do “Âncora do Destino”, uma pequena embarcação que, segundo um velho e oficioso livro de registros portuários de naus e passageiros, recentemente descoberto nos arquivos do porto de origem, zarpou de Santos rumo ao Rio de Janeiro, levando doze silenciosos passageiros, que tinham em comum o fato de não quererem ser indagados sobre seu passado nem sobre o rumo que tomavam. Entre eles estavam Maria Helena Voigt, cansada dos maus tratos que lhe eram infligidos pelo marido, e fugia para a casa de parentes no Rio de Janeiro, protegida pelo primo Ricardo Carneiro, que a acompanhava; Albert Henning, um empresário do meio artístico que havia acumulado dívidas com o fracasso dos shows que promovera; Constantino Niklevicz, pistoleiro de aluguel que havia eliminado o desafeto de um poderoso comerciante das Minas Gerais; Mônica de Freitas Montenegro, linda cortesã que por vultosa quantia se envolvera na morte de um importante barão do café, de quem se fizera amante, estava foragida e seguia por mar até o Rio de janeiro, e depois tomaria outro destino; Marcelo Pimentel, marinheiro que desertara para poder ver a sua amada Doralice. Outros seis homens, além dos tripulantes, estavam embarcados, mas suas referências se perderam nas ondas do mar e do tempo.

A frágil embarcação clandestina foi surpreendida por uma forte tormenta horas depois de haver zarpado da baia. Arrastada por uma corrente marítima, ficou à deriva, e terminou por ser arremessada contra as pedras da Ilha. Atingida ao meio, foi a pique quase que imediatamente. Não houve notícia de sobreviventes, nem identificados os seis corpos que o mar depositara, mutilados, na Ilha. Os outros nunca foram encontrados. O barco era de um pescador de São Vicente, Hermínio Jordão. Ele e seu único filho, Jorge, também desapareceram no acidente.

Não tendo os corpos logrado identificação positiva, quer por parte da guarda costeira, quer das autoridades da Ilha, foram enterrados como indigentes pelos ilhéus em duas covas no cemitério local, a primeira com os quatro homens, a outra com as duas mulheres. Ninguém mais falou do ocorrido ou procurou por qualquer um deles. O pároco da Ilha recolheu em uma caixa os pertences encontrados com as vítimas, na esperança de que alguém viesse em busca de informação e pudesse identificar e orar por aquelas pobres almas. Mas ninguém havia reclamado por eles, e a caixa permanecia até hoje fechada, no fundo do armário da sacristia da antiga Capela. O tempo passou, a guerra tomou conta dos noticiários, e as pessoas deixaram de comentar a tragédia da pequena embarcação.”

Lia fecha o livro antigo que relata a historia de alguns dos naufrágios ocorridos na Ilha, sentindo um aperto no coração. — Que terá sido dessas almas?

Vai até o jardim, onde colhe um buquê de flores-do-campo. Depois de arrumar as flores, unindo-as com um barbante, caminha silenciosamente até o mar, pede licença para nele entrar, espera pela resposta. Quando a onda se desfaz envolvendo seus pés, sente a permissão e entra na água até a cintura, ainda de vestido, arremessando então o buquê, como que rendendo homenagens aos mortos naquele naufrágio.

Se alguém prestasse atenção em seu rosto, naquele exato momento, veria uma lágrima escorrer, silenciosa. Lia retorna a casa, se banha e se troca, e continua com os seus afazeres. O tempo está nublado, denso. A chuva se aproxima. Ela amava a forma como os elementos se manifestavam na Ilha, e sentia na pele as suas inquietudes.

¤

O barulho ritmado dos limpadores, a acariciar os cristais de garoa que se depositavam nos pára-brisas, levavam-me a refletir sobre o que eu estaria fazendo ali.

Longe de casa, só, enfrentando um tempo ruim para me defrontar com as realidades de um sonho que se repetia. Precisava muito falar com Lia. Mas não planejava fazê-lo. Embora estivesse tão perto dela, eu pensava não ser a ocasião própria para uma visita. É claro que, a princípio, eu nem precisava estar ali, bastava um telefonema ou um e-mail e Lia jamais se negaria a atender-me num pedido desses. Mesmo Júlia poderia muito bem tomar para si a tarefa que eu estava para realizar. Mas não era simples assim: devia, por mim mesmo, encontrar aquela resposta. Era meu o encargo, e de mais ninguém. Sentia isso. Sabia disso. Nem Júlia nem Lia. Foi somente a mim, Luca, e a mais ninguém, que fora dirigido um apelo, e por saber que as coisas eram assim, cabia a mim, pessoalmente, atendê-lo. Essa era a regra.

O limpador do Fiat Uno, que meu primo havia emprestado para essa viagem, agora arremessava com vigor a água que se acumulava no vidro, e dificultava a visão da pista. Era a hora mais perigosa nas estradas, quando o dia já se foi e a noite ainda não chegou: o crepúsculo, hora em que as sombras se digladiam com a luz buscando a vitória efêmera da noite. Teria que chegar o quanto antes e pegar a balsa para a Ilha, e assim ainda esta noite seguiria ao local da minha missão. Refletia sobre a sensação de estranheza ao ver a imagem da praia do sonho retratada na realidade dois dias depois, quando Júlia enviara a foto da Ilha de Lia através do correio eletrônico. No mesmo instante eu soube que lá encontraria a chave para decifrar o apelo que recebia. A resposta estaria naquela praia pequena, cercada de espessa vegetação.

— Fotografias, sim fotografias... Distraí-me pensando em Mônica, na foto que ela me enviara. Como eu ficara surpreso dela se parecer tanto com tudo que eu imaginara, e a forma como ela irradiava sua graça. Uma bela foto com lindos efeitos, envelhecida como se extraída de um camafeu. Curioso ter me correspondido com uma pessoa que nunca vira, e quando finalmente contemplei a sua imagem, nela vi mais e além do que o esperado. Fiquei encantado pela doçura e mistério que ela demonstrara nas nossas conversas eletrônicas da madrugada. Tínhamos conversado poucas vezes, é verdade, mas encontrávamos uma facilidade enorme de nos abrirmos, próximos que ficávamos por causa do milagre eletrônico operado através das conversas “on-line”. Mônica falava da liberdade, de sonhos, de vontades e enviava mensagens carregadas de emoção e esperança em um futuro indeterminado. Se tais coisas haviam causado em mim arrebatamento, o que se refletia na imagem se transformara na mais franca atração. Eu pretendia conhecê-la, quando me sentisse livre o suficiente para tal.

Retomei toda a atenção para a estrada. Desta vez eu me sentia cheio de temores. Sabia que o medo é o melhor dos amigos quando se trata de ficar com os sentidos em alerta, mas também sabia que era o fascínio, e não o medo, que causaria o fracasso numa grande batalha. Não é o conhecimento e o respeito pelos poderes do inimigo que põe a perder uma luta, mas sim o encanto provocado pela admiração de seus atributos e o desprezo pelas nossas próprias arestas. Temia, pela pouca experiência que eu tinha, ceder ao fascínio daqueles pedidos insistentes em minhas noites, e me perder. Porém não resistia mais aos apelos que me eram dirigidos nos sonhos, e em sinais do dia a dia, que remetiam seguidamente às mesmas imagens, causando-me grande desassossego.

Com vários matizes, a mesma história se repetia tornando as noites agitadas e as madrugadas sombrias. Primeiro eu me via vagando em escuridão, depois entre brumas e clarões, e finalmente caminhando em uma praia deserta, sempre a ouvir um chamado angustiado na voz sofrida de mulher, a clamar por minha interferência: “liberte-me, liberte-me”, ou então “Luca, liberte-me e nos aceite” e por fim “somente por você seremos libertos”. Jamais eu vira o rosto de quem clamava por mim insistentemente, mas no último sonho, aquele em que eu estava em uma praia deserta, enxerguei um vulto de mulher a me apontar para as pedras que se acumulavam aos pés de pequena elevação, à beira do mar, onde a vegetação quase se fundia com o oceano no fim da pequena enseada.

A travessia da balsa vista da amurada da embarcação, ao cair da noite, provocava em mim a sensação de mergulho no desconhecido, o que, em verdade, eu estava a fazer. O cheiro de diesel a se misturar com a maresia, o hipnotizante ritmo dos motores, o bater das ondas no casco, a garoa fina e incessante, criavam uma atmosfera que exigia de mim muita concentração, a fim de manter toda a lucidez e serenidade, e assim conseguisse afastar aquela terrível sensação de pequenez e vulnerabilidade que se alojavam em mim, sempre e toda vez que me defrontava com o mar.

Chegando à Ilha, um misto de ansiedade e expectativa tomou conta de minha alma, e automaticamente segui para a praça central da pequena vila insulana, talvez movido pelo cansaço e pela fome, pois mal comera durante as horas de viagem até ali. Arrependi-me de não ter contatado com Lia e lamentei não haver retorno do telefonema que dei à Júlia antes da viagem. — Para que ela mantinha um identificador de chamadas, se não era para retornar as ligações que lá se registravam? Bom... paciência. Por tudo isso, eu havia decidido que seria melhor contar-lhes o que eu fui fazer na Ilha quando tudo já estivesse terminado, mas cometi um erro ao pensar assim. Precisava de uma pausa antes de seguir adiante, mesmo porque, com aquele tempo, talvez vagasse a noite toda até encontrar o lugar exato que eu buscava. Além disso, sabia ser imprudência enfrentar um mistério como esse sem que elas tivessem ao menos conhecimento do que ocorria, pois nunca devíamos nos isolar nessas horas. Mudei de idéia e resolvi ir ao encontro de Lia. Júlia certa vez me dissera como chegar à casa na Ilha, e eu me recordava perfeitamente e para lá segui, esperando que ela não tivesse efetuado nenhuma das suas constantes viagens ao continente.

— Liaaaaa! Bati palmas, bradando do portão, de forma a fazer-me ouvir na casa, suplantando a distância e os sons da arrebentação que invadiam a morada, dada a sua proximidade da praia, para onde se abria o seu quintal.
— Quem é.... Luca! É você?
— Lia! Que bom que está em casa!
— Que bom ver você aqui! O que faz na Ilha numa noite como essa? Está tudo bem?
— Oi, Lia. Eu tive que vir para a Ilha, então lembrei daquele café gostoso que você me prometeu, quando eu viesse fazer uma visita.

Eu falava e ao mesmo tempo sorria pela alegria de ver a amiga, e pousava meu braço em seus ombros enquanto ultrapassávamos o jardim. Intrigada, Lia me acolheu em sua casa e pôs à mesa o café e o leite, pães e frutas frescas e um doce que fizera com as amoras que trouxera da feira no continente. Dizia-se alegre por finalmente eu ter lhe visitado na Ilha, mas não deixava de manifestar a estranheza pela forma como eu viera — de tão longe e sem dar nenhum aviso — mas me deixou completamente à vontade enquanto tomávamos calmamente um gostoso café.
— Eu sinto que você está atravessando uma fase muito densa, Luca. Tenho pensado muito em você nesses últimos dias. Cheguei até a telefonar para Júlia para saber noticias suas.— O que está havendo?

Ela possuía uma percepção extraordinária desenvolvida na longa convivência com os elementos da Ilha. As energias que fluíam provindas da vida que pulsava em todos os seres, até naqueles que a um olhar superficial parecem estanques, inanimados. A isso Lia somava seu desapego das coisas desimportantes que nos escurecem a visão, e assim conseguia ver e compreender além.

Sentindo-me confortado pelo café, e sem me admirar por ela saber tão bem como eu me sentia, segui com ela até o alpendre, onde contemplando o escuro vazio do mar noturno me recostei ao seu lado na rede e comecei a contar como tudo me sucedera.

Lia ouve atentamente a história dos sonhos que eu tivera, e os atropelos que surgiram em minha vida após tais sonhos começarem. O telefonema que eu dera à Júlia falando da inquietação que eu sentia, a foto da Ilha que ela havia mandado para eu conferir, em vista da descrição que eu lhe fizera da praia do sonho, e a minha surpresa de ter identificado a praia exatamente como havia sonhado. Eu me abria com Lia, falando da angústia das últimas duas noites, e por fim como cheguei à resolução de atender aos apelos da voz feminina que me pedia ajuda tão insistentemente. Mostrei-lhe a foto da praia e Lia, eufórica, afirmou saber exatamente onde ficava aquele lugar.
— Sabe mesmo onde é esta praia?
— Mas claro que sim, imagine! Hoje mesmo estava lendo um livro sobre os naufrágios ao redor da Ilha, aliás sobre um acidente em que os corpos dos passageiros foram encontrados justamente nessa praia, leia isso aqui.

Lia me deu o livro e eu li a história do naufrágio. Fiquei intrigado.
— Mas que história triste, quantas vidas interrompidas... eu sempre penso isso quando tomo conhecimento de uma tragédia como essa. Esta praia é muito longe daqui, Lia?
— Não é muito distante daqui, não. Amanhã posso levar você até lá, se quiser. Hoje você pode dormir aqui em minha casa, eu arrumo rapidinho um quarto para você, e ainda aproveito e mostro meus trabalhos em madeira, palha e conchas que estou desenvolvendo para a exposição que faremos no aniversário da cidade.
— Não, Lia. Adoraria ver seus trabalhos, mas tenho que ir só, e esta noite. Pressinto que esta é a hora e não poderia esperar até amanhã. Eu só preciso que me indique o caminho, que irei para lá em seguida..
— Com esse tempo ruim? Não. Deve esperar até amanhã, seria um passeio mais agradável e seguro.

Ela insiste, negando-se, a princípio, a indicar o caminho da praia. Ela me explica que forças havia naquela Ilha que se manifestavam de maneira muito intensa, e afirmou que vivia lá o tempo suficiente para saber que eu deveria aguardar até o dia seguinte e ir com ela àquela praia. Era um território que Lia conhecia muito bem, e ela não gostaria de saber que eu enfrentaria um mistério ali, sem que eu contasse com seus conhecimentos.

Não consegue, contudo, dissuadir-me, e ante os argumentos de que amanhã eu corria o risco de nada mais encontrar, que eu temia não reencontrar a paz que havia perdido desde que aquilo tudo começara, ela terminou por ceder à minha insistência. Impõe, entretanto uma condição: que tão logo eu retornasse da praia dormiria em sua casa, para só seguir viagem no dia seguinte, pois seria loucura enfrentar outras tantas horas de retorno, sem nenhum descanso. Concordei prontamente, grato pela hospitalidade de Lia, e então ela se propôs a me acompanhar parte do trajeto, mostrando o início da trilha que me levaria até a enseada pretendida.

Enquanto a aguardava se trocar, eu conferia o conteúdo do bornal, feito de uma velha calça jeans: objetos que eu trouxera, a maioria dos quais lembrava ter visto ou me utilizado nas tantas versões que eu tivera daqueles sonhos. Estavam lá a lanterna, as três velas, o veludo azul, os fósforos, a faca de cabo e bainha de prata trabalhada que há anos me acompanhava. O copo de cristal e o cantil com água colhida em uma nascente da serra e meu terço indiano também estavam lá. Mas na verdade eu não sabia bem o que faria com todas aquelas coisas, pois me guiava apenas nas lembranças dos sonhos que tivera.

Pouco tempo depois Lia surgiu trajando um vestido indiano, os pés descalços, sorridente, e não pude deixar de notar como ela estava bonita. Gostava muito de Lia, e dessa insistência que ela tinha em viver a vida de uma forma autêntica, sem se perder em caminhos impostos por outros. Por vezes isso lhe custara caro, mas mesmo assim teria valido a pena — pensei — pois a tornara uma pessoa muito especial. Ela alcançou o meu chapéu, e perguntou mais uma vez:
— Tem certeza que não quer deixar para amanhã cedo?
— Tenho, pressinto que esta noite é a hora certa, Lia.
— Esta bem, então vamos. Quando eu voltar para casa vou ligar para Júlia, quero que ela saiba o que está acontecendo aqui, Luca. Estou sentindo um aperto no coração com essa história, tem algo que não estamos vendo.
— Talvez sim, amiga. Mas só tenho uma forma de descobrir: é indo até aquela praia, e entender o apelo que me fazem. Ligue para a Júlia sim, e diga que tentei entrar em contato com ela, mas não consegui isso antes da viagem.

Saímos pelo alpendre, ultrapassamos o portão que separa o quintal da areia da praia e seguimos em silêncio. Após cerca de vinte minutos, Lia aponta para umas pedras à nossa frente e explica:
— É por ali, siga aquela trilha e quando avistar um terreno cercado verá um caminho à esquerda, que começa exatamente antes dessa cerca com uma estaca pintada de branco. Siga por ele e chegará à praia, mas tome cuidado com a pedra que terá que descer, pois deve estar escorregadia por causa do tempo.

Tendo ouvido atentamente as instruções, tirei a lanterna do bornal e iluminei o caminho. Voltando-me para Lia, beijei-a carinhosamente.
— Não quer mesmo que eu vá com você?
— Não Lia, estou bem, não se preocupe.

Sorrio e sigo pela trilha.

¤

Lia ficou a me observar enquanto eu me afastava e mergulhava na noite. Soube depois que tão logo retornou a casa ela ligou para Júlia, e contou como tudo se sucedera. Júlia teria ficado apreensiva, e entendera que eu estava correndo sério perigo, e que Lia deveria ir ao meu encontro. Júlia seguiria imediatamente para a Ilha, e estaria encontrando conosco já no começo da madrugada.

Mas Lia, após terminar o telefonema com Júlia, não veio ao meu encontro. Ao contrário, ficou em casa lendo detidamente a história do naufrágio que lhe caíra às mãos. Isto porque sentira, enquanto caminhava na praia, como se a Ilha lhe murmurasse que os acontecimentos desta noite estavam intimamente ligados àquele acidente. E de fato estavam.

¤

Prossegui segundo as indicações, e logo identifiquei a estaca pintada de branco e o estreito caminho que a ladeava. Parei e examinei a picada, enquanto observava uma ratazana fugir do rastro de luz que espalhei com a lanterna. Levemente sobressaltado, respirei fundo e fui em frente até chegar à praia, depois de ultrapassar a pedra mencionada por Lia. A noite estava muito escura e nesse momento recomeça a garoa. Contemplei a praia, admirado com a exatidão com que ela tinha sido reproduzida nos meus sonhos. Agora em vigília, sabia muito bem que não acordaria simplesmente, interrompendo a história se algo desse errado, como acontecem nos pesadelos. Caminhei até uma árvore de copa baixa que me desse algum abrigo da garoa, e me acomodei sob a mesma, aguardando assim o desfecho daquilo.

Por instantes duvidei de tudo, e me achei insano por estar ali. Fiquei parado por mais de uma hora, sentindo-me desconfortável e levemente tolo, pois nada acontecia. O vento e a garoa, a escuridão e o mar me fazem encolher, encostado à árvore e abraçado ao bornal.. Aquela longa espera causava uma sonolência que pouco a pouco tomava conta do meu corpo cansado.

Os ruídos da mata diziam a mim que havia uma presença ali, e eu ouvia no vento, como em murmúrio, os apelos de liberdade, iguais aos que já conhecia muito bem dos meus sonhos. Com o facho de luz da lanterna percorri a praia, e quando a direcionei para as pedras percebi um leve brilho. Fui ao encontro dele, caminhando como se estivesse entrando em transe, meus pés mal sentiam a areia que pisavam. Minhas ações a seguir, de tão seguras, me passavam a sensação de que sabia exatamente o que fazer, passo a passo, embora intimamente eu soubesse que me guiava unicamente pela intuição.

Posicionando a lanterna ao chão, comecei a remover as pedras automaticamente, buscando o objeto que revelara o brilho que refletiu o facho de luz. Entre as pedras achei um cristal semi lapidado, um quartzo rosa translúcido, de formato piramidal. Fiz uma proteção para evitar a garoa, servindo-me de pedras e ramos da vegetação. Remexi o bornal e tirei o veludo azul, dobrei-o em diagonal, formando um triângulo que deito na areia.

Com a lanterna ao chão e à frente dela a base do triângulo de veludo azul, coloquei o terço ao pescoço e acendi as três velas, ajustando uma a uma em cada ponta do triângulo. Entre a lanterna e o triângulo, coloquei o copo de cristal sextavado e nele despejei a água límpida do cantil. Ao centro do veludo depositei o cristal. O facho de luz se projetou através do copo até o quartzo, e além dele, tendo a garoa como anteparo para luz. Sentei-me e fiquei a observar o efeito que aquilo provocava. Através do copo de cristal, um raio de luz se dirigiu até a pedra, tomando, com o efeito das velas, tons distintos, e a partir do cristal se materializaram reflexos na garoa, criando efeitos semelhantes a um holograma, que lentamente mostravam uma forma definida.

O chapéu protegia meus olhos, impedindo que a garoa molhasse meu rosto, enquanto fiquei ali, imóvel, a contemplar a figura que começava a se formar à minha frente. Nem sei precisar quanto tempo fiquei ali, estático, enquanto ocorria essa transformação. Um corpo de mulher num vestido azul marinho com fios prata cintilantes, cabelos longos e negros, começava a surgir à minha frente. O rosto dela começava a adquirir nitidez, e minha alma se assombrou, e meu coração disparou ao reconhecer a identidade daquele semblante, que me fitava diretamente nos olhos. Fez-se um silêncio enorme, até eu conseguir quebrá-lo com uma exclamação:
— Mônica?! Mas isso não é possível!
— Sim, Luca, sou eu.
— Você? Era você nos meus sonhos? Mas como?
— Ah! Por tanto tempo lhe chamei, por tanto tempo lhe esperei... e agora estamos aqui, frente a frente. O encontro tão desejado se realiza Luca, e se você me ajudar poderei ser livre.
— Não estou entendendo Mônica. O que significa tudo isso? Qual a razão de você me aparecer desta forma?
— Você sabe muito bem como eu sou, Luca, e esta é a única maneira que tenho de aparecer para você, por enquanto. Você conhece minha imagem, soube lentamente dos meus quereres e eu dos seus, você conhece meus sonhos e eu conheço seus sonhos, eu estou nos seus sonhos. Sou o seu destino, sou aquela que dará a você tudo que sonhou, e em troca você me libertará, e será leal a mim.
— Libertá-la como? Libertá-la de que?

Fiquei desconcertado diante de tal aparição. Não compreendi prontamente o que acontecia ali. Como ela, Mônica, criatura que me cativara por todos aqueles meses e cuja imagem há poucos dias eu conhecera através de uma foto escaneada, enviada por e-mail, estava ali, diante de mim, naquela forma etérea. Mil hipóteses vinham-me à mente, enquanto processava tudo aquilo sem ainda apreender todo o seu real significado.
— Eu estou sofrendo Luca, aprisionada nesta praia há muito tempo, até que vieram a mim forças estranhas, de quem me vi serva, porque de repente me mostraram que seria possível voltar a me comunicar com o mundo, com as pessoas, através daqueles impulsos elétricos e daquela realidade que nascia com o pensamento. Assim passei a existir novamente num mundo virtual, e as pessoas, principalmente você, acreditaram na minha existência, nas minhas verdades... você, mais do que ninguém, me fez real, agora tem que me ajudar a prosseguir.
— Mas o que você está falando? Desde quando está aqui?
— Vou contar tudo a você, Luca, mas antes deverá estar comprometido comigo. Antes eu preciso me materializar, e para isso tenho que contar com a sua ajuda. Se fizer tudo que lhe disser, em breve você estará frente a frente comigo, estaremos juntos para sempre... e poderei satisfazer as suas maiores ambições, desde que conte com a sua lealdade.
— O que quer de mim?
— Quero retornar à vida, Luca, libertar-me desta praia, desta prisão. Quero me alimentar, fortificar-me, livrar-me dessas dores...
— Retornar à vida? Não compreendo... eu não posso lhe dar isso Mônica. Não sei como fazê-lo. Sequer entendo o que está acontecendo agora, não sei o que espera de mim!
— Tudo! Eu espero tudo de você. Permita que eu lhe ensine aquilo que deverá fazer para que eu possa me materializar, e a partir daí seremos nós dois juntos, somando nossos poderes para realizar nossos desejos... por que hesita? Nas suas últimas mensagens me fez entender o quanto me queria... conhece meus sonhos, sabe que já sofri muito em minha vida, e que busco um recomeço... venha comigo!

Neste momento senti o chão faltar a meus pés, e me vi transportado para um luxuoso quarto, cercado de pesadas cortinas rubras que davam para uma janela, em frente a qual Mônica dançava para mim. Inexplicavelmente sentia-me forte, sabia-me rico e poderoso e tremendamente atraído pela dança de Mônica. Observei o estranho lugar, ao centro da parede oposta havia uma estrela de cinco pontas invertida, e se esgueiravam duas serpentes, uma pela porta e outra pela janela lateral. Uma sensação de entorpecimento toma conta de minha mente, quando Mônica se dirige a mim:
— Entregue-se a mim Luca. Entregue-se a mim... viverá a grande paixão de sua vida, realizará as suas ambições, basta que para isso me ajude e sirva...
— Não estou entendendo, Mônica. As coisas não podem ser assim! Não saberia me entregar dessa forma, às cegas. Tenho que entender o que está acontecendo!

Falei mais para mim mesmo que para ela, tamanha força que eu fazia para não me entregar definitivamente àquela visão. Tinha que ficar lúcido a qualquer preço, e a todo momento a este alerta eu me agarrava. No instante que profiro estas palavras de negativa e dúvida, vejo Mônica se arremessar contra mim, soltando um urro, e com um impacto no peito me vejo caindo na areia, próximo ao triângulo que montara para o cristal e as velas. Reparo que mais da metade das velas que eu acendera ainda há pouco já havia se consumido, o que me indica que eu perdera a noção de tempo desde quando tudo aquilo começara.

Por um momento a escuridão se fez, exceto pela chama das velas próximas ao rosto, que me ofuscavam os olhos. Logo depois a garoa que continuava a cair insistentemente formou novamente a imagem de Mônica, que agora transparecia ira, a que atribuí ser pela minha relutância em aceitar o convite. Já não vestia o belo vestido azul, mas um surrado vestido florido de algodão com uma capa bege rasgada sobre si. Algum encanto tinha sido quebrado. Mônica dizia que eu a tinha enganado, pois a fizera acreditar que estaria pronto a tudo fazer para me encontrar com ela, conhecê-la. Que eu a fizera acreditar que seria a pessoa certa para libertá-la daquele lugar. Disse ainda que descobriu que vibrava em mim uma energia rara, um dom que não seria fácil para ela encontrar, e que era vital para que conseguisse se materializar novamente. Embora receoso, exigi da aparição que me revelasse as razões daquilo estar acontecendo ali, e porque eu havia sido envolvido nessa história. Ela passou então a me falar com a voz embargada:
— Você quer saber quem sou? Quer saber o que eu passei? Está bem, vou lhe contar. Sou vítima de um naufrágio, e há mais de sessenta anos estou aprisionada nesta Ilha, nesta praia, esperando que o barqueiro me leve, e ele nunca veio me buscar. Das pessoas que estavam no barco todos se foram, só eu fiquei aqui, porque todos os outros o barqueiro levou. Dos oito que recolheu no mar sequer chegaram a esta praia, e dos seis que para cá vieram, primeiro foi Ricardo, relutante, e depois os outros, um a um. Mas eu... eu fui esquecida aqui, ninguém lembrou de mim por todo esse tempo, ninguém a não ser aquela moça que me indicou um caminho, que me levou a você.
— Uma moça a levou a mim?
— Sim, a você. Há muito tempo estou só, Luca, esperando o barqueiro que nunca vem, sem nenhum contato com o mundo, vagando por esta praia da qual não conseguia sair. Cerca de dois anos atrás, porém, me chamaram, me invocaram... e me mostraram um caminho que eu não conhecia. Eles me revelaram que eu poderia tomar outro caminho, pois se o barqueiro não vinha me pegar eu podia voltar para o mundo, de uma forma ou de outra, e foi o que fiz até agora. Já existo novamente, tenho uma forma, um nome, eu me comunico, eu sinto. Virtualmente minha existência já está consolidada, as pessoas falam comigo, se referem a mim entre si, entregam seus sentimentos a mim! Mas daqui para frente eu preciso de você, e você se recusa a me ajudar!
— Você me diz que morreu num naufrágio há mais de sessenta anos e quer que eu a traga de volta? Mas como pode ser, se conversamos esses meses todos, se chegou a me descrever seus sonhos, seus anseios, medos... eu acreditei em você, Mônica, e me enganava?

Atônito, deixo-a prosseguir com a fantástica história, enquanto tento me recuperar e trazer à mente todos os conhecimentos que eu tinha a respeito do assunto que enfrentava. Mas era tudo tão inusitado, que minha mente se perdia ante essas revelações.
— Quando você me conheceu na sala de bate-papo, na rede, Luca, eu já dominava a forma de entrar nos circuitos eletrônicos para me comunicar com as pessoas. Desde o princípio você me chamou a atenção, e por isso foi fácil achá-lo. Você tem em uma energia especial, e preciso dela para seguir adiante. Precisa seguir as minhas instruções, se comprometer comigo.
— Como você fez isso? Quem lhe invocou, quem lhe falou desses caminhos e ensinou essas coisas?
— Faça um pacto comigo que lhe revelarei tais segredos, e assim como você trará a mim o que eu preciso, eu então poderei fazer a você o que desejar.
— Um pacto?
— Sim. Basta que derrame metade da água do copo, e faça um pequeno corte no pulso direito com a faca e deite seu sangue no copo de cristal, junto com a água que restar. Dará um pouco da sua energia vital para mim, que assim estarei eternamente ligada a você. Depois que o fizer, lhe revelarei como tudo aconteceu, e o que terá que fazer para que eu possa me materializar novamente.

Nesse momento tomo consciência de tudo que acontecia na praia. Era-me oferecido o poder em troca de vida, do meu destino e de minha alma. Compreendia o quão alto poderia ser aquele preço. Passei a entender que alguém, que tivesse conhecimento do naufrágio, de alguma maneira descobrira que Mônica havia ficado aprisionada na praia, talvez por ter ainda assuntos a resolver antes da passagem. Então este alguém a invocou e a entregou a demônios, a quem ela teria passado a servir, em troca dos segredos para voltar a se comunicar com os vivos. Agora Mônica tentava me aprisionar nesta teia, a fim de acumular mais energia e poder, e assim prosseguir nos seus intentos, e sabe-se lá que obrigações. Mesmo sabendo o que teria pela frente, respondi àquele ser:
— Não. Não posso fazer isso. Não quero fazê-lo.
— Você tem de fazer! Só você pode fazer isso para mim! Eu trilhei um caminho muito longo para chegar até aqui, Luca, e não estou disposta a voltar para a prisão! Sabe quanto me custou atender ao chamado daquela mulher? Você não faz idéia a que eu tive que me submeter, os lugares por onde passei, que atos me fizeram praticar em troca dos segredos para chegar até você. Você é meu, e precisa me socorrer!
— Não Mônica, não o farei! Não cabe a mim fazê-lo.
— Você precisa cumprir seu destino, precisa! Você tem que me trazer de volta! Peça o que quiser e terá, mas me leve daqui, se comprometa agora em cumprir o ritual para me libertar!
— Não! Vá embora! Ninguém pode retornar à vida desta forma. Vá embora e se entregue para as luzes, não resista ao barqueiro. Seu destino não está aqui, Mônica, e você sabe disso. Não é o barqueiro que não vem lhe buscar, mas sim você que se furta a embarcar e seguir. Nós que criamos nossas próprias prisões... o que você fez para se prender em tamanho exílio?
— O que você pode saber do exílio? De que luzes você fala? Não! Sei o que me espera e não seguirei com o barqueiro, e você irá me ajudar Luca, vai me ajudar ou tornarei a sua vida um tormento!
— Já o faz, retruquei severo. — Com os sonhos que tenho com você. Como pôde invadir a minha vida desse jeito? Enganou-me desde nossa primeira conversa, usou-me para trazer aqui nessa armadilha, invadiu meus sonhos, minha vida, me fez de tolo! Quem mais está por trás disso? Por que me atormenta tanto?
— Você pode me ajudar, Luca. Só você pode me ajudar... Guiaram-me até você porque em você encontraria a energia de que preciso. Você a traz consigo desde antigas vidas, e precisa usá-la, comigo e com mais alguém... Tem de ser você, Luca, e tem de ser agora, porque estou ficando fraca...
— Não, não o farei, nada me obrigará a isso!
— Ao menos me ceda um pouco do seu sangue no copo, para que eu possa me fortalecer e cumprir minha tarefa.
— Não, Mônica, sabemos que não é esse o caminho que você deve seguir, e que com isso eu me prenderia a você. Não, Mônica, dessa forma você se perde.
— Dê-me um pouco de você... verta um pouco do seu sangue no copo de cristal, Luca..., ou nunca mais sairá desta praia!

Mônica muda o tom, falando-me de modo ríspido, ameaçador, e tive que lhe repetir mais uma vez que não faria tal coisa, que não me submeteria a aquilo de forma alguma, e que ela deveria partir com o barqueiro, e me deixar ir embora dali.

Nesse momento vi Mônica se transtornar à minha frente, o vento aumenta e com ele a garoa que nunca cessava. Torvelinhos se formam à volta de onde estávamos e ela começou a gritar. Eu sabia muito bem que se cedesse ao pedido estaria irremediavelmente preso a ela, e perderia o rumo de minha vida e da minha eternidade. Nesse momento eu percebi que toda a conversa terminara, e que o confronto se daria. Pensei em me proteger, mas sequer sabia de onde viria o ataque. Elevei meu pensamento, invocando proteção e auxílio dos exércitos do bem, e como desejei não estar só nesse momento crucial.

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Preocupada, enfrentando um transito caótico na saída de São Paulo, e por fim me maldizendo por ter ido àquela praia sem consultá-la antes, Júlia partiu rumo à Ilha movida por uma incômoda ansiedade, um pressentimento ruim. Estava convicta que eu deveria ter ao menos refletido com elas antes de ir para lá, porque eu teria seguido ao encontro mais preparado. Júlia pensava que eu deveria saber que seria respeitado caso quisesse seguir sozinho, mas ela entendia que de alguma forma ela e Lia poderiam me dar o suporte que eu precisasse, afinal todos sabíamos o quanto, juntos, poderíamos ser fortes.

As rodas do Ka Image estalaram com a freada brusca, e Júlia salta do carro, batendo a porta. Abre o portão e chama por Lia, que vem ao seu encontro. Já passava das dez e meia da noite. Ela fizera a viagem em pouco mais de três horas.
— Oi Júlia! Você veio voando... eu me preocupo quando você faz as coisas desse jeito.
— Oi Lia... e o Luca, onde está? Deu notícias?
— Não, até agora não.
— Mas você não foi ao encontro dele?

— Não, não fui, achei melhor ficar aqui e entender algumas coisas...
— Que coisas?

A impaciência de Júlia transparecia nas suas indagações.
— Quando Luca chegou, eu havia acabado de ler em um livro sobre o naufrágio que aconteceu durante uma tempestade, no inicio dos anos quarenta.
— Aqui na Ilha?
— Sim, e foi lá na praia em que o Luca está é que acharam seis corpos desse naufrágio. Isso mexeu comigo, acho que tem algo a ver com o que acontece a Luca, mas não sei bem o quê. Esse pensamento ficou martelando, quando eu vinha para casa, pouco antes de falar com você ao telefone, então li e reli, e estou certa que um desses seis aí é o responsável pelo que está acontecendo. Dê uma olhada nisso.

Lia estende o livro a Júlia que, apreensiva, lê o texto, e num salto verifica o nome de Mônica, ligando-o intuitivamente ao fato de eu ter conhecido alguém com esse nome numa sala de bate-papo, mais ou menos na época em que os sonhos haviam começado. Espantada, expõe seu pensamento e indaga:
— Será possível que isto esteja acontecendo, Lia?

Elas concordam que, de alguma forma, a Mônica que eu conhecera e a cortesã mencionada no naufrágio se tratava da mesma pessoa, e que esta alma estaria preparando uma armadilha para mim.
— Se é assim, sabemos o que tem que ser feito – afirma Lia. — A alma tem que ser encaminhada. Vamos encontrá-los. Luca deve estar realmente correndo perigo, pois já estamos próximos da meia-noite..
— Vamos. Você tem tudo que é necessário?
— Tenho, Júlia, menos a pena de ganso.
— Não tem problema, tire uma pena do espanador e a aponte, acho que serve. Já fiz isso uma vez.

Apoiavam-se no ensinamento que uma vez verdadeiramente identificado um espírito errante, criava-se um liame com ele e assim se tornava possível, mediante um ritual, guiá-lo em direção aos exércitos da luz, a partir de onde este espírito seria orientado, ou detido, segundo seu merecimento.

Com as velas, o papel, a pena e o tinteiro saíram ao meu encontro. As pegadas de horas atrás eram ainda identificáveis na areia, aqui e acolá, apesar do vento e da garoa. Ligeiras, logo alcançaram a estaca branca e seguiram pela picada até a praia. Sabiam que o tempo operava contra nós, e que teriam que fazer o que pretendiam antes das zero hora. A tradição da magia antilhana ensinava que a meia hora que antecede a meia-noite pertence às obras do bem, e a meia hora após a meia noite pertence ao inverso, quando nada restaria fazer.

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Por momentos achei que minha história terminaria ali, naquela enseada, onde eu enfrentava a fúria de Mônica. Eram quase onze e meia da noite quando Júlia e Lia apareceram, chamando por mim. Respondi-lhes de onde eu estava, sobre algumas pedras, com a faca em punho a me defender de três cães que me assediavam, enquanto ao lado deles brilhava o espectro de Mônica, a incitá-los, esperando que diante daquilo eu cedesse ao pacto que propunha.
— Júlia! Lia! Estou aqui... protejam-se!

Júlia se abaixou, levou a mão às costas e sacou a 32, uma beretta cano curto, cromada, desferindo três disparos contra os cães. Com dois tiros matou o primeiro, o terceiro tiro fere o segundo cão que foge ganindo, e o outro animal a fita nos olhos e se prepara para o ataque, quando eu salto sobre ele e atravesso o seu tórax com a faca, ferindo-o de morte.

Nesse momento, o espectro de Mônica, que já se apresentava transfigurado, vira-se para elas, gritando que iriam se arrepender por terem interferido. Nisso Júlia e Lia já se colocam nas pedras, ao meu lado. Júlia, tomando a frente, desafia Mônica:
— Sabemos quem é você e o que pretende. Curve-se à Luz e siga seu caminho!
— Vocês não sabem nada, não tem a mínima idéia, e nem podem fazer nada contra mim. Vão embora daqui, vocês não tem nada do que eu preciso, meu assunto é com o Luca.
— Nós não vamos embora antes de encaminhá-la, Mônica, e levar Lucas conosco.

Enquanto ela fala com Mônica, Lia me conta que descobriram que o espírito de Mônica teria sido vitima do naufrágio que comentara comigo, e de alguma forma teria ficado presa por tanto tempo na praia, onde alguns corpos foram encontrados.
— É muito mais que isso, Lia, respondi. Dei-me rever este livro.

Com a lanterna de Júlia eu lia rapidamente o texto, Júlia se aproxima de mim, enquanto Lia encarava o espectro, proferindo as palavras rituais de encaminhamento daquele ser atormentado:
— Mônica de Freitas Montenegro, falecida aos dois dias de setembro de 1939, por afogamento no naufrágio e cujo corpo foi jogado pelo mar nessa praia, nós encaminhamos você à custódia dos Exércitos da Luz!

Nesse momento Júlia acende a primeira das três velas brancas rituais. Minha mente foi tomada pela angústia enquanto minha alma rejeitava a descrição de Mônica, não parecia em nada ser com a pessoa com quem eu falara tantos meses, algo estava muito errado. No momento em que Lia termina de, pausadamente, falar as palavras rituais, Mônica gargalha:
— Como vocês são tolos em acreditar que com isso podem me deter! Aprendi a me fortalecer e agora Luca dará o que eu quero, senão ninguém sairá desta praia!

Atônitos, nos entreolhamos enquanto Mônica prosseguia:
— Se eu consegui até agora me furtar ao barqueiro, o que os faz pensar que vocês me dobrarão? Em breve meus auxiliares estarão aqui, e vocês verão seu fim! Luca, dê-me um pouco do seu sangue, que eu os pouparei, caso contrário destruirei seus corpos e aprisionarei seus espíritos a esta praia para sempre!

Enquanto falava, um bando de morcegos saiu das árvores e nos sobrevoaram, guinchando, quase tocando nossas cabeças. Não entendíamos o que acontecia. Se invocar o encaminhamento do espírito não resolveu, o que deveríamos fazer? Por que não surgiam as Legiões da Luz para levá-la e nos socorrer?

Júlia tenta acuar Mônica com ameaças, valendo-se de sua segurança nata e personalidade forte. Lia desmancha, em vão, o farol que eu formara com as velas, que já estavam em toco, despeja a água, que já estava turva, e desfaz o triângulo azul, deixando o cristal que estava sobre ele cair na areia. Depois, com o bico de ganso que mergulha no tinteiro escreve o nome de Mônica no papel e ateia fogo. Mônica ria, olhando com desdém os nossos esforços. E continuava lá.

O relógio já marcava 23:55 horas, e tentávamos sair daquela praia, mas Mônica não permitia, cercando-nos. Eu não conseguia ligar a história de Mônica à personalidade que ela me mostrara, achava que pequenas coisas não combinavam com o que se contava, ela não poderia ter sido aquela cortesã descrita no livro. Isso me incomodava muito. Aqueles sonhos de liberdade, a insistência na vontade de recomeçar, a esperança que tinha no amor... não, definitivamente isso não combinava com a história da mulher que por dinheiro entregara a vida de seu amante. Concentro-me nisso, pois ali poderia estar a chave de tudo.

De repente percebo a realidade, como se um raio houvesse aberto minha cabeça e descortinado aquela verdade. Pego novamente o livro das mãos de Lia e ilumino a página com a lanterna, e dirigindo-me para o espectro grito, a plenos pulmões:
— MARIA HELENA VOIGT, falecida aos dois dias de setembro de 1939, morta por afogamento no naufrágio e cujo corpo foi jogado pelo mar nessa praia, nós a encaminhamos à custódia dos Exércitos da Luz!
— NÃAAAO! Cale-se!
— MARIA HELENA VOIGT – eu repito, agora com mais convicção – falecida aos dois dias de setembro de 1939, morta por afogamento no naufrágio e cujo corpo foi jogado pelo mar nesta praia, tendo assim interrompida a sua trajetória para uma nova vida, livre da opressão de um marido cruel e que viveria nos braços de seu amado primo Ricardo, nós a encaminhamos à custódia dos Exércitos da Luz!
— Não faça isso, desgraçado! Você não pode tirar a oportunidade que tenho de reencontrar a vida! Não faça isso, Luca, não tire de mim o direito, depois de tudo a que me submeti, todos os serviços que prestei, de ter a mim e a Ricardo juntos, como nunca conseguimos ficar...

Repeti pela terceira vez, agora em coro com Júlia e Lia, que a esta altura, compreendendo o que eu fazia, já tinham preparado o sinal na areia, o triângulo de velas inclinado em um monte de areia a fim de que fosse visualizado do mar – e do céu. Nos vértices os buracos em forma de copo onde as velas ardiam, protegidas do vento. Júlia escreveu com a pena em outro papel o nome de Maria Helena, ateou fogo a ele e o depositou ao centro desse triângulo.
— MARIA HELENA VOIGT, falecida aos dois dias de setembro de 1939, morta por afogamento no naufrágio e cujo corpo foi jogado pelo mar nessa praia, nós encaminhamos você à custódia dos Exércitos da Luz!

Maria Helena lança um grito horrendo quando viu se aproximar, em rápido marchar sobre um facho de luz, uma legião de soldados que a suspendem pelos braços e a levam, desaparecendo à beira do mar, num relampear. Olho para Júlia e para Lia, e tudo começa a escurecer em favos à minha frente. O relógio marcava a hora exata da passagem dos dias.

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O raio de sol penetrou entre as frestas da cortina atingindo o rosto e me despertou. Abri os olhos e lentamente os percorri pelo quarto. Na poltrona em frente à cama percebo Júlia e lhe sorrio, dizendo-lhe bom dia.
— NUNCA MAIS, você vai me jurar AGORA que nunca mais se aventurará sozinho com uma coisa dessas, sem antes conversar conosco. Você correu sério risco esta noite e ainda por cima me deu um trabalhão danado, além de matar a Lia de preocupação! Prometa que nunca mais vai fazer uma coisa dessas!

A zanga de Júlia era uma estrela fulgurante: com um brilho intenso explode no espaço, mas não fica muito tempo a enfeitar o firmamento. Eu conseguia ver, através dessa explosão, toda a preocupação que ela tinha para comigo. Sorri-lhe em resposta, no momento que Lia veio nos chamar para o café da manhã, com um sonoro bom dia. Definitivamente Lia sabe fazer um bom café. Estava faminto. Faminto e leve. Passamos a manhã conversando sobre o que ocorrera: — a história do naufrágio, meu envolvimento com Mônica, a invocação por parte de uma “moça” que fez com que Maria Helena ficasse a serviço das sombras e atuasse sob seus ensinamentos. Os perigos que rondavam as salas de bate-papo onde os internautas, na ilusão do anonimato, abriam a sua alma a quem mal conheciam, correndo o risco de se colocarem nas mãos de embusteiros de dois mundos.

Na história do mundo, sempre existiram generais e seus soldados, buscando suas vítimas, ávidas de atenção, e eles haviam invadido mais uma seara. Acabaram-se os novos tempos de inocência, pois o mal já estava enraizado no universo virtual.

Tínhamos vencido essa batalha, e encaminhado Maria Helena. Eu, porém, tinha sido a vítima dessa ilusão. Assumindo a identidade de Mônica, Maria Helena não só logrou parecer mais bela e atraente aos olhos de quem a conhecia através da rede mundial. Com isso protegia sua identidade e dissimulava seus sombrios intentos. Através da magia negra pretendia atingir a materialização, sua e de Ricardo, mesmo que para isso precisasse sacrificar outras vidas ou almas. Preciso aprender a lidar com isso.

Logo após o café nos despedimos. Júlia partiu. Eu parti. Lia retomou seu trabalho. Eu só quero ir para casa. Eu preciso ficar só. Os últimos acontecimentos deixaram um enorme vazio dentro de mim que eu preciso resolver. E preciso fazê-lo antes que venha a reação do general que sofreu uma baixa, por nós provocada, em seu sinistro exército.

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Longe, bem longe dali, Marissa acorda fraca, com dores e mal-humorada. Seu primeiro pensamento foi lamentar ter dado o cão para a amiga, pois se ainda o tivesse poderia lhe imprimir alguns castigos. Dirige-se ao quarto onde está o seu “altar” particular e verifica que mais uma das velas negras havia se apagado e partido durante a alta madrugada. Compreende que perdera mais uma vez, e não poderia contar mais com Maria Helena para seus propósitos.

Seus olhos faíscam. Marissa exala ódio pelos poros e pela gota de pus que lhe escorre da chaga que porta desde que tivera que pagar seu preço.

Perder tal batalha certamente lhe custaria outro castigo.