A três irmãs





Olgierd Sokolowski

 


 

Ciréia, Sinara e Cléia. Três irmãs muito distintas, duas na casa dos trinta, a última inciando seus vinte. Não poderia haver algo mais desigual. Cada uma um temperamento e um destino diversos. Quase nada tinham em comum, a não ser os pais. Pouco mais. Ou melhor, apenas a mãe. De dois relacionamentos interrompidos, as duas primeiras foram geradas no primeiro e a outra durante um tórrido romance. Cada uma tinha seu traço típico. Ciréia, a mais velha, era escriturária. Precisa. Cética e decidida. Sinara, a do meio, mais nova do primeiro, tornara-se rebelde sem causa. Por vezes perdida em seus próprios conflitos, nada sabia construir, e a tudo consumia, incluindo a si mesma. E Cléia, a caçula, era uma romântica. Sonhadora. Avoada. Parecia que tudo lhe escapava da ponta dos dedos: desde os amores até os empregos. Mas sabia que ainda algo faria que a fizesse feliz. E assim vivia. Curiosa, em tudo metia o nariz. Gostava de aprender, mas somente retinha o que lhe interessava. O mais, descartava.

Cléia se tornara estagiária no meu escritório por acaso. E foi como a conheci, e por ela essa sua curiosa família. Tendo dispensado estagiário em data imprópria, poucos se apresentaram para preencher sua vaga. E ela veio do nada. Em entrevista, foi Cléia que despertou a atenção, e vislumbrei nela bom potencial. E assim a escolhi. Duas semanas após iniciar, as suas características já eram notadas. Aparentava menos idade. Dezessete ou dezoito, eu diria, não os vinte e um e o quinto período de Direito. Mas a sua vivacidade e alegria, nos dias bons, faziam diferença no escritório, e animava a todos. Até a mim.

Dizem que as bruxas somente tem filhas mulheres. Parecia ser este o caso de Divinéia, mãe das três. Quarenta e nove anos aparentando menos dez, tomada por vezes como irmã das filhas mais velhas, a contragosto daqueles rebentos. Era uma mulher que decidira viver só, libertando-se do jugo machista de seu primeiro companheiro, viúva do segundo, ambos rasos em questões místicas. De intuição acurada, ela cultivava o conhecimento das ervas e das cartas de tarô egípcio que, diz-se, lê como ninguém.

Filhos homens, fala-se das bruxas, elas os tem somente quando conscientemente o querem, e um mago se disponha a fecundá-las. Senão, não. Homens comuns, ignorantes das forças ocultas, não têm esse condão. Homens comuns, que pensam ter gerado em bruxas filhos homens, atentem..., ou melhor, nem tentem, pois nem um exame de dna provaria o contrário. Mas que não são eles que geraram o menino, não foram. As verdadeiras bruxas têm filhas mulheres para prosseguir na tradição. As bruxas que tem filhos homens, o fazem por um amor maior ou por uma predestinação. As bruxas são as conhecedoras das forças da natureza. Da natureza da mãe Terra.

Mas das filhas das bruxas nem todas bruxinhas são. O dom não se transmite assim. Somente aos sete anos de idade se pode ter certeza se foram dotadas, aos quatorze se foram capazes de preservar o dote e o desenvolver, aos vinte e um decidem abraçar ou não o culto à mãe terra e se submeter à iniciação, aos vinte e oito se submetem ao teste de aprendizado e seguem seus destinos. Há bruxas, não muitas, mas nem tão poucas que constituam mera exceção, que pulam o estágio em sete anos, e assim aos vinte e um já são senhoras de seus poderes. Aos quarenta e nove ou cinquenta e seis são verdadeiras mestras, e daí em diante somente crescem em sabedoria. Há outras, porém, que atrasam seus estágios em sete ou quatorze anos, e assim não chegam a se revelar. São pessoas mais intuitivas que as demais, é verdade, mas pouco disso passam.

Desgosto maior para uma bruxa-mãe está entre verificar que uma de suas filhas tem o dom e não o exerce da forma que convém, mais do que constatar que uma de suas filhas não possui o dom. Divinéia passou pelas três experiências: tivera duas decepções e uma alegria. A caçula era o seu contentamento.

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Cléia desce do tubo do ligeirinho e segue apressada sob o ar gélido da manhã seca, antes da neblina se dissipar por completo, permitindo assim que o sol banhe a cidade. Cabeça baixa, concentrada no ruído que o salto do sapato produzia pelo próprio caminhar, entra no edifício e segue, esbaforida, para o elevador. Chegava com meia-hora de atraso, e eu a incumbira de reagendar alguns contatos. Enquanto distribuía um rápido bom dia, verificava se o café havia sido passado e em seguida ouvia os recados da secretária eletrônica, relacionando-os para mim. Depois passou a reagendar os compromissos. Pediu desculpas pelo atraso, alegando problemas em casa, os quais, naturalmente, não declinou. Mais tarde eu o soube. Sua mãe, Divinéia, engravidara. Na idade em que se encontrava, engravidara. Guardava segredo da paternidade, somente dizendo às filhas que o pai da criança era alguém muito especial, e que o bebê seria um menino.

Desnecessário descrever a comoção que o fato provocou na casa das três irmãs. Sua mãe, quase aos cinqüenta, grávida. E nem conheciam o pai. Ciréia se preocupou com o futuro da criança e os riscos que a mãe corria com um parto nessa idade. Cléia se alegrou.

Sinara, ao saber da gravidez, disse que a mãe não sabia no que poderia estar se metendo, e por isso tiveram áspera discussão, em que a filha tentava fazer ver à mãe que ela poderia ter sido iludida pelo pai da criança. Ao final, ambas concordaram que estava na hora da filha partir, e encontrar seus caminhos.

Quando aconteceram essas coisas, eu já mantinha um bom convívio com todas as mulheres da família, amigo que fiquei dessas essas fascinantes criaturas. Tentando ajudar, entrei em contato com Renata, que auxiliaria Sinara a encontrar um emprego em São Paulo. Divinéia entristeceu-se com a partida dela, mas sabia que nada podia fazer a respeito, pois sua filha teria que encontrar o próprio caminho. Sinara não herdara o dom. Não poderia, assim, compreender o que se passava, pensava Divinéia.

Ciréia e Cléia, ao contrário, enchiam a mãe de cuidados, a primeira procurando a segurança daquele que estava por nascer, e com a saúde da própria mãe. Cléia planejava os carinhos e cuidados que dispensaria ao irmão. A gravidez ainda estava no início, mas ninguém duvidava que estava para vir um menino.

Nos primeiros quatro meses de gravidez Divinéia tomou todos os cuidados. Pré-natal, exercícios, dieta, ervas adequadas, tranqüilidade e recolhimento. No quarto mês, no café da manhã, Divinéia conta ter tido um sonho muito significativo, e que isso a fizera tomar uma resolução, comunicando às suas filhas que as deixaria em Curitiba, e seguiria para a chácara de sua velha mãe, às bordas do Canyon Quartelá. As energias de lá seriam muito favoráveis para o desenvolvimento da criança que crescia em seu ventre. A anciã, por sua vez, havia sido parteira por toda a vida, e embora já contasse com mais de 80 anos, tinha muita energia. Ciréia não aceitou a decisão, tentando por todos os meios dissuadir a mãe, alegando que a gravidez era de alto risco e seria uma irresponsabilidade ficar longe dos recursos da medicina quando da ocasião do parto.

Cléia quis largar a faculdade e o estágio para ir junto.

Acalmando a primeira e dissuadindo a caçula, Divinéia em duas semanas partia só, e as filhas, a cada final de semana, viajavam para fazer companhia à mãe e à avó na chácara. Conversavam muito. Cléia cada vez mais assimilava os conhecimentos que sua mãe e sua avó lhe passavam, e se envolvia com os segredos da mãe Terra. Ciréia acompanhava ao largo, porém uma sombra a atormentava, no fundo de sua alma.

Passaram-se os meses, e a criança estava em vias de nascer. Cléia não cabia em si de contentamento. Nas conversas do escritório, era tudo sobre o que ela sabia falar: do irmão que estava por nascer. Certa manhã, contudo, chegou trêmula, totalmente em choque, e pediu para falar comigo. Trazia nas mãos uma citação judicial e a cópia do pedido inicial. Vendo o estado em que ela se encontrava, pedi que se acalmasse enquanto eu analisava aquilo. Fechei a porta da minha sala, servi-lhe um copo de água com açúcar, a fim de que ela retomasse seu controle. Sentei na poltrona de minha escrivaninha e li, pausadamente, a petição. Tratava-se de uma Ação de Reconhecimento de Paternidade de Nascituro cumulada com Pedido de Guarda, alegando, entre outros, a instabilidade emocional da mãe. Pleiteava também que ela fosse apresentada em juízo e ficasse sob custódia, a fim de evitar que ela se evadisse com a criança, que o autor alegava ser sua. Analisei os argumentos jurídicos calmamente, li pausadamente o pedido e por fim presto atenção no nome do autor e quem patrocina sua causa. A advogada é Larissa. Tínhamos outro embate.

Então me voltei para Cléia e disse que eu pegaria o caso, e que ela ficasse tranqüila, que nós nos sairíamos bem.

Tentei descobrir de Cléia quem era esse tal Franklin José Peixoto, ela porém não o sabia, nem Ciréia. Contudo, ambas tinham medo de perguntar à mãe, em fase final de gravidez, e que de nada sabia, pois estava na chácara da avó. Pesquisei. Utilizei-me de informantes, usuais ou não. Como Renata orientara Sinara em São Paulo, comentei o caso com ela. Ela se arrepiou, e me questionou por não ter trazido isso antes ao seu conhecimento. A Irmandade entrava em ação.

Franklin, um indivíduo de 33 anos de idade, jovem empresário de sucesso, mais não de conceito, pois o seu pretenso brilho não emanava de luz, mas de sombras. Tivera um processo arquivado, por falta de provas, que o envolvia a uma certa rede de pedofilia pela internet, desbaratada anos atrás. O que ele pretendia com essa ação, não se sabia. As meninas não acreditavam que ele fosse, realmente, o pai. Não houve alternativa a não ser falar com Divinéia, e deixá-la ciente da situação, e o fizemos. Ela se recusou, embora eu insistisse, a revelar quem era o pai, mas negou peremptoriamente ser este tal de Franklin.

Preparamos as defesas. Os dias se passaram.

Era sexta-feira. Mudança de lua. Cerca de meio-dia e me preparo para ir almoçar. O telefone toca, e Renata, com emergência na voz, fala, sem rodeios:
— Luca, a batalha agora não é judicial. Pegue as meninas e siga para a chácara o quanto antes. Você sabe o que nós combinamos para esse caso. Vão para lá o quanto antes, e garantam que nada irá acontecer à Divinéia nem ao bebê. Não faça nada até eu chegar. Estou a caminho e devo chegar ao anoitecer.
— Na virada da lua?
— Exatamente... protejam-se!

Não pensei duas vezes. Chamei Cléia e e Ciréia, arrumei algumas coisas, e seguimos direto para o Canyon Quartelá, uma viagem angustiante de quase duzentos quilômetros, partindo de Curitiba. Uma viagem contra o tempo. Não havia telefone lá, nem sequer o celular recebia sinal. As duas, a anciã e parturiente, estavam isoladas, contando apenas com um caseiro velho e solteirão que cuidava dos afazeres da propriedade, e que naquele dia saíra a fim de comprar arame farpado na cidade próxima. A estrada estava boa. As meninas tensas. Chegamos. Tudo estava bem. A anciã percebia tudo o que estava se sucedendo, e fazia seus próprios preparativos. Protegia a casa. Fechadas as venezianas de madeira, todos nos recolhemos, e lá esperamos.

A temperatura de Divinéia começa a subir, e ela passa a se sentir mal. Os tremores que se assomavam fizeram com que a anciã preparasse uma infusão que a acalmasse, mas que não afastou de todo os sintomas. Inicia-se o anoitecer. O vento passa a se intensificar, e ouvem-se rosnados e latidos de cães selvagens que perambulam naquela região. Nos sentamos todos na sala, e lá permanecemos. Alguém falou em fazer alguma coisa, mas lembrando das instruções de Renata, acalmei a todos e pedi que permanecessem vigilantes e serenos. Os latidos, uivos e ressonados se aproximam da pequena casa de madeira, tão perto que se percebe o arranhar das patas e fungar das fuças nas frestas da porta, e o rodear dos cães pelo abrigo, em busca de um acesso para o seu interior.

A sensação é horripilante. Alguma força das trevas muito se empenhava em atacar aquela criança que estava por vir, atentando contra sua mãe. Nos entreolhávamos, mas nada se dizia. Cada um reagindo à sua maneira às incursões do mal. Eu e Ciréia circulavamos pela casa, verificando todas as entradas, alçapão, portas e janelas, a fim de assegurarmos de que todas estavam devidamente vedadas. Em cada uma delas eu grafava o símbolo de proteção da Irmandade, mantendo o pensamento o mais elevado possível. Três lagartixas correm pelas paredes, em várias direções, como se tecessem uma rede invisível a envolver toda a sala. A anciã se recolhera em si mesma, permanecendo numa quietude esplêndida, em profunda concentração, sustentando a casa. Cléia ficara junto à mãe, consolando-a, procurando um pouco de conforto para seu intenso mal estar.

Quando o vendaval aumentava, parecendo, em suas fortes rajadas, estremecer a casa, ouço um buzinar insistente. Era Renata em seu ford Ka. Logo em seguida, ouço vários disparos de arma de fogo e o chamado de Renata. Abro cautelosamente a porta da frente, munido de uma faca de mato, e vou para o alpendre, quase tropeçando em três cães selvagens que jaziam mortos. Olho em frente e vejo Renata perscrutando ao redor de si mesma, buscando mais algum animal, o qual emitia um grunhir sinistro, mas não se mostrava, valendo-se da vegetação ao lado da casa e do manto da noite. Ao lado de Renata vejo Sinara, portando uma carabina. Ambas correm em minha direção, Renata guarda sua arma, concentrando-se em chegar até Divinéia, que gemia e se contorcia, dor e terror mesclados na tez agora frágil daquela mulher. Sinara me entrega a pequena espingarda com a qual abatera um dos cães e uma caixa. Eu recarrego a arma e dou a cobertura pedida por Renata, que imediatamente abre um pote de onde retira com a mão uma espécie de pasta verde-amarelada, que espalha na testa de Divinéia, e levanta o vestido dela, fazendo menção de passar o mesmo preparado na barriga e baixo ventre. Saio, fechando a porta, e me posto do lado de fora, esperando defender a casa de qualquer ataque. O vento era tão forte que certas rajadas me obrigavam a enlaçar um dos pilares do alpendre, a fim de não perder o equilíbrio. Lá dentro eu sabia estavam fazendo o que precisava ser feito, mas não sabia como isso acontecia. A mim cabia apenas não permitir que as forças das trevas ultrapassassem aquela porta. Para as feras, eu tinha a espingarda. Para as bestas, a força da Irmandade, concentrada na ponta da faca-de-mato, e no mantra que eu recitava sem parar. Lá de dentro se ouviam gemidos de Divinéia e o corre-corre das demais mulheres. Ouço um rosnar nos arredores. Um grito em desespero vindo lá de dentro. Da mata, um cão enorme e feroz parte diretamente contra mim, que por minha vez me anteponho à porta. Disparo. O cão cambaleia, mas se refaz e espumando, como que impulsionado por uma fúria sobrenatural, vem contra mim. Meu coração na garganta, todos os sentidos acurados. O vento uiva, o animal salta sobre mim. Suspendo a faca e a mantenho com todas as forças. Um choro de recém-nascido é percebido. O vento cessa. O cão, no salto insano, enterra seu peito na faca e cai com todo seu peso ao meu lado. Fico paralisado, olhando para aquele fétido animal, agora inerte e envolto em uma poça de escuro sangue. Saio desse transe pela correria que se seguiu. Sinara sai carregando o pequeno, Ciréia e Renata levam Divinéia e entram no carro. Pedem para eu ficar e cuidar de Cléia e da Anciã, e partem em direção ao hospital mais próximo, a dezenas de quilômetros dali.

Ficamos, então, diante daquela quietude aterradora, ainda em alerta, diante do acontecido. Cléia não estava em condições de contar o que acontecera, e a anciã se dizia muito cansada, mas satisfeita, dizendo que o que tinha que ser feito, foi feito. Nós a levamos para cama e cobrimos. Ela adormeceu quase que imediatamente. Ficamos, eu e Cléia, sentados na frente da casa, apreciando a noite que agora se mostrava calma e estrelada. As lagartixas se põem lado a lado e desfilam pelo pilar do alpendre, e desaparecem pelas frestas a seguir. Nada mais falamos até o clarear. Apenas saboreávamos um café bem quente que eu fizera para espantar o frio. Amanheceu. Voltamos, os dois, para Curitiba. Tudo havia acabado.

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Na semana seguinte ingresso com um pedido de extinção do processo pela perda do objeto da ação, juntado ao pedido de arquivamento a certidão de óbito de recém-nascido, lavrado com base em declaração oriunda de uma pequena clínica localizada numa das cidades próximas ao Canyon, e o Juiz decidiu que o caso deveria ser definitivamente encerrado.

Nunca saberei exatamente o que se passou ali, enquanto eu estava lá fora. Todas, inclusive Renata, afirmaram que a mim não era dado saber. Era um segredo que somente cabia às mulheres conhecer.

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Divinéia e suas duas filhas, Ciréia e Cléia, retomam suas vidas em Curitiba. Sinara regressou para São Paulo com Renata. Por quase um ano sequer se comunicaram. Agora todas estão em festa. Semana passada Sinara veio visitar a mãe e as irmãs, conta de um grande amor que vivera, logo que chegou em São Paulo. Conta, com tristeza, que ele morrera em um acidente automobilístico, mas que mesmo assim ela tentara prosseguir a sua vida em São Paulo, porém não conseguiu, e agora regressava para o seio da sua família. Quando chegou trazia nos braços, adormecido, um rechonchudo bebê de oito meses de idade, única lembrança, segundo ela, do grande amor que vivera na grande metrópole.

E todas as quatro iriam educar aquele bebê cercado de todo o carinho que essas encantadoras mulheres poderiam dar.