O Colar
O sol se esconde, e percebo que leva consigo o calor do dia. Curitiba então revela sua verdadeira face, numa noite linda – e fria. Caminho por suas ruas, observando os tubos do ligeirinho – cápsulas apinhadas de pessoas que aguardam serem devoradas pelo monstro, ente prateado e barulhento, que após digerir-lhes os bolsos os cuspirá perto de seus abrigos, de onde saem, qual formigas, no amanhecer.
Verdade. Nunca pensei que aconteceria. Não com Lia. Justo agora ela se afasta. Justo agora. Em sonho recebo um alerta. Em vigília eu me preocupo. Preciso falar com Renata. Ligarei quando chegar em casa.
— Marcos?Surge à minha frente, rosto semi-encoberto por capuz, um homem mal vestido, longas barbas claras, não grisalhas, louras. Assusto-me, porém trato de me acalmar, e respondo, em alerta, automática e pausadamente, involuntariamente declinando meu nome.
— Não, não sou Marcos. Sou Luca, sinto muito.
— Mas onde está meu filho?
— Perdão, não sei de quem o senhor fala.
— Do meu filho! Ele saiu de casa já faz treze anos, e nunca mais o vi...
— Com licença, senhor. Eu lamento muito, mas não posso ajudar.
— Tome.Dizendo isso o homem empurra um pequeno embrulho na minha mão. Instintivamente seguro. Reajo. Digo que não sei de que se trata. Ele, olhos vidrados, diz para eu entregar o embrulho ao Marcos, que ele saberá que foi perdoado. Quando eu quis devolver o embrulho, o homem me empurra e eu, pelo desequilíbrio, caio sentado em uma das centenas de floreiras espalhadas pelo centro e, quando me recomponho e o procuro, não o vejo mais por ali. Pensei em largar o embrulho lá mesmo. Nada mais a fazer. A curiosidade foi maior, e terminei por levar o pequeno embrulho ao bolso do casaco e fui para casa. Precisava falar com Renata.
Chego. Digito o número. Deito no sofá. Falar com Renata só deitado. Sentado dá dor nas costas. É tanto assunto para uma mulher só... Ela não compartilha minha preocupação com Lia, está segura que isso talvez seja necessário, que ela deva aprender algumas coisas por si mesma. Precisamos entender o que se passa. Vou dormir.
Estar só também pode ser bom. Mas é frio. Como Curitiba. Guardo o casaco no armário. Na cozinha a água ferve para o chá. Banho para lavar o dia. Chá para espantar o frio. Sono para embalar o coração. Manhã para reiniciar a luta. Labuta.
O corre-corre do meio dia me leva a um bairro distante, o Passaúna, a procurar endereço de um cliente. No caminho, resolvo ir ao parque. Pequeno passeio para renovar energias. O dia todo com a sensação de alguém me segue, mas não confirmo a suspeita. Impressão de que as sombras têm olhos, observam, observam... Lembro do embrulho, o que teria? À noite vou ver. Como pude esquecer dele? A rua secundária pela qual transito é escurecida pela copa de árvores antigas. Meu coração se oprime, algo está errado. Os pelos do braço se eriçam. Não tenho dúvidas: faço a volta e saio imediatamente dali, desistindo de localizar o endereço.
Trato de me acalmar. Dia perdido, volto ao centro: banco, supermercado, casa, enfim. Vou ficar aí o resto do dia. Adeus mundo exterior. Vou ver o embrulho. Abro. Lá está o colar negro. Opaco. Não o acho belo. Não percebo a arte. Não o quero para mim, nem presenteá-lo a ninguém. Sentimento estranho... Volta para o embrulho, e este para o bolso do casaco, no armário. Preciso devolver isso, não quero ficar com ele. Sensação ruim me invade. Vou ouvir Chopin e me acalmar. Ler, talvez.
A noite avança. Durmo. Sonho. A sombra retira o colar da redoma e envolve o pescoço da bela, e ela se compraz. O rapaz, ali no canto, chora de cima do mirante: diz que não foi ele. Gargalhada da bela, que aperta o colar no busto de manequins sem rosto, ao mesmo tempo recita mantras sombrios. Ventos sopram, aos uivos, e eu acordo suado. Agoniado. Chá de jasmim e meditação na sala. Percebo as imagens mentais, quadros que contam a história. É madrugada. Sobressalto com o telefone. É Renata perguntando o que estava acontecendo. Pressentira algo de ruim e poderoso.
— Suma com isso! - Ela é categórica. — Você sabe que não é bom.
— Não basta sumir, Renata.
— Como assim, não basta?
— Sabe, mãos erradas...
— Eu sei, eu sei, não preciso que você me diga. Destrua, então.
— Não posso.
— Por que?
— Equilíbrio. Deve voltar de onde veio, eu acho.
— De onde?
— Do fundo.
— Da terra?
— Não, Renata. Sinto que do fundo da água.
— Vou procurar saber mais sobre isso.
— Nos falamos.Dia seguinte. Mais um dia ganho. Volto a pensar no colar. Entre as pessoas na rua reconheço o homem de barbas. Vou ao encalço. Tenta se esquivar, desaparecer entre tantos, mas o alcanço. Estou sedento de explicações. Ele cede, finalmente, entrando comigo naquela lanchonete de ladrilhos verdes e mesas coca-cola. Uma lagartixa dispara parede afora, dirigindo-se para o fundo da lanchonete. Pedimos café. Vamos à mesa do fundo, sob a lagartixa que quedou-se estática, interrogando-me, e ele desanda a falar. Sem parar, sem tomar fôlego.
— É que naquela noite você estava tão parecido com o Marcos! Como o Marcos deve ser hoje em dia, quero dizer... Estou desesperado. Tem noites que fico assim. Tudo aconteceu faz treze anos, quando eu trabalhava numa fazenda. Norte Pioneiro, sabe? Cuidava das leiteiras da fazenda de um estrangeiro, com uma cor estranha de pele, meio pardo e olhos claros. Acho que era paquistanês. Sei lá o que fazia por aqui. Tinha hábitos estranhos e guardava um colar sob uma redoma, numa saleta decorada com panos púrpura bordados a fios dourados e azuis. Só ele entrava lá. Um dia fui até a casa, com o Marcos, pegar as ordens. Ele, curioso, entrou na saleta, e eu também vi lá dentro. O estrangeiro gritou conosco, e falou umas coisas lá na língua dele, e que estávamos proibidos de entrar na casa dali por diante. Tudo estava voltando ao normal, mas pouco tempo depois o colar sumiu. O fazendeiro culpou meu filho. Achou um botão na saleta, da camisa que meu filho usava no dia. Até bateu nele, mas não quis chamar a polícia.Ele pára a narrativa. Fica distante, pensativo. Meu interesse na história faz com que eu peça uma porção de quibes. Ele parecia não ter se alimentado bem. Então o incito a continuar a narrativa, e ele prossegue:
— A família foi expulsa da propriedade, levando apenas as malas de roupa. Eu não tinha economias, e parece que nada conseguia. Foi uma fase de miséria, em que o azar parecia nos perseguir. Em pouco tempo minha mulher, frágil que era, adoeceu e morreu. Fui à loucura. Acusei Marcos de ser a causa de nossas desgraças e o mandei embora. Ele negara tudo, chorara, mas não acreditei nele. O expulsei e amaldiçoei, e ele partiu. Já se passaram treze anos, e não sei mais dele.Eu estava petrificado com o que ouvia. Sem saber o que fazer, ao ver aquele homenzarrão lacrimejar bem diante de mim. Se o consolava, se ia embora dali ou simplesmente perguntava o que aconteceu depois. Optei pela satisfação da curiosidade. Ele se recompôs e prosseguiu.
— Comecei a beber, a depender da caridade alheia, a andar por aí. Acho que vivi mais de um ano assim. Pouco lembro dessa época. Uma noite fria me recolheram de uma marquise em Porto União, e me levaram para um albergue. Quando lá acordei, no dia seguinte, algo fez com que eu caísse em mim. Decidi que voltaria para o norte a fim de desvendar essa história, saber do colar. Eu tinha visto ele também, sabe? Fui levando a vida, e também comecei a mexer com isso. Larguei a bebida. Arrumei uns bicos e ia quase todo dia na biblioteca, mesmo suportando o olhar torto do pessoal intelectual, sabe, ao entrar lá meio molambento. Eles cuidavam dos bolsos e elas das bolsas. Procurei, procurei, e passei muito temo nisso, muito mesmo, até que achasse algo que me desse uma pista. Era um talismã. Era coisa ruim, sabe? Então eu decidi tirar satisfação com o estrangeiro. Quando ele me viu porteira adentro veio rápido na minha direção, pensei que ia me socar, mas quando chegou perto ele me abraçou. Disse que eu estava muito sofrido. E eu contei ali mesmo tudo que aconteceu comigo e minha família. Ele me deu umas roupas velhas e me mandou para o barracão me lavar e vestir, e depois ir ter com ele. Enquanto eu comia, na cozinha da casa dele, ele me contava que o colar era feito de uma pedra que só dá num rio lá da terra dele, e que tinha poderes, porque imantado com magia, num ritual, pelo tataravô dele. Que o seu pai era sacerdote, e disse que a missão dele era guardar o colar, e assim estaria protegido. Quando o roubaram, ele foi tomado pela fúria que o cegou, jogando toda a culpa no Marcos. Mas depois descobrira que não fora ele, porém não conseguiu mais encontrar a mim e a minha família. Estávamos pelo mundo e ele não sabia de nós. Que depois que fomos embora ele quase quebrou, forças ruins foram jogadas contra a família dele por quem roubou o colar, que tinha que voltar para o fundo da água para se limpar. Que o colar havia sido roubado por quem sabia de seus poderes, e o usou para o mal. E foi só com muita luta que conseguiu evitar a ruína da fazenda e da família dele. E Marcos não sabia nada disso, claro.Outro café servido. Os quibes bons, a história melhor. Em pensamento, ligo tudo que ele me disse ao sonho, e à conversa com Renata. Agora ficou tudo claro, e eu sabia o que tinha de fazer, bastava saber onde e de que maneira o faria. Ele continua:
— Não sei bem como, mas eu acabei sabendo mais do colar, sabia que ele tinha que ser achado e, antes de eu me livrar dele, entendia que tinha que mostrá-lo ao meu filho, para conseguir seu perdão. Queria recuperar para ele, sabe? O perdão é coisa de bom cristão. E ele tem nome de evangelista, que nem eu e meu pai, eu sou Pedro, meu pai é Mateus. Quando parti da fazenda saí de lá resolvido a encontrar o colar, e o fazendeiro, já idoso então, me ajudou como pôde. Deu para mim um pouco de dinheiro e falou muito mais sobre o colar. Contou segredos, e até onde ele mesmo já tinha ido para tentar recuperá-lo. Viajei muito depois disso, e fiz muitas coisas também, até achar o colar. A minha vida agora é encontrar meu filho e levar o colar ao lugar certo.
— Por que não devolveu o colar ao fazendeiro?
— Porque logo depois que achei o colar, roubei ele de volta, na verdade, eu liguei para ele, quando me informaram que ele tinha ficado muito doente, de repente. Viajei até a fazenda, mas cheguei lá e ele já tinha morrido e sido enterrado. Não fosse, eu deixava o colar no caixão. Fiquei sem saber bem o que fazer, pois comecei a ser seguido pelo pessoal da seita que estava com o colar. Tem sido um inferno.
— Mas porque o entregou a mim?
— Porque eles me acharam, estavam perto de mim, e se conseguissem o colar de volta sei que minha vida não ia valer mais nada. E vi em você uma espécie de luz, sei lá, que me fez reconhecer em você o Marcos. Peço perdão por tê-lo envolvido nisso. E agora não sei o que fazer.
— Eu sei. Amanhã vou passar de carro na Praça Osório, ali onde vira para a Alameda Cabral. Esteja lá às cinco da tarde. Não se atrase.
— Aonde vamos?
— Amanhã você saberá. A conta é minha.Saio da lanchonete sob o olhar curioso do chinês, olho no batente e vejo que a lagartixa está sobre o mesmo, com um minúsculo trapo de tecido à boca. Penso nisso.
Em casa finalmente, ligo para Renata. Conversamos. Narro os últimos acontecimentos e combinamos tudo. A hora, o rito, o risco. Renata sabe muito. Depois que mergulhou fundo ressurgiu com força e conhecimento dobrados. E tem trabalho dobrado também. É o pilar. Faço os preparativos. Contemplo o colar fosco e o devolvo para o embrulho. Preciso unir meu pensamento ao da Irmandade. Era tarefa conjunta. Isso ficou claro com o sinal da lanchonete.
Outro dia, hora aprazada. Nada do Pedro na esquina combinada, o que me obriga a dar uma enorme volta para chegar no mesmo ponto. Quando consigo retornar, vejo dentre as árvores da praça Pedro correndo em direção ao ponto combinado. Buzino, me vê. Vem ao meu encontro. Esbaforido ele pede para eu sair dali, que “eles” estariam perto. Sigo sem perguntar nada. Eu sabia de quem se tratava. De novo. Ainda eles. Sigo, na velocidade que o trânsito permite, ao nosso destino.
— Para onde vamos?
— Passaúna.
— Para que?
— Livrar-nos do colar.
— Você não pode fazer isso! Sem ele não encontro meu filho!
— Temos que correr o risco, Pedro. Se não o fizermos será pior. Mas confie, não estamos sozinhos.
— Não?
— Não.Seguimos em silêncio. Estaciono o carro na beira da estrada, do lado de fora do parque do Passaúna, pois já está na hora de fechar, e novos visitantes não são admitidos. Entramos por uma falha da cerca e logo encontramos o caminho que leva ao mirante. Seguimos a passo firme, nos ocultando da guarda do parque. Espero intimamente que Renata esteja a postos. Em sua casa, contemplando o círculo de pedra. Sei que está. Chegamos ao caminho do Mirante, subimos a escada e atravessamos a ponte que a ele nos leva. Mirante de arame, pode-se ver a copa das árvores abaixo de nossos pés. Sempre encantador, agora aterrador. Firmeza no pensamento, ir adiante.
Peço a Pedro para se afastar, e prender-se com o próprio cinto na amurada do Mirante. Faço o mesmo, na ponta do Mirante. Já quase finda o entardecer. Esta é a hora. Tiro a mão do bolso segurando o embrulho. Abro. Com a mão direita suspendo o colar. Começa a ventar muito forte, e das copas das árvores surgem sombras, tentando arrancar o colar de minhas mãos. Eu me concentro e resisto. Agora Renata, agora! Firmo o pensamento na Irmandade. Agora, Renata! Pedro se encolhe, abraçado à amurada, e começa a chorar, clamando pelo filho. As sombras, com dois brilhos maléficos no lugar dos olhos, seguem em direção ao colar. Eu profiro as palavras, e a pedra maior do pingente absorve as sombras, que dentro dela se alojam. O frio é intenso, o uivar do vento por entre o piso aramado do mirante gela os ossos. As sombras pelas frestas também passam.
Estou quase sem forças, a ponto de largar o colar, quando a amurada redonda do mirante vai se transmutando em pedra, o símbolo da Irmandade. O vento ainda está forte, mas desprendo o cinto e percorro os cinco pontos do pentagrama e me posiciono ao centro. Renata conseguira. De onde ela estava formara a proteção necessária de que eu precisava para superar essas energias deletérias. O colar pesa bem mais do que seu normal. Aqueles espectros o carregaram. O vento amaina, quase cessa. Devolvo o colar ao embrulho, e o envolvo num saco de pano. Amarro a ponta. Tiro o cachecol. Do centro do mirante faço do cachecol uma funda, ao centro o colar, e o arremesso em direção ao lago distante. Não me sabia capaz de arremessar tão longe. Na verdade não o sou, ninguém o é. Não fora eu, ou meus braços. Fora toda a Irmandade, com seu braço de Luz. O saco de pano atinge uma altura vertiginosa até atingir o lago adiante, não ao centro, mas em seu local mais profundo. Pouco deu para ver. A noite já se fazia. Quando o saco atingiu a água, passaram-se segundos de indescritível silêncio, até que um raio se desprende do céu escuro e atinge o lago, seguido de um estrondoso trovão. Sem chuva. Sinto-me leve, mas muito fraco, exausto, minha cabeça gira, caio de joelhos ao centro do mirante.
Recupero-me o suficiente para seguir até Pedro, que estava sentado, chorando, murmurando o nome do filho. Eu o desato da amurada e o levanto. Ele se apóia, desconsolado. E eu fraco. Trôpegos, começamos a descer as escadas de metal, voltar ao carro e pensar no que fazer da vida. Sem ter percebido de onde, dois guardas florestais surgem ao pé da escadaria.
— O que está acontecendo aqui? O parque já está fechado!Tento explicar de alguma forma, mas estranhamente emudeço. Foi quando o guarda mais jovem contempla demoradamente o rosto de meu amigo barbudo e, com o cenho franzido, quase gaguejando, indaga:
— Pai?