Mar de Olek

 


Olgierd Sokolowski

 

 

XIV – O prosseguir

 

Os dias se passam iguais. Olek recompõe-se da perda sofrida mantendo uma rígida rotina de atender ao estúdio fotográfico de Victor, acompanhar as notícias, ler, passear regularmente. Durante seus afazeres, amadurece a sua partida para Kraków. Fora o meio que encontrara para reerguer-se e prosseguir com os planos traçados em Moscou: iniciar um novo ciclo, com um novo trabalho, uma morada, e o que mais desejava: um pouco de paz.

A indicação de Nicolai sobre o centro de pesquisas fora muito oportuna. Mandara seu curriculum à Escola de Limnologia, em Kraków, e a resposta, segundo suas expectativas, deveria chegar em breve. Este seria seu novo ponto de partida. Não mantivera outro contato com a casa de Nicolai desde que recebera a notícia da morte de Maricha, mas não esquecera o compromisso de lá passar antes de seguir a Kraków.

Numa manhã, já no meio da semana seguinte, ouve ruídos na porta de entrada, enquanto prepara seu desjejum. Constata que era Victor que chegava de viagem, para o seu contentamento. A rotina a que se impusera poderia ser quebrada: não estava mais só, findaria seu claustro, aprontar-se-ia para o seu prosseguir.

Tão logo chega, Victor explica os porquês de sua demora, os contratempos que o detiveram em Gdansk por aqueles dias, mergulhando de tal forma em seu trabalho que ignorou o que se passara em Warszawa. Ouvira, é claro, sobre o desastre aéreo, mas sequer cogitou que alguém da família estivesse no vôo. No decorrer do dia conversaram muito. Enquanto Victor trabalhava no material fotográfico que produzira, Olek colocava-o a par de tudo que acontecera, desde a ida a Arkadja até o acidente. Victor fica profundamente comovido com os acontecimentos. Ele esperava que, de alguma forma, seu irmão e Maricha resolvessem suas diferenças, que ela desistisse de seguir para Israel, e eles ficassem juntos. Mas não era esse o destino daqueles dois. Ao contrário, uma tragédia ocorrera, e deixara seu irmão soturno, como que perdesse algo do brilho do seu olhar.
Ao jantar Olek se reporta ao estranho sonho que tivera, e por fim conversam sobre a resolução de Olek em seguir para Kraków, caso fosse aceito pela Escola de Limnologia. Foi durante esta conversa que Victor surpreende Olek ao perguntar sobre Tadeusz.

Olek não pensara na tia nem no primo, que deveriam estar sofrendo muito com a morte da irmã. Na verdade, desde o incidente ocorrido quando Maricha foi apanhar suas bagagens, Olek decidira cortar relações com os dois, e a seqüência dos acontecimentos fez com que esquecesse deles por completo. Quando Victor convida Olek para que fossem visitá-los, recebe uma peremptória recusa.
— Sinto muito, mas não irei, Victor. Você pode ir, se quiser. Eu não o acompanharei desta vez.
— Como não acompanhará, Olek? Não se apercebe do que está me dizendo? Maricha era a filha de Janina, irmã de Tadeusz! Lembre-se que nós quatro éramos invencíveis, enquanto unidos! Não pode ter esquecido dos tempos em que estudávamos juntos, aqui em Warszawa. Nos ajudávamos, nos protegíamos!

Olek fica em silêncio, olhando para o irmão, e Victor prossegue:
— Mesmo depois que Maricha foi para a Alemanha, e eu e Tadeusz seguimos para Gdansk, você sempre nos apoiou, e pelo que sei nos salvou da prisão, ou de algo até pior, quando decretaram a lei marcial. E fez isso até que o aconselhassem a sair daqui, quando então partiu para Moscou. Não pode deixar que uma briga os afaste definitivamente dessa maneira para, até numa hora de dor como essa, você se recuse a vê-lo.

Nesse momento, porém, Olek, que há poucos instantes resolvera de si para si que não entraria em conflito com o irmão por causa de Tadeusz, desabafa:
— Uma briga? Você disse uma briga? Victor, você está sendo muito condescendente com ele. Tadeusz, na verdade, me odeia! Jamais perdoou-me por ter me apaixonado por Maricha, e foi o grande responsável pela partida dela para a Alemanha, você bem sabe. Após tanto tempo, quando nos reencontramos — naquele jantar, lembra? — como foi que ele me tratou? Ele não é capaz de sequer lembrar de algo do período da greve portuária, do que fazíamos, mas guarda todo e qualquer resquício de rancor que seus poros possam armazenar. Ele destila rancor, se alimenta de mágoas, exala cizânias e nelas se compraz! Não, não foi por uma briga que eu me recuso a ir ao encontro de Tadeusz, mas pelo que ele se tornou.
— Por Deus, Olek! Pare com isso! Afinal, queiramos ou não, somos uma família!
— Podemos, sim, ter o mesmo sangue, Victor, por nosso dziadzio Julek, sem dúvida nenhuma. Mas isso não foi capaz de nos aproximar. Sabe, meu irmão, eu cheguei a um ponto em minha vida que posso conscientemente decidir com quem não quero conviver, e entre estes estão as pessoas que querem ditar regras para os viveres alheios. Tadeusz é uma delas, e eu quero distância. Está resolvido. Perdoe-me, mas não irei com você.
— Nem para saber se eles receberam alguma notícia de Maricha... ou dos seus funerais.

Olek se desconcerta por alguns instantes. O pensamento que sequer houvera um funeral o acabrunha. Ele conta para Victor como foi a última conversa dela com Janina, e o fato de ter testemunhado aquela despedida somava-se às razões pelas quais não acompanharia o irmão.

Victor desiste. Percebe que nada o faria convencer o irmão a, no dia seguinte, ir ao encontro de Tadeusz, contudo não abandona a idéia de ir ao apartamento do primo, a fim de ter notícias da família. Passam então a conversar sobre a futura exposição de Victor e a expectativa da Escola de Limnologia em Kraków.

¤

Na manhã seguinte, Victor pega o carro e vai até o prédio de Tadeusz, toca insistentemente a campainha, até ser atendido por Janina. Quando chega ao apartamento, esta o convida a entrar, perguntando:
— Soube da tragédia, Victor?
— Somente ontem, quando cheguei de viagem, tia.

Estendendo um telegrama de pêsames da companhia aérea, Janina começa a dissertar:
— Pobre menina, morreu sem conhecer o irmão que lhe restava... sequer um enterro descente teve. Ao menos uma vida boa demos para ela, isso ninguém pode negar. Imagine só, pela história que Tadeusz contou, era para ela ter morrido ainda bebê, lá em Israel, se a verdadeira mãe a tivesse levado consigo...

Horrorizado com os rumos que tomavam os comentários da tia, Victor tenta mudar a conversa, antes que ela viesse com aquela história de que ela era mesmo filha de Andrzej com outra mulher, dizendo:
— Deve estar sendo difícil para a senhora...
A estratégia surtira efeito, e Victor se põe a escutar as lamúrias da tia, que na verdade mais lamentava por si própria que pelo acontecimento em si, enquanto esta o chama para a cozinha e prepara um chá. Depois, enquanto ela lhe serve a bebida, ele pergunta como Tadeusz reagira à notícia, e ouve espantado Janina queixar-se da maneira como ele agia ultimamente, chegando sempre tarde, e que dois dias antes do acidente, passou a noite fora, chegando apenas depois do almoço do dia seguinte e, sem querer comer, logo foi arrumando as malas. Ele disse que tinha uma viagem de negócios, um curso ou algo assim, e que ficaria fora por mais de um mês. Depois disso ela não falara mais com ele. Tadeusz sequer ligara para dizer que chegara bem de viagem. Assim, Janina não falara com ele desde que recebera aquela carta de pêsames da companhia aérea.

Victor vê que a tia continuaria a desfiar suas queixas, então simplesmente concorda que ela estava sofrendo muito, a fim de por termo à conversa que ele mesmo iniciara, mas ela parece nem ouvi-lo e continua:
— Desde o acidente me ponho aflita, a pensar como ele está, se ele soube ou não que Maricha estava naquela aeronave. Veja só que ironia..., ele cuidava tanto dela, e bastou Maricha se afastar dele e pronto, aconteceu esta fatalidade. Não vou sossegar enquanto ele não der notícias. Estou muito preocupada com Tadeusz. Caso ele continue assim, vou aceitar o convite de minha irmã e ir morar com ela em Zacopane. Não vou suportar estes comportamentos de Tadeusz. Ou ele se emenda, ou irei para Zacopane e o deixarei aqui, ele que se vire, aí eu quero ver.

Victor aproveita a pausa da tia que se servia de mais chá e despede-se, não sem pensar que devia dar certa razão a Olek quando este afirmava que Tadeusz tinha uma relação doentia com Maricha, e agora via que não só isso era verdade, mas que ele desenvolvera tal caráter possessivo a partir do comportamento da própria mãe. De fato, Janina dedicava a sua vida exclusivamente para o bem estar do filho, sempre fora assim, com Andrzej e Maricha permanentemente em segundo plano. Já no caminho de volta, ele se dá conta que, durante toda conversa, ela sequer perguntara de Olek, o que viria a reforçar estas suas impressões.

Retornando ao estúdio, Victor comenta o resultado da visita, ao que Olek observa:
— É muito estranho, Victor. Não é do feitio de Tadeusz desaparecer assim, sem deixar endereço, nem entrar em contato por tantos dias com tia Janina. Eles são um do outro, você sabe, sempre foi assim.
— Pois é, Olek. Ou isso ou Janina não quis falar toda a verdade. Depois da briga que vocês tiveram, sendo eu seu irmão, talvez ela não quisesse falar dele. Mas ela parecia realmente preocupada com o sumiço do filho.
— Pode ser, Victor, mas ele já é bastante crescido para cuidar de si mesmo. Como lhe disse antes, espero mesmo que ele esteja se roendo de remorso por tudo que fez à Maricha.

Victor concorda, encerrando o assunto.
— Tem razão. Ele sabe se cuidar, e caso eles precisem de ajuda, é certo que poderão recorrer a mim. Eu já fui até lá. De minha parte, vou me concentrar nos preparativos para a minha exposição, pois ela será daqui a menos de duas semanas.
— Faz bem, meu irmão. E pode contar comigo para o que for preciso até lá, a não ser que me chamem para uma entrevista na Escola. De qualquer modo não deixarei de ver a sua exposição por nada.

Victor sorri. Encontrava no irmão o apoio de que precisava para ultimar os preparativos para e exposição com a qual ele esperava impulsionar a sua carreira.

¤

Em poucos dias, de fato, Olek recebia a esperada resposta da Escola, convidando-o para uma entrevista já para a semana seguinte. Exultou. Era sua partida para um rumo certo, a chance de fazer algo de sua vida que lhe possibilitaria estabilizar-se. Intimamente, ele ainda se sentia como um animal ferido, à busca de uma toca para lamber os machucados, refazer-se. Nada melhor do que ir para Kraków e recomeçar a viver. E isto na cidade que aprendera a admirar desde pequeno, com suas lendas e reis, igrejas, castelos e histórias. Tão logo lê a correspondência, vai dar a notícia ao irmão:
— Victor! Chegou a resposta de Kraków. Fui chamado para uma entrevista!
— Que bom Olek, meus parabéns! Quando você terá que partir?
— A carta marca a entrevista para a próxima terça-feira, mas minha vontade é de partir no sábado!
— Por que a pressa, se faltam ainda seis dias?
— Acho que é por sentir que meu tempo em Warszawa terminou, e eu preciso seguir adiante..., e Kraków bate à minha porta. Creio que venha daí esta pressa.
— Eu entendo isso Olek. Entendo, sim. Mas lamento que seja agora, quando teríamos mais tempo juntos. Eu esperava que você ficasse morando uns tempos comigo, aqui no estúdio.
— Não, Victor, eu não poderia ficar aqui muito tempo, e sem fazer nada. Ia terminar sendo um peso para você.
— Ora essa..., você é meu irmão e também cuida do estúdio! Mas eu compreenderia se você partisse antes. Afinal, temos que seguir a vida aonde ela nos leva, não é mesmo?
— É verdade, difícil é escapar das armadilhas que esta mesma vida nos prepara...

Victor, interrompendo as ilações do irmão, convida-o para sair à noite, num bar onde se tocava boa música, ao que Olek adere. O retorno de Victor, nesse momento, lhe fizera um bem imenso, e a isso iria brindar mais do que à carta recebida. Victor tinha o condão de sempre se apresentar sereno e bem humorado. Sabia olhar para a vida de uma forma leve, alegre, e era bem disso que Olek precisava no momento.

A noite revelou-se memorável, Os irmãos retornam para casa abraçados, ébrios, acordando tarde no dia seguinte, que dedicam a conversas. Enquanto cuidavam do estúdio, Olek fala a Victor que iria fazer uma visita a Nicolai, em Arkadja, no dia seguinte.
— Em Arkadja, mas por que?
— Foi ele que me falou dessa oportunidade em Kraków, além do que pediu que passasse por lá, caso decidisse aceitar trabalhar na Escola. Eu lhe devo esta visita. Você quer ir comigo?
— Não, Olek. Preciso cuidar do estúdio, mas pode levar meu carro, se quiser.
— Está bem, irei pela manhã bem cedo, assim chego até o anoitecer.
— Certo, mas se o tempo não estiver bom não se arrisque. Durma lá e venha no dia seguinte, quando o tempo melhorar.

Estas últimas palavras de Victor, embora inocentes, entristecem Olek, pois o fazem recordar que fora exatamente o que ocorrera quando estivera em Arkadja com Maricha: a volta adiada pela neve e o pernoitar na casa de Nicolai. Olek comenta com Victor, olhos marejados, de como fora a ida dos dois a Arkadja. A saudade queima o peito angustiado de Olek, que reconsidera:
— Pensando bem, não precisarei de seu carro. Posso muito bem seguir de trem até Lowicz, e de lá tomo um ônibus até Arkadja, ou pedir para alguém da casa me apanhar na estação. Ainda assim eu posso voltar com o trem da tarde. Eu quero voltar amanhã mesmo, pois pretendo preparar a viagem a Kraków, e ajudá-lo nos preparativos da exposição, é claro.
— É uma boa idéia também. Não é bom viajar de carro sozinho.
— Vou ligar para Arkadja e deixar um recado, e depois vou descansar enquanto espero um retorno, pois estou um pouco indisposto.
— Está bem. Vá descansar. E obrigado por cuidar do estúdio por todos esses dias.

Repousar. Não, repouso Olek entendia não precisar, não para o corpo, ao menos. Era sua alma que se sentia cansada, seu coração que levava a tristeza de um amor perdido, definitivamente perdido. Sobe para o quarto e, deitado naquela cama, ele se flagra acariciando a coberta onde Maricha deitara na noite anterior à sua partida.

E se não a tivesse reencontrado? E se Maricha, hoje, fosse apenas uma doce e vaga lembrança guardada em seu peito, um grande amor de muitos anos atrás? Talvez a dor não fosse tão grande, talvez ele sentisse apenas uma tristeza nostálgica por um “se” não respondido. Mas não. A reencontrara quando não mais esperava. Tivera anos para se acostumar à idéia que ela fora para a Alemanha, lá se casara, e a partir de onde viveria sua vida nas tournées da orquestra. Naquela época a perdera, e fim. Agüentara aquele baque. Porém a vida lhe reservara o reencontro. Os momentos que tiveram foram por demais densos para serem remetidos àquele amor adolescente. Tudo se transformara, e os antigos sonhos e a nostalgia tomaram uma nova forma, o antigo namoro um novo rumo. Jamais entenderia o porquê dela tanto se recusar em ficar com ele, em apostar nos dois. Agora tudo isso lhe doía profundamente na alma. A perdera três vezes, acreditara duas vezes, amara por duas vezes aquela mesma mulher, que lhe fugira dos braços para encontrar a própria história, e que tragicamente morrera, deixando-o pela derradeira vez. E a lembrança agora se traduzia em uma quase presença. Trazia consigo a forte impressão de seus gestos, de seu sorriso, suas carícias, o seu incomparável perfume que o inebriava, que sempre o inebriara. Perde-se em lembranças antigas, como quando ele chegava da escola, ela já em casa, e se apresentava com seu frescor, com seu perfume, e só agora ele se dava conta que ela se perfumava quando ele estava por chegar. Sempre bela, sempre provocante, sempre senhora de seu coração.

Agora, porém, tudo estava vivo dentro dele, tudo recente, exposto, cru. Não havia como ignorar isso em sua vida, e embora se apresentasse equilibrado aos olhos de todos, eram nesses momentos, em que estava completamente sozinho, que explodiam as emoções em seu peito, vertendo lágrimas sofridas, se não dos olhos, já secos, mas da alma, enlutada. Ela até lhe aparecera em sonho, e ainda em sonho, inalcançável.

Olek adormece, numa confusão de lembranças passadas e planos futuros, e recupera se em um sono profundo, sem sonhos ou presságios, confortos ou sofrimentos. Um sono de exaustão, oportuno e necessário sono, para quem pretendia seguir em busca de seu futuro, de um futuro qualquer que o afastasse daquela dor, que ao menos fosse belo em seu exterior, pois dentro de si, ao menos por agora, tudo era apenas breu.

 

XV – AS ESCOLHAS DE TADEUSZ

 

A sexta-feira amanhece em Warszawa, um céu azul e límpido de princípio de primavera. O prenúncio do fim-de-semana agita a metrópole, e do seu quarto na casa suburbana, Tadeusz vê a claridade se infiltrar pelos pequenos furos da cortina velha. Ele se levanta e desamassa a roupa, como que se preparando para o que seria o grande encontro daquele dia. Esperava que Brunick tivesse entrado em contato com aqueles homens. Caso não o tivesse feito, ele iria até Brunick pessoalmente e o obrigaria a fazê-lo. Acreditava ter deixado claro que não estava para brincadeiras, e iria descobrir a verdade sobre o que aconteceu a Maricha. Achava ter demonstrado que empenharia a própria vida nisso. Acreditava, enfim, que agora estava fazendo a coisa certa. Talvez se procurasse Victor..., afinal quando estavam em Gdansk eles lutaram do mesmo lado muitas vezes pelos novos ventos de liberdade, e quiçá o primo o compreendesse. Mas ao lembrar de Olek, e imaginar a fúria que as atitudes que tomara despertariam no primo, desistiu da idéia. Teria que resolver tudo por si mesmo.

Tadeusz sai do quarto e, ladeando a casa pela estreita calçada, bate à porta da cozinha, onde uma senhora gorda e baixa, de bochechas avermelhadas e marcadas por cicatrizes de antiga acne, vestindo uma camisola branca até os tornozelos, coberta com pesado roupão marrom com listras rosa horizontais, que a deixavam com as ancas ainda maiores, o recebe sem esboçar palavra ou sorriso. Ela põe um velho bule de café à mesa e uma leiteira que fumega. Tadeusz senta-se à mesa, serve-se de uma fatia de pão preto e de café, saindo agradecido, sem também dizer palavra. Ele achava muito estranha aquela mulher, aquele lugar. Mas também pensava que deveriam pensar o mesmo dele. Não dera explicação alguma do que fazia ali. Era evidente que desconfiavam dele, de que estava a fazer algo ilegal, o que, de todo, não consistia numa inverdade.

Tentando desviar das poças daquele chão lamacento, Tadeusz com o carro, vai até um telefone e liga para Brunick. Quando este atende, Tadeusz o interpela:
— É Tadeusz. Falou com eles?
— Falei.
— E então?
— Falarão com você. Marcaram um encontro.
— Onde, quando?
— Hoje, no anoitecer, naquele mesmo celeiro. E querem que eu vá junto.
— Ótimo. Então passaremos o dia por aí.
— Que é isso Tadeusz? Eu tenho muito trabalho aqui. Eu não vou faltar! Passe em minha casa às seis que estarei esperando em frente. Sem falta. Pode acreditar.
— Estarei lá. Esteja também.

Brunick desliga o telefone apreensivo, o que o faz ligar em seguida para o Sacerdote, a fim de dar conta da conversa com Tadeusz. Já contara sobre a noite anterior, e agora afirmava amiúde que Tadeusz poderia causar muitos problemas ainda, e queria se ver livre daquela ameaça, cuidando para deixar claro àquele grupo que ele não tinha nada com o estranho comportamento de Tadeusz. Os detalhes narrados por ele fizeram com que a voz comentasse que saberia exatamente o que fazer para que Tadeusz ficasse quieto em seu canto.

¤

O carro segue pelo caminho de saída de Warszawa, Tadeusz e Brunick lado a lado, em tenso silêncio, rompido pela ansiedade de Brunick, que por uns trocados se envolvera numa história muito maior que ele, e agora não sabia como sair.
— O que pretende fazer indo lá, Tadeusz?
— Por enquanto não é da sua conta, Brunick. Chegando lá você vai saber.
— Eu apenas queria conversar...

Brunick se cala, desistindo de manifestar a Tadeusz que de alguma forma se solidarizava com a situação em que este se encontrava. Tadeusz, por sua vez, não se sentia à vontade para se abrir com o antigo amigo e assessor. Ele queria saber tudo que acontecera em Kiev. Queria saber qual, afinal, fora o destino de Maricha. Queria saber onde estavam os cem mil dólares, pois não era culpa sua de as coisas terem saído errado. Queria saber o que aconteceria dali para frente. Não podia simplesmente olvidar tudo e seguir a vida adiante. Depois de um tempo, Tadeusz diz:
— Toda a minha vida mudou por conta desse episódio. Agora preciso concertar tudo.
— Ninguém concerta o passado, Tadeusz. Convive com ele.
— Eu preciso refazer a minha vida. Você sabe. Deixei um excelente emprego que agora você ocupa. E eu, como fico?
— Você quer o seu lugar de volta, na fábrica? Podemos falar com a Diretoria, e se eles entenderem que é melhor que você reassuma...

Brunick com imenso pesar pronunciava aquelas palavras. Ocupar aquela gerência, poder beneficiar-se das benesses que o cargo lhe permitia para os seus negócios particulares, eram algumas de suas pequenas ambições de vida, mas da forma que os acontecimentos progrediam, pensava que era melhor ter Tadeusz de volta na gerência e ele na assessoria, de onde podia continuar a fazer os pequenos negócios escusos que lhe propiciavam uma renda extra do almoxarifado, e na obtenção de vagas na fábrica. Mas Tadeusz acena negativamente com a cabeça:
— Não conseguiria continuar aqui Brunick. Quero ir embora, tentar a sorte em outro lugar, em outro país.

Ao saírem da estrada principal e tomarem a secundária, que levava ao galpão onde se realizaria o encontro com aqueles estranhos homens, ambos se calam, e a tensão volta a tomar conta dos ocupantes do veículo, e com cautela se aproximam do local. Já é quase noite quando eles estacionam ao lado, notando que atrás estavam parados outros dois carros, ao contrário de um, como da outra vez. Tão logo saem, quatro homens surgem, postando-se, dois a dois, ao lado dos recém-chegados, escoltando-os para o interior do celeiro. Tão logo entram, o Sacerdote os cumprimenta, saindo por detrás da mesa onde se encontrava, e postando-se bem à frente de Tadeusz. Nesse momento, um dos homens que o ladeavam passam a revistá-lo e a Brunick, encontrando a arma com que Tadeusz havia ameaçado Brunick na noite anterior.
— Não precisará disso durante a nossa conversa. Venham sentar-se aqui, vamos beber uma vodka e conversar.

Tadeusz fica surpreso e contrariado pelo fato de lhe tomarem a arma, mas sabe que nada pode fazer a respeito. Era um jogo, e ele precisava jogar com maestria, então não resiste e reage com naturalidade àquele fato. O Sacerdote, por sua vez, calmamente serve os pequenos copos com a vodka, e num gesto simulando um brinde, sorve a bebida lentamente, incitando os outros a acompanhá-lo. Depois, olhando para Brunick e em seguida para Tadeusz, indaga a este último o que tanto precisaria falar com eles, que não pudesse aguardar o contato, como fora combinado. Tadeusz, recusando ser tratado como se fosse um adolescente inquieto, à procura de respostas para tudo, resolve ir direto ao ponto que mais lhe atormentava:
— O que, afinal, aconteceu com Maricha?
— Ela morreu no acidente aéreo, Tadeusz. Você leu em todos os jornais...
— Não pode ser verdade! Ela não iria embarcar naquele avião, nós sabemos, vocês me garantiram isso!

O homem sorri, um olhar arguto perscrutando Tadeusz, como a avaliar quais seriam suas reações, pelo que ele revelaria a seguir. Passados tormentosos segundos em que o silêncio reinou no galpão, ele indaga:
— Nada do que for dito aqui pode sair daqui. Para absolutamente ninguém. Estamos entendidos?

Tadeusz assente, olhos inquisitivos, aguardando ansioso o que estava por vir. O homem se põe a contar que tudo transcorria exatamente conforme o planejado. Um agente observara a despedida de Maricha e Olek, e embarcara com ela no vôo para Kiev, certificando-se que ela se hospedara conforme você nos informou. Aguardamos o momento oportuno, e fazendo-nos passar por funcionários da companhia aérea, a interceptamos e a levamos para o nosso escritório em Kiev, que na verdade ficava a uma pequena distância do hotel.
— Vocês a raptaram?
— Interceptamos, Tadeusz. Interceptamos. Não houve necessidade de violência. Ela se mostrou uma pessoa sensata, e permitiu que a conduzíssemos até o nosso escritório.
— E então, o que aconteceu? Ela está a salvo?

Censurando-o com o olhar pela interrupção, o Sacerdote prossegue com a sua narrativa, descrevendo minuciosamente o que lhe relataram que acontecera no escritório para onde levaram Maricha. Através de horrendos slides, que diziam retratar os resultados da violência contra palestinos praticadas por Ari e seus soldados, pretenderam mostrar à Maricha com que tipo de pessoa ela estava indo se encontrar em Tel-aviv. Apesar de horrorizada, ela recusou-se a acreditar que o irmão, que estava prestes a conhecer, fosse aquele ser execrável que tentavam lhe mostrar. Embora permanecesse silenciosa, pois sabia que sua vida poderia depender da sua mansidão, ela não conseguia evitar a repulsa com a qual encarava aquelas fotos e relatos. Após a exposição dos slides, os agentes resolveram interrogá-la sobre as formas com que Ari tinha se posto em contato, quando ela se mostrara resistente em revelar qualquer detalhe. O dia já estava clareando e o horário do seu embarque estava muito próximo. A estratégia do convencimento não surtia resultado, então os agentes haviam percebido que se quisessem enviar a sósia de Maricha, teriam que fazê-lo apenas com as informações que já possuíam, correndo os riscos. Seria temerário, mas não tinham mais tempo para convencer Maricha a informar mais detalhes. Teriam que se valer do que Tadeusz informara e do pouco que ela deixara escapar, ou então cancelar a operação e deixar que ela partisse.

Nessa parte do relato Tadeusz perde o controle e, pondo-se de pé, esbraveja:
— Vocês a torturaram? Vocês causaram mal a Maricha, seus miseráveis?!

Os dois homens que o ladeavam forçaram-no a sentar novamente, enquanto o narrador acenava negativamente com a cabeça. Brunick, a esta altura, desejava ardentemente não estar ali, não saber os detalhes daquela história, não ter se envolvido tanto com isso. O pavor o dominava. O Sacerdote, serenados os ânimos, retoma a palavra.
— Obviamente nós não a torturamos. Não é nossa prática habitual. Mas precisávamos desesperadamente das informações que ela possuía, e tínhamos que ser persuasivos e cautelosos ao mesmo tempo. Então os agentes de lá decidiram por mandar a sósia, apesar das incertezas. Os planos tiveram que ser mudados, e até que Ari fosse eliminado, Maricha seria mantida nas cercanias de Kiev, e somente depois de tudo é que ela seria libertada e entregue a você. Como ela não acreditou no que lhe informamos, seria arriscado demais deixá-la sair de Kiev somente com você, pois poderia achar um meio de avisar o facínora, e todos nós correríamos sérios riscos.
— Então Maricha vive? Ela não embarcou naquele avião?

Tadeusz sente suas mãos tremerem. Sente que, caso estivesse em pé, suas pernas faltariam. Saberia, agora, quais foram as conseqüências de seu ato impensado, movido pelo rancor e pela cobiça. O Sacerdote sorri, depositando seus olhos cinza diretamente nos de Tadeusz. Cotovelo apoiado na mesa, braço levantado e na mão balançando um estranho talismã de madeira pendurado em um barbante negro, o homem observa atentamente os outros dois, intimidados, mudos à sua frente, aguardando a sua resposta. A sua sentença. O homem sabia que teria Tadeusz à mão, a depender da forma pela qual oferecesse a resposta definitiva à pergunta formulada. Um suspense de vida e morte domina Tadeusz, enquanto ele aguarda a palavra daquele homem frio, que se diverte com seus sentimentos de afeição e culpa em relação à Maricha. O Sacerdote olha para as próprias mãos e diz, palavra a palavra, como que para se certificar que estava sendo entendido exatamente.
— Acreditamos que sim.

Diante da incerteza da afirmativa, Tadeusz questiona o homem, tentando conter a rispidez, e ele prossegue, ainda calmamente, a fim de se fazer entender de maneira clara.
— Como eu dizia, os agentes de Kiev mandaram a sósia de Maricha para o embarque, e manteriam sua irmã adotiva naquela cidade, até que a operação chegasse ao fim, quando então Maricha seria entregue a seus cuidados.
— Sim, sim, isso eu já sei! O que houve então, onde ela está?
— Acalme-se, por favor. Acalme-se e ouça. Enquanto os agentes preparavam-se para tirar Maricha do escritório, agentes inimigos, a mando de Ari, irromperam no nosso escritório. Houve um tiroteio terrível, quase todos que estavam lá foram mortos, e Maricha desapareceu. O que sobreviveu foi ferido gravemente no começo do tiroteio, mas chegou a afirmar que Maricha fora alvejada, não sabendo da gravidade, pois logo depois ele foi ferido e desmaiou. Acreditamos que ela tenha sido levada por eles para Israel, mas não temos prova definitiva disso. A mulher que morreu no desastre aéreo, se é que não foi um atentado, com os documentos e bagagens de Maricha, era nossa agente, a moça que você conheceu aqui.

Diante do que ouvira, Tadeusz fica em silêncio, como a digerir a informação, enquanto Brunick, boquiaberto, tenta entender tudo o que acontecia, e porque eles haviam pedido para ele comparecer ali, testemunhar tudo. Brunick não queria saber de mais nada, passara a entender que aquelas coisas não eram para ele. Bastavam-lhe as notas frias de compras e os pequenos favores que obtinha em suas negociatas. Não precisava daquela confusão. Queria sair dali. Queria nunca ter estado ali. Em dado momento, ele falou que não queria saber de nada daquilo e queria ir embora, fazendo menção de se levantar. O Sacerdote, entretanto, com o mesmo olhar frio sentenciou para que ele se sentasse, e Brunick obedeceu. Um medo enorme, diante da situação que não compreendia, tomava conta dele, que se autolamentava em silêncio por ter se deixado seduzir por uns trocados para espionar Tadeusz. Caso não tivesse aceitado, não estaria enrolado daquele jeito.
— Então vocês não sabem se Maricha vive?
— Reflita, Tadeusz. Caso eles quisessem eliminá-la, teriam feito o serviço no próprio escritório. Se a levaram, é porque a tencionavam deixar viva. Para isso a resgataram. Não sabemos de mais nada até agora.
— Então ela vive! Graças a Deus! Onde ela está? O que estão fazendo para localizá-la?
— Nada.
— Como nada? A colocam nessa situação e não vão fazer nada para regatá-la?
— Exatamente. Sabe que não somos uma sociedade de ajuda aos necessitados. Nós pretendemos revidar o ataque, e se nesse processo for possível resgatar Maricha, muito melhor. Mas não faremos nada especialmente para isso. Precisamos saber até que ponto Ari sabe da nossa operação, para não cairmos em outra armadilha.
— Vão abandoná-la? Como podem ser tão monstruosos?
— Nós, monstruosos? Estaria tudo muito bem, se os agentes daquele sanguinário não tivesse irrompido no nosso escritório daquela maneira. Aquilo não ficará assim, pode ter certeza. E contamos com você para reverter essa situação.
— Comigo? Vocês estão loucos? A minha vida não vale nem um zloty do jeito que está. Abandonei o emprego, estou vivendo em um quartinho de fundos de uma casa do subúrbio, minhas rendas estão escassas, os meus planos de seguir com Maricha para fora da Polônia naufragaram, e ainda por cima vocês querem contar comigo?
— Entendo seu nervosismo, Tadeusz. Mas o convite está feito. Caso fique conosco poderá ajudar a encontrar Maricha. Há muitas coisas que você pode fazer, e um parente investigando outro parente desaparecido não levanta o tipo de suspeitas que nós queremos evitar. Você nos é muito útil. Nós o colocaremos no rumo certo, e você, daqui a algum tempo, poderá estar em contato com o próprio Ari para saber da sua irmã. Seu único compromisso é não revelar nada a quem quer que seja sobre o que conversamos aqui.
— Você já me disse isso.

Diante do vazio que se instalara na sala, o homem retira debaixo da mesa uma sacola de papel e o coloca à frente de Tadeusz, dizendo:
— Aqui estão trinta mil dólares, para você não ficar nessa situação de penúria que se encontra. O restante dos cem mil receberá depois, quando tudo tiver terminado. Pense no que estou lhe dizendo. Você mesmo afirmou que não tem nada para fazer aqui, que está sem emprego ou vida própria. Estamos lhe dando a chance de se vingar daqueles que interferiram nos seus planos de vida, e recuperar Maricha. E fazer muito mais. E ganhar muito mais.

Tadeusz olha demoradamente para o pacote sobre a mesa. Reflete que, para atender às suas pretensões, era o melhor a fazer. Não obtivera todas as respostas ainda, e as pretendia. Ele se determinara a cumprir o resgate do grande pecado de sua vida, e o único caminho que vislumbrava era com a ajuda daqueles mesmos homens. Iria até o fim. Estende a mão lentamente sobre a mesa e puxa o dinheiro para si, sob o olhar atento de todos os presentes, inclusive Brunick, que esquecera o medo ao saber do conteúdo daquele pacote.
— Eu aceito o dinheiro. Mas não sei se posso continuar com isso.

O sacerdote responde de uma forma estranhamente mansa:
— Pois então reflita, Tadeusz. Em absoluto silêncio. Até amanhã à noite esperamos a sua resposta. Não mais que isso.

O homem estende para Tadeusz um papel com um número telefônico diferente do qual já possuía, para que ele, no prazo dado, desse a resposta. Tadeusz guarda o papel, e não resistindo às perigosas perguntas, questiona:
— O que acontece, caso eu não aceite?
— Você estará por sua própria conta, nós desaparecemos e você jamais poderá voltar atrás. Não terá mais um emprego, jamais verá Maricha de novo, e a sua vida não será muito fácil a partir daí, eu lhe asseguro.
— Então, se for assim... eu poderia denunciar a todos, não poderia? Vocês não podem fazer nada para impedir isso!

Os frios olhos do homem deixam escapar, nesse momento, um lampejo indecifrável. Ele põe a mão no bolso e dela retira a pistola pelo cano, perguntando, distraidamente, a Tadeusz.
— Essa arma é sua, não é verdade?

Tadeusz se sobressalta, mas tenta não demonstrar seu temor e responde, com a voz mais firme que encontra:
— É claro que é minha. Eu a possuo legalmente. A polícia tentou tirar ela de mim em Gdansk, mas consegui recuperá-la.

Satisfeito com a informação, o homem não se contém, deixando escapar entre os lábios uma exultação. A um seu sinal, os homens que o acompanhavam imobilizam Tadeusz pelos braços, enquanto o Sacerdote aponta a arma para a cabeça de Brunick:
— Ajoelhe-se!

Brunick implora ao sinistro homem para que nada faça, enquanto obedece e se ajoelha:
— Não, pelo amor de Deus! O que está fazendo?
— Olhe para mim! Andou abrindo a boca, não andou?
— Não!
— Eu sei que andou falando o que ouviu quando esteve aqui pela última vez. Quanto ganhou para isso?
— Nada, eu não sabia, foi sem intenção...
Quando Brunick olha, com impotente súplica, e Tadeusz berra para que ele não fizesse aquilo, o homem dispara de curta distância, e numa sucessão ligeira e horrível, duas balas penetram pelos olhos de Brunick, fazendo com que ele caísse para trás, sobre as pernas dobradas. Em seguida, o homem se aproxima do corpo e sussurra umas palavras ao ouvido do cadáver, apanha o talismã que manuseara durante toda e conversa, e o coloca no bolso da camisa de sua vítima. Depois, friamente, retira as balas restantes do revolver de Tadeusz, largando-as sobre a mesa, limpa as próprias digitais, e a coloca no bolso do casaco de Tadeusz, a quem fala:
— A arma é sua. Está registrada em seu nome. Agora o problema é seu. Você foi visto ontem com Brunick, em frente ao prédio dele. O corpo estará muito bem escondido, mas basta um telefonema anônimo para que a polícia o encontre, e sua vida terá um fim trágico, caso você nos denuncie. Reflita sobre continuar conosco. Mas em silêncio.
— Seus desgraçados!
— Modere-se. Vá embora daqui, e lembre-se: tem um dia para responder. É tempo suficiente para livrar-se desse pequeno conflito moral que está tendo, e voltar a si para entender que nós somos seu único caminho plausível.

Tadeusz se apavora diante daquela perspectiva, e tenta argumentar com o homem:
— Seus desgraçados! Até amanhã a esposa dele sentirá a falta do marido, e fará o maior barulho! Na fábrica, hospitais, na polícia! Eles vão chegar até a mim de qualquer maneira! O que você foi fazer!?
— Nós cuidaremos de tudo, como sempre. Nada vai acontecer, se você comportar-se como deve. Nem a esposa dele vai reclamar, entendeu?
— O que pretendem fazer? Vocês não podem matá-la também!
— Não causamos mortes inúteis.
— Não causam? E Brunick, o que foi, então?
— Brunick não era confiável, não ouviu a confissão do bastardo? Mostrava um comportamento instável há tempos, sabia demais e se vendia a qualquer um por baixo preço. Como acha que o maldito Ari soube do que fazíamos em Kiev a tempo de resgatar a sua irmãzinha? Você não faz idéia do tipo de homem que tomava por amigo, Tadeusz.
— Mas como é possível isso? Brunick um espião? Mas e agora que farei, todos virão atrás de mim!
— Não irão. A esposa dele recebeu esta tarde, cerca de meia-hora depois de você tê-lo pego em casa, um comunicado de que ele precisava embarcar para Berlin, para uma reunião com os fornecedores da fábrica, e que ficaria lá por alguns dias. Caso você se decida por nós, em breve ela vai ficar sabendo que ele fugiu com uma amante alemã que mantinha a tempos, e não vai voltar mais. Coisas da vida. Daí ela deve conformar-se com uma ajuda que receberá inesperadamente, e talvez resolva se mudar para outro lugar, e fim da história. Brunick não deve ser grande perda para ninguém, muito menos para a mulher dele, a quem ela detestava.
— Como podem...
— Podemos muito mais que isso. Você saberá melhor quem somos. caso se junte a nós, será iniciado em nossos segredos. Agora vamos todos embora, antes que esse corpo empeste o ambiente.

¤

Tadeusz sai desnorteado do celeiro, sem saber o que fazer e a quem recorrer, e se deixa levar para o carro pelos homens que o seguravam, e que largam em seu colo o pacote com o dinheiro. Tadeusz liga o carro e, como um autômato, sai dirigindo dali. Não havia andado muito, quando se viu obrigado a parar o carro e vomitar, tamanha a náusea que aquelas cenas haviam lhe causado. Tenta controlar-se, mas todo seu corpo treme. Resolve seguir adiante, quando se vê ultrapassado pelos carros do Sacerdote e seus homens. Em dado momento ele não consegue mais controlar-se, e por isso resolve parar em uma lanchonete, à beira da estrada, a fim de tomar uma bebida forte, buscando retomar o equilíbrio. Pára distante da entrada do lugar, segue direto até o balcão e toma uma dose de vodka, e depois outra, paga e prepara-se para ir embora. Ao se aproximar da saída, pela janela reconhece Olek descendo de um jipe que parara em frente, e ele vinha para a lanchonete, bem em sua direção. Olek não poderia encontrá-lo ali. Sem conseguir coordenar bem suas idéias, Tadeusz abaixa a cabeça e sai de forma abruta, terminando por esbarrar no próprio Olek, justamente quando esse entrava. Evitando olhá-lo de frente, apressa-se, corre até o carro e sai a toda velocidade do lugar.

Agitado, Tadeusz se põe a pensar o que diabos o primo fazia ali. As dúvidas lhe assaltam. Será que estava sendo seguido? Será que ele sabia de alguma coisa? Seria possível que Olek soubesse que Maricha fora seqüestrada, e não estava naquele avião?

Tadeusz dirige até o subúrbio, sempre olhando para trás a fim de se certificar que Olek não o seguira, chegando finalmente no seu esconderijo. Em seu quarto, senta na cama e se descontrola. Estava perdido, irremediavelmente perdido, cercado, sem saída. Deita-se, ainda treme, ficando encolhido na cama em posição fetal até que as forças se esvaíssem e ele adormecesse. Ao acordar na manhã seguinte, sente-se muito mal. Uma horrível dor-de-cabeça o impede de colocar as idéias em ordem. Levanta, toma seu café e retorna ao quarto, toma um comprimido para a sua dor, tentando dormir em seguida. Não consegue por muito tempo. Passa o dia a andar de um lado para outro no pequeno aposento, medindo como estava a sua vida, e por fim toma uma decisão: iria associar-se àqueles homens brutais, até que conseguisse descobrir quem eles eram, e resgatar Maricha para si. Quanto ao depois, não importava, pois não tinha como prevê-lo agora.

Não via alternativas, era escravo das escolhas que fizera até ali.