Mar de Olek
XIII – O pecado de Tadeusz
Tadeusz sempre fora amargurado. Nascera assim. Crescera assim, sobretudo ao se colocar à sombra da irmã adotiva, Maricha, de quem sempre cuidara, de quem sempre fora incumbido de cuidar. Terminara por colocar o destino de Maricha como meta de seu próprio destino, dela seria sempre a sombra, a qualquer custo. No princípio isso lhe causara ciúme, por se sentir ele, filho legítimo de Janina e Andrzej, deixado de lado por causa daquela pequenina criança que chegava para ficar. A própria desconfiança e ambivalência da mãe lhe causaram tais sentimentos. Mais tarde, como ele via sua mãe curvar-se aos fatos, também passou a aceitar a pequena Maricha. E a cuidar dela. E a observá-la crescer. A gostar dela. E a passar o tempo, a gostar muito daquela moça de cabelos negros e encaracolados que cedo despontava como uma bela mulher. Seus sentimentos eram contraditórios. Queria protegê-la do mundo, e ao mesmo tempo reprimia o querer Maricha para si. Queria possuí-la. Não que a amasse, mas desejava o domínio completo de sua vida. Para sempre. E tudo ia bem, quando os dois iriam apenas com o primo Victor morar em Warszawa, até que Olek apareceu e estragou tudo, e ele perdera o objetivo principal de sua vida.
No dia em que Olek e Maricha chegaram juntos, voltando de Arkadja, como se nada houvesse acontecido, o ódio o cegou.
Era como se ele, Tadeusz, não estivesse se preocupando com tudo que acontecia, como se ele, Tadeusz, não fosse mais o responsável pelos cuidados com Maricha, sobretudo agora que ela se separara e Andrzej morrera, e Janina estava velha e lavara as mãos. Naquele dia Maricha agiu como se ele, Tadeusz, o irmão mais velho e sempre zeloso não importasse mais. Naquele dia, a ira e o rancor tomaram-no por completo, e terminou por ouvir as palavras duras, eivadas de ingratidão, proferidas por Maricha, por quem ele tinha, dia após dia, ano após ano, cuidado com todo desvelo. Para arrematar, fora agredido pelo odioso Olek.
Naquele dia, agora recordava Tadeusz, as coisas haviam acontecido muito rápido para ele se dar conta da gravidade do que se desenrolava. Saíra dali alterado, jurara vingança, e fora terminar o dia numa taverna nas redondezas da fábrica onde trabalhava.
Lá encontrara com Brunick, que se colocava no ambiente de trabalho como braço direito de Tadeusz desde que este se tornara chefe. Brunick, na verdade, é quem conseguira a promoção do amigo, ao fazê-lo ingressar em uma certa fraternidade secreta, a mesma que assediava Tadeusz desde que este voltara de Gdansk. A entrada na fraternidade imediatamente lhe proporcionara a gerência geral na fábrica, em troca de supostos favores que teria que prestar à mesma. Bastou uma rápida entrevista com alguns membros da fraternidade e ele aceitou as condições. Tão logo assumiu, chamou Brunick para ser seu assessor direto.
Os dois conversaram muito neste dia, e a certa altura, quando a vodka já fazia enevoar os pensamentos de Tadeusz, ele se põe a contar ao amigo tudo que ocorrera naquele dia com a mãe, o primo e a irmã, e que esta última partia em viagem, rompida com ele. Brunick, como que brincando, sugere que talvez pudessem dar um jeito de impedir que Maricha seguisse para Israel. Tadeusz, zombeteiro, perguntou como, e a resposta, bem como a seqüência dos acontecimentos, fizeram com que Tadeusz fosse tentado a pecar contra os seus.
— E se a fraternidade pudesse ajudá-lo nisso? E se a fraternidade pudesse impedir que Maricha partisse, e ainda ficasse com você?Tadeusz, enquanto se serve de mais um copo de vodka, ainda no mesmo tom de pilhéria responde.
— É melhor pararmos com essa brincadeira, Brunick. Melhor não envolver família nisso.
— Não, eu não estou brincando, Tadeusz. Sei que eles poderiam fazer isso, caso pudessem contar com sua ajuda.
— Com a minha ajuda?
— Sim, com sua preciosa ajuda. Aí eles poderiam impedir que Maricha seguisse viagem a Tel-aviv, como você me contou.
— Como é? Eu jamais faria algo que pudesse causar mal para Maricha! E depois que interesse eles teriam em ajudar nisso? Uma coisa foi a promoção na fábrica, isso eu pude entender..., mas quanto a esse assunto, duvido!
— Você é novo na fraternidade Tadeusz, e talvez não entenda, mas vou lhe contar: eles têm uma espécie de grupo fechado, alguma coisa a ver com uma religião antiga. Eles se chamam de iniciados, não sei bem, e parece que esses sujeitos querem livrar-se de um calo no caminho deles, e a viagem de sua irmã parece que poderia ajudá-los nisso.
— Mas do que é que você está falando? O que Maricha tem a ver com eles?
— Sua irmã? Nada! Parece que a bronca deles é com um tal de Ari, com quem sua irmã iria se encontrar em Tel-aviv.
— Sim, sim. O homem que entrou em contato dizendo que era o irmão de sangue dela. É por isso que ela está indo para Israel.
— Pois é, eles sabem disso.
— Sabem? Mas isso é um assunto de família, como...
— Este homem, eles me contaram, parece que foi responsável pela morte de uns amigos da fraternidade, um desses iniciados. Caso você colaborasse, eles dariam um jeito de Maricha saber quem é o canalha que se diz irmão dela. Ai, então, ela voltaria para cá, certamente contando com o seu apoio...
— É esse o grande plano? Não adiantaria de nada, pois mesmo que ela volte para cá seria capaz de ir atrás é do meu primo, lamentar-se e prosseguir com aquela palhaçada dos dois.
— Duvido muito.
— Duvida, Brunick?
— Ora, ele vai acompanhá-la na viagem?
— Que eu saiba, não.
— E ela está indo para lá só de visita?
— Não, não. Disse que pretende se mudar para lá.
— E isso não lhe diz nada, Tadeusz?
— Como assim, não entendo...
— Isso só pode dizer que eles não estão mais juntos, e que você é o único que ela pode procurar...
— Você acha? Talvez, não sei...
— E lembre que você deve um favor a eles, não seria tanto assim, afinal.
— Se eu concordasse com essa loucura, o que eu teria que fazer?
— Não muito. Acho que eles querem conseguir informações de você, detalhes sobre a viagem dela, coisas assim. E depois cuidarão que você esteja no lugar e hora certas quando ela estivesse voltando, para que fosse você quem lhe desse amparo, e reforçasse tudo que eles disserem desse tal de Ari.
— Não sei..., isso é muito estranho. Preciso de um tempo para entender tudo isso. Seria bem mais simples procurá-la, contar quem é o sujeito, e não permitir que ela vá encontrar esse Ari. Pronto. E ainda poso de herói para ela.
— Você não tem como fazer isso. Não há tempo para pensar – ela parte logo, e pelo que me contou hoje, ela está furiosa com você, não o ouviria nem atenderia seus apelos.Tadeusz sabia que era verdade. Qualquer coisa que tentasse fazer em relação a Maricha, no momento, surtiria o efeito contrário. Ele hesita:
— Mas ela pode correr riscos. Eu não poderia fazer isso.
— Ela não correrá perigos com a fraternidade, pode ter certeza. Eles não cuidaram bem de você?
—Bem, sim..., mas preciso conversar antes com eles. Não vou fazer nada sem ter certeza do que está acontecendo.Brunick sorri e sai para dar um telefonema. Minutos depois retorna.
— Vamos.
— Para onde?
— Não queria falar com eles? Pois o estão esperando agora!
De repente um calafrio percorre a espinha de Tadeusz. Aquilo estava acontecendo muito rápido, mas ele deixara a conversa ir longe demais para recuar. Agora teria que ir até o fim, para saber exatamente do que se tratava, do porquê a fraternidade tanto se importar com Maricha e seu destino.O carro de Brunick sai da cidade pela parte sul, e depois entra numa estrada secundária, pela qual segue por quase meia hora, até chegar a um celeiro que parecia abandonado. O lugar estava parcamente iluminado por uma lâmpada de querosene. Havia outro carro lá, ao fundo, e dentro da construção dois homens os aguardavam, sentados despreocupadamente em volta de uma pequena mesa rústica. Tadeusz e Brunick descem do carro e cumprimentam os homens.
— Boa noite, Pan Tadeusz .Tadeusz, que não ouvia pela primeira vez tal trocadilho, reconhece o homem alto e magro, com quem havia conversado quando do seu ingresso na fraternidade. A Tadeusz parecia que ele era uma espécie de chefe. Estava certo. Aquele homem, de quem ninguém sabia o nome, tinha enorme poder na fraternidade, e era conhecido como senhor Sacerdote. Mas Tadeusz, ainda não conhecendo a sua alcunha, responde ao cumprimento:
— Senhores...É o homem alto e magro quem lhe responde:
— Brunick, Tadeusz, sentem-se aqui. Sei que tudo lhe parece estranho, Tadeusz, mas precisamos de sua colaboração.
— Alguém pode me explicar o que acontece? Brunick contou-me o que querem, mas o que lhes aproveitaria o destino de minha irmã ou o meu? O que pretendem fazer?
O homem baixo e corpulento corta o discurso de Tadeusz:
— Você ouve pouco e faz muitas perguntas!
Tadeusz encara o interlocutor, como a desafiá-lo. Mas o Sacerdote, acomodado atrás da mesa, começa a discorrer:
— Ari é um cruel agente israelita, e em uma de suas ações na Europa Central matou um dos nossos membros mais valiosos, e que era parente meu. Na Palestina, é responsável pela morte de muitos, inclusive mulheres e crianças. Tínhamos que a família dele morreu num kibutz, em Israel, e que ele teria sido o único sobrevivente, e crescera com um violento ódio dos palestinos. Sempre nos foi muito difícil chegar até ele, mas a busca que empreendeu por uma irmã que teria ficado para trás, quando a família emigrou para Israel, permitiu recentemente que também a identificássemos, descobrindo assim como chegar até ele, como atingi-lo. Ele teve que se mostrar, e assim o descobrimos como o irmão judeu de sua irmã de criação.Tadeusz põe-se na defensiva, querendo afastar a irmã de quaisquer intenções daqueles homens:
— Mas o que Maricha tem a ver com isso tudo? Acaso ela pode ser responsável pelos atos do irmão, que nunca viu?
— Ela não tem nada a ver com isso, e nós não temos a intenção de prejudicá-la. Ao contrário, queremos a ajuda dela, mas não podemos pedir diretamente, é óbvio. Por isso recorremos a você. Desconfiamos que ela será usada para embarcar uma mala contendo informações para Ari. Coisas que prejudicam a fraternidade. A mala será colocada no avião, como se fosse dela, e interceptada apenas no destino.A informação indigna Tadeusz:
— Mas que desgraçado! Ela pensa que o irmão a está esperando de braços abertos, e ele só quer isso!
E recobrando a calma, indaga:
— Diga-me: é nessa mala que vocês estão interessados?
— Não. Ouça, esqueça a mala. Estamos interessados na própria viagem de Maricha. Conhecendo o itinerário, as escalas que ela fará, podemos tentar interceptar esta mala. Podemos também mostrar a Maricha, na hora certa, através de vídeos e fotos, as atrocidades de Ari, e convencê-la a não seguir adiante! Ela então deve retornar para você, e os dois terão que esquecer esta história.
— Não pode ser só isso que pretendem.
— E não é.
— Contem-me tudo.
— Você não deve saber de tudo.Tadeusz estava tentado a colaborar com aqueles homens, afinal eles já o tinham favorecido por uma vez, e se agisse bem certamente o beneficiariam em outras. De certa forma estava em débito com eles. Por outro lado, também impediria a partida definitiva da irmã, e teria chance de reconciliar-se com ela. Precisava saber mais, para ter consciência do que estaria fazendo, e então resolve endurecer com a fraternidade, afirmando que, se eles precisavam da sua colaboração, deveriam deixá-lo a par de tudo que aconteceria caso concordasse em ajudar. Quando profere tais palavras, o indivíduo atarracado, que se posicionava de pé ao lado da porta, faz menção de ir até Tadeusz para agredi-lo pela ousadia, mas retrocede a um sinal negativo do homem que estava atrás da mesa.
— Está bem. Vou lhe contar o que pretendemos, mas saiba que a partir daí você estará irremediavelmente envolvido nesta história.
— Corro o risco. Pode falar.O homem inclina-se para Tadeusz, como quem fizesse uma confidência:
— Conhecendo todos os detalhes da viagem, podemos em uma de suas escalas ou conexões interceptar não só a mala, mas fazer com que Maricha desista da viagem.
— Sim, até aí já falou. Mas o que pretendem?
— Ari só viu a irmã quando ela era bebê, e se a viu adulta foi por alguma foto que ela possa ter mandado, o que é muito pouco. O que pretendemos é mandar outra pessoa no lugar dela, que se passaria por ela em Tel-aviv, encontrando-se com Ari. Por isso temos que contar com a colaboração de Maricha, para que ela desista da viagem sem fazer alarde, e que você tome conta dela depois. Assim poderemos infiltrar alguém no lugar dela.
— Para espioná-lo?
— Sim, como serviço para aqueles que nos financiam nisso. E depois para matá-lo, e isso pelo meu parente.
— Meu Deus, não! Vocês não podem nos envolver nessa trama!
— Você já está envolvido. Eu avisei e você correu o risco. Você muito bem sabe que nós não somos um clube de serviço e nem fazemos caridade, Tadeusz. Sabe disso desde que decidiu entrar, eu me lembro bem da nossa entrevista. Se você foi chamado para ser um de nós é porque pode colaborar com a fraternidade. É isso que queremos agora: que faça a sua parte.Tadeusz empalidece. Jamais pensara que a fraternidade chegasse a este extremo. Pensara que o máximo que exigiriam dele era vistas grossas para algumas compras e vendas da fábrica, que fizesse algumas contribuições, ou talvez algo mais. Mas não isso. Começa a indagar-se desde quando estaria sendo observado. Pensamentos e sentimentos confusos lhe assaltam o espírito. Fica sem saber o que fazer. De um lado, o comportamento óbvio e correto de rejeitar tudo aquilo, e conseqüentemente perder Maricha para sempre e deixar a colocação que barganhara, ficando numa condição ainda pior à que tinha antes da primeira entrevista. De outro, poderia curvar-se aos ardis, envolvendo a si mesmo e Maricha nessa história sórdida, e assim obter uma oportunidade de reconstruir sua vida, talvez até reconciliar-se com Maricha.
Tadeusz vacila. Tenta desvencilhar-se do emaranhado onde se colocara por vontade própria. O Sacerdote o pressiona ainda mais, mas ele argumenta para que achem outro meio, que não precisem dele nem da irmã para alcançar o que querem. O homem persiste, questionando se Tadeusz estava contente com sua vida atual, ou se pretendia subir mais e se por acima daqueles que importunavam sua vida. Tadeusz, com esta insinuação, lembra de Olek, mas nada diz, contudo a sua hesitação aumenta. O Sacerdote lhe acena com cem mil dólares americanos, que receberia para gastar durante o tempo que cuidasse de Maricha, para mantê-la longe dos acontecimentos.
Foi a partir daí que a alma atormentada de Tadeusz enveredou pelo caminho que lhe era sutilmente sugerido. A sanha em se vingar de Olek, e o conhecimento de até onde aqueles homens estavam dispostos a ir e a recompensá-lo, fazem-no sentenciar:
— Não sei se estou em posição fazê-lo, mas tenho uma condição: Existe uma pessoa que gostaria muito de ver fora de meu caminho, para sempre!A estridente gargalhada de seu interlocutor desconcerta Tadeusz e apavora Brunick, que estava quieto até aquele momento e agora se encolhia em sua cadeira. O homem então responde:
— Você está sugerindo que cuidemos de Olek Kowalski, seu primo? Nós cuidaremos dele, sim, no devido tempo. Faço questão de cuidar dele pessoalmente, se quer saber. Por que acha que está conosco Tadeusz? Não entende, não é? Pois vai compreender no tempo certo como foi que o seu ódio o trouxe até aqui. Se for esta a sua condição, dar um jeito em Olek Kowalski, está aceita!Tadeusz fica assombrado. Afinal de contas, quem era aquele homem? O que era esta fraternidade, que conhecia tão bem a ele próprio, a ponto de adivinhar seus inimigos e seus desejos de vingança? Mas dera uma condição e ela fora aceita. A sua palavra estava empenhada. Selara seu destino.
Os olhos de Tadeusz faíscam diante da idéia de que se livraria de Olek e, com o dinheiro que lhe dariam se punha a acreditar, num breve delírio, que Maricha poderia ser convencida a ficar ao seu lado, e talvez, até, um dia, deixasse de olhá-lo apenas como a um irmão adotivo. Após longa pausa em que nada se diz, Tadeusz, consciente da sua condição, se põe a falar, mecanicamente:
— Ela parte daqui a dois dias, num vôo de fim da tarde para Kiev, não sei qual. Lá passará a noite num hotel, onde aguardará para o embarque pela manhã, quando seguirá para Atenas, e de lá, em escala, voa para Tel-aviv. O irmão vai pegá-la no aeroporto e hospedá-la em sua casa. Essa é a programação da viagem de Maricha.Esta era a resposta afirmativa de Tadeusz. O homem anota mentalmente o que Tadeusz dissera, e com entusiasmo exclama:
— Kiev, excelente! Temos que nos apressar. Preparo um bom pretexto para que você desapareça por uns tempos, a partir de agora. Quando for a hora, irá até Kiev, encontrará Maricha, e de lá viajará com ela, ficando fora da Polônia, sem que ninguém mais o saiba, até as coisas esfriarem.
— Mas ela não vai concordar com isso! Ela jamais concordaria em agir dessa forma. Não participaria nunca, ainda que indiretamente, de um crime, quanto mais contra o próprio irmão, que ela quer conhecer!
— Esta parte é nossa. Temos meios e argumentos de sobra para convencê-la. O homem é um facínora, já lhe disse. Precisamos que você a tire de Kiev e a leve até a Espanha, num bom lugar que já arranjamos, e que fiquem lá durante um ou dois meses ao menos, até as coisas esfriarem por aqui. Depois tudo deve ser esquecido e vocês podem retornar, caso se entediem com as costas do mediterrâneo...Tadeusz não responde ao último comentário. Espanta-se com um brusco sinal dado por seu interlocutor ao homem atarracado, que sai imediatamente da casa. Tadeusz sabia da gravidade de seus atos e tinha ainda muitas dúvidas: e quanto à sua mãe, ficaria só em Warszawa? E o seu emprego? E a sua vida? O que Victor pensaria de seu desaparecimento? E a própria Maricha, será que aceitaria a revelação quanto ao caráter de seu irmão de sangue? Seus pensamentos não têm tempo para se transformarem em perguntas, pois é surpreendido quando o homem atarracado retorna acompanhado por uma mulher. Tadeusz leva um tremendo susto, tal a semelhança dela com Maricha. O homem observa a sua reação e se diverte. Quando esta chega até eles, o Sacerdote faz a apresentação, sorrindo maliciosamente:
— Quero apresentar-lhe Miriam Bernstein, irmã de Ari, o facínora. Você vai, a partir de agora, responder a tudo que ela lhe perguntar sobre sua irmã. Tudo. Trejeitos, sonhos, planos, talentos, história. Votaremos amanhã para apanhá-los, até lá encontrarão aqui tudo que precisam.Tadeusz, ingenuamente pergunta:
— E o meu trabalho, e minha mãe?
— Sua mãe? Não vai dizer que com esse tamanho ainda avisa quando não vai dormir em casa...? Amanhã de tarde você vai estar com ela, não se preocupe. E quanto ao trabalho, Brunick pode muito bem explicar sua falta amanhã. Eu já disse: preparo algo que justifique a sua ausência por muito tempo, de modo que possam voltar sem levantar suspeitas.Sem dar-lhe chance de retrucar, o Sacerdote fala a Brunick que este o levará de volta, e que o outro homem ficaria ali com eles, para garantir que tudo corresse bem.
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Naqueles dois dias que antecederam ao embarque de Maricha, Tadeusz licenciou-se na fábrica, deixando Brunick em seu lugar. Disse à mãe que precisava ir para a Alemanha, fazer um curso sobre a gerência da fábrica, e que ficaria fora mais de um mês, quando foi até o apartamento fazer rapidamente as malas. Janina achou muito estranho o filho não ter avisado que passaria a noite fora, não era o seu feitio, e agora corria a arrumar as malas. Todavia nada conseguiu que ele lhe explicasse. Talvez uma mulher, pensa Janina.
A fraternidade alugara para Tadeusz um pequeno quarto na periferia da cidade, onde ele deveria ficar aguardando até receber a ordem para, conforme o plano, seguir para Kiev e encontrar-se com Maricha, e de lá partir com ela para a Espanha. Não deveria sair das redondezas do lugar, a fim de que não fosse visto por nenhum conhecido em Warszawa.
Contudo o plano não seguira o curso como planejado. A notícia sobre o acidente aéreo na planície moldava aterrorizara Tadeusz, que obedientemente aguardava naquele lugar a esperada ordem. Nascia-lhe a dúvida de que houvessem mentido para ele. Que só quisessem extrair-lhe as informações sobre Maricha para, talvez, colocar na sua bagagem a bomba que explodiu o avião. Se é que foi uma bomba que o derrubou. Tentara ligar para Brunick, mas este não o atendera. O número da fraternidade não respondia. Não sabia o que fazer. Sequer poderia voltar ao apartamento, pois não saberia o que explicar para Janina. Ficava a convencer-se que Maricha não estaria morta, pois pelos planos ela não poderia ter embarcado naquele vôo fatídico, e sim a sósia que conhecera. Será que lhe falaram a verdade? Por que não entravam em contato? Já haviam se passado três dias do acidente!
Deveria sair dali e ir até a polícia? Não, não era uma boa idéia. Como explicar que colaborara com o seqüestro da irmã e com um possível atentado, e ainda sair ileso?
Tadeusz sente remorso. Jamais se perdoaria pelo erro cometido, caso houvesse acontecido algo para Maricha. Ele tinha que fazer alguma coisa, só não sabia o quê. Começa a perceber que aqueles homens sabiam mais de sua família do que seria possível, a não ser que alguém muito próximo a eles tivesse dado as informações, e precisava tirar isso a limpo. — Sim, este seria um bom começo – pensa Tadeusz. E a pessoa certa para informá-lo seria Brunick. Iria até ele e não o deixaria em paz até que este lhe contasse tudo a respeito.
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Sai do quarto, que possuía uma saída independente que dava para os fundos da casa, e vai até o prédio de Brunick. Fica aguardando-o chegar do trabalho recostado na esquina do beco onde estacionara o carro. Quando o amigo desponta na esquina vai ao seu encontro, mas Brunick tenta desvencilhar-se e entrar em casa. Tadeusz o alcança antes que chegue à porta e o abraça, fazendo menção de ter uma arma no bolso. Eles entram no carro de Brunick, Tadeusz se põe ao volante. Brunick, tentando recompor-se, admoesta Tadeusz:
— Mas o que diabos está fazendo aqui? Eu não poderia vê-lo, ninguém poderia vê-lo. Você deveria estar escondido, esperando as ordens do Sacerdote. Ele vai puni-lo por esta imprudência!Tadeusz, sabendo agora como designar aquele homem alto e magro, Sacerdote, nada responde ou comenta, dirigindo para longe dali. Não diz palavra por um longo tempo, apenas dirigindo em alta velocidade. A tensão aumenta, até que o Brunick não mais suporta, ao ver que cada vez mais eles se afastam da sua casa.
— Para onde você está me levando, Tadeusz?
— Quero que me conte tudo!
— Eu não sei o que quer! Deixe-me em paz, eu só tentei ajudar você.
— Ajudar? Eles mataram minha irmã!
— Eu não pensava que isso iria acontecer. Juro, Tadeusz. Eu jamais agiria dessa forma!Tadeusz pára o carro num lugar ermo, e questiona Brunick:
— Não importa o que você pensava, Brunick. Quero que você conte tudo que sabe, quem são esses homens da fraternidade, como eles sabiam tanto de minha família, de mim, e o que pretendiam, e principalmente porque eles não entraram em contato comigo até agora, depois do acidente aéreo.Brunick reluta, porém não se vê em condições de negar o que Tadeusz lhe pedia, decidindo ir contra a ordem do Sacerdote que lhe determinara o silêncio, e conta a Tadeusz como tudo acontecera:
— As coisas começaram a acontecer mais ou menos quando você chegou na fábrica. Eu trabalhava no setor de compras, lembra? Esses homens me procuraram e eu fiz alguns negócios lucrativos com eles. Um bom dinheiro e poucas explicações. Certo dia, dois deles me procuraram e contaram uma história, dizendo que eram de uma fraternidade, estas coisas. Eles queriam a minha ajuda para que você se tornasse um deles. Não disseram o porquê, e eu também não perguntei, pois eles passaram a me gratificar, entende? Algum tempo depois eles me instruíram a falar com você, e da possibilidade de você tornar-se o gerente da fábrica, se entrasse na fraternidade. Foi quando eu o apresentei, e você fez aquela entrevista. E é só isso que eu sei, juro a você!Nesse momento Tadeusz sente a raiva tomar conta de si, contra aquele que julgava ser um de seus únicos amigos, mas que não passava de um vendilhão. Nada diz, pois não quer interromper a narrativa. Brunick, calculando a reação de Tadeusz, tenta se explicar pelo suborno recebido, mas Tadeusz, por estar familiarizado com a corrupção que a antiga burocracia provocava, não quis se alongar nesse assunto, mesmo porque não lhe interessavam as razões da traição daquele em quem confiou. Queria apenas saber tudo que acontecera, e mandou-o prosseguir.
— Está bem... Depois que você assumiu a gerência eles não falaram mais comigo, até que me procuraram dizendo que queriam falar com você, para saber de sua irmã de criação, e contaram para mim detalhes que eu nem sabia. Nessa ocasião eu me recusei a fazer isso, sabe? Achei que você não ia querer saber dessas coisas...
Tadeusz o olha com desprezo pelo comentário de Brunick, que nesse momento sente seu sangue gelar. O homem prossegue:
— ...então, naquele dia, no bar, você estava de um jeito..., foi quando percebi que talvez você quisesse conversar com eles sobre esse assunto. Aí você confirmou o que eu achava e eu liguei para a fraternidade. Foi só isso que aconteceu, amigo. Espero que me perdoe, Tadeusz.
— E em pensar que eu lhe cedi meu posto na fábrica, para ficar naquele quartinho enquanto eu me preparava para ir a Kiev... e você faz tudo isso e ainda tentou se esquivar de mim? Como Pôde agir assim?Assustado, Brunick tartamudeia:
— Não sei, não sei...
— Também não me interessa mais. Quero saber o que aconteceu com Maricha, e quando eles vão me entregar o dinheiro. Eu preciso dele, agora mais do que nunca.
— Mas o acidente aéreo... deu tudo errado, não sei o que eles fizeram, ou o que pretendem fazer... não falaram mais comigo! Há dias eu vou para a fábrica pensando que eles vão aparecer por lá. Cada vez que dizem que alguém quer falar comigo, acho que são eles, mas não são. Eu não sei de mais nada, nem o que houve por lá!
—Maricha estava ou não, afinal, naquele vôo?
— Isso eu não sei, Tadeusz. Só eles podem responder. Juro a você que eu não sei!
— Eu preciso falar com eles, imediatamente! Quando você me colocou em contato com eles você ligou para um número, pois então ligue de novo e diga que eu quero falar com eles agora, e que quero saber tudo que aconteceu naquele dia em Kiev.
— E se eles não atenderem?
— Tenho certeza que eles atenderão.Tadeusz dirige até encontrar um telefone público, e desce com Brunick, dizendo para que ele ligue para fraternidade. Ninguém responde às várias tentativas. Tadeusz sabe que de nada adiantaria pegar o número do telefone e tentar por si mesmo, mas por alguma razão desconfiava que Brunick pudesse ter outros meios de entrar em contato com eles. Resolve então lançar mão de uma estratégia, já que o homem se mostrava bastante assustado:
— Eu não valho mais nada enquanto permanecer nessa condição, Brunick. Mas sei muito, e já tomei o cuidado de escrever o que sei, e deixar em algum lugar seguro, por via das dúvidas. Vou deixá-lo em casa agora, mas, Brunick, não me decepcione de novo. Estou desesperado. Não tenho mais nada a perder, nem sequer meu mísero posto de trabalho. Não se esqueça disso, e não tente me enganar.
— Não precisava me falar nada disso, Tadeusz. Nós somos amigos, lembra? Ainda somos, não somos? Você vai perdoar a minha fraqueza, não é?
— Ora, cale a boca!
Fazendo a volta e parando em frente ao prédio de Brunick, Tadeusz, enquanto saía do carro, avisa que ligará no dia seguinte para a fábrica, e que Brunick deve ter uma resposta de onde seria a reunião com os homens da fraternidade. Ameaça para que ele não tentasse desaparecer, que ele o acharia onde estivesse e acabaria com ele.Brunick aquiesce, mudo, e observa Tadeusz se afastar até sumir na esquina. Trêmulo, tranca o carro e sobe para o seu apartamento. Mal entra pela porta, sua mulher vem admoestá-lo por chegar tarde, acusando-o de ficar bebendo com os amigos. Ela a olha fixamente, deixa-se cair pesadamente na cadeira e, com a cabeça apoiada nos braços sobre a mesa, chora convulsivamente. Chegara a pensar que perderia a vida pelas mãos de Tadeusz. Estava assustado.
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Tadeusz pega seu carro no beco e retorna ao quarto em que se hospedava. Iria, na manhã seguinte, encontrar com aqueles que se aproveitaram de sua fraqueza. Deveria, então, encontrar uma forma de desfazer o malfeito, ou vingar-se daqueles que o induziram a tanto.
Entra pelo quarto escuro e, ao acender a luz, a lâmpada pisca por duas vezes e queima em seguida, deixando-o no mais profundo breu. Pragueja por ver nisso um mau agouro. Arrastando os pés, para não tropeçar em nenhum móvel, tateia a gaveta do criado-mudo até encontrar uma vela, com a qual ilumina parcamente o aposento. Deita-se, fitando o teto também enegrecido. O aposento refletia seu estado de espírito. Tadeusz estava divido, queria desfazer a sua traição e isto parecia impossível. Também ponderava que uma vez que fizera a sua parte, tinha direito aos cem mil dólares prometidos. Queria vingança contra aqueles que o levaram a cometer a ignomínia, porém sabia-se o maior responsável pelo acontecido. Um alerta seu, a tempo, teria impedido que Maricha viajasse, e conseqüentemente embarcasse naquele fatídico vôo.
Deveria recorrer aos parentes? Não, isso não faria, pois esses irremediavelmente o condenariam, como seus antepassados condenaram aquele tal de Mirko. Certa vez, no tempo em que ele, Maricha e os primos estudavam em Warszawa, Olek contara uma história das que dziadzio Julek lhe narrava, a respeito de um parente distante que colaborou com os nazistas quando da invasão. Ele se chamava Mirko. Diziam que a família o renegou, pois enquanto lutavam pela liberdade da Polônia e contra as atrocidades cometidas pelo invasor ele colaborava com os alemães. Para obter um passe livre que o levasse para fora do teatro da guerra, Mirko entregou todo um grupo de resistentes - todos fuzilados pelo exército de ocupação. Somavam quase trinta pessoas, entre elas o tio-avô deles, irmão de dziadzio Julek. Quando a guerra acabou, nenhuma notícia se obteve do traidor, a não ser que tinha seguido para a América àquela época, e hoje era dado como morto. Tadeusz não queria o mesmo destino.
Enquanto a vela queimava, soltando a fumaça que negrejava a prateleira sobre o criado-mudo, Tadeusz via crescer a sua angústia, beirava o desespero. Pensamentos contraditórios lhe assaltariam por toda uma noite insone.