Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 

 

XII – Filhos e destinos


A tristeza de Nicolai, logo após ter dado a notícia da morte de Maricha a Olek, não era só pelo rapaz. Era por si mesmo. Ele também amava a doçura de Maricha. Havia prometido ao amigo Andrzej cuidar dela, mas não fora capaz de cumprir a promessa. Isso muito lhe pesava.

Todavia, o temperamento desse homem não quedava para a melancolia, e logo a tristeza que o assola transforma-se em cólera pela lembrança do episódio do ritual. A idéia de que aqueles dois rapazes frívolos, Lelek e Fiodor, puseram a vida de Christina em risco o arrepiava. Sua ira ainda aumentava ao refletir que o ritual fora interrompido, e se assim não o fosse, talvez conseguisse localizar Maricha em tempo e ela estaria a salvo, agora, entre eles. Ele então decide que deveria tomar medidas duras e definitivas, por mais que isso lhe doesse, pois também era pai. As palavras do Antigo transmitidas por Lidja também o atormentavam: havia alguém em sua casa que tinha comportamento indigno. Nada resolveria atribuir somente ao visitante Fiodor tal característica, quando era sabedor das reiteradas atitudes de Lelek.

Sempre tentara trazer o filho para junto de si, e por incontáveis ocasiões se viu frustrado nessas tentativas. Obtinha do rapaz, no máximo, uma obediência contrafeita. Não era o que queria, o que sonhara para o filho. Estava na hora de reconhecer que Lelek não só não se afinava com seus anseios, mas escarnecia deles. Não lhe restava alternativa: mandá-lo-ia partir, pois, na verdade, somente este era o desejo do filho: ir-se para longe, esquecendo suas origens. Abandonar-se em aventuras, dedicar-se à arte mais por ambição a uma vida sem regras do que por algum talento que nutrisse. Talvez, ao mandá-lo embora, a vida o amadurecesse. Talvez os valores que sempre tentara incutir no filho aflorassem regados pelo sofrimento, pelas privações. Mas primeiro quer ouvir o filho, tentar, por mais uma vez, chegar até seu âmago e fazer com que ele volte a ser como era antes. Ouvi-lo na esperança de que diga as palavras certas, e ofereça outro caminho que não sua partida.

Nicolai sai da biblioteca resoluto. Quando Lidja faz menção de dizer-lhe algo, ele levanta a mão em sinal para que não prossiga, subindo as escadas sem dizer palavra. Ela compreende e se cala, retirando-se para seu quarto. Ele ficava assim cada vez que tomava uma grave decisão, e ela intuía qual fosse. Silenciosamente Lidja vai até o pequeno altar ao lado da cozinha e acende uma vela.

Chegando aos aposentos de Lelek, Nicolai encontra os dois a conversar e, sem nenhuma cerimônia, manda que Fiodor saia dali. A sós com o filho, senta na poltrona do quarto e olha para ele, que estava recostado em sua cama. Seria uma conversa difícil.

Num momento como esse Nicolai sentia ainda mais a falta da esposa morta, pois ela saberia, com sua mansidão e firmeza, dizer a palavra certa, desanuviar-lhe o espírito, enxergar o melhor caminho, abrir o coração do filho. Há tanto tempo que vivia sozinho..., jamais se habituaria à sua ausência.

Começa por perguntar ao filho o porquê dele ter ido até a tenda, e o diálogo que passam a travar é áspero. Ao contrário do filho que se mostrara arrependido e choroso logo após o incidente, Nicolai agora se via acusado de importar-se apenas com Christina, por tê-lo mandado subir naquela noite sem escutar suar razões, e tanto mais, e até de ser o responsável pela morte da mãe. Então falam dela, Nicolai se emociona. Lelek, ao contrário, continua a mostrar-se impermeável aos apelos do pai, que o chamavam à razão. Chegara o momento em que pai e filho exporiam suas mágoas, e o fizeram sem respeitar cautelas ou limites.

Quase uma hora depois Nicolai desce as escadas, encontrando Fiodor na sala, onde este folheava uma revista, distraído. Observa-o por alguns instantes, e então se dirige ao rapaz, dizendo apenas:
— Vá ao quarto e arrume suas coisas. Você não é mais bem-vindo a esta casa. Pela manhã você e Julek vão embora.

Surpreso com o ultimato Fiodor tenta argumentar:
— Senhor Nicolai, a mim pode expulsar até agora, que nada posso fazer. Esta é sua casa. Mas acho que não deveria ser tão rígido com Lelek, por causa do incidente da tenda, ontem. Afinal é seu filho, e precisa muito do senhor! E ele não tem como se manter fora daqui.
— Não lhe pedi opinião, Fiodor! Já conversei com Lelek tudo sobre o assunto, e basta. Agora vá. E amanhã pela manhã partirá e esquecerá este caminho, estamos entendidos?

Entendendo que nada mais tinha a dizer, nem pretendia ouvir, Fiodor dá as costas, subindo ao quarto. Pelo que lembrava, somente deixaram de atender a um pedido de Nicolai, e não poderiam ser responsabilizados pelas coisas estranhas que haviam ocorrido na noite anterior. Na verdade não sabia bem o que havia acontecido, pois somente se recordava de uma explosão quando Lelek foi espiar a tenda, enquanto ele vigiava, e do mais escuro breu que se seguiu. Depois disso, ele e Lelek teriam se escondido no mato e, após ouvirem gritos e tiros das mulheres, saíram em desabalada correria, rumo ao casarão, encontrando com Igor na escada, narrando-lhe o episódio. Vira o arrependimento de Lelek, que sequer quis comentar o que vira na tenda, e agora se deparava com a severidade de Nicolai.

Mas por ele estava bem, o assunto estava encerrado. Contudo entendia que para Lelek, caso recebesse a mesma pena, o fardo seria pesado demais. Fiodor tinha consciência de que sabia mais do amigo do que Nicolai ou qualquer outro naquela casa, e a expulsão com certeza o desestruturaria por completo. Porém isto não estava ao seu alcance, e tinha seus próprios planos a seguir. Planos há muito traçados, e que não permitiam desvios para socorrer a outros, pois caso contrário se distanciaria de seu objetivo.

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Quando Nicolai subiu as escadas rumo ao quarto de Lelek, também Christina observara o comportamento do pai. Agora que ele pronunciava sua sentença a Fiodor e saíra até o celeiro, ela vai ao quarto do irmão, e encontra-o arrumando as malas.
— O que aconteceu, Lelek? Para onde você está indo?
— Para Warszawa, com Fiodor. Nicolai expulsou-me de casa.
— Nosso pai fez o que?
— Seu pai. Eu não tenho mais pai, e minha mãe está morta há muito tempo, então eu não tenho mais casa. Estou indo embora daqui.
— Mas para onde vai? Onde vai ficar? Como irá se sustentar?
— Acho que isso não é mais da sua conta. De você nem de ninguém desta casa. Você deve estar, lá no fundo, até satisfeita. Afinal não fosse aquela palhaçada da tenda, isto não estaria acontecendo. Não agora.
— Não fale assim, você sabe que o erro foi seu! Deviam ter ficado dentro de casa até o sinal de Lidja. O que custava? Sempre desafiando, sempre desfazendo o trabalho de papai, sempre querendo saber mais que os outros. Por que nunca o escutou? Acho que deveria pensar bem esta noite, e quem sabe amanhã pela manhã você e papai conseguem conversar novamente, e você possa ficar aqui em casa. Esta também é sua casa!

Christina ainda tenta explicar a importância do que faziam na tenda e a gravidade do que ocorrera, mas é bruscamente interrompida por Lelek:
— Lá vem você de novo com estas besteiras! Não quero saber mais disso. Acabou pra mim, entendeu?

Lelek descomede-se, diz que nada de bom lhe adveio dos conselhos e histórias de Nicolai. Fala coisas que soam incompreensíveis à irmã, e que ela não fazia sequer idéia do que acontecia na vida dele, para dar seus palpites. Entrecortando as espantadas interpelações da irmã, que com ele sempre se preocupara, ele afirma que Nicolai dele nada mais lhe pretendeu que o destino de ser um mero coadjuvante de segunda classe; que com o pouco dinheiro que lhe dera se sustentaria nas primeiras semanas, até que se virasse por si mesmo, e que já sabia muito bem como fazê-lo. Ofende a todos da casa, não permite que Christina contemporize e por fim a manda sair do quarto.

Perdendo a calma, Christina responde que iria, sim, retirar-se do quarto e da vida de Julek Ianovich; que o seu querido irmão Lelek dera lugar a este rapaz desprezível, e isto ela não aceitaria. Que enquanto persistisse com aquele comportamento, que não contasse mais com ela. E sai.

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Cheia de tristeza pelo que acontecia à sua volta, Christina desce as escadas e procura por Baba, que a ouve e consola. Lidja, em seu íntimo, sabia a causa daquele conflito. Referia-se ao que o Antigo havia predito no ritual. O pai identificara no próprio filho aquele que se mostrava indigno, e agora o afastava do grupo familiar para preservar os demais. Comenta isso com Christina, e ambas se põem a imaginar o enorme sofrimento que esta decisão teria infligido a Nicolai, e decidem não interpelá-lo sobre a decisão tomada, pois pouco ou nada poderiam fazer a esse respeito. Christina chega a ponderar que Lelek, com suas atitudes, parecia prescindir de qualquer intervenção ao seu favor.

As duas mulheres ficam a trocar impressões, quando Christina desabafa:
— Algo nessa história não se encaixa, baba.
— Em relação a Lelek, minha filha?
— Não, sobre Maricha... O que foi dito na tenda, a forma como tudo ocorreu... ou aconteceu algo que não sabemos, ou simplesmente nós falhamos. Ela não poderia ter ido sozinha.
— Como assim, Christina? O que poderíamos ter feito? Ela decidiu partir, e foi de encontro ao destino dela. Se falhamos em algo, foi por não preveni-la em tempo para que desistisse dessa viagem.
— Eu sei, eu sei, baba! Mas ela foi só, e é desta forma que eles se aproveitam para nos atacar. Quando um de nós está a sós!
— Você acha que foram eles? Mas ela não fazia parte disso, Christina. Não há lógica no que você diz. Nunca foi assim!
— Ela não fazia parte, baba, mas Olek sim, e Andrzej, o pai dela, também. Seria uma forma de atingir a Olek, de enfraquecê-lo, justo agora que papai o prepara para revelar os mistérios da confraria! Não está certo. Isso não pode ter acontecido com Maricha.
— Está bem. Você tem um bom raciocínio, menina, mas acho que está se deixando afetar pelos acontecimentos. Não se deixe envolver assim. Chegou a hora de fortalecer-se, porque no futuro será submetida a acontecimentos ainda mais perturbadores que os atuais. Quero que esteja pronta. Espere aqui.

Desde que soubera do retorno de Olek Kowalski a Warszawa, Lidja sentira uma necessidade premente de passar seus conhecimentos para Christina de uma forma mais célere do que fizera até então. Sabia que sua saúde já não estava boa – e tinha tanto e tanto para ensinar – ela pensava. No instante que pedira a Christina que esperasse, tomara uma séria resolução, amadurecida há tempos, e não podia adiar mais, ainda que não tivesse conversado com Nicolai a respeito, e assim obtido sua anuência. Vai até seus aposentos e pega um livro antigo, com as folhas amareladas de um papel rústico, mas muito bem conservado, inteiramente manuscrito e também ilustrado com peculiares desenhos e diagramas. A capa dura em couro, envolta com uma tira do mesmo material, formava um fecho, tal qual um diário. Lidja, abraçando o livro, encaminha-se para a cozinha, pondo-se ao lado de Christina, que sentada a aguardava. Lidja, por alguns momentos se mantém silente, enquanto ordenava os pensamentos e palavras que externariam sua decisão. Por fim diz a Christina:
— Este livro é muito antigo. É cópia fiel do seu original em pergaminho, que há muito se perdeu. Merece todo um cuidado. Foi um presente que ganhei da irmã do único homem que amei na vida, um cigano... um dia contarei isso a você. Através desse livro é que, por todos esses anos, aprendi a entender os antepassados e suas manifestações. Foi o meu guia. Por muito tempo eu o abria apenas para recordar a minha própria história, mas com o tempo percebi que ele próprio indicava como deveria ser lido, e comecei a estudá-lo, fazendo as primeiras descobertas, aprendendo cada vez mais. Ele se revela a quem o trata com respeito.

Christina ouve atenta, surpresa pela desenvoltura com que baba Lidja falava de si mesma, o que nunca fizera antes. Ela sempre fora extremamente reservada sobre seu passado. Lidja prossegue:
— Eu o li e reli, por vezes incontáveis, e acho que dele já extraí tudo o que minha capacidade permitia. Agora eu o passo para você, Christina. Cuide dele. Aprenda com ele. Eu acho que você já está pronta para dar este passo!

Atônita, Christina reage inicialmente afastando a idéia, frisando:
— Mas este livro é o “seu” livro! Durante toda a minha vida eu a vi com ele. Desde pequena, é verdade, eu tinha curiosidade sobre os segredos que ele continha. Mas ele é seu, foi um presente, faz parte da senhora, não pode desfazer-se dele assim.
— Sim, é o meu livro. E o estou passando para você do mesmo modo como recebi: um presente. Este livro não tem um dono, ele ensina o discípulo que se dispõe à com ele aprender até onde a sua capacidade permitir. Agora é sua vez. Não creio que eu possa extrair daqui mais conhecimento do que eu já obtive, ao estudá-lo por anos e anos a fio. Saiba que esse livro é assim. A cada vez ele se revela mais e mais. Você poderá saber tudo que eu aprendi e ir além. Poderá ver o que eu não tive olhos para ver. E depois do que foi dito no ritual da tenda, estou certa que é a hora de você começar a estudar mais profundamente. Pegue-o.

Christina emociona-se com o gesto de baba Lidja, e após sentir o livro que era posto em suas mãos, deixa-o sobre a mesa para abraçar Lidja, que desconcertada com a reação da pupila recebe o abraço, dando-lhe tapinhas nas costas.
— Obrigada, baba...

Retomando a sua postura corriqueira, após se permitir alguns momentos de emoção, Lidja sentencia:
— Não agradeça. Aprenda. Dedique-se. Empenhe-se verdadeiramente. Vou ensinar-lhe o que aprendi a respeito de como se deve ler este livro, os rituais que ele impõe. Posso explicar muitas coisas para você, mas sempre lembre que eu não tenho todas as verdades. Você poderá entender melhor algumas coisas, tirar suas próprias conclusões. Ele é todo escrito em latim, latim arcaico, e apesar de ser aluna aplicada, sei que terá, por vezes, dificuldades para compreender.
— Eu nem sei o que dizer, baba. Você sempre me ensinou coisas dos antepassados, mas jamais esperei que um dia pudesse receber este livro. Papai deve ter ficado surpreendido, também!

— Nicolai? Não, eu não falei com ele ainda.
— Não falou? E isso não o desagradará?
— Mas é claro que sim! E acho que será por despeito! Os homens não conseguem, em sua maioria, compreender a dimensão desses nossos conhecimentos, e os poucos que compreendem se tornam magos. Os outros, por sua vez, se tornam apenas uns despeitados!

Baba Lidja ri gostosamente do seu próprio comentário, mas diante do olhar apreensivo da pupila, complementa:
— Mas fique tranqüila, eu falarei com ele e tenho certeza que terminará por aceitar, e até ficar feliz, de eu ter identificado em você o dom para este aprendizado. Você é, lembre-se sempre, a protegida de Zywia. Conte com seus dons, e nunca perca a sua alegria.

Christina iria insistir na consulta a Nicolai, mas repara que Lidja já ficava aborrecida com a sua postura. Sabia que, no fundo, baba tinha razão. A depender de Nicolai, ela ainda seria a sua pequena filha a correr alegre pela casa, sem ter tido acesso a tudo o que, no decorrer dos anos, Lidja lhe passara para que hoje estivesse a receber o livro. Ouve atentamente as instruções que recebia. Dedicaria uma hora de seus dias, todos os dias ímpares, para o estudo das lições, de preferência em jejum. Reservaria a primeira noite de Lua Cheia para rever cada um dos capítulos do livro, ou parte de um deles, e por uma semana no ano se poria em recolhimento, para alcançar a verdadeira compreensão dos ensinamentos adquiridos. E seria assim até que lesse o livro por sete vezes, e manteria uma semana por ano em recolhimento até que chegasse a hora de repassar o livro a quem de direito, como Lidja agora fazia. A alguém que iria, certamente, surgir em seu caminho e demonstrar ter o dom para receber o tesouro que estava, a partir de agora, sob seus cuidados.

Christina ouvia que teria que retribuir com dedicação e disciplina, e para isso sabia-se pronta. Muitas coisas acorriam ao seu espírito, assuntos demais absorviam-na. Ainda se sentia amargurada por haverem fracassado com Maricha, atormentava-se profundamente pelo sentimento de que algo estava fora de lugar. Também nutria a tristeza pelo desfecho da recente conversa do pai com o irmão, e da partida deste último. Lelek estaria pronto para gerir sua própria vida? Christina também se preocupava como estaria o pai, que ainda não voltara do celeiro. E Lidja? Acaso sua saúde estaria fraquejando, para que ela se decidisse por passar o livro adiante, o livro que a acompanhara por toda uma vida? Seriam perguntas com as quais teria que conviver, até que soubesse encontrar as respostas. Mas todas essas inquietações eram superadas pelo presente que recebera, que seria o instrumento do qual se valeria para aprender a responder a todas as indagações que afluíam à sua alma, assim como sempre vira Lidja proceder em relação à sua família.

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No outro dia Lidja vai até Nicolai, na biblioteca, e comunica a decisão que tomara, arrancando Nicolai da introspecção na qual mergulhara desde a partida de Lelek:
— Você o quê?
— Eu o dei a Christina! Ela vai prosseguir nos ensinamentos que tenho dado a ela através do livro.

O espanto não cabia em Nicolai. O livro, como eles se referiam, permitia a Lidja, entrar em contato com um mundo desconhecido, poderoso, ancestral, com um mundo que fazia ligação entre os primórdios da formação do povo polonês e o grupo de ação liderado por Nicolai, agora passava para as mãos de sua filha.

Por muitas vezes ele havia norteado suas ações através dos ensinamentos e dos vaticínios dos ancestrais, recebidos graças à invocação da amiga e protetora de tantos anos, que suportava a carga dos conhecimentos que adquirira. Lidja, tendo repassado o livro a Christina, de certa forma – Nicolai assim pensava – ela transferia este peso, o que poderia, aos olhos de pai, ser um fardo muito pesado para a filha carregar. Lidja, no entanto, permanece firme diante do patriarca.
— E por que fez isso sem me consultar?
— E de que adiantaria? Faria diferença?
— Eu tinha o direito de saber!
— E está sabendo agora.
— Lidja, você é impossível, intratável e impertinente! Essa decisão você não poderia ter tomado sozinha!
— E você é teimoso, cego e rabugento! Não viu ainda que Christina é uma mulher feita?
— E o que isso tem a ver com o assunto? Eu comando esta casa enquanto viver, e tenho que saber o que se passa dentro dela! Não posso ficar sempre assim, pego de surpresa, toda vez que você decide algo por si mesma, e ser comunicado somente após as coisas já terem acontecido.
— Eu estou velha, Nicolai. E doente. Se eu não fizesse isso agora, talvez não pudesse fazê-lo mais tarde. Não é possível que você não compreenda tal coisa.

Quando Nicolai vai lhe responder, Igor irrompe na biblioteca, e da porta pergunta o que estaria acontecendo, ao que ambos, Nicolai e Lidja, respondem em coro:
— Não meta o seu nariz aqui!

Igor, arregalando os olhos, retrocede sob os próprios passos, suavemente, fechando a porta atrás de si. Engole em seco e dá de ombros, procurando Christina pela casa, a fim de que esta lhe contasse o que eles estavam discutindo com tanto fervor. Ele que não iria botar o seu nariz naquele vespeiro, pois conhecia muito bem aqueles dois, Sempre terminavam por se entender, naquele seu jeito peculiar. E desta vez não seria diferente.

De fato, mal a porta se fechara, Nicolai olhara profundamente para baba Lidja, que ansiava por sua aprovação. Ele então não consegue deter um sorriso e vai até ela, passando o braço nos seus ombros enquanto dizia:
— Lidja, Lidja. Um dia você ainda me tira do sério...

Era a súbita consciência de que tinha na filha o braço que aliviaria sua carga, que o fizera contemporizar com Lidja. Ele quis saber mais da filha, de como Lidja a via quanto às atividades da confraria. Perdera um filho, que saíra daquela casa dizendo que não tinha mais família, e isto abrira uma ferida em seus pés cansados. Mas no mesmo dia sabe da filha, que em silêncio se preparara por anos, que espera a sua aprovação para o exercício do dom que trazia desde o berço, e que por tanto tempo fora preservado e acalentado por baba Lidja. Era o bálsamo que necessitava para o seu alívio. Christina teria a sua aprovação, e a sua benção.