Mar de Olek

 


Olgierd Sokolowski

 

VIII – Janina e Tadeusz

 

Dentro do seu apartamento, Tadeusz estava exasperado, a ralhar com Janina:
— Mas como permite que Maricha fique passando as noites fora, com aquele sem vergonha do Olek?
— Maricha já é adulta, Tadeusz. Você não pode querer que eu a controle como se fosse uma menina, proibindo-a de sair!
— Então você concorda com esta pouca vergonha?
— Não é isso. Maricha sabe cuidar de sua vida, é uma mulher casada.
— É separada, mãe. É separada. Isto não quer dizer que pode ficar saindo por aí, com quem lhe aprouver. Deve voltar para a família. Devemos cuidar dela. Você sempre me disse que eu era responsável por ela, e agora quer que eu aceite isso?
— Ora, Tadeusz. Agora é diferente...
— Você não vai proibi-la de sair com ele, nem vai impedir que ela faça esta viagem para Israel?
— É claro que não. Não teria cabimento. Ela deve saber cuidar de sua vida, e se quer voltar para sua outra família, que vá. Já faz muito tempo que ela saiu de casa para vir para cá, estudar com você e seus primos. Também há muitos anos eu perdi Andrzej, e não só agora, que ele morreu. Então não posso mais dizer a ela o que fazer ou não de sua vida, se a minha já foi arruinada.
— A senhora lava as mãos? Então eu mesmo vou tomar as providências para que tudo volte ao lugar certo.
— O que vai fazer, meu filho?
— Ainda não sei, mas se não vai ajudar, deixe-me em paz.

Janina nunca abandonara a idéia de que Maricha fosse realmente filha de Andrzej com outra mulher, e isso a atormentou por toda a vida, impedindo que ela abrisse seu coração para a menina. Tadeusz sentia-se dividido quanto a isso, ora acreditando no pai, que ouvira negar a Janina que Maricha era sua filha de sangue, ora cria na mãe, que insistia na traição do marido. Achava que se acreditasse no pai, traía sua mãe, e se acreditasse nela, traía a própria cobiça que nutria, em ter um dia a bela Maricha toda para si. Era o seu desejo mais secreto, mas talvez não tão secreto que não fosse percebido por Janina, o que a faz ir atrás de Tadeusz, suplicando:

— Você não pode deixar que ela o deixe nesse estado, meu filho. Maldita hora em que Andrzej trouxe aquela menina para a nossa casa! Ela não pode roubar nossa paz. Deixe que ela se vá, Tadeusz, e talvez agora, no fim de minha vida, eu possa ter um pouco de sossego. Só eu e você, filho querido. Esqueça Maricha, esqueça esta sua meia-irmã que tanto transtorno trouxe à minha família, e fique comigo. Você é a única coisa boa que resta em minha vida, meu filho.

O filho nem responde aos apelos da mãe, enquanto se arruma para sair. Ele está inquieto, irritado, contrariado. Teria que tomar providências para que as rédeas da família voltassem para as suas mãos, como deveria ser. Janina estava velha e entregue. Victor era independente, não se importava com os outros. Olek um largado, que não se preocupava com a família. Os outros morreram ou se dispersaram. Somente ele, Tadeusz, poderia agora trazer, com autoridade, tudo ao seu devido lugar, como seria o certo.

Desde que Olek e Maricha se reencontraram, contudo, não conseguia mais controlar sua irmã. Ele sempre odiara Olek, silenciosa e profundamente. Era Olek o mais inteligente, o mais estudioso, o mais triste, o mais coitadinho porque era o preferido do avô que morreu. Tadeusz não recebeu a mesma atenção, achava que pouco o avô se importava com ele, mesmo sendo ele era o primogênito de Andrzej. Quanto ao pai, este colocara Maricha bebê dentro de casa, aquela menina bonitinha que Tadeusz tinha que cuidar, que proteger, que fazer as vontades. Se por um lado nunca se revelara um menino estudioso e comportado, ele sempre se esforçara ao máximo para proteger Maricha, e entendia que o fizera bem. O fizera sempre e sempre, a ensinara a andar de bicicleta, a protegia na escola, brigara com os meninos que queriam se aproximar dela, rompia com os amigos que o começavam a visitar como pretexto, para poder flertar com Maricha, que fora uma adolescente muito bela. Deixara mesmo de namorar, por muitas vezes, para que Maricha não se sentisse solta ou desprotegida.

Tadeusz também achava que seus pais nunca reconheceram o suficiente os esforços dele para sempre fazer o melhor para Maricha, mas não fazia mal, pois passara a fazer isso em seu próprio interesse. Achara que cumprira muito bem o seu papel, que cuidava dela bem, ao menos até eles se mudarem para Warszawa a fim de estudar – maldita sina – quando então Olek e Maricha resolveram se encantar um pelo outro. Mesmo assim lutou sempre contra essa aproximação, que sempre considerou impura, e sua maior vitória foi inscrever Maricha na escola de música alemã, e conseguir que ela partisse, deixando Olek para trás. Não que se importasse muito com o que Maricha entendia por pendores musicais, mas era uma forma de satisfazê-la, e ao mesmo tempo afastá-la daquele primo infausto que a estava pondo a se perder. Porém, continuava a pensar Tadeusz, na Alemanha, longe de sua orientação e cuidados de irmão, acabou por se envolver com um sujeito arrogante, o que terminou num casamento que sempre achara desastroso, e que tinha que acabar como acabou: no abandono.

Mas agora, quando Tadeusz finalmente pensava ter Maricha de volta para si – e sem o pai para atrapalhar seus planos –; quando pretendia reassumir os cuidados que sempre tivera com ela, fazendo que tudo voltasse a ser como era antes, Olek ressurgia, vindo de Moscou, com a história de ter conversado com o pai deles, já morto há muitos dias, na viagem de trem, conversas que ele próprio, Tadeusz, jamais conseguira ter em vida, e ainda por cima restabelece o relacionamento com Maricha. Era um acinte. Ele realmente odiava Olek com todas as suas forças. E agora, desolado, via aparecer um certo irmão judeu não sabe de onde, e Maricha, desvairada, querendo atravessar o mundo para encontrá-lo e lá viver, enquanto ele, Tadeusz, o verdadeiro irmão, que cuidara dela com todo desvelo por todos esses anos, estava na iminência de ser descartado como postiço, como alguém que não mais importava para Maricha. Ele tinha o direito de orientar Maricha, e iria fazer de tudo para que ela não fosse para Israel, nem que para isso tivesse que chegar ao cúmulo de chamar o crápula do ex-marido dela para tentar uma reconciliação, ou falar com seus novos amigos que conseguiram sua promoção na fábrica. Ele encontraria uma forma de mantê-la perto de si, e sob seus cuidados, como era seu direito, e não iria medir limites para conseguir o que queria.

¤

Olek estaciona o carro em frente ao apartamento do primo no exato momento em que Tadeusz saía pela porta do prédio. Vendo-os, Tadeusz se dirige ao carro enquanto eles descem, já provocando Olek com ironias, e a afirmar que a irmã dele não sairia mais com alguém que não prometia nenhum futuro, como Olek. Que ele, Tadeusz, não permitiria mais que a sua irmã se comportasse dessa maneira, saindo com o primo e somente voltando no dia seguinte como se fosse uma... e é interrompido pelo punho certeiro de Olek que, o atingindo na boca, o faz cair ao chão. Tadeusz enxuga o sangue que lhe escorre pelo lábio e se levanta para reagir, mas Maricha se interpõe entre ambos, tentando evitar o confronto, e acaba sendo golpeada no peito por um chute que Tadeusz dirigia contra Olek.
— Maricha!

Olek grita horrorizado por vê-la caída ao chão, tossindo, mão ao peito, e acode em seu socorro. Tadeusz fica estático, sente-se paralisado, incrédulo com o que acabara de fazer.
— Maricha!
Repete Olek, diante dela, agora já apoiando sua cabeça na perna dobrada. Ela ainda tossia, e ante as indagações de Olek fazia com a mão sinal de que estava bem.
— Estou bem, Olek, estou bem, diz tossindo, ajude-me a levantar.

Olek ajuda Maricha a se levantar e a se recompor, sacudindo a neve que ficara em seu casaco. Esta lentamente se refaz do golpe de Tadeusz, que, ali parado, finalmente balbucia:
— Perdoe-me minha irmã, eu não pretendia acertar em você, mas sim nesse...

E é interrompido por Maricha que, ainda pressionando o lado direito do peito, levanta a outra mão, fazendo um sinal para que ele parasse e, tomando fôlego, secamente responde a Tadeusz:
— Pare, Tadeusz. Você ultrapassou todos os limites. Você não é meu irmão, nunca soube ser, e a partir de hoje eu realmente não o considero mais assim.

Tadeusz vai retrucar. Maricha tosse, porém esforça-se para prosseguir:
— A verdade é que você sempre quis ser o meu dono, e eu não sou uma boneca para você ficar mandando eu fazer ou desfazer a minha vida. Eu vou sair deste apartamento hoje, e também estou partindo de Warszawa. Terei muitas coisas para lembrar, mas a maneira como agiu agora farei questão de esquecer. Talvez o esqueça também, porque você é exatamente o que conseguiu representar nesta cena.
— Não Maricha, eu não quero que você...

Mais uma vez Maricha estava decidida a não permitir a Tadeusz continuar. Sua tez, empalidecida pela dor e pela surpresa da agressão, se tornara dura. Dura e fria. Ela olha fixamente para o irmão, e entre os lábios, com um tom tão cortante como o frio da noite que se avizinhava, profere seu veredicto em relação ao comportamento do irmão de criação:
— O que você quer, ou deixa de querer, não importa mais para mim, Tadeusz. Você sempre quis se assenhorear da minha vida, do meu destino, decidir o que era melhor ou pior para mim. Sempre tentei compreender este seu temperamento, mas eu nunca lhe dei o direito de dirigir minha vida, mesmo porque você sempre atendeu somente a uma vontade: a sua própria.
— Mas a nossa família...

— Família? Dobre a língua antes de falar da família. Sequer acompanhar o seu próprio pai nos últimos dias de vida você foi capaz. Nem foi se despedir, a não ser quando ele já estava morto. Você é um covarde em relação a si próprio, e quer encobrir isso atrás de um jeito autoritário de ser. Como guardião dos sentimentos das outras pessoas, esconde que você próprio não os tem, e quando os tem, não os assume senão em forma de raiva. Chega, Tadeusz. Chega.

Dizendo isso, e fazendo um sinal para que Olek a acompanhasse, Maricha vai caminhando lentamente em direção à porta de entrada do prédio. Tadeusz faz menção de detê-la para dizer algo, mas dessa vez é Olek que barra o caminho de Tadeusz, rosnando que ele sumisse dali, pois já tinha feito o bastante por um dia. Tadeusz pensara em reagir às palavras de Maricha, tentando desviar de Olek, mas este se aproxima mais, empurrando Tadeusz com o peito. Tadeusz recua, fuzila os dois com um olhar encarnado de um ódio indescritível, dá as costas e segue pela rua, olhando para trás, procurando pela irmã, punhos cerrados. Olek vai ao encontro de Maricha, que já estava em frente ao elevador. Olek puxa as grades de ferro do antigo ascensor, aperta o botão do terceiro andar, cerrando as mesmas grades, e o elevador começa a subir lentamente, com Maricha, desolada, a amparar-se no ombro de um Olek soturno. Sabia que não podia fazer muito pelo que ela sentia naquele momento, a não ser postar-se ao seu lado, e ajudá-la a se recuperar do golpe e a reunir suas coisas naquele apartamento. Teria que trabalhar em silêncio a raiva que estava sentindo, para não sobrecarregar a amada. Eles ficariam no estúdio de Victor. Afinal, melhor lugar não havia para que ela pudesse se refazer daquele choque.

¤

Janina abre a porta e os recebe, atônita. Maricha mal a cumprimenta e vai ao quarto arrumar suas coisas, enquanto Olek conta para a tia o que ocorrera em frente ao prédio. Depois que ouve tudo, horrorizada, Janina pergunta:
— Como ele está? Você o machucou? Para onde ele foi?

Olek, espantado com a reação da tia que ao invés de perguntar sobre o ferimento de Maricha perguntava pelo agressor, responde:
— Não, o Tadeusz não está machucado, foi embora, não sei para onde. Mas Maricha está machucada, sim, e o foi por ele, quando ela tentava evitar que Tadeusz me agredisse. Não vai ver se ela está bem, Janina?

Desprezando a ironia do sobrinho, Janina questiona Olek:
— Como vocês podem tratar assim a Tadeusz, Olek? Não entendem que ele só quer o bem de vocês? Que sempre se preocupou com Maricha, com todos da família, e vocês sempre o desprezam? Ele é seu primo, não se esqueça disso!

Maricha não se demora em arrumar as suas coisas. Ainda no quarto, envolve em lenço branco um camafeu que o pai lhe dera de aniversário de quinze anos, e que pedira que ela sempre levasse consigo, onde fosse. Retorna à sala com a mala ainda a tempo de ouvir as recriminações de Janina, e interfere:
— Tadeusz está errado. Ele não pode continuar pensando que tem a vida das pessoas que o cercam em suas mãos!
— Ele sempre quis seu bem, Maricha, parece que não entende?
— Eu sei, mãe, mas já respondo por mim, não preciso de homem algum querendo impor o que acha certo ou errado para minha vida, irmão ou não!

Janina, alterada, responde:
— Não precisa me chamar assim. Você agora é adulta, é dona de si, e sabe que não sou sua mãe, assim como conhece o que penso quanto às razões que a trouxeram para dentro de nossa família.

Incrédula com o que ouvia, Maricha só consegue dizer:
— É, eu sei que, mesmo sabendo que alguém da minha verdadeira família me encontrou, ainda pensa que sou filha ilegítima de papai. Nunca vai se permitir uma certeza. Por isso mesmo, obrigado por ter me acolhido em sua casa, e me criado com respeito e dignidade. Não vou esquecer o que fez por mim. Adeus.

Maricha, ao concluir tais palavras, abraça Janina em despedida e, sem esperar resposta, sai.

Desarmada com a atitude de Maricha, Janina vê a filha partir com os olhos marejados, ao lado de Olek. Janina sente-se tremendamente infeliz, pois Maricha partia, mas a dúvida que a mulher carregava, não.

 

IX – A partida

 

Ao entrar no carro, Maricha desaba a chorar pelos últimos incidentes. Se por um lado conseguira dar um basta ao jugo do irmão, por outro jamais conseguira o amor de Janina, e não seria agora que o faria, agora que Andrzej morrera. Olek, ainda tocado pelas palavras ditas por Maricha à mãe adotiva, silencia, deixando-a desfazer-se em soluços como desabafo, enquanto ele concentra-se na direção do veículo – e na busca da própria serenidade.

Quando ela se refaz, Olek muda de assunto. Não a quer remoendo os últimos acontecimentos. Conversam sobre a sua partida para Israel, e ele fica sabendo que está muito próxima. As reservas deveriam ser confirmadas para daqui a dois dias. Estremece com a iminência da viagem. Olek ainda a questiona sobre a sua ida, mas o faz já sem convicção. Deixaria com o tempo, e com as histórias de vida de ambos, a possibilidade de um reencontro. Mas agora não deveria insistir. Sabia disso com clareza, embora tal não aplacasse a tristeza ou a dor do abandono que o açoitavam.

Já está escuro quando chegam ao estúdio de Victor. Olek vai até a cozinha preparar um jantar, enquanto Maricha escolhe entre fitas cassete uma música que preencha o ambiente, para só então se acomodar. Valorizam cada segundo de que dispõe, numa espécie de pacto que não dá lugar à melancolia, mas que deixa alegre o se saberem juntos. Olek e Maricha estão se despedindo, sem saber se para sempre ou até quando, mas dispostos a evitar que lágrimas impeçam a retina de gravar a beleza daqueles momentos.

E passam os dois dias ali, mal saindo, exceto para providenciarem o essencial, mal se separaram. Maricha faz os preparativos para a viagem, pega os documentos no correio, cancela ou transfere compromissos, visita o túmulo de Andrzej, trava contatos com Israel e com o irmão. Olek atende ao estúdio, entra em contato com a Universidade de Kraków, recebe materiais fotográficos encomendados pelo irmão. Ambos agem como se não houvesse partida iminente. Conseguem, nem sabem como, transformar em suave convívio o que seria, no mais das vezes, um lento martírio. Maricha e Olek se conheciam desde pequenos, e o que sentiam era por demais profundo para que não se permitissem esta forma especialíssima de adeus.

¤

Amanhece o outro dia. O último. O dia em que Maricha vai embora.

Olek vê o clarear pela janela do estúdio de Victor. Agora se posta na janela, pensativo. Não conseguira dormir bem esta noite. Quando Maricha adormeceu ele ficou ao lado dela, a acariciar seus cabelos, enquanto pensava. A tristeza era enorme, e quando já era alta a madrugada resolveu levantar. Vestiu um grosso blusão e meias de lã, e desceu para a sala do estúdio. E lá ficara. Sentindo as horas escorrerem pela vidraça, observando as cores da noite se transmutarem até o raiar do dia. Do dia da partida.

Descrever um a um os amanheceres de Warszawa não seria enfadonho. Nem seus entardeceres tampouco. O Sol vermelho da terra dos antigos campos de passagem, quando a civilização lá ainda não tinha se estabelecido, marca os olhos da alma de quem o vê. De quem, afinal, por ele é visto e iluminado. O Sol que brilha sobre aquela terra é um sol confidente, guardando os segredos de todas as almas que sob sua luz ousaram viver, e lhes espelha tais confidências quando voltam a encarar a sua face eterna e rubra.

Amanhece a casa toda, e desta vez o amanhecer é mesmo de partida. O Sol que guarda as verdades também invade o andar superior, devassando as cortinas do quarto do apartamento-estúdio, despertando Maricha ao tocar os olhos dela com um raio seu, fazendo brotar a consciência da importância do dia que nasce, e que se apresenta mais belo do que nunca lhe parecera. E é um sol de adeus, que faz com que ela, caminhando para a janela, permita às lágrimas brotarem em seus olhos, e correr livremente pela sua face, lágrimas pelo que deixava em troca do novo, do desconhecido, do imprevisível, que seria olhar para dentro de uma história que sempre lhe fora oculta: a sua própria origem e, por isso mesmo, seu destino, acreditava. Nada mais há para preparar – tudo está pronto – tudo menos o mais importante: conseguir que o coração abra mão de simplesmente continuar a história que trazia desde criança de colo, a história da terra em que crescera, para então poder seguir livre atrás de um sonho, de uma dúvida, e de uma sina que não se mostrasse tão truncada, tão acidentada como o sua havia sido.

Quem de fora contemplasse o prédio, deparar-se-ia com dois pares de olhos perdidos, solitários, partindo um do sótão e outro do térreo em direção a um infinito que ignoravam. Uma mulher e um homem tão próximos no momento exato em que as suas almas, quase unidas, se desprendiam uma da outra para seguir os próprios caminhos. O pensar, o pesar, de cada um daqueles dois. Os olhares, as janelas, as lembranças guardadas, as promessas quebradas, ou nunca feitas estavam ali, grafadas pelo sol, a grande testemunha.

Nada mais restaria senão dizer adeus, nada mais haveria senão o comportamento civilizado dos adultos, porque a despedida real se dera naquele momento, naquelas janelas, e quando Maricha descesse as escadas para ir ao encontro de Olek, quando estes se preparassem e, no final da tarde, seguissem para o aeroporto, quando de lá acenassem um ao outro em adeus, nada mais seria que a separação de corpos e olhares, porque as almas, sim, as almas que se amaram, já teriam se despedido, seguido sozinhas pelas frestas das janelas daquele estúdio fotográfico, num canto da Praça da Cidade Velha de Warszawa.


X – Além do véu



Baba Lidja acordara agitada. Quebrara uma louça enquanto arrumava o café da manhã – o que era raríssimo acontecer – e tropeçara por duas vezes quando ia da cozinha para a sala. Resmungava e praguejava, depois seguia direto para a capelinha e se benzia, como a se perdoar pelas imprecações proferidas. Observando aquilo, Nicolai indaga:
— O que deu em você hoje, baba? Que bicho lhe mordeu?
— Bicho me mordeu? Bicho me mordeu? Você já vai ver o que é mordida de bicho bravo, Nicolai! Está tudo errado, eu sinto que está tudo errado, tem alguma coisa fora de lugar, atrapalhando, atrapalhando, e não sei o que é.
— Fora de lugar? Mas a casa está um brinco, nem parece que recebemos visitas ontem. Não entendo do que você fala, Lidja.
— Não estou falando da casa, tapado. Estou falando do destino, da vida, dos caminhos que não se cruzam. Não está certo. Tem algo que eu não pude ver para a menina, algo ficou escondido e era importante, e eu não sei o que é. Só sei que quando ela foi embora com o rapaz, tive vontade de chamá-la de volta, de por as cartas novamente, mas só agora percebo que tem algo errado no que vi.
— Andou pondo as cartas novamente, Lidja? Pensei que havia me prometido que não mais o faria, e agora, depois de tanto tempo, quebra a promessa?
— Eu não quebrei a promessa. Eu disse que não leria mais as cartas para ninguém da família. A menina Maricha não é da família, e na noite que eles chegaram, quando você se recolheu com Olek na biblioteca, tive um impulso muito grande de pôr as cartas para a filha do Andrzej. Ela parecia muito aflita, porque a vida dela está cheia de encruzilhadas. Estava evidente em seus olhos que estava se deparando com encruzilhadas! Mas agora eu percebo que algo está fora de lugar naquilo que eu vi, algo oculto que não podia entender, que não conseguia decifrar para dizer a ela.

Desde quando Lidja predissera a morte da esposa de Nicolai, ele em sua dor a fizera prometer que jamais iria ler as cartas para alguém de sua família, enquanto estivesse sobre seu teto. Já fazia muito tempo que isso havia acontecido, mas Lidja sempre respeitara a dor de Nicolai, que em sua cólera culpava o vaticínio, e não a inexorabilidade do acontecimento. Baba Lidja entendia os sentimentos de Nicolai, e então nunca mais lera as cartas para ninguém, até a noite anterior, quando sentiu que deveria auxiliar Maricha, que se apresentara tão só e angustiada.
— E o que era, velha bruxa, que você não tinha identificado e agora sabe? Diga de uma vez!
— Não era bem sobre ela, era sobre os dois.
— Maricha e Olek?
— É.
— E do que se trata mulher, não sabe como isso pode ser importante?
— Eu não consegui descobrir, não consegui entender ainda.
— Então faça alguma coisa!
— Mas eu prometi a você não fazer nada daquelas coisas nessa casa, nunca mais!
— Ora essa! Agora está cheia de cerimônias. Então não devia ter começado com isso, agora tem que ir até o fim. O tempo está se esgotando, logo ela partirá para bem longe, e não poderá avisá-la de nada, nem esclarecer nada!
— Está falando sério?

Nicolai entende o que Lidja perguntava. O tempo já havia lhe mostrado que fora duro demais com baba Lidja quando cego pela dor da morte da esposa. Há muito pensara nisso, e agora olha ternamente para a amiga de todas as horas, dizendo:
— Estou falando sério, Lidja. Eu a libero da promessa que você me fez. Sei que você não causou nenhum mal, apenas preveniu. Está livre para exercer seus conhecimentos.

Lidja encara Nicolai, e fica com o coração aquecido. Seu gênio, entretanto, não se coadunava com tais demonstrações, então ela, como se ele tivesse falado algo trivial, observa:
— Amanhã é noite boa. Eu me prepararei para amanhã. Vou precisar de sua ajuda e de Christina.

Nicolai tem um sobressalto:
— De Christina?
— Precisamos ser duas.
— Mas porque ela?
— Porque ela é mulher, e tem afinidade com os dois. Muita.
— Com os dois?
— Com Olek.
— Como é?
— Tem afinidades com o Olek.
— Está doida? Christina nem sequer tolera o rapaz, estava por aqui com ele ontem, depois da abordagem que ele fez na Nowy Swiat.
— Engano seu. Mãe de Deus, como os homens são cegos! Ela se preocupa com o rapaz, é por isso que se enfureceu: porque ele não entendia o que ela estava fazendo por ele. E acho que ainda não entende.
— Será...? Bom, talvez você tenha razão. Mas acha que Christina está pronta para a tarefa?
— Se ela está pronta? Você é o único que não enxerga o quanto Christina está pronta, Nicolai. Tem momentos que vejo em você aquele menino turrão, incapaz de ver as coisas mais óbvias que estão ao seu redor.
— Mas que mulher! Não perde oportunidade de me fazer críticas. Às vezes penso que gosta de viver aqui somente para poder me azucrinar!

Era verdade o que baba Lidja afirmara. Tão logo Christina começara a entender as atividades do pai, dedicara-se com afinco em se aperfeiçoar em todos os aspectos, a fim de estar sempre à altura do que ele lhe pedisse. Christina sempre tentou se mostrar apta para qualquer atividade que auxiliasse Nicolai. O fato de ele não lhe reconhecer as qualidades a teria magoado por diversas vezes, e baba Lidja sempre estivera atenta a isso. Já tentara abrir os olhos de Nicolai para o fato, mas algo o impedia de enxergar claramente o potencial da filha. Baba Lidja não sabia se isso acontecia por Christina ser mulher, ou se ele agia assim para protegê-la. O caso, no entanto, era que ele jamais atribuía a Christina o verdadeiro valor, nem retribuía com elogios à altura dos esforços que a filha desenvolvia.
— Eu sou grata a seus pais, e sempre o serei, Nicolai Ianovich. E é por isso que nada me impede de lhe falar o que eles lhe falariam. Eu quero Christina nisso. Então, tenho seu acordo? Amanhã à noite, terei que ir até a boca do bosque. Durante o dia iremos eu e você até lá, abriremos uma clareira e faremos os preparativos. Vamos esperar que não caia mais neve, senão será impossível realizar o que queremos.
— Está certo. Tem minha aprovação, mas só desta vez, e eu vou junto. Sabe como me sinto com essas coisas.
— Sinto muito, mas você não poderá ir.
— Então não se realizará. Eu quero estar lá por causa de Christina.
— É por causa dela que não poderá estar lá. Confie nela. Confie em mim, estaremos seguras. O seu temor não tem fundamento. Não o culpo por se sentir assim, embora não esteja com razão nenhuma. Mas você é quem comanda a casa, decida se farei ou não, e eu o respeitarei. Mas sei também que não poderá estar presente. Estragaria tudo. Caso permita que aconteça, seremos somente nós duas lá. Mais ninguém.

Era assim. Não importava o assunto de que se tratava. Se afetasse a casa, era o chefe da família quem dava a última palavra, qualquer que fosse, contrariasse quem contrariasse, e mesmo assim todos a respeitavam e cumpriam. Ele, o chefe, assumiria os riscos, repararia os erros, teria as honras e as responsabilidades. Mas a resolução era somente sua. E baba Lidja respeitava isso. Aprendera ser o correto desde pequena na casa do seu pai, por qual palavra tinha sido expulsa por solteira carregar uma criança no ventre. E também era assim na casa que a acolhera naquelas condições, quando não tinha mais para onde ir. Sabia que no lar que a recebera imperava esta lei, e se fazia a sua guardiã. Nicolai fica pensativo enquanto prepara o cachimbo, respira fundo e sentencia:
— Está bem. Será como você quer. Amanhã à noite. Falarei com Christina para seguir suas instruções, mas a proteja, baba, não permita que nada lhe aconteça, esta é a minha condição.
— Nada de mal acontecerá à Christina, Nicolai. Nada de mal. Ela está mais pronta para isso do que você pensa.
— Acaso esconde-me algo, baba Lidja?
— Nada que não sejam segredos de mulher. Eu prometo a você, por toda gratidão que tenho por esta casa, que nada de mal irá acontecer com ela. Basta, para isso, que ninguém, e eu digo ninguém mesmo, nos perturbe no ritual. Nem mesmo você. Somente a chegada de estranhos ao ritual poderia fazer algum mal à Christina.
— Quer que eu coloque os rapazes vigiando o bosque?
— Não. Ninguém de fora entraria na propriedade. Quero que os mantenha dentro da casa, não importando o que virem ou ouvirem enquanto estivermos lá. Nos deixem a sós, não sigam ao nosso encontro. Aproximadamente duas horas após nossa partida darei um sinal, e então podem ir ao nosso encontro. Estaremos muito cansadas, mas teremos as respostas.
— Será apenas isso, cansaço?
— Será. Não tema por nada, apenas ajude-me amanhã, porque estou velha e fraca para preparar tudo.

¤

Se não somos deuses, não deveríamos querer antever o destino, pois eles, os deuses, caprichosos, permitem-nos saber das coisas imutáveis, não compreendidas, que em vão tentamos evitar. Nos mostram verdades, mas não completas, e se divertem ou então se enternecem com a nossa parca compreensão do universo e seus desígnios. Eles se riem ou compadecem diante da nossa impotência ao tentar evitar o inevitável, reprimir o irreprimível, perpetuar o impermanente. E sem querer nos ferem, quando por nossa própria imprudência, rompemos o equilíbrio tênue que nos possibilita ver e ouvir e saber além do que normalmente se permite aos mortais.

Espiar atrás do véu. É para isso que se preparavam Lidja e Christina nos bosques de Arkadja. Levantar a ponta da venda que inibe o acesso ao conhecimento dos secretos caminhos da vida, através do tempo. Baba Lidja instruíra por vários anos Christina, que estava sempre pronta a aprender sobre esses mistérios. Christina era aplicada e tinha o dom, e ambas guardaram tal iniciação como segredos de mulher: – eram as almas femininas penetrando na alma feminina da terra, para compartilhar seus segredos. Bruxas? Curandeiras? Adivinhas? Videntes? Pitonisas? Tanto faz. Tinham as chaves do oculto, e a forte intuição de baba Lidja apontava ser a hora da iniciação de Christina, para passar-lhe o conhecimento, e quiçá prevenir-se de uma tragédia que podia estar se avizinhando.

Nicolai preparara o lugar. Desbastara a clareira, armara a tenda circular sob a inspeção de Lidja, cujo centro era descoberto, consistindo numa grande e redonda abertura, pela qual deveria sair a fumaça da fogueira a ser acesa bem ao centro, e por onde se contemplaria o céu noturno. Ao redor, preparara os cinco tamboretes, dispostos de modo a formar um pentágono, onde se assentariam Baba Lidja, Christina e os convidados. À frente de um dos tamboretes, o da direita da base do pentágono, deposita um cajado. Na entrada da tenda, internamente, deixara o pote com ervas. Eles voltam para o casarão, onde Nicolai pegou o enorme baú que havia sido preparado pelas mulheres, e o levou para o interior da tenda. Cerrou a entrada de lona e se encaminhou para a casa, avisando Lidja que tudo estava pronto. Ela responde:
— Agora só resta esperar o anoitecer. E, Nicolai, mantenha as pessoas da casa afastadas do lugar, ainda que ouçam ruídos estranhos, ou vejam luzes inexplicáveis. Não permita. É importante para a segurança de Christina.
— Está bem, está bem, avisarei a todos para se manterem distantes. Você já havia me prevenido disso.
— Havia. Mas homens não prestam atenção aos detalhes, ou não os valorizam, e detalhes são a essência, a essência...

Dizendo isso, Lidja, como se lembrando de algo, sobe lenta e penosamente as escadas, para ir ao quarto de Christina, que a aguarda, e lá ficam até o anoitecer. Os rapazes preparam o jantar, pois hoje baba Lidja se manterá distante da cozinha – e da casa.

Lelek, filho de Nicolai, reprovava as práticas de ocultismo, que achava nada mais serem que crendices inúteis a alimentar a ignorância do povo, como a religião. Frívolo e materialista, não correspondia às expectativas do pai, que esperava que o filho prosseguisse seu trabalho. Lelek acreditava em outras coisas, e almejava se desligar, do que tinha por esquisitices do pai, o quanto antes, pois as entendia nocivas ao progresso do homem, fantasiosas, se não infantis. Queria mergulhar num mundo tão simples quanto sua mente pudesse abarcar. Ele planejava se mudar para Warszawa, dividindo um pequeno apartamento com seu amigo Fiodor, e viver a vida. Somente não tinha ido até agora por não contar com a aprovação paterna, ou ao menos tivesse como se prover. Tanto lhe fazia o primeiro ou o segundo, o que ansiava era partir.

Por várias vezes Nicolai se magoara com o filho pelo seu desinteresse, e até com seu desdém, mas agora já se acostumava ao fato. Escondia seu desgosto, rareando as ações outorgadas ao filho, delegando tarefas simples e não tão comprometidas com a atividade, o que era muito do gosto do rapaz, que fazia questão, ao contrário de Christina, de se manter alheio aos verdadeiros desígnios do grupo.

¤

O anoitecer se prenuncia límpido e enluarado, como a adivinhar os trabalhos que estavam para começar, e as forças a serem conjuradas já estivessem a postos, ansiosas por se manifestar. As condições eram extremamente propícias. Nicolai adverte aos rapazes da casa: Lelek, Igor e Fiodor, sobre não seguirem as mulheres, e que nem procurassem a clareira no bosque em hipótese alguma, até que ele próprio fosse, na hora certa, ao encontro delas, após o sinal de baba Lidja. Embora ouvindo as advertências do pai, Lelek olha para o já inseparável amigo Fiodor, e dá de ombros, tão logo Nicolai vira as costas. Igor percebe e se preocupa com tal comportamento. Na verdade, tal advertência somente serviu para aguçar a curiosidade, e o sarcasmo, do rapaz, que zomba daqueles acontecimentos.

¤

Abre-se a porta do casarão em Arkadja, e por ela saem Lidja e Christina. A primeira vestia roupas de cores fortes, grossas, e na cabeça usava um turbante; a outra estava trajada apenas com um vestido branco, com suaves bordados. Um traje impróprio para o frio que fazia naquele final de tarde invernal, e por isso estava quase que inteiramente envolta numa imensa manta de lã cinza-chumbo, com bordados em vermelho. Elas seguem lado a lado pelo extenso caminho, chegando à tenda já no final do entardecer. Descerram a porta, que havia sido fechada com o trançar de fino cordame de quatro cores, vermelho, branco, azul e preto, em ilhoses paralelos. Christina, por sua vez, após se admirar com a tenda levantada, observando seus detalhes, atende às instruções de baba Lidja e segue diretamente ao tamborete da base do pentágono, o da esquerda, ao lado daquele onde Nicolai havia depositado o cajado. Lidja então segue até o centro da tenda e ateia fogo à fogueira previamente preparada com madeira seca e abundante, ordenadamente agrupada dentro de um circulo de pedras. Lidja volta para a entrada e apanha o pote de ervas, e com ele, murmurando palavras compreensíveis apenas para Christina, com quem tinha compartilhado conhecimentos, circunda no sentido horário a tenda, depositando um trilho de ervas até dar a volta completa, entra na tenda e volta a trançar, dessa vez por dentro, a entrada, a fim de vedá-la devidamente. A seguir abre o baú e retira um outro pote, em madeira negra com inscrições em verde e amarelo, e instrui a pupila a desvencilhar-se da manta e guardá-la no baú, para em seguida cobrir-se com um capote rústico, costurado com cordas de couro e feito com peles de lobo dos Cárpatos. Christina então pega o imenso capote e o põe sobre os ombros, cruzando-o sobre o peito, e ainda em silêncio se acomoda no mesmo tamborete, permanecendo imóvel.

O ritual prossegue, e uma breve, porém forte lufada de vento balouça a tenda, e por momentos rouba a concentração de Lidja, que por um segundo deixa brotar em seus olhos um quê de apreensão. Lá fora, o vento abre pequena brecha no círculo de ervas que ela traçara do lado de fora. Contudo baba retoma logo seu enlevo e inicia um cântico, quase em sussurro, enquanto deposita a pequena urna escura sobre o tamborete, toma o cajado e com ele, valendo-se da disposição pentagonal dos tamboretes, e tomando-os por vértices, desenha na terra uma estrela de cinco pontas, para em seguida envolvê-la com um círculo perfeito, formando assim um pentagrama. Ato contínuo, retorna ao tamborete, deposita o cajado e apanha a urna, que abre cuidadosamente, rompendo o selo que lacrava sua tampa, e dele retira um pó finíssimo, amarelo e brilhante, semelhante ao ouro, e preenche cuidadosamente o círculo e todas as linhas do pentagrama com uma fina e contínua linha deste pó, enquanto entoa o cântico cada vez mais alto, acompanhando o crescente crepitar da fogueira. Ao ritmo da estranha cantiga, Christina começa a se balançar suavemente, para frente e para trás, juntando sua bela voz à de Lidja, até que o cantar preenche a tenda e segue além, numa ladainha incompreensível, ecoando pela clareira, pelo bosque, e subindo às estrelas como uma súplica. As duas mulheres ficam a repetir o canto, ora se olhando fixamente, ora contemplando as estrelas que se podiam contemplar pelo alto da tenda, ora se fixando na fogueira.

Em dado momento, quando o fogo já se fazia alto, fixam-se apenas nele, e então Lidja, já assentada, estica o braço e alcança o cajado, retira do mesmo pote negro uma ampola e um fino barbante, faz um leve nó na ampola e a prende na ponta do cajado, dirigindo-o então ao centro do fogo. Apesar da temperatura externa, muito baixa, a testa e a nuca de Christina começa a apresentar sinais de um espesso suor. O barbante se incendeia e a ampola cai bem ao centro da fogueira. Logo a seguir ouve-se um estampido do vidro a se romper. A substância que ela continha se mistura ao fogo, e passa a ser liberada uma fumaça azulada, que vai se condensando na parte superior da tenda, no teto aberto, e logo não era mais possível ver o céu através daquela abertura. Nesse exato momento, a Lua passou a cobrir a abertura, e através da fumaça azulada, opaca, atravessam três raios, cada um deles se dirigindo exatamente aos tamboretes que permaneciam vazios, iluminando-os intensamente, tão intensamente que as mulheres sequer conseguiam fixar as vistas em sua direção, baixando a cabeça e fechando os olhos diante daquela claridade. Passados alguns momentos, quando a luz amaina, Lidja olha ao redor e percebe que luzes coloridas, de fonte desconhecida, giram num mesmo ritmo e sentido, o anti-horário. As mulheres não cessam de cantar, ao contrário: intensificam o cântico a vista dos acontecimentos. Cantam alto, quase gritam em histeria, repetindo sempre e sempre os mesmos sons, qual um mantra.

Christina abruptamente se cala, seus ombros estremecem, sua cabeça pende-se em exagero para frente, de uma forma que parecia estar presa nesta posição. De sua nuca parte uma etérea luminosidade, de aparência leitosa, que traça uma linha até o centro da fogueira, onde se divide em três, cada qual direcionando-se a um dos tamboretes iluminados pela Lua, fundindo-se com aquela luz. Logo a linha se dissipa e Christina volta a cantar, como sem se dar conta dos minutos em que quedara em silêncio, e neste instante vão se materializando três figuras humanas, assentadas nos tamboretes da parte superior do pentagrama. Os convidados chegavam.

Estava feito. O ritual atingira seu auge. Diante de Lidja e Christina estavam três figuras lendárias, as mesmas que se apresentaram para Ignacy, a fim de orientar o grupo de homens e mulheres que lutavam pela sobrevivência de um povo, desde o período dos grandes reinos, e mesmo quando seus algozes urdiam pela sua aniquilação. Compareciam solenes, não como mandantes, mas emissários do espírito de um povo que se dizia descendentes diretos de Jafet e Lech, e que viam nos retornos do Rei-Espírito a garantia de sobrevivência da tradição e unidade polacas. Agora estavam ali, e deveriam ter importantes respostas e orientações.

Solenes, as três figuras observam as mulheres que os invocaram, e que agora, admiradas, os contemplam. O silêncio é quebrado com uma saudação daquele que parecia ser o mais antigo, que trajava típica roupa de camponês, lembrando o povo antigo dos vastos campos, os polaine. Era assim que ele era conhecido: O Antigo. Dirigindo-se à Christina, este a saúda como a protegida de Zywia, pelo longo caminho que teria que seguir. Falando para ambas, alerta para um recomeço, por um revezamento, repartindo as tarefas com os antigos lutadores, que mereciam descanso. Disse também que entre eles haviam aqueles que não se mostrariam dignos da caminhada, e para isso deveriam ser afastados definitiva e permanentemente das atividades do grupo o quanto antes, pois ofereciam perigo. Quando as mulheres perguntam de quem ele fala, o Antigo responde que caberia a Nicolai a tarefa de identificar o indigno e afastá-lo. Afirmou que nesse momento Christina teria um papel muito importante a desempenhar. Que ela deveria aceitar sua missão, abrindo mão de seus projetos imediatos e efetuar a viagem que lhe seria proposta, pois isso envolverá o progresso próprio e de outros que a cercam. Diz também que, quando Christina realmente precisasse, Zywia estaria por perto, e ela saberia como chamá-la. Que Zywia sempre viria em seu auxílio, desde que estivesse com sinceridade de propósitos e não permitisse que o orgulho a atormentasse, para bem perceber as intuições.

Christina não cabia em si de contentamento. Era a sua primeira participação num desses rituais, e O Antigo falara com ela, reconhecera a sua capacidade e vontade de pertencer ao grupo, de atuar em defesa daquilo em que profunda e sinceramente acreditava. Intimamente lamenta a ausência do pai, mas entendia que ele não poderia estar presente em sua iniciação. Agora ele teria que entender que o seu papel era importante. E vibrava com isso. Quando, porém, ela se preparava para expor suas indagações, O Antigo, o velho camponês, com olhar grave e um quase imperceptível sorriso, vai se tornando etéreo, desvanecendo como que em partículas que subiam pelo raio de luar, que se filtrara e instalara sobre o tamborete do ápice da estrela. A luz ainda brilhava, muito intensa, como a equilibrar o pentagrama, mas já sem a figura poderosa que há pouco dali falara.
— Sei o que tanto lhe aflige, velha amiga!

Era a segunda aparição quem falava: uma mulher ricamente ornada com vestes da nobreza da idade média, e que estava à direita do antigo camponês, que agora se manifestava para Lidja. Prossegue, em tom de urgência:
— O que você não conseguiu decifrar nas cartas daquela mulher era o destino que não estava escrito, era o futuro que se fazia incerto, eram as tramas da vida que não se podiam revelar. A viagem para o outro continente foi uma escolha, e nela haverá muito pesar. Sem o saber, ela envolveu seu destino com o sangue de muitos, e causará lágrimas aos que ficaram. O que você não conseguiu ver era o destino de estranhos que nesse momento se cruzam com o destino da que partiu.
— E o que podemos fazer para proteger Maricha? – Indaga Lidja.
— Somente um recuo abrupto e uma decisão inusitada, ou ainda um capricho do destino, evitariam tal sorte. Mas as coisas acontecem como tem que acontecer, e não como tentamos prever.
— Podemos alertá-la?
— Sim, se lograrem encontrá-la, pois a percebo isolada de todos, e o trem do destino já saiu da estação. Concentre-se e perceberá que as histórias já começaram a acontecer. Resta então elevar o pensamento e tentar evitar que ela siga o caminho da tragédia.

Baba Lidja se agita ao perceber as mortes que rondavam o destino de Maricha. À medida que as palavras eram ditas pela mulher, as imagens de gritos e explosões e fogo e mortes lhe desfilavam aos olhos, perceptíveis entre as chamas da fogueira. Indaga, respeitosa, o que pode se feito para evitar tantas tragédias, e recebe a resposta que as tragédias não poderão ser evitadas, o que se poderia fazer era conseguir que Maricha fosse isolada de tais tragédias, mas isso também teria repercussões amargas para os que a cercavam. Nada seria, de qualquer forma, como antes, para qualquer um que a tivesse conhecido.

Christina, já extenuada, presenciava com fascinação o que ocorria naquela tenda, quando o terceiro vulto, uma figura masculina cujas roupas apontavam para um quê do início do século XX, que se interrompendo quando começava a ditar instruções a serem transmitidas a Nicolai, grita:
— Intrusos! Intrusos na tenda!

Eram Fiodor e Lelek que, desobedecendo às ordens de Nicolai, por divertimento haviam saído furtivamente pelos fundos do casarão e seguido pelo bosque, a fim de ver o que estaria acontecendo na tenda erguida naquela tarde. Encontrando a clareira, e por uma pequena parte da tenda, justamente onde o vento havia danificado o círculo de ervas previamente traçado por Lidja, haviam se deitado no chão e espiado o seu interior, e no exato momento que o fizeram, houve o grito de alerta da entidade. A fumaça que formava um plasma estático e azulado se transforma imediatamente em torvelinho, que num fragor sobe pela abertura superior da tenda, desaparecendo com ele a luz filtrada do luar e as entidades, deixando tombados os tamboretes. No momento do estrondo, Christina, lançando um grito agudíssimo, é jogada para trás de forma tão violenta que suas costas batem contra o gomo estirado da tenda, e ela cai desfalecida, ficando com uma marca avermelhada na nuca, que podia ser entrevista entre seus cabelos longos. No instante seguinte a fogueira, antes intensa, se apaga por completo.

Apavorados, Fiodor e Julek saem em disparada e se escondem no mato, e depois de ouvir os gritos de Lidja, seguem em desabalada correria rumo ao casarão, pensando no que farão se Nicolai descobrir que foram eles que estiveram ali. A tenda estava mergulhada no mais profundo breu. Lidja, praguejando contra os invasores, apanha uma arma e vai à porta, gritando saber quem eram eles, e dá dois disparos para cima. Nicolai, que estava absorto lendo um livro em sua biblioteca, ouve os dois tiros os toma como o sinal de Lidja de que o ritual terminara. Estranha, pois achava ainda não ser a hora. Sente um aperto no peito, um mau agouro, saindo rapidamente em direção à clareira, buscando a tenda parcamente iluminada por uma lamparina que havia sido acesa por Lidja. Ela, por sua vez, acode Christina, que se encontra sem sentidos e não responde a seus estímulos. Passado o tempo necessário para a chegada de Nicolai, esse irrompe no interior da tenda e, vendo a filha desfalecida, com a cabeça apoiada no colo de Lidja, exclama:
— O que se passa aqui? Baba Lidja, você me prometeu que nada aconteceria à Christina!

Enfurecida, Lidja retruca:
— Você é que não cumpriu sua parte, Nicolai! Era para ter proibido os rapazes de virem aqui. Você foi negligente, veja no que deu!
— Eles estiveram aqui?
— O que você acha? Nada disso era para ter acontecido, os antigos nos instruíam, mas dois dos rapazes da casa vieram até aqui, e violaram a tenda, interrompendo o ritual! Por isso que Christina se encontra neste estado!
— Impossível! Igor estava na sala quando ouvi o sinal, e vim ao seu encontro!

Baba Lidja olha firmemente para Nicolai, que percebe ter sido o próprio filho quem havia desafiado as suas ordens, e isso lhe doeu profundamente, mas se cala. Ouvindo de Lidja que Christina precisava ser aquecida o quanto antes, Nicolai, sabedor de que não conseguiria levá-la por todo o caminho até o casarão, se a tomasse nos braços, prepara uma maca na qual Christina é deitada. O preocupado pai, seguido por Lidja, sai da tenda arrastando a maca pelo caminho, o mais rápido que pode. Logo na saída da clareira surge Igor, que afirmando saber o que ocorrera por Lelek haver chegado no casarão em desespero, viera em auxílio. Grato, Nicolai aponta-lhe a outra extremidade da maca, e Igor a suspende, o que possibilitou que Christina logo chegasse à casa. Baba Lidja ficara para trás, colhendo as ervas rituais e seguindo, em seu passo lento, para o casarão.

Ao chegarem, Lelek estava na sala, ladeado por Fiodor, e com os olhos inchados vem em direção ao pai, pedindo perdão, no que é interrompido:
— Agora não é hora! Subam, os dois, para seus quartos, que amanhã falamos no café. Agora vão!

Contrariados, mas submissos, os dois seguem ao andar superior, não mais participando dos acontecimentos da casa naquela noite.

Com a ajuda de Igor, Nicolai acomoda Christina, ainda desacordada, em frente à lareira, para que logo se aqueça, como baba Lidja recomendara. Nicolai pede a Igor que vá ao encontro de Lidja, e a ajude na caminhada, enquanto fica ele próprio agachado em volta da filha, a acariciar sua mão, desejando que ela logo recobre os sentidos. Seu coração se aperta, e fica então avaliando se ela teria forças para suportar uma vida de sobressaltos como a que ele próprio tivera, ao se dedicar àquela causa. Ele tentara proteger Christina ao máximo, mas percebia que tinha sido em vão, pois a vida dos filhos normalmente é mais ampla do que o abraço dos pais pode abrigar.

Passada quase meia de hora baba Lidja entra pela porta, acompanhada de Igor, com a mão nas costas indicando dor, e passa resmungando até a cozinha, de onde volta com um pano umedecido, envolvendo a mancha vermelha na nuca da moça, e na lareira pendura uma chaleira com água e ervas, que ao ferver vai inundando de odores o ambiente. Logo Christina começa a se recobrar, abre os olhos e sorri para o pai que ao seu lado, debruçado, estava a observar-lhe as reações.

— Christina, está bem filha querida?
— Estou me sentindo muito cansada, mas bem, pai. Como vim parar aqui?
— Você não se recorda?
— A última coisa de que lembro era ... posso falar baba?
— Claro minha filha, pode sim, a seu pai pode contar tudo, ele sabe mais do que nós...
— A última coisa de que me lembro era a terceira entidade, aquele homem com o capote marrom, denunciando intrusos na tenda... mais nada...
— E o que aconteceu antes, você lembra?
— Sim, acho que sim... há tanto para falar, papai, mas estou tão cansada... tão cansada....

Lidja tranqüiliza pai e filha, quando garante que o repouso da noite e o chá que preparava a fariam se recuperar plenamente já na manhã seguinte. Sendo assim, e após permanecer um pouco sentada frente à lareira, amparada pelo forte braço de Nicolai, e tomando vagarosamente o chá, Christina dá rápidos sinais de melhora, quando o pai a toma nos braços e sobe as escadas, colocando-a na cama, ainda com o vestido branco de fino bordado, cobrindo-a em seguida. Mal terminava de fazê-lo e Christina adormecia profundamente. Nicolai fica ainda a observá-la, se dando conta que não mais tinha ali uma criança, mas uma jovem de muita fibra. Enche-se de amor e beija a testa da filha adormecida, saindo mansamente do quarto.

Mal fecha a porta de Christina, o cenho de Nicolai se carrega, ele olha para o quarto do filho, e ouve as vozes do dele e de Fiodor, que discutiam sobre o acontecido, acusando-se mutuamente. O seu primeiro impulso é entrar e admoestá-los aos berros, mas domina-se, balançando a cabeça em desconsolo e desce as escadas, disposto a ouvir de baba Lidja tudo que acontecera naquela tenda, e quais as instruções que tinham sido passadas até o incidente, pois tão logo não poderiam repetir o ritual. Havia um tempo certo para que acontecessem.

Ao ouvir Lidja, Nicolai o faz pacientemente, pois ela contou sobre o ritual com todos os detalhes, desde o princípio, interrompendo a narrativa amiúde para elogiar a enorme desenvoltura de Christina, ou exaltar a felicidade dela por ter conversado com O Antigo. Nicolai percebe que medidas urgentes haveriam de ser tomadas, a fim de reestruturar o grupo e dissipar a névoa de discórdia e temores. Identificar o indigno e socorrer Maricha seriam as primeiras providências.