Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 

 

VII –Arkadja


Saindo da estação ferroviária, Olek cruza a cidade e chega ao prédio onde encontraria Maricha, a fim de visitar seus amigos em Arkadja. Estacionando defronte são-lhe inevitáveis as lembranças do período em que os quatro ali viveram: ele, Victor, Tadeusz e Maricha. Caminha até a entrada, fazendo soar a campainha do interfone, antiquado aparelho com espelho de um metal dourado, descascado, amparado num apoio de madeira cujo estado ainda conservava indícios de um antigo verniz, por sua vez fixado na coluna lateral da imensa porta. Maricha o atende, avisando que irá descer em pouco tempo.

Faz frio. A tarde típica de inverno anuncia uma provável neve a se avizinhar de Warszawa, que nessa época de fim de ano se fazia branca, se fazia pura, se fazia triste, se fazia linda.

Logo Maricha aparece, em seu casaco longo e cinza, envolta num colorido cachecol, a lhe realçar a beleza do rosto. Os olhos levemente amendoados, castanho-escuros, os cabelos longos e negros a escapar de um gorro de pele, cinza como a capa, os lábios protegidos por um batom carmim, o nariz um pouco avermelhado pela baixa temperatura, de traço determinado e levemente aquilino, a indicar a têmpera daquela mulher. Ela vem, graciosa, e toca levemente os lábios de Olek com os seus, entrando rapidamente no carro, que ele deixara funcionando a fim de não perder o aquecimento.
— Pronto para viajar, meu querido?
— Para estas viagens estou sempre pronto, ainda mais tendo você ao meu lado, doce Maricha.

Ela sorri. Olek pergunta:
— Chegou bem em casa?
— Sim, e você? Como foi sua manhã?
— Fiquei no hotel um pouco mais, depois voltei para casa. Victor partiu para Gdansk, para concluir um trabalho para uma mostra, e deve voltar em uma semana ou duas.
— Uma mostra?
— Sim, conseguiu uma mostra individual no Palácio da Cultura, está muito animado.
— Que ótimo, vai ser um grande impulso para a carreira dele. Fico feliz.
— Eu também. Nós saímos para almoçar hoje e conversamos muito, foi quando ele me contou que você estaria de partida para Israel.
— Então você já sabe... eu pretendia lhe dizer tudo isso ontem, Olek, quando comecei a contar minha história. Mas nos aproximando tanto, que a ultima coisa que queria falar naquele momento era de partidas. Espero que me entenda.

Por alguns minutos o trânsito se tornara tumultuado, interrompendo a conversa dos dois, enquanto Olek se dirigia à avenida que os levaria para a saída oeste da cidade, rumo a Lowicz, na Voivodia de Lodz. Já na auto-estrada, Olek volta ao assunto.
— Victor contou-me sobre a carta de seu irmão e tudo mais. Você vai visitá-lo por estes tempos, não é?
— Pretendo. E Ari convidou-me para morar lá, o que não desconsiderei. Mas sinceramente não gostaria de conversar sobre isso agora, pois teremos tempo para fazê-lo mais tarde. Queria aproveitar esta viagem para ficar com você, para que a gente possa aproveitar nosso reencontro. Temos tanto para falar..., então que não seja sobre isso, Olek.

Olek nada diz. Maricha, dando por aceita a proposta, tem iluminado seu rosto quando propõe:
— O que você acha de pararmos um pouco em Sochaczew? Lá existe uma leiteria que serve doces ótimos, e fica bem no nosso caminho!

Olek não se contém e responde, rendendo-se com um sorriso:
— Você é tão cheia de rodeios Maricha! Mas para mim está bem: conversamos depois sobre esse assunto. Vamos aproveitar a nossa viagem. Onde fica esta leiteria?

O pacto de não falar sobre assuntos dolorosos foi mantido, e por todo o caminho até Sochaczew, e de lá para Lowicz, desfrutam da companhia um do outro, ouvindo música no toca-fitas do carro, contando coisas de suas vidas, fatos ocorridos através dos anos, as situações engraçadas pelas quais passaram, curiosidades. Passando de Lowicz, Maricha indica o caminho, em direção à Arkadja, onde ficaria a casa de campo para a qual seguiam.


¤

 

Arkadja era como se chamava o lugar onde fora erguido um jardim inspirado nos parques românticos ingleses, por desejo de uma rainha polonesa. Lá se conservava um perene ar de abandono, sobressaindo em alguns pontos, como se por acaso, ruínas que davam ao lugar um romantismo ímpar.

A casa para a qual se dirigiam ficava nas proximidades desse jardim, desfrutava das influências do bucólico ambiente. A noite já havia chegado, quando Maricha aponta para Olek uma estrada de terra, pela qual ele deveria seguir. Saindo da principal, agora o caminho fica estreito e íngreme, mas logo se deparam com um portão. Maricha desce do carro e o abre para Olek passar. Entardecia. O caminho prossegue entre árvores, e após uma curva acentuada chegam na clareira situada no cume de uma suave elevação, onde está a casa. Ao descerem do carro, Olek exclama:
— Nossa! Que lugar impressionante!
— Lindo, não é?
— Muito. Com este crepúsculo magnífico, imagino como deve ser belo ao amanhecer!

Nesse momento sai do alpendre um homem alto e corpulento, aparentando entre cinqüenta e cinqüenta e cinco anos, ostentando uma comprida barba castanha. Vestia uma camisa xadrez, calças em suspensório e um surrado sobretudo bege, recebendo o casal com grande animação.
— Maricha! Rapaz! Entrem, entrem! Já está ficando muito frio, venham se aquecer na lareira e no bar.

Diz isso entremeando a frase com curtas risadas de satisfação, enquanto se encaminha em direção aos convidados. Diante do caloroso convite, ambos o seguem. Ao chegarem no alpendre Maricha, sorrindo, abraça o homem e em seguida lhe estende um embrulho em jornal.
— Tome Nicolai, trouxe especialmente para você, porque sei que é seu preferido!

Ele abre o pacote e, ao ver que se tratava do salame defumado de sua preferência, solta uma sonora gargalhada, assentindo afirmativamente com a cabeça. Maricha então lhe apresenta Olek.
— Olek! Finalmente conheço o neto de Julek, sobrinho de Andrzej, mais um representante da geração seguinte aos meus dois amigos queridos, que já se foram. Muito me agrada tê-lo em nosso meio. Sou Nicolai Daraskin Ianovich.
— Prazer em conhecê-lo, Nicolai. Você conheceu meu avô?
— Se eu o conheci? Sim, claro que o conheci. Fomos grandes amigos, e o segui em muitas aventuras. Pode-se dizer que eu era seu aprendiz. Mais tarde lhe conto sobre nossas histórias, mas agora entrem e fiquem à vontade. A minha casa é sua casa também.
— Obrigado Nicolai. Também estou contente em estar aqui. Maricha falou muito bem de vocês.
— Oh, sim. Maricha é uma pessoa muito boa, mas não se deve acreditar em tudo que ela diz. Ela costuma ser benevolente, e assim desconsidera os defeitos dos outros.

Olek lança um olhar divertido a Maricha, diante da saudação de Nicolai. Entram e acomodam-se em largas poltronas. Logo em seguida estão a sorver a vodka que Nicolai, prestimoso, oferecera, enquanto colocava o salame numa tábua. Ao ver que Nicolai fatiava o salame Maricha pergunta:
— Não vai guardá-lo, Nicolai?
— Não, não. Qual é a graça de desfrutar tais delícias sozinho? Como ganhei este presente, quero repartir o prazer com meus amigos, assim ele se multiplica.

O chalé é imenso, e cercado por inteiro por um largo alpendre. O andar inferior é composto por um salão, onde também fica a cozinha, separada por um desnível de um degrau. Da cozinha se sai para os fundos, e tem outra porta que indica ser a dispensa. O mobiliário é rústico. No mesmo pavimento ainda tem-se uma biblioteca, que funciona também como o escritório de Nicolai. Próximo à escada que levava ao andar superior fica o banheiro. Subindo-se as escadas temos o pavimento superior. A escada dá para uma sala de estar, banheiro e dormitórios. Uma pequena escada dá para o sótão. A imensa lareira, erigida num dos vértices do salão, favorecia o eficiente sistema de calefação, e assim mantinha a casa a uma temperatura agradável, independentemente do rigor do inverno que se fizesse lá fora.

Dois rapazes descem as escadas, fazendo suas passadas ecoarem pelo salão. São Igor, sobrinho de Nicolai que com ele vive desde a adolescência e Fiodor, um amigo dos rapazes que estava hospedado na casa. Nicolai os apresenta, e após os cumprimentos eles também servem-se da vodka posta sobre a mesa. Igor pergunta a Nicolai se os outros estão para chegar, e este responde que a qualquer momento estariam ali. A conversa toma conta do ambiente amigável e descontraído.

Nicolai volta e meia se levanta e vai bisbilhotar o fogão à lenha, onde Lidja prepara o jantar que vai ser servido. Baba Lidja, como carinhosamente a chamavam, era uma senhora georgiana, já idosa, um tanto mal humorada, de olhos penetrantes e uma verruga negra ao lado do nariz. Ela fora babá de Nicolai e de seus irmãos. Nunca se casara, ficando sempre com da família dele. Nicolai a mantinha em sua casa desde que seus pais morreram, e ela o ajudava na cozinha, pois a idade e as costas recurvadas não permitiam que ela fizesse os serviços pesados da casa. Preferia mostrar-se alheia a tudo o que acontecia, simplesmente cuidando da cozinha, entremeando seu silêncio concentrado com muxoxos, ao mesmo tempo em que, colocando as costas da mão na coluna, resmungando para ninguém, ou então praguejava contra a intromissão de Nicolai na preparação dos pratos, ameaçando acertá-lo com uma imensa colher de pau, que usava para volver os alimentos.

Os convivas se divertiam com os protestos de baba Lidja, quando ouvem o ronco de um carro que acabava de chegar. O vento parecia aumentar, o que se nota quando a porta é repentinamente aberta. Por ela entra um rapaz jovem e magro, seguido por uma mulher loura, cabelos longos e lisos, despindo o casaco e exibindo seu belo blusão negro a ressaltar-lhe as formas esguias, embelezadas por um par de olhos verdes, intensos. Ela entra falando mal do tempo, mas se detém bruscamente ao se deparar com Olek, que ao vê-la, levanta de um salto da poltrona. Nicolai se adianta e, abraçando os recém-chegados, faz a apresentação:
— Finalmente chegaram! Olek, estes são os meus filhos Julek e Christina. Julek tem este nome em homenagem a seu avô, mas aqui em casa nós o chamamos de Lelek.

Olek cumprimenta rapidamente Julek Ianovich que responde mecanicamente e, ao segurar a mão de Christina, olha profundamente nos olhos dela e, sem soltar sua mão, exclama:
— Mas era você mesma! Era você a mulher que me seguia ontem à tarde, pela Nowy Swiat!

Christina, sem hesitar, responde no mesmo tom:
— Veja! É você mesmo o doido que me agarrou e prendeu contra uma árvore, no jardim Lazienkowski!

Olek, confuso, ainda prende a mão de Christina, como se ela fosse escapulir dali, e exige explicações, voltando-se a Nicolai e depois para Maricha.
— Isto não pode ser uma coincidência. Alguém pode me explicar o que isto significa?

Nicolai intervém, fazendo com que Olek solte a mão de Christina, e indica as poltronas, fazendo que todos se sentassem, dizendo:
— Tenha calma, rapaz. Tudo sempre tem uma explicação.

O ambiente ficara tenso. Baba Lidja se calara, observando de soslaio. Deixa a panela e segue para um pequeno altar, uma capelinha, em frente ao qual se benze, acendendo a seguir uma vela diante do quadro de Nossa Senhora, enquanto murmura palavras incompreensíveis aos presentes. Ela não tolerava discussões. Ao presenciar qualquer alteração nos tons de voz dos circundantes começava a suar nas mãos e na testa, entregando-se às orações para que tudo serenasse.

Nicolai, ainda com a palavra, afirma:
— Realmente foi Christina quem você encontrou ontem, mas você não estava sendo seguido por ela, e sim protegido.
— Protegido? Mas protegido de quê? Protegido de quem? Maricha, você sabia disso e não me falou nada? Mas de que se trata, afinal?
— Calma, meu rapaz. Já disse que há uma explicação, mas agora nós precisamos que você se acalme, e entenda que não há ninguém aqui que queira o seu mal.
— Nicolai, se você fizesse uma pálida idéia de tudo que passei nessa última semana, não me pediria calma.
— Eu sei muito bem como foi sua semana. Sei muito sobre você, Olek. Não esqueça que eu era amigo de Julek, e estava na aldeia quando ele morreu. Sei mais sobre você, em certos assuntos, que você mesmo, inclusive o que aconteceu na taverna, na noite de sua chegada.
— Como sabe? Quem são vocês?
— Somos amigos, Olek. Amigos com os quais você sempre poderá contar. Pertenço a uma confraria muito antiga, da qual seu avô também fazia parte. Quando faleceu, Julek Kowalski o preparava para ser um de nós. Você tem esta herança!

A menção à memória do avô toca Olek, que recorda ter ele falado em segredos, quando saíam para o passeio fatal. Mas aquele dia era algo que trazia não resolvido dentro de si e, portanto, não queria remoer os fatos, sobretudo com pessoas a quem acabara de ser apresentado. Olek então se volta para Maricha e pergunta:
— Você sabia disso? É por isso que me trouxe até aqui?
— Escute, Olek. Andrzej, meu pai, contou-me muitas coisas enquanto fazia o tratamento, mas é Nicolai quem orienta este grupo, do qual ele também fazia parte. Todos aqui me apoiaram enquanto meu pai estava hospitalizado, e lhes sou grata. Trazê-lo até aqui, hoje, foi para atender a um pedido de meu pai. Peço-lhe que ouça o que Nicolai tem a dizer.

Olek assente ao apelo de Maricha e ouve, calado, a narrativa de Nicolai. Ele se põe a narrar fatos que envolviam a confraria, que tivera uma atuação marcante durante a segunda grande guerra, quando trabalharam na evasão de pessoas perseguidas pelo invasor nazista, comentando que muitos dos pilotos poloneses da RAF foram levados por eles para fora da Polônia ocupada, para então se realinharem na Inglaterra. Depois da guerra, com o regime imposto pela influência soviética, permaneceram na clandestinidade, trazendo alimentos, roupas, calçados e remédios que não podiam ser encontrados na Polônia, quebrando o isolamento que então era imposto ao povo polonês.

Diante do relato, Olek irrefletidamente questiona:
— Vocês se tornaram contrabandistas?
— Contrabandistas? Você nos chama de contrabandistas? Fique sabendo que enquanto você protestava em Warszawa, fomos nós que organizamos a revolta dos trabalhadores que culminou no ataque ao comboio de carne, que seguia a Moscou, para provê-la quando das Olimpíadas de 1980! Aquele comboio da fome, que iria tirar toda a carne das mesas polonesas para alimentar os turistas e as delegações olímpicas, enquanto mostrava ao mundo emocionado a doce face do ursinho Misha . Lembra? O que fazíamos não era contrabando. Nenhum de nós enriqueceu com isso. Pelo contrário, abrimos mão de muito em nossas vidas para poder seguir com essa missão.
— Perdão, foi um comentário tolo. Eu não quis ofendê-lo. Pelas coisas que me conta vejo que esta sua confraria tem, ao longo do tempo, trabalhado pelo bem da Polônia. É admirável que existam pessoas dispostas a correr riscos para o bem de seu povo.

Era a primeira vez que Olek contemporizava, desde que iniciara a discussão com a chegada de Christina. Notara que ao chamar o grupo de “contrabandistas” tinha ofendido indevidamente seu anfitrião. Percebe que a sua própria desorientação reduzia a sua capacidade de avaliar as palavras que usava. Agora, porém, já as tinha pronunciado, restando então arcar com a repercussão delas. Esperava que suas escusas fossem aceitas por Nicolai. Este, de fato, já esperando reações adversas de Olek, releva a ofensa, prosseguindo:
— Não tem problema. Você não é diferente de nós, Olek. Eu sei, por exemplo, que quando Tadeusz e Victor se envolveram em incidentes em Gdansk, você foi o primeiro a intervir por eles, embora isso tenha custado alguns embaraços, e até precipitou a sua viagem para Moscou.
— Isto é verdade... Mas como soube disso, Nicolai? Eu não revelei a ninguém a condição que me foi imposta, naquela ocasião!
— Eu já disse, nós o acompanhamos ao longe por todos esses anos. Não somos amadores, Olek. Não sonhamos com alguma revolução redentora. Não temos utopias. As pessoas que caminhem para o destino que lhes aprouver. A nós só cabe garantir que elas sigam, sem que forças ou governos dificultem a caminhada. E também que nós sobrevivamos. E a informação, nesse cenário, nos é vital.
— Nós? Nós quem?
— Nós, Olek. E cabe ao grupo protegê-lo enquanto estiver ao nosso alcance.
— Mas eu não preciso que me protejam. O que preciso é ter paz para reorganizar a minha vida! Eu ainda não sei o que querem de mim, mas a resposta é não! Não quero me envolver com grupos salvacionistas, não quero me envolver com política, com organizações, com mais nada. Estou cansado disso, e se conhece tanto de mim, você também sabe que estou farto de tudo isso.

Christina intervém e, ao mesmo tempo em que falava, lançava um olhar recriminador para Olek.
— Deixe-o, papai. Eu estou realmente surpresa, mas paciência. Pelo que você dizia, eu pensava que iria encontrar uma pessoa diferente aqui: um Olek inteligente e disposto a entender o que se passa. Mas o único que vejo é um esquilo querendo se esconder num tronco oco! Se eu soubesse que se tratava desse ranzinza, o teria deixado lá, drogado naquela taverna, à mercê daqueles...
— Christina! – Interrompe Nicolai – você está falando o que não deve.
— Não, não, deixe-a continuar, Nicolai! – Intervém Olek. —Não sou um esquilo, mas quero sossego sim, e tenho este direito! Aliás, até agora eu não sei o que aconteceu naquela taverna, quem sabe esta senhorita possa explicar o que houve lá, e o que vocês tem a ver com aquilo.

Christina, então, aponta para Olek e começa a contar que desde o desembarque em Warszawa, ele fora seguido por dois homens. Esclarece que sabiam de sua chegada e estavam na estação de trens naquela ocasião. Na noite em que abandonou o jantar com Victor, Tadeusz e Maricha, e seguiu caminhando sozinho pela noite, entrando na taverna, ela o acompanhara ao longe e, ao que ver um dos homens que vigiavam Olek também entrava na taverna, aguardou do lado de fora, pronta para qualquer intervenção. Notou que o outro homem circulava de carro pelas imediações, e surpreendeu o indivíduo na saída da taverna, quando este conduzia Olek, que estava trôpego. Foi nesse momento que ela atingiu o grandalhão na nuca, deixando-o desacordado. Ela então teria escorado Olek, até que um táxi, dirigido por uma amiga que lhe dava apoio os apanhasse, deixando-o na porta do estúdio de seu irmão, depois de dar várias voltas, para se assegurar que o outro homem não os estava seguindo. Quando percebeu que Victor estava destrancando a porta, foi embora para não ser identificada, e nem precisar dar explicações.

Diante da surpresa de Olek, Christina reafirma ter sido ela quem o deixou em casa naquela noite, depois de o terem dopado naquela taverna, e explica que pela mesma razão o seguia pela Nowy Swiat: para garantir que chegasse bem ao seu destino. Então Christina explica que “eles” nunca atacam as pessoas que tem por alvo quando estas estão em companhia de outra. Que este seria o método pelo qual operam, talvez com o fim de resguardar seu anonimato.
— E quem são eles? E porque não me falou isso ontem?
— Falar? Você agiu como um cavalo, ao me imprensar contra aquela árvore!
— Sim, mas...
— Mas o quê? Queria que eu contasse a historinha para você, enquanto me detinha contra o tronco, e para o policial que chegava? Não sei o que é pior, se a sua distração do dia anterior, ao não perceber que um brutamontes o seguia, ou sua total falta de delicadeza ao me arrastar para aquele jardim na Nowy Swiat.

Maricha não contém um sorriso, ao ver Olek ruborizando. Continuava o mesmo Olek que sempre conhecera: firme nas discussões, mas que se perdia quando passava a discutir com uma mulher, caso esta partisse para a franca ofensiva contra um ato seu que pudesse ser considerado grosseiro, como Christina fizera. Por outro lado, o fato de Olek lidar com questões reais, que ele vivenciara, e de receber uma explicação sobre uma das coisas estranhas que estavam ocorrendo, pareceu acalmá-lo aos poucos. As dúvidas, contudo, ainda povoavam sua mente, e o deixavam inquieto.
— Mas o que, afinal, quem eram esses homens? O que pretendiam de mim?

Nicolai responde:
— De algum modo, queira ou não, você traz consigo algo que eles querem.
— Sim, mas quem são eles?
— Nós os chamamos de “o outro lado”, Olek. Você é neto de Julek Kowalski, que foi um homem muito importante entre nós. Agora que você retorna para cumprir seu destino, o que eles não querem que aconteça. Por isso o seguem, o perseguem, querem roubar-lhe a herança que Julek deixou a você.
— Mas que herança é essa?
— A herança de Julek que você traz consigo, adormecida, mas que se revelará aos poucos, quanto mais você entenda a grandeza disso tudo de que você faz parte.
Não era possível entender o que Nicolai dizia. Olek se angustia com a situação, cansa. Faz menção de insistir na pergunta, mas termina por largar as mãos sobre o colo, numa clara demonstração de impotência diante de tudo aquilo. Desiste de questionar, olha para Maricha, que lhe segura a mão.
— Você está cansado assim porque não compreende o que está acontecendo ao seu redor, rapaz. Sempre lutou por coisas boas, por pessoas. Levou sempre dentro do peito uma tristeza imensa, desde a morte de Julek, mas sempre e sempre procurou respostas sem ter as perguntas certas. Não as encontrando aqui, terminou por seguir a Moscou, de onde trouxe outras dúvidas.

Havia algo mais ali. Olek assim sentira quando pela boca de Nicolai vira o enigma proposto por wujek Andrzej, em sua aparição no trem. As perguntas certas, quais seriam? Como Nicolai, ou os outros, poderiam ajudar a descobri-las? Resolve então falar de seus anseios.
— A minha ida para Moscou não foi só com o fito de estudar, mas também serviu para por um basta no meu envolvimento com este tipo de movimentos, como aconteceu com o Solidarnosc. Eu só quero um emprego que me permita produzir, desenvolver meus estudos, e me estabilizar. Quero criar raízes, uma família, talvez! E na verdade não sei quem pode ter interesse na minha vida, a ponto de eu precisar ser protegido pela sua confraria. Eu não vejo como vocês possam dar respostas às minhas perguntas, porque sou eu quem tem que definir o meu futuro, e eu o quero simples.
— Eu não digo que tenhamos as respostas que procura, mas sei que posso orientá-lo quanto às muitas perguntas que deve formular. As descobertas – e decisões – serão sempre suas, Olek.
— Até agora vocês não me disseram nada para que eu entendesse o que está acontecendo aqui. Posso já ter idéia de quem são vocês, mas ainda não sei o que eu tenho a ver com isso tudo.

Nicolai contemporiza:
— A seu tempo, Olek. Tudo a seu tempo. Se já faz idéia de quem somos, se já nutre a certeza de que não lhe queremos nenhum mal, e se já sabe que temos seu avô como elo, é o bastante para que se sinta em casa, e saiba que pode contar conosco. Isto já é muito, por ora.

Nesse momento baba Lidja esbraveja da cozinha, com voz estridente:
— Vocês não vão sentar à mesa?

Como as pessoas não atenderam de pronto ao seu chamado, ela aguarda um instante e reclama:
— A comida está quase queimando, e minhas costas me matam daqui a pouco, se eu não me sentar e puder ficar quieta!

O tom enérgico daquela voz, interrompendo a conversa, foi capaz de atrair a atenção de todos, que ao convite de Nicolai, seguem à mesa. Este, ao levantar-se, incita Olek:
— Vamos, meu rapaz. Nós dois temos muito a conversar ainda, e é melhor que o façamos desde já, enquanto nos deliciamos com os quitutes de baba Lidja. Venha. Venha também, Maricha, sente-se ao meu lado.

Todos se acomodam e o jantar passa a ser servido. Uma mesa farta foi posta, onde a conversa amena, a mesma que já havia antes da chegada de Christina, voltou a ter lugar. Durante a refeição, Nicolai comenta ter sabido, através de um amigo, que a Universidade Jagellonica, em Kraków, precisava de um profissional para atuar frente ao Instituto de Limnologia. O assunto desperta o interesse de Olek, que comenta:
— A limnologia sempre me interessou, e como geógrafo pude me aprofundar nesse campo. O estudo da água doce, pela importância que ela está adquirindo neste fim de século, aumenta as chances de desenvolver as pesquisas que me interessam. Trabalhar diretamente com isso seria uma grande oportunidade para mim.
— É mesmo, Olek? Então, depois do jantar, iremos à biblioteca, e darei a você uma carta, que o colocará em contato com as pessoas deste Instituto em Kraków. Gosta de fumar cachimbo?
— Cachimbo? Claro que sim!
— Então fumaremos na biblioteca. Tenho excelentes fumos guardados lá.
— Excelente!

Maricha observa com interesse aquela conversa, percebendo que Olek está mais à vontade com Nicolai. Ela percebia que aquela noite teria muitos nomes, menos uma noite comum.

Os primos Christina e Igor conversam sobre os planos para uma viagem às montanhas de Zacopane, trocando idéias com Lelek e Fiodor, que conheciam o lugar. A conversa dos jovens se espalha entre os comensais, e todos passam a falar das belezas daquela região. Baba Lidja se junta a eles, e enquanto se serve acompanha com interesse os diálogos, sem, contudo, participar. Apenas os observa, silenciosamente guardando seus julgamentos. Lá fora a neve começava a cair, e não muito tempo depois Fiodor observa:
— Vejam, a neve chegou!

Olek se sobressalta:
— Neve? Como veio cedo este ano! Não seria o caso de voltarmos para Warszawa, antes que o tempo piore, Maricha?

Nicolai, peremptório, intervém:
— De forma alguma! Vocês não podem sair com essa neve agora. Vamos ver se ela pára, e então, depois do jantar, vocês até podem seguir, mas perderíamos uma grande oportunidade nos conhecer melhor. Por outro lado, se a neve piorar – e é o que acho que vai acontecer –, vocês não chegariam em segurança em Warszawa, devido ao mau tempo. Assim, é melhor que durmam aqui.

Maricha se admira:
— Dormir aqui? Mas não viemos com esses planos, Nicolai.
— Está decidido. Com esse tempo não resta alternativa, e vocês sabem disso. Dêem as chaves do carro a Igor, que ele e Fiodor o recolherão nossos carros no celeiro.
Impotentes ante a neve, Olek e Maricha cedem. Os rapazes se levantam imediatamente, pegando as chaves de Olek e de Christina, e vão guardar os carros no celeiro. Findo o jantar, tomam um licor, e Nicolai convida Olek para a biblioteca. Maricha faz menção de acompanhá-los, mas é detida por Christina, que a chama para conversar.

¤

Nicolai e Olek entram na biblioteca, e o anfitrião cerra a porta, convidando Olek a sentar numa confortável poltrona de couro, colocada à frente de sua escrivaninha. Vai até a estante, onde seleciona dois cachimbos e os fumos, preparando-os, enquanto Olek observa a biblioteca. Nota, ao canto, uma pequena mesa sobre a qual havia um rádio transmissor. Após oferecer o cachimbo, cuidadosamente preparado, e o isqueiro para Olek, aguarda que ele o acenda e repete em seguida o mesmo ritual, após o que Nicolai também se acomoda defronte a escrivaninha. Olek então pergunta:
— Nicolai, você disse que estava na Aldeia, na noite que dziadzio Julek morreu. Você quis dizer que estava no grupo que foi procurar-nos?
— Estava, mas eu deixei o grupo para levar você para casa, porque você estava muito mal.
— Então foi você!?
— Sim Olek. Eu o conheço, de verdade, há muito tempo.
— Então, se me levou para casa, não chegou a ver meu avô quando ele foi encontrado...
— Na verdade sim. Depois que eu o deixei na Aldeia, fui ao encontro dos outros, juntar-me na busca, mas, como sabe, já era tarde.
— Eu sei. Eu sei.

A tristeza chegou a pairar entre Nicolai e Olek, com a lembrança do fatídico dia. Nicolai tira do bolso da calça um chaveiro, abre a gaveta larga que está à sua frente, remove uma discreta trava de madeira abaixo do tampo da escrivaninha e, de um fundo falso, retira uma pasta de documentos, amarrada com uma fita, que ele desata calmamente e deixa seu braço descansando sobre a mesma, dizendo:
— Eu lamento que você tenha passado tantas coisas sem que entendesse as razões, Olek, e pretendo fazer dessa noite um momento de esclarecimentos, de modo que você entenda o porquê de tantas coisas que ocorreram com você tem ligação com a sua infância, com o seu avô, e assim prepará-lo, até aonde me for possível, para o que você terá que enfrentar. Sei que você terá muitas perguntas, mas peço que antes ouça o que vou lhe contar com atenção. Estamos só nós dois aqui, e poderei responder a tudo e com toda a franqueza, sem rodeios.
— Saberei lhe ouvir, Nicolai. Pode falar.

A disposição de Olek fora a senha de que Nicolai precisava para iniciar seus relatos. Fala de sua amizade por Julek Kowalski, e de como ele fora um bom mestre para Nicolai. Eram anos que exigiram intensa atividade da confraria, aqueles que antecederam a morte do avô de Olek, detalhando várias aventuras, mostrando-lhe até documentos produzidos por Julek Kowalski ou a ele referentes. Respondia a muitas indagações de Olek, somente se mostrando reticente quanto às origens daquele grupo, alegando que ele saberia no tempo certo e pela pessoa certa. Embora ficasse intrigado com as evasivas, Olek se embevecia com os relatos sobre o avô, que tanto amava. Percebia que, de alguma forma, as histórias que ouvira do avô, sobretudo as contadas pouco antes de sua morte, continham eventos realmente ocorridos, que não eram apenas contos criados para entretê-lo. Poderia ser, então, que Nicolai estivesse certo ao afirmar que Olek estaria sendo preparado para algo, mas este encerrava a especulação com o pensamento que a morte do avo interrompera tal preparação – se de fato havida – , e nada poderia reparar isso agora.

Espanta-se quando Nicolai fala do “outro lado”, e ao saber que havia um grupo interessado em sabotar as atividades da confraria, pela ânsia de poder, de dominação, de extrair vantagens à custa dos sacrifícios de todo um povo. Mas quando Nicolai mencionou certa aparição que ocorrera ao livreiro Ignacy Dabinski, em 1937, a sua atenção redobrou, porque talvez obtivesse uma resposta para o inusitado encontro com o falecido tio Andrzej no trem para Warszawa.

Nicolai passa a contar que foi motivada por uma aparição de um antepassado a Ignacy que a confraria veio a se reagrupar depois de anos, tendo Julek Kowalski como um de seus maiores ativistas. Olek questiona sobre como teria sido tal aparição, mas Nicolai não a detalhou ao seu ouvinte, indagando a Olek o porquê do súbito interesse. Olek então narra, resumidamente, o acontecido. Nicolai se espanta e pede a ele que conte com todos os detalhes que lhe viessem à memória, pois isso era muito importante para todos. Olek atende, e a conversa deles gira em torno da aparição.

As implicações místicas eram expostas por Nicolai a um Olek que se mostrava incrédulo pois, desde que seu avô falecera, tornara-se um cético. Embora respeitoso com a religiosidade alheia, a sua postura sempre era de não se envolver com o lado místico de nada. Adotara tal conduta como defesa, pois teve que crescer rápido e aprender a viver com as perdas, rejeitando as formas de consolação que os familiares lhe ofertavam. E era só. Agora tinha descortinado diante de si um mundo novo, oculto, subterrâneo, que envolvia grupos secretos de resistência, inteligência, nacionalismo, aparições, conversas com mortos. Um mundo fantástico em que de repente se via imerso, sem que pedisse ou quisesse. Apenas estava lá, e as coisas aconteciam ao seu redor. Era, sim, uma espécie de herança que Julek deixara, mas Olek, ainda a esta altura, pensava se havia sido uma herança ou uma maldição. Por vezes duvidava, ainda, dos fatos narrados por Nicolai, que pareciam inusitados ao extremo para que fossem aceitos sem reservas pelo ouvinte mais atento.

Todavia, as palavras que eram ditas por Nicolai de algum modo calavam em sua alma. Não poucas vezes o remetiam à infância, às lições de Julek, e por isso o emocionavam. Questionava de si para si aquela realidade, aquela enorme realidade que lhe era posta diante dos olhos, ao contemplar o acervo de documentos e histórias, por vezes mirabolantes, das ações daquela confraria.

Quando Olek e Nicolai entraram na biblioteca, na outra sala os rapazes já haviam retornado do celeiro, onde haviam guardado os carros, e agora ensaiavam jogar cartas. Convidaram Maricha a se juntar a eles, mas esta declinou, alegando que não se sentir concentrada o suficiente para jogar cartas, e os deixa, indo ajudar baba Lidja a tirar a mesa do jantar, terminando por ficar conversando com ela.

A porta da biblioteca permanecia fechada, e sem saber o porquê, Maricha ficava intrigada com aquilo. Atribuía aquele sentimento a uma pitada de egoísmo seu, pois sabia que seu tempo, ao lado de Olek, seria curto, e pretendia ficar junto dele naquela noite. No entanto, lá estavam ele e Nicolai, fechados na biblioteca, e ela a limpar louça com baba Lidja, que a observava discretamente. Na sala o jogo, animado pela vodka, prometia ir longe, embora fosse, de vez em quando, interrompido por discussões entre os jogadores. Baba Lidja comenta:
— Tenho horror do jeito que eles ficam ao jogar cartas!
— Não gosta de cartas, baba?
— Das cartas eu gosto. O que detesto são os jogos.
— Como assim?
Pergunta Maricha, surpresa com resposta de baba Lidja.
— As cartas não servem para isso. Só foram usadas para entretenimentos viciosos para que os homens as trouxessem até nossos dias. Mas elas têm outro fim.

Maricha começava a se interessar por aquela mulher, ao notar que ela não era só rabugice, e pergunta o que ela queria dizer com aquilo, ao que a velha responde, com os olhos brilhando:
— As cartas detêm mensagens secretas, revelações de conhecimentos que permanecem ocultos, desde a mais remota antiguidade. Nelas há muito o que se descobrir sobre o destino das pessoas e dos povos. São esses conhecimentos que as cartas trazem, e eles lá as transformam num divertimento inútil, e ficam se alterando. Detesto isso. Não sabem lidar com a energia das cartas e ficam lá, se deixando dominar por elas, como bobos, tentando combinar seqüências de figuras e números, e se transtornando durante a bobagem. Que asneira!
— A senhora é cigana?
— Não propriamente.

A curiosidade de Maricha se aguça, e ela insiste:
— Não propriamente? Como assim?

Incisiva, baba Lidja responde, encerrando o assunto:
— Não, propriamente não. Quer que eu veja se as cartas têm algo a dizer sobre seu destino? Não costumo fazer isso, e tem muito tempo já que eu coloquei as cartas para alguém. Mas seus olhos espelham uma alma em encruzilhada, sem saber ao certo que caminhos tomar.

Maricha emudece, surpresa. Lidja insiste:
— Então, quer?

Baba Lidja conseguia evitar, assim, ter de contar a Maricha sobre a mágoa que carregava desde a juventude. Ainda uma inexperiente menina de 15 anos, educada de forma rígida e quase sem contato com o mundo fora do núcleo familiar, Lidja se envolveu com um cigano, por quem se apaixonara e com quem vivera uma intensa história, e nesta época aprendera muitos mistérios, com ele e principalmente com a irmã dele, de quem se fizera amiga. Ele propôs se casar com ela, mas Lidja não teve coragem, pois teria de seguir com ele, quando os ciganos partissem da cidade. E uma tragédia precipitou a separação de ambos, quando um homem que passava pela aldeia violentou e matou a irmã de seu namorado. Os ciganos descobriram o assassino e dele se vingaram, castrando-o e o abandonando semimorto na periferia da aldeia. Partiram em seguida, temendo uma represália, e após tal episódio ela nunca mais soube do seu paradeiro. Após a partida dele, descobriu-se grávida e foi acusada por seu pai, um católico ortodoxo muito rígido, de ter coberto sua família de vergonha, quando então foi posta para fora de casa. Viajou muito, enquanto tinha recursos para tal, tentando encontrar um lugar que a recebesse naquele estado. Antes que se perdesse, foi abrigada pelos pais de Nicolai, que lhe garantiram o abrigo e o sustento, até que ela pudesse cuidar da criança. No quinto mês de gravidez, porém, Lidja sofreu um aborto, fruto de um acidente ocorrido quando teimara, apesar da barriga, limpar o celeiro, e isso marcou-a para sempre. Jamais amara novamente, jamais olhara para outro homem, apenas vivia para retribuir àquela família que a acolheu no momento mais difícil e solitário de sua vida. Criou Nicolai e os irmãos, dando-lhes o amor que queria ter dado para o filho que morrera ainda em seu ventre. Quando ela foi envelhecendo, e Nicolai tornara-se adulto, após a morte dos pais, ele a trouxe para sua casa, em Arkadja, e seus filhos, quando pequenos, acrescentaram-lhe a alcunha de baba, e agora todos a conheciam por baba Lidja, e ela zelava por todos daquela família.

Maricha olha involuntariamente para a porta da biblioteca, que permanece fechada, e pensa ser uma boa idéia dar uma olhada nas cartas, mesmo que fosse para passar o tempo, e conhecer um pouco mais aquela velha senhora. Seguem para a mesa onde fora servido o jantar, agora com seu tampo de madeira brilhante, onde baba Lidja abre lentamente uma caixinha ricamente trabalhada, de ébano, e com desenhos a óleo sobre a tampa, e nas laterais faixas decorativas, tal qual as pinturas egípcias.

Lidja retira da caixa um baralho antigo, bem conservado, talhado em finíssimo e rígido pergaminho, envolto em um pano branco, um linho delicado. Os passa para Maricha, pedindo que as embaralhe suavemente, e as parta em três montes, enquanto estende uma toalhinha que estava cuidadosamente dobrada sob as cartas, na caixinha. Feito isso, torna a empilhar os montes, instrui Maricha a se concentrar. Acende uma vela e a deixa na mesa, em um castiçal. Olha profundamente para os olhos de Maricha e começa a deitar as cartas sobre a toalha púrpura. Maricha se sente apreensiva, ao começar a ouvir respostas para as suas perguntas, e também para outras perguntas que sequer ousara fazer. Atenta, vê aquela mulher idosa se transformar numa poderosa vidente, a lhe apontar os caminhos por onde passara, e para onde teria que seguir.

¤

Os quatro jovens prosseguem com o jogo, rindo e brincando, sem se dar conta que baba Lidja estava a contemplar os destinos de Maricha, ou que já havia bom tempo que Nicolai e Olek estavam trancados na biblioteca. Não deixa de ser pitoresca a cena, daquela casa isolada na escuridão do campo, cercada agora de neve, de onde por poucas janelas escapam tênues fachos de luz.

Christina, porém, não se divertia tanto. Estava inquieta, tal qual Maricha, com a demora de Nicolai e Olek na biblioteca. Prezava muito o trabalho que Nicolai fazia e, ao contrário de seu irmão Julek, se importava com os destinos do grupo. Havia muito que fazer, e todos tinham consciência do papel que desempenhavam dentro daquela organização, que era muito mais que um mero grupo de resistência, surgido quando dos prenúncios da segunda grande guerra. Ela o entendia não um grupo de resistência, mas um grupo de sobrevivência, que vinha desde muito cuidando da alma daquele povo que tanto amava, o povo de sua mãe e de seus avós, de seus antepassados. Um povo que existia muito mais do que os meros mil anos de conversão ao cristianismo. Que adotou como lar as grandes planícies, que suportou, por tantas e tantas vezes, a cobiça de outros povos pelo domínio de seu território e de suas gentes e riquezas, um povo que aprendera a resistir. Sempre, e a tudo, resistir. Ainda que no silêncio, ou na clandestinidade, como eles bem o sabiam, aprenderam a se fazer mais fortes.

A inquietação da bela e rebelde Christina residia em saber se Olek estaria aceitando tudo que lhe era revelado, pois ele teria se mostrado muito resistente, mesmo quando estava apenas sendo preparado para aquela conversa. Mas ela sabia exatamente qual seria o papel de Olek, e de certa forma invejava a posição que lhe era reservada porque, mesmo sendo jovem, ela se sabia como a mais dedicada do grupo, da nova geração. E se julgava a mais preparada. Olek, por sua vez, revelara-se hostil, arredio, cético e mal educado. Não o entendia merecedor dos encargos que iria receber.

Nicolai, porém, conhecia certas realidades que ela não alcançava, tentava ponderar consigo mesma, a fim de não permitir que sua antipatia por Olek crescesse, pois aprendera desde muito admirar o velho Julek, pelas histórias que Nicolai contava, e o neto dele deveria ter dentro de si algo de valoroso também. Mas iria esperar para ver, e não permitiria que Olek, com seu comportamento inadequado, viesse a por em risco o trabalho que desenvolviam. Seus pensamentos são interrompidos por Lelek, que bate com a mão na mesa, chamando-lhe a atenção.
— É sua vez, Christina!

E é acompanhado por Igor, que indaga:
— Sonhando com o pássaro verde, na sua janela, na primavera?

Os quatro jogadores riem. A interrupção trouxe-a de volta ao jogo, respondendo a Igor com uma pilhéria. Muitos a tinham como infantil, mas ela bem sabia utilizar este seu lado para conquistar aqueles que a rodeavam. Era, sim, destemida, e não se permitia privar-se da vida por medo ou convenções. A força física, que seu corpo esguio adquirira com as artes marciais e o balé, encontrava seu correspondente naquela personalidade forte, que às vezes se mostrava difícil de lidar, mas que por outras se revestia de uma docilidade desconcertante, envolvente, como seu sorriso de dentes brancos e bem feitos, externamente marcado pelos lábios bem definidos.

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A leitura das cartas chega ao fim. Baba Lidja as recolhe lentamente, envolvendo-as no linho branco e acomodando-as cuidadosamente na caixinha ornada de onde as tirara, em silêncio. Maricha por sua vez tenta se recompor da profusão de sentimentos e angústias por que passara ao contemplar a própria vida revelada naquela mesa. Baba Lidja, diante da solenidade do momento, conclui:
— Presente, passado e futuro, menina. Foi isso que a postura das cartas lhe mostrou: uma ínfima parte do Universo. O seu presente, as razões de seu presente e as conseqüências que advirão de seu presente. São muitos os caminhos que tiveram que ser trilhados para que você chegasse aqui hoje, e pudesse saber tudo isso, assim como são muitos os caminhos que a levarão daqui, e você agora sabe o que tem que fazer daqui para frente. Mas se ao final de tudo você vai conseguir o que procura, não sabemos. É muito cedo para saber. Você tem que fazer muitas escolhas. Até chegar à porta que deseja abrir há um imenso labirinto a ser trilhado. Muitos afazeres, muitas guinadas. Não perca tempo, vá atrás de suas raízes que será mais fácil para você vicejar, como pretende. Siga a sua música, as canções lhe mostrarão quando for hora de descansar. Mas até lá, minha filha, não se deixe deter por ilusões, como fez no passado e se arrependeu. A longa e acidentada viagem que tantas vezes apareceu nas cartas tem que ser feita, caso contrário seu caminho poderá ser interrompido. Não desanime, Maricha, não desanime, porque também muitas coisas boas estarão reservadas para você.

Com tais palavras, baba Lidja encerra a leitura. Maricha comenta:
— Estou tão cansada, baba, e tão desconcertada com tudo que ouvi. Do meu passado são verdades, verdades que há pouco soube existentes, e muitas outras coisas que eu ainda não compreendia. Do meu presente... do meu presente eu sei o que devo fazer, não tenho dúvidas, mas onde isso me levará, somente vivendo um dia de cada vez para saber. Mas agora estou tão cansada. Obrigada por ler as cartas para mim.
— Venha, filha. Preparei um quarto para você e Olek descansarem. Eu sabia que a noite de vocês seria densa, embora não imaginasse que fosse ler as cartas para você. O que você conseguiu hoje de mim é algo que muito poucas pessoas obtiveram, fique sabendo. Foram seus olhos que me disseram que eu deveria ler as cartas.

Baba Lidja sobe as escadas devagar, com dificuldade, guiando Maricha a um quarto pequeno e aconchegante, a janela protegida por cortinas pesadas a fim de impedir que o frio penetrasse, e onde a boa calefação da casa sólida se fazia presente. Maricha agradece e se despedem, Maricha ficando na porta do quarto a contemplar aquela velha senhora desaparecer no corredor escuro, descendo as escadas lentamente, com alguns gemidos, até desaparecer por completo do seu campo de visão. Então se prepara para dormir, ainda envolta em seus pensamentos, disposta a aguardar Olek para saber o que ocorria, há tanto tempo, naquela biblioteca. Havia esperado da noite algo bem diverso do que ela lhe proporcionara. Pensava que iria ajudar Olek a entender o que se passava com ele, e que depois teriam o tempo todo para eles. Mas o que obtivera fora uma oportunidade para pensar em si mesma, nas coisas que lhe aconteciam, e no rumo que sua vida tomaria a partir dali. Para Maricha tudo que acontecera na Alemanha se tornara, definitiva e irremediavelmente, o passado.

¤


A noite avança, a neve ainda a se depositar suavemente no solo, Nicolai e Olek ainda estão na biblioteca e os jovens não mais se entretêm com o jogo de cartas, preparando-se para dormir. Em breu a noite avança mais, enquanto são revelados destinos, caminhos, vetores. Uma noite de revelações.

¤

Amanhece tarde em Arkadja. À noite de neve sobrevém um amanhecer de céu limpo e esplendoroso. Os raios de sol, refletidos no intenso branco dos campos e bosques que circundam o lugar, emprestam ao dia vestimenta soberba. Maricha desperta ao lado de Olek que se agita no sono, pronunciando palavras desconexas, como se mergulhado em pesadelo. Tenta acalmá-lo, afagando-lhe os cabelos suavemente, e Olek desperta, por alguns segundos olha para Maricha, mas assim que se dá conta onde estão, sorri e volta a dormir.

Maricha levanta silenciosamente para que Olek repouse mais. Na parte térrea da casa o silêncio somente era quebrado com o tilintar das louças sendo preparadas para o café por baba Lidja, que sem se dar conta que estava sendo observada, cantarola antigas canções de sua juventude. Ao perceber Maricha se interrompe, cumprimentando-a sem muito calor, e cessando de cantar, avisando que em breve o desjejum estaria na mesa.
— Que musica cantava, baba?
— Uma música antiga, lá da Geórgia. Não creio que a conheça.
— Parecia ser bonita.
— Era. Ela foi cantada para mim um dia, e hoje acordei me lembrando dela.
— E o que ela diz?
— Conta a história de um soldado que é recrutado para a guerra e tem que deixar sua amada às vésperas do casamento. É um lamento.
— Pareceu triste...
— E é. No final da balada ele cai morto no campo de batalha, com um tiro de fuzil.

Baba Lidja, após a última frase, silencia, ficando a recordar de sua própria despedida. Logo se dá conta do devaneio, e se volta para o fogão à lenha, atendo-se aos afazeres e sem se preocupar mais com a presença de Maricha, de quem recusou ajuda para por o desjejum.
— Não insista em ajudá-la, Maricha. Corre o risco de ser agredida com uma colher de pau!

Era Nicolai surgindo da escada, animado, perguntando a Maricha como tinha sido a sua noite, ao que ela cordialmente respondeu que passara bem. A partir daí conversam amenidades até que baba Lidja serve o café para ambos, já que ninguém mais havia se apresentado, como ela reclamava.
— É sempre assim: basta chegar a primeira neve e estes jovens frouxos já não se levantam no horário que deviam. Não devem ser feitos da mesma cepa que nós, porque o frio os deixa moles e preguiçosos, e eu tenho que passar a manhã servindo o café. Ninguém pensa nas minhas costas!

Nicolai e Maricha não retrucam. Ao contrário, agradecem o café, elogiando os biscoitos que ela fizera, ao que Lidja se mostra grata. Enquanto se alimentam, Nicolai dispara uma pergunta, que faz com que baba Lidja deixe o que estava fazendo na cozinha para ouvir a resposta, pois de alguma forma isso lhe interessava, posto que lhe conhecia as alternativas, reveladas pelas cartas na noite anterior, ao dilema que Maricha enfrentaria no momento que a pergunta fosse formulada. Maricha estava escolhendo entre viver um breve, mas intenso período com Olek, arriscando-se a perdê-lo para sempre, provavelmente de forma trágica, como as cartas haviam dito, ou seguir agora na longa viagem, contando com a remota possibilidade deles se encontrarem novamente, ou mesmo até de Maricha encontrar um novo amor em Israel, hipótese esta que ela rejeitara de pronto.
— E então, Maricha, decidiu o que irá fazer de sua vida?
— Decidi, Nicolai. E posso dizer que meu pai sabia o que fazia quando me aproximou de vocês. De ontem para hoje, isolada que fiquei nessa sua casa acolhedora, tive tempo para parar e refletir, e decidi que irei mesmo seguir até Israel, e lá tentar recomeçar a minha vida.
— E Olek?
— Ficou claro para mim que ele terá muito que fazer aqui mesmo, para que pudesse seguir comigo. Eu e Olek precisamos, infelizmente, seguir caminhos diferentes, senão nossas vidas não progredirão. Sinto isso dentro de mim.
— Mas não poderia acontecer o contrário? Você não poderia seguir o caminho de Olek, juntamente com ele? Não seria a primeira vez que isso acontece, e poderia ser bom para os dois.
— Eu não poderia. Acredito que iria atrasar a jornada dele, ao invés de somar. Eu tenho interesses diferentes, uma vida, uma carreira, uma família por descobrir. Caso eu abrisse mão disso agora, adiante isso poderia causar sérios conflitos. Será melhor assim, ainda que tenhamos que nos separar novamente.

Nesse momento surge Olek na escada, que não pode deixar de ouvir a última parte da conversa. Baixando os olhos e retardando o passo, cumprimenta os dois, assentando-se à mesa, em frente a Maricha. Dormira pouco, e sua alma sofria com o que acabara de ouvir.
A partida de Maricha era uma certeza que não gostaria de ter, mas que perfeitamente já intuía. Agora suportaria apenas uma conversa trivial, mas não era o que Nicolai planejava. Sob os olhares de Maricha e baba Lidja, Nicolai pergunta, como a continuar uma conversa interrompida na noite anterior:
— Posso contatar com os amigos de Kraków, avisando que estará lá em duas semanas?
— Pode, claro. Ficaria grato se o fizesse, Nicolai. Como conversamos ontem, tenho muitas coisas que descobrir no caminho, antes de lhe dar a resposta que espera de mim.
— Não se apresse em responder Olek, embora eu tenho certeza que voltando de Kraków você terá a resposta pronta para mim.

Maricha, não se contendo, intervém:
— De que resposta vocês falam?
— Olek também tem caminhos a seguir Maricha, talvez mais árduos que o seu. Deixe que vocês conversem sobre isso depois, a dois.
— Não podem me dar ao menos uma idéia?

Olek então responde à Maricha, como a que encerrar a discussão.
— Seria sobre minha atuação na Universidade de Kraków, Maricha. E sobre eu ter logo uma ocupação. Depois lhe conto mais.

O que se seguiu naquela manhã, até que se tivesse certeza da trafegabilidade das estradas, após a neve da noite, e a despedida dos visitantes, nada mais foi que conversas amenas e casos comentados. Quando todos estavam já reunidos na sala, próximos à hora do almoço, Nicolai, vendo baba Lidja gemendo em seus afazeres, comenta com os visitantes.
— Eu não entendo porque esta velha é tão teimosa. Por várias vezes tentei trazer alguém para ajudá-la permanentemente, mas ela se recusa sempre. Até me sinto culpado em permitir que ela faça todas essas coisas, mas ela não deixa que ninguém chegue perto!

Não demora muito e baba Lidja larga o que fazia e, de dedo em riste, ralha com Nicolai.
— Não seja infantil, Nicolai! Você sabe no que dá ter essas moças ajudantes convivendo junto, ou já esqueceu do que lhe aconteceu quando Irma Krause esteve nesta casa?

Nicolai ri e pede que baba Lidja nem lembre do episódio, mas ela franze o cenho e retruca como não lembrar, diante da desgraça que ela quase causou. Diante dos olhares curiosos dos presentes, Nicolai resolve contar o episódio ao qual baba Lidja se referia, enquanto esta, indignada, retornava a seus afazeres.

Irma Krause fora uma adolescente sem muitas referências, que havia sido contratada pela mulher de Nicolai para trabalhar na casa, porque na época baba Lidja havia contraído uma gripe muito forte e custava a se recuperar, e, portanto, acharam por bem contratar uma ajudante, porque Christina ainda era muito pequena e dava muito trabalho. A tal moça se encantara com Nicolai, e tentara fazer-se sua amante, sendo por diversas vezes rejeitada pelo patrão, para o qual se insinuava. Vingativa, passou e envenenar com ervas as ceroulas de Nicolai, o que lhe causou sérias feridas na virilha e na genitália, impedindo-o inclusive de praticar sexo com sua esposa. Diante da aflição que isso causou, inspirou na mulher de Nicolai a idéia que a tal “doença” era fruto de desregramentos sexuais do marido, que deveria a estar traindo com mulheres da vida. Essas idéias terminaram por causar grande comoção na casa. Foi baba Lidja, contudo, que terminou por descobrir as ervas nos aposentos de Irma Krause, desvendando o mistério e provocando a expulsão de Irma da casa. Depois desse episódio, baba Lidja não mais admitiu que alguém fosse contratado para ajudá-la. Recentemente, e a muito custo, admitira a lavadeira, que vinha periodicamente, mas cuidava para que ela não se imiscuísse nos assuntos da casa, mantendo-a sempre distante dos seus habitantes. Os presentes, ouvindo a história, riram de Nicolai, mas esse fazia questão de lembrar com dramaticidade o acontecimento, o que emprestava maior graça aos ouvintes.

Chegando a hora da partida, Olek e Maricha logo arrumam suas coisas, despedindo-se longamente de Nicolai e dos demais. Maricha se demora mais com baba Lidja, agradecendo o que ela fizera na noite anterior, ao que baba responde carinhosamente, recomendando que tivesse muito cuidado nas escolhas que faria no futuro, já que tinha definido o primeiro passo a ser dado.

Seguem, então, Maricha e Olek até o celeiro, acomodam-se e põe o carro para esquentar. Quando partem, Nicolai e Christina estão à porta, acenando para ambos, desejando-lhes sorte. Baba Lidja observa da janela, cenho carregado, preocupada com os destinos daqueles dois. Pensava no que vira nas cartas, mas que ela terminara por não dizer a Maricha.

¤

A viagem de retorno à Warszawa tem seu início. Olek dirige lentamente rumo à capital polonesa. A certa altura, quando as conversas vãs não tinham mais lugar, Olek pergunta, como que sufocado:
— Você ainda me ama, Maricha?
— Por que pergunta isso agora, Olek?
— Ama?

Maricha sabia onde Olek queria chegar, e não podia permitir que ele a convencesse a mudar de idéia, a desistir de seguir para Israel. Se antes intuía que seria melhor seguir em frente, as cartas lhe haviam dado esta certeza. Então ela responde:
— Olek, as coisas não são assim. Eu me sinto loucamente atraída por você. Eu gosto muito da maneira como me trata, como me acolhe nos braços, da maneira como sorri, quando digo ou faço algo que lhe agrada...
— Mas não me ama mais, não é?
— Não sei que resposta lhe dar, por favor, querido, não me pergunte isso agora.

Olek avalia a resposta recebida e sentencia:
— Não ama. Era isso que eu precisava saber.

Por um bom tempo o silêncio reinou absoluto dentro daquele carro. Nada foi dito, nada mais havia para ser dito. A conclusão de Olek não era verdadeira, mas Maricha achou melhor deixar assim. Ouvir que ela o amava, e que assim mesmo iria partir, não adiantaria de nada para ele.

Retornavam do casarão de onde ambos saíram abalados. Maricha tivera as cartas, e Olek importantes revelações sobre si mesmo e sobre seu avô. Estavam confusos, talvez por isso quisessem precipitar um diálogo novo, como a continuar a conversa que haviam iniciado quando saíam de Warszawa, e interromper o assunto da sua visita ao casarão, pois precisavam parar e pensar em tudo que ouviram. Era hora de definir caminhos. Olek prossegue, lembrando do que ouvira da conversa de Nicolai com Maricha, pela manhã.
— Quando você parte para Israel?
— Assim que cheguem meus documentos da Alemanha. Pedi o certificado da escola e recomendação do maestro da Orquestra. Devo precisar dessas coisas quando chegar lá, segundo Ari me falou. Preciso ir ao correio amanhã, para ver se chegaram.
— Entendo... quero dizer, não entendo nada. Como você pode partir assim, definitivamente, sem sequer saber como será sua vida lá, se você vai se ambientar, se o seu irmão lhe acolherá realmente bem, e até se ele se tornou uma boa pessoa?
— Eu preciso arriscar, preciso ver como será lá, antes. Aqui eu perdi tudo que tinha, Olek. Meu pai, minha orquestra, meu casamento, minha família, minhas referências. E no meio desta confusão me aparece um irmão que eu nunca soube haver existido, mas que por sua vez nos últimos vinte e tantos anos não parou de me procurar. Isto deve valer alguma coisa. E agora eu sei que tenho referências, sei realmente de onde eu venho, e que até agora, por mais amor que eu tenha recebido, não consigo abandonar a idéia de que era uma exilada, uma órfã criada com muito amor, mas sem lembrar que um dia tivera uma mãe que me carregou nos braços e amamentou, um pai que me esperou e mimou, que eles atravessaram continentes para que eu tivesse um novo lar e uma pátria, e morreram por isso. Eu tenho que ir ao encontro disso tudo, e há um sentimento de urgência dentro de mim, que eu não quero e não posso negar.
— Mas dessa maneira, Maricha? Tão definitiva, e deixando tudo que você tem para trás?
— Eu não tenho mais nada que me prenda aqui, Olek.

Diante do olhar magoado de Olek, pela afirmativa categórica que fizera, Maricha se contém. Cessam as suas palavras dando lugar às lágrimas lhe brotam aos olhos. Contidas. Sofridas. Lágrimas de adeus. Um inadiável adeus a tudo que fora, que amara, como quem coloca tudo que viveu dentro de uma caixa, e sobre a tampa grafa “passado”, na certeza que serão coisas a serem revisitadas na memória, como lembranças, mas que dificilmente serão vivenciadas novamente. A infância, os Kowalski, a Polônia. Um inadiável adeus a Olek, que lhe dera da forma mais franca e incondicionada o seu amor, e que, no entanto, ela tinha que perder, para poder seguir a sua jornada. O amara, o amava, sempre o amaria. Um amar silencioso, na penumbra, secretamente, através de uma senha chamada doce segredo. Mas Maricha levava consigo muitas coisas também: a sua música, a sua experiência de vida, as suas expectativas de futuro, tal qual seus pais de sangue, partindo para um sonho que poderia se tornar real – ou não –, mas atrás do qual tinha que seguir.

Um sonho do qual Olek não poderia fazer parte. Ao menos não por enquanto, e talvez jamais fizesse.

A chegada a Warszawa coincide com o fim-de-tarde. O expediente já terminou e as pessoas seguem para suas casas, pois as praças e jardins e caminhos, no inverno, não as reúnem para os passeios e o agradável convívio citadino. Mesmo assim a cidade estava bela, estava branca e úmida pela neve do dia anterior.

A pista deslizante e a beleza do cenário faziam com que Olek dirigisse bem devagar. O seu estado de espírito também. Maricha, por sua vez, como que contemplando a paisagem da cidade, se punha a pensar nas revelações e indagações que baba Lidja fizera nas cartas, sentindo que ficara sem uma resposta importante, mas a pergunta que fizera se perdera entre outras tantas dúvidas, que ela nem mais podia se recordar. E desta forma cruzam a cidade, rompendo os pensamentos para trocar impressões, ou mesmo leves carícias, para dizer que estavam, sim, lado a lado naquele momento.

¤

A noite já ia avançada. A casa, quase toda na penumbra, somente denunciava luz na biblioteca, onde Nicolai e Olek permaneciam a discutir a necessidade de Olek conhecer a confraria, e os cuidados que deveria tomar consigo mesmo, o porquê da necessidade do envolvimento de Olek no grupo, e dos cuidados que o grupo deveria ter com ele. Nicolai expunha os perigos que Olek corria, pois de seus talentos outros pretendiam se valer, e não sabia a que preço isso poderia vir a ocorrer. Discutiam. Olek por vezes se não se resignava, noutras cedia à argumentação firme de Nicolai. Estava, por fim, dividido. Queria, na verdade, outro destino para si, e oportunamente colocaria esta sua posição à Nicolai, que certamente o saberia ouvir, como ele soubera ouvir suas histórias e razões.