Mar de Olek


Olgierd Sokolowski

 

 

VI - Maricha

 


Olek, tentando compreender mais este incidente em que se vira envolvido, retoma seu caminho. Ainda se punha a verificar, de quando em vez, se estava sendo seguido, e constata, aliviado, que ninguém parecia fazê-lo. Seria possível que houvesse se equivocado, e aquela moça não o estivesse seguindo, mas simplesmente tinha o mesmo caminho que o seu? Olek cora diante de tal possibilidade, pensando no susto que dera na moça.

A Nowy Swiat, por onde ia, é uma das três avenidas que formam o Caminho Real, que vai desembocar no Parque Lazienkowski, onde ficava o Palácio de Verão do rei que dava nome ao belo parque, composto por vários pavilhões, e enriquecido com um grande lago.

Já no interior do parque, Olek procura por Maricha, encontrando-a acomodada num banco de jardim, quase à beira do lago, onde ela lia, alheia aos movimentos à sua volta. Ele pára, pondo-se alguns segundos a apreciá-la. Estava linda. Maricha logo o percebe, interrompendo a leitura, e lhe sorri. Olek vai ao seu encontro. Eles se cumprimentam com um longo abraço. Sentam-se. Maricha pergunta se ele está melhor, e Olek responde que sim, contando rapidamente o episódio de ter sido seguido. Maricha não deu muita importância ao acontecido, rindo da situação criada pela chegada do policial, e pouco mais fez comentar, sequer perguntar como era a moça, e afirmar que estava tudo bem, que havia passado. Ela parecia estar com a cabeça em outro lugar, como se tivesse muito a dizer, sem saber exatamente por onde começar.

Olek desculpa-se pelo que aconteceu no jantar, e ela responde que não há porque se desculpar, pois entendia ele. Ele então repete o recado que Andrzej lhe deixara, e comenta que ele afirmou que ela poderia ajudá-lo a compreender tais coisas. Maricha lhe sorri e lhe toma a mão, afirmando que iria ajudá-lo, sim, enquanto ela estivesse ao seu lado. Eles se calam, pondo-se, ainda de mãos dadas, a admirar o espelho d’água à sua frente. Maricha, minutos depois, olha para Olek e pergunta:
— O quanto você conhece de minha história Olek?

Ele lança um olhar interrogativo, como a querer precisar a que exatamente ela se referia. Maricha prossegue.
— Eu quero dizer... desde que eu, pequena, cheguei à casa de meu pai, Andrzej.
— Na verdade não sei muito, Maricha. O que sempre soube é que você foi acolhida por tio Andrzej, ainda criança de colo, e a partir daí crescemos juntos.
— É preciso que saiba de tudo, Olek, desde o começo, para entender as coisas que tenho para lhe dizer. Vamos caminhar no parque?
Olek aquiesce e se levanta, atento para o rumo que tomava a conversa. Ela demonstrava estar contente em revê-lo, mas ao mesmo tempo parecia procurar as próprias referências, as quais talvez tenha perdido com a morte de Andrzej. Enquanto eles caminham, braços dados, pelos jardins de Lazienkowski, começa Maricha a contar a sua história.

Julek, avô de Olek, era amigo dos verdadeiros pais de Maricha, e fora o primeiro a aproximá-la de Andrzej. Ela era a filha mais nova, temporã, de uma família judia, que morava na pequena cidade de Gorlice, a sudeste de Kraków, próxima à fronteira da Eslováquia. Ela e tinha dois irmãos, David e Ari, que lhe eram, então, bem mais velhos. A família se preparava, em fins dos anos sessenta, para partir para Israel, como colonos. Maricha não havia completado ainda um ano de idade quando adoeceu gravemente, justo na época da que a família partiria para Israel. Seus pais então resolveram deixá-la com os tios do pai dela, Saul e Hanna Bernstein, um casal já idoso que ficaria com ela até que seguissem para Israel no ano seguinte, quando ela voltaria a viver com a família. Dois meses depois de haverem partido, chegara a trágica notícia de que todos, pai, mãe e irmãos, teriam morrido em um conflito no assentamento onde se fixavam. Duas semanas depois da tragédia, Saul procurou Julek, que conhecia a família de Maricha de longa data, e expôs que não sabia o que fazer com a criança, pois entendia que Hanna estaria muito velha para poder cuidar do bebê, e como vivia com problemas de artrite e reumatismo, precisava se tratar e não poderia por isso cuidar dela indefinidamente.

A idéia de colocar a menina em um internato, ou simplesmente mandá-la para Israel, teria revoltado Julek, que pediu ao casal que lhe dessem algum tempo, e não tomassem nenhuma decisão sem antes falar com ele novamente. Na mesma semana torna a visitá-los, desta vez acompanhado de Andrzej. No caminho, Julek teria contado ao filho o drama da pequena Mirian, como se chamava Maricha ao nascer. Andrzej teria se comovido com a história, e desde o momento em que a tomou no colo, teria feito dela sua filha.

Dois dias depois, Andrzej e Julek partiam de Gorlice com a menina, e a registraram em Wieliczka como Maricha, filha de Janina e Andrzej, trazendo-a para o seio da família. Janina, mulher de Andrzej, que nada sabia da história, foi surpreendida com a chegada da criança, o que a princípio gerou conflitos e desconfianças por parte dela, que chegou a pensar que a menina fosse realmente filha de Andrzej, o que causou muitos dissabores ao casal. Com o tempo, porém, e grande interferência de Julek, Janina terminou por aceitar Maricha, e a menina assim cresceu, sempre muito afeiçoada a Andrzej. O tempo passava e Maricha e Andrzej tornaram-se grandes amigos, depois até confidentes. O gosto de Andrzej pela música despertou muito cedo na pequena Maricha o talento para esta arte, voltando-se para o aprendizado do violino, ao qual ela se dedicava com afinco. E assim foi até que ela, já adolescente, seguisse para Warszawa, com Tadeusz e Victor, para lá estudar, reencontrando Olek.

Olek tenta entender o porquê dela estar lhe contando essas coisas. Ouvia pacientemente, não questionava, não interrompia. Sabia que nesse momento era apenas um ouvinte, um caro ouvinte, a quem Maricha abria a sua história, o seu passado, o seu coração. Embora recheado de interrogações, gostava do papel que lhe cabia. À medida que Maricha desfiava a narrativa, sentia a intimidade que um dia possuíram retornar, agora muito mais envolvente, mais serena do que fora no período em que viveram a sua paixão em Warszawa.

A tarde se vai, e o casal nem percebe. Caminham, conversam, brincam, dão comida aos pombos, se abraçam, ela descansa a cabeça no ombro de Olek. Decidem jantar num restaurante pequeno, tradicional, com luminárias presas às paredes de pedra, como se fossem archotes. Olek conta como foram seus anos, depois que Maricha partiu, e ela das suas experiências na Alemanha, o seu amor pela música. A conversa leve, o jantar, o vinho. A proximidade entre eles é gritante nos gestos, olhares, nos sorrisos. Ao fundo um violino embala os murmúrios, as mãos que acidentalmente se tocam, as palavras que saem mais doces, as atenções redobradas. O jantar termina. A conta é paga. É hora de ir. Levantam-se vagarosamente, caminham até a porta, pela qual saem abraçados, fundidos, a abrigarem-se do frio da noite, a agasalharem-se do frio interior da solidão. Sem vontade de se separar, relutam. Relembram momentos. Falam com os rostos muito próximos, os lábios quase a se tocar, os vapores dos hálitos na noite a se confundir na mesma névoa.

Passeiam assim, até que um pequeno hotel surge à frente deles, e sem palavra, apenas olhares, dirigem-se à recepção. Olek aluga um quarto para o pernoite do senhor Kowalski e senhora, toma as chaves e seguem para o apartamento no fim do corredor do segundo andar. Frente a frente, trocam significativo olhar à porta, que Olek abre, logo seguindo para a janela, cerrando as cortinas, ligando o aquecedor. Vai até Maricha, que trancara a porta e estava parada, no centro do quarto, sem saber exatamente o que dizer ou fazer. Ele a abraça de corpo inteiro, sentindo o corpo dela tremer, percebendo em cada poro a intensidade do reconhecimento mútuo, o adivinhar de sentimentos. Tudo diziam sem precisar usar nem uma palavra. Olek tira o casaco de Maricha e ela o dele. Voltam a se abraçar, agora as mãos de Olek já passeiam pelo corpo de Maricha, a mão sob a blusa sente o calor das costas da mulher amada, que então o beija apaixonadamente.

Não há nada lá fora. Não existe um mundo além do apartamento. São somente eles. Olek e Maricha e a sede incontrolável pelo outro, o desejo do reencontro, o resgate de tantos sentimentos sufocados. A luz tênue da cabeceira mergulha os dois em penumbra, os contornos antevêem as formas, os braços se confundem, as pernas formigam e, cambaleantes, desabam no pequeno sofá. O suor que brota da fronte de Olek ignora o frio do quarto. Maricha o recebe em seus braços, sente os beijos de Olek no pescoço, antes encoberto pela vasta cabeleira negra e ondulada. As suas mãos percorrem as pernas de Olek, sentindo-lhes a firmeza. Eles se envolvem cada vez mais, e o sofá já não lhes é suficiente. Levantam-se, ela dá um passo à frente e Olek a abraça, beijando-lhe a nuca e cruzando os braços, pousando-os na cintura de Maricha, prendendo o corpo dela contra si. Respira em seu ouvido, sussurra palavras de amor. O quarto gira, a penumbra domina o espaço. Aos beijos, ajoelham-se sobre o tapete, ao lado da cama. Começam a se despir, logo estão apenas com as roupas de baixo, a se beijar e abraçar, tilintando os dentes de frio e todo o corpo tremendo de desejo. Entram sob a pesada coberta de penas de ganso, envolta num lençol abotoado, linho branco, e o gelo da coberta que ainda não absorveu o calor dos corpos aguça a sensação das pernas que se tocam, aquecem, e se entrelaçam. Maricha murmura repetidamente o nome de Olek, como que a se certificar que era ele que reencontrava. Brotavam todos os sentimentos, todos os desejos, todas as vontades. Olek então se oferece, e sente explorado cada pedaço de seu corpo. É tocado, acariciado, beijado, violado. Instintivamente corresponde, brotando entre os dois o momento único em que a entrega despreza freios, os seres se fundem, se confundem, desta vez não se preservando de nada, não se detendo a nada, abraçando a máxima dos verdadeiros amantes, que é se amar como se fosse a última vez.

Enchia-lhes o sentimento de que não haveria um depois, que não haveria uma outra vez. Que a vida poderia afastá-los novamente. Então seriam tudo. Nus sob a coberta, os gestos os odores e os fluídos do sexo os envolviam inteiramente. Os corpos gritavam pela união, as unhas cravadas na carne, as mãos a apertar os quadris, a tocar os seios, as línguas que se buscavam, que exploravam. As penas da coberta pendiam para os lados, como a descobrir o casal gradativamente, à medida que o calor lhes assaltava. E eles se amaram. E se amaram outra vez. E entre a pausa e o ato não pararam os afagos, as carícias, as palavras tímidas de paixão e as ousadas de prazer. E se sentiram de outras formas, e se alternavam, e se amaram de novo, e gozaram, até a exaustão, até que um breve sono, no limiar do dia, os fizesse, abraçados, percorrer mundos que sempre sonharam alcançar.



¤

Quando se desperta dos sonhos, levam-se alguns segundos para perceber a realidade, para entender perfeitamente para qual dos mundos se acorda. Olek abre os olhos e procura por Maricha ao lado, na cama. Não a encontra. Teria sido um sonho? Sobressalta-se, mas logo a vê, ao fundo do aposento. Ela lhe sorri, ele retribui. Maricha vem ao seu encontro, senta-se na cama e o beija carinhosamente nos lábios.
— Bom dia, doce Maricha.
— Bom dia, meu querido.

Os olhos dela brilham, e ela diz:
— Senti tanto sua falta... Sabe Olek, nos devíamos esta noite. Por tudo que já fomos, pelo que sentimos, nos devíamos esta noite.
— E pelo que podemos ser, Maricha! Eu também senti sua falta. Até hoje não entendo bem o porquê de não termos dado certo. Por que, afinal, você partiu, sem que sequer tivéssemos tentado apostar no nosso amor?
— Por favor, Olek...
— Não... eu quero saber. O que deu errado, para que nós não tenhamos seguido juntos? Por que a vida não nos permitiu o que tanto queríamos?
— Não era para ser, Olek. As coisas que você queria para si não eram as mesmas que eu queria para mim. Eu aprendi muito cedo que o fato de você amar alguém não quer dizer que viverá com esse alguém, ou que será feliz. Às vezes é o contrário, terminamos por optar por viver com quem gostamos, mas não amamos tanto, não queremos tanto.

Olek não consegue refrear o seu rancor pelo tempo perdido, e fala com uma ponta de ironia:
— Foi, então, por me amar que partiu, e não mais mandou notícias? Foi por isso que se casou na Alemanha, sem que sequer pudéssemos ter conversado antes?

Sentindo-lhe a mágoa, Maricha desvia o olhar, e após refletir alguns instantes, responde abaixando a voz, já naturalmente suave:
— Por vezes optamos por encontrar alguém que nos faça sentir seguros, pouco vulneráveis. Muitas vezes se procura por alguém que seja mais parceiro do que amante, que queira mais uma vida estável do que viver as tempestades de uma paixão.

Olek a fita, como a digerir o que ela lhe contava. Ela continua:
— Você sabe que Tadeusz era radicalmente contra o nosso namoro. Vivia me falando que o que fazíamos era errado, pecaminoso, que nós éramos primos-irmãos. Chegou a insinuar que talvez eu fosse mesmo filha de sangue de Andrzej com outra mulher, que até nossa mãe desconfiava disso! Eu era pouco mais que uma menina, e tudo isso me abalava muito...
— Eu sei o que Tadeusz fez, e não o perdôo até hoje. Mas você não me amava o suficiente para que enfrentássemos isso, e tentássemos ser felizes?
— Claro que eu o amava. E quando se ama alguém, como eu amei você, Olek, é para guardar para sempre no coração, como um doce segredo, uma lembrança que seja como um bálsamo para o coração, sempre que a tristeza nos abate, permitindo-nos assim seguir adiante. Foi como eu senti tudo na época, e por isso parti em busca de meu outro sonho, você bem sabe, a música.

Agora era a vez de Olek silenciar, refletir sobre as razões de Maricha, daquela Maricha adolescente de então. E perdoar. E também se perdoar por não ter dado a ela a segurança com a mesma intensidade com que dava o seu amor. Quando todas essas coisas lhe acudiam, Maricha faz um apelo:
— Olek, por favor, isso foi há tanto tempo, tantas coisas aconteceram depois, não vamos nos magoar agora, revivendo os momentos em que sofremos...
— Perdão, Maricha. Eu não devia ter tocado nesse assunto. É que tudo voltou com a mesma intensidade, quando nos reencontramos no restaurante...
— Não foi realmente um reencontro, o daquele jantar...
— Não, não foi. Eu estraguei o jantar.
— Não se sinta assim, afinal você não sabia que papai havia morrido.
— Eu sinto muito. Mesmo. Mas, juro a você que falei com Andrzej no trem, Maricha!
— Eu acredito em você, Olek.

A firmeza da afirmação de Maricha transcendia o mero condescender, deixando Olek admirado.
— Acredita?
— Sim. No período em que papai estava hospitalizado, eu o acompanhei diariamente. Sempre que se sentia disposto, sem tanto sofrer com os efeitos da doença e do próprio tratamento, a que em vão foi submetido, ficávamos conversando, e ele me revelou muitas coisas, algumas das quais atribuí fantásticas, mas que condizem com o que aconteceu com você.
— Conte-me tudo, Maricha, por favor, explique o que você está falando.
— Eu o farei Olek, mas não agora. Eu preciso voltar para casa. Vá me buscar hoje, no final de tarde, eu quero levá-lo à casa de uns conhecidos meus, que lhe ajudarão a entender muitas coisas sobre o que aconteceu.
— Quem são eles?
— São a família de Nicolai Ianovich. Boas pessoas, amigas da família há muito tempo, e eles também querem conhecer o neto de Julek.

Nesse momento batem à porta, e Maricha vai de pronto atender. Recebe uma enorme bandeja, contendo um farto café da manhã. Olek sorri.
— Mas que surpresa é essa? Você pediu café da manhã no apartamento?
— Pedi, enquanto você ainda dormia. A noite foi tão nossa que achei que a manhã também poderia ser, caso tomássemos o café da manhã aqui mesmo, sem mais ninguém.
— E poderiam ser assim todas as outras manhãs, Maricha...

Maricha faz não ouvir o comentário e chama Olek:
— Venha comer, querido.

Maricha ajeita as louças, e Olek vai até ela. Sentam-se e se divertem com o café da manhã, brincando, felizes, pelos momentos que haviam passado. Já terminando, Olek pergunta:
— Esses seus amigos, que você diz que querem me conhecer, quem são eles?
— Nicolai foi amigo de papai. Reencontramo-nos quando papai veio fazer o tratamento aqui. Ele e a família me apoiaram o tempo todo. Você gostará deles.
—E onde eles moram?
— Moram num casarão afastado, na região de Lowicz, bem perto dos Jardins de Arkadja.
— É bem longe, mas vai ser interessante rever aquela região. Vou pedir o carro emprestado a Victor, assim ficará mais fácil chegar lá.
— Ótimo, pois não teremos que ir de trem até Lowicz! Estamos combinados, nos vemos quando você for me buscar, à tardinha. Agora eu preciso ir, meu querido.
— Você tem mesmo que ir agora, Maricha?

Maricha sorri, passando a mão no rosto de Olek. Os olhos dela brilham, cheios de carinho, mas com a cabeça responde que teria que partir. Beija-o suavemente, veste o casaco, acena e vai embora, fechando a porta atrás de si. Desde que voltara a Warszawa, Maricha hospedara-se no antigo apartamento, onde Janina e Tadeusz agora moravam. Embora já fosse adulta e independente, sabia que não conseguiria se furtar das incômodas perguntas dos dois ao chegar, depois de ter passado a noite fora, sem avisar.

Olek fica ali, olhando para a porta, a repensar tudo o que lhe havia acontecido desde sua volta à Polônia: o mistério de ter conversado com o tio morto; os reencontros; a taverna; a moça que provavelmente o seguia e a abordagem do policial. Era demais para os poucos dias desde o regresso.

Quanto a Maricha, ficara ciente de toda a sua história, mas sem compreender o porquê dela ter lhe contado isto agora, com tantos detalhes, e afirmar que ele tinha que saber do seu passado para entender outras coisas. Entender o quê? Não pensa mais nisso. A magia do dia anterior ainda o envolvia, a maneira como foram se aproximando desde o parque, terminando por se amar a noite inteira, o prazer do adormecerem no mesmo leito, e dos olhares e carinhos ao amanhecer, como sempre desejaram, mas nunca se atreveram a ficar. Ele sorri de si para si e se espreguiça, ainda com as sensações do encontro a lhe adoçar a alma. Volta para cama prevendo um breve cochilar, mas logo este se transforma em um sono profundo e agitado.

A agitação é entremeada por um sonho em preto-e-branco, entre sombras, ele estando a caminhar por uma floresta, quando vê alguém sentado à sombra de uma árvore, como que a esperá-lo. Quando ele se aproxima o vulto sai rapidamente. Olek o segue, como que por impulso, e logo a floresta se transforma numa estação de trens. Olek então vê Maricha embarcando num trem que inicia a partida, e corre até chegar ao vagão e nele subir. Encontra-o, porém, vazio. Maricha não estava ali. Vinda do nada, uma voz firme sentencia: “Lembre-se, Olek, temos que estar prontos para o que a vida nos apresenta”. Ao voltar-se, Olek não vê ninguém no vagão, e pela janela percebe a entrada de um túnel, fato que aumenta o barulho das rodas nos trilhos, ritmados, cada vez mais ampliados, até que acorda com um insistente bater na porta.

Quando finalmente Olek desperta e atende a camareira que se anunciava, ela se põe a perguntar se poderia fazer a cama e limpar o quarto, e se Olek iria permanecer, porque já estava vencendo a diária. Ele agradece o aviso, apronta-se e vai embora.

¤

Victor ouve a sineta da porta e verifica ser o irmão que entrava por ela, e com ele graceja dizendo que um dia ainda se habituaria com seus horários, ao que Olek responde no mesmo tom. Não contendo seu entusiasmo, Victor exclama em seguida:
— Querido irmão, hoje é um grande dia para mim!
— É mesmo? O que aconteceu para estar assim, tão agitado?
— Sabe, Olek, eu tenho feito, em paralelo às minhas atividades diárias no estúdio, estudos fotográficos sobre o trabalho. Fotos artísticas de operários nas minas de sal e carvão, nas fábricas, nos portos, nas mais diversas atividades, retratando assim a poesia do trabalho deles. Pois ontem à tarde eu soube que finalmente consegui que promovam uma mostra individual desse meu trabalho!
— Uma mostra individual, aqui em Warszawa?
— Sim, num espaço nobre do Palácio da Cultura e da Ciência . Vai ser a minha grande chance, Olek. Há anos venho trabalhando nisso!
— Puxa, Victor, parabéns! Precisamos mesmo comemorar isto de alguma forma! Que tal com um almoço num bom lugar?
— Ótima idéia. Conheço um ótimo restaurante aqui perto. É simples, a comida é boa e o lugar tranqüilo. Que tal?
— Para mim está muito bom, mesmo porque conversamos poucas vezes desde a minha chegada, e esta será uma grande oportunidade.
— Ah, bons irmãos se entendem mesmo sem conversar muito, Olek, mas vai ser muito bom colocar nossas conversas em dia.
— Teremos tempo para isso, Victor.
— Não por agora, ao menos. Viajo hoje à tarde para Gdansk, onde precisarei ficar por uma ou duas semanas.

Diante da surpresa com que Olek recebe a notícia, Victor explica que o objetivo da viagem é terminar as fotos que havia começado a fazer nos portos, no Estaleiro e em outros pontos daquela cidade. Combinaram então que Olek cuidaria, nesses dias, do estúdio para Victor, e que após o almoço, regressariam para Victor fazer as malas, e Olek o levaria de carro até a estação.

No restaurante os irmãos deleitavam-se com a comida, cujo preparo e sabor confirmavam os elogios de Victor. Olek, a certa altura, comenta que, desde que chegou, só teria se metido em confusões, contando o episódio da moça que surpreendera na entrada do parque a lhe seguir. Victor se espanta:
— Meu deus, Olek! Em que encrencas você ia se metendo! Chega da Rússia há três dias e já foi admoestado por um policial, e isso porque abordou uma moça desconhecida! Precisa ser mais cauteloso, meu irmão!
— Verdade, Victor. Verdade.

Olek comenta o tom humorístico que Maricha dera ao episódio, e também explora o lado cômico da situação. Este comentário permite então a Victor constatar que era com Maricha que ele estava desde ontem, o que Olek confirma.
— Você foi até o apartamento deles? Falou com tia Janina e com Tadeusz?
— Não. Nos encontramos no parque, passeamos, conversamos, jantamos juntos..., e nos despedimos hoje, para ser exato.
— Santa Maria... Eu sabia que isso iria acabar acontecendo, só não pensei que fosse assim tão rápido...

Não era do feitio de Olek comentar sobre esses assuntos. Nem com o irmão sentia-se à vontade para tal, o que o faz mudar o rumo da conversa, indagando:
— Você conhece os detalhes da adoção de Maricha, Victor?
— Soube recentemente, por Tadeusz. Andrzej teria revelado que era a filha mais nova de uma família judia, e que todos os parentes teriam sido mortos quando seguiam para um assentamento de colonos em Israel e...
— Isso. Isso mesmo. Ela contou-me em pormenores, fiquei surpreso.
— É, e eu também. Não desconfiava de toda essa história, para mim ela sempre foi minha prima e pronto. Nunca pensei muito no assunto, para falar a verdade. Já com você não era assim.
— Não, nunca foi. Deve ser porque eu a vi chegar na família, e você nasceu depois.
— Pode ser. Mas acho que não só por isso. Não é, Olek? Conte-me: vocês reataram?
— Talvez, mas não chegamos a conversar as coisas nesses termos. Hoje irei vê-la de novo, aí creio que conversaremos mais sobre isso.
— Mas você não pretende ir para Israel com ela, pretende?
— Maricha vai para Israel, Victor? Como é?!
— Ih... ela não lhe falou disso? Até onde ela contou das revelações de Andrzej?
— Bom, eu achava que tudo, isto é, até que ela foi adotada por Andrzej e Janina, mas pelo visto tem muito mais...
— Talvez ela ainda vá lhe contar, não sei..., Não queria interferir. Melhor perguntar o restante da história para ela, acho que seria mais correto, talvez Tadeusz tenha se confundido em algum ponto... Deixemos assim, certo?

Victor nota que estava numa situação difícil, e tenta desconversar, pedindo a Olek para que tome umas providências em relação ao estúdio, enquanto estivesse em Gdansk, passando a enumerá-las.

Olek nem mais o ouvia. Diante da hesitação do irmão em prosseguir naquele assunto, começa a sentir uma angústia crescente. A perspectiva de uma nova partida, sobretudo depois da noite que ele e Maricha tiveram, das coisas que fizeram e disseram, causa-lhe uma aflição terrível. O desconcerto o assola, fazendo-o procurar os cigarros nos bolsos, em busca de um lenitivo para sua ansiedade. Pronuncia então uma sentença que, pela veemência da entonação, soou patética:
— Ah, não, Victor! Você já começou a falar, agora termine!

Ao perceber que o irmão não o deixaria falar em mais nada, enquanto não contasse toda a história de Maricha, exatamente como Tadeusz a tinha contado, sorri, desarmado, e resolve falar tudo que sabe a respeito.

O fotógrafo conta que Andrzej, depois de ter revelado à Maricha a história de sua adoção, confessou a ela que, por volta de um ano atrás, recebera uma carta de Ari, irmão de sangue de Maricha. No princípio ficara assombrado, e em dúvida quanto à autenticidade daquela carta, pois sempre pensara que a família toda teria morrido em um conflito, como lhe contara Julek e fora noticiado pelos Bernstein. Agora, tantos anos depois, surgida do nada, chegava esta carta. Andrzej teria se desculpado com Maricha, dizendo que ficara totalmente perplexo com a notícia, não sabendo o que fazer.
— E o que dizia a carta, você sabe?
— Era uma carta longa, mas Tadeusz resumiu para mim a história.
Victor põe-se a narrar a história, dizendo que naquela missiva Ari contava o que aconteceu desde que a família partiu, deixando Maricha com os velhos Bernstein, até o momento em que escrevia. Quando em Israel, foram mandados para um assentamento a leste de Jenin, onde estabeleciam colônias, a fim de fixar a ocupação dos territórios da Cisjordânia, conquistados na guerra de junho de 1967. Logo que chegaram, viram-se envolvidos num enfrentamento com os palestinos. Ari ficou gravemente ferido, em decorrência de uma explosão, sofrendo lesões no braço, perna e ouvido esquerdos, sendo que o acharam inconsciente sob os escombros. Foi encontrado semimorto no dia seguinte por uma patrulha israelense, e passou os meses seguintes em intenso tratamento, parte dos quais em estado comatoso, e depois sendo submetido a uma série de cirurgias, que incluíram enxertos de pele para recuperar as queimaduras sofridas.

Quando finalmente recebeu alta, foi encaminhado a uma casa de recuperação, em Tel-aviv, onde ficou por mais um ano, recuperando os movimentos dos membros lesionados, o que lhe exigiu todo esforço e concentração. Somente quando foi dado por apto é que passou a procurar por sua irmã, Mirian – nome verdadeiro de Maricha –, chegando a voltar para a Polônia. Não foi feliz, contudo, no seu intento àquela época, porque Saul Bernstein havia falecido quatro meses antes de sua chegada, e Hanna, mulher dele, mudara-se sem deixar endereço, apenas teria dito que ia se encontrar com uma irmã, que vivia na França. E assim Ari perdeu qualquer elo que o levasse à pequena Mirian.
— Quantos desencontros! E esse irmão, Maricha já conhece?
— Mais ou menos. Já lhe conto. Deixe-me terminar, senão esqueço alguma coisa importante do que Tadeusz me contou. Você sabe como é fácil para eu esquecer as coisas.

Victor explica que Ari Bernstein, pressupondo que Maricha havia seguido com Hanna, continuou com as buscas na França, mas não obteve nenhuma informação sobre aquela senhora ou de sua irmã. Sem mais esperanças, voltou para Israel. Ao chegar em Tel-aviv, Ari ingressou no exército, onde hoje é major.

Olek ficava impressionado com a narrativa, instando o irmão a prosseguir.
— Sempre que podia, Ari apelava para um ou outro organismo internacional, a fim de descobrir o paradeiro da irmã de quem se perdera. Foi só recentemente, através de uma dessas organizações, uma fundação que existe desde o pós-guerra e que visava reunir famílias judias dispersas pelo mundo, que Ari descobriu que Mirian teria sido entregue pelo casal a uma família polonesa. A partir daí buscou mais informações, que terminaram por o levar até dziadzio Julek e depois a Andrzej. Foi quando resolveu escrever a dita carta, pedindo que informasse o paradeiro de Maricha, e que o colocasse em contato com ela. Andrzej não sabia como contar a história para Maricha, que na época estava na Alemanha. Como achava impossível contar-lhe a história por carta ou telefone, sabia que devia ir até ela, mas a saúde dele não estava mais tão boa, o que o impedia de empreender a viagem. Quando a saúde de Andrzej piorou, e ele veio para Warszawa, eu entro na história, pois chamei Maricha. Ela logo veio para cá cuidar dele, e com ele ficou até a morte. Foi durante esse período que Andrzej contou para ela a história toda, entregando a carta que conta o que acabei de contar.

Após algum tempo absorvendo tais informações, Olek questiona:
— É aí que a viagem dela para Israel entra na história? Maricha pretende ir para lá, a fim de conhecer o irmão, é isso?
— Não sei dizer, Olek. Parece que Maricha mandou um telegrama para o irmão, e eles já teriam se falado por telefone. Mas, pelo que Tadeusz me contou, ele formulou um convite para ela ir morar em Israel, onde haveria um lugar para ela prosseguir na carreira de violinista, ou ensinar música, algo assim, não sei bem.

— Mas eu acho que ele é que deveria vir para cá, apresentar-se para Maricha e para todos nós, a família dela, e não o contrário!
— Ele alega que só não veio para cá porque não pôde se licenciar. É militar, lembra? E diante dos últimos acontecimentos no oriente médio não pode sair de lá. Aliás, sempre há últimos acontecimentos no oriente médio.
— Você quer dizer que ela pensa em se mudar para lá?
— Foi o que eu soube por nosso primo. Até pelo fato dela ter se separado recentemente do marido – parece que queria recomeçar a vida fora daqui – além, é claro, de querer muito conhecer o irmão e reatar com suas origens. Tadeusz está mortificado com a idéia, e muito preocupado com o que possa vir a acontecer com Maricha.
— Tadeusz sempre quis ter tudo sob seu controle, mas pouco me importa como ele se sente. Fico a pensar como Maricha reagiu a tudo isso. Deve ter ficado bem abalada. O que você acha disso, Victor?
— A mim tudo parece uma loucura. Imagine largar tudo aqui, e seguir para aquela panela do diabo, encontrar com um irmão que nem conheceu, que nem sabe como é, na verdade. Precisa saber como ela se sente a respeito disso, por isso que achava melhor ela ter lhe contado, e não eu.
— Estou atônito. Ela me contava sobre a história dela, mas acho que em dado momento mudamos de assunto, não sei, ou simplesmente ela não quis falar de seus planos.
— Tenha calma. Você não vai encontrá-la hoje? Talvez ela termine de lhe contar a história, e quem sabe queira apenas visitar o irmão.

Olek então responde, desanimado:
— É, pode ser...

No caminho de volta para o estúdio, e de lá para a estação, os irmãos não mais tocam nesse assunto. Quando já se despedem, Olek expressa o seu contentamento com a mostra que o irmão iria promover, e lhe desejou boa sorte. Victor parte, deixando em Olek a sensação de que não o veria por um bom tempo, mas regozija-se por ver o irmão feliz, seguindo um caminho. Talvez somente lhe faltasse alguém com quem partilhar tudo isso, uma mulher, um amor. Ou talvez não. Ou talvez Victor estivesse bem assim, voltado para a sua arte e com amores aqui e ali, a aquecê-lo sem queimar, sem o ardor que Olek sentia, sem o vazio que tinha que suportar com as ausências das pessoas que amava.