Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 

XXXVI - Entardecer

Ao fim da tarde Nicolai ouve, pela última vez, a filha dizer-lhe que recebera um sinal de que um grande perigo rondava a família, e que por isso ele não deveria seguir ao encontro do Ancião. Dizendo que a intuição da filha, se legítima, deveria referir-se a outra coisa que não a reunião, Nicolai não cede ao apelo, saindo para o encontro que se daria em local que não revelara nem à Christina, nem a Josef, nem a ninguém.

Dirigindo com todas as cautelas, a fim de evitar ser seguido por algum agente do outro lado, Nicolai ziguezagueia pelo centro de Kraków antes de seguir ao destino, o teatro Juliusz Slowacki, onde haveria um recital vespertino. O ancião indicara o camarote que lhe fora reservado, bastando que assistisse ao espetáculo que ele entraria em contato. E assim o fez. O espetáculo se inicia e a paciência de Nicolai era substituída gradativamente pela inquietação.

Após o intervalo, durante o qual não abandonou o camarote, ele vê o ancião entrar sorrateiramente e postando-se ao fundo, a fim de que não fosse visto por alguém da platéia. Este cumprimenta Nicolai com solenidade, dizendo:
— Obrigado por ter aceito meu convite. Espero que tenha vindo só, assim como eu.
— Dei minha palavra, Ancião. Espero que tenha cumprido a sua.
— Naturalmente, naturalmente... sabe que sou de antiga linhagem, e que não o atrairia para uma armadilha.
— Por isso estou aqui. O que quer de mim?
— A sua ajuda.
— De que precisa?
— Fiodor!

O Ancião, após a menção do nome, fita diretamente Nicolai, como a tentar adivinhar até que ponto este estava a par do destino dado ao rapaz. Nicolai, por sua vez, tenta decidir se revela tudo o que sabe, a fim de negociar a libertação daquele que nele confiou, ou se blefa. Resolve agir com cautela, respondendo apenas:
— Fiodor, o amigo de Lelek? O que quer com esse rapaz?
— Sinto muito por seu filho, Nicolai.

Ante o silêncio do interlocutor, o Ancião complementa:
— Saiba que não foi idéia minha, nem do Conselho, terem cooptado o rapaz. O Sacerdote está agindo por conta própria, não lhe temos mais controle.

A frase do Ancião atinge Nicolai como se fisicamente agredido fosse. Ele já sabia das escolhas de Lelek, mas ouvir isso diretamente do Ancião doeu-lhe profundamente. Sabe que esta é uma batalha que não deveria travar ali, e que agora somente dependeria de Lelek prosseguir com sua conduta ignóbil ou retroceder, se ainda houvesse tempo. Aceita, com um meneio de cabeça, as escusas do Ancião, e resolve responder indagando sobre o Sacerdote:
— Você sabe quem é esse homem, afinal? Como permitiram que ele crescesse tanto a ponto de envolver a vocês todos, a ponto de você vir falar comigo às escondidas, quando antes vinha à frente de todos, em cerimônia? Até onde vão deixá-lo chegar?
— É sobre isso que quero falar. O Sacerdote foi longe demais. E o único que detém as armas para detê-lo é Fiodor. Mas estas mesmas armas são capazes de destruir não só a minha fraternidade, mas também a sua, e o próprio pacto milenar poderá se perder. Estamos em novos tempos de mudança, Nicolai. Preciso de sua ajuda para que Fiodor refine essas armas, de forma que atinjam somente ao Sacerdote, e nos deixem de fora. Entende o que lhe peço?

Nicolai sopesa as palavras do Ancião, e resolve colocar as cartas na mesa, quando afirma:
— Entendo o seu pensamento, mas não o porquê de me procurar. Sei que Fiodor está sob sua custódia, então pode tratar do assunto diretamente com ele. Não vou compartilhar, nem envolver aos meus, nesse seqüestro, nem em nada que a sua fraternidade faça, posto que maculada pelo crime e pela infâmia, pelas mãos desse a quem reconheceram a autoridade do Sacerdote.
— Você não pode pensar assim... no passado foi um dos seus que maculou o pacto, e mesmo assim não os culpamos!

Nicolai desconversa a referência a Mirko, e embora soubesse que ao seu interlocutor cabia certa razão, não abre mão de suas afirmativas, pois a situação atual poderia ser até mais grave que a ocorrida no passado.
— É assim que penso. Tanto eu como você sabemos que o Sacerdote é uma farsa, é o outro lado outra vez se levantando. Que o verdadeiro Sumo Sacerdote surgirá apenas para reunir as relíquias, e isto não está acontecendo. Houve um desequilíbrio, e deste desequilíbrio é que este criminoso surgiu. Ele os dominou pela fraqueza de seus conselheiros. Livrem-se dele, antes que tenham o mesmo destino que os guardiões da face de Lada!

O Ancião, após ouvir o desabafo de Nicolai, evita retorquir pois sabia o quanto o outro tinha razão, e retorna à questão que lhe trouxera ali:
— Eu esperava que você já soubesse do paradeiro de Fiodor. O que ainda não sei é se tem conhecimento de que ele apenas está vivo por estar sob minha custódia. Não sei por quanto tempo eu conseguirei mantê-lo comigo. Ainda tenho ascendência sobre o Sacerdote, pois ele precisa do Conselho, mas não sei o quanto conseguirei mantê-lo afastado do Templo, onde Fiodor está. Temo pela vida do rapaz, e por isso o procuro. Fiodor elaborou um dossiê sobre as atividades criminosas do Sacerdote, mas durante sua investigação descobriu muito da fraternidade, e está próximo de saber tudo sobre o pacto. Ele conviveu com seu filho, sob seu teto, e creio que ele lá também tenha colhido informações de sua confraria. Ele pretendia entregar o dossiê para a polícia a fim de denunciar o Sacerdote, sem pesar, todavia, que revelava muito mais do que as atividades dele, sem pesar que estava por colocar em risco um pacto que já dura mais de oitocentos anos, e que é a nossa razão de seguir em frente. Por isso preciso de sua ajuda.

Nicolai vê a sinceridade nestas palavras do Ancião. Ele sabia o conteúdo do dossiê. Avaliava também que Fiodor, por maiores pressões que tenha sofrido, não revelara que Nicolai recebera uma cópia, sequer para barganhar por sua libertação. Era-lhe, porém, óbvio que se o Ancião soubesse que Nicolai possuía uma cópia desse dossiê, a sobrevivência do rapaz não lhe seria tão útil, podendo então se desinteressar do resgate do rapaz, atribuir a sua morte à ação do Sacerdote, e desta forma contar com a ira do próprio Nicolai para que este refinasse a investigação e denunciasse apenas os elementos que poderiam comprometer a pessoa do Sacerdote, sem envolver os demais. Resolve, pois, manter a farsa, indagando:
— Mas por que Fiodor agiria desta forma? Ele não se beneficiava, também, da fraternidade de vocês? Ele não era um dos seguidores do Sacerdote?

O Ancião, pressupondo desta forma que Nicolai não tinha cópia da investigação, narra a idéia de vingança do enteado de Titus Benk, como o Sacerdote acabou tendo em suas mãos o dossiê, e a maneira que teve que intervir para salvar o rapaz do sacrifício. Lamentou não ter conseguido a guarda destes papéis, pois o Sacerdote os detivera consigo. E por fim conclui:
— Fiz já este apelo ao próprio Fiodor. Mostrei-lhe mais ainda sobre os segredos de minha fraternidade, e do pacto, do que ele já sabia, a fim de tentar convencê-lo. Ele não vê motivos para que não paremos o Sacerdote.
— Então o deixe partir!
— Você bem sabe que, se eu pudesse já o teria libertado. Não posso deixá-lo simplesmente sair pela porta da frente. No próprio Templo existem iniciados que são fiéis ao Sacerdote, e que espionam o Conselho. Nós estamos cercados e impotentes, mas não posso ficar de mãos atadas. Conheço uma maneira pela qual Fiodor pode sair de lá, porém preciso contar com sua ajuda. Preciso que pareça que vocês o resgataram, e não eu que o soltei. Na posição que ocupo, não posso defrontar-me agora com o Sacerdote, pois ele acabaria comigo perante os demais membros do conselho, acoimando-me de traidor, precipitando assim a conquista da posição com a qual ele sonha dentro da fraternidade. Ajude-me, Nicolai.

Nicolai ainda questiona:
— Então me responda, Ancião, porque eu deveria ajudar na resolução de mazelas do outro lado, quando é ele mesmo quem nos ameaça?
— Nós não somos o outro lado, Nicolai. Não somos, bem sabe! Ele é o outro lado, admito, e está infiltrado visceralmente em nossa fraternidade. Um plano maquiavélico, mesclou seus seguidores entre a nossa própria descendência, assim como tomou seu filho Lelek! Por isso não tenho força. O inimigo não somos nós, da fraternidade, somos na verdade a vítima do inimigo, do outro lado. Por favor, ajude-nos! Fale com Miroslaw Tchenka, ele sabe bem da nossa tradição!

O apelo toca Nicolai, que deixa de argumentar que foi a desfaçatez do conselho daquela fraternidade, e do próprio Ancião, que permitiu a ascensão do Sacerdote entre as suas fileiras. Isto nunca ocorrera antes, o Sacerdote sempre se postara à margem dos descendentes do pacto, nunca entre eles. A vontade de Nicolai era aceitar a proposta e correr os riscos, sobretudo por Fiodor, e dizer ao Ancião que atenderia aos seus pedidos. Mas a menção a Miroslaw remetera-lhe que não poderia, a partir dali, decidir tudo sozinho. Ele também fazia parte de uma confraria, e deveria ouvir o seu ancião, ou então a Olek, que naquele mesmo momento estaria sendo esclarecido daqueles mistérios, e quando de lá saísse, aceitando o encargo deixado pelo avô, estaria à frente de todos, e caberia a ele, juntamente com os demais, decidir sobre como agir em relação ao resgate do rapaz. Teria, assim, que submeter seu entendimento a seus pares antes de assumir um compromisso com o Ancião. Limita-se, então, a responder:
— Levarei seu pedido à confraria, Ancião. É o máximo que posso fazer por você no momento.

O Ancião sorri, parecendo compreender o que se passara na cabeça de Nicolai, e entrega um envelope, dizendo:
— Aqui está o caminho. Está tudo aí. Meu voto, minha prova de confiança é ensinar o caminho de nosso Templo, no norte. É lá que está o rapaz. Mas há urgência, não sei por quanto tempo mais conseguirei manter o Sacerdote afastado de Fiodor. Eu ligarei para saber se aceitaram o encargo, e quando poderiam resgatá-lo. Também avisarei a Fiodor, de alguma forma. Agora assista ao fim do espetáculo, só saindo quando este terminar. É mais seguro. Obrigado por atender ao meu pedido. Adeus.

Sem mais palavra o Ancião sai pela porta do camarote, deixando Nicolai pensativo quanto à arriscada tarefa que lhe fora pedida. Não discutira outros meios, apenas aceitara o que o Ancião lhe havia trazido. Por que, afinal, o Ancião não se contrapunha ao Sacerdote, necessitando que outros assumissem o resgate de Fiodor? De fato, grande era o poder de persuasão daquele homem. Nicolai o respeitava por sua história.

Acostumara-se a tomar decisões por si. Entretanto, estava ciente que agora precisaria ouvir os demais quanto ao resgate de Fiodor. Teria, agora, que ouvir também a Olek, caso este estivesse, àquelas horas, aceitando receber o que Julek Kowalski lhe deixara. Sente o cansaço assumir o lugar da tensão do encontro e, de repente, sente-se velho.

Os aplausos interrompem os seus pensamentos e ele se dá conta que o espetáculo terminou. Mecanicamente se junta aos aplausos e, no momento certo, dirige-se à saída. Já no carro volta a seus pensamentos. Precisava renovar sua fé. Sorri. Sente saudades de baba Lidja. Volta diretamente para a casa de Josef, já fazendo planos de quando iria retornar para Arkadja.

¤



Ele sabia que não haveria mais volta. Na velha estação de Warszawa aguardava a chegada do Sacerdote. O tempo passa, o sol já se põe. Lelek esta tenso. Supunha de qualquer um, que casualmente caminhasse em sua direção, ser um policial a paisana, pronto para prendê-lo pelo crime que cometera em Lowicz. Suava. Sobressaltava-se a cada apito de chegada ou partida que ecoava na fervilhante estação. Usa continuamente um lenço para livrar-se das gotículas frias que lhe brotam na testa. Suas mãos tremem.

Fora avisado no dia anterior que iria de trem até Viena, e não gostara da novidade. Preferia embarcar em um rápido vôo a esperar horas e horas dentro de um trem, passar pela apreensão de cruzar os postos de fronteira para, somente aí, se ver livre. Contudo não tinha escolha: por via aérea ficaria mais difícil arranjar-lhe a saída, pois Lelek deveria estar sendo procurado pela polícia, e a segurança era mais rígida nos aeroportos que nas estações de trem – assim lhe ponderara o próprio Sacerdote.

Como ficara escondido na casa de estranhos há quase dois dias, o único que Lelek tinha para entregar ao Sacerdote era uma caderneta com anotações suas sobre as atividades da confraria do pai, além de alguns nomes e endereços de pessoas ligadas a Nicolai na capital polonesa. Mas o seu grande trunfo consistia em uma chave do guarda-volumes da estação de Lowicz onde, antes de voltar para Warszawa, deixara o dossiê com todos os dados que prometera revelar, inclusive o paradeiro de Miroslaw Tchenka. Este era o seu grande trunfo. Pensava que, desta forma, estaria mais seguro, pois teriam que deixá-lo partir, ao invés de tomar-lhe o dossiê e abandoná-lo à própria sorte, ou algo pior. Na situação em que se encontrava desconfiava de todos, e por isso assim agia, embora sabedor que, com tal atitude, despertaria a ira do Sacerdote.

Mas, ao contrário do que esperava, não teve que se defrontar com o agastamento do daquele, pois este, ao encontrar Lelek, demonstra cordialidade, indicando uma mesa de um bar defronte à estação, para onde seguem, acompanhados de dois outros homens. Satisfeito, ele entrega um envelope ao rapaz:
— Aí está, Julek Ianovich. Os seus documentos com um novo nome e um novo destino, como você tanto quer. Nesta maleta, que logo lhe passarei, está o dinheiro que me pediu para começar. Em espécie, não terá problemas em gastá-lo. Agora me dê o que me prometeu. Entregue-me tudo. Diga-me onde eu encontro o velho Miroslaw, que há semanas desapareceu da casa de seu amigo em Kraków.

Lelek guarda apressadamente os documentos no bolso interno de seu casaco, e em seguida entrega a caderneta e a chave ao Sacerdote, quando explica:
— É a caderneta onde eu relacionei vários nomes e endereços de contatos de Nicolai em Warszawa, e esta é a chave do armário onde guardei o dossiê com as informações mais importantes.
— Não foi o combinado.
— Está na estação de Lowicz. Deixei lá antes de voltar para Warszawa, por segurança. Está tudo lá, não tem com o que se preocupar. Chegará antes àquela estação do que eu na fronteira. Não corre risco.

O Sacerdote, apesar do semblante contrariado que não consegue ocultar, contém sua cólera e aceita a oferta de Lelek, terminando por condicionar:
— Está bem assim, mas saiba que vou verificar pessoalmente se deixou tudo o que prometeu. Caso não esteja lá, cuidaremos que a sua viagem termine muito mal, estamos entendidos?
— Está tudo lá, pode acreditar!

Era verdade. Caso estivesse blefando, seria fácil denunciar Lelek, ou até emboscá-lo quando chegasse em Viena. Entrega a pasta e a passagem ao rapaz, que se despede ouvindo constrangido o comentário do Sacerdote, quando este afirma que ele se mostrara muito útil para a fraternidade. Segue para a plataforma. Embarca sem incidentes. Sente-se aliviado, pois ultrapassara o primeiro obstáculo a caminho de sua liberdade.

Lelek não medira limites. A todos os seus injuriara em troca de seu futuro em Viena. Ao acomodar-se em seu assento, toma consciência dos atos que praticara nos últimos dias a fim de viabilizar esta sua partida. Incomoda-lhe um nó garganta que se recusa desfazer. Não queria se sentir assim. Uma onda de constrangimento lho invade pela traição que consumara. Mas estava feito e não havia mais volta. Abaixa a cabeça, tentado digerir a vergonha que lhe assaltara, e fica a aguardar o tão esperado ranger das rodas de aço que anunciaria a sua partida.

O trem parte, afinal.


¤

Lelek nem acredita que já está saindo da segunda estação, e que em breve estará livre de tudo aquilo. Pela primeira vez, desde a saída de Warszawa, ousa olhar para fora, e observa distraído o movimento das pessoas na Estação. Em breve seria como um deles, caminhando seguramente para o seu futuro. Fizera tudo com cuidado, sabia que os poucos documentos que lograra retirar de Arkadja seriam apreciados pelo Sacerdote. Não fora tão má a idéia de Igor de levá-lo para lá, afinal. Sem perceber, o primo lhe dera a chance que ele pensava que nunca mais teria para voltar ao casarão, a fim de pegar documentos que lhe servissem de moeda de troca. Ele tenta se justificar, falando de si para si: — Imagine só! Relíquias de deuses pagãos, que besteira! É mesmo um ópio... ao invés de se preocuparem com a fome, com a exploração capitalista, com as guerras, com o desemprego que agora arrebenta o país, ficam lutando por relíquias de deuses do passado... quem sabe, agora que o sacerdote vai conseguir o que quer, eles acabem com esta besteira, e passam a viver a vida!

Agora os documentos que furtara do casarão estavam no armário da estação de Lowicz. Não teria com o que se preocupar. Lelek reflete que, realmente, deveria se dar por satisfeito. Fecha os olhos e tenta relaxar, mas não consegue. Suas mãos ainda tremem. Faltam-lhe poucas horas para cruzar a fronteira e sair definitivamente do país. Fiodor, sim, o traíra, mas ele saberia reerguer-se sozinho em Viena. O que mais queria agora era afastar-se definitivamente de tudo aquilo.

A viagem prossegue, e Lelek permanece inquieto, em vigília. Cresce a sua apreensão à medida que o trem se aproxima da estação de Lowicz. Afinal, fora naquela cidade que realizara a sua vingança.

Tenta distrair-se com uma revista, passar o tempo, mas não consegue sequer entender o que lê. O trem prossegue com seu marchar enfadonho, interminável. A impaciência cresce junto com o temor. Ao mesmo tempo em que quer passar de uma vez por aquela cidade, torce para que o momento da parada não chegue. Tenta afastar tais sentimentos, procurando algo em que se concentrar.

Assegurando-se de que ninguém o observava, abre a pasta para conferir seu conteúdo e nela guardar os documentos do envelope, que ainda estavam no casaco. Assusta-se ao verificar que sobre o pacote que devia conter o dinheiro está uma arma. Nunca usara um revolver na vida, por que a colocaram ali? Tenta se acalmar, afirmando a si mesmo que deixaram aquela arma lá como um favor, para o caso de o abordarem ele poder escapulir. Mas por que não o avisaram? Deixa a arma de lado e verifica que no pacote está uma razoável quantia de dinheiro, como lhe fora prometido, e então se acalma. Eles manteriam a palavra. Mas está com medo, sente vontade de voltar, de não passar por ali, mas a marcha do trem é inexorável, rumo à estação de Lowicz.

Já é possível perceber o reduzir da marcha, assim como as luzes da cidade cada vez mais próximas. Ele sente uma vontade irresistível de urinar. Deixa as malas, mas leva consigo a pasta contendo o dinheiro. Pensa em ficar trancado no banheiro até que o trem retomasse a viagem, mas desiste da idéia por saber que os banheiros sempre eram vistoriados a cada parada. Decide voltar ao seu lugar. Quando retorna o trem já está parando na estação. Senta-se e fica a observar qualquer movimentação que lhe parecesse suspeita. Seu coração dispara. Sente-se um animal acuado no fundo de uma jaula. A movimentação de saída e entrada de passageiros o inquieta ao extremo. As lembranças do crime que cometera naquele solo também. Sua perda dói, e ele se pergunta porque aquela vagabunda reagiu. Tenta, em vão, acalmar-se. Por que aceitara viajar por este itinerário? A passagem de dois homens uniformizados quase o leva a loucura. Suas costas retesam-se, pressionando o banco como se nele quisesse penetrar, esconder-se. Somente percebe a enorme pressão que fazia contra o encosto quando ouve o apito e sente o trem reiniciar seus movimentos. Solta um imenso suspiro, percebendo em seguida fortes dores em suas costas e pernas pela tensão da parada. Ri de sua dor, sente-se vitorioso. Agora só faltava cruzar a fronteira, pois até lá a viagem prometia ser tranqüila.

Algumas centenas de metros após ter saído da estação, porém, o trem pára. Lelek pressente o perigo, agarrando-se à pasta. Ouve ruídos à frente e atrás de si, verificando que policiais estavam pedindo identificação a alguns passageiros.

Não! Não podia ser. Fica paralisado, esperando passar desapercebido. Não poderiam saber que ele estava lá, devia ser alguma rotina estúpida. Ah, se a carteirinha do Partido ainda servisse para alguma coisa... Passariam por ele, sem dúvida, afinal quem se interessaria por um estudante em viagem? Ele precisava se manter calmo. Era tudo ou nada. À medida que a dupla de policiais se aproxima do assento de Lelek ele sente que perde o controle de suas emoções. O coração parece que vai saltar pela boca. Não consegue fazer suas mãos e pernas pararem de tremer. Sua pele está eriçada. Não! Não admitiria que eles o prendessem agora! Estava tão perto de realizar o sonho que sempre lhe fora negado: artes em Viena. Não poderiam detê-lo!

Os policiais chegam até ele e o observam. Lelek não consegue sequer cumprimentá-los. Um deles então pede os documentos de Lelek, e este, assustado, pergunta:
— Mas o que está havendo?
— Procuramos um desequilibrado que atacou uma mulher na cidade, dias atrás. Seus documentos, por favor.

Lelek não consegue ordenar seus pensamentos. Procuravam-no! — A vagabunda e seu irmão não aprenderam a lição e o entregaram à polícia, pensa. Sente fortes dores nas têmporas, que lhe impedem de articular seus pensamentos. Um grande espasmo nas costas quase o impede de respirar. Fica a olhar o policial, sem nada fazer. O policial insiste, já chamando a atenção do outro policial que verificava os documentos de outro passageiro, mais adiante, e que agora se aproxima:
— Vamos, seus documentos rapaz, não temos a noite toda!

Demonstrando a intenção de atender à ordem, Lelek, olhar fixo no policial que o admoesta, abre lentamente a pasta que trazia ao colo.