Mar de Olek

 

 
 

Olgierd Sokolowski

XXXV - A carta de Julek Kowalski

 

 


Trancado e só em sua cela na Abadia, Olek se assenta na cadeira posta diante da pequena mesa de madeira bruta, na qual repousavam uma jarra d’água e uma bacia. Com as janelas fechadas, apenas a fraca luz de uma lâmpada iluminava o pequeno aposento. Ele abre com cuidado a caixa de madeira e dela retira um pergaminho, que se encontra selado.

Reconhece o símbolo gravado como um desenho que seu avô certa vez lhe mostrara, chamando-lhe a atenção para os detalhes, dizendo-o mágico. Relembra aquele dia, a nostalgia o assalta.

Quebra o selo e desenrola o documento com todo o cuidado.

Ali estavam as palavras de dziadzio Julek. A resposta a muitas perguntas que tinha sobre si mesmo, e a fonte das novas perguntas que poderia proferir. Sem saber o porquê, rememora as palavras do tio, na visão que tivera no trem: “saiba fazer as perguntas certas, e as respostas virão”. Olek concentra o olhar no documento, sentindo o calor, já na primeira linha, do carinho que o avô sempre lhe dispensara:

Meu querido neto e herdeiro Olek.

És um Kowalski.
Tens no próprio nome grafado um segredo.

Para desvendá-lo, aceita esta carta como meu testamento.

Hoje, ao tomar a mais grave decisão de minha vida, eu a assento neste pergaminho e o entrego, selado, ao homem em quem deposito a mais absoluta confiança, pela sua retidão e lealdade com esta luta milenar: Miroslaw Tchenka, o nosso querido Mirek, a quem poderás revelar inteiramente o conteúdo desta, e que te esclarecerá sobre muito que ela contém, pois sempre se mostrou o amigo de todas as horas.
Acaso esta carta chegue a tuas mãos, é porque eu terei partido deste mundo antes de chegar o tempo certo de tudo revelar a ti, Olek, ou então porque, contra minhas expectativas, precisaste ser relembrado de teu destino, depois de minha morte. De qualquer sorte, lê com o coração estas linhas.

Sei que corro grande perigo. Que todos nós corremos perigo. O outro lado se levanta para mais um embate, um embate que, desta vez, poderá nos dar o repouso esperado ou, de outro lado, malfadar nosso destino. E de toda nossa descendência.
Em poucos dias o levarei para a floresta sob pretexto de um passeio, onde terás por reveladas as primeiras chaves deste grande mistério. Como só a ti poderei revelar a herança, sairemos à guisa de procurar uma árvore para o Natal, e é neste dia que pretendo te ensinar onde estão as chaves para o segredo que no futuro guardarás.
Oro para que tenhas conservado tais lições em tua alma.
Peço-te agora que ouças e aprendas as novas lições. Se não foi comigo, que então seja com Mirek, pois o teu futuro, e o de muitos, dependerão de teu sucesso e, quiçá, de teu sacrifício.

Guardo a certeza de que reconhecerás a marca do selo deste como sendo minha marca. É o desenho mágico e secreto que te revelei no dia de Natal de 1972. Tinhas dez anos. Já neste dia eu percebia que brotavam em ti as qualidades de caráter que o fariam o homem que eu espero que sejas, ao ler esta missiva.

Pois ao te mostrar o selo, querido neto, eu já te escolhia.

Por inspiração dos antepassados, identifiquei em ti muitas das qualidades buscadas para prosseguir em nossa luta. Outras deverão ser cultivadas, para que obtenhas êxito no resgate da real identidade de todo um povo, na guardiania de nossa milenar cultura e tradição.
Saibas que a cada par de gerações tem sido assim. Avô e neto sucedem-se na honra e obrigação de manter acesa a chama e guardado o segredo de um pacto sagrado, ocorrido sob o batismo do fogo, nos meados do segundo século de nosso milênio, que agora se encaminha para o fim.
Dentre a nossa descendência direta, cada avô foi responsável por iniciar o neto que elegesse para que a tradição não fosse quebrada. A partir de agora, querido Olek, terás dois destinos a trilhar: ou preservarás o segredo e alimentarás a chama, até que um neto teu o alivie do fardo, e honre a ti com o prosseguir, ou então completarás o sonhado destino, unindo as partes, para que assim o todo possa reerguer-se, e abraçar livremente a sua fortuna. Só te suplico que não fujas, pois assim fazendo roubarias para sempre minha paz.
Passei por tempos tempestuosos, bem sabes. Quando jovem, a guerra, e depois os soviéticos, e entre tudo isso a luta por preservar o que herdei de meu avô. Por tudo que ocorreu posso afirmar: Vivemos tempos urgentes, tempos de chegada, de desfechos, vitoriosos ou amargos desfechos.
A herança que te passo, bem sei, traz espinhos. Seguirás por longo tempo solitário, suportarás perdas, forjarás com a ardência do fogo forte o teu caráter, tal qual se faz com a espada de boa liga.

Mas nunca te esqueças: és descendente do ferreiro.

Revelo-te mais: és descendente direto do kowal Lech, aquele abençoado por Swarozyc para forjar a espada e ferrar o cavalo de Swiatowit, o deus das quatro cabeças que tudo vê e a nós protege. E assim guardarás o segredo, e cumprirás o destino. O nosso destino.
Junto a ti encontram-se homens valorosos, que esperam em ti o líder que acredito que te tornes, para que eu finalmente tenha meu descanso depois do túmulo. Pois mesmo que eu parta prematuramente, sempre velarei por ti, e a teu lado estarei ainda que te julgues totalmente só.
És parte de algo bem maior que uma vida vivida ao léu. Tens antes um destino, um caminho a cumprir.
Cuido, desde já, que junto a ti ponham-se as armas de que necessitas, e o exército de que te valerás, para cumprir o teu papel. Guardarás sempre contigo o segredo cuja resposta planto, em cifras, em tua alma. Entenderás plenamente o que te escrevo quando enxergardes o todo.
Lembra-te sempre que antes de ti outros vieram. Todos carregaram seus fardos brilhantemente. Alguns avançaram, outros somente protegeram, outros ainda tiveram que retroceder, para que tudo não fosse perdido. Muitos se sacrificaram.
Desde Lech, tu és a trigésima terceira geração, e portanto o décimo sexto da linhagem sucessória.
És o responsável para, pela quarta vez, fechar o quadrante, e não eu como pensam nossos inimigos. Por isso é preciso que saibas bem a história dos que já lutaram antes de ti. Já fazes alguma idéia, pelas lendas que tanto lhe repetia, o que sucedeu ao quarto, ao oitavo e ao décimo segundo descendente.Somente não sabias que aquelas histórias eram verdadeiras, e que os protagonistas eram teus antepassados diretos.
Muito contei em estórias enquanto via o teu crescer. E por teu tio Andrzej decifraste enigmas e te alegraste na infância. Estavas sendo sondado. Sondado e preparado para o que terás que enfrentar.
Andrzej ainda fraqueja, mas creio que se desvencilhará das amarras que o prendem longe da história, e certamente terá um papel importante em nossa luta. Ouve-o quando ele o interpelar sobre teu destino.
Haverá um tempo em que teus primos e irmãos afastar-se-ão de ti. Não te revoltes, pois assim procedem por terem que seguir os próprios caminhos. Permanece firme no teu. Tolera e respeita as diferenças, a falta de conhecimento e até de interesse deles, porém não admitas jamais que se oponham à tua própria família, aos teus ancestrais. Caberá a ti a vigilância. E arcar com o segredo.
Agora lembra do que foste ensinado, e conhece bem da história, honrando a tradição que deve preceder doravante os teus atos.

Quando a cobiça dinamarquesa conquistou Arkona em 1168, quando os invasores destruíram o Santuário da ilha de Rúgia para saquear os grandes tesouros provindos de muitos reinos e principados, que lá se acumularam em honra de Swiatowit, quando tudo parecia estar perdido nas mãos do inimigo, e a estátua do supremo deus eslavo ardia em fogo profanador, quatro discípulos valorosos, servos do templo, salvam do tesouro saqueado a mais valiosa das relíquias.
Protegeram assim o verdadeiro espírito do deus. Um desses quatro heróis era Lech, o ferreiro, nosso antepassado direto, o qual nos deu o nome de família que até hoje carregamos.
Esta relíquia preservada no momento crucial da batalha, foi dividida em quatro partes, e assim selou o destino desses heróis. Enquanto o sumo sacerdote e os sacerdotes menores ofereciam suas vidas em resistência ao invasor, a fim de retardar a tomada do templo, os quatro servos fugiram da fúria inimiga por caminhos secretos, enfrentaram o breu da noite e o mar gelado e revolto em pequena nau, numa travessia que parecia impossível, até conseguirem chegar à foz do rio Odra. Quando pisaram o continente, pactuaram sobre os seus próprios destinos e o futuro das nações eslavas, pela separação, e posterior união, das relíquias retiradas do Santuário, a fim de restabelecer a glória de Swiatowit e dos povos do continente por ele protegidos.
Ao nosso antepassado cuidou guardar a verdadeira face de Swarozyc. Aos demais couberam as outras. E assim sobreviveu, em segredo, a alma de Swiatowit. E aqui começa a história da qual terás que dar continuidade.
Novas eras se sucederam. Novo credo tomou o coração da nação, mas os sinais vitais de Swiatowit ainda repousam nas tradições e nos destinos dos eslavos.
Sobre isso, se eu não pude instruí-lo, aqueles a quem deve ouvir o farão, de modo que saibas exatamente o que tens a fazer. E o que proteger.
Para desvendares o mistério, terás que entender o significado de cada face de Swiatowit. E sempre agir conforme a tradição indicar. Ouve tudo com teu coração. Municia-te com as lembranças.

E guarde o ensinamento que, do resultado de duas faces que se unem, teremos o sinal de que a batalha caminha para o fim, pois unirá as outras duas, feito ímãs, por destino, sob a bênção do novo Sumo Sacerdote, que terá consigo um signo que reconhecerás.

Aceita, Olek, a herança e a incumbência que agora eu te entrego.

Tem sido assim há quase novecentos anos, em que segredos foram guardados e sonhos acalentados.

Contudo, no passar dos séculos, o pacto sagrado dos quatro heróis foi ameaçado justamente por aqueles que deveriam lhes render a maior gratidão, mas, ao contrário, eles se fizeram, e aos seus seguidores, nossos inimigos, representando o oposto de nossos sonhos e trabalhando por nossa perdição.
Querem roubar-nos o segredo, impedir-nos a consumação do pacto, e assim conseguir para si as chaves para o poder. Por muito tempo frustramos este intento, e agora chega a hora de unir as partes. É o mais glorioso e esperado momento, porém o mais perigoso, pois as partes têm de ser expostas para que possam ser unidas e, se deixadas em mãos erradas, irá se perder para sempre o arcabouço de sonhos de todo um povo, e esses novecentos anos de luta e sacrifícios terão sido vãos.
É preciso que nunca te esqueças que os descendentes desse ato de traição também detêm poderes, conhecem segredos, e avidamente permitem que a sede de poder domine os seus espíritos, e nisso se comprazem. Eles agem sem honra, aceitam entre si criminosos comuns e estrangeiros mercenários, e com esta força tentam conquistar para si as relíquias, e delas utilizar em próprio proveito. E tem sido assim há muito tempo. Lutamos, então, com o “outro lado”, com o lado vil da traição.

Saibas acautelar-te. Aprende a conhecer os verdadeiros traidores tanto quanto teus próprios aliados.

Disto poderá depender tua própria sobrevivência.

Mas não abandones esta luta, eu te peço. Aceita o encargo como teus antepassados, inclusive eu, o fizeram, e perdoa o teu dziadzio se não consegui, eu mesmo, preparar-te plenamente para tal missão. Se não o fiz, é unicamente porque eles conseguiram parar-me antes que completasse a tua instrução, e só há uma maneira deles isso terem conseguido.
Se assim o for, confia em Miroslaw Tchenka e naqueles que o rodeiam, pois são o teu exército e, desde pequeno, ao longe, guardam-te, esperando pelo teu engajamento no momento crucial de mais este ciclo da nossa luta milenar.
Caso estejas a ler estas minhas palavras, é porque eu não consegui fechar o ciclo. Terás tu que fazê-lo, ou garantir acesa a chama, ou ainda retroceder para garantir a continuidade. Só não te é dado desistir.

Cuida de tua descendência.

Registra em pergaminho, quando perceberdes que estás em perigo, a escolha de quem dará prosseguimento à tradição, como eu e teus ancestrais o fizeram. Poderá ser assim a um neto teu, que eu já abençôo, como o faço a ti, que receberá a herança por tuas mãos, caso a luta não tenha chegado ao seu fim.

Ouve, pois, tudo o que te será revelado.
Assume teu posto. Guarda o segredo.
Aceita a herança que te é dada com honra e amor.
Amor de teu avô, que ao teu lado estará pela eternidade,

Julek Kowalski


¤

Ao tempo em que lia a carta, Olek também rememorava as tantas histórias que dziadzio Julek lhe contara, e a entender muito do que, por cifras, ele pretendeu revelar naquelas velhas lendas. Fantasias de infância misturavam-se com a realidade presente, fazendo com que Olek, por momentos, não mais soubesse o que seria verdadeiro naquela avalanche de lendas e informações.

Realmente o avô conhecia a sua alma. Ao lacrar a carta com o selo do desenho mágico sabia que a autenticaria, afastando assim quaisquer dúvidas que a natureza de Olek poderia levantar acerca da sua autenticidade. Tratava-se, na verdade, de um desenho simples, um “S” desenhado em três linhas retas, como se fossem dois “vês” deitados, um parcialmente sobreposto ao outro, com vértices opostos. O símbolo estava contido dentro de um quadrado, cujas linhas eram como que picotadas, idênticas às que observamos nos selos postais comuns. Três círculos, por sua vez, envolviam este quadrado, sendo o traçado do meio dentado em pequeno ziguezaguear, e o externo, traçado com uma linha mais grossa que o interno, com tracejado pequeno perpendicular à sua superfície, a simbolizar os raios de sol a se desprender do astro-rei.

Além do símbolo com o qual grafara o selo, Julek Kowalski incumbira Mirek de ser o portador da carta; alguém em quem Olek aprendera a confiar desde a infância. Possuía, assim, a certeza de que aquelas palavras eram realmente do seu avô, e também as sabia verdadeiras, embora ciente de que, naquele momento, não lhes alcançava, algumas vezes, todo o sentido.

Precisaria de Miroslaw para entender o exato papel que teria que desempenhar naquela luta. Recorda-se também das muitas palavras de Nicolai, a quem contestara sem ter o conhecimento que agora possuía. Agora, mais do que nunca, reconhecia no amigo um aliado leal e poderoso.

A carta colocava-o como herdeiro direto do ferreiro Lech, sagrado pelo deus de uma das faces de Swiatowit. A revelação defrontava-o com a sua própria linhagem, outorgando-lhe a guardiania da verdadeira face de Swarozyc, e o fazia responsável por cumprir a tradição.

Mas pouco sabia do que realmente teria que realizar. Pouco sabia sobre as tormentas que teria que enfrentar, tal qual Lech enfrentara quando navegara pelo báltico até a foz do rio Odra em toscas embarcações. Não conhecia ainda as armas de que se poderia valer, nem o exato objetivo a alcançar.

Soubera, sim, que por conta dessa história o avô havia sido morto. Mas deixara a súplica, pela paz do seu espírito, de que Olek assumisse o encargo e prosseguisse na sua jornada.

E ele assim o faria. Jurava, ali mesmo, que o faria.

Abria mão, naquele instante, do seu sonho de paz em Kraków, e dedicar-se-ia à luta de dziadzio Julek. Depois poderia seguir com seus antigos projetos de vida, mas por hora sabia que seu único caminho era honrar aquele que o cercara de amor enquanto viveu.

Emocionado, Olek ajoelha-se no genuflexório da cela e se põe a orar pela alma do avô, e o faz entre lágrimas, com a saudade a rasgar-lhe o peito. Decide que é a última vez que chora pelo avô, a primeira sem a culpa na alma pela sua morte, e que dali para frente o recordaria com alegria, e honraria a sua memória, e os seus sonhos.

¤

À hora do almoço, com o pensamento totalmente preso à carta e às lembranças de sua infância, Olek é conduzido por Jan ao amplo refeitório do Monastério onde, após as orações, toma assento e se alimenta juntamente com os demais. Nessa hora não se diz palavra. Sorve-se o alimento do corpo para prosseguir com o trabalho do espírito. Após, é levado pelo mesmo Jan aos aposentos de Miroslaw, e ao entrar o encontra dormindo. Jan explica que este repouso lhe seria salutar, e que os médicos recomendavam que não fosse interrompido. Olek então se assenta numa poltrona e aguarda pelo despertar de Mirek. Ficara muito tempo sem saber destas coisas, para não poder aguardar que o velho recobrasse suas energias para tê-las respondidas. Relê a carta, que trouxera consigo, e o faz novamente, e termina por adormecer ali mesmo.

¤

Olek, em seu cochilo, repousa sonhando com cores e formas indefinidas que surgem à sua frente, saídas de brumas, como se entre elas estivesse e nelas flutuasse velozmente. A sensação quase física de deleite envolve sua alma, e nele cresce a vontade de permanecer ali indefinidamente. Mas, de repente, sente um impacto e olha para o lado: era Miroslaw que o puxava pelo braço, indicando, sem palavra, que ele o acompanhasse. Olek, da mesma forma, cede ao comando e segue os passos de Miroslaw, que se punha à sua frente com uma agilidade surpreendente, atravessando o aposento até chegar a um portal na parede que dava para o penhasco mas, ao atravessarem o umbral, revelava-se diante deles um caminho envolto em breu. Atravessam-no. Em breve chegam a um pequeno portão que revelava um jardim do outro lado. Acode, então, a Olek, que aquele portão era o mesmo que o separava de dziadzio Julek, no sonho que tivera logo após a confirmação da morte de Maricha, no acidente aéreo. Sobressalta-lhe a lembrança, e então detém Miroslaw e indaga:
— Isto aqui é um sonho?

Miroslaw sorri e responde:
— Você aprende depressa, Olek. Mas não é exatamente um sonho. Você está fazendo uma viagem para o centro da história que você hoje conheceu na carta de seu avô. Está indo ao encontro de sua herança.
— Onde estamos?
— No lugar onde o grande pacto foi firmado...

Olek observa à sua volta, e vê que além do jardim corre um rio. Observa três homens e uma mulher em volta de uma fogueira, tendo cada um à sua frente uma arca de proporções consideráveis, cravada de símbolos que desde a infância fora levado a conhecer. Instintivamente Olek reconhece entre eles qual seria Lech, o seu antepassado. Tem a impressão que ele também o teria visto, pois em dado momento teria olhado em sua direção e sorrido, mas Olek não consegue se aproximar. Miroslaw não está mais com ele.

As figuras legendárias se levantam, ignorando a presença de Olek, que os vê partir seguindo rumos opostos, enquanto a fogueira vai minguando. Olek fica a observar o fogo, e através dele tem a sensação de estar vislumbrando a história correr à sua frente. Batalhas, nascimentos e mortes, êxodos, alegrias. Lugares se sucedem numa seqüência incompreensível, e as imagens cada vez menos nítidas, até que volta às brumas que atravessava velozmente, só que agora a sensação de peso aumentava, e não mais sentia o conforto que inicialmente lhe dera tanto prazer. Agonia-se. Queria sair o mais rapidamente dali. Ouve seu nome repetidas vezes, ao longe, e sente doer seu ombro esquerdo. Finalmente se vira para ver o que o importunava em meio àquele turbilhão.

¤

Acorda. Depara-se com a ponta de uma bengala a cutucá-lo insistentemente. Reconhece os aposentos de Miroslaw, e vê o amigo na outra extremidade da bengala, levemente curvado, a sorrir. Quando Olek o encara, Miroslaw comenta, aliviado:
— Fico contente em tê-lo de volta...
— Mirek! Você está bem?
— Sim, Olek, obrigado. Já estou recomposto. E você, como se sente?

Olek vira-se para a parede e constata que não há passagem alguma no lugar por onde teria passado com Mirek, e em seu lugar havia apenas um pequeno vitral, ao alto de uma parede nua.
— Estou bem, estou bem. Mas o que foi...
— Diga-me exatamente o que você viu, Olek.

Após ouvir rápida descrição da visão que tivera, Mirek explica:
— Eu conheço o caminho, Olek, mas o que você viu só é dado aos herdeiros. Você testemunhou os quatro heróis do Templo de Arkona no momento do juramento, onde eles decidem, por si e por seus descendentes, guardar o conteúdo daquelas arcas em segurança, através dos tempos, até que pudessem ser unidas novamente pelas mãos do verdadeiro sacerdote de Swiatowit, quando então se realizaria o sonho de uma nação próspera e livre. É o começo de sua iniciação.
— Iniciação?
— Sim, para estar preparado para a guarda de uma das arcas. Você teve o privilégio único de ver seu antepassado, e ele o abençoou, bem sabe. Ele tinha o dever de guardar a sua arca, assim como toda a sua descendência. Agora cabe a você assumir o seu destino. Com esta revelação, recebe a sua herança.

Olek, já refeito do sonho percebe que aceitara, sem questionar, estar debatendo o mesmo como se fosse a mais palpável realidade. Apenas aceitara que Mirek sabia o que havia ocorrido durante seu cochilo. Instintivamente se recusa a prosseguir naquela insanidade, tentando trazer o diálogo para um plano mais racional, interrompendo a divagação a que estava sendo levado. Pretendia se sentir mais seguro do que o cercava, antes de avançar.

¤

Percebendo a mudança de espírito que se operava no neto de Julek Kowalski, pelo seu silêncio e pela postura aprumada que tomava na poltrona, Miroslaw também se acomoda, tomando assento, e fica a aguardar a manifestação de Olek, que finalmente diz:
— Dziadzio Julek tinha muito a me dizer com a carta. Eu a li e reli, porém sei que muito mais terei a perguntar, Mirek. Ele mesmo recomenda que eu aja assim. Mas a carta também foi escrita para você.

Olek abre a caixa e entrega a missiva. Ao lê-la, Miroslaw ficara sabendo o quanto jovem já tinha por revelado, o que restaria esclarecer naquele final de domingo, e quanto das lembranças de Olek teria que resgatar para bem cumprir o encargo do legado que o avô lhe deixara. Respira profundamente e então começa a falar:
— Pois bem, Olek. Nós temos muito que conversar, mas antes vamos à história, pois dessa maneira já terá muitas de suas perguntas respondidas. Como você leu, atacado o templo de Swiatowit em Arkona, o sumo sacerdote confiou a principal relíquia, as quatro verdadeiras faces do deus, a quatro dos mais leais servos do templo, a fim de preservá-las das mãos do inimigo, pois Arkona caía. À Tinah, encarregada das vestes dos sacerdotes, confiou a face de Mokosz; a Gawel, o mais jovem dos sacerdotes menores, a face de Perun; a Michail, da guarda pessoal do sumo sacerdote, a face de Lada; e, finalmente, a Lech, o ferreiro de Swiatowit, a face de Swarozyc.

Olek assente, confirmando ser sabedor daquela história. Miroslaw prossegue, contando que as quatro faces originais de Swiatowit teriam sido gravadas pelo próprio deus em peças de ouro, e a partir daí é que se reproduziam, em rituais secretos, as estátuas em madeira, como a do templo de Arkona, a maior e mais fiel representação de Swiatowit de todas que já existiram. Mas, ao contrário da enorme estátua em madeira do templo, as faces originais não mediam mais do que trinta centímetros e eram guardadas ao centro das relíquias do templo de Arkona. Quando foi desfechado o ataque dinamarquês, o sumo sacerdote entregou a cada um dos quatro servos uma arca, cada qual contendo uma das faces e mais alguns pedras valiosas, para que, desfazendo-se delas, conforme a necessidade, eles cuidassem de preservar as faces do deus, até que fosse possível reuni-las novamente aos pés do sumo sacerdote, que em ritual cuidaria de erguer a nova estátua de Swiatowit, restabelecendo a sua glória dentre os povos eslavos. Aceitando, honrados, o encargo, eles fugiram da ilha na primeira noite do cerco ao promontório e atravessaram o mar, atingindo a foz do Odra. Ao desembarcarem, fizeram o juramento de que nenhum deles ultrapassaria jamais as fronteiras do país em que eles se abrigavam com as relíquias, a fim de que elas nunca fossem dispersas pelo mundo. Seguiriam por caminhos distintos, até que surgisse o momento de reunirem as relíquias. O país em que se abrigavam era a Polônia, e aqui é que toda a história aconteceu.

Olek então indaga:
— E aí acaba a história? Cuidar da face de Swarozyc é a minha herança, o meu encargo?
— Não, aí é que a história começa, Olek. Todos os quatro tinham consciência de que não conseguiriam sobreviver sozinhos, e muito menos proteger devidamente a relíquia. Gawel revelou reservadamente, a cada um deles, a pedido do sumo sacerdote, onde encontrariam um pequeno tesouro, do qual poderiam se servir para bem cumprir a missão. Cada qual cuidou, então, de eleger uma região para se radicar e formar um elo de proteção em volta da relíquia que lhes cabia, aguardando o sinal do sumo sacerdote de Swiatowit para que se reunissem novamente.
— E para onde foram? O que foi feito deles?

Miroslaw se põe a narrar a história dos quatro heróis. Gawel teria seguido para uma aldeia litorânea próxima à margem direita da foz do Wístula, criando uma fraternidade secreta que protegia a relíquia, a face do deus Perun, auxiliando seus membros, e em troca recebendo seus serviços em honra do deus. Já Michail optou por tornar-se um nobre, adquirindo terras ao sudeste, utilizando para isso grande parte do tesouro que lhe cabia, na região de Lwow. Nos subterrâneos de seu castelo supõe-se que, até hoje, estaria guardada a verdadeira face da deusa Lada.

Olek se espanta com a história de Michail, mas antes que pudesse questionar Miroslaw prossegue:
— Lech, por sua vez, veio para Kraków, onde prosseguiu com o ofício de ferreiro e criou uma confraria, a qual caberia proteger a face e o espírito de Swarozyc, sendo que à frente desta estaria sempre um descendente seu, cabendo ao neto de Lech o substituir no comando, como Julek contou na carta. A confraria iniciada por Lech tinha por fim auxiliar os nascidos naquela terra, então centro do país que os adotara, poucos iniciados sabendo que ela girava em torno da relíquia de Swiatowit, a face de Swarozyc, que lhes cabia proteger.
— E a quarta face, guardada por Tinah, para onde seguiu?
— Ela, após a chegada no continente, comunicou que seguiria para o leste, e desde então não houve qualquer notícia de seu paradeiro. Considerou-se, pela absoluta falta de notícias, que Tinah havia fracassado, dando-se, durante muito tempo, por perdida a face de Swiatowit que lhe cabia proteger. Muitos e muitos anos se passaram, e as gerações foram-se sucedendo no encargo da guardiania das relíquias, sem que nunca houvesse o chamado do sumo sacerdote, ou de seu sucessor legítimo.
— Então, depois da fuga de Arkona, as faces de Swiatowit nunca foram reunidas?
— Nunca, Olek. Por um momento os antepassados chegaram a pensar que estavam próximos de realizar este feito, mas na verdade tratava-se de um gesto da mais vil traição, que afastou por séculos a possibilidade de concretização deste sonho. Dos sacerdotes do templo não se teve mais notícia, e dava-se por perdida a quarta face de Swiatowit, e assim os outros se dispersaram, guardando o segredo individualmente, não mais tentando unir as faces para evitar as ameaças daquele que poderia roubá-las para sempre, tomando para si os poderes destinados a todo um povo.
— Mas o que aconteceu, quem foi o traidor?
— O guardião da face de Lada.
— Michail?
—Não Michail, mas seus descendentes. Isso aconteceu quatro séculos e meio depois.

Após aguardar que desanuviasse o espanto de seu ouvinte, pelo grande salto temporal da narrativa, Miroslaw situa agora os acontecimentos entre 1630 e 1640, época em que a Polônia conquistara a maior expansão dos seus domínios ao leste. Estendia-se do Mar Báltico até o Mar Negro, cruzada ao leste pelo caminho do âmbar. Olek bem sabia que tal estrada seguia de Lembok a Odessa e que, no período áureo, era o caminho que esta riqueza cortava a Europa de norte a sul, sempre em solo polonês. O extremo oeste das fronteiras do reino ficavam a menos de cem quilômetros de Berlim, o que se conseguiu já na segunda década do século IX, e a pouco mais de duzentos quilômetros de Moscou, no extremo leste, em 1634.

Tendo a concordância de Olek quanto à imensidão das fronteiras durante o período áureo, Miroslaw narra que nessa época correu uma notícia, entre os guardiões das relíquias, de que os descendentes de Tinah haviam sido localizados pelo novo sumo sacerdote que se revelara, e que todos eram convocados para reunir as relíquias num grande ritual, onde ele se apresentaria. Porém, como já lhe disse, era a cobiça não saciada no saque de Arkona, mais uma vez, a clamar pelos restantes tesouros de Swiatowit. Os descendentes de Michail, que através dos tempos se tornaram extremamente influentes em suas terras ao sudeste, perdiam gradativamente seu poder e fortuna, pela decadência fruto de disputas intestinas. Precisavam, assim, ampliar seu exército particular para garantirem-se em seus domínios. Ambicionando o tesouro de Swiatowit para alcançar tal fim, espalharam o boato da reunificação entre os guardiões de Perun e Swarozyc, a fim de que estes trouxessem não só as relíquias, mas também os demais tesouros, e os entregassem no momento do suposto ritual. A intenção deles era capturar os guardiões, e desta forma ter para si três das faces e os demais tesouros, os quais utilizariam para formar novos exércitos e readquirir o poder na sua região.

Olek se admira que os descendentes de Michail, apesar de terem alcançado alta posição, ambicionassem o que sobrara daquelas riquezas, tanto tempo depois. Miroslaw, porém, esclarece a Olek que não se tratava do que restara das riquezas, mas da exata metade delas. Quando eles firmaram o pacto na foz do Odra, decidiram que a metade destes tesouros seria entregue ao sacerdote menor, a quem cabia a guarda da face de Perun, com o compromisso de que tais riquezas somente seriam usadas quando da vinda do novo sumo sacerdote, para permitir que se reerguesse o templo.
—Foi assim que, pela tradição oral, os herdeiros de Michail tomaram conhecimento dessa imensa riqueza que estaria intocada, o que os fez tramar para tomá-la do sacerdote menor.

Miroslaw explica que o plano urdido fracassou porque parte da própria mentira que engendraram acabou por tornar-se realidade: sem se saber de onde, surgiu a guardiã de Mokosz, avisando aos demais que tudo não passava de uma emboscada dos herdeiros de Michail. Escapando da armadilha, eles se dispersaram e, para não se perderem para sempre, convencionaram encontrar-se a cada meio século, ritualisticamente, até que a tão sonhada reunião das faces ocorresse. Depois disso nada mais se soube da guardiã de Mokosz, que desapareceu da mesma forma como surgiu para avisar do grande perigo, não dando mais notícias, tendo se apresentado uma única vez, no final do século XIX, a um dos encontros rituais realizados. E assim, desde tal época, os descendentes dos guardiões lutam contra o outro lado, que ambiciona para si o poder e a riqueza oculta de Swiatowit.
— Não entendo... então o atual detentor da face de Lada é o verdadeiro mentor do outro lado?
— Talvez. Mas temo que não seja tão simples. Muitos anos depois, num encontro ritual, o herdeiro das terras de Michail procurou os descendentes de Lech e Gawel, dizendo-se guardião da face de Lada e do juramento. Afirmou que seu pai tivera uma visão que o fizera se arrepender da traição, rompendo com os irmãos, e que no final da vida lhe revelara o segredo e o encarregara de prosseguir com a guarda. Afirmava que para bem seguir em sua missão precisava contar com a ajuda dos demais, pois perdera o castelo de seus ancestrais, não tendo mais recursos para proteger a face de Lada.
— E creram nas afirmações dele?
— Veja bem, quando isto ocorreu mal principiava o século XIX, quando os paises vizinhos, Alemanha, Áustria e Rússia, dizendo-se ameaçados e afrontados com as liberalidades da Constituição de 1791 (Constituição polonesa. Primeira Constituição da Europa Continental, de caráter liberalizante), já haviam partilhado o território polonês. Nessa época, como bem sabe, e por cento e vinte e três anos, a Polônia passou a ser uma nação sem Estado, dividida e partilhada, vilipendiada, mantendo-se unida apenas pela sua cultura e teimosia de seus nacionais, para não se ver dizimada da história.
— Sim, é verdade...

Miroslaw prossegue:
— Pelas circunstâncias que viviam, não deram crédito ao herdeiro de Michail, pois com a partilha ele perdera praticamente todas as terras e grande parte da sua fortuna, porém não revelava aos demais o paradeiro da relíquia, porque se entendia como o guardião dela mesmo perante estes. Assim, o medo e a desconfiança, mais uma vez, dispersaram os guardiões, que não socorreram este herdeiro.
— O castelo erigido por Michail ainda existe?
— Sim, apesar de em ruínas. Pode ser localizado, todavia não há qualquer certeza de que lá possa ser encontrada a relíquia.
— Mas, caso o herdeiro estivesse falando a verdade, quem seriam os que formam o que chamam de “outro lado”?

Miroslaw cala-se por instantes ante o questionamento, a fim de organizar as idéias. Em seguida passa a dissertar afirmando que o outro lado já teve várias faces, e a primeira se mostrou através da cobiça dinamarquesa, que deu origem a toda essa luta milenar. Depois foram os herdeiros de Michail, que por sua vez se uniram a outros aventureiros com os quais se associaram, através dos tempos. A ambição cuidou de transmitir o que foi revelado pelos descendentes de Michail, quando estes tentaram o golpe no século XVII, e desde então bandos se organizaram, atacando os guardiões quando sós, enfraquecendo-os, cooptando seguidores nas fraternidades protetoras a fim de desvendar seus mistérios. Durante a segunda guerra mundial, súditos do III Reich também buscaram tais tesouros. Muitas são as faces do “outro lado”. Eles querem as relíquias e os tesouros para si, ao contrário do que se pretendeu com o pacto milenar, que sempre objetivou fazer vicejar novamente o espírito de Swiatowit entre os eslavos. O guardião de Lada talvez falasse a verdade, sim, e isto seria muito bom, pois então o outro lado não seria detentor de nenhuma das faces. Mas, com relação a isso, não temos como obter uma confirmação antes do próximo encontro ritual.

Olek respira fundo diante da quantidade de fatos que lhe eram trazidos por Miroslaw. Quer perguntar algo, mas se levanta da poltrona e vai até a janela, ficando a contemplar a curva do rio, bem abaixo. Tudo o que soubera até agora era pura história, mas já conseguia antever algumas das conseqüências dela nos dia atuais. Havia, sim, um turbilhão de questões em sua mente, mas no momento não queria resolver nenhuma. Olha súplice para Miroslaw que se levanta, parecendo adivinhar seus pensamentos, e este lhe sorri, dizendo:
— Seria bom se tomássemos um chá, não seria?

Olek concorda, agradecido. Sabia que muito teria ainda a descobrir sobre a herança que dziadzio Julek lhe deixara, mas por hora uma pausa era tudo o que desejava.