Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 

XXXIV - O questionar

 

 

Fiodor observa a bandeja do desjejum sendo retirada, e a porta sendo trancada, sem esboçar nenhuma reação. Logo após entram dois homens e pedem que ele os acompanhe. Fiodor é levado por um vasto corredor até a biblioteca do castelo, e o fazem sentar defronte a uma imensa escrivaninha. Passados alguns momentos, o Ancião entra na sala e, a um sinal seu, saem os guardas do aposento, deixando os dois a sós. Entreolham-se, Fiodor desafiador. Saberia o porquê de ter sido poupado, que algo iria ser pedido em troca, e a hora chegara. Deveria assim manter-se altivo, saber negociar a sua liberdade. O Ancião começa a falar:

— Trouxe-o aqui porque podemos conversar à vontade, ao contrário do seu quarto.

— Do meu cárcere, o senhor quer dizer. Obviamente estão monitorando minha modorra diuturnamente, esperando que eu me ponha a declamar segredos, ou algo assim.

— Por óbvio. Mas não é isso que esperamos... eu gostaria que visse o lugar onde você está como abrigo, e não uma prisão. Quero lembrá-lo que estava à beira de uma morte infamante, quando foi trazido para cá.

— Não esquecerei isso de modo algum, Ancião. Já lhe fiz essa afirmação, aliás. O que eu não entendo é a razão de ter sido poupado, e qual é o preço que terei de pagar por esse seu ato.

— Talvez você não entenda mesmo, mas saiba que os nossos objetivos são próximos. Você quer a vingança, e eu persigo a justiça. E para mim ela somente será alcançada se conseguirmos parar aquele que vilipendia os objetivos da nossa fraternidade.

— Estou bem certo da pessoa que tem que se haver comigo, quanto ao senhor...

— É da mesma pessoa que falamos.

— Como pode ser? Ele os representa! O Sacerdote é o braço que executa a vontade da fraternidade de vocês. Ele nada mais faz do que buscar reunir as relíquias para alcançar o poder, em benefícios daqueles que o abrigam.

O Ancião bruscamente se levanta, pela primeira vez perdendo a fleuma diante de Fiodor, e em um tom de voz mais alto, exclama:
— Não! Ele trabalha para conseguir a glória para si mesmo, o poder para si mesmo! Não é o que queremos. Esta luta caminha a quase um milênio, e eu trago comigo o cansaço de meus ancestrais. O objetivo é reunir as relíquias para a glória de um povo, e não para o poder de um ou de uma das fraternidades.
— Mas vocês estão unidos a ele. Não o pararam quando ele cometeu a primeira barbárie, que foi contra meu padrasto. Muitos anos já se passaram, várias iniqüidades foram praticadas, e vocês dão ao Sacerdote o poder que ele precisa para comandar os demais, dão os recursos de que ele precisa dispor para alcançar seus intentos.

O Ancião sabia que Fiodor falava a verdade. Ele conhecia a fraternidade, e complementara seus conhecimentos muitos bem, com os livros que lhe deixara no claustro. O Sacerdote fora eleito pelo Conselho ainda jovem, como uma esperança de que ele conseguisse reunir sob sua liderança os quatro, e assim cumprir o pacto milenar. Ele tinha a marca do Sumo Sacerdote, deveria ter esse poder. Mas ele não soubera lidar com as primeiras dificuldades, e quando comandava um antigo ritual de iniciação em uma praia deserta no Báltico foi observado pelo pai de Fiodor. O ritual continha atos que fugiam à compreensão do pescador, e ao invés de esclarecido, ele foi perseguido pelo Sacerdote, que na sua inexperiência agiu precipitadamente desencadeando a tragédia que foi a morte do pescador, e depois de sua mulher. O Conselho assustou-se com a atitude do Sacerdote, mas esse conhecia bem segredos de alguns membros, e com isso conseguiu não ser afastado. O próprio Ancião acreditara que ele, apesar do grave desacerto, poderia retomar o caminho e o apoiara naquela hora. Fora esse o seu grande erro. A partir daí seu poder cresceu, e Sacerdote passou a agir consultando cada vez menos o Conselho, que pouco o admoestava, alguns por ter esperança que ele ainda alcançasse o seu objetivo, outros ainda por medo da reação dele caso fosse afastado. A proximidade que ele mantinha com altas autoridades da época, que tinham bom trânsito em Moscou, aumentava o temor dos conselheiros, e eles se acovardaram, deixando que o Sacerdote formasse um grupo que agora, excetuando-se alguns poucos iniciados, agia independentemente às recomendações do Conselho. Somente agora, quando passou a perceber a direta oposição do Ancião, é que voltava a ceder a alguns ditames do Conselho, mas ninguém mais tinha a ilusão de que ele retomara um caminho que, na verdade, jamais fora por ele trilhado. Sabedor de tudo isso, o Ancião comenta:
— Eu tinha esperanças que você compreendesse o que acontece nessa fraternidade, Fiodor. Mas não deixo de me surpreender pela agudeza de suas observações.

— Ele não os atende mais, não é mesmo? Vocês perderam o controle sobre ele, e agora pouco podem fazer para detê-lo.

— Não posso negar que é algo assim que acontece. O passar do tempo demonstrou que o Sacerdote não faz mais do que qualquer chefe de um bando faria. Ele não atende aos velhos códigos, age como um terrorista qualquer, une-se a estrangeiros, pratica barbaridades como a que praticou contra a sua família, Fiodor. Ele quer reunir as relíquias para adquirir poder, pondo um fim a tudo aquilo que tentamos proteger. Ele não é dos nossos, nunca foi, e no futuro quererá aniquilar a todos, inclusive aos seus próprios mentores que, infelizmente, somos nós. Ao Sacerdote abrimos todos os segredos da fraternidade. Ele já descobriu três dos quatro herdeiros do pacto. Está a ponto de reunir o primeiro par de relíquias. Não vai desistir agora. Criamos um monstro, e ele precisa ser detido.

— E o que espera de mim? Aqui nada mais sou que um prisioneiro, e o que eu tinha para barganhar me foi tomado pelo Sacerdote. Aliás, ele sabe o que está acontecendo aqui? Ele vem ao meu encontro?

— Por mais de uma vez ele quis saber do destino que demos a você, e eu sempre respondo que o estamos investigando para descobrir se você espalhou cópias daquele dossiê que lhe foi tomado. Ele pensa que, após extrairmos esta informação, você poderia ser induzido a encontrar o último portador da relíquia. Depois disso nos “livraríamos” de você. É o que ele quer, entende?

Fiodor entendia. Ele estudara por muitos anos a fraternidade para saber o que eles queriam, e a delicada situação em que se encontrava. Sabia que a sinceridade do Ancião, por si só, não o transformava numa pessoa confiável, mas sabia ser ele o único canal de que dispunha para manter a esperança de sair dali vivo. Assim baixou a cabeça quando o Ancião lhe perguntou:
— Por isso tudo eu preciso saber: alguém mais tem conhecimento do seu dossiê?

Como Fiodor permanecesse mudo diante da pergunta, o Ancião resolve jogar todas as cartas na mesa. Era a única chance que tinha de retomar as rédeas da fraternidade para que ela não se perdesse de vez. Então arrisca:
— Vou perguntar mais uma vez, Fiodor, e espero sinceridade em sua resposta: Por acaso você mandou uma cópia de seu dossiê para Nicolai Ianovich?

A menção de Nicolai atingiu em cheio a Fiodor, que sente o gelo percorrer as suas veias. Como o ancião poderia ter sido tão direto? O que Nicolai havia feito com a cópia que ele lhe mandara? Se é que a cópia chegou, pois como o Ancião sabia o destinatário, poderia ter conseguido interceptar o pacote, e então Fiodor estava realmente perdido. O que iria responder? Só consegue retorquir:
— Por que eu mandaria uma cópia do dossiê para Nicolai Ianovich? Não sabe que fui expulso da casa dele, juntamente com seu filho Lelek?
— Sei. Assim como sei que você estava, supostamente, a serviço do Sacerdote, mas isso não era real. Real é o seu conhecimento da importância de Nicolai Ianovich para tudo isso, e quem, além dele, saberia avaliar devidamente os documentos que você reuniu? Conte-me a verdade, Fiodor.
Faz-se um silêncio pesado na sala. Consciente que Fiodor pesava as suas palavras, o Ancião prossegue:
— Quando eu sair desta sala empreenderei uma viagem. Uma viagem secreta cujo destino somente a você irei revelar. Hoje, ao final da tarde, estarei em Kraków, encontrando-me com Nicolai. E ficaria muito desapontado caso descobrisse que você mentiu, de uma ou outra maneira, e isso me deixaria de mãos atadas para ajudá-lo, Fiodor, quer em relação a seus planos, quer em relação à sua própria vida. Por isso, fale-me a verdade: Nicolai tem conhecimento de seu dossiê?

Chegara a hora.

Fiodor teria que decidir entre mentir, negando o fato na esperança de que Nicolai saberia socorrê-lo, ou confirmar que enviara a cópia do dossiê, confiando apenas no Ancião para conseguir sair dali, apostando no temor do Ancião caso soubesse que Nicolai tudo poderia revelar, se algo lhe acontecesse.

Mas, ainda pensava Fiodor – enquanto mantinha os olhos firmes no Ancião, que esperava a resposta –, se Nicolai ignorasse que algo lhe acontecera? E se Nicolai não desse a credibilidade devida aos documentos cuja cópia ele enviara? Ou ainda, se Nicolai entregasse o dossiê em mãos erradas, e tudo se perdesse? Fiodor sabia que perderia a vida e o objetivo para a qual a destinara. Por outro lado, se revelasse a verdade ao ancião, e este fosse, deveras, o algoz?

Não havia meios de furtar-se a uma resposta direta. E Fiodor fez a sua escolha.

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Novamente trancado em seu aposento, aflige-se. A decisão fora tomada, e agora somente restava esperar o desfecho. Quanto tempo, não sabia. O que fazer, enquanto aguardava, também não. Este seria, mais do que os outros, um dia longo. Um dia de agonia, naquele seu confinamento. Quando não mais possuía esperanças, lutava por evitar que seu espírito ficasse perturbado. Agora, no entanto, havia uma chance de sair dali e retomar a sua vida, que em determinado momento dera por perdida.

Para alcançar os seus objetivos, porém, e pensar na vida que então passaria a viver, precisava de Nicolai. Precisava que ele, quando fosse encontrar com o Ancião, soubesse exatamente como agir. Soubesse antever como ele próprio tinha agido. E não tinha nenhuma garantia de que isso acontecesse.

Fiodor põe-se a lamentar não ter se aberto com Nicolai, por medo de que este o impedisse de prosseguir em seu intento, quando ele estava tão perto de alcançá-lo. Poderia ter confiado mais naquele homem, na época que ele o abrigou sob seu teto, e agora teria meios de se fazer entender sobre a decisão que tomara diante do ultimato do Ancião. E quanto a Lelek, sentia que o amigo tivesse feito a escolha pela vida fácil, em troca dos valores que, desde pequeno, o pai lhe tentara incutir.

A aflição tomou conta dele, o que mal conseguia disfarçar diante das câmeras ocultas que sabia existir naquele seu confinamento.