Mar de Olek

 

 

 

Olgierd Sokolowski

 

 

XXXIII – Tyniec


Josef e Helena retornam da Abadia, interrompendo a conversa no jardim. Com ar grave, Josef comunica a Nicolai, Christina, Olek e Igor que conseguira romper o cerco montado pelos monges, e os guardiões terminaram por consentir a vista de Olek, na Abadia.

Miroslaw lá se encontrava a fim de cuidar de sua saúde já precária, e para se proteger das abordagens do outro lado. O prior, amigo de Josef, consentiu que lá ele se abrigasse secretamente, e com a condição de que o fato não alterasse a severa rotina do monastério. Josef concordara, e por causa disso é que tivera dificuldades em preparar a visita de Olek, pois ela somente seria admitida em ocasião que não alterasse as atividades do lugar.

Miroslaw fora para lá com dois enfermeiros que pertenciam à confraria, e que se revezavam nos seus cuidados, atuando também como seus guardiões. Josef então tivera muito trabalho para primeiro convencer os monges de que precisava falar com os guardiões e, por sua vez, convencê-los de que seria oportuna a visita de Olek neste momento, quando então logrou agendar a visita ao conversar com o próprio Miroslaw, que pronta e efusivamente o atendeu.

A notícia quebra as conjecturas que eles traçavam a respeito de Lelek e Fiodor, bem como do motivo do convite proposto pelo Ancião a Nicolai.

Todos se agitam com a nova, e Helena e Josef se põe a contar com pormenores a visita, a resistência encontrada, e depois a alegria de Miroslaw em finalmente receber Olek, prendendo assim a atenção dos ouvintes. Josef é quem narra os acontecimentos, enquanto explica que, pela hora que chegaram à Abadia, não permitiram que Helena passasse do pátio interno, onde ela teve que aguardá-lo até sua volta. Por fim ele conclui:
— Olek, assim, poderá ir amanhã pela manhã à Abadia, para o desjejum com Miroslaw. Ele pede que Olek passe o dia lá, pois segundo ele terão muito que conversar.

Olek, intrigado pelas dificuldades narradas por Josef e pela forma que lhe programavam a visita, indaga da qual Abadia falavam. É Josef quem responde:
— Falamos da Abadia dos beneditinos.
— Tyniec ou Bielany?
— Sim, Tyniec, conhece a Abadia?

Olek diz recordar-se das histórias que dziadzio Julek lhe contara a respeito daquela Abadia, construída onde, em tempos mais remotos, a geografia do lugar permitira erigir-se uma fortaleza avançada para a defesa de Kraków. Comenta lembrar-se de que dziadzio Julek costumava afirmar que a história da Abadia de Tyniec confundia-se com a história da própria Polônia, e contava muitos casos a respeito de um monge de lá, nesses tempos heróicos.

Nicolai sorri, satisfeito, pois esperava que aos poucos Olek rememorasse as histórias e os ensinamentos de Julek Kowalski, e os associasse aos atuais acontecimentos de sua vida. Assim eles passam a conversar sobre a Abadia de Tyniec, mal sabendo Olek o quanto isto tinha a ver com os próximos acontecimentos que o envolveriam.

¤

Amanhece. Mirika põe a mesa do café para todos, que logo se apresentam na copa. Olek é o último a aparecer, sonolento, dez minutos após Josef ter batido à porta do quarto onde se hospedara, chamando-o. Pelos incidentes do dia anterior, todos acharam melhor que ele não voltasse ao seu apartamento, então ele na casa de Josef pernoitara. Quando Olek apronta-se para sentar à mesa do desjejum, Josef levanta, limpando os lábios e impedindo que Olek tomasse assento:
— Creio que não haverá tempo para que você faça a refeição, Olek. Você deve chegar à Abadia exatamente as sete e meia, e para tanto precisa sair já, pois ela fica a mais de quinze quilômetros daqui.

Olek, espantado, olha para Josef e os demais, que já concluíam a refeição. Nicolai, por sua vez, explica:
— Não se preocupe. Chegará exatamente para o desjejum na Abadia. Por estas horas os monges já se encontram na missa matinal, e logo depois terão tempo para meditação, que é seguido do desjejum. Miroslaw o aguarda para compartilhar o desjejum com ele. Os monges são muito rigorosos com os horários. Caso queiramos chegar em tempo é preciso que saiamos já.

Enquanto as explicações eram dadas, Christina divertia-se observando Olek que, enquanto as ouvia, ainda de pé ante a mesa preparava uma caneca de café com leite e a sorvia apressadamente. Sorrindo para todos, ele explica:
— Nada sou antes de tomar uma bebida quente pela manhã. Agora estou pronto. Alguém de vocês pode me dar uma carona até em casa, para eu pegar o carro e seguir a Tyniec?

É Nicolai quem responde:
— Não se preocupe com isso, Olek. Nós iremos com você até lá, e depois vamos buscá-lo. Até que as coisas se esclareçam, e saibamos exatamente quais as pretensões do outro lado, é bom que fiquemos sempre juntos.
— Está bem, Nicolai, mas voltando da Abadia quero ir para minha casa. Tenho muitas coisas a preparar para a segunda-feira. Preciso trocar umas pesquisas com meu colega canadense.
— Está bem, será como você quer.

Quando Nicolai, Christina e Olek encaminham-se para o carro, este inesperadamente questiona:
—Nicolai... eu não quis tratar deste assunto ontem, pois sei que tinha outras preocupações, mas estou ansioso em saber se você conseguiu novas informações...

Nicolai sabia do que Olek falava: Maricha. Mas a iminência da visita à Abadia dera a Nicolai a certeza de que fizera bem em não revelar ainda a possibilidade de Maricha estar viva, talvez ferida, sendo tratada em algum lugar incerto. Sabia que o que aguardava Olek era o encontro com seu passado, com sua origem, e nada deveria desconcentrá-lo diante do que estava por vir. Agora, porém, ele o questionava diretamente, e Nicolai via-se obrigado a desviar do assunto:
— Muito, muito em breve terei notícias do que pedi para verificar, Olek. Tenha um pouco mais de paciência, amanhã terei algo a lhe dizer. Prometo.

Olek inquieta-se, mas não insiste. Porém não conseguia livrar-se da angústia ante a perspectiva de Maricha estar viva, como Lelek havia-lhe insinuado, ao sugerir que fosse falar com Tadeusz.

Christina percebe onde estavam os pensamentos de Olek. Senta-se ao volante, silenciosa, e logo dá a partida, a fim de aquecer o veículo. Nicolai embarca ao lado dela, e Olek acomoda-se no banco de trás. Mirika abre o grande e ruidoso portão e carro ganha a rua, Christina e Nicolai atentos, Olek absorto, olhando através da janela do carro o seu próprio passado. A lembrança de Maricha o carregava por um mundo que era só seu, um mundo para o qual não convidava ninguém a compartilhar.

¤

O carro desliza no asfalto úmido e frio daquela manhã, saindo de Kraków rumo ao ocidente, chegando, por momentos, a se avistar a margem esquerda do Wistula . Os seus ocupantes agora conversavam sobre muitas coisas, menos sobre a visita que Olek estava prestes a fazer a Tyniec.

Estavam quase chegando. Nicolai mostra, ao longe, a visão da Abadia na outra margem do rio, bem à frente da estrada que agora seguiam. Olek, espichando-se para frente consegue visualizá-la, admirando-se com a imponência do paredão natural que lhe dera o nome. Sorri para Christina, que retribui, comentando que à sua esquerda estaria o ermitério de Bielany, sobre a Srebrna Góra , visto entre as árvores além dos campos que cruzavam. De lá se podia contemplar toda a Kraków que se espalhava ao longe. Ela diz, distraída:
— Os monges negros. Vivem reclusos às portas do paraíso...

O monte Tyniec, que viam agora à direita, foi designado como o lugar para a construção da Abadia beneditina pelo Rei Casimiro, o Restaurador, em 1044. Foi erigido às margens do rio Wistula, no alto do monte Tyniec, um local belo e privilegiado, que antes serviu de fortaleza natural da cidade de Kraków. Este monastério teve papel importante na restauração do cristianismo na Polônia, que havia enfraquecido em vista das invasões tchecas que antecederam a sua fundação. O local foi por várias vezes atacado, destruído e reconstruído. Talvez daí é que Julek Kowalski afirmava que a história daquela abadia confundia-se com a história da própria Polônia.

Atravessam a ponte. Já estão à margem direita do Wistula, então saem da estrada principal e entram à direita, em uma estrada de cascalho, rumando diretamente à entrada do monastério. Nicolai então se dirige, cerimonioso, a Olek:
— Olek, meu filho. A partir do momento que cruzar aqueles portões estará em contato com sua própria história. Ouça Miroslaw como seu próprio avô estivesse lhe falando.

Olek sorri para Nicolai. Beija o rosto de Christina antes de sair do carro e abraça o amigo, que já estava do lado de fora do carro, para melhor despedir-se. Sentindo a ansiedade de Nicolai, Olek o tranqüiliza:
— Mas que cara é essa! É só uma visita, logo estarei contando para vocês o que tanto Miroslaw tem para me dizer. A que horas vocês vêm me pegar?

É Christina que, saindo do carro, aproxima-se e diz:
— Amanhã às oito.
— Amanhã? Como amanhã? Eu preciso ir cedo para o centro de pesquisas!

Nicolai é quem informa a Olek:
— Miroslaw assim pediu, Olek. Josef disse-me que, dessa forma, vocês poderiam conversar com calma, e ele poderia responder a todas as suas perguntas. Espero que não se importe em ficar aqui esta noite. Os beneditinos são muito hospitaleiros e, creia-me, você precisará deste tempo aqui.

Antes que Olek pudesse protestar, abre-se o portão do mosteiro e um jovem monge vem ao encontro deles, sorridente. Saúda a todos e por fim dirige-se a Olek:
— O senhor deve ser Olek Kowalski...
— Sim, sou eu.
— Sou o irmão Jan . Por favor, acompanhe-me, está sendo esperado.

Sem ter muito mais o que dizer, Olek despede-se dos amigos mais uma vez e segue o seu anfitrião, que a esta altura já ultrapassava os umbrais do monastério. Os portões fecharam-se logo atrás de Olek, que vai atrás do monge, e se distrai, diminuindo os passos enquanto admira a beleza do local, incluindo algumas ruínas que denunciavam antigas cicatrizes deixadas pela história.

Ao notar que sua distração o distanciara de Jan, Olek fala alto, tentando diminuir o passo do lépido monge que seguia à sua frente, comentando sobre a arquitetura do monastério:
— Este lugar é maravilhoso, irmão Jan! Vocês devem ter muito trabalho para mantê-lo assim, tão... autêntico.

Diminuindo o passo, sempre sorridente, o monge resolve resumir para Olek a história de Tyniec. Embora soubesse de muitas histórias de lá que lhe foram contadas pelo avô, Olek ouve com interesse o resumo histórico que lhe era apresentado.

— A primeira destruição sofrida pela Abadia foi durante o século XIV, na ocasião em que os monges apoiaram o duque Wladislaw Lokietec, da dinastia dos Piast, quando este enfrentou os tchecos da família Przemyslidzi, em disputa pelo trono polonês. Tempos depois houve as invasões tártaras e o monastério sofreu os violentos saques que estes impingiam às populações conquistadas.
— Ela foi destruída já nessa época?
— Totalmente destruída não, mas somente dois séculos mais tarde, com a chegada da idade áurea da Polônia, é que a Abadia realmente floresceu, chegando a influenciar assim todo o país, irradiando a fé. Mas não foi assim para sempre. O mosteiro começou a fenecer durante o século XVII, em virtude da instituição das “commendas”, que eram os títulos outorgados pelo rei a nobres para governar a Abadia, deixando assim o abade de ser eleito pela própria comunidade religiosa que o habitava, como deveria ser, segundo as nossas regras. As guerras deste mesmo século terminaram por destruir novamente a abadia.
— As invasões suecas?
— Exatamente.
— E o que aconteceu depois?
—Já no início do século XVIII, com o fim da comenda, a abadia voltou a ter grande atividade, formando monges e ampliando as suas bibliotecas. Foram anos de florescência, mas no fim deste mesmo século, porém, a Polônia era partilhada pela Áustria, Rússia e Prússia, deixando de figurar no mapa das nações. Houve um levante da nobreza contra esta partilha, e os confederados se fortificaram na Abadia, enfrentando as tropas russas em ferozes combates. Posteriormente, o território onde se situava a Abadia de Tyniec voltou às mãos austríacas, tendo o abade Amand Janowski e seus monges reformado o monastério, aumentado ainda mais a sua biblioteca. Quando a autoridade austríaca resolveu abolir a abadia em 1816, o seu acervo, sobretudo o bibliográfico, foi salvo pelo beneditino alemão Thomas Ziegler, que os preservou na cidade de Tarnów. Em 1839 o fogo consumiu o telhado da abadia e cinco anos depois morria seu último monge.
— Então foi o fim da Abadia! Eu pensei que ela havia sempre se sustentado através dos séculos, que muitas dessas construções vinham daquela época...
— O que vê ao seu redor nada mais é que fragmentos da antiga abadia. Mais adiante é que se pode ver mais o que temos do monastério original. Foi um trabalho duro o que a ordem desenvolveu aqui. Desde que os beneditinos poloneses que se formaram na Abadia de Santo André, na Bélgica, fundaram novamente a Abadia de Tyniec, em 29 de julho de 1939, o esforço para a preservação do lugar tem sido grande.
— No ano que eclodiu a segunda grande guerra?
— Sim. Um mês e dois dias antes da invasão alemã, sendo exato. Foi a mão de Deus que nos trouxe para cá. Houve muitas histórias por conta disso. Os monges resistiram e conseguiram sobreviver, liderados pelo abade belga Karol van Oost. No fim da guerra a região foi ocupada pelas tropas russas, e, conseqüentemente, veio depois o comunismo. A reconstrução atual do Monastério iniciou apenas em 1947, e somente em 1968 é que Tyniec voltou a alçar o grau de Abadia.
— Então se trata de uma restauração? Nada mais resta do monastério original?
— Da Abadia original, construída na segunda metade do século XI, ainda estão preservadas a muralha sul, as fundações e o claustro originais, além do refeitório e alguma ornamentação, que você pode observar à sua volta. Terá oportunidade de conhecer detidamente estes lugares, eu lhe asseguro.

O que o monge não mencionou é que, naquele momento, Tyniec guardava não só a sua história, mas também muitos dos segredos com os quais Olek estava por se deparar.

¤

Christina resolve aproveitar o momento que tinha a sós com o pai, durante o caminho de volta da Abadia, para manifestar suas preocupações, e tão logo pega novamente a estrada principal, interpela Nicolai:
— Pai, você não irá sozinho encontrar-se com o ancião, vai?
— Irei sim, Christina. Tenho que ir.
— Mas é muito arriscado, pode ser uma armadilha, e neste momento você é muito importante para Olek, para todos nós!

Nicolai sorri com a preocupação de Christina, mas lhe diz que não pode evitar o encontro. Argumenta que, caso fosse encontrar com Sacerdote, em quem ele reconhecia nada mais que um criminoso comum, com certeza acautelar-se-ia de todas as maneiras. Mas tratava-se do Ancião, e ele sabia que ele provinha também de antiga linhagem, como Julek Kowalski e Olek, portanto sabia que não haveria o que temer.
— Mas foi na antiga linhagem que houve a traição, não foi?

Nicolai franze o cenho ante o comentário de Christina, e rebate:
— Tenho que ouvir o que ele tem para me dizer, Christina. Preciso saber de Fiodor. Preciso saber de Maricha. Preciso saber – repete mais uma vez, e neste momento da argumentação suspira profundamente – até que ponto Lelek está envolvido com o Sacerdote. Não posso deixar de ir ao encontro dele, há muito em jogo para que eu simplesmente ignore o convite.
— Não peço que ignore. Apenas que permita que o acompanhemos a este encontro.
— Não, Christina. Seria desleal de minha parte. O pedido foi que nos encontrássemos a sós, e muito discretamente. Se for assim, parece-me que também o outro lado não sabe desse encontro, não posso colocá-lo, e nem a mim, em risco.

Ainda que respeitasse a decisão do pai, Christina tentava argumentar com ele, a fim de que ao menos permitisse que ela e Igor o levassem até o local do encontro e o aguardassem a uma certa distância, pois assim teriam a segurança de poder interferir em seu socorro, caso ocorresse algo de errado. Contudo não conseguia dissuadir o pai de sua determinação de seguir só ao encontro, logo mais à tarde. Para ele, tratava-se de uma questão de honra. Faz sinal de desistir de sua argumentação, por mais que se sentisse preocupada, e resolve mudar o rumo da conversa que tomaram.
— O que espera desta visita de Olek?
— Você sabe, Christina. Espero que ele encontre – e aceite – o legado de Julek Kowalski. Nós fazemos idéia do que seja, não é verdade?
— Sim, fazemos. Mas ele que deve nos revelar onde está a parte que falta. Somente ele pode saber, não é assim?
— Somente ele. Miroslaw pode avivar a memória dele, mas só ele sabe, e pelo que conversamos até agora, nem faz idéia do que tem que se lembrar...

Ao chegar na casa de Josef eles encontram todos na sala, a aguardar as novidades. Helena comunica que precisava regressar a Warszawa, e que pretendia empreender a viagem ainda pela manhã. Nicolai, entretanto, pede que ela aguarde, pois fazia questão que Igor a acompanhasse na viagem de volta, mesmo porque ele precisava voltar a Arkadja. Ela mostra-se reticente quanto ao aguardar ainda o domingo, mas Christina intervém:
— Também peço que fique, Helena. Hoje é um dia muito importante para todos nós. Não só Olek está na Abadia, como papai insiste em seguir só ao encontro...

Nicolai olha com reprovação para Christina, que interrompe a sua argumentação. Não entendia o porquê da filha estar tão temerosa com a sua ida ao encontro, nem a razão dela tentar interferir desse modo em suas atividades, a ponto de questionar-se intimamente se fizera bem em ouvir Lidja quanto a chamar a filha para atuar junto de si, com maiores responsabilidades com a confraria. Afinal, ela acabara de deixar de ser uma menina...

Todavia o apelo de Christina sensibilizara Helena que, para a satisfação de todos, decide ficar até que Igor possa acompanhá-la na viagem de volta. Josef então convida Nicolai para conversar no jardim. Com a ausência de ambos, Christina aproveita para falar com Igor e Helena sobre as suas preocupações com Nicolai, tentando achar argumento para que este não seguisse ao encontro com o Ancião.

Sem ser notada, da porta da cozinha Mirika observa o que falam os jovens.

¤

Após atravessarem o pátio do monastério, por um caminho de pedras brancas ladeado à esquerda por uma muralha de pedras negras e à direita uma pequena cerca que separava a estrada de um bosque, passam por um portal e entram num dos grandes edifícios da Abadia. O monge agora leva Olek por um vasto corredor, até abrir uma das portas à esquerda, que dava para uma saleta ornada apenas com um genuflexório defronte a uma cruz de madeira negra, presa na parede de pedras. A luz do dia penetrava apenas por pequena abertura retangular na parede oposta, fazendo assim com que a claridade incidisse diretamente sobre o crucifixo, causando poderoso efeito em quem penetrava na sala.

O monge fecha a porta atrás deles, pedindo a Olek que desse um passo para trás, encostando-se nela. Olek atende ao pedido. Jan vai até o genuflexório e o move suavemente para o lado, até que se ouça o engatar de uma engrenagem, quando então ele inclina a seguir o móvel, puxando-o em sua direção. Ao executar este movimento, Olek surpreende-se com o movimento da laje de pedra existente entre o móvel e a cruz, que abre um vão no piso, permitindo-lhe vislumbrar uma escada em descenso. Admirado, ouve a insólita explicação do monge:
— Vamos por aqui, assim pegamos um bom atalho.

Eles descem uma escadaria de três ou quatro metros até atingirem o início de dois túneis, iluminados por archotes. O monge toma um deles pela mão e segue pelo túnel da direita. Olek o segue, mudo. Logo entram por outra bifurcação mais estreita, e o monge comenta, com naturalidade:
— Como acabávamos de falar lá em cima, Tyniec foi alvo de muitas agressões através dos séculos. Os monges então desenvolveram estes caminhos subterrâneos a fim de melhor poder resistir aos invasores. Alguns túneis são mais antigos que a Abadia, sendo construídos quando aqui ainda era uma fortaleza.
— Mas onde isto vai dar?
— Num lugar seguro e agradável. Como sabíamos que o irmão Piotr corria perigo, nosso prior achou por bem abrigá-lo com a maior segurança que pudéssemos oferecer.
— Irmão Piotr?
— Desculpe-me mais uma vez. É que é assim que nos referimos a Miroslaw aqui na Abadia. Desta forma nem seu nome é pronunciado inadvertidamente. O Monastério é parcialmente aberto a visitações, então temos que tomar precauções em dobro naquilo que desejamos manter a devida reserva.

Sem muito entender, Olek apenas assente com um sinal a seu interlocutor, que logo aponta para o pé de uma escada, e ainda sorrindo, anuncia:
— Pronto. Chegamos aos aposentos do irmão Piotr, que estão ao final dessas escadas.

Olek sente a ansiedade tomar conta de si enquanto subiam as escadas. Todos aqueles cuidados aguçavam sua mente, e a iminência de encontrar o homem encoberto com tanto mistério, e que segundo Nicolai e Josef fora contemporâneo e melhor amigo de dziadzio Julek, inexplicavelmente o afligiam. Melhor amigo? Mas ele conhecia os amigos do dziadzio, no entanto não conseguia recordar-se de nenhum Miroslaw. Ele poderia mesmo ter algumas respostas para dúvidas que Olek trazia sobre seu próprio destino.

Nota, pela quantidade de lances que subiam, que já estavam novamente acima do solo. A escada termina num alçapão. O monge se antecipa a Olek e puxa ritmicamente uma discreta corrente que o ladeia. Ouve-se um tilintar logo acima, e momentos depois um ruído de tramelas. Logo o alçapão era aberto e dois monges os recebem em silêncio. Jan sinaliza a Olek para que o acompanhe deixando-o diante de uma porta, dizendo:
— Aqui está. Vamos deixá-los à vontade para que conversem, como nos foi pedido. À hora da refeição viremos buscá-lo. Estes são os guardiões do irmão Piotr, e ficarão aqui nesta ante-sala. Sua cela para o pernoite já está pronta. Caso deseje recolher-se a qualquer hora, basta pedir. Eles me chamarão e eu o levarei até lá. Quanto aos demais horários do Monastério, creio que o próprio irmão Piotr o informará.

Dizendo isso, Jan volta para as escadas e Olek o vê desaparecer, fechando-se o alçapão. Feito isso, os dois monges que o recepcionaram sentam-se em silêncio. Olek cumprimenta-os com um leve movimento da cabeça e eles lho retribuem da mesma forma. Olek volta-se para a porta, anunciando-se com um leve bater.

Iria, enfim, conhecer Miroslaw Tchenka, e desvendar os segredos que esse homem trazia.