Mar de Olek
IV - Warszawa
O guinchar das rodas faiscando nos trilhos soma-se ao apito do trem, e anuncia a chegada à Estação de Warszawa. A viagem fora algo como um passeio pelo seu passado, dando a Olek a oportunidade de reviver muitas coisas, provocadas pela presença de Andrzej, que embora o tenha intrigado com o enigma, deixara-o muito feliz. Considerou um bom presságio encontrar um parente na viagem de volta, depois de ter passado tanto tempo sem notícias deles.
Olek compõe-se rapidamente, e apanha sua bagagem. A ansiedade toma conta dele, que corre os olhos entre as pessoas em busca do irmão, entre os tantos presentes a aguardar a chegada do trem.
Grande era o movimento da Estação Ferroviária de Warszawa àquela hora da manhã, e Olek inicia o seu reconhecimento. As recordações do que vivera na Capital da Polônia ficavam mais vívidas a cada minuto. Quando chegara lá, em 1976, ainda um rapazote, inconformado com a morte de seus entes queridos, às impressões sobre a cidade reagira de maneira diversa. Fica admirado ao perceber o tempo que passou desde então. Pensa em quantas coisas haviam ocorrido em sua história. Ao passar pelos portões forte foi a sensação de que retomava o seu caminho, e isto lhe causa um rápido calafrio. Deixa as malas no chão, ao seu lado, e fica estático, volvendo apenas cabeça e olhos, até localizar o irmão caçula. Grita.
— Victor! Victor! Aqui!Como Victor não o escutasse, Olek solta um assovio elaborado: três silvos longos, o segundo mais agudo, o terceiro em meio-tom, e um breve, sinal pelo qual se reconheciam desde a infância, ao imitar o apito dos navios, como seu pai ensinara. Agita os braços, freneticamente, para que o irmão o localize.
— Olek!
O irmão acena e corre ao seu encontro.
Abraçam-se com força, beijam-se as faces, a matar a saudade de anos. Saem da Estação e seguem para a casa de Victor, deixando para trás a sensação ruim das mal cuidadas cercanias, herança do abandono dos últimos anos da cortina de ferro. Seguem para a cidade velha, histórica, agora restaurada. Foi um renascimento lento aquele, após a destruição causada pela Segunda Grande Guerra, legiões de voluntários reconstruíram o cenário totalmente devastado pelas bombas alemãs. À medida que se penetrava no lado antigo da cidade, ia se descortinando o obstinado espírito de luta de seus habitantes.A terra que gerara o mito dos ancestrais Warsa e Sawa não fora sempre a capital da Polônia. Antes dela, a verdadeira “Cidade dos Reis”, Kraków, era a cabeça do reino, e muito mais remotamente, Lodz . Warszawa, denominada até o século XVII como Warszowa (aldeia ou propriedade de Wars), fora o feudo de Warsz, do clã Rawa, que teria recebido tais terras em doação do príncipe, por volta do século XIII. A biografia de Warsz, no entanto, até hoje é desconhecida, assim como os motivos que determinaram a doação, mas o que se sabe é que este clã derivava de um poderoso clã tcheco, os Vrsowców que, perseguidos, lá teriam encontrado refúgio. A aldeia teria crescido a partir da construção de uma estalagem real e, posteriormente, de um Palácio, primeiramente erigido com o intuito de abrigar a realeza, quando esta se encontrava em viagem rumo ao Báltico. A situação geográfica de Warszawa, mais central que Kraków, e localização na baixada do rio Kamionka, junto ao vale sobre o Vístula, favoreceu que a capital fosse para ela deslocada, permanecendo assim até nossos dias.
— Você ainda mora no mesmo apartamento, Victor?
— Não, Olek. Estamos indo para a praça da Stara Miasto . Agora estou instalado lá, onde consegui montar meu próprio estúdio. Não é lá grande coisa, continuo tendo de fazer coberturas de casamentos e batizados e formaturas para sobreviver, mas pouco a pouco estou conseguindo trabalhos melhores.
— Vamos passar no estúdio antes?
— É lá que eu moro, também. Consegui me adaptar, morando no andar acima do estúdio, economizando assim um bom dinheiro. Você vai gostar.
— Mora sozinho?
— Sozinho, sempre. Acho que não nasci para dividir espaços. Comenta, com meio sorriso, Victor.¤
Ficaram em silêncio. O tanto que tinham a dizer um para o outro era atropelado pela emoção do encontro. Olek se sabia diferente do irmão caçula, agora um jovem fotógrafo de vinte e dois anos. Olek preferiria não ficar só, mas a vida o levara a viver assim.
Olek pretendeu, a certa época, compartilhar sua vida, que se tornara solitária desde que perdera o avô e o pai, e também deixara a família para estudar em Warszawa, ainda adolescente. Quase quatro anos depois de estar separado de todos, estudando na capital da Polônia, recebe seu irmão Victor e seus dois primos, Tadeusz e Maricha, que também vieram para a capital, a fim de aperfeiçoar seus estudos, e encontraram um Olek fechado e só. Ambos eram filhos de seu tio Andrzej. Desde que Olek e Maricha se reencontraram, seus olhos e corações não conseguiram se afastar. Não demorou muito para que esse reconhecimento se transformasse em um romance, em uma intensa paixão, sob a declarada reprovação de Tadeusz, pelos pretensos laços familiares que os uniam. Por conta disso, Olek, que desde a infância se ressentia da antipatia que o primo nutria por ele, tivera sérios desentendimentos com Tadeusz, pois sabendo Maricha adotiva, não via nenhuma mácula no sentimento que nutriam. Maricha, no entanto, carregava dentro de si uma ambivalência, o que por vezes trazia conflitos para aquele amor.
O romance, porém, termina abruptamente quando Maricha, violinista, passa em um teste em Berlin, sendo chamada a integrar a Escola de Música daquela capital. Ela partiu, deixando Olek dividido entre tê-la ao seu lado ou vê-la se realizar na carreira. Desde que ela se fora para a Alemanha, as cartas que trocavam rareavam, e as dela não mais continham juras de amor, mas anseios de vida, de carreira, de um futuro que não os projetava juntos. No ano seguinte somente tivera algumas notícias dela através do tio. O primo, obviamente, nada dela falava com Olek, e Victor pouco sabia. E assim Olek abandonou a esperança de que um dia reatassem, guardando dentro de si este amargor. Decorridos dois anos da viagem dela para Berlin, chegou a notícia que Maricha havia se casado com seu professor de música, o maestro da orquestra que ela agora integrava.
Nessa mesma época, Victor e Tadeusz partem para Gdansk, atraídos pela efervescência do recém fundado Solidarnosc , enquanto Olek, pelos estudos que concluía, volta a ficar só em Warszawa, mas também se envolvendo com a luta de Lech Walessa e dos portuários do Estaleiro Lenin, apoiando suas reivindicações e disseminando suas idéias na capital. Nessa época de esperança e temor, as pressões do poder dominante se mostravam crescentes, chegando a culminar na prisão de Victor e de Tadeusz, durante uma manifestação no Porto. Olek, em Warszawa, interveio a favor do primo junto a autoridades, conhecidas suas, e em pouco tempo eles foram libertados. Era assim: Victor e Tadeusz militavam em Gdansk, enquanto Olek articulava e contemporizava na capital. Isto seguiu assim por algum tempo, até o episódio da prisão dos dois. O amigo do Partido Comunista que Olek procurara condicionou libertar os dois parentes e arquivar seus processos caso Olek deixasse de militar pelas reformas, saindo de Warszawa. Olek cedeu à condição, o que aliou à oportunidade de fazer seu mestrado em Moscou. Ele vai embora tão logo consegue emprego em um jornal da capital russa, o que lhe garantiria o sustento. A distância fez com que não mais acompanhasse as atividades de Victor e Tadeusz, quando este último, não sabendo da condição imposta, acusou Olek de abandonar a luta, o que o magoou profundamente. Assim a família, que ele tanto prezara na infância, se dispersava de vez, e ele se viu só e fora de sua pátria.
Ainda mergulhados na quietude, Olek a observar as transformações da cidade durante o trajeto, chegam ao estúdio de Victor. Lá o irmão acomoda Olek e se despede, saindo para fazer fotos em uma fábrica.Ao entardecer, Olek resolve dar uma volta na cidade velha. Caminhava vagarosamente, como a recuperar as referências adquiridas nos anos em que ali vivera. Estranhamente sente-se observado, não logrando identificar quem o faz. Vem-lhe à mente um dos conselhos de Andrzej – o furtar-se aos olhos da noite. O que será que ele queria dizer com aquilo? Que olhos seriam esses que o perseguiriam? Intriga-se. Já escurecia. Retorna, então ao estúdio, onde Victor já o esperava.
— Olek!
— Victor!Olek pensa em comentar a sensação que tivera enquanto passeava, e as coisas que o tio lhe dissera na viagem, mas não tem chance, porque o irmão exclama:
— Teremos hoje um jantar muito especial! Você não imagina quem me procurou hoje, na fábrica.
— Não faço idéia, Victor.
— Tadeusz, nosso primo! Há tempos ele também regressou de Gdansk para trabalhar ali, como assistente, e desde a semana passada foi promovido a gerente geral da fábrica onde fui fazer a sessão de fotos. Não é ótimo?
— Tadeusz..., veja só...Olek reflete se o primo havia amadurecido, ou ainda tentaria competir com ele, como sempre fez desde a infância, relembrando também os graves atritos que tiveram no passado por conta de seu romance com Maricha e depois, quando Olek resolveu fazer seu mestrado em Moscou. Seria interessante reencontrá-lo agora, e saber como se comporta.
— Combinei um jantar para hoje, e eles nos encontrarão no restaurante do hotel.
— Eles? Vai mais alguém?
— Sim, ele e Maricha. Ela está em Warszawa.
— Maricha?
Olek estremece. O tio, seja lá de onde estivesse vindo, sabia que ele iria encontrar Maricha em Warszawa, por isso enviara um recado. A perspectiva de rever Maricha o desconcerta. Era como se tudo que os dois viveram no passado voltasse numa lufada de vento que lhe toma o peito por assalto. Emudece. Victor, notando o efeito causado pela notícia, complementa-a dizendo que ela havia se separado do marido, e o olha de forma divertida. Mas Olek não reage bem ao gracejo do irmão, sentenciando:
— Isso já é uma história muito antiga, Victor. Melhor não tocar mais nessas feridas.Em seguida Olek, dizendo-se cansado da caminhada, informa ao irmão que irá descansar um pouco antes do o jantar, subindo as escadas. Victor não deixou de notar o abalo do irmão, e arremata que seria melhor mesmo que ele descansasse um pouco, e vai tratar dos seus afazeres no estúdio.
Chega o horário do encontro. Os irmãos seguem para o restaurante, onde Tadeusz e Maricha já os aguardavam. Alcançam a mesa e os dois se levantam para os cumprimentos. Tadeusz saúda Olek com um rápido abraço, perguntando se ele havia enjoado de Moscou, para haver regressado agora que as coisas passavam a se acalmar, o que foi respondido com apenas um sorriso. Olek não pretendia polemizar. Enquanto Victor e Tadeusz trocam algumas palavras sobre o encontro da tarde, os olhos de Maricha e Olek se encontram, e por breves segundos eles não sabem como agir, até que finalmente se abraçam, resgatando algo do afeto que se perdera no tempo e nas histórias de cada um. Sentam-se, e logo atendendo ao ansioso garçom que ante eles se perfilara desde a chegada, escolhem os pratos, e a conversa segue animada, quando Tadeusz pergunta a Olek:
— Então, Olek, quer dizer que agora, enfim, você resolveu voltar ao lar, não é mesmo?
— Verdade, primo, devo ficar aqui em Warszawa por algum tempo, e depois me fixar, talvez, em Kraków.
— É mesmo? E o que decidiu fazer?
— Trabalhar na minha área, Geografia. Tenho que definir algumas coisas ainda, mas quando da minha viagem para cá pude colocar muitas idéias em ordem. E devo muito disso aos conselhos que recebi de tio Andrzej.Ouvindo isso, Maricha indaga, com uma surpresa visível:
— Papai? Você mantinha contato com ele quando estava em Moscou?
— Não, Maricha. Enquanto estive lá, exceto por Victor, não falei com mais ninguém da família. Encontrei wujek Andrzej no trem. Imagine só, depois de tantos anos, nos reencontramos justamente quando eu voltava para cá.O comentário de Olek cai como uma bomba entre os presentes que, estupefatos, olham para Olek, que em seu entusiasmo nada nota, prosseguindo em seu relato:
— A certa altura da viagem ele chegou e sentou-se ao meu lado. Bastaram alguns segundos para que nos reconhecêssemos. Foi incrível. Conversamos muito, ele até me propôs um enigma, como fazia conosco antigamente, naqueles dias frios na casa do dziadzio Julek. Aliás, ele pediu a mim, Maricha, que caso eu lhe encontrasse, eu lhe dissesse que... como é mesmo? Ah! Que ele agora compreende muitas coisas e está em paz!
Olek iria prosseguir ainda, mas se detém ao finalmente observar a incredulidade no rosto dos presentes, e que a mesa, que se destinava a ser festiva, ficara repentinamente tensa. Maricha tinha os olhos úmidos, e estava totalmente quieta. Tadeusz ficara lívido, e Olek, constatando tais coisas, olha interrogativo para o irmão, que se levanta, pede desculpas aos demais e a Olek que lhe acompanhe. Olek, sem entender nada, segue o irmão, que o leva até o banheiro e fecha a porta. Descontente, pega no braço do irmão e indaga:
— O que você está pretendendo fazer, Olek? Por que isso?
— Isso o quê, Victor?
— Falar estas coisas do wujek Andrzej?
— Ora, são os filhos deles, afinal! Por que não falaria? Eu o encontrei no trem e ficamos a conversar, e ele efetivamente mandou este recado, e me falou muitas coisas! Eu ia até lhe contar antes, mas nossa conversa tomou outro rumo. Por que a surpresa?
— Isso não pode ser verdade, Olek!
— Mas por que não, Victor? O que está havendo?
— Você não soube?
— De que?
— Não recebeu o telegrama que lhe mandei para o Jornal, há duas semanas?
— Não recebi nada. Já faz duas semanas que eu saí do jornal. O que dizia?
— Eu pensei que soubesse, sobretudo quando mandou o telegrama informando de sua chegada.
— Mas o que isso tem a ver com meu encontro com wujek Andrzej durante a viagem? Por que não pode ser verdade?
De um modo grave e pausado, Victor responde:
— Sinto muito que não tenha sabido antes, mas nosso tio morreu há duas semanas aqui em Warszawa, depois de internado por mais de um mês, lutando contra um câncer. Por isso não é possível que você tenha encontrado o Wujek Andrzej na viagem.
Olek fica completamente aturdido com a noticia da morte de Andrzej.
— Meu deus, Victor! Mas eu juro a você que falei com ele...
— Depois, em casa, continuamos essa conversa. Vamos voltar para a mesa, diga que deve ter sido um sonho, ou sei lá o que, mas vamos consertar isso agora...Olek aquiesce a contragosto ao pedido do irmão, e retornam para a mesa. Ao se aproximarem ele vê o brilho dos olhos úmidos de Maricha, que fixamente o observam, e sente em cada poro a raiva estampada na face de Tadeusz, como se o acusasse de ter ofendido a memória de Andrzej. Não sabe o que dizer, só conseguindo perguntar como tudo aconteceu. É o irmão que lhe responde, depois de falar aos primos que Olek não recebera em Moscou a notícia da morte do tio:
— Há dois meses wujek Andrzej veio para Warszawa, pois ficava seguidamente enfermo. Isso na verdade já vinha acontecendo por um ano inteiro, mas ele sempre se recusava a consultar um médico, atribuindo à idade o seu mal estar. Como passou a piorar a cada dia, após muita insistência dos amigos em Lowicz , veio para cá fazer exames e me procurou. Eu cheguei a hospedá-lo lá em casa. Quando soube que ele enfrentava um câncer já avançado, e conhecendo a resistência que ele sempre teve para se submeter a tratamentos médicos, tentei localizar Maricha, que estava em tournée com a orquestra, descobrindo que ela apresentava-se em Viena. Quando ela soube, pediu para ser substituída e veio para cá, chamando Tadeusz e cuidando de Andrzej, no antigo apartamento, até a sua morte, quinze dias atrás.Olek, diante da história, percorre os olhos entre os presentes e diz, chocado:
— Eu não entendo, eu não consigo entender! Eu o vi. Eu falei com ele! Eu juro a vocês. Eu viajava totalmente alheio, voltado para a janela, quando dei por ele sentado ao meu lado. Falamos de tantas coisas, coisas belas, ele me deu conselhos... Somente não me despedi dele porque acabei por adormecer, quando silenciamos recordando dos nossos tempos na casa de dziadzio Julek. Quando despertei...Antes que continuasse, Olek é rispidamente interrompido por Tadeusz que, vendo como sua irmã se emocionava com a história, levanta e, dedo em riste, dirige-se a Olek com toda a aspereza que lhe era peculiar:
— Agora chega! Não sei, nem quero saber, o que você sonhou nessa sua viagem, Olek, porém tem o direito de brincar com a memória de nosso pai! Não sei o que pretende, mas isso está indo longe demais!Maricha intervém, segurando o braço do irmão, que silencia, mantendo-se de pé, os olhos em faísca fixados em Olek. Sabendo de todos os conflitos que tiveram desde a infância, Victor tenta contemporizar, convidando o primo a se sentar novamente, e insiste no telegrama que mandara, tentando atribuir a um sonho de Olek o encontro com o tio. Olek responde:
— Não, não recebi nenhum telegrama, já lhe disse. Não sei explicar o que houve, mas sei que não foi sonho!Não sabendo mais o que argumentar, sentindo-se acuado, Olek afirma não estar muito bem, levantando-se. Victor faz menção de acompanhá-lo, mas Olek pousa a mão em seu ombro, fazendo com que permanecesse sentado. Olhando a todos na mesa, pede desculpas pelo ocorrido e então se retira.
Descendo os degraus de acesso ao restaurante e chegando à rua, Olek começa a andar a esmo. Sua mente está confusa. Seria uma aparição? Um sonho? Não. O encontro com tio Andrzej fora real, tão real quanto o frio que sentia castigar-lhe o corpo, naquela noite de lua minguante que se mostrava escura como sua alma.
E quanto às advertências do tio? E a sensação de ser observado, que persistia até esse momento? Aqueles pensamentos o fazem olhar à sua volta, e involuntariamente para cima. Será que wujek Andrzej o observava? E o enigma? Como mesmo fora formulado o enigma? Saberia fazer, como o tio dissera, as perguntas certas? Conseguiria decifrá-lo? Maricha talvez pudesse ajudá-lo a entender tudo isso, ele mesmo afirmara...
Confusos também estavam seus sentimentos, pois reencontrar Maricha o abalara. Continua andando em frente, sem se dar conta. Segue assim até ouvir uma suave melodia, uma voz feminina acompanhada de um violão, vinda de uma taverna. Resolve entrar. O lugar tinha poucos freqüentadores: um homem bebendo, solitário, no balcão, num canto três amigos conversando animadamente e um casal, em uma mesa afastada, a trocar carícias. Escolhe uma mesa distante de todos e pede uma bebida. Uma senhora atende-o de maneira indiferente, trazendo uma garrafa de vodka e um copo, além de uma tigela contendo castanhas e passas.
Olek queda-se pensativo, a beber devagar, ouvindo a música, pondo-se a rememorar tudo que ouvira do tio na viagem. Estuda as palavras, as frases, anotando-as num guardanapo, mas não consegue atribuir um sentido exato para elas. Refletia emotivamente, ainda sob o choque dos acontecimentos no restaurante. A bebida, o cansaço, os pensamentos e as emoções tiram Olek de seu prumo. As palavras ficam soltas, percorrendo seu ser. A música que tocava na taverna adquire uma celeridade ritmada, as canções protestam perdas e traições, e isso tudo lhe dá a sensação que sua cabeça gira. Ele sente um leve enjôo, seus braços e pernas entorpecem, a sua visão torna-se turva, as frases dançam em sua mente: — Não se prender a nada..., pessoas novas surgindo..., os segredos de Julek..., promessas fúteis..., distinguir... distinguir, olhos ocultos na noite, súplicas do templo, meio do caminho, rumo devido, mistérios, lenço verde... lenço verde, compreender as perguntas, muitos mares, o meu mar, o deserto, o enigma..., Maricha... Maricha!
V – O OBSERVADOR
Olek acorda com dificuldade, a cabeça pesa, demora para ter a exata noção de onde se encontra. Lentamente percebe que está em roupas de dormir, acomodado em uma cama estreita. Abre os olhos, percorrendo o pequeno quarto, o corpo ainda dormente, somente a cabeça em leve movimento. Começa então a se situar, colocando ordem nos fatos ocorridos a partir de sua chegada a Warszawa. Nesse ínterim, Victor entra no quarto, sorrindo para Olek.
— Finalmente acordado, irmão?!
E prossegue no seu tom brincalhão:
— Mas que belo pifão... pensei que ia dormir por mais um dia!
— Mais um dia? Que horas são? O que aconteceu?
— Levante-se daí e venha tomar um café, que então conversamos. Você precisa se alimentar senão adoece. Vista este roupão, eu o espero lá embaixo.Olek sai das cobertas com preguiça. O frio da manhã atinge seu corpo, e ao se levantar tem a ligeira impressão que a sua cabeça vai amassar o resto de seu corpo, ou dele vai se desprender. Constata, ante o espelho do banheiro, o seu estado lastimável. Lava-se e vai ter com o irmão na cozinha, nos fundos do estúdio.
— Sente-se, Olek, e coma algo.
— Está bem, mas conte-me o que aconteceu. Estou me sentindo péssimo, como há muito não acontecia.
— Vou contar, sim. Depois que você saiu do restaurante, fiquei lá com Tadeusz e Maricha, tentando explicar sua atitude e amenizar a cólera de Tadeusz. Consegui convencê-los a ficar e jantamos, sem ânimo, é verdade. Depois os deixei em casa e vim para cá. Como você ainda não havia chegado, resolvi esperá-lo. Comecei a ler e terminei por adormecer na poltrona do estúdio. Um pouco antes do amanhecer, acordei com um estrondo na porta, e lá estava você, sentado no beiral, praticamente desacordado.
— Desacordado? Como assim? Como vim parar aqui, então?
— Ao ouvir o barulho na porta apressei-me em abri-la, e deu para ver um táxi virando a esquina. Se você não sabe como veio para casa, muito menos eu...
— Imagine, Victor! Não lembro de nada disso! O que mais aconteceu?
— Depois que eu o recolhi você despertou levemente, então pude ajudá-lo a se trocar e o deitei.
— Que horas são?
— Nove da manhã.
— Ah, então nem dormi tanto assim, Victor, não seja exagerado. A que horas da madrugada eu cheguei?Victor faz aquela sua expressão zombeteira e sentencia:
— Isso foi na madrugada de ontem, Olek. De ontem. Você esteve dormindo por um dia e noite inteiros.
— O quê? Que coisa estranha..., não consigo lembrar de absolutamente nada dessa noite, depois que saí caminhando do restaurante e entrei numa taverna. Nunca fiquei nesse estado!
— Qual taverna?
— Eu saí andando por aí. Queria pensar, entende? Não lembro em qual taverna entrei, acho até que nem saberia voltar lá hoje.Victor meneia a cabeça, e Olek fala dos incidentes da noite anterior:
— Eu falei mesmo com wujek Andrzej durante a viagem, Victor! Tem de acreditar, eu sei que não foi um sonho!
— O que acha que foi, então? Um fantasma? Uma aparição do além?
— Não sei o que pensar, Victor. Este episódio lembra-me até algumas das histórias que dziadzio Julek contava de entes queridos que voltavam para avisar as pessoas que corriam perigo.
— Histórias para crianças, Olek. Mas diga-me o que aconteceu, o que vocês conversaram.Olek então se põe a contar ao irmão o encontro, com todos os detalhes que recordava. Quando termina, Victor comenta:
— Não sei o que pensar. É incrível, e até ele ter mencionado que Maricha estava em Warszawa. Você não tinha como saber isso!Nesse momento o tilintar do sino, preso à porta de entrada, denuncia a chegada de um cliente e, quando Victor vai atendê-lo, ainda comenta com o irmão:
— De qualquer forma, é uma grande história. Eu se fosse você a escreveria, para não se esquecer dos detalhes.
Olek retruca, dizendo que irá seguir o conselho.O café devolvia a Olek suas forças, e quando o irmão retorna do estúdio para a cozinha, pergunta-lhe o que aconteceu depois que saiu do restaurante.
— Nós três conversamos. Tadeusz achava que você estaria zombando, fazendo pouco caso da dor deles.
— Mas, por Deus, Victor, por que eu faria uma coisa dessas?
— Dizia ele que você fez isso para impressionar Maricha, ou talvez para se vingar deles... parecia estar um pouco perdido.
— Que absurdo! Então foi isso que ficaram achando de mim? Que eu voltei apenas para me vingar e fazer troça?
— Não, Olek. Também não é assim. Você e Tadeusz não perdem oportunidade para se atritar, não é? Sempre foi assim... Acredito que depois ele compreendeu que você não teve má intenção nenhuma, e Maricha foi, muito mais do que eu, a responsável por fazê-lo entender isso.
— Mesmo assim, por que esta implicância comigo?
— Acho que desta vez o problema não era com você, exatamente.Victor se põe a explicar as razões pelas quais ele achava que Tadeusz fora tão agressivo durante o jantar. Entendia que ele teria coisas não resolvidas com Andrzej, quando este faleceu, e que agora tinha que conviver com isso.
Quando Olek questiona que assuntos seriam esses, Victor explica que na mesma época que Olek havia ido para Moscou, Andrzej passara a viajar muito, a participar de muitas reuniões, e Janina implicava que ele tinha outra mulher, acusando-o até de que Maricha era sua filha com outra, e que tolerara a história estes anos todos por amor à família e ao filho que tinha que criar. Não era verdade que ele tinha outra mulher, pelo que Victor sabia, e muito menos que Maricha fosse sua filha de sangue, mas a situação entre eles teria ficado tão ruim que terminaram por se separar, e o tio foi morar em Lowicz, sozinho, enquanto a tia veio para o apartamento daqui, o mesmo em que moramos quando viemos para cá estudar. Naquela época, Tadeusz, acreditando nas acusações da mãe, culpou Andrzej de ter abandonado Janina e o insultou gravemente. Depois disso pai e filho não mais se falaram, e é por isso é que Andrzej me procurou, e não a Tadeusz, quando veio para Warszawa se tratar.
— Entendo... Tadeusz sempre foi bem mais apegado à mãe que ao pai.
— Isto é verdade. Mas fiquei sabendo por Maricha que Tadeusz se recusou a visitar o pai, mesmo quando ele já estava internado. No dia em que finalmente resolveu fazer-lhe uma visita chegou tarde, pouco tempo depois dele haver falecido. Agora carrega esta culpa.Olek silencia, penalizado com a situação do primo, vítima do próprio erro e do seu orgulho doentio. Resolve nada comentar sobre Tadeusz, perguntando:
— Sim, e Maricha? Como ela estava quando os deixei?
— Ela pareceu entender, desde o princípio, que de uma forma ou de outra você viveu o que nos contou.
— Ao menos ela parece acreditar...
—Ah! Estava esquecendo! Ela veio aqui ontem, para ver como você estava. Mas não havia meios de acordá-lo. Ela pediu para você ligar quando melhorasse.Victor pega sua agenda, copia um número numa folha de papel, entregando-a a Olek. Este, balançando a cabeça, diz que irá ligar para Maricha tão logo se arrume. Sobe, enquanto Victor atende o estúdio.
Demorou-se no banheiro. Fez a barba, tomou um banho prolongado, escovou os dentes com esmero. Olhou-se no espelho e achou o resultado razoável, comparado com a sua aparência ao levantar. Embora ainda abatido, tendo no rosto alguns sinais da ressaca, sentia-se melhor.
Voltando ao estúdio, liga para Maricha, marcando um encontro à tarde, nos jardins do Caminho Real, proximidades do Palácio de Wilanow, a antiga residência da família real polonesa. Depois vai auxiliar Victor na revelação das fotos que tirara na véspera. O irmão mostra as que já havia revelado: usara filmes em preto e branco, com esmero nos jogos de luz, que desvendavam a arte por detrás do documentário fotográfico. Olek admira o trabalho do irmão, aquele caçula cuja passagem da infância para a adolescência deixara de testemunhar. As lembranças que tinha dele ou eram de uma criança ou depois, já de um jovem estudante, quando se reencontraram em Warszawa. Victor crescera, tornara-se um excelente profissional e um bom homem, pensa, com certo orgulho.
¤
Logo após o almoço, Olek se despede de Victor e vai passear pela cidade, até a hora do encontro com Maricha. Tinha saudades de Warszawa, queria vê-la, absorvê-la. Na verdade não era o único motivo de sua saída com tanta antecedência, mas não admitiria nem a si mesmo que estava agitado demais para permanecer quieto até a hora do encontro. Atravessa lentamente a praça do mercado até chegar ao início do Caminho Real, que o levaria, por sua vez, aos jardins onde se encontraria logo mais com Maricha. Atento, desta vez nota que, ao longe, alguém estaria fazendo o mesmo caminho que o seu. Fica intrigado, entrando numa casa de cafés, pedindo um café, observando atenta, mas discretamente, os passantes, e mais de um lhe pareceu suspeito. Dá de ombros, e admite que poderia ser mera impressão, mas os anos vividos como estrangeiro em Moscou fizeram com que conservasse sempre os sentidos em guarda.
Toma o café e volta para a rua. Com a atenção redobrada, aumenta a velocidade dos seus passos, e acaba por identificar as passadas de quem lho segue, e continua, sem alarde.
Chegando aos jardins para os quais se dirigia, ao passar pelos primeiros arbustos, subitamente se coloca entre eles, aguardando, oculto, que seu perseguidor chegue até ali. No momento que o vulto passa pelos arbustos, Olek puxa-o violentamente pelo braço, encosta-o no tronco de uma árvore, e com o outro braço sobre o peito do algoz, rispidamente pergunta:
— Quem é você? O que pretende ao me seguir?Um par de olhos verdes, assustados, fitam Olek e, flagrado, o vulto emudece, sem reação.
Quando pode observar quem o seguia, também Olek ficou desconcertado, pois percebe que acabara de imobilizar uma mulher, uma bela mulher, contra aquela árvore.
— Solte-me!Olek afrouxa os braços, ao mesmo tempo em que insiste, ríspido, saber porque ela o seguia.
— Segui-lo? Você está louco!O episódio é interrompido por um policial que, de passagem, viu a cena e segura o braço de Olek, afastando-o da mulher, que aproveita para sumir dali, desaparecendo entre os transeuntes. Olek ainda faz menção de segui-la, mas ainda pelo braço o guarda o detém.
— Ela se foi. Agora me explique muito bem o que acontecia aqui, enquanto mostra seus documentos.
Peremptório, o policial deixava claro que Olek não iria seguir a moça. Sem saber o que fazer, e ciente de que o policial não acreditaria que ela o estava seguindo, ele termina por apresentar os seus documentos, afirmando que tudo não passava de uma briga de namorados.
— Está certo..., vou acreditar na sua história, mesmo porque ela não ficou aqui para confirmar. Mas desse modo você dá razão para a moça não querer a sua companhia. Vá embora, e da próxima vez que eu o pegar se comportando dessa maneira terá que dar explicações não para mim, mas para um Juiz, entendeu bem?
Desolado, Olek aquiesce, desculpando-se e se despedindo do policial com um sorriso amarelo.Coisas estranhas lhe aconteciam desde que partira de Moscou. Não acreditava que seriam devaneios seus, mas o que simplesmente pressentia ocorrer ao seu redor ainda não chegava à sua compreensão. Guardava a certeza de que conversara com Andrzej, e não simplesmente sonhara. Sabia que havia sido seguido, a ponto de surpreender aquela mulher. Sabia que algo ia se descortinar à sua frente, mas essas coisas ainda estavam no que considerava seu mais tênue nível de percepção, meros sinais de alerta que luziam em sua mente.