Mar de Olek

 

 


Olgierd Sokolowski

 

 

XXXI – O cativo

Fiodor não mais sabia quantos dias, exatamente, haviam se passado desde que fora internado pelo ancião naquele lugar estranho. Nos primeiros sentiu-se fraco e sonolento para qualquer reação. Era assim que se via: como Fiodor, como sua tia o rebatizara, por mais que soubesse que carregava a sina de Alex Benk. Apenas dormia e se alimentava. Ficara numa espécie de suíte, paredes altas, nada parecida com uma cela, mas da qual não tinha por onde sair: a porta sempre trancada e as janelas lacradas com tijolos, e no banheiro apenas um pequeno respiro no centro do teto. Ficou por quase uma semana no mais completo isolamento, sem ter contato com quem quer que seja. Os alimentos eram passados por pequena abertura por baixo da porta regularmente, supunha, e isto o ajudava a manter uma vaga noção de tempo, marcando discretamente um risco na beirada da cama de madeira maciça, a cada uma das refeições que recebia. Da higiene cuidava no banheiro privativo, menos a barba, que não tinha como aparar. Ele sabia que tudo deveria fazer para manter-se equilibrado, apesar do insulamento a que fora submetido. Passados os primeiros dias, quando já se sentia fisicamente melhor, por uma única vez fora visitado pelo Ancião, que se mostrara sinceramente interessado por sua recuperação, fazendo com que um médico o examinasse. Nessa ocasião fora muito atencioso. Deixou sobre a mesa alguns livros e discretamente incentivou Fiodor a lê-los, e ainda afirmou que ele estava lá para ser preservado da fúria do Sacerdote enquanto se recupera, e para entender melhor tudo que aquela fraternidade representava. Disse para ele manter-se calmo e paciente, que logo sairia dali e alcançaria a sua liberdade. De fato, quando se sentiu mais disposto, Fiodor, até por não ter outra opção, dedicou-se à leitura daqueles livros, e constatou que eles historiavam aquela fraternidade, seus objetivos, particularidades, os acontecimentos que marcaram época, e que na verdade tinham por pano de fundo um cisma ocorrido há muito tempo, perdido na história. Quando a leitura se adiantava ele passou a compreender melhor certos atos praticados por aquela fraternidade, mas isto em nada justificava a barbárie da qual sua família fora vítima. Horas, dias se passaram enquanto ele procurava manter o seu prumo, na maioria do tempo lendo, além de se exercitar regularmente, enquanto aguardava que lhe fizessem contato. Fiodor não tinha dúvidas que estava sendo monitorado, talvez através dos espelhos, presentes em profusão no aposento. Descartava assim qualquer tentativa visível e fútil de se evadir daquele cárcere camuflado. Ele pensava que, como estivera à beira da morte, e fora salvo sabe-se lá por que pelo Ancião, o que lhe restava era ler, manter-se alerta, e aguardar que lhe esclarecessem o porquê daquilo. Não devia demorar. Acreditava que a morte não o esperava, pois, caso contrário, eles não teriam tanto trabalho em sua recuperação e instrução. Outro destino lhe estaria sendo reservado – melhor ou pior –, e não fazia a mínima idéia do que lhe aguardava. Restava esperar, esperar e se fortalecer, a fim de ainda lograr a vingança contra aquele que causou a chacina que deixou marca indelével em sua alma. E escravizou seu destino. Não estava resolvido ainda se o Ancião era mais um inimigo, ou se seria justamente o seu grande aliado contra o Sacerdote. Era esperar para ver, e entender melhor aqueles contra quem estava lutando, mais do que já sabia pelo dossiê que elaborara durante anos e cujas ações – e não motivações - compilara, e que era a causa dele estar ali: o dossiê cuja cópia tivera o cuidado de enviar em segredo para Nicolai, e que agora seria o único que por ele poderia intervir – isso caso se importasse, porque Fiodor ainda se lembrava muito bem da maneira como fora posto para fora da casa de Nicolai, junto com Julek Ianovich. Esperava que Nicolai não o culpasse pelas mazelas do filho, pois na verdade sempre tentou, em vão, alertar Julek Ianovich dos males que causava e dos perigos que corria. Mas ele sabia se tratar Nicolai de um homem justo, e que entenderia a sua motivação ao receber o dossiê. Quando flagrado na reunião pelo Sacerdote, este não revelara conhecimento da cópia que enviara à Arkadja, e era somente nisso que se apoiavam as suas esperanças de ser liberto daquele cativeiro.

¤

Apesar de ter racionalizado da melhor forma que podia o seu cativeiro, Fiodor não conseguia, por momentos, fixar sua atenção em nada a não ser em sair dali. Este era um desses momentos, em que prostrado na cama, punha-se a fitar um ponto no nada.

Fiodor, assim absorto, sobressalta-se com o barulho que vinha da porta, mas pressupõe que se tratava de mais uma refeição. Deveria ser o jantar, caso não estivesse perdido nas contas.

Contudo, para sua surpresa, a porta se abre e por ela entra o Ancião. O homem que o acompanhava faz menção de se acomodar, mas foi dispensado pelo Ancião e, não escondendo sua contrariedade, sai do aposento cerrando a porta com alarde. O ancião, após a saída de seu acompanhante, posta-se ao lado da mesa e cumprimenta Fiodor com cerimônia:
— Espero que esteja sendo bem tratado. Precisará estar forte para expiar a sua falta.

Diante do silêncio de Fiodor, o visitante olha demoradamente para ele, e em seguida para o relógio, e comenta, amistoso, já sem o ar solene que ostentara na chegada:
— Fico feliz de ver que mantém o seu equilíbrio, meu rapaz. Isto mostra duas coisas para mim: que você é de boa têmpera é uma delas.

Fiodor observa a mudança. Ainda sem mencionar palavra olha para seu interlocutor, senta-se na cama, como a esperar a outra parte do raciocínio. O Ancião prossegue:
— A segunda coisa é que demonstra um pouco de confiança em mim, ao que parece, senão não agiria desse modo.

Fiodor, após absorver as palavras do Ancião, encara-o e revela seus pensamentos:
— Tenho também dois bons motivos para agir desta maneira, senhor. O primeiro é que, de alguma forma, tenho que dar certo crédito ao homem que me salvou de uma execução vil, só não entendo o que pretende de mim, trancafiando-me nesse lugar.

Agora é a vez do Ancião esperar pela conclusão do pensamento de Fiodor, que demora propositadamente para prosseguir. O Ancião sorri e aguarda, enquanto toma assento em uma poltrona defronte à cama onde Fiodor estava, e o olha passivamente. Fiodor, ao invés de completar o pensamento, pergunta:
— Que dia é hoje?
— Dia?
— É, que dia é hoje: quarta, sábado, que dia é hoje?
— Por que quer saber?
— Por que não deveria?
— Hoje é sábado. Faz mais de uma semana que está aqui, se é o que quer saber.
— E quantos dias mais ficarei? O que pretendem me trancafiando aqui, com estes livros? Por que esta espera sem nexo? A que expiação o senhor se referiu ao chegar?
— Cada coisa tem o seu tempo certo, Fiodor. Falar de expiação foi apenas cerimônia. Esqueça aquilo. Quero saber o quanto leu dos livros que lhe deixei.
— Eu já li o suficiente para entender os motivos de muitos dos atos de sua fraternidade, mas nenhum que justificasse a tragédia que por suas mãos assolou toda a minha família.
— Aquilo foi um erro, pertence ao passado. Uma mancha que...
— Uma mancha que querem apagar? Apenas isso? Apagar e pronto? E quem vai pagar por isso? Quem vai responder pela morte de minha mãe, por meu padrasto? Quem vai responder pela perda de minha identidade, pelos temores que minha tia carregou por todos esses anos? O assassino permanecerá impune, simplesmente?
— Acalme-se. Eu ia dizer... uma mancha que devemos corrigir em nossa história. A mancha a que se refere não tem nome...

Diante da resposta que se construía, Fiodor não se contém e transmuta o sentido da frase que era proferida pelo Ancião, e o interrompe bradando:
— Não tem nome, mas tem um título! Um título pelo qual todos o conhecem, mas cujo nome vocês fazem questão de esconder!

Com semblante e voz graves, o Ancião admoesta seu interlocutor:
— Peço novamente que se acalme.

Fiodor instintivamente entende que aquele pedido, na verdade uma ordem, trazia a carga de uma mensagem subliminar. Então respira fundo e fica olhando para o Ancião. Eles ficam assim por algum tempo sem nada dizer. Por fim o Ancião, a indicar que a conversa terminara, levanta-se, tomando o cuidado de postar-se exatamente onde cumprimentara inicialmente Fiodor, e olha novamente para o relógio, enquanto indaga:
— Sente falta de alguma coisa que possa lhe trazer mais conforto?

Atônito, ainda não completamente refeito do arroubo que tivera, Fiodor responde com a naturalidade que lhe era possível:
— Sim. Preciso de roupas. Não é possível ficar com estas durante o tempo todo, ainda que as lave no banheiro, não secam no tempo certo. E também instrumentos para que eu possa me barbear, pois não me sinto asseado desse jeito.

Num sorriso, o Ancião responde:
— Terá ainda hoje o que precisa.

Como o Ancião assentira, Fiodor tenta dar um passo além:
— E jornais.

O Ancião não toma conhecimento do outro pedido e se encaminha para a porta, enquanto Fiodor, ainda sentado na cama, o observa. Quando a porta é aberta pelo lado de fora, ao chamado do Ancião, este, antes de sair, pergunta:
— Eu agora não sei como devo chamá-lo: se de Alex ou Fiodor...

O cativo espanta-se com a pergunta, posto que pensara nisso por longo tempo enquanto estivera ali. Parecia-lhe que o seu visitante tinha o dom de ler pensamentos. Olhos fixos no Ancião, Fiodor responde:
— Chame-me por Fiodor, por favor. Alex Benk, a bem da verdade, morreu junto com seus pais. Fiodor é o futuro que me resta.

O ancião o observa, avaliando a resposta. Por fim se despede:
— Nos veremos em breve. A propósito, são três horas da tarde.

¤

Saindo dali, o Ancião vai até o aposento contíguo ao de Fiodor, e encarando o homem que estava diante de dois televisores de circuito interno e um gravador de rolo, destinados a observar Fiodor cativo na suíte, sentencia:
— Afora o meu cumprimento na entrada, os primeiros três minutos da conversa não existiram, está entendendo?

Sob o atento acompanhamento do Ancião, o homem assente, retrocedendo a fita que gravara, cortando o diálogo entre a saudação e a pergunta que fizera sobre como propiciar mais conforto a Fiodor.

Após certificar-se do corte e verificar a emenda, ouvindo o resultado do trabalho do operador, o Ancião sente-se aliviado. Agradece ao auxiliar e segue para seu gabinete no palacete do Templo Secreto. Tranca-se no aposento e se vale de um grande cinzeiro de cristal para incinerar o pedaço da fita que trouxera consigo. Uma cópia faria imperceptível o corte realizado.

Enquanto via a gravação do diálogo transformar-se em cinzas, o Ancião meditava sobre o fato de que Fiodor não apresentava a inquietação de quem estava sem esperança de triunfar, ou mesmo de sobreviver. Ao contrário, agarrava-se ainda à idéia de desforrar-se do Sacerdote. Ele deveria possuir um trunfo que guardava a sete chaves. — Acaso seria por causa daquele dossiê? Haveria ele mandado uma cópia para alguém, sem que a Fraternidade soubesse? E para quem o faria, quem saberia avaliar o valor do material que lhe chegasse às mãos? A resposta a esta pergunta parecia-lhe óbvia, mas o que não sabia é se Fiodor teria a ousadia de fazê-lo, e se assim procedeu, jamais, na condição em que se achava, iria revelar.

O ancião agora andava, solitário, pelo aposento. Amargurava-lhe o fato de se ver obrigado a agir contra os preceitos da própria fraternidade que protegia. Caso houvesse outro dossiê todos eles estariam em perigo. Talvez devesse há muito tempo ter dado um paradeiro nas ações do Sacerdote, mas ele tornara-se muito poderoso dentro da fraternidade, e amiúde desafiava o próprio Conselho, a quem deveria sempre mostrar-se submisso. Somente teria a resposta de que precisava perguntando ao provável destinatário, pessoalmente, mas para tanto teria que quebrar uma severa regra da fraternidade. Iria procurar o seu maior algoz: encontrar-se-ia com Nicolai.


XXXII – Nas sombras

O Sacerdote percebia que as coisas não lhe iam bem. Recebera apenas uma mensagem lacônica do Ancião, onde este afirmava que visitara o cativo e que este não dera nenhum indício da existência de outros dossiês. Informava também que em poucos dias Fiodor seria submetido às devidas expiações. Nada mais.
— Adiamentos! Adiamentos! Pensava o Sacerdote. Fiodor não tivera ainda um fim, e este era um assunto que queria ver liquidado. Não era seu perfil deixar assuntos inacabados, e achava que também por isso ocupava o lugar que ocupava. Queria logo se ver livre daquele que o ousou afrontar. Sentia-se ameaçado com a existência dele, por mais que tivesse todas as provas que Fiodor colhera em sua longa investigação. No entanto, malgrado o bilhete tranqüilizador, não descartava ainda a hipótese de que em algum lugar houvesse anotações do traidor que o pudessem comprometer.

Precisava ter toda a certeza de que nada fora deixado para trás por Alex Benk, pois só assim sentir-se-ia seguro. Foi quando resolveu que mandaria investigar onde estaria vivendo esta tia de Alex, pois ele bem que poderia ter deixado com ela papéis ou mesmo cópia daquele maldito dossiê, como a carta que seu padrasto fizera. A idosa senhora, sem o saber, passaria a correr sério risco, pois sobre ela pairavam as enraivecidas garras do Sacerdote da fraternidade, e que somente não agia imediatamente por seus métodos porque os membros do Conselho estavam-no observando, como lhe deixara claro o Ancião. E ainda precisava deles.

Entretanto devia se preparar para a entrevista com Olek. Talvez ele já soubesse do segredo, talvez, mesmo sem o saber poderia dar uma pista sobre o que lhe tenha dito o avô antes da morte, talvez conseguisse extrair um mínimo de informações que o permitiriam avançar na sua busca, e logo não mais prescindiria daquele conselho que tolhia as suas ações. Estaria por si mesmo, e vitorioso.

Seus devaneios são interrompidos ao tomar ciência do fracasso na captura de Olek, quando se deixa tomar pela ira. Ouve, entrecortando a narrativa do subordinado com duras reprimendas, como Olek terminara por embarcar num carro ocupado por duas mulheres e um homem. Esbraveja ao telefone de tal forma que faz com que seus auxiliares, na sala ao lado do escritório de Warszawa, se entreolhassem temerosos.
— Como o deixaram escapar? Vocês estavam em três, armados e preparados, e não conseguiram surpreendê-lo? E quem eram esses no carro que o levaram? Ao menos isso conseguiram descobrir?

Pelas explicações que lhe eram dadas, o Sacerdote logo identificou se tratar da filha de Nicolai, Christina, supondo então que o homem deveria ser seu primo, mas ficou intrigado pelo aparecimento de outra mulher, a que dirigia o veículo com placa de Warszawa. Quando soube da sua existência, não se conteve:
— Eles se multiplicam como as pragas! Quero que me identifiquem o veículo, vejam quem é o proprietário, e digam-me sem demora quem é esta que agora se junta a eles para atrapalhar nossos planos!

Com espasmos de raiva recebe a resposta que somente teria a identificação do veículo na segunda-feira, quando as repartições abririam e os informantes poderiam ser acionados. Antes disso, informara o solicito assistente, estaria de mãos atadas.

As coisas realmente não lhe iam bem, e ele se vê com um súbito mal estar, sentindo palpitações e uma grande dificuldade de controlar a respiração. Era descontrolada ansiedade. Algo que lhe rendera muitos sacrifícios para aprender a controlar. Desliga o telefone e dispensa asperamente o auxiliar. A sós em sua sala, tenta se controlar respirando pausadamente num cartucho de papel, algo que há muito tempo, ainda nos tempos de criança tinham-lhe ensinado, o que o fazia ter sempre um cartucho desses à mão, como o que retirara da gaveta. Passado algum tempo, quando já estava conseguindo acalmar-se, vê o mesmo auxiliar, que antes expulsara da sala, retornar com extrema cautela, após bater na porta para se anunciar, balbuciando:
— Com licença, Senhor Sacerdote. Recebi um telefonema, e eles avisavam que ele já havia chegado.
— Quem avisou? Quem chegou? Seja claro, homem!
— Julek Ianovich. O que viria para cá ontem e não apareceu... aquele que o senhor mandou que esperassem na estação. Já está no apartamento com os outros dois. Parece que ele resistiu em seguir para o apartamento, queria vir diretamente para cá...
— Ah! Ainda isso! Eu sei muito bem quem é ele, não precisa ficar explicando. Mande preparar o carro e vamos comigo para lá.
— Devo fazer algum preparativo especial, senhor Sacerdote?

Por uns instantes o Sacerdote pára, como a refletir sobre a ocasião, e por fim responde vagarosamente.
— Não, nada. Ele ainda nos pode ser útil. Agora vá e providencie o carro, como eu mandei.

O auxiliar se retira prontamente, enquanto o Sacerdote veste vagarosamente seu capote, antevendo a conversa que teria com Julek Ianovich. Ele devia estar trazendo algumas informações úteis, caso contrário não ousaria provocar aquela reunião. Quem sabe até pudesse esclarecer quem é essa mulher que auxiliou na fuga de Olek, e que deveria agora estar com Nicolai e os seus. Não deixa de ficar curioso com o que estaria movendo Julek Ianovich, ou sobre o que ele teria para oferecer, depois desse seu inesperado desaparecimento. Já tinha em mente um plano traçado para o rapaz, somente não decidira qual a melhor maneira de executá-lo. Todavia, estava pronto para ouvir o que o rapaz tinha a dizer, e ele talvez fizesse por merecer o sustento que pleiteava para si em Viena.

¤

O carro desliza na noite de Warszawa, os pneus a provocar o chiar característico da pista de rolamento molhada pela garoa insistente, terminando por acalmar o Sacerdote, o que o permite preparar-se para perquirir Lelek, estivesse ele pronto ou não para dar as informações que pretendia obter.

A chegada ao apartamento foi de grande efeito, com o Sacerdote habilmente admoestando os guardiões por terem usado violência contra Julek Ianovich, por este haver resistido em dirigir-se da ferroviária para o apartamento, por querer seguir diretamente para o escritório, conforme havia planejado. Na verdade, Julek Ianovich, que não conhecia aqueles dois, pensara que fossem os informantes de Nicolai que o estivessem interceptando, ou que Igor tivesse dado o alarme de Arkadja, o que terminou por ensejar a resistência.

Depois de dispensar os guardiões, ficando a sós com Lelek, o arguto inquiridor percebeu o quanto o assustado rapaz poderia colaborar com as informações de que ele tanto precisava, e se dispôs a conversar demoradamente, sendo um bom ouvinte para o que o visitado tinha a dizer. É Julek quem começa:
— Não posso mais ficar aqui, Sacerdote. Tudo é insuportável para mim agora. Preciso ir embora, e a única saída que vejo é a prometida viagem para Viena, lá estudar artes e começar vida nova.
— Esta promessa era para você e Fiodor, e o seu amigo me traiu vergonhosamente! Como espera agora tirar proveito disso?
— Eu não tive nada a ver com aquilo! Ele me traiu também, precisa acreditar!
O Sacerdote aproveita a confusão de Lelek para demonstrar condescendência, e ficar numa condição superior à do rapaz, e assim obter aquilo que desejava:
— É claro que você não sabia. Se eu achasse que estava acobertando o traidor, garanto-lhe que estaria na mesma situação dele, ou ainda pior. Isto, porém não o libera de ter faltado com a atenção que um membro da fraternidade deveria ter, e assim notado algo de estranho e me avisado a tempo, não é verdade?
— Mas como eu poderia? Ele nunca falou nada disso, e depois eu...
Lelek não consegue continuar, mas o Sacerdote acena como que a sinalizar o que ele pretendia dizer. Não seria mais produtivo continuar falando de Fiodor, preferindo então interpelar o rapaz diretamente sobre o que havia acontecido noites atrás.
— Por que desobedeceu a ordem, e não permaneceu no apartamento, como eu havia determinado? Complicou, sozinho, a sua vida, Julek Ianovich.
— Eu não queria ir... fui levado, eu não passava bem, exagerei...
— Exagerou com a bebida e com as coisinhas que lhe mandei, não é?
— Foi, mais ou menos... então eu saí.

Julek Ianovich pensava numa maneira de explicar que o primo o levara de lá justamente para que os homens do Sacerdote não o encontrassem, mas fica silente, pois temia que a sua recente ida a Arkadja despertasse novas suspeitas no Sacerdote, e isso arruinasse a negociação que pretendia levar a cabo. Para sua sorte, a conversa toma outro rumo, permitindo a Lelek recobrar-se e falar o que realmente pretendia.
— Pode explicar o que fazia em Lowicz?
— Colhendo dados e acertando as coisas. Estou pronto a fornecer muita informação. Não me presto mais a ser um tolo que troca ninharias de informação por migalhas de recompensa. Sei que isto é uma guerra e que preciso sair dela, viver outra vida, e tem que ser agora, pois se demorar será tarde demais para mim!
— Tem informações, não é? Então me diga a razão de toda esta urgência que vejo em seus olhos? Por onde você esteve nesses dias?

Ante a pergunta Lelek vira o rosto e se cala. O Sacerdote, intuindo que havia mais ali do que supunha, levanta-se e vai até a cozinha, de onde traz dois copos, abre uma garrafa de vodka que trouxera consigo e oferece a Lelek. Tilintam os copos e sorvem o líquido. Depois, de uma forma pausada, tenta induzir o rapaz a contar-lhe tudo o que se passava. Lelek, por sua vez, responde de forma apressada, como a se livrar da incômoda pergunta.
— Eu levantei coisas de seu interesse sobre as pessoas com quem combate, fatos interessantes, pormenores que lhe podem ser úteis sobre lugares, contatos, e estou disposto a lhe entregar isso em um dossiê, em troca de minha ida definitiva para Viena, na Escola, como sabe.
— Eu sei, eu sei o que quer, mas não é disso que falo agora: conte-me o que andou fazendo por lá que o obriga a partir tão rápido.
— Ora, tudo o que aconteceu desde aquela reunião no galpão...
— Não. Falo de agora. O que aconteceu em Lowicz?

Lelek, enfraquecido, aceita outro copo de vodka que lhe era servido pelo Sacerdote. Realmente ocorrera um incidente em Lowicz que o fazia querer partir o quanto antes. A postura do Sacerdote, a pergunta direta que fizera, não lhe permitia esquivar-se de uma resposta direta. Pedindo mais vodka, Lelek enche-se do que achava ser coragem e dispara:
— Eu... ataquei uma mulher em Lowicz!

O Sacerdote, apesar de toda sua frieza e experiência, fica aturdido com a revelação de Lelek de que atacara alguém em Lowicz. Como se não acreditasse no que ouvia, pede que Lelek repita o que acabara de afirmar:
— Como é? O que você fez?
— Ataquei uma mulher. Foi por vingança. Ela e os irmãos zombaram de mim, anos atrás, de uma forma odiosa.
— Então você foi até lá para se vingar, e agora me procura para que eu o acoberte?

— Não! Quando eu liguei e falei com seu assessor, nada ainda havia acontecido! Eu estava próximo à estação de Lowicz, já com passagem comprada para voltar para cá, quando resolvi passear pelas proximidades, enquanto aguardava a hora. Foi quando vi aquela mulher, que vinha distraída em minha direção. Reconheci-a no mesmo instante, e uma onda de ódio tomou conta de mim. Resolvi vingar-me. Ela iria pagar por tudo que sofri até agora.
— E o que você fez? Atirou nela?
— Não, não foi assim. Quando percebi que não havia ninguém por perto, eu a abordei e com meu canivete a obriguei a seguir comigo até o depósito de um armazém, um galpão velho, onde eu e meus amigos brincávamos antigamente, perto dali. Eu sabia que aquele local raramente era usado nesta época do ano. Ela tentou resistir, mas por fim obedeceu. Quando chegamos lá tudo fugiu do controle. Eu queria que ela fizesse coisas comigo, e ela reagiu violentamente, atingindo minha perna com um pedaço de pau, ferindo-me.

Nesse ponto da narrativa Julek mostra a perna ensangüentada, coberta com uns trapos amarrados. O Sacerdote, ansioso por saber o desfecho da história, diz para ele prosseguir.
— Havia pregos na madeira. Eu fiquei cego de dor e ódio, tomei o pedaço de pau da mão dela e devolvi a pancada em sua face, que ficou toda cortada, Ela desfaleceu. Arranquei-lhe as roupas – todas – e a acordei o suficiente para ela saber o que estava acontecendo. Ela despertou, mas estava muito tonta para reagir. Aí eu me vinguei como há muito tempo queria fazer. Fiz com ela o dobro do que o irmão dela fez comigo. Agora ela e seus irmãos vão sofrer pelo que me fizeram, se eles arruinaram minha vida, eu também arruinei a deles!
— Você a matou?
— Não. Acho que não. Depois que tudo aconteceu eu não sabia o que fazer, então amarrei uns panos na perna, coloquei outras roupas que eu tinha na mochila e vim para cá, pensando em contar com sua ajuda.
— Você a deixou lá, daquele jeito?
— Sim, eu a deixei amarrada e amordaçada, mas ela estava viva, mas do jeito que foi a pancada em seu rosto acho que nunca mais será a mesma. Cedo ou tarde vão encontrá-la, e aí podem vir atrás de mim... o senhor precisa me ajudar!
— Você agora é um criminoso! Se eu o ajudar também o serei!

Julek Ianovich fica boquiaberto diante do cinismo do Sacerdote, pois quem lhe falava em escrúpulos era o mesmo que, dias atrás, não hesitara em ordenar o sacrifício de Fiodor diante dele e outras vinte e tantas pessoas. Mas não lhe responde. Espera, calado, que ele continue o que tinha a dizer.
— Não se trata mais de cumprir uma promessa, um capricho, Lelek. É o caso de tirar alguém procurado pela polícia de dentro do país! As coisas ficaram mais difíceis e bem mais caras do que antes. Para que eu o ajude, é preciso que você faça realmente valer a pena pelos riscos que vou correr, está entendendo?
— Estou entendendo, e eu farei. Eu farei.
— Fará? O que o faz ter tanta certeza? Tem algo a me oferecer?
— Tenho. E muito. Tudo o que sei e consegui descobrir sobre Nicolai Ianovich e suas operações. Posso informá-lo onde ele está agora, o que pretende, quem o ajuda, como trabalha. Eu tenho tudo isso para lhe oferecer.
— É mesmo? Então comece a falar!
— Não se trata de falar. Está tudo pronto e escrito. Tenho documentos. Eu entrego tudo quando derem as minhas garantias. A minha situação é delicada, eu não o decepcionaria num momento como esse, em que é minha única saída. Não cometeria esta loucura.
— Quando teve tempo para preparar tudo isso? Também andou fazendo um dossiê, como Fiodor, este tempo todo?
— Não. Claro que não. Eu o preparei no dia em que me esperavam e não apareci.
— E é só isso que tem a oferecer? Acha que se quisesse apenas tais informações, já não as teria simplesmente arrancado de você e de outros que orbitam em torno de Nicolai?
— Não saberia nesses detalhes como eu os dou. E eu tenho algo mais a oferecer, sim, e é algo que quer muito.
— E o que é?
— Sabe quem é e o que representa Miroslaw Tchenka?
— Claro que sim, o que me admira é que você também saiba.
— Pois eu sei mais. Eu poderia até informar o seu paradeiro...
— Você tem esta informação? Onde ele está?
— De nada adiantaria eu mencionar um lugar, apenas, sem as outras informações que tenho a lhe dar. Eu lhe entregarei tudo no aeroporto, quando estiver de partida para Viena, antes não devo.

O Sacerdote prefere concordar, não se permitindo, pela ânsia, pressionar o rapaz ainda mais, pois poderia por tudo a perder caso Julek Ianovich não sentisse sincera correspondência por parte dele, ou fosse preso pelo crime antes de lhe passar as informações. Percebera o valor do que teria às mãos, e não mais regateia. Tivera afinal um golpe de sorte diante da sucessão de azares que o assolavam, e não perderia esta oportunidade.

Após refletir sobre a situação, aceita a oferta e promete tirar o rapaz do país em dois dias, fazendo que, enquanto isso, ele ficasse na casa de um dos guardiões, a fim de não ser encontrado pela polícia, caso viessem já ao seu encalço no apartamento. Enquanto isso providenciaria novos documentos para Julek Ianovich, uma nova identidade e um visto que lhe permitisse estudar na Áustria; a sua matrícula na escola; e também parte da renda para o seu sustento em Viena, em dinheiro vivo. Com isso, fizera Julek Ianovich acreditar que podia se ver livre do seu passado, enterrar a sua história, a sua traição e seu crime. Ele tinha os mesmos dias para tudo entregar ao Sacerdote, e durante este tempo ficaria sob severa vigilância.

¤

A ida do Sacerdote ao encontro do filho de Nicolai lhe trouxera frutos preciosos, que ele sequer imaginara colher.

Lelek, de fato, sinalizara estar disposto a relatar tudo o que sabia dos passos do pai, revelando a importância de Arkadja, Christina e Igor, e até sobre baba Lidja, que pela sua lealdade e misticismo, já havia demonstrando em diversas ocasiões o seu grande conhecimento das coisas ocultas. O rapaz havia percebido que, também no outro lado, davam grande valor às coisas místicas. Não deixaria de mencionar o que soube da história de Olek e seu avô, ou mesmo de como reagiram ao desaparecimento de Maricha. Não pouparia ou esconderia nada. Era o seu futuro que estava em jogo.

Lelek estava disposto a fazer qualquer coisa para sair da Polônia, para nunca mais ter de olhar para trás. Era o que pretendia. Foi o que fez. E o que conseguiu.

 

LVI – A derradeira queda de Lelek

O Sacerdote, apesar de toda sua frieza e experiência, fica aturdido com a revelação de Lelek, de que atacara alguém em Lowicz. Como se não acreditasse no que ouvia, pede que repita o que acabara de afirmar:
— Como é? O que você fez?
— Ataquei uma mulher. Foi por vingança. Ela e os irmãos zombaram de mim, anos atrás, de uma forma odiosa.
— Então você foi até lá para se vingar, e agora me procura para que eu o acoberte?
— Não, não fui para lá para isso! Quando eu liguei e falei com seu assistente, nada ainda havia acontecido! Eu estava próximo à estação de Lowicz, já com passagem comprada para voltar para cá, quando resolvi passear pelas proximidades, enquanto aguardava a hora. Foi quando vi aquela mulher, que vinha distraída em minha direção. Uma onda de ódio tomou conta de mim. Resolvi vingar-me. Ela iria pagar por tudo que sofri até agora.
— E o que você fez? Atirou nela?
— Não, não foi assim. Eu nem tenho arma de fogo, todo mundo sabe disso! Quando percebi que não havia ninguém por perto a abordei com meu canivete, e a obriguei a seguir comigo até o depósito de um armazém, um galpão velho, onde eu e meus amigos brincávamos antigamente, perto dali. Eu sabia que aquele local raramente era usado nesta época do ano. Ela tentou resistir, mas por fim obedeceu. Quando chegamos lá tudo descontrolou. Eu queria que ela fizesse coisas comigo, e ela reagiu violentamente, atingindo minha perna com um pedaço de pau, ferindo-me.

Nesse ponto da narrativa Julek mostra a perna ensangüentada, coberta com uns trapos amarrados. O Sacerdote, ansioso por saber o desfecho da história, pede que prossiga.
— Havia pregos na madeira. Eu fiquei cego de dor e ódio, tomei o pedaço de pau da mão dela e devolvi a pancada em sua face, que ficou toda cortada. Ela desfaleceu. Arranquei-lhe as roupas – todas – e a acordei o suficiente para que soubesse o que estava acontecendo. Ela despertou, mas estava tonta demais para reagir. Aí eu me vinguei como há muito tempo queria fazer. Fiz com ela o dobro do que o irmão dela fez comigo. Agora ela e seus irmãos vão sofrer pelo que me fizeram, se eles arruinaram minha vida, eu também arruinei a deles!
— Você a matou?
— Não. Acho que não. Depois que tudo aconteceu eu não sabia o que fazer, então amarrei uns panos na perna, coloquei outras roupas que eu tinha na mochila, e vim para cá, pensando em contar com sua ajuda.
— Você a deixou lá, daquele jeito?
— Sim, eu a deixei amarrada e amordaçada, mas estava viva...
Lelek esboça um sorriso nervoso e complementa: ...mas do jeito que foi a pancada acho que ela nunca mais será a mesma. – um riso nervoso entrecorta a narrativa – Cedo ou tarde vão encontrá-la, e aí podem vir atrás de mim... o senhor precisa me ajudar!
— Você agora é um criminoso! Se eu o ajudar também o serei!

Lelek fica boquiaberto diante do cinismo do Sacerdote, pois quem lhe falava em escrúpulos era o mesmo que, dias atrás, não hesitara em ordenar o sacrifício de Fiodor diante dele e outras vinte e tantas pessoas. Mas não lhe responde. Espera, calado, que ele continue o que tinha a dizer.
— Não se trata mais de cumprir uma promessa, um capricho, Lelek. É o caso de tirar alguém procurado pela polícia de dentro do país! As coisas ficaram mais difíceis e bem mais caras do que antes. Para que eu o ajude, é preciso que você faça realmente valer a pena pelos riscos que vou correr, está entendendo?
— Estou entendendo, e eu farei. Eu farei.
— Fará? O que o faz ter tanta certeza? Tem algo a me oferecer?
— Tenho. E muito. Tudo o que sei e consegui descobrir sobre Nicolai Ianovich e suas operações. Posso informá-lo onde ele está agora, o que pretende, quem o ajuda, como trabalha. Eu tenho tudo isso para lhe oferecer.
— É mesmo? Então comece a falar!
— Não se trata de falar. Está tudo pronto e escrito. Tenho documentos. Eu entrego tudo quando derem as minhas garantias. A minha situação é delicada, eu não o decepcionaria num momento como esse, em que é minha única saída. Não cometeria esta loucura.
— Quando teve tempo para preparar tudo isso? Também andou fazendo um dossiê, como Fiodor, este tempo todo?
— Não. Claro que não. Eu o preparei no dia em que me esperavam e não apareci.
— E é só isso que tem a oferecer? Acha que se quisesse apenas tais informações, já não as teria simplesmente arrancado de você e de outros que orbitam em torno de Nicolai?
— Não saberia nesses detalhes como eu os dou. E eu tenho algo mais a oferecer, sim, e é algo que quer muito.
— E o que é?
— Sabe quem é e o que representa Miroslaw Tchenka?
— Claro que sim, o que me admira é que você também saiba.
— Pois eu sei mais. Eu poderia até informar o seu paradeiro...
— Pode? Onde ele está?
— De nada adiantaria eu mencionar um lugar, apenas, sem as outras informações que tenho a lhe dar. Eu lhe entregarei tudo no aeroporto, quando estiver de partida para Viena, antes não devo.

O Sacerdote prefere concordar, não se permitindo, pela ânsia, pressionar o rapaz ainda mais, pois poderia por tudo a perder caso o filho de Nicolai Ianovich não sentisse sincera correspondência por parte dele, ou fosse preso pelo crime antes de lhe passar as informações. Percebera o valor do que teria às mãos, e não mais regateia. Tivera afinal um golpe de sorte diante da sucessão de azares que o assolavam, e não perderia esta oportunidade.

Após refletir sobre a situação, aceita a oferta e promete tirar o rapaz do país em dois dias, fazendo que, enquanto isso, ele ficasse na casa de um dos guardiões, a fim de não ser encontrado pela polícia, caso viessem ao seu encalço no apartamento. Enquanto isso providenciaria novos documentos para Lelek Ianovich, uma nova identidade e um visto que lhe permitisse estudar na Áustria; a sua matrícula na escola; e também parte da renda para o seu sustento em Viena, em dinheiro vivo. Com isso, fizera Lelek acreditar que podia se ver livre do seu passado, enterrar a sua história, a sua traição e seu crime. Ele tinha os mesmos dias para tudo entregar ao Sacerdote, e durante este tempo ficaria sob severa vigilância.

¤

A ida do Sacerdote ao encontro do filho de Nicolai lhe trouxera frutos preciosos, que ele sequer imaginara colher.

Lelek, de fato, sinalizara estar disposto a relatar tudo o que sabia dos passos do pai, revelando a importância de Arkadja, Christina e Igor, e até sobre baba Lidja, que pela sua lealdade e misticismo, já havia demonstrando em diversas ocasiões o seu grande conhecimento das coisas ocultas. O rapaz havia percebido que, também no outro lado, davam grande valor às coisas místicas. Não deixaria de mencionar o que soube da história de Olek e seu avô, ou mesmo de como reagiram ao desaparecimento de Maricha. Não pouparia ou esconderia nada. Era o seu futuro que estava em jogo.

Lelek estava disposto a fazer qualquer coisa para sair da Polônia, para nunca mais ter de olhar para trás. Era o que pretendia. Foi o que fez. E o que conseguiu.