Mar de Olek
XXIX – Decorrências e rastros
Na estrada a motocicleta ronca alto, levantando a poeira da estrada de chão que ligava o casarão de Arkadja à rodovia, e Julek Ianovich grita, e seu grito se confunde com o rosnar da máquina e com o ruído dos pneus a cada curva. Os olhos úmidos, lacrimejantes de revolta e vento embotam-lhe a visão, a ponto de provocar um quase acidente quando alcança a estrada principal, mas então os seca com o ódio que lhe brota do peito, e os pensamentos, jorrando aos borbotões, se sucediam a cada faixa da auto-estrada que era engolida pelas rodas da robusta máquina que pilotava.
— Nunca mais virei a este lugar! Melhor teria sido que Igor jamais tivesse estado no apartamento. Eu já havia prometido nunca mais voltar aqui, e ele só me trouxe porque eu estava inconsciente. Agora estou só. Completamente. Ninguém consegue entender o que se passa comigo. E se entendem, não lhes faz diferença o que acontecer, só vivem em torno de suas próprias preocupações mesquinhas. Nem minha família, nem Fiodor, nem a fraternidade se importam. Ninguém nunca se importou. Nem meu pai. A baba, para agradar o patrão, sempre tentou fazer de mim o que eu não era. Christina até que era boa amiga, mas agora só quer saber de estudar aquele livro velho que baba Lidja lhe deu. Igor, aquele metido... aposto que só foi até o apartamento porque Nicolai mandou me bisbilhotar. É o que dá ter gente dentro de casa que não é da família: eles acabam se envolvendo nos assuntos e atrapalhando tudo. Eu também não vou me importar com mais ninguém. Farei tudo, negociarei tudo que sei, mas vou embora daqui, dessa cidade, desse país. Ninguém nunca mais terá notícias de mim, e então poderei cuidar da minha vida. Odeio Arkadja, odeio os Antigos, odeio Nicolai pelos sonhos que me tirou e pelas promessas que não cumpriu. Agora darei a eles motivos para me odiarem também. Pouco importa. Preciso fazer concessões se quero ir embora daqui. Eles vão ver só do que eu sou capaz.O resto da viagem Julek Ianovich passou arquitetando a sua estratégia para alcançar o que queria. Chegando no perímetro de Lowicz, Lelek diminui a velocidade da moto, a fim de se refazer, e segue lentamente à estação, enquanto coordena seus pensamentos. Pára defronte a um armazém, aquele que seu pai sempre visitava para abastecer Arkadja. Ao estacionar já era outro. Aparentava tranqüilidade, que nada mais era do que fruto da frieza que então o dominara no afã de conquistar a sua independência.
Entra no estabelecimento cumprimentando o dono, que logo o reconheceu. Recusa as novidades importadas que este lhe oferece, e pede para usar o telefone, fazendo uma ligação para Warszawa. Marcara um encontro. Agradece ao dono do armazém pela gentileza, e lhe conta que fará uma viagem para estudar, e que seu primo viria buscar a motocicleta, pedindo-lhe então que guardasse as chaves até lá, a que o homem se dispõe com prazer.
Depois de se despedir cordialmente, como se nada de anormal estivesse acontecendo, Julek Ianovich saiu a pé, dirigindo-se ao guichê da estação e comprando sua passagem. De ida.
Teria que aguardar ainda por mais de uma hora o trem para Warszawa, e não queria ficar no embarque, pois o primo poderia vir de Arkadja ao seu encontro. Queria evitá-lo. Resolve sair da estação e andar pelas cercanias. Afasta-se. Em uma rua pouco movimentada ele vê que, distraída, uma moça vem em sua direção. Ele a reconhece. O ódio avermelha a sua face. Era a irmã daqueles que o vilipendiaram quando voltava da escola. Lelek remexe a mochila e encontra o objeto que procurava, e vai ao encontro dela. Tinham um assunto muito sério a tratar.
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Talvez o telefonema dado do armazém não tenha surtido o efeito desejado por Lelek. Em Warszawa o diálogo travado não demonstrava bons augúrios. Ao contrário, parecia mais selando o destino de Julek Ianovich. Mas não da maneira que ele pretendia.
— Então o rapazinho ligou de Lowicz? Mas o que diabos ele estava fazendo lá? Eu mandei que ele ficasse no apartamento, esperando que déssemos uma solução ao caso dele, e me vieram antes dizer que ele sumiu de lá, e agora me aparece em Lowicz! O que este chorão está pretendendo?
— Não sei, senhor Sacerdote. Ele apenas ligou para o telefone de contato, dizendo que tinha algo para propor, e estaria vindo para cá. Pediu uma audiência com o senhor, então eu falei para ele nos encontrar aqui no escritório...
— Por que não me consultou antes? Pois agora vá até a estação e tente descobrir – não me importa como – o horário da chegada dele, e vá com seu parceiro buscá-lo. Não saiam de lá sem que estejam com ele. E somente quando estiverem totalmente seguros de que não são seguidos rumem até o apartamento dele. De lá me avisem, que eu irei encontrá-lo. Eu não o quero aqui e não quero saber de falhas!Tudo transcorria de forma a não favorecer os planos do Sacerdote e isto o irritava profundamente. Ele enviara alguns homens a Kraków, para saber de Olek, e não tivera notícias. Isto o preocupava, e estava disposto ele mesmo seguir até lá, para ver o que acontecia, caso demorassem mais as notícias que esperava. — Agora – pensava ele –, além de todas as preocupações que tinha, este Julek Ianovich viria importuná-lo com suas queixas e lágrimas. Se ele não fosse filho de quem era, já teria dado um jeito de se livrar dele. Mas não podia. O filho de Nicolai poderia ser útil na busca que empreendiam. O rapaz talvez estivesse trazendo informações, e era do que ele mais precisava no momento. Informações que devolvessem a sua credibilidade perante o Conselho, prejudicada desde a reunião em que o Ancião interferira desastrosamente.
Ao lembrar-se do incidente com o Ancião, o Sacerdote também se angustia por não lhe chegarem notícias do Templo Secreto, e ele não soubera nada mais do enteado de Titus Benk, nem se ele revelara algo mais das suas investigações que pudesse, talvez, prejudicá-lo perante o Conselho. Mas a esse respeito ele já tinha um plano traçado, e contava com a eficiência e discrição de Erin para que seu objetivo fosse alcançado. Não poderia, nesse caso, agir pessoalmente, mas poderia enviar um emissário que portasse as suas intenções.
Iria então aguardar Julek Ianovich, e dele extrairia o que fosse possível para lograr alguma vantagem nas batalhas que teria que enfrentar. Não via outra maneira de agir no momento.
Mas a verdade é que o Sacerdote intimamente desprezava o rapaz. Para ele, Julek Ianovich não passava de um fraco, cuja utilidade se restringia à mera existência, isto é, ser filho de quem era. Esperava que desta vez ele trouxesse algo realmente bom, e não as migalhas de informação que eventualmente dava, as notícias superficiais sobre os movimentos de quem ele alcunhava de Nicolai e seu bando. Não repousaria, então, nesse sábado à noite. Agiria de acordo com o que o rapaz lhe contasse, o que lhe deixava os planos traçados em suspenso. E detestava ter seus planos, meticulosamente traçados, suspensos por um acontecimento incerto. Com isso, começava a ficar estranhamente ansioso pela sua chegada. O jogo poderia estar mudando, e a seu favor.
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Igor, Lidja e Helena conversaram à mesa, a deliberar sobre o que fariam em seguida, o rapaz propõe que Helena retorne à Warszawa, enquanto ele seguiria imediatamente à Kraków, a fim de informar Nicolai. Contrariada, Lidja intervém firmemente:
— Vocês não podem partir sozinhos, cada um para um lado. De jeito nenhum. Parece que não aprendem!? Uma das regras primeiras é que, quando em missão, nós não devemos partir sozinhos, pois assim ficamos vulneráveis! Eles nos pegam! E é provável que Lelek, com o seu telefonema lá do armazém, já deva ter atraído as atenções do outro lado para cá, ou ao menos a Lowicz.Era verdade. Por algum motivo, que não lhes fora revelado por Nicolai, o outro lado somente os atacava quando a vítima se encontrava a sós. Talvez por estratégia ou então por um ritual, o fato é que sempre evitaram o confronto quando a pessoa se fazia acompanhar. Mas quando descobriam um algoz a sós, o ataque se fazia certeiro e cruel. Igor tinha consciência disso quando foi à Warszawa contatar os informantes e Lelek, assim como Nicolai, que o designara. Mas tomara, por tanto, todas as cautelas. Fora os encontros que tinha marcados com os informantes, Igor se limitou a ficar no Hotel onde se hospedara, hospedagem aquela por Nicolai considerada um lugar seguro para o sobrinho se abrigar.
Contando agora com a presença de Helena, Igor conquistava maior mobilidade, e se sentia à vontade de atuar com ela, pela sua desenvoltura e coragem, e sobretudo pela empatia que havia entre ambos. Todavia, Igor não aceita de pronto a ponderação de baba Lidja, retrucando:
— Mas se assim não for, não haverá meio de se avisar Nicolai de tudo que acontece. Fiodor está correndo perigo de vida em algum lugar do Norte, Julek deve ter voltado para Warszawa, e poderá até revelar ao outro lado tudo que aconteceu desde que o peguei no apartamento, nos expondo a maior risco. Helena deve ir e prevenir seu pai. Coisas devem estar acontecendo em Kraków. Não podemos ficar os três aqui, imobilizados!Lidja, porém, não se dá por vencida:
— Você sabe muito bem que aqui é o centro. Nunca ficamos imobilizados em Arkadja, muito menos sós! Acho que Nicolai deve ser posto a par de tudo que aconteceu, embora me parta o coração pela dor que ele vai sentir. Mas ele sabe que teria que ser assim, este foi o terceiro aviso de Mokosz.Lidja então resume para Helena a invocação que fizera e as mensagens deixadas por Mokosz, e por fim conclui:
— Acho que ambos deveriam seguir à Kraków, mas no domingo. Quanto a avisar ao pai de Helena, isto pode ser feito pelo telefone do posto, é seguro, ou mesmo de Lowicz. Temos muitas coisas a fazer, mas primeiro vocês têm que buscar a motocicleta e ver se descobrem mais alguma coisa de Julek. E devem fazer estas coisas juntos. Sempre juntos.Era evidente a preocupação de baba Lidja com os dois jovens, pois sabia que já perdiam o filho de Nicolai para o outro lado, e não queria vê-los em risco. Sentiu que teria que trabalhar para que as forças ocultas agissem em favor de Nicolai e dos seus, pois compreendia as turbulências que se apresentavam. Intimamente lamenta a ausência de Christina, pois ela se sentia velha e cansada para tantos embates, principalmente agora, que suas costas doíam e suas pernas se punham a fraquejar. Contudo estava ciente que deveria se preparar, pois mais uma vez seria chamada, antes que lhe dessem o direito de descansar. — Se é que um dia gozaria desse direito, pensa ela amargamente.
Igor e Helena acabam por concordar com baba Lidja. Naquela tarde iriam até a estação, para recuperar a motocicleta levada por Lelek, e quem sabe descobrir para onde ele seguiu. Tal informação poderia ajudá-los no futuro.
De fato, ao chegar na estação, viram a motocicleta em frente ao armazém onde Nicolai costumava fazer as encomendas para o casarão de Arkadja. Igor, intimamente, ainda tinha esperanças de encontrar o primo, porém lá dentro estava apenas o dono, que parecia aguardá-los. Conversando, souberam que Julek Ianovich havia dado um telefonema do armazém, assim que chegou, e que parecia ter marcado um encontro em Warszawa. Comprara um caderno e alguns envelopes grandes e depois saíra, deixando ali a moto, sob os cuidados do dono do armazém.
Igor se entristece visivelmente, e Helena pergunta se ele desejava ir à estação, tentar, mais uma vez, encontrar o primo para falar-lhe. Igor, porém, meneia a cabeça em negativa, e então eles regressam a Arkadja, Helena com seu carro, seguida de Igor que trazia o veículo utilizado por Lelek.
Ao chegarem, encontram baba Lidja na casa, arrumando-a freneticamente, e a murmurar, como que cantarolando, que era preciso colocar as coisas em ordem para que os bons ventos chegassem. Ao tomar consciência da presença deles, e ouvir o que eles souberam do comerciante da estação, Lidja os fita longamente, como quem dissesse que compreendia perfeitamente o sentido do que lhe relatavam, e por fim somente consegue dizer que Lelek havia levado o resto das coisas que lhe pertenciam, deixado apenas alguns pertences espalhados na casa, que ela havia reunido em um baú, que ficara no quarto anexo à cozinha.
Helena, curiosa, pede para dar uma olhada no baú, e se espanta ao encontrar uma fita cassete, que traz para a sala, indagando o que seria aquilo. Igor lembra-se do episódio da fita no apartamento, e conta para as mulheres, sublinhando o fato de que Lelek fizera absoluta questão de trazê-la consigo. Lembra-se, naquele momento, da caderneta que encontrara no quarto de Fiodor, informando que a estudaria para ver se algum indício encontrava de seu paradeiro, subindo para seu quarto.
Helena, ainda intrigada, pede um aparelho para ouvir a fita, e logo que inicia a sua execução recebe veementes protestos de Lidja, que acha intoleráveis os ruídos da banda. Então a moça abaixa consideravelmente o volume, e segue com o aparelho portátil para o alpendre, enquanto Lidja se dispersa em outros afazeres.
A intuição de Helena estava certa: a determinada altura, a música se interrompe e sons aparecem ao fundo, quase que inaudíveis, gravadas como que por acidente. Helena então aumenta o volume e tenta compreender de que se trata. Quando percebe que lá estava gravado um diálogo, entra agitada na casa, procurando por Igor, que desce rapidamente as escadas. A eles logo se junta Lidja, curiosa com o que acontecia. Ouvem detidamente as vozes, tentando-lhes emprestar um significado, e tensos procuram decifrar o que aqueles homens falam.
A gravação deve ter ocorrido por acidente, presumem. Talvez o botão de gravação acionado quando se tentou ligar ou desligar o aparelho, supunha Helena. Baba Lidja pede silêncio, para tentar decifrar a estranha gravação.
Uma das vozes referia-se depreciativamente a Julek Ianovich, quando comentava que ainda vivia por um favor do Sacerdote, que achava que poderia ser útil quando tivesse que enfrentar Nicolai e os seus, e que por esta razão era para fazer as vontades dele e nunca agir com violência. A outra voz contemporizava que tão logo tivessem o que precisavam para derrotar Nicolai, livrar-se-iam dele, caso incomodasse, ou o mandariam para longe, onde seria inofensivo. Assim, de qualquer forma, estariam livres dele.
Em seguida as vozes param com o ranger de uma porta, e surge a voz de Julek perguntando o que eles faziam ali. A primeira voz então afirmava que estavam lá para dar um recado do Sacerdote: que não se preocupasse, iriam cuidar dele; que já estava providenciando a bolsa de estudos e, portanto, era para ele ficar no apartamento, sem ir a lugar nenhum, aguardando, que lhe trariam notícias em um ou dois dias. Depois disso, entregaram algo a Julek Ianovich, com o comentário “isto é para você se entreter enquanto isso”, e se vão, e o que se ouve são resmungos de Julek e passos se aproximando, quando então a gravação se interrompe com um estalido, e a música recomeça a tocar no vídeo cassete, enquanto os ouvintes se entreolham.
Guardado o silêncio necessário para assimilar o que ouviram, tendo Igor voltado a fita por duas vezes para se certificar da conversa, pergunta finalmente para as mulheres:
— Será que Julek sabia que isto estava gravado ai?
¤Kraków. Na sala da casa de Josef conferenciam ele, Nicolai e Christina e, ao canto, observando a todos, Mirika. Estavam traçando os planos para a semana, preocupados com o rumo que as coisas estavam tomando. Embora sabedores que Igor estava para vir a Kraków, trazendo noticias de Julek e Fiodor, a notícia que chegara do mosteiro, a respeito de Miroslaw Tchenka, era a primeira das preocupações que os afligiam. A saúde de Tchenka havia se apresentado instável, e se temia até por sua vida. Mesmo febril, Miroslaw havia pedido que providenciassem, o quanto antes, o seu encontro com Olek Kowalski. Eles queriam atender imediatamente o pedido, mas estavam de mãos amarradas, até que Olek lhes desse notícia de seu paradeiro, ou retornasse de sua viagem com o amigo canadense.
Restava saber se teriam tempo para promover tão importante encontro entre ele e o neto de Julek Kowalski, antes que fossem atropelados pelos acontecimentos que rapidamente se sucediam.
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XXX – Investidas
Ao meio da tarde de domingo é Olek quem retorna ao seu apartamento, em Kraków, ressentido da viagem. Estava cansado, não tanto pelos passeios que fizera, ou pelas estradas que percorrera, e sim pelo peso que lhe causava o convite feito pelo amigo canadense.
Questionava-se sobre a possibilidade de largar tudo e, por mais uma vez, deixar a Polônia para seguir a outro país, desta vez com características totalmente divorciadas da realidade em que ele vivia. Ele entendia que devia ter recusado de pronto o convite, mas o amigo o impediu. Ademais, Olek por muitas vezes em sua vida hesitara ante um dilema, querendo sempre ponderar e ponderar antes de tomar uma decisão, como que para se certificar que estaria tomando o caminho correto. Já fora precipitado por uma vez, na infância, e isto lhe custara – assim ele acreditava – o mais caro dos preços: a vida de seu amado avô, Julek Kowalski, que Olek não conseguiu socorrer por tomar a trilha errada na floresta, naquela longínqua, mas sempre presente, tarde de inverno.
Agora tinha à sua frente dois caminhos, e opostos: a mais sensata decisão seria permanecer na Polônia, a fim de resolver os mistérios que envolviam tanto a morte do avô, assim como desenvolver as pesquisas na Universidade que o acolhera, buscando desta forma trazer um pouco de paz e estabilidade à sua vida. Todavia, outros ventos se apresentavam à sua nau, e que o levariam definitivamente para longe da Europa, em busca de um novo destino, no Canadá, onde viveria de interrogações diante de um futuro incerto, contudo com poucas e daí distantes lembranças a atormentá-lo.
Para optar por esta última alternativa, contudo, teria que consentir que fracassara em seu projeto de retorno à terra natal. E isto lhe doía. Já estava por se decidir em permanecer, que iria recusar o convite de Jean Claude, mas a sensação de perda de uma oportunidade, talvez única, de progresso e independência em sua carreira, ainda o fustigava. Sentia necessidade de conversar com alguém sobre o que ocorrera com ele durante o fim-de-semana – não podia sequer ignorar que fora seguindo por aqueles dois sujeitos por todo o tempo – mas antes tinha por premente a necessidade de repouso, de um sono reparador que lhe devolvesse a serenidade.
Olek, tão logo chega ao apartamento após a viagem telefona para a casa de Josef, pedindo para falar com Christina que, surpresa, o atende, questionando-o sobre não ter avisado sobre a viagem, posto que tinham compromissos para aquele final de semana. Fala também da urgência de um encontro entre eles. Desfeito o mal-estar da indagação, Olek diz também ter muito a conversar, ficando avençado que iria, ainda naquela noite, à casa de Josef, no que Christina assente, após consultar Nicolai. Conta, também, de forma cifrada, que fora seguido durante todo o tempo da viagem, e que queria conversar sobre essas coisas, o que deixa Christina preocupada, e perguntar a Olek se ele não preferiria que eles fossem até o apartamento. Olek recusa, alegando que ninguém iria cercear a sua liberdade de ir e vir. Ela, reticente e conciliadora, termina por aceitar a ponderação de Olek, embora contrafeita.
Depois do telefonema, Olek vai até a cama, suspirando, desejando que o avô lhe viesse novamente em sonho, e lhe orientasse sobre o melhor caminho a seguir, diante de tantas encruzilhadas, oportunidades e perigos com que se defrontava. Até procura as anotações que fizera do encontro místico com Andrzej, e mais tarde do sonho que tivera com o avô. Mantinha uma caderneta com tais anotações, dada a quantidade de fatos inusitados que lhe sucediam desde o retorno à Polônia. Começa a lê-los, tentando entender os enigmas lá grafados. O que consegue, porém, é cair num sono profundo, bruscamente interrompido pelo barulho do despertador. Já anoitecera, e estava na hora de seguir à casa de Josef. Preguiçosamente se prepara para o encontro. O seu sono fora pesado, sem lembrança de sonhos, presságios ou visitas dos entes queridos. Apenas a lembrança do vazio. Sentia-se como se seus entes não quisessem falar com ele, como se estivesse em falta com seus protetores. Invadia-o a sensação de solidão, e se sentia rodeado por sombras.
A gradual sucessão de revelações sobre sua herança, que recebera desde que voltara à Polônia, indiretamente desenvolvia a sua percepção, e ele começava a aceitar a sensação das sombras a lhe rodear como um aviso de perigo eminente, mas ainda não emprestava a estes augúrios grande importância. Na verdade, desta vez incomodava-lhe o fato, pois o associava à ausência dos sonhos invocados. Preocupava-se com as decisões que tinha que tomar, e procurava por estas respostas. O que não sabia, contudo, é que em breve teria muitas respostas mais do que para aquela para o questionamento que lhe atormentava no momento. Saberia, sim, mais de seu próprio destino – e do seu passado –, do que imaginava enquanto se preparava para seguir à casa de Josef.
Quando sai do apartamento e começa a descer à garagem o telefone toca. Olek então retrocede para atendê-lo. A chave emperra, e ele demora em abrir a porta. Quando chega ao telefone, ele já parara de tocar. Aproveita então para pegar seu casaco, pois a temperatura caía sensivelmente, e sai. Chegando no estacionamento, nota um movimento estranho. Ele se alerta. Dois homens vêm ao seu encontro, e de longe reconhece serem justamente os dois rapazes que o seguiram desde a sexta-feira. Percebe que, caso tentasse chegar até o carro, eles o interceptariam, então retorna para dentro do prédio, trancando a porta da garagem atrás de si. Enquanto sobe as escadas percebe que eles forçam a porta, e então tenta decidir entre sair pela frente do prédio, para despistar os perseguidores, ou se trancar no apartamento e aguardar a chegada de socorro, que poderia não ser presto. Tinha que decidir rápido, sua própria vida poderia depender disso – não tinha idéia do que aqueles homens pretendiam.
Resolve sair pela frente do prédio, ganhando a rua. Agora que estava lá fora viu que talvez não fosse a melhor alternativa. Estava desprotegido, e precisava seguir para algum lugar público, onde entre pessoas estaria em maior segurança. Mas era noite de domingo, e as ruas se mostravam desertas. Quando se aproxima da esquina, Olek se volta para o prédio e nota que os dois homens já ganhavam a calçada. Prossegue em sua fuga, chegando a uma grande praça, próxima à Universidade. Os homens continuam em seu encalço, agora mais próximos. Quando Olek alcança o meio da praça, que cruzava com o intuito de chegar às portas da Universidade, onde já era conhecido dos seguranças, se vê cercado por um terceiro homem, que o interpela, enquanto os outros dois se aproximam:
— Pare, Olek Kowalski. Queremos falar com você.
— Quem são vocês?
— Você deve saber quem somos nós.
— Não tenho nada a conversar com quem me aborda dessa maneira. Querem falar comigo então me procurem amanhã, na Universidade. Marquem uma hora.Com esse argumento improvisado, Olek tenta se desvencilhar do estranho e seguir em frente, mas este impede a sua passagem. O homem sorri, com desdém. Sabe que Olek está cercado, e não poderá resistir a eles. Os outros dois os alcançam e se postam atrás de Olek, um de cada lado, para impedir qualquer possibilidade de fuga. Não havia transeuntes no lugar.
— Venha conosco. Não resista. Vamos fazer um passeio, o Sacerdote quer falar com você, e o convida para uma reunião.
— Quem?Os homens não respondem, e tentam conduzi-lo pelo caminho de volta, em direção ao carro que estava estacionado nas proximidades do prédio de Olek.
Mal se encaminham, Olek se arremessa contra seu interlocutor, desequilibrando-o, e sai em desabalada correria, atravessando a praça. Um dos perseguidores saca uma pistola e aponta em direção a Olek, mas o outro o obriga a baixá-la sem proferir disparo, afirmando que tinham ordens para não ferir Olek. Ele corria como nunca o fizera. Os homens o perseguem, dois deles, enquanto o terceiro vai pegar o carro para cercar o perseguido e impedir-lhe a fuga. Quando Olek atinge a rua é fechado por outro carro, retrocedendo assustado.
A porta traseira do veículo que freara diante de Olek então se abre, e ele vê Christina em seu interior, que lhe grita para entrar rápido, o que ele atende sem pestanejar. O carro arranca em disparada. Olek então vê que o veículo está sendo dirigido por uma mulher que não conhece, e ao seu lado está Igor, que o cumprimenta com um gesto. Olha então para Christina e indaga, como em desabafo:
— Alguém poderia fazer o favor de explicar o que diabos está acontecendo?
É Christina que responde:
— Papai achou muito arriscado você vir sozinho para a casa de Josef, depois de ter mencionado que o seguiram por todo o tempo, então viemos buscá-lo. Ele chegou a ligar para você, mas ninguém atendeu, então viemos. Quando chegamos lá, e vimos que seu carro ainda estava no estacionamento, e a porta da frente do prédio aberta a esta hora, achamos que algo errado deveria estar acontecendo, então resolvemos procurá-lo pelas redondezas. É isso.Olek, ainda chocado com o acontecimento, exclama:
— Mas eles tentaram me seqüestrar!
— Sim, Olek, e é a segunda vez que tentam isso. Lembra da Taverna de Warszawa?
— Claro que sim! Mas por que agora? Por que não durante todo o final de semana, quando eu estava longe de todos?
— Mas não estava sozinho.
— Eles disseram que iriam me levar para falar com um sacerdote. O que está acontecendo, Christina?Christina, conciliadora, toma a mão de Olek e diz:
— Acalme-se, Olek, logo chegaremos e muitas coisas serão esclarecidas.Olek iria responder, mas é interrompido por uma manobra brusca de Helena com o carro, que entra numa rua secundária, ao mesmo tempo em que informava aos outros que parecia que estavam sendo seguidos. Todos ficam quietos enquanto Helena faz uma enorme volta, em alta velocidade, a fim de se desvencilhar do carro que os perseguia. Passados dez ou quinze minutos de direção alucinada, eles se consideram seguros, retomando o caminho para a casa de Josef.
Ninguém mais fala no trajeto. Apenas aguardam a chegada, quando poderiam conversar com Nicolai. Mas Christina ainda segurava a mão de Olek, e ele não procurava se desvencilhar. Sentia-se bem assim.
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A chegada do carro à casa de Josef não poderia ser mais tempestuosa, rompendo o tenso silêncio da última parte do caminho. Descem todos comentando o episódio do resgate de Olek das mãos dos guardiões do outro lado, assim como as peripécias de Helena com o carro, para que finalmente chegassem em segurança ao destino. A algazarra era tanta que Nicolai teve que acalmá-los para entender o que se passou, o que só consegue quando faz todos se assentarem para tomar um gole de chá, que Mirika prontamente lhes serve. Ouvindo a tudo, Nicolai exclama:
— Eles não são mais previsíveis, estão operando com uma ousadia jamais vista. Quebram as regras antigas, como se elas nunca tivessem existido! Este homem que está à frente deles é um desequilibrado, um bandido comum. Isto tem que ter um paradeiro. Parece que com as mudanças no país eles enlouqueceram, perderam o medo e os limites!
Igor não se contém:
— Um deles estava de arma em punho, mas outro fez com que a baixasse. Isto eu pude ver. Eram três. Não dois, três!Toca o telefone, mas parece que ninguém dá importância, tão empolgados que estavam em narrar a história, e entender o que se sucedia. Mirika atende e chama Nicolai. Este toma o telefone, se identifica, e ouve seu interlocutor, fazendo aos demais um sinal para que silenciassem. Primeiro ouvindo atentamente, murmura, ao final, palavras de aquiescência, desligando o aparelho. Quando retorna, cenho grave, ao lugar que ocupava na sala, é indagado por Christina, à qual responde:
— Estranho... era o Ancião: Propôs um encontro, apenas entre nós dois, para amanhã, no fim da tarde. Isto não acontece há muito tempo, desde que...
Nicolai se interrompe, bruscamente, como se aquele devaneio levasse suas palavras a lugares perigosos. Ele iria falar da morte de Julek Kowalski, o avô de Olek, mas sentiu não ser o momento apropriado para trazer isto à baila. Seus interlocutores nem percebem a interrupção, pois de pronto, Christina afirma:
— Caso resolva ir, vou com o senhor.Olek observa a agitação que o comentário de Nicolai, e a resposta de Christina, causam aos presentes: – Igor dizendo que algo de muito importante deveria estar por acontecer, senão o Ancião jamais o procuraria; – Christina pedindo ao pai que não considerasse a possibilidade de comparecer sozinho ao encontro, pois poderia ser uma armadilha; – Helena olhava surpresa para Nicolai; – Mirika observava a tudo, levando as mãos à boca, para assim evitar que qualquer exclamação lhe escapasse, enquanto Josef permanece quieto, com o olhar vazio, como quem recebe a notícia da iminência de uma grande provação. Faz-se um breve silêncio que se contrapõe à algazarra que o precedeu, e antes que Nicolai retome a palavra, Olek fala:
— É improvável que isso tudo não tenha a ver com o que aconteceu hoje comigo. Preciso saber quem é este Ancião, e quem é este Sacerdote, com o qual eu deveria, segundo meus perseguidores, ser levado ao encontro. Preciso saber de tudo o que eu ainda não sei sobre estes que me perseguem, e o que é de tão valioso para eles que eu possa ter. Por um momento quase me deixei levar, apenas para ver se entendia tudo o que acontece. Vocês não devem me deixar alheio a nada, nem que entendam que seja para minha própria segurança, pois é óbvio que não estou mais seguro, nem vivendo a normalidade de minha vida.
Nicolai responde:
— É verdade, filho. Tudo isso tem a ver com você. E para que entenda o que se passa, só há um homem capaz de lhe responder todas as perguntas, pois algumas eu mesmo não saberia.
— Miroslaw Tchenka? Já o procurei, mas fui impedido de ir ao seu encontro, e foi-me pedida paciência por Josef, quando estive aqui pela primeira vez, em sua procura.
— Sim, Miroslaw. Ele não está bem, e a avançada idade não traz augúrio de boa recuperação, como sabe. Precisamos promover o encontro de vocês o mais breve possível. Creio que somente não ocorreu ontem porque não sabíamos onde localizá-lo, em vista de sua viagem com seu amigo. Depois de tudo que ocorreu hoje, entendo que a urgência é ainda maior.
Olek, aceitando a admoestação velada que Nicolai fazia em seu último comentário, apenas confirma o fato assentindo com um movimento da cabeça. Nicolai prossegue:
— Eu já pedia a Josef, quando você ligou de seu apartamento, dando notícias de haver regressado, para que preparasse tudo para que Miroslaw o possa receber. Os que o protegem são um tanto quanto ariscos, por querer preservar Miroslaw o quanto possível. Mas esta visita não pode ser mais adiada!
É Josef, que se conservara calado, quem fala desta vez:
— Não só pelo que aconteceu a Olek, mas por causa deste telefonema, não temos tempo a perder. Irei agora ao encontro do guardião de Tchenka, expor tudo o que está acontecendo. Ele não poderá evitar que eu veja meu amigo desta vez.
Ao que Nicolai responde:
— Mas não vai só. Já tivemos sustos bastantes por hoje. Eu irei consigo.Todos concordam com a iniciativa de Josef, o qual se apronta para sair, junto com Nicolai. Todavia, Igor e Helena pedem para que este último fique, pois teriam um assunto muito grave para discutir. Como Josef não deveria ir só, por segurança, tanto Christina como a própria Helena se dispõe a acompanhá-lo, sendo definido por Nicolai que a tarefa caberia a esta última. Depois que partem, Nicolai volta sua atenção para Igor, indagando se o que tinha a conversar se referia à investigação da qual fora incumbido, o que o sobrinho confirma, iniciando o relato.
Enquanto isso, Olek e Christina seguem até um banco no jardim interno da casa. Ele se acomoda, deixando a cabeça pender para trás, quando desabafa:
— Nessas horas eu penso que deveria aceitar o convite de Jean Claude, e ir embora... não suporto mais esta vida louca, essas pessoas a me agredir sem nenhum sentido... estou cansado, Christina.
— Convite? Ir embora? Do que está falando, Olek?
Olek então explica detalhadamente o convite efetuado por Jean Claude para que se mudasse para o Canadá, e lá prosseguisse com suas pesquisas, e conclui:
— Veja você, pensei nessa viagem de fim-de-semana como um meio eficaz de convencê-lo a ficar conosco, mas ao final ele é quem me convida para seguir ao Canadá e trabalhar para uma empresa norte-americana. E as condições de trabalho e o salário são muito bons. Quase irrecusáveis! Embora eu tenha um compromisso com a Escola de Limnologia, aqui em Kraków, depois do que me aconteceu hoje não sei se não seria uma boa idéia sumir no Canadá, deixando toda essa loucura que me cerca. Meu irmão caçula já partiu para a Inglaterra e, se tudo correr bem, ganhará o mundo com suas exposições. Talvez até nos encontrássemos no Canadá, no futuro.E com o olhar súplice, como a justificar tais pensamentos, Olek complementa:
— Maricha me deixou ao partir, e tragicamente desapareceu. Meus parentes mais chegados já morreram, os mais distantes se dispensaram. O que afinal me prende aqui, à mercê de bandidos que me perseguem e agora tentam seqüestrar? Melhor seria, talvez, deixar tudo e tentar o futuro em outro país.Ele ainda prossegue, diante de Christina que o olha fixamente, contando das suas outras reflexões que pendiam para que se decidisse a ficar e obter as respostas para suas tantas perguntas, mas também observa como essas estariam abaladas pelo acontecimento daquela noite, favorecendo assim as resoluções de mudança. Caso decidisse partir, na quarta-feira já estaria embarcando para a América, em busca de um futuro ainda incerto, mas pretendendo um passado que se tornasse esquecido.
Christina queria gritar com Olek. Dizer-lhe em alto e bom som que a sua partida repentina, nesse momento, tinha dois nomes: covardia e traição. Queria gritar para ele que se estava mostrando um fraco, e que não correspondia às expectativas que o avô depositara nele, em fazer dele o escolhido para prosseguir na sua obra. Ansiava por dizer que ele, caso partisse, estaria demonstrando extrema ingratidão àqueles que o protegeram por todos estes anos. Que, desde a primeira vez que o vira, ficara admirada de como ele era diferente do que antes imaginava, e que suas hesitações diante do óbvio a levavam à loucura. Queria chorar de raiva. Bater nele. Chutá-lo no traseiro. Mas ela se conteve e apenas ouviu. Percebe que a tempestade que ela sentia dentro de si era da mesma intensidade que a que Olek revelava haver em seu íntimo. Precisava pensar. Precisava saber o que dizer quando ele terminasse a narrativa, da qual mal ouvia as últimas palavras, posto que mergulhava em seu próprio turbilhão. Precisava lembrar-lhe a bússola, para que este seguisse no rumo certo, e não se perdesse no temporal. Pensa nos ensinamentos de baba Lidja. Lembra da ponderação de Nicolai. Apela para a inspiração de Zywia, sua deusa protetora. Ouve o silêncio. Quando Olek termina de expor como se sente em relação ao que acontecia, e a olha, interrogativamente, esta, após breve pausa causada por um inspirar e expirar profundos, pergunta, procurando uma saída para não ter que dizer de pronto tudo aquilo que sentira momentos atrás:
— Quando viajamos para cá, você me disse a certa altura que anotou todas as coisas estranhas que lhe aconteciam desde que voltou à Polônia. Ainda guarda estas anotações em algum lugar?
— Sim, guardo-as comigo... espere! Quando cheguei de viagem eu as folheei rapidamente, e acho que guardei a caderneta em meu casaco, que está lá dentro. Por que pergunta?
— Penso que lá poderíamos encontrar alguma resposta para o dilema que enfrenta agora. Você gostaria de me mostrar estas anotações?
Diante do olhar inquisitivo de Olek, ela complementa:
— Mera intuição...Olek, com um sorriso, levanta, indo apanhar a caderneta no casaco, que deixara na entrada ao chegar. Era o momento que Christina queria para si, a fim de voltar ao seu prumo. Na verdade não se reconhecia, dado o autocontrole que recentemente adquirira, e até se sentia envaidecida com o próprio progresso advindo dos seus estudos do livro recebido de Lidja. Mas sabia que tudo isso era apenas um processo, e que teria muitos obstáculos a superar em pequeno espaço de tempo. Devia então se concentrar em uma coisa de cada vez, e o faria na interpretação dos sinais anotados por Olek.
Quando Olek entra na sala, observa Nicolai com a cabeça apoiada em ambas as mãos, e Igor com ar tão grave que não ousou perguntar o que acontecia. Apanhou a caderneta do bolso do casaco, e voltou para entregá-la à Christina, sem dizer palavra a nenhum dos dois. Assim que regressa, comenta:
— Algo muito sério está acontecendo lá dentro, Christina. Seu pai pareceu abatido demais, e Igor estava muito sério. Não quer ir lá dentro ver o que acontece?
— Não, Olek. Eu sei o que se passa lá dentro. Igor já falou comigo hoje, no que chegou de Arkadja. Eles têm provas da traição de meu irmão, que passou para o outro lado.
— Mas como pode ser isso? O que ele fez?
— O problema não é só o que ele fez. É no que ele se tornou, Olek. Nós já falamos sobre isso quando vínhamos para Kraków, lembra? Pois meus temores se confirmaram. Como isso se deu eu lhe conto depois. Talvez até meu pai conte para você, com maior precisão do que eu poderia. Mas, por agora, deixemos isso de lado. O meu pai está recebendo um choque, aquele tipo de choque que se dá quando uma séria desconfiança se transforma em realidade desagradável. Não deve ser fácil para um pai possuir a certeza de que seu filho o traiu.
— E nem mesmo a uma irmã.
— É Olek, nem a uma irmã...Christina esboça um meio-sorriso ante a preocupação manifesta de Olek, então baixa os olhos e folheia as anotações. Ela se esforça por se concentrar nelas, pois intuía quealgumas das respostas que procuravam poderiam estar bem ali, diante deles.
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O rigor com que Olek fizera as anotações, a ordem em que elas se sucederam, seguidos de algumas das impressões que os fatos lhe causaram, surpreendem Christina. Olek, ao lado, por vezes comentando alguma passagem, fez com que se detivessem por longo tempo naquele banco do quintal. A caderneta continha mais informações do que Christina supunha, e trazia apontamentos desde que ele resolvera regressar. Era quase um diário, face o turbilhão que devastara a vida de Olek desde a sua chegada.
Christina cora ao chegar às anotações que se referiam aos encontros com Maricha, pois nisso Olek se alongava, expondo seus sentimentos. Ao começar a leitura destes trechos tenta não se importar, tenta não demonstrar que se importa, baixando a cabeça e fingindo total concentração na leitura, enquanto a sua a voz gradativamente sumia, sem que ela se desse conta. É Olek quem acaba com aquele constrangimento:
— Estas páginas não se referem a acontecimentos, propriamente. Quando as escrevi sequer pensei que fossem lidas por outra pessoa, um dia. São simples desabafos, desculpe.Dizendo isso, Olek se inclina em direção a Christina e delicadamente vira, uma a uma, as páginas que traziam tais anotações, até chegar à que conta o sonho que tivera com seu avô. Christina sente-se grata por aquele gesto, e eles trocam rapidamente olhares cúmplices, continuando a leitura. Agora Christina não só lia, mas fazia rápidas anotações numa folha à parte. Olek também precisou reler para bem recordar algumas passagens com precisão. Por vezes ele próprio achava ser incrível que tenha vivido aquilo, ali anotado, e ainda assim ter que reler para lembrar, pois a sua capacidade para rememorar pequenos detalhes, em geral, era pequena.
Quanto mais adiantados na leitura, percebiam o quão perto estavam de encontrar um sentido maior naquilo tudo. Christina chega a observar, depois de algum tempo, que aquilo à que Olek se referira na viagem, e que não se recordava ao certo, havia, sim, sido anotada, e exclama com entusiasmo:
— Veja aqui, Olek! Esta passagem parece que está a contar o que você passou aqui em Kraków, e é exatamente a que você se referiu tempos atrás.Dito isso, ela lê a anotação: “wujek Andrzey então me falava de coisas estranhas: que conhecerei pessoas novas, para que eu soubesse ouvi-las e não ter medo de seguir em frente. Não me prender a nada, e me furtar daquilo que chamou ‘olhos ocultos da noite’. Não me deixar iludir por coisas pequenas e promessas fúteis, e não parar no meio do caminho, até que um lenço verde me fosse oferecido em conforto. Naquele momento não entendia nada, mas ele continuava a falar, dizendo que era um enigma que no devido tempo eu saberia decifrar. Não entendi o porquê dele não ter me acordado quando ia saltar do trem...”
— Está vendo, Olek? Você precisa parar e prestar mais atenção nessa quantidade de sinais que recebeu. Você tem praticamente um roteiro de vida aqui, tantos os alertas e as indicações.Olek também percebera, desde o primeiro momento, quantos sinais tivera em seu curto caminho desde o regresso, e não podia simplesmente desprezá-los, como se ignorando o que estava ao seu redor tivesse o condão de negar-lhe a existência. Pelos comentários de Christina percebia as coincidências do passado, como se fosse, por uma força misteriosa, impelido a viver estas experiências, e algo se modificava dentro dele, sutilmente a substituir a angústia recentemente vivida pela certeza de estar no curso correto. Mas o estudo daqueles textos é interrompido por Nicolai, que seguido de Igor, junta-se aos dois que estavam no jardim.
Nicolai está abatido, mas quando assim ficava, ele não gostava, como muitos, de refugiar-se em seus pensamentos. Queria trocar idéias sobre o que ocorria, pois assim se sentiria mais fortalecido. Era como se emprestasse dos outros a força que lhe falseava pela dor de um pai que soube que seu filho não só o abandonara, mas que o havia traído em relação àquilo que ele mais prezava. Conta-lhes em poucas palavras o resultado da investigação de Igor, deixando Olek ciente dos documentos enviados por Fiodor, e o seu desaparecimento após ter saído com Julek para uma reunião do outro lado. Conta-lhes tudo, exceto a visita de Piotr, e as suspeitas dele sobre a vida e o paradeiro de Maricha. Haveria uma ocasião mais propícia para tratar de tão delicado tema, pois o que Nicolai queria agora é que Olek se preparasse para o eminente encontro com Miroslaw.
Eles conversam sobre Lelek e Fiodor, e a necessidade de resgatar aquele que mostrara ser um aliado. Nicolai acreditava que o seu encontro com o Ancião poderia revelar o destino de Fiodor, o que os levou, novamente, a falar sobre este encontro, manifestando Christina, mais uma vez, os seus temores.