Mar de Olek
XVII - O passado de Lelek Ianovich
Foi na mesma noite em que Nicolai saiu de Arkadja rumo a Kraków que Lidja vê chegar Igor, acompanhado de Lelek. Quando o carro, tarde da noite, chega aos portões do casarão, as luzes do lugar logo se acendem. Lidja não havia se recolhido. Aguardava, sentada no escuro, algum grave acontecimento. Sozinha que estava na casa, algo lhe dizia que ainda não era hora do repouso. Estava certa. Quando ela vai ao alpendre, e depara-se com Igor e Helena trazendo Lelek, que cambaleia, logo toma pé da situação, e sem fazer muitas perguntas, ordena:
— Venham para dentro. Não vamos subir com ele, deitem-no na cama do quartinho. Irá ficar lá até poder subir com suas próprias pernas. E aqui embaixo é mais fácil para atendê-lo.Lelek, num lampejo de lucidez, esbraveja, recusando-se a entrar no casarão do qual fora banido. Mas não dão atenção aos seus queixumes e prosseguem. O rapaz não mais protesta, segue docilmente, rendendo-se ao comando alheio. Tudo lhe parecia muito confuso e difícil. Tinha temporariamente roubada sua capacidade de raciocínio pelas drogas que ingerira.
O cômodo a que Lidja havia se referido era aquele contíguo à dispensa, onde ela havia, dias atrás, invocado Mokosz. Lá havia uma cama, onde acomodam Lelek, e ele logo adormece, como fizera durante toda a viagem. Lidja o cobre, preparando ao seu lado um defumador, com ervas que selecionara, e chama os dois até a cozinha, onde prepara algo para uma rápida ceia, enquanto conversam.
— Venham. Com as ervas que exalam no quarto, Lelek não despertará tão logo. Precisa se recuperar dos abusos que andou cometendo.Igor apresenta, então, Helena, quando Lidja, para surpresa de Igor, afirma conhecê-la desde pequena, contando que o pai dela visitara Nicolai, por algumas vezes, em Arkadja, e ela o acompanhara, sempre com os olhos e ouvidos atentos, observa Lidja, zombeteira. Igor narra como encontrou Lelek, explicando as medidas que tomou, e porque terminou por decidir pela volta de Julek ao casarão, pretendendo assim que ele ficasse seguro. Foi para tanto que pediu o auxílio de Helena.
Após a ceia, Helena faz menção de partir, sendo impedida por Lidja, que entendeu ser perigosa a sua volta, sozinha, para Warszawa. Igor também argumenta no mesmo sentido de Lidja, e a moça termina por concordar com seu pernoite em Arkadja.
Lidja simpatizara com Helena desde que ela viera, há muito tempo atrás, ao casarão, quando se mostrou uma menina muito inteligente e observadora, e a sua aguçada intuição lhe dizia que ela não estava ali por acaso – reconhecia nela algum dom, algum valor que ainda não conseguia precisar. Acreditava, porém, que Nicolai iria concordar que a moça participasse de tudo com Igor, auxiliando-o – senão não teria propiciado o encontro dos dois, o que fatalmente ocorreria uma vez que mandara Igor a Warszawa.
Com tal pensamento, Lidja não se importou em tratar das coisas deles na frente de Helena, nem temia ser repreendida, mais tarde, por Nicolai. Afinal, fora ela mesma, Helena, quem fornecera as informações a respeito de Lelek a Igor, e agora se apresentava como aliada nesses tempos decisivos.
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A manhã de sábado já seguia seu curso, quando Lelek, aos poucos, desperta, mas permanece deitado, quase imóvel, tentando ordenar seus pensamentos. Ali, parado, a escuridão do quarto a não permitir que ele reconheça de pronto o lugar, faz com que muito lentamente rememore os acontecimentos do dia anterior, até que volta a mergulhar em sono profundo, não só por se sentir debilitado, mas, sobretudo, pelo efeito das ervas queimadas por Lidja.
Somente ao se dar conta que está no casarão de Arkadja, ele se põe em pé, num salto que o faz tontear, obrigando-o a sentar na cama de onde, agitado, levantara. — Preciso ir embora daqui! Pensa Julek, enquanto procura, com os olhos, alguma fonte de luz no aposento. Nesse momento, vê a porta se abrir, e por ela entrar baba Lidja, com uma xícara fumegante às mãos.
— Vejo que despertou. Beba isso que vai se sentir melhor.
— O que faço aqui?
— Sendo socorrido. Igor o trouxe.
— E por que me escondem aqui?Em resposta, baba Lidja ralha com Julek Ianovich, com a ascendência que lhe era peculiar.
— Não seja ranzinza, Lelek. Ninguém o está escondendo, você está sendo tratado porque abusou, e sabe muito bem disso!
— Então por que não estou no quarto que era o meu?
— Ora, você acha que eu ainda tenho pernas para o sobe-desce que você me obrigaria nesta noite? Não seja tão pretensioso, Lelek. Está aqui em baixo porque é melhor para atendê-lo. E é só. Agora beba o chá e deixe de besteiras!Lelek silencia enquanto bebe o chá, o que faz pausadamente. Larga a xícara e começa a se vestir, enquanto Lidja o observa, sem que pronunciasse uma palavra sequer. Na verdade sabia o que ia pela alma do rapaz – ela o velara grande parte da noite. Ele, em frases desconexas, falara durante o sono das suas aflições.
Quando termina de se vestir, brusco, Lelek comenta:
— Igor não tinha nada que me trazer aqui. Sabe que eu jurei que jamais pisaria de novo no casarão. Eu vou embora antes que tenha que me encontrar com Nicolai.
— Ele não está aqui, Lelek. Viajou para Kraków.
— Kraków, claro... .
— Como assim, sabia que Nicolai havia viajado?
— Não, não. Esqueça isso. Mas mesmo ele não estando aqui, meu primo não deveria ter me tirado do apartamento. Igor não tinha esse direito!Mal proferia tais palavras, vê Igor entrar no aposento. Este, ouvindo-as, indaga:
— Que direito eu não tinha?O primo responde, relutante, os olhos baixos:
— Você não podia ter me feito sair do apartamento, e muito menos vir para cá.
— Eu não tinha alternativa. Estava claro que este seria o único lugar onde você estaria seguro, onde poderia se recuperar do estado miserável em que o encontrei no apartamento. Você não pode me acusar de nada, Lelek.
— Mas eu não podia sair de lá! Você atrapalhou tudo!
— Não Lelek. Não atrapalhei nada. Salvei você.
— Salvou? Salvou? Você não sabe de nada, Igor, de nada!
— Talvez saiba pouco mesmo, primo, mas tenho todo o tempo do mundo para saber de tudo. E você vai me contar!Os primos se desafiam, olhos a faiscar, quando Lidja intervém e os leva até a cozinha, fazendo-os sentar e tomar o desjejum, o que eles fazem em silêncio. Enquanto Igor pensava numa estratégia para fazer Lelek falar, este tramava uma forma de ir embora dali o mais rápido possível. Helena desce para o desjejum, e Lidja conversa com ela. Tão logo as duas mulheres fazem a refeição, saem do casarão a pretexto de um passeio pela propriedade, deixando os primos a sós. Eles teriam que se resolver, e elas sabiam que, naquele momento, não poderiam interferir. Antes mesmo que saíssem da mesa, Igor quebra o silêncio que reinava entre ambos, tentando falar de uma forma conciliadora:
— Lelek, meu primo. É na boa paz que me dirijo a você. Eu não o condeno, ou melhor, não o julgo por quaisquer de seus atos, só que tem muitas coisas que eu preciso saber, que eu preciso compreender sobre você, porque isso também afeta a minha vida.
— Não sei se você compreenderia, Igor. O que acontece hoje vem, na verdade, de muito e muito tempo.
— Estou pronto para ouvir.Igor sorri ao primo, que agora o encara firmemente, e este se desarma. Então, com um gesto, indica o sofá, onde eles se assentam, e Lelek respira profundamente, antes de começar.
— Você me encontrou naquele estado porque eu fiz tudo errado. Tinha quase tudo nas mãos. As artes, Viena, a escola, Fiodor a me acompanhar. Tudo que eu queria estava prestes a se realizar, quando, por nada, eu vejo o mundo desmoronar na minha frente, justo agora que eu estava a ponto de receber tudo, e tudo perdi. Foi pelo ralo, pelo esgoto, naquela maldita noite...Julek se interrompe bruscamente, pois não teria como explicar ao primo a reunião, não queria confessar que estava trabalhando para o outro lado, contra todos, contra seu próprio pai, a fim de conseguir atender às próprias ambições.
— De que noite você fala, Lelek?
— Não quero falar disso agora, primo. Foi na semana que passou, descobri coisas terríveis, Fiodor me traía, tudo desmoronou...
— Eu não estou entendendo...
— Não me peça para explicar, por favor, não peça...
— E onde está Fiodor agora?
— Não sei dizer.
— Ele não lhe falou para onde ia?
— Eu não sei qual é o lugar para onde o levaram!
— Quem o levou?
— Chega deste interrogatório, Igor! Eu não agüento mais esse assunto! Chega!Percebendo que o primo se descontrolava, e não querendo deixar transparecer que sabia mais sobre Fiodor do que o primo pensava, Igor resolve mudar de assunto, para manter a conversa viva entre os dois. Depois retornaria a este ponto. Não podia permitir que Lelek se fosse, antes de obter as informações de que precisava, e antes de – pondera – ao menos tentar ajudar o primo, que obviamente se encontrava em situação crítica.
Olhando, então, dentro dos olhos de Lelek, Igor, também se desarmando, pergunta:
— Como foi que as coisas chegaram a esse ponto, meu primo?Lelek balança a cabeça, desolado, e depois a firma num ponto qualquer além da vidraça, para a qual mantinha a cabeça voltada, como se estivesse revendo um filme. Igor, por sua vez, continua instando o primo a falar:
— Como pôde se afastar tanto de nós, a ponto de guardar segredos, de romper com todos, de renegar tudo que se faz e se crê nesta casa? Eu nunca entendi o porquê de você repudiar o trabalho de seu pai, ao invés de se engajar nessa luta, de ser o primeiro entre nós a se por à disposição de Nicolai...Vagarosamente Lelek se convence que deve conversar com o primo. Uma trégua entre suas vidas antagônicas, a fim de por alguma luz no caminho que ele trilhava.
— Você não tem como saber mesmo, Igor. Quando você veio para esta casa, esta história já estava em andamento. Mas eu vou contar-lhe como tudo foi acontecendo em minha vida. Preciso mesmo desabafar com alguém.Lelek então começa a contar fatos de sua infância como a procurar ordenar os pensamentos, e Igor o ouvia com atenção. Todas as coisas de que falava vinham revestidas de certa dramaticidade, onde o narrador colocava-se como vítima da própria vida, lamentando não poder ter crescido sob os olhos de sua mãe, que morrera quando ele se encontrava em tenra idade. Igor percebia este viés, e tentava compreender a história como ela realmente era, retirando a carga emocional e a parcialidade evidente com que Julek Ianovich revestia os fatos, mas de si para si, sem questionar o primo, que pretendia falasse o mais livremente possível. Ele se conservava apenas na qualidade de ouvinte, não de juiz.
Mas ainda que vistos de ângulos distintos, o acontecido não muda, permanece no passado, produzindo no presente seus efeitos, e apontando para o futuro mais provável. A realidade se impõe, crua.
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Lelek, acomodando-se no sofá, o olhar súplice de quem precisa que se lhe acreditem, começa a contar, à sua maneira, sua história a Igor.
Quando tinha dez ou onze anos, descreve o menino confiante que era. Sabia que seu nome era uma homenagem a um grande amigo do pai, o nome de alguém que Nicolai respeitava muito, e a quem se referia como sendo seu superior. Disso o pequeno Lelek se orgulhava, e seu temperamento tempestuoso, revelado desde cedo, não fazia com que fosse menos querido.
Certo dia ouviu seu pai conversando na biblioteca, com um amigo, e ele falava de forma grave sobre um menino que teria sofrido com a morte de alguém que amava, e esse menino que teria que ser protegido e indiretamente instruído para que, quando crescesse, na hora certa, tomasse consciência sobre as verdadeiras atividades de Julek Kowalski e daqueles que o cercavam, entre tais o próprio Nicolai, e assumir o seu lugar. Ouvira também que este rapaz teria um papel da maior importância para o desfecho de uma luta milenar. Por não ouvir o começo nem o fim da conversa, o menino somente assimilou que estava crescendo um herói, alguém que seria cuidado e amado por todos, que teria regalias, e terminou, na sua ingenuidade, acreditando que falavam dele mesmo, pois Lelek, quando pequenino, perdera a mãe e, além disso, ele recebera o nome de alguém importante. Julek Ianovich era o filho homem de Nicolai, que por sua vez parecia mandar em muita gente.
Por conta disso, Lelek convenceu-se que somente ele poderia ocupar o referido lugar importante no futuro. Por quase três anos esta idéia foi crescendo dentro dele, e ele estava plenamente convencido que o pai lhe reservava um lugar de destaque, para aquele grande plano que o fazia se ausentar por longos períodos de casa, sem que o pequeno compreendesse bem o porquê, e que ele, Julek Ianovich, seria o mais importante dentre todos, quando crescesse.
Aos poucos, a partir do dia em que ouvira a história, seu comportamento foi se modificando: criara certa empáfia, passara a menosprezar os esforços da irmã mais velha, Christina, cada vez que esta se esmerava em agradar o pai e estudar, com todo afinco. A maneira como ela se esforçava para cumprir as mínimas tarefas que lhe eram dadas, tarefas que ele entendia serem demasiado pequenas para ele. Cria piamente que mandaria em todos, e assim se comportava desde a infância, inclusive com baba Lidja, com quem passara a se tornar irascível.
Mas a ilusão de Julek Ianovich não durou para sempre. Chegou o dia que ele nominava “o da grande decepção”. Quando, certa feita, Nicolai e Josef conversavam sobre o dito rapaz, Lelek notou que algo estava errado. Eles se referiam a ele de forma direta, chamando-o de um nome que não era o seu, falando de coisas que jamais haviam acontecido com o jovem Lelek, mas com outro. Diziam que ele estaria de partida para Moscow. Julek Ianovich estava na sala naquele dia – fingia ler para melhor ouvir a conversa –, e foi quando finalmente compreendeu que Nicolai não lhe reservava lugar nenhum no grupo, e sim a um rapaz cuja identidade ele desconhecia. Engoliu a revolta, não revelando a ninguém o que se passou, as ilusões que tivera por todo aquele tempo, e se trancafiou no quarto, recusando-se a sair, mesmo na hora da ceia.
Naquela mesma noite, Lelek teve uma febre alta, que durou dois dias inteiros, sem que soubessem a causa de sua enfermidade. Lidja o tratou com todo desvelo, sem entender o que sucedera ao rapaz, sem saber explicar a Nicolai o que ela chamou de doença da alma. Ela percebia que nenhuma doença física o acometia, mas jamais soube a verdadeira causa daquela enfermidade, pois até ela ignorava as fantasias que o mesmo desenvolvera por todo aquele tempo.
Quando finalmente ele se recuperou, decidiu que nunca mais se envolveria nos negócios do pai, por mais que ele insistisse em educá-lo nas coisas dos antepassados. Resistia firmemente, pois não aceitaria participar daquilo. Decidira que, se não lhe caberia o lugar de destaque que pensara ser-lhe reservado, de nada mais queria saber em relação a toda aquela história. Passou a encará-la como perda de tempo – loucuras de seu pai. Veneno do povo.
Por obra da sua empáfia daqueles tempos, Lelek passou a se envolver em trapalhadas por onde passava. Nos meses em que manteve a ilusão, tornou-se antipático a muitos meninos da escola, pois se achava muito importante, acima dos demais. Depois, quando sarou da febre, mas não da decepção, deixou de vez de se aplicar aos estudos, passou a se envolver em gangues na escola, o que o levou a molestar uma colega de forma brutal, a fim de afirmar perante o grupo a sua virilidade e coragem. Tal atitude desonrosa lhe trouxe conseqüências funestas. Os irmãos da menina molestada arregimentaram alguns amigos interceptaram Lelek, certa tarde, no bosque, quando sozinho regressava para casa. Depois de muito baterem nele, o irmão mais velho da moça, apoiado pelos outros que seguravam o rapaz, abusou dele sexualmente, e então o largaram, jurando matá-lo caso contasse aquilo para alguém, pois tinham agido daquela maneira para puni-lo da agressão que causara, e para que aprendesse a respeitar as moças que ele e sua turma viviam a desrespeitar.
Nem precisavam ameaçá-lo nesse sentido. A dor e a vergonha que sentia o impediriam de contar, por muito tempo, o episódio a quem quer que fosse.
Nesse ponto da narrativa, Julek Ianovich – que omitira a Igor a causa da agressão sofrida, mas não o ataque de que fora vítima – perde totalmente o controle, chora convulsivamente ao lembrar da cena no bosque, jura que um dia todos eles iriam pagar caro pelo que fizeram, enquanto Igor, que jamais imaginara que Lelek tivesse passado por essas provas, estarrecido, tentava, em vão, consolá-lo. Não havia palavras de conforto a pronunciar, Igor o sabia, então ele sentou-se ao lado do primo e abraçou-o, enquanto este, pouco a pouco, se acalmava, recobrando o autodomínio. Após beber um copo de água com açúcar, que Igor lhe ofertara, Lelek prossegue na narrativa, contando o que ninguém nunca soubera, exceto Fiodor e agora ele, sobre a violência sexual que sofrida no bosque.
Ao chegar em casa, naquele dia, muito machucado, inquirido mentiu que fora uma briga na saída da escola, mas que se dera bem e posto os inimigos para correr. Ele terminou por ser repreendido pelo pai, no sentido de que não mais se envolvesse em brigas, exigindo que Lelek mostrasse um comportamento compatível com o meio social em que vivia. Isso lhe causou uma revolta ainda maior, e a partir daí criou um distanciamento abismal em relação a Nicolai.
Da gravidade do ocorrido, ninguém percebera nada ou, se percebeu, nunca mais se abordou Lelek sobre o assunto, que logo restou esquecido. Esquecido por todos, menos para Julek, que a partir daí reafirmou sua posição de não contar com mais ninguém, e que, dali para frente, só iria cuidar de si mesmo, prometendo de si para si que conseguiria todas as coisas com que sonhasse, por seus próprios meios, custasse o que custasse.
Rompia, assim, intimamente, com a família e com todos os valores que lhe tentaram incutir desde a infância, para assumir o lado negro de sua alma. Era esse, acreditava, o seu destino. E naquela época o mundo coletivo no qual ele poderia se refugiar, também começava a apresentar as suas arestas.
Resolvido a prosseguir em sua narrativa, Lelek conta que desde o episódio, nunca mais conseguiu se relacionar direito com o sexo oposto. As meninas com quem ficava pouco lhe diziam respeito, e nunca tinha ido mais adiante no relacionamento com nenhuma delas. Nunca namorava. Apenas, como gostava de pensar, divertia-se. Mantinha-se apartado daquela efervescência da juventude, e aquilo lhe doía com a lembrança daquela tarde maldita. Para tudo piorar, quando ele tinha bebido demais numa festa, acabou por mencionar o acontecido, superficialmente, a um amigo que, ao invés de ajudá-lo, dele escarneceu com maldosas insinuações. Julek não sabe se ele passou a história adiante, mas, naquele pequeno círculo onde ainda se incluía, embora ninguém o tenha questionado, percebia alguns murmúrios, o que fez com que Lelek se afastasse de todos, movido pela vergonha dos próprios sentimentos em relação a tudo que lhe ocorrera, e que não compreendia.
Ele então foi se isolando em casa e, nas raras vezes que saía, o fazia com os amigos de Christina, que sempre o chamava, por perceber o isolamento a que ele se impunha, e por querer muito bem ao irmão. Se Christina sempre fora arguta, mais dissimulado tinha sido Lelek, e ela não chegou a descobrir tudo o que acontecia ao irmão. Voltada que estava para o estudo e as atividades do pai, além dos ensinamentos que Lidja, às ocultas, lhe passava, Christina não percebia o inferno atravessado por Lelek, e ele, inconscientemente, a culpava por isso.
Tempos depois o rapaz passou a sair com os amigos de Igor, entre eles Fiodor, que sempre o tratou muito bem, e por isso Lelek o admirava, e por ele nutria especial afeição.
Nesses tempos confusos, Julek Ianovich fora abordado na escola por uma certa fraternidade, a qual lhe prometia a realização de algumas de suas mais caras ambições, como estudar arte em Viena, conseguir calças jeans da América, obter drogas facilmente, ter dinheiro fácil à custa de alguns favores, que afinal lhe pareciam insignificantes. Ele aceitou o convite.
Entre tais concessões, comentava sobre alguma viagem que o pai fizera, ou ainda sobre alguma visita inusitada que recebiam em Arkadja. Essas informações eram solicitadas amiúde, e Lelek achava que nada demais seria repassá-las adiante, pois não lhe pediam segredo. Aos poucos, o rapaz viu-se envolvido com a fraternidade, arcava com algumas tarefas, começando assim a perceber que algo mais estaria por detrás daquilo tudo. Mesmo percebendo o mal, a sua fraca vontade não permitia que se desvencilhasse da Irmandade, cada vez comprometendo-se mais e mais. Compreendia que estava errando, mas temia a reação de Nicolai caso este descobrisse o que ele estava fazendo. Não via saídas possíveis, então simplesmente prosseguia com seus desacertos.
Fiodor, a seu turno, também ingressa na fraternidade, mas, estranhamente, volta e meia tentava alertar Lelek sobre os perigos que isso poderia representar para ele, e aconselhava-o a não trair a família. Fiodor nunca explicava seu interesse pelo mesmo grupo, ao qual também servia, mas ao mesmo tempo tentava distanciar Lelek dela. Isso por vezes gerava contradições que terminavam em sérias discussões entre ambos, pois Lelek chegara a achar que Fiodor queria ser melhor que ele, dentro da fraternidade, e por isso o aconselhava a sair.
Foi nessa época que ele e Fiodor foram expulsos do casarão, por espionarem baba Lidja e Christina, quando do ritual da tenda. Decidiram, então, morar em Warszawa, a pretexto de prosseguir nos estudos, instalando-se num apartamento que a fraternidade lhes havia conseguido, por um baixíssimo aluguel. Em troca, passaram a ter uma atividade ainda mais intensa, pois sucessivamente a fraternidade lhes designava novas tarefas, como ocorreu ao abordarem Olek, na exposição de Victor. Naquela ocasião, foram instruídos a dar a entender que Tadeusz ainda morava no mesmo endereço, e que Olek deveria ir até lá sozinho, a fim de conseguir informações sobre Maricha, supostamente viva. Para Julek Ianovich, tanto ele quanto Fiodor ignoravam as conseqüências daquilo, mas tinham a obrigação de fazê-lo, pois assim logo partiriam para Viena, na Áustria, com uma bolsa de uma empresa alemã, que seria obtida através da fraternidade à qual se submetera.
Com tudo que se expunha, Igor, boquiaberto, ouvia a confissão do primo, e percebe o que Nicolai tentava dizer quando afirmava que os movimentos se aceleravam para um desfecho. Na verdade, eles já haviam conseguido roubar de Nicolai o próprio filho. Mas Igor se cala. Sabe que ainda havia informações a colher, e não queria manifestar julgamentos antes da história terminada. Então se controla e reflete, mas não manifesta seus pensamentos. Estava pronto para ouvir ainda mais. E mais ouviria.
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Igor percebe o quanto o primo está desnorteado, perdido, incapaz de entender o que se passa à sua volta. Não sabe o que fazer por ele, nem o que dizer diante de tudo que ficara sabendo. Ele tinha tantas coisas para perguntar, outras tantas para questionar, mas se calava, limitando-se a ouvir, da forma mais imparcial que lhe parecesse possível, o relato tenebroso de Lelek. Perguntava-se como podia ter convivido tanto com o primo sem nunca saber dos meandros de sua alma, as verdadeiras razões que o moviam para que tomasse tantas atitudes que nunca compreendia. As respostas estavam todas ali, e ele não sabia o que fazer ou o que dizer ao primo. Muito menos o que falaria ao tio Nicolai, a quem respeitava profundamente, e sabia que esses fatos lhe causariam uma dor incomensurável.
A esta altura, Lelek estava mais envolvido com as drogas e julgava amar Fiodor, sem que nada tivesse havido entre eles. Avaliava, em seu delírio, que poderia se declarar em Viena, longe de todos e de tudo que o prendia, e que Fiodor certamente o compreenderia e, quiçá, correspondesse aos seus confusos sentimentos. Mas descobriu, de forma brutal e inesperada, que fora usado por Fiodor, que o amigo somente queria espionar a fraternidade, e que terminou por revelar sua traição barbaramente, na frente de todos, fazendo com que ele se sentisse humilhado como nunca. Após contar isso a Igor, Lelek arremata:
— Nesse dia a vida acabou para mim. Só não dei cabo de mim mesmo porque o Sacerdote prometeu que iria cuidar de tudo, e que eu deveria aguardar no apartamento notícias sobre a minha bolsa para Viena, que logo estava para sair. É por isso que eu não podia estar aqui. É por isso que eu preciso voltar imediatamente para o apartamento!Igor se rende à vontade de tomar um gole de uma bebida bem forte, levantando-se bruscamente do sofá e servindo-se da vodka do tio, como que para amortecer o baque sentido com todas aquelas revelações. Sequer hesitou por conta do estado do primo, que ébrio com certeza pioraria. Porém Lelek não o acompanha, enjoado que se sentia.
Como sobrinho de Nicolai, reflete que podia não saber como ajudar Lelek, mas que poderia muito bem saber de informações vitais para localizar Fiodor, e ir ao seu socorro. Essa era uma das missões que lhe foram confiadas, afinal. E com esse pensamento iria abordar o primo, nem que para isso tivesse que espremê-lo contra a parede. Era uma vida que estava em jogo, a vida de um amigo que se mostrara mais fiel que o próprio primo, e ele não vacilaria na tentativa de resgatá-lo. Indaga diretamente Lelek – ele reluta. Insiste, e o primo recalcitra. Por fim, ameaça revelar tudo que conversaram a Nicolai, e junto com ele impedir, por todos os meios, que ele fosse à Viena. Então ele cede.
Entre protestos, imprecações e lágrimas – não de arrependimento, mas de revolta – conta a Igor tudo o que soubera da fraternidade, os serviços que prestara à mesma, as informações, de dentro da casa do próprio pai, que ele teria fornecido por troca de migalhas. Igor houve o relato das últimas atividades de Julek Ianovich, francamente atuando do outro lado, contra seu próprio sangue e criação. Não mais se contém e indaga diretamente:
— Então me diga agora onde está Fiodor.
— Eu não sei onde ele está. Para mim ele morreu, entende? Não me importo mais com ele.
— Mas é claro que sabe! Quando cheguei no apartamento você pensou que eu fosse Fiodor, e perguntou como eu havia conseguido voltar. Onde está Fiodor, primo?
— Fiodor não existe, Igor. Era apenas uma mentira.
— Como é?
— Sim. Ele se chama Alex Benk, e se aproximou de mim apenas para entrar para a fraternidade, ele me usou!Diante do olhar fixo e do silêncio de Igor – que não revela o quanto sabia pelos documentos que Alex Benk enviara a Nicolai –, Julek Ianovich resolve contar o ocorrido. Então, dramatizando ao cúmulo – como sempre fazia quando contava fatos que envolviam a ele próprio –, Julek Ianovich narra para Igor tudo: como foram convocados para a dita reunião, o que lá ocorreu, a forma como Fiodor fora desmascarado pelo Sacerdote, que exigiu o sacrifício ritual de Fiodor, ali mesmo, diante de todos, para que servisse de exemplo a quem mais pensasse em trair a fraternidade. Revela que ele mesmo pedira a morte de Fiodor, porque se sentia traído por ele.
— Você está querendo me dizer que Fiodor está morto? Mas não é possível!
— Se aquele impostor está vivo eu não sei, já lhe disse – e não me importo. Mas não foi sacrificado naquela ocasião. Apareceu na reunião um senhor idoso, a quem eles chamaram de “O Ancião”, e impediu que aquilo prosseguisse. Ele e o sacerdote se retiraram, enquanto ficávamos lá, naquele barracão fechado, aguardando os acontecimentos. Mas nada mais aconteceu até que o sacerdote voltasse e encerrasse a reunião.
— Então para onde Fiodor foi levado? Pergunta Igor, ansioso por saber onde estaria o rapaz que tantas informações enviara a Nicolai.Lelek conta sobre a existência de um templo para onde Fiodor teria sido levado, e que soube, por algum dos presentes, que ficava próximo ao Mar Báltico, no norte do país. Mas o que aconteceu com Fiodor, depois disso, não sabia informar. Desde a citada reunião, recolhera-se ao apartamento, não mais sendo procurado. Ficara lá como lhe fora determinado, aguardando as instruções do Sacerdote sobre a sua ida para Viena, como uma maneira de premiá-lo pelos trabalhos que fizera. E pelo seu silêncio quanto a Fiodor. Nada mais sabia, pois aguardava notícias em casa, e como os dias passavam sem que viessem ao seu encontro, ele se desesperou. Foi quando Igor o achou e o trouxe para ali.
Igor, ainda assim, tenta obter mais informações de Lelek, inquirindo:
— E este Ancião, quem era? Que autoridade tinha sobre o tal Sacerdote?
— Eu tinha o Sacerdote como a maior autoridade da fraternidade, e não alguém que estaria atrelado a outros. Depois apareceu este Ancião, que parece que faz parte de um conselho maior, que o Sacerdote obedece. Eu já não sei onde tudo isso vai parar. Só sei que deveria aguardar lá, entende, e se eles me procurarem eu não estarei no apartamento, e vou perder a minha viagem para Viena.Igor não mais se contém, diante da falta de visão do primo:
— Será que você não tem outros pensamentos que não para si mesmo Julek Ianovich? Não consegue sequer enxergar o que está à sua volta? Não vê que você mesmo pode estar entrando em uma armadilha? Que simplesmente o atraíram para atingir o tio?
— Não, primo! Eles vão cumprir a promessa!
— Assim como cumpriram com Fiodor?
— Fiodor é um traidor, merece ser punido! E eles cumprem com as promessas, sim, Tadeusz me assegurou isso!
— Tadeusz? E o que ele está fazendo no meio de tudo isso?
— Ele odeia Olek Kowalski, com todas as forças, e fará qualquer coisa para destruí-lo.
— Mas como pode? Eles são primos, assim como nós!
— Eu também não gosto deste Olek, Igor. Nunca gostei, desde que eu soube de sua existência, quando descobri que era para ele que estavam reservando aquele lugar importante, que era para ser meu. Não vejo nele nada de especial para ser paparicado como ele é. Até hoje não entendi porque todos na minha família o tratam de um modo especial. Mas Tadeusz o odeia, e parece coisa antiga, e se dedica totalmente a este ódio. Nunca vi igual.Os primos então passam a conversar sobre Olek e Tadeusz, e Igor conta ao primo sobre Olek e Maricha. Eles divagam sobre o assunto. Foi quando, tomado por sua preocupação primeira, Igor deixa escapar que Nicolai talvez soubesse onde ficaria o lugar onde Fiodor pudesse estar encerrado, para que eles pudessem resgatá-lo. Julek Ianovich reage ao comentário:
— Vocês vão tentar resgatar aquele traidor? Eu quero mais que ele morra, e vocês também deveriam querê-lo!
— Cuidado com seus julgamentos, Julek Ianovich. Ao que me consta quem agiu contra a própria família foi você, não ele. Acaso queira resgatar a sua dignidade, auxilie no resgate a Fiodor, ao invés de tentar achar desculpas para sua própria torpeza e desejar que nos aliemos a ela!O que se sucedeu foi um bate-boca entre os primos, bruscamente interrompido pela volta de Lidja e Helena para o interior da casa. Desconcertado, Julek Ianovich vai até o quarto dos fundos e lá se tranca, berrando que não queria falar com mais ninguém, e que lhe dessem um pouco de paz.
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Por um impulso Igor não só revelara os planos de Nicolai quanto a Fiodor, mas deixara claro o que pensava a respeito das atitudes do primo em relação à família, e com isso decretara o fim da trégua entre eles. Sabia que havia sido imprudente, mas fora-lhe impossível controlar-se, àquela altura da discussão.
Os primos terminaram por trocar ofensas, que em verdade não cabiam pelo momento que atravessavam. Helena e Lidja, que recém-chegavam do passeio, somente a tempo de presenciar o fim do conflito entre os Julek e Igor, entreolham-se, tentando compreender o que ocorrera ali.
Testemunhando aquilo, quase que automaticamente, as duas mulheres fitam Igor interrogativamente, o qual, como por desculpas, diz que irá subir ao seu quarto, pois tinha muito que pensar, avisando que desceria para o almoço, quando então conversariam. Chegando no aposento, desaba na poltrona, tentando acalmar seu espírito, organizar as idéias, perdendo-se assim em pensamentos. Assim ficou, por mais de uma hora, contemplando o vazio.
Ainda do mesmo jeito estava Igor, quando este se espanta com as batidas na porta que o retiram do transe. Levanta bruscamente e olha para Helena, que se encontrava à porta.
— O que houve?
— É Lelek, seu primo. Ele está partindo.
— E não o detiveram?
— Não conseguimos. Ele está partindo agora, disse que tinha muitas coisas a fazer para continuar perdendo o seu tempo aqui. Foi ríspido, carregava a cólera no olhar.
— E Lidja?
— Tenta ainda dissuadi-lo, alega que ele ainda estava fraco e precisava se recuperar, que ele deveria ficar para que ela pudesse tratá-lo, mas em vão consegue que ele lhe dê ouvidos. Ela está lá fora agora, e me pediu que eu o chamasse. Julek falou que iria pegar a motocicleta de Nicolai, e que depois nós poderíamos apanhá-la na estação.
— Na estação em Lowicz?
— É.Igor então vai até a janela a tempo de ver Lelek saindo do galpão com a motocicleta, enquanto Lidja esbraveja, tentando fazer com que ele desistisse da partida abrupta. Igor fica a observá-los, imóvel.
— Não vai impedi-lo, Igor?
— Não, não vou, Helena. Ele que arque com suas escolhas. Não posso fazer mais nada por meu primo. Não por agora. Pensei que poderia, mas não posso. Deixem que parta.Helena nada responde, fica apenas a observar pela janela, também, a partida de Julek Ianovich.
Quando o ronco da motocicleta some no dia, e baba Lidja retorna lentamente para a casa, mancando, com a palma da mão esquerda pressionando as costas, coberta de desconsolo, Igor faz menção à Helena para que descessem. Ele queria apaziguar baba Lidja, e as duas tinham muito a ouvir. Precisava que elas o ajudassem a tomar as graves decisões em relação ao primo, em relação a Fiodor e, sobretudo em relação a Nicolai, que deveria ser posto a par de toda aquela história. Isto era o que mais lhe angustiava.