Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 


XXVI – Outros mares

A previsão do Sacerdote não se concretizara. Os seus homens não iriam mais, naquele final de semana, para Kraków. O Conselho da fraternidade, que tinha o ancião por interlocutor, havia apontado pela prudência, determinando que não se efetuasse tal movimentação de vulto, razão pela qual apenas três iniciados foram enviados para lá, a fim de acompanhar os movimentos de Olek, e, a partir dele, dos demais adversários que lá se encontravam.

Os homens do conselho, pensava o Sacerdote, estavam velhos demais, prudentes demais, cansados demais. Logo chegaria a hora dele impor as suas próprias idéias e métodos. Quanto à recomendação de mandar três iniciados para Kraków, eles o faziam tardiamente, pois ele já adotara tal providência no dia seguinte à reunião do galpão norte. Por enquanto, ainda que contrariado, decidiu acatar a imposição do Conselho, mas tinha também outras idéias em mente. Havia mandado chamar Tadeusz, e assim que este chegou ao novo escritório em Warszawa, o interpela:
— Tadeusz, de que lado você está?
— Como de que lado? Depois de tudo que fiz, não tem provas suficientes?
— Não tenho prova alguma. Tudo o que você fez foi para atender a seus próprios interesses. De que lado você está?
— Sinceramente, pouco sei de vocês, Sacerdote, para estar do lado de vocês ou contra. Mas bem sabe que me aliei a vocês de uma forma que, nem se eu o quisesse, poderia me desvencilhar. E não é pelo que aconteceu a Brunick. Ele merecia aquilo: estava vendendo a tudo e a todos, isso eu compreendi. Mas por tudo que já fiz, pelo curso da própria vida que abandonei. Eu fiz uma escolha, e o senhor sabe disso.
— Não, eu ainda não sei. Pensei até em me livrar de você, depois da última vez que me desafiou. Mas mudamos de idéia: vimos em você algum valor. Por isso, vamos lhe dar uma oportunidade, para que assim possa provar de que lado está e, a depender de como se saia, poderá ser iniciado – como poderá morrer, caso pense em traição. A escolha será sua, pois estaremos confiando em você.

Ante aquelas palavras, que o faziam sentir na pele o submundo onde se metera, Tadeusz silencia por alguns instantes, tomando coragem para prosseguir com a conversa, curvando-se àquela fraternidade, a qual, sem perceber, já se sentia pertencente:
— O que pretende que eu faça?
— Você fará uma viagem a Kiev.

Ele sente um impacto quando ouve a ordem, e uma súbita emoção toma conta de Tadeusz, quando pergunta:
— Localizaram Maricha?
— Não. Penso até que ela não esteja mais naquela cidade. Você vai para lá justamente para reencontrar o fio da meada, que se perdeu. Deverá descobrir para onde a levaram, e se Ari vem ao encontro dela. Caso você tenha sucesso, nós manteremos o trato, e então o auxiliaremos a resgatá-la das mãos deles, e você poderá ir com ela para onde quiser.
— E se não a localizar, o que acontecerá comigo?
— Vai depender de como você agir nessa busca. Estará sendo observado.
— Quando eu parto?
— Quando vocês partem, quer dizer. Você não vai sozinho. Nós nunca vamos sozinhos. Erin Petrocek irá também, e lá encontrarão mais um dos nossos. Amanhã, bem cedo, pague o quarto e faça as malas. Venha direto para cá, que eu o apresentarei a Erin. Ele é um iniciado, e você estará sob seu comando.

Nesse momento entram dois homens no escritório e, sem esperar sinal do Sacerdote, desatam a falar:
— Julek Ianovich desapareceu. Não está no apartamento nem em nenhum dos seus lugares habituais...

O sacerdote os interrompe, com um gesto rude e olhar de reprovação, e então despede Tadeusz, que sai intrigado com o que eles pretendiam com o pobre Lelek, aquele garoto desesperado que se descontrolara na reunião do galpão norte. Afastando tais pensamentos, tenta se concentrar no que iria fazer em Kiev, e nas coisas que o Sacerdote lhe havia dito, e não pensou mais no que ouvira dos dois homens na saída. Não era de sua conta, outras preocupações assolavam sua alma. Estava tomado pela ansiedade de um reencontro com Maricha. Como ela estaria? O que havia passado nas mãos daqueles agentes? Seria ela capaz de perdoá-lo pela última briga? Quereria ela seguir com ele para outro país? Aceitaria ser sua? Tadeusz, resoluto, reafirma de si para si que faria tudo para que as coisas dessem certo, e ela teria que se curvar à sua paixão, ou então... sim, ou então, pensa Tadeusz, ela não iria viver para se jogar nos braços de outro. Maricha tinha que ser sua, e nada, e nem ninguém, interferiria. O maior rival, seu primo Olek, já havia recomeçado a vida em Kraków, e não ousaria interferir mais, ele refletia.

Preso àqueles pensamentos, movido pela euforia ocasionada pela possibilidade de se reencontrar Maricha, Tadeusz chega a seu quarto de aluguel, acompanhado pelo olhar curioso de sua senhoria, a quem não escapou o brilho estranho que ele trazia nos olhos. Ele também a nota, e a cumprimentando ligeiramente, sem dizer palavra, segue até o quarto, onde começa a arrumar as coisas, suas poucas coisas, para no dia seguinte seguir a Kiev. Nunca mais pretendia voltar ali.

¤

Tadeusz em silêncio, na sala de embarque do aeroporto de Warszawa, ladeado pelo taciturno Erin Petrocek, enquanto aguardava a chamada para embarque no avião que os levaria para Kiev, rememorava tudo o que acontecera em sua vida, desde que o seu primo regressara. A ele parecia que a presença de Olek, por si só, bastava para atrapalhar a sua vida. Ele estava bem, muito bem, naquele dia em que encontrara com Victor na fábrica, e tivera que concordar com aquele jantar em “homenagem” ao regresso de Olek.

Tadeusz pensava como progredia na fábrica, assumindo o alto cargo após ingressar, por insistência de Brunick, naquela fraternidade que tanto o assediara. Maricha, à época, enlutada com a morte do pai e separada do marido, até fazia menção de permanecer em Warszawa com a mãe Janina e com ele, Tadeusz, no apartamento. Lembrava ele que vira, assim, a grande chance de recuperar Maricha para seus domínios, mostrar-lhe os caminhos da alegria e do contentamento, ao seu lado, o que desejara fazer desde que soube de sua separação. Sequer Andrzej vivia para opor-se às suas intenções, pois de antemão sabia que ele as reprovaria, e quanto à sua mãe, Tadeusz estava certo de que sempre poderia contar com ela. Fosse para o que fosse.

Mas não. Na época da chegada de Olek pareceu que as portas se lhe fechavam uma a uma. Já havia aparecido aquele tal de Ari, dizendo-se irmão de Maricha, querendo primeiro apenas confirmar a existência da irmã de sangue, depois travar contatos com ela, e agora pretendia levá-la para morar em Israel. Querendo roubá-la, na verdade, no maior descaramento. Ele revoltava-se com o fato de Maricha preferir um irmão desconhecido a ele, que sempre se dedicara ao seu bem. Tentava dissuadi-la da partida, para que ficasse com ele, mas ela não o ouvia.

E Olek tinha que retornar justo naqueles dias, e reascender a paixão de Maricha por ele. Encontrar-se com ela, viajar com ela, dormir com ela! Quando seus pensamentos chegam nesse ponto Tadeusz sente o peito queimar: — E para quê? Para depois se separarem, ela seguindo para Tel-Aviv? Que asneira! — Ah, aquela tarde amaldiçoada em que os vi chegando... e aquele calhorda acertando-me um soco e depois se escondendo atrás de Maricha, fazendo que o golpe que eu desferi acertasse nela... e tudo que Maricha disse depois... Ah, que dor! Ainda bem que, naquele dia, pelo menos minha mãe defendeu-me perante aqueles dois. Um dia ainda vou ver-me vingado de Olek...

Os pensamentos de Tadeusz são interrompidos pelos autofalantes que anunciam a chamada para seu vôo. Erin pega sua bagagem e aponta a Tadeusz a que lhe cabe. O silêncio daquele guardião o incomodava, e esperava que tal logo fosse quebrado. Mas ao mesmo tempo não fazia questão de ser simpático, facilitar o diálogo com Erin, e entendia, também, que o assunto que tinham a tratar não o poderia ser em público, muito menos numa sala de embarque ou dentro do avião. Na verdade começava a agradecer-lhe o silêncio, que era melhor do que conversar superficiais amenidades. Aguardaria para conversar sobre o que realmente lhes intressava quando estivessem instalados no hotel em Kiev.

O embarque se dá e Tadeusz volta a se entregar aos seus pensamentos, revendo o dia em que vira Maricha pela última vez. Tinha esperanças de encontrar pistas de seu paradeiro, e de resgatá-la para si. Esse era, agora, o seu único objetivo. Cuidar da mãe não precisaria, pois pedira que esta fosse embora de Warszawa para passar uma temporada com a tia, irmã dela, em Zacopane, e ela assim o fizera. Maricha e a mãe, as duas pessoas com quem Tadeusz se importava, e que agora estavam tão distantes dele. E tudo acontecera tão de repente... O dia do conflito lhe volta à memória, insistentemente, como uma obsessão. — Ainda bem que naquele dia um amigo o consolara, e o levara a pedir auxílio à fraternidade, para não perder Maricha de vez.

Tadeusz estremece ao lembrar-se do semblante de Brunick, agora morto. Concordar com o seqüestro de Maricha, para assim impedi-la de seguir para Israel, fora uma insanidade. Deixara-se cegar pelo ódio que sentia por Olek, por ele sempre haver conseguido separar os dois, de um jeito ou de outro. É certo que o plano de desviar Maricha do destino de sua viagem era bom. Desmistificaria Ari e afastaria definitivamente Olek de Maricha. Isso sem contar com os cem mil dólares que receberia, e com os quais poderia começar uma nova vida fora da Polônia. — Mas por que precisou acontecer aquele acidente justo no vôo dela? — Mas por que Brunick o traíra? Por que traíra a fraternidade, que lhe dava uma boa paga por seus serviços? E por isso merecia morrer? E ainda pela sua própria arma, disparada pelo sacerdote. Uma tragédia. Uma tragédia pela qual ele também era responsável. Sabia que naquele momento assinava um pacto de sangue com a fraternidade, e o fato de não ter imediatamente procurado ajuda, quer dos parentes, quer da polícia, o fizera cúmplice daquela barbárie.

Precisava então sobreviver, e entre os lobos. Teria que ser mais cauteloso que eles, mais esperto que eles, mais inteligente que eles. Precisava, enfim, tornar-se um deles para conseguir seu objetivo, que era um só: Maricha.

Tadeusz mal se deu conta da viagem, percebendo que o tempo passara apenas pelo início dos procedimentos de pouso da aeronave. Erin dormira por todo o vôo, a sono solto, e só agora despertava. Chegavam a Kiev. Quando finalmente hospedam-se num apartamento duplo de um hotel no centro da cidade, é que Erin começa a conversar com o parceiro de viagem.
— Finalmente chegamos, pan Tadeusz.
— Dispenso o trocadilho, Erin. Chame-me apenas de Tadeusz, por favor.

Arqueando a sobrancelha, Erin constata que Tadeusz não é dado a brincadeiras. Então, sério, retruca:
— Você é um privilegiado, Tadeusz. Está a ponto de conhecer profundamente a fraternidade que o acolheu. E por recomendação do próprio Senhor Sacerdote.

Tadeusz olha interrogativamente para o parceiro de quarto, que prossegue no mesmo tom:
— Quero lembrar-lhe que tenho duas tarefas a executar aqui. A primeira é, junto com você, buscar pistas que nos levem ao paradeiro de Mirian Bernstein e seu irmão Ari. A segunda, você já sabe, é observá-lo, Tadeusz. Ande bem e terá as portas da fraternidade abertas para você. Mas ande bem. O caminho que começa a trilhar não tem volta, nem saída.
— Você não me intimida, Erin. Nem você nem o Sacerdote. Estou aqui por minha vontade, e em busca de meus objetivos. Eu já disse que estou com a fraternidade, não preciso de testes.
— É bom que assim seja. Não se precipite, ou poderá por tudo a perder, inclusive a sua vida.
— De certa forma, minha vida já está perdida, parceiro.
— Deixe de lado as bravatas, e pense bem no que lhe falei. Agora vamos dormir, que teremos um dia cheio, amanhã.

Sem dar chance a Tadeusz para retrucar, o homem apaga a luz e deita-se na cama, e em pouco tempo estava a ressonar. Tadeusz, por sua vez, deitado a olhar no teto os reflexos das luzes que vinham da rua, custou muito a pegar no sono. Ele estava particularmente sensível à lembrança de Brunick, como se este estivesse a assombrá-lo.

¤

A manhã do dia seguinte em Kiev servira mais para Tadeusz conhecer setores da confraria que desconhecia, tendo sempre por guia o seu guardião, Erin Petrocek. Tadeusz era apresentado como um futuro iniciado, e assim era tratado com certa deferência pelos demais. Ele percebia que o fato de ser assim referido dava-lhe uma certa autoridade, talvez pela severa hierarquia que eles mantinham. Tomava conhecimento de que havia os que eles chamavam de soldados, depois os iniciados, comandados diretamente pelo Sacerdote, que por sua vez respondia a um conselho.

Onde isso iria parar, ou se haviam ramificações, ele ainda não sabia, mas começava a desvendar os meandros daquela organização. A pergunta que carregava, e que não lhe respondiam, era qual o liame que fazia com que aquelas pessoas ficassem tão unidas, o que, de fato tinham por escopo alcançar. Era um dos segredos que sabia que ainda lhe seriam desvendados.

À tarde, a busca de pistas sobre o paradeiro de Maricha se mostrara infrutífera. Parecia que tudo havia sido feito de tal forma para que eles não obtivessem um ponto de partida sólido que os levassem a avançar. Apenas pequenos indícios. Erin, extenuado, comenta:
— Profissionais. Trabalharam como profissionais. Essa tarefa está se mostrando mais árdua do que esperava.

Tadeusz, no entanto, não se deixava abater. Sabia que estar ali era sua grande chance de encontrar alguma pista de Maricha, para daí exigir que a fraternidade agisse de forma contundente no seu resgate, pois este tinha sido o acordo inicial.

Durante a noite, Erin passou a narrar a Tadeusz alguns dos segredos que, através dos tempos, foram guardados entre aqueles envolvidos na fraternidade, e cada vez mais ele se inteirava dos objetivos almejados pelo Sacerdote. Isto também o fazia refém: quanto mais soubesse, menores seriam suas chances de sobreviver a esta trama.

Contudo, ele pensava, do jeito que as coisas estavam sabia não ter escolhas. Encontrada Maricha, veria o que fazer para com ela iniciar nova vida longe daquilo tudo. Por ora teria que localizá-la, e impedir que Olek a soubesse viva, pois de outra forma guardava a certeza que não a deixaria em paz. Não queria que seu primo se aproximasse mais uma vez de seu tesouro.

Tadeusz, aos poucos, passava a entender os motivos da contenda, e contra quem a fraternidade pelejava. Quando teve ciência que lutavam contra o que fora defendido pelo avô chegou a agastar-se, porém manteve-se silente quanto a isso. Não podia admitir, nem um minuto sequer, para Erin, que vacilava. No fundo, achava tudo aquilo uma insanidade: pessoas levando avante uma luta milenar, alterando tantos destinos, apenas porque – ao menos assim pensava – herdavam esta luta de seus ancestrais.

Seus sonhos – refletia Tadeusz – eram mais simples, e seu objetivo ali consistia em encontrar Maricha e resgatá-la, para depois tê-la apenas para si. Todo o resto não lhe dizia qualquer importância. Também não conseguia negar a si mesmo que Maricha se encontrava nesta situação por sua culpa, por ele ter facilitado o seqüestro da mesma, mas desculpava a si mesmo com a convicção de que ela teria, de qualquer forma, partido para sempre, e auxiliar o Sacerdote era uma forma de evitar a definitividade da viagem. O inesperado resgate de Maricha pelo irmão Ari fizera com que mais ainda se envolvesse, e agora se via conhecedor de muitos segredos.

Erin o observava. Talvez o seu pupilo estivesse pronto para a próxima fase de sua iniciação, fase esta que Tadeusz sequer sabia que teria que passar, mas que seria inevitável, caso quisesse prosseguir com seus sonhos, e com sua vida.

 

XXVII – Um convite surpreendente

 

Naquele anoitecer de sexta-feira, quando chegava a Zacopane com o amigo canadense, a fim de visitar as montanhas, Olek não pôde deixar de notar uma dupla de rapazes que os seguiam à distância. Já tinha consciência dos perigos que corria, ou ao menos sabia que corria algum perigo, pelo tanto que Christina e Nicolai já o tinham prevenido. Ainda não sabia exatamente o porquê de pessoas estarem interessadas nele, ou qual a razão dessa perseguição. Intimamente, porém, algo lhe dava a certeza de que, no tempo certo, iria entender tudo aquilo.

Como jamais pedira para se envolver nessa história, decidira que a presença desses rapazes não teria o poder de alterar em nada o seu modo de viver, nem o seu sagrado ir e vir. Não iriam perturbar a sua liberdade. Tomava, é certo, certas cautelas, como nunca estar ou ir a algum lugar totalmente só. Não queria correr riscos, até que fizesse a visita a Miroslaw Tchenka, como Nicolai tanto insistia e Christina aconselhara. Ao retornar a Kraków esclareceria definitivamente todo aquele mistério. Olek queria libertar-se daquilo tudo, mas pressentia que para tanto não bastaria fugir – teria que ir até o fundo daquela história, precisava entender, de uma vez por todas, que espécie de legado dziadzio Julek havia deixado para ele, quais obrigações ele deveria cumprir, para então prosseguir com sua vida e, quem sabe, tentar ser feliz. Olek tinha poucos sonhos, simples sonhos, mas que se mostravam por tantas vezes tão distantes, que parecia que ele os havia abandonado. Mas não, ele apenas os guardava dentro de si. O pouco que queria era seu tudo.

Aqueles dois homens se mantinham à distância, sem qualquer menção de abordagem. Pareciam apenas interessados em observar. Mas estavam ali, e Olek se punha em guarda. Todavia, decidira não compartilhar estes temores com Jean Claude, alheio a tudo isso, e com quem excursionava. Olek não queria sobressaltá-lo, pois tentava convencer o amigo canadense a se instalar permanentemente no Centro de Pesquisas da Escola de Limnologia, em Kraków, pois ele era um expoente nessa área. A princípio via uma certa reticência em Jean Claude, mas não decifrara ainda a razão daquilo.

À noite, já instalados numa confortável pousada ao sopé de uma montanha, conversavam sobre os planos para o dia seguinte, quando Jean Claude, após alguns rodeios, surpreende Olek abordando diretamente o assunto que antes evitava:
— Olek, eu sei que você está tentando de todas as maneiras que eu fique com vocês no centro de pesquisa.
— Isto não é nenhum segredo, caro amigo. Acredito que com você aqui progrediremos mais rapidamente...

Interrompendo a argumentação de Olek, Jean Claude prepara caminho para o que tinha a dizer:
— O que eu tenho é uma contraproposta, Olek. Ouça-me com atenção.

Jean Claude discorre sobre uma empresa anglo-americana, com a qual mantivera contato recentemente e que lhe fizera uma boa proposta de emprego, que ele aceitou antes de embarcar para Kraków. Esta empresa atuava no Canadá, em pesquisas semelhantes às que Olek assumia na Jagelônica de Kraków. Conta sobre o projeto que lá desenvolviam, e a conversa deles segue este caminho.

Olek fica fascinado com os avanços que eles já haviam conquistado, e as horas passam enquanto eles descem às minúcias que só aos estudiosos chamariam a atenção, enquanto o canadense, com o olhar a perscrutar atentamente o entusiasmo de Olek, houve o seu comentário.
— Esta história me entristece, por um lado, pois sabendo que você já aceitou trabalhar nessa binacional, acho que me faltarão argumentos para que você fique aqui conosco, Jean Claude. Por outro lado, fico feliz por você, e até desejando que já tivéssemos os recursos que você diz que eles possuem. Eu gostaria muito mais de trabalhar com as condições que você vai encontrar. Sei que ainda terei que lutar por mais recursos, técnicos e financeiros, e você já tem este obstáculo superado...
— Mas você pode ter tudo isso, Olek, basta querer!

Olek então brinca com o amigo, simulando inveja quanto às condições de trabalho de Jean Claude, que se contrapunham com as que encontrava na Polônia pós comunista:
— Eu sei, eu sei... mas o tempo que levarei para obter é precioso, e enquanto eu estiver aqui organizando a Escola, você já estará passos e passos à frente... terei que correr para alcançá-lo!
— Você não está entendendo, Olek Kowalski. Quando eu fui convidado pela empresa, assim como você se lembrou de mim, eu lembrei de você, e o mencionei – assim como a seus estudos, para o pessoal de lá, e eles se interessaram muito.
— Verdade? É muito lisonjeiro saber disso.
— Sim. Tanto é verdade que me autorizaram a convidá-lo a integrar a minha equipe, nas mesmas condições que eu obtive, com todas as regalias, inclusive. Por esta razão eu me mantive reticente quanto ao seu convite. Eu vim verificar as condições que você está criando aqui, e em que pé estão as suas pesquisas. Agora que sei, sinto-me à vontade para formalizar o convite. E então, o que me diz? Volta comigo para o Canadá?

Olek fica desconcertado, pois pretendia obter dessa viagem o oposto, ou seja, trazer Jean Claude para a Polônia, e agora tinha uma oferta que se mostrava tentadora, tanto financeiramente, pela quantia que autorizaram Jean Claude a oferecer, como pelas condições que este teria desenvolvendo as pesquisas no Canadá. Lá ele não teria que reestruturar todo um setor, como fazia na Escola de Limnologia, mas partir de um ponto onde talvez levasse quase um ano para chegar – e trabalhando duro – em Kraków. Ele, no íntimo, se interessa, mas não responde a Jean Claude. Embora com a convicção abalada, ainda tenta mostrar ao amigo algumas vantagens que teria no caso deste se fixar em Kraków, mas acaba por desistir.

O convite estava formulado por Jean Claude, e Olek teria que dar uma resposta. Conversam um pouco mais, e logo se recolhem, pois teriam o sábado com muitas atividades turísticas, para as quais já haviam se programado.

Naquela noite, entre o sono e a vigília, Olek se recorda da fabulosa viagem de regresso a Warszawa, em que encontrara Andrzej – ou o espectro de Andrzej – quando este o preveniu de muitas coisas sobre a sua vida futura, e referiu-se a muito do seu passado. Ao despertar, ainda sob o manto da escuridão, o possui forte sensação de que precisava rever os apontamentos que fizera com relação àquele encontro inexplicável com o tio, pois adormecera com a sensação de que algo lá lhe fora dito que se referia a este momento de sua vida, todavia deixara os apontamentos no apartamento, antes de sair de viagem. Talvez fosse algo em relação aos outros mares que pudesse navegar, não se recordava ao certo.

Olek hesita. Sabia que tinha uma grande oportunidade à sua frente, que o firmaria definitivamente em sua carreira, dar-lhe-ia a almejada independência econômica, abrindo assim novas perspectivas. Mas isso implicaria em abandonar a tudo e a todos que o cercavam. Sua vida tinha pendências, para que ele simplesmente se pusesse a seguir adiante, como fez o seu irmão Victor, agora no Reino Unido. Os mistérios que teria que desvendar com Nicolai, a esperança de reencontrar Maricha, e também ter que deixar o seu país, por mais uma vez, talvez para sempre, eram coisas que pesavam em sua alma. Sentia-se oprimido. Tinha, diante de si, dois caminhos a seguir, que eram opostos, de impossível conciliação. E a angústia se instalara em seu peito. Precisava voltar, reler os apontamentos, conversar com alguém sobre tudo isso, e então tomar a sua decisão. Já não eram tempos de espera.

Amanhece. Os dois amigos, após o desjejum, seguem em suas atividades, observando as belezas do lugar. Não mais tocaram no assunto naquele dia, e somente o fariam na viagem de volta, quando Olek se comprometeria com Jean Claude a dar a sua resposta até a terça-feira. Eles teriam muito que fazer na Escola, cumprir a programação a que tinham se proposto, pois na quarta-feira Jean Claude deveria voltar para o Canadá, e o deveria fazer com uma resposta definitiva de Olek.

Ao longe, dois rapazes continuavam a observar Olek, como lhes tinha sido ordenado, e anotavam todos os lugares aonde ele ia e com quem falava. Não pretendiam mesmo abordá-lo, mesmo porque ele e o amigo pareciam inseparáveis.