Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 

 

XXIV – A ausência

 

Com a proximidade do fim-de-semana, e ante a iminente chegada do pai a Kraków, Christina resolve telefonar para Olek, na Escola de Limnologia, a fim de confirmar o compromisso marcado para o sábado. Quem a atendeu informou que Olek ainda não viera ao trabalho. Christina inquieta-se: — Por que razão Olek não fora trabalhar? Resolve ir ao seu encontro no apartamento, a fim de verificar o que estaria havendo. — Ele deve ter resolvido não ir ao trabalho pela manhã, pensa. Chegando no prédio de Olek, após bater insistentemente na campainha sem que fosse atendida, resolve seguir até a Universidade. — Pode ser que tenhamos nos desencontrado, e ele foi para o trabalho enquanto eu vim para cá – ela reflete enquanto segue até o departamento de Limnologia, onde é recebida por uma estagiária solícita.
— O professor Olek não se encontra, senhorita. Ele não veio ao Centro de Pesquisas hoje.

Christina então indaga:
— Não? Sabe onde ele pode ser encontrado?
— Onde ele se encontra, infelizmente, eu não sei, mas está com o professor canadense.
— Professor canadense?
— Sim. Ele foi convidado pelo Olek, digo, pelo Chefe, para que viesse nos fazer uma visita. Esse Jean Claude é um pesquisador muito conhecido na área, e nos surpreendeu antecipando em uma semana a sua vinda para cá. Chegou já na terça-feira e o chefe dispensa-lhe a maior atenção, pois pretende convidá-lo a integrar a equipe numa série de estudos que vai ser iniciada. Eu os ouvi conversando sobre fazerem uma pequena viagem ou coisa assim. O chefe ligou para cá bem cedo, quando eu estava chegando, e avisou que não vinha hoje, talvez tenham mesmo viajado.
— E eles não avisariam ninguém sobre isso?

A estagiária, com certo enfado, responde:
— Claro que devem ter avisado, senhorita. Ao Diretor da Escola. Mas ele não nos repassou essa informação até agora.
— Você não poderia perguntar ao Diretor?
— Só mais tarde. Agora ele está em reunião na Universidade, e disse somente eu o chamasse no caso de algum assunto urgente.
— Mas é possível que eles tenham viajado? Assim, sem mais nem menos?
— É o que parece, pelo que eu ouvi... Sabe, senhorita, Jean Claude Bertrand é uma grande autoridade em limnologia. Pelos estudos que publicou, certamente contribuiria em muito para o avanço das nossas pesquisas aqui...

Não estando tão interessada nas qualidades acadêmicas de Jean Claude, mas sim no paradeiro de Olek, Christina não prolonga a conversa, interpelando a estagiária:
— Não sabe para onde foram, então?
— Não, eles não disseram nada, apenas os ouvi comentando, fazendo planos. Nada mais. Não posso ajudá-la.

Christina, contrariada, despede-se, voltando pra casa. Ao chegar encontra Josef sentado em sua poltrona, lendo, e conversa com ele sobre o desaparecimento de Olek:
— Eles devem ter saído pelas cercanias de Kraków – diz pensativa –, e logo mais à noite devem estar em casa. Não é possível que tenham desaparecido no ar. O importante é que ele não está sozinho, pois isso, nós sabemos, seria perigoso para ele.

Josef, embora sem perder a serenidade, mostra-se um pouco apreensivo:
— Nós sequer sabemos para onde ele foi, nem quem é esse pesquisador que está com ele. Talvez ele não esteja em segurança. Isso não mereceria uma maior investigação? Tentou localizá-lo através de outros meios?

Sopesando a indagação de Josef, Christina se esforça para, ainda assim, ver com tranqüilidade a situação. Em verdade, praticava alguns dos ensinamentos do livro, testando seu autocontrole. Não devia dar espaço para manifestações precipitadas, e sim se comedir, a fim de enxergar as coisas como realmente eram. Tinha que aprender a ouvir-se, e o que sentia é que Olek estaria bem. Com essa reflexão ela responde a Josef:
— Não me preocuparia demasiadamente com isso, Josef. No caminho para cá, refleti que nós podemos não saber quem é Jean Claude, mas com certeza Olek o sabe, visto que a estagiária me contou que ele veio do Canadá a convite do próprio Olek. Ele estava ciente de que não deveria aventurar-se completamente só, nós conversamos sobre isso. Devemos então confiar no discernimento dele.
— É verdade, é verdade...

Josef surpreende-se ao agradavelmente com o equilíbrio demonstrado pela jovem filha de Nicolai, que se contrapunha ao radicalismo que dela testemunhara em outras ocasiões, num passado nada distante. O amigo Nicolai deveria mesmo saber o que fazia, ao enviá-la para cumprir as suas tarefas em Kraków, embora tenha secretamente pedido ao amigo que zelasse por ela. Com o olhar, ele a acompanha enquanto esta se dirige à cozinha, para pedir à Mirika que lhe fizesse um chá. Mirika a atende prontamente, mas sem puxar conversas. — Como é estranha esta Mirika... – pensa Christina, enquanto a observa.

O coração de Christina, porém, não fora aquietado pela própria racionalidade, e o sumiço de Olek, depois de tudo que conversaram na viagem para Kraków, não só a preocupava, mas lhe aborrecia. A ela, Christina, caberia cuidar de sua segurança e bem estar, como Nicolai deixara bem claro. Olek sabia disso, ela dera mostras do seu proceder na viagem, ao livrar-se dos perseguidores. Mesmo assim, Olek desaparecia sem deixar aviso ou indicação de onde poderia ser encontrado. Poderia estar, agora, distante de Kraków, e isso lhe parecia uma grande falta de consideração, mesmo porque agendaram um compromisso para o sábado.

Enquanto sorve o chá, Christina não deixa de se congratular por não ter sido explosiva ao conversar com Josef. O esforço valera a pena, e ela estava aguçando seus sentidos. Progredia. Ainda guardava o meio sorriso que esboçara com aquele pensamento, quando passa a recordar do dia em Olek fora-lhe apresentado em sua casa. A sua expressão endurece momentaneamente ao lembrar-se da discussão que tiveram, quando ele reconheceu nela quem o seguia, nos seus primeiros dias de regresso, e pelas reações que ele teve depois, quando lhe tentavam explicar tudo que estava acontecendo. Ela revive a primeira impressão que Olek lhe causara, nada boa, como ela deixara bem claro na ocasião, a ponto de fazê-lo corar. Depois de conhecê-lo melhor, aprendeu a perfilhar suas qualidades, e ele as dela, e agora, sobretudo nessa viagem, parecia-lhe que desenvolviam uma bela amizade. Mas a primeira impressão, por vezes, se reafirmava, como agora, quando ele demonstrava não se importar com os outros, desaparecendo de Kraków. Christina entendia que Olek não tinha esse direito, e ela iria ter que deixar as coisas mais claras para ele, quando se encontrassem, e de um jeito que talvez não agradasse, quer a seu pai, pelo apreço paternal que ele demonstrava por Olek, e muito menos ao próprio Olek. Mas ela colocaria as coisas no lugar de uma forma não tão ponderada como a conversa que tivera com Josef. Mas muito clara. Ela se conhecia.

Christina deposita a chávena e, ainda absorta, recolhe-se ao quarto, a fim de se preparar para o dia de afazeres, cumprindo as tarefas e efetuando os contatos recomendados por seu pai. Ao anoitecer, voltaria a telefonar para Olek, e antes disso se recusaria a se preocupar com o paradeiro do mesmo. Estava, no momento, achando que ele não mereceria tal atenção.

¤

A chegada de Nicolai à casa de Josef, em Kraków, reacende a preocupação com a súbita viagem de Olek. O patriarca chega na noite de sexta-feira. Reúne-se com Christina e Josef e narra com detalhes os documentos-denúncia que recebera de Fiodor, refletindo com eles o destino correto a dar a tudo aquilo. Comenta sobre o desaparecimento de Fiodor, e que há três dias mandara Igor a Warszawa, a fim de colher o resultado das investigações junto aos informantes, além de encontrar com Lelek para descobrir o que acontecia, e que o esperava já no sábado em Kraków. Christina, ao ouvir do pai esta última informação, interpela-o, ouvindo surpresa a resposta do pai:
— Sim, Christina. Do jeito que estão as coisas, só mesmo o Lelek para dizer o que foi feito de Fiodor. E... – prossegue meio sem jeito, após breve pausa - ... para que seu primo veja como ele está. Ando muito preocupado com o que andam fazendo aqueles dois inconseqüentes.

Lelek. Era sempre desta forma que Nicolai se referia ao filho, desde quando este era pequeno. Na verdade o apelido fora dado por sua mãe, e ficara assim na família até os dias atuais. Ao referir-se desta forma ao filho, Nicolai traía a sua habitual impassividade de líder. Josef e Christina fazem nem notar, mas a conversa declina até atingir um vazio, em que cada um refletia com seus próprios botões. É Josef quem rompe este estado:
— Temos aqui também uma preocupação, Nicolai.
— Verdade? O que houve? É o estado de saúde do Tchenka?
— Não. Felizmente sua saúde se mantém estável e ele perfeitamente lúcido, apesar da idade. O que nos preocupa é o Olek.
— Por que razão?
— Apesar de saber dos compromissos do sábado, parece que viajou com um amigo, e nem sabemos onde ele está.

Nicolai olha de forma inquisitiva para Christina, que calmamente narra o acontecido, e as informações que obtivera na Universidade.
— Mas como isso foi acontecer? Olek não podia sumir assim, sem nos avisar. É certo que ele não estava sendo vigiado, claro, mas sabia que devia ser acompanhado por Christina ou outro de nós, quando saísse de sua rotina, para sua própria segurança.
— Eu também pensei isso – atalha Christina – e pretendo conversar a este respeito com Olek, quando do seu retorno. Ele é teimoso e muito zeloso com usa própria liberdade.
— Mas para onde ele foi, afinal?
— Não temos idéia. Talvez quem saiba é o Diretor do Departamento de Limnologia, mas não consegui falar com ele. Parece uma pessoa muito atarefada.

Nicolai responde:
— De fato, ele é muito ocupado. Mas não para mim. Vou ligar para ele e logo saberemos onde está Olek.

Apesar de já ser tarde da noite Nicolai liga para o amigo, o mesmo diretor a quem ele havia pedido para intervir em favor de Olek, quando da seleção ao cargo que hoje ele ocupava. Após breve telefonema à casa do diretor, Nicolai volta com um sorriso vitorioso para a poltrona, olha para os outros dois e diz:
— Olek tirou férias por conta própria.

Christina então pergunta:
— Férias? Onde ele está? Quando volta?
— Ele encontra-se agora, provavelmente, em Zacopane. Avisou o Diretor que iria fazer um roteiro turístico com o amigo cientista que chegou do Canadá, e ao mesmo tempo pretendia convencer o mesmo a ficar trabalhando permanentemente com a sua equipe. Um passeio a trabalho, como me disse o diretor.
— E por qual razão ele não nos avisou?
— Isso você vai ter que perguntar a ele, Christina. Mas não se lamente, não foi falha sua, pois ele não estava sob vigilância. Ele que deveria ter comunicado a vocês que viajaria.
— Eu sei disso, pai. Mas não deixo de me preocupar, diante de tantas coisas que estão acontecendo, ainda mais sabendo desses fatos que Fiodor nos trouxe.

Nicolai, depois de medir palavras, olha para Josef e comenta.
— Esses fatos não nos eram totalmente desconhecidos. Não a mim.

Josef confirma:
— Nem a mim. Somente eu desconhecia a história das pessoas que morreram àquela época. Mas dos fatos, genericamente, eu sabia. Foi uma grande comoção dos dois lados. Eu lembro.

Christina olha incrédula para os dois homens. Não podia conceber que tivessem sabido daqueles crimes e não houvessem, à época, tomado nenhuma providência, nem entregue os responsáveis à polícia pelo assassinato do casal de pescadores. Havia muitas coisas que Christina não compreendia, mas estava disposta a questionar cada uma delas, e esta, com certeza, seria a primeira. O senso de justiça que sempre desenvolvera com a educação recebida, não permitia que ela silenciasse diante da revelação. Christina então dispara a pergunta:
— Vocês souberam dessas mortes à época e não fizeram nada contra os assassinos? Não os denunciaram?

Nicolai lança um duro olhar para Christina, mas reflete que ela merecia uma resposta, uma explicação, e então lhe diz:
— Não, não os entregamos, mesmo porque você, para perguntar tal coisa, deve situá-la no tempo. Além de não possuirmos nenhuma prova, pois elas nos chegam só agora, nós não tínhamos a quem recorrer. Havia mais inimigos na polícia e no governo que fora dele. Sempre nos colocamos à margem de tudo isso, e então não nos podíamos valer nem da força da polícia nem das determinações do governo a que éramos subordinados desde o pós-guerra. Já nos era muito fazer sobreviver o ideal. Existia, na época, um sonho, mas não podíamos falar abertamente desse sonho. Por essa razão não denunciamos, mas tenha certeza que lutamos por nossos próprios meios para que eles perdessem força, e um dia ter o acerto de contas por essa e por outras injustiças.

Verificando pelos semblantes que ambos prestavam atenção nas suas palavras, e aceitavam seus argumentos, Nicolai prossegue:
— O assassinato do pescador Titus Benk e sua mulher, envolvendo o outro lado, fez-me recordar de outras coisas que ocorreram àquela mesma época. Aquilo ocorreu no mesmo período em que o pai de Olek foi ferido de morte em uma suposta escaramuça no báltico. Isso faz com que eu me pergunte a que ponto tudo chegou, quando reinava a escuridão. Nunca tive uma base segura de informações, a ponto de me permitir uma ação contundente contra eles. Somente com esses documentos é que tenho um ponto de partida, mas para o que pretendemos, que é dar um paradeiro nessa luta milenar, ainda é muito pouco, e vocês sabem disso.

Josef concorda com as últimas palavras de Nicolai, balouçando a cabeça. Sabia que ele estava certo quanto à luta milenar, mas não para onde tais informações os levariam, indagando:
— E o que faremos, então?
— Bem, Josef: Primeiro temos que saber onde está Fiodor. Não podemos permitir que aconteça a ele o que aconteceu com seus pais. Chega de sangue. Assim que soubermos como e onde ele está, iremos, se preciso for, resgatá-lo. Os documentos que mandou, somados ao seu desaparecimento, são um claro pedido de socorro.

Christina então pergunta:
— E quanto a Olek?
— Quanto a Olek, só nos resta esperar que ele retorne, e que isso ocorra em breve. Eu vim até aqui para conversar muitas coisas com ele, e não vou voltar sem fazê-lo.
— Sobre a visita a Miroslaw Tchenka?
— Também. Mas o principal é sobre Maricha.

Ao pronunciar esta última sentença, Nicolai faz redobrar a atenção de seus interlocutores, e então narra todas as informações que recebera de Piotr, quando este o visitou em Arkadja. Os fatos, decididamente, caminhavam de forma célere para um desfecho.

 

XXV – Os primos

 

Para Igor, a bordo do trem que chegava em Warszawa, o dia prometia ser fadigoso. Teria que investigar o primo, e depois contar ao tio o que acontecia com ele. Preferia, em verdade, que Nicolai tivesse encarregado um dos informantes de cumprir tal tarefa. Não gostava da idéia de investigar o próprio primo e amigo, mas sabia que ele tinha tomado decisões erradas, e estava sinceramente preocupado com Lelek.

Chegando na Estação Ferroviária Central de Warszawa, Igor abre novamente o envelope que Nicolai lhe dera, e confirma que está no horário e local corretos para o encontro. Segue até a leiteria próxima à estação e conversa com o homem indicado, que vem pela porta da cozinha da leiteria. Pede informações sobre Julek, tudo que pudesse ter dele desde que se mudara para Warszawa, com o amigo Fiodor. O homem responde que Nicolai já havia feito tal solicitação quando o rapaz estava vindo para cá, ao que Igor imediatamente interpela:
— Já pediu? Não me diga... E algum relato já foi enviado para Nicolai?
— Não. Até agora estávamos fazendo o acompanhamento, mas não chegamos a relatar nada. Esperávamos um contato de vocês para fazê-lo. É assim que atuamos.
— Quando terei essas informações?
— Amanhã. Reserve o horário de seu almoço.

O homem saca do bolso um cartão de um restaurante na cidade velha e prossegue falando, dizendo a Igor para estar no local e horário marcados no cartão, que alguém irá encontrá-lo e passar as informações preliminares, enquanto almoçam.

Pegando o endereço, Igor se despede do homem, que volta pela porta da cozinha da leiteria, despreocupado. Quanto a Igor, este sai da estação surpreendido, imaginando o porquê de o tio não ter mencionado que já havia pedido para que a investigação fosse feita, mas termina por compreender que tudo aquilo deveria ser muito dolorido para Nicolai, e ele preferia que alguém da família acompanhasse o desenrolar da história de Lelek, como que para se preservar para as outras tarefas que lhe exigiam a atenção.

Embora ansioso para saber como estava o primo, Igor resolve visitá-lo somente na tarde do dia seguinte, quando possuísse todas as informações a respeito dele, e assim poderia fazer uma melhor abordagem sobre tudo o que ocorria com ele. Por hoje se hospedaria em um hotel ou albergue. Resolve então gastar o tempo, fazendo algumas pequenas compras, até poder entrar em contato com o segundo informante, no final da tarde, na praça próxima ao monumento ao soldado desconhecido. Não queria ficar exposto demais, pois sabia que não deveria mostrar-se a sós, enquanto cumpria uma missão. Mas desta vez ele precisava agir sozinho. Christina, ao menos, contava com bom apoio em Kraków, mas ele não poderia estar com mais ninguém, se pretendia fazer uma abordagem ao primo. Com Lelek —pensa Igor—, ele não estaria só – ou talvez estivesse, justamente, a sós com alguém do outro lado: – o próprio primo.

¤

Ao verificar onde se realizaria o encontro com o segundo informante, Igor não pôde deixar de reprovar o lugar. Era cinza, como cinza havia sido o passado recente da Polônia. Ele caminhava observando construções, esboços de novos prédios, que certamente trariam um novo colorido, a delinear uma nova face da cidade, um perfil de quem não estaria mais isolada do mundo por um Muro, nem escondida por uma cortina, e poderia estampar as cores que revelariam a glória de tempos idos, que Warszawa sempre soube guardar em seu âmago, e da esperança dos tempos vindouros, que ela nunca abandonou. Ele reflete que a cidade já sofrera toda a forma de dominação, para aprender que nenhuma delas era boa para a Polônia.

Warszawa tinha, agora, e mais uma vez, que se refazer. Sobreviver por si mesma, a despeito de quaisquer forças que contra ela se levantassem. Já se refizera, reconstruíra-se, e desta vez não seria diferente. Abrir-se-ia para o mundo, sorveria o que ele lhe oferecesse, e devolveria, com progresso e abundância, o que lhe ofertassem. Após a destruição nazista, onde oitocentos mil de seus habitantes foram barbaramente assassinados, em uma década a cidade reergueu-se das próprias cinzas, e agora chegara a hora de colorir as cinzas da reconstrução ao se libertar do jugo soviético, e ocupar seu verdadeiro lugar entre as nações da Europa. E, para isso, parecia que todos os poloneses tinham pressa.

Igor caminha lentamente até o café, tomando assento em uma mesa ladeada pela janela, voltada para a praça, e continua a observar e a pensar a cidade. Não demora muito e um senhor, de idade já avançada, o cumprimenta, identificando-se como amigo de Nicolai. Conversam um pouco sobre os destinos da cidade, e logo Igor comenta a que o tio lhe orientara, e a este senhor diz que Nicolai gostaria de ter notícias não de Lelek, mas de Fiodor.

Da mesma forma como antes ocorrera, o velho o informa que Nicolai já havia pedido essa investigação, e que eles haviam levantado a história de Fiodor desde que ele se mudou para Warszawa.

Ao invés de marcar um outro encontro, a exemplo do informante da leiteria, o homem prossegue, passando ali mesmo, oralmente, as informações sobre Fiodor: as atividades dele, os lugares que visitou, onde trabalhou, as pessoas com quem contatou durante aquele período, de modo que Igor, de posse das informações que já possuía, pudesse tirar as suas conclusões. Na verdade o rapaz fazia um esforço supremo para entender e gravar tudo - nomes, lugares e fatos, que lhe eram transmitidos naturalmente pelo informante. Mas o que o velho apresentava, à primeira vista, não parecia muito útil, no sentido de se saber onde estaria agora Fiodor, exceto pelo seu envolvimento com o outro lado.

O homem conta a Igor que, desde noites atrás, ele não mais conseguira saber de Fiodor, pois este não teria voltado para casa com Lelek, depois de terem saído juntos do apartamento ao entardecer. Não pudera, na ocasião, seguir os dois, pois os observava à distância, segundo expressa recomendação de Nicolai. Caso tentasse acompanhá-los, naquele momento, pelas circunstâncias, certamente seria percebido. Achou que ambos voltariam logo, tanto é que estranhara o fato de, embora fosse Fiodor o dono da motocicleta, fora o próprio Julek quem retornou dirigindo a mesma, e sozinho. Imaginou, e nessa hora se escusa com Igor e consigo mesmo, por ter presumido erroneamente, que Lelek deixara Fiodor em algum lugar, e que este voltaria para casa ainda naquela noite ou no dia seguinte. Tal não ocorreu, e depois desse fato não conseguiu saber mais nada de Fiodor, manifestando a certeza de que Lelek teria tal resposta, mas Nicolai proibira qualquer abordagem direta. Chegou a seguir Lelek, para ver se ele iria ao encontro de Fiodor, mas este não foi a nenhum lugar que lhe desse um indicativo. O homem falava com calma e desenvoltura, mas ficava reticente quando mencionava os dois rapazes sempre juntos, como se visse algo de diferente entre ambos, algo que ele não aceitasse. Ultimamente Igor se sentia da mesma forma em relação ao primo, quando se referia a Fiodor, mas nenhum dos dois homens ousou, naquele momento, aprofundar tal questão.

Embora não tivessem sido acrescentadas muitas informações ao que Igor já sabia ao sair de Arkadja, ele pode observar, à medida que o velho falava, que tudo se coadunava com os documentos e informações que Nicolai recebera a respeito do Sacerdote, e com as observações que ele teria feito a respeito de Fiodor. E se Fiodor estava mesmo desaparecido, a ponto de os próprios informantes não saberem onde é que ele se encontrava, obviamente seu primo, que estivera com ele por último, é que teria a resposta. Agora ele já se considerava pronto para a entrevista que teria com o primo.

Dali Igor seguiu até um hotel, fiel aos planos de permanecer aquela noite colocando as idéias em ordem, e aguardar o contato do dia seguinte, para enfim encontrar o primo. Ficara angustiado com os informes, pois pressentia que coisas ruins estariam acontecendo aos dois amigos. Não conseguia compreender o que os teria afastado tanto daquilo que Nicolai pretendia para o filho.

Após fazer uma refeição, Igor recolhe-se, tentando aquietar o espírito para poder estar atento para os acontecimentos do dia seguinte. Mas a noite escura lhe parecia pesada, e tão cedo não conseguiu conciliar o sono, agitando-se, acordando em sobressaltos em virtude de pequenos pesadelos que pululavam em seu repouso. Resolve então acordar na alta madrugada e, sentado na pequena escrivaninha do quarto de hotel, por meio de rabiscos em um borrador, vai ordenando seus pensamentos, a fim de melhor digerir a gama de informações que lhe preencheram o dia, terminando por conciliar o sono já bem perto do alvorecer.

Pela noite que tivera, Igor acorda tarde e indisposto, descendo apressadamente ao refeitório do hotel, pois estava quase perdendo o café da manhã, e só depois de sorvê-lo lentamente é que consegue se por a prumo. Arruma-se logo e vai à Cidade Velha, no endereço que recebera do informante de Nicolai, a fim de ser encontrado por alguém que teria mais informações sobre Lelek. Achava que o encontro pouco teria a acrescentar ao que já sabia, e a sua vontade era queimar esta etapa e seguir direto ao apartamento do primo. Resiste, contudo, à idéia, e obriga-se a seguir a rotina que se impusera no dia anterior. Chega cedo ao restaurante e se põe a aguardar, enquanto bebe um café, a pessoa com a qual almoçaria, para que pudesse seguir à casa do primo.

Espera por quase uma hora, até ser abordado por uma jovem, que a ele se apresenta, identificando-se adequadamente. A curiosa figura lhe desperta o interesse, mas Igor se reserva, deixando de questionar o que uma moça tão jovem estaria fazendo envolvida nesse tipo de atividade de informação. Afinal, ele estava fazendo o mesmo. Somente quando adiante ela menciona que ele falara com o tio dela, no dia anterior, na leiteria, e que fora ele quem a mandara ali, é que obtém a resposta ao seu primeiro questionamento.

As informações sobre o primo Julek Ianovich mais serviram para confirmar as piores suspeitas de Nicolai, e do próprio Igor. Lelek respondia ao outro lado. Pouco mais restava a Igor questionar, os fatos se lhe apresentavam e ele deveria, finalmente, confrontar o amigo que se desgarrara. Seguiria então à sua morada, em buscas das respostas que tanto almejava. Terminam o almoço e se despedem, quando ela lhe entrega um cartão com seu nome e telefone, para o caso de ele precisar de auxílio, enquanto estivesse na capital. Igor o guarda distraidamente no bolso, agradecendo. Esperava não precisar de nenhum apoio, afinal iria apenas conversar com o primo. Dali seguiu Igor até o hotel, pegou as suas coisas e encerrou a conta, planejou-se e, ao fim da tarde, foi ao encontro que o levara a Warszawa.

O caminho lhe parecia penoso. Já não pensava nos destinos da cidade, mas sim em Lelek. Chega ao endereço e sobe as escadas até o primeiro andar do prédio habitado, em sua maioria, por estudantes, e bate à porta. Ouve-se música no interior do apartamento, rock de uma banda alemã em alto volume, o que faz com que Igor duvide que suas batidas tivessem sido ouvidas. Volta a bater, com mais intensidade, sem que houvesse resposta. Insiste, já preocupado com o primo, e por fim experimenta a fechadura. A porta não está trancada. Igor, cauteloso, entra na sala em penumbra, as cortinas cerradas. O som domina o aposento, Igor caminha até a cozinha, e constata que está imunda, a pia abarrotada de louça suja, tigelas e copos usados sobre a mesa, uma barata passando, lépida, defronte ao armário de mantimentos, semi-aberto, enquanto a lâmpada do aposento dá seus últimos estertores, piscando antes de queimar. Igor franze o cenho, olha para o interior do apartamento e chama por Lelek, sua voz confunde-se com a música, e Igor não obtém resposta. Segue então para o interior da habitação, e chegando ao quarto vê Lelek, sentado sobre o tapete, recostado à cama, duas garrafas de vodka, vazias, ladeando-o. No cinzeiro, tocos que logo identifica, quando observa o primo com olhos vermelhos, fixos no vazio da parede à sua frente. Diante daquele quadro, Igor retrocede até a sala, desligando o aparelho de som que naquele momento cuspia os berros do vocalista da banda, tranca a porta do apartamento e volta até a porta do quarto, exclamando:
— Meu deus, Lelek! O que aconteceu com você?

Mas Igor sabia que não obteria as melhores respostas do primo naquele momento. Difícil até seria fazê-lo tomar consciência da sua presença e querer sair daquele estado, mas lhe cabia completar a sua missão.

¤

Julek Ianovich move a cabeça com dificuldade em direção à porta do seu quarto, e a sombra que toma conta do aposento não lhe permite identificar quem estava indagando por ele, mas força a vista em direção ao umbral e indaga, incerto:
— Fiodor, é você? Como conseguiu voltar?

Igor acena negativamente com a cabeça, falando em tom claro:
— Não, Lelek. Sou eu, Igor, seu primo.
— Igor? Mas o que está fazendo aqui?
— Vim aqui para vê-lo. Saber como estava.
— Então já viu. Pode ir embora.
— Não Lelek. Não vou deixá-lo. Venha, vou ajudá-lo a sentar na cama.
— Deixe-me em paz! Você já veio, já me viu, agora pode ir contar ao Nicolai que eu estou perdido. Ele vai ter enorme satisfação de dizer que estava certo – que eu não prestava.
— Deixe disso, Lelek. Eu vim aqui para ajudá-lo. Levante-se!

Não tendo como resistir ao comando de Igor, Lelek cede, deixando-se erguer até a cama e nela se assentando, apoiando o ombro na cabeceira. Mas aqueles movimentos mexem com seu corpo debilitado e, entre os lábios, Julek balbucia:
— Estou tonto..., enjoado... não estou passando bem...

Igor, percebendo o vidro de comprimidos abandonado sobre a cama, observa o estado do primo e o levanta, escorando-o, e o faz caminhar até o minúsculo banheiro do apartamento. Mal chegando, Lelek põe-se a vomitar convulsivamente, entre gemidos, para alívio de Igor, que o vê expelir num amálgama os comprimidos semidissolvidos que ingerira. Depois Lelek fica ali, ajoelhado, por um longo tempo contemplando o vaso sanitário, enquanto Igor o observa da porta do banheiro, sem saber que atitude tomar primeiro. Não sabia, na verdade, como encontraria Lelek, mas decididamente não pensava vê-lo em estado tão deplorável.

— O que lhe teria acontecido caso não o viesse visitar? Pensa, inquietando-se. Esta reflexão gera em Igor grande aflição, ao perceber que seu primo poderia acabar por perder a consciência ou mesmo até a vida, se ninguém aparecesse para socorrê-lo. Resolve então despir o primo, obrigando-o em seguida a ficar sob o chuveiro. A resistência e as maledicências foram tantas que por pouco Igor não teve que agredi-lo para conseguir o intento, só não o fazendo porque soube se valer do fato de que sempre tivera alguma ascendência sobre o primo. Julek termina por abandonar-se sob a água a lhe correr pelo corpo. À medida que a consciência lhe volta, começa a chorar convulsivamente, falando repetidamente para Igor:
— Eu estraguei tudo, primo... estraguei tudo!

Igor, curioso com o comentário de Lelek, tenta incentivá-lo a falar mais:
— O que você estragou, primo?
— Tudo, não compreende? Tudo deu errado...
— Tudo o quê? De que você fala, Lelek?
— Papai, Fiodor, o curso, tudo eu estraguei... estou no inferno, Igor!
— Mas do que você está falando, Lelek?
— Você não entenderia, você não entende nada... tudo estava dando certo e, de repente... ele me traiu, mesmo sabendo... nem eu entendo...
— Explique-se, primo...
— Eu não tenho que explicar nada, entendeu? Nada!

Nesse momento Lelek tenta se aproximar de forma agressiva, fazendo com que Igor recuasse um passo, de costas, em direção à porta do banheiro, mas logo este esforço o deixa tonto, e ele, amparado na parede, conformado com a própria fraqueza, apenas sussurra:
— Não adianta perguntar, Igor. Você não entenderia... e eu não conseguiria mesmo explicar... eu pus tudo a perder...

Igor, amparando Lelek, caminha de volta até o quarto, fazendo-o vestir as primeiras roupas limpas que encontra, amarrotadas, no armário. Vestido Lelek, Igor o faz aguardar sentado na poltrona do quarto, enquanto vai até a cozinha e lhe traz uma jarra de água, forçando-o a beber. Sabia que hidratá-lo, naquele momento, seria importante para uma recuperação mais rápida. Depois resolve deixá-lo repousar, deitando-o na cama e cobrindo-o, tomando então seu lugar na poltrona e o observando até que estivesse em um sono profundo.

Quando está certo que o primo adormeceu, Igor sai do apartamento, trancando a porta. Teria que tomar providências urgentes, e decidir, por si próprio, o que deveria fazer. Não tinha a quem consultar. Primeiro teria que deixar o primo acordado o suficiente para sair dali. Depois, deveria achar alguém que o socorresse com um carro, pois não se sentia seguro para sair com Lelek em um táxi, ônibus ou trem.

Caminha até uma leiteria, cujo dono já estava por baixar a porta de aço em vista do horário, e consegue comprar um pacote de café e açúcar, além de alguns doces e um isotônico, pois acreditava que mantimentos não encontraria naquela cozinha revirada, e Lelek teria que se recompor o mais rapidamente possível. Depois coloca a mão no bolso e confere o cartão que lhe tinha sido entregue no almoço, onde lê “Helena Kragowski” e um número de telefone. Sem hesitar, dirige-se a um telefone público e, recostado na cabine, aguarda cinco toques até ser atendido. É à própria Helena que ele explica, sucintamente, a situação, e consegue que ela os venha buscar em duas horas, em frente ao prédio. Igor pretendia levar seu primo a Arkadja, pois ali sabia que ele não podia ficar. Difícil seria convencê-lo a sair do apartamento, no estado em que se encontrava.

Igor, enquanto retorna ao apartamento, não pode deixar de refletir sobre seria a causa do primo estar cercado de tantas aflições, ou por que se envolvera desta forma com lutas e pessoas que ele não compreendia? E as drogas? O que levava alguém se desfazer de sua vida, de seu destino, tão facilmente? Não tinha as respostas para isso. Não fora a vida em Arkadja que fizera isso, muito pelo contrário. Quando foi para lá, Igor aprendeu com aquelas pessoas a valorizar a vida, o futuro, a família. Não compreendia então como Julek Ianovich, fruto daquele lar, teria seguido rumos tão diversos do caminhar do próprio pai, da irmã e dele próprio, cuja adolescência convivera com todos eles, e aprendera a pertencer àquela casa. Então quais seriam as verdadeiras razões? Igor ainda não as sabia.

Ao retornar ao apartamento encontra tudo como deixara, o primo a sono solto, chegando até a duvidar se a melhor solução seria mesmo tirá-lo dali, ou se deveriam passar a noite no apartamento e partir no dia seguinte. Porém, à idéia de que ali estariam expostos aos agentes do outro lado, que poderiam invadir o apartamento a fim de causar algum mal ao primo, Igor reage, decidindo-se em prosseguir nos preparativos, quando lhe vem a idéia de que Fiodor poderia ter deixado algum apontamento no apartamento, ou mesmo Lelek tivesse algo que auxiliasse na sua busca.

Resolve, assim, dar uma rápida busca, a começar pelo outro quarto, que julgava ser de Fiodor. De fato, pelas roupas que lá se encontravam, era o quarto do amigo, e revirando as gavetas da cômoda acaba por encontrar uma caderneta. Consulta-a rapidamente, e verifica que ela contém vários apontamentos: nomes, endereços, datas remotas e recentes, acompanhadas de notas, como se Fiodor dela se utilizasse para organizar seus pensamentos. Não se detém na análise do pequeno caderno, colocando-o na pequena maleta que trouxera do hotel. Continua na busca, mas nada mais encontra que lhe chame a atenção. Percebendo o adiantado da hora, decide ir à cozinha preparar algo para Lelek comer, pois entendia que ele já repousara bastante.

Arredando com certo asco as panelas com restos azedos de comida de cima do fogão, ferve a água para passar o café, encontrando, depois de várias buscas no armário, dificultadas pela falta de luz na cozinha, o coador e duas canecas ainda limpas. Arruma o café e os doces na mesinha da sala, e segue até o quarto, a fim de despertar Julek.
— Hein? Quê?
— Acorde, vamos para a sala.
— Por quê?
— Anda, vamos tomar um café.
— Não quero. Deixe-me.
— Levante já, Julek. É preciso.

Julek senta-se na cama, olhando interrogativamente para o primo, mas sem conseguir formular pergunta. Caminha com dificuldade até a sala e despenca na poltrona. Não conseguindo coordenar bem os pensamentos, pergunta:
— Quem desligou o som?
— Fui eu. Beba o café, fará bem.
— Mas não era para desligar o som, eu queria ouvir até o final!

Igor respira fundo e reúne toda a paciência de que dispunha, para não ralhar com Lelek, que ainda falava com dificuldade. Termina por dizer que fez isso porque o aparelho estava quente e precisava ser desligado para não estragar. Ato contínuo, estica a Lelek a xícara de café, que adoçara bastante.
— Beba, vai lhe fazer bem.
— Não quero, primo. Quero voltar para o quarto. Quero dormir.
— Agora não Julek, mais tarde. Você precisa ficar bem para sair.
— Para onde eu iria? Não tem outro lugar para mim nesse mundo. E eu não quero mesmo ir a lugar nenhum!

Dizendo isso, Lelek começa a soluçar, mas Igor não está disposto a suportar um ataque de autocomiseração, então resolve endurecer, sendo mais positivo e não dando espaço para muitas explicações:
— Preciso que vá comigo. Uma amiga vem nos buscar daqui a pouco, e você precisa estar bem.
— Uma amiga? Quem é ela? É sua namorada?
— Não, não é minha namorada. Agora beba o café!

Intrigado, Lelek bebe o café, fazendo caretas, mas não ousando protestar, ante o olhar autoritário de Igor. Depois Igor lhe estende o doce, de forma tão categórica que o outro não se atreveu a recusar. Mastigou com dentes altos e engoliu com a ajuda do líquido quente, que Igor acrescentava à caneca cada vez que o primo a depositava na mesinha, insistindo que ele bebesse mais. Igor também se serviu, chegando a achar certa graça quando observou que seu café estava muito bom, bem como os doces que comprara.

Igor tinha muitas perguntas, mas as deixava em segundo plano, pois sentia no ar a urgência em sair dali, com o primo, ante a possibilidade de que estranhos pudessem chegar a qualquer momento. Ele sabia que isso ocorrera antes, pois assim os informantes lhe falaram, e não pretendia correr riscos desnecessários. Arkadja seria, agora, o porto seguro para eles, e tinha consciência de que deveriam nela se abrigar o quanto antes.

¤

Lelek, após beber bastante do café bem adoçado que Igor lhe servira, assim como comer alguns dos quitutes, tenta explicar ao primo o que estava acontecendo, mas não encontra palavras. Fica olhando para Igor, tentando compreender o que, naquele momento, estava fora de seu alcance. Com o auxílio do primo vai ao banheiro, ficando lá por quase meia-hora, até que Igor o chama. Logo após o Lelek saía, aparentando estar ligeiramente recuperado, quando Igor propõe que desçam, a fim de aguardar o carro na porta do prédio. Julek se contrapõe:
— Ih, lembrei que não posso sair. Estou aguardando visitas!
— Quem você aguarda?
— Uns conhecidos..., eles virão me trazer a resposta da minha matrícula na escola em Viena... vou para lá estudar, sabia?
— Mas esperando notícias agora, à noite?
— Não sei... não sei mais... não posso sair, foi o que me disseram!
— Quem disse?
— Os conhecidos, Igor. Os conhecidos que disseram, evidente!

Igor, percebendo a confusão de Lelek, engendra uma forma de ludibriá-lo, apresentando a solução de que poderiam deixar um recado na porta, avisando que ele saíra, mas que voltaria em breve. Ainda um pouco tonto, Lelek concorda com o estratagema, e então Igor afixa o papel na porta. Com olhar ainda vago, entremeando com pequenos rasgos de euforia o estado depressivo em que se encontrava, diz a Igor:
— Só vou com uma condição!
— O que você quer, Lelek?
— Quero levar a fita que eu ouvia para escutar no carro. A sua namorada tem toca-fitas no carro?
— Está bem, está bem, eu pego a fita, mas já disse que não é minha namorada!

Igor apanha a fita cassete no aparelho de som e em seguida eles saem do apartamento. Quando Julek momentaneamente dá as costas, voltando-se para o corrimão da escada para se apoiar, Igor retira o bilhete antes afixado na porta, guardando-o no bolso.

Eles descem com vagar, passando algum tempo a aguardar no pequeno saguão. Julek se mostra impaciente e, já contrariado, por duas vezes tenta retornar ao apartamento. Queixava-se, queria dormir, mas foi impedido por Igor. Finalmente um carro pára defronte a entrada, e Igor verifica quem o dirigia. Era Helena. Saem, Igor a apoiar Julek, que se recosta no banco traseiro, acomodando-se como se fosse dormir, mal cumprimentando Helena, por estar ainda meio alheio ao que ocorria ao redor. Igor, por sua vez, toma assento ao lado da motorista e eles seguem.
— Obrigado por atender, e tão prontamente, ao meu chamado.
— Não agradeça Igor. Estamos, no meio de uma batalha, em que cada um de nós tem uma precária compreensão do que se passa. A mim apenas disseram que as coisas estão piorando ultimamente, parecendo que os ratos saíram do esgoto para infestar a cidade.
— Eu também não sei muito, Helena. O que vim fazer aqui, a princípio, era colher informações de meu primo e de Fiodor e regressar. Nada mais. Meu tio Nicolai é muito reservado, e somente fala o essencial para que possamos cumprir nossas tarefas, afirmando ainda que saber demais é correr riscos desnecessários.

Helena sorri, assentindo, como se ela própria já houvesse recebido tal justificativa antes. Ela dirigia velozmente, esquivando-se entre ruas secundárias, de uma forma muito destra, sempre atenta aos retrovisores, a fim de ter certeza de que não estariam sendo seguidos. Obtida esta certeza, ruma para a saída sul, a fim de seguir para Arkadja. Julek Ianovich dormia profundamente no banco traseiro do Lada vermelho que o conduzia, sem que ele o soubesse, de volta para a casa de seu pai.

Durante o percurso, Igor e Helena conversavam com cautela, por não saber exatamente até que ponto um e outro estava envolvido com tudo, ou se tratavam apenas de meros colaboradores, que mais não deveriam conhecer. Ficavam então a se sondar, num jogo que os divertia e permitia que se conhecessem melhor. Por vezes silenciavam, cada qual com seus pensamentos. Igor refletia que o primo, quando acordasse, teria um choque por estar de volta à casa de onde fora expulso, e onde jurara nunca mais por os pés. Mas Igor não conseguia imaginar lugar melhor para tê-lo em segurança, e para dele obter todas as informações que queria, tão logo o Lelek se mostrasse sóbrio o bastante para uma conversa séria.

Igor tentava imaginar como Lidja reagiria à sua chegada, acompanhado de Julek. Contava, é claro, com o apoio incondicional de Lidja, que tratava os filhos de Nicolai como se seus fossem, de tantos cuidados – e sermões –, que lhes dedicava. Porém Igor sabia que desmesurada também era a lealdade de Lidja para com Nicolai, e que sempre procurava respeitar as suas decisões, e ele mostrara-se inflexível quanto à decisão de expulsar Julek dali. Será que então ela os acolheria? Isso o inquietava, embora conhecedor do quão era grande o coração de baba Lidja.

O carro segue, deslizando os destinos de seus ocupantes pela larga auto-estrada.