Mar de Olek


 

Olgierd Sokolowski

 

 

XXII – As três profecias

 

Nicolai, vindo da caixa de correspondência, abre a porta com o cotovelo. O fardo que carregava era pesado, despertando-lhe a curiosidade. Acena para Lidja, que lhe acompanha com os olhos, também curiosa com o pacote recebido. Ela deixa seus afazeres e vai apanhar um copo de água para Nicolai, enquanto este se encaminha até a biblioteca onde, instalado na sua escrivaninha, começa a abrir o embrulho.

Nicolai corta os barbantes e rasga o papel que envolvia a correspondência. Encontra um envelope menor, de onde tira um disquete e um bilhete. Embaixo dele havia uma pasta contendo documentos e recortes avulsos.

Quando Lidja chega à biblioteca, Nicolai comenta espantado que o remetente era Fiodor, mostrando-lhe o bilhete. Imediatamente Lidja lembra-se da primeira das três profecias de Mokosz: o alerta dos perigos viria pelas mãos daquele que era visto como inimigo. Então Lidja resolve que iria contar a Nicolai que invocara a Deusa, mas antes que ela confessasse a realização do ritual, Nicolai pede a ela para ficar a sós, pois queria analisar aqueles documentos com todo o cuidado. Ela então o deixa, saindo sem nada dizer, enquanto pensava na ordem exata das profecias de Mokosz, e na explicação que daria a Nicolai por ter invocado a deusa sem o seu prévio conhecimento e consentimento.

A primeira profecia consistia em que o alerta viria das mãos daquele que se tinha por inimigo, e se cumprira rapidamente. Lidja deixou Nicolai com a certeza de que naquele disquete havia informações importantes. O que ela não entendia era o porquê do pacote ter vindo pelas mãos de Fiodor. Se ele era o inimigo que enviava o alerta previsto pela Deusa, então isso significava que o filho de Nicolai, Julek, que estava associado a Fiodor, também estaria do lado do inimigo, ou então correria sérios riscos em suas mãos. Mas se Fiodor era tido como inimigo, por qual razão teria mandado as informações a Nicolai? As coisas lhe pareciam confusas demais. O que Lidja tomava por certo, entretanto, é que a deusa havia atendido aos seus apelos, e antecipado a visão dos acontecimentos a fim de que se preparassem para os mesmos. Não poderia agora desprezar o que foi dito. Ao contrário, teria que entender claramente as mensagens que foram concedidas.

O que a preocupava sobremaneira eram as duas outras profecias de Mokosz. Uma delas, a segunda, por certo se referia a Christina: A maior dedicação ao conhecimento do oculto será o grande escudo dos guerreiros. Lidja entendia que Christina era aconselhada a apressar seus estudos do Livro, pois os próximos acontecimentos exigiriam os seus conhecimentos iniciáticos.

Era forçoso, pois, que Lidja revelasse as predições a Nicolai, a fim de prevenir Christina do esforço que ela deveria desenvolver para apressar seu aprendizado. Lidja se culpava intimamente de não ter começado a instruir Christina bem antes, mas por outro lado sabia que não contaria com a aprovação de Nicolai, o que tornaria tudo mais difícil.

Já sobre a terceira predição, Lidja preferia não pensar, pois a encarava mais como um alerta do que um vaticínio. Um eminente golpe se desenha contra o coração do patriarca. O amargor sangrará seu coração, mas não se deve permitir que seu espírito enfraqueça. Referiu-se a deusa a um acontecimento que estaria diretamente ligado a Nicolai, que poderia sangrar e amargurar, mas não poderia enfraquecer. Eram as três mensagens de Mokosz, dirigidas a Lidja e Christina, as mulheres da casa, a quem caberia interpretá-las. Mas a posição de Nicolai, o patriarca, também o incluía nesse rol.

Enquanto Nicolai estudava os documentos, Lidja reflete se diria a ele a terceira mensagem, ou se a guardaria para si, tudo fazendo para que não se cumprisse. Tinha que tomar a decisão logo, pois Nicolai não poderia perceber hesitação por parte dela, quando a inquirisse sobre as profecias. Quando finalmente Nicolai sai da biblioteca, dirige-se à Lidja, afirmando:
— A hora do confronto é iminente, Lidja. Precisamos nos preparar.

Nesse momento Igor entra pela porta, e notando o ar preocupado dos dois indaga o que estaria acontecendo. Recordando-se, porém, da ocasião em que foi literalmente posto fora da biblioteca quando Nicolai e Lidja discutiam, Igor se apressa em complementar:
— Isto é, se eu puder participar da conversa...

Nicolai não pôde deixar de sorrir, ao entender as razões do rapaz em se apressar em pedir permissão. Mas dessa vez Igor poderia, aliás, deveria participar. Era um rapaz ponderado, embora um pouco imaturo, segundo os padrões de Nicolai, e poderia somar alguma luz aos novos fatos. O sobrinho já dera provas de sua fidelidade. Então ele consente.
— Seja bem vindo à conversa, Igor. Vamos nos sentar aqui na sala, beber algo quente, que temos muito que conversar, nós três. Afinal só estamos em três nesse casarão, mas em breve estaremos reunidos a outros mais, que estão na mesma luta que nós.
— O senhor se refere a Josef de Kraków?
— Também, Igor. Depois que recebi este pacote, supostamente mandado por Fiodor, vejo que os acontecimentos estão se precipitando, e temos que logo atingir nossos objetivos. Olek não está mais refratário ao conhecimento, e espero que agora, em Kraków, ele possa se desenvolver rapidamente. Muito depende das suas lembranças de infância, e Miroslaw já está com a saúde bastante debilitada para reavivá-las devidamente. Não temos muito tempo.
— Fiodor mandou um pacote?
— Sim. Cheio de respostas e novas perguntas. Ouçam.

Lidja e Igor então ouvem com atenção as explicações de Nicolai sobre as provas das ações do Sacerdote e os motivos que levaram Fiodor a levantar todo aquele dossiê e enviá-lo justamente a ele, Nicolai. Vem à lembrança de todos o diálogo rude travado por Nicolai e Fiodor, quando Nicolai os colocou para fora de casa, e da tentativa malograda de Fiodor em defender a permanência de Julek na casa paterna.

Àquela altura, saberia Fiodor quem Nicolai representava? Certamente que sim, pois o próprio Lelek não parecia ter segredos para com o amigo. Mas então por que razão não pediu ajuda à época? Por que teria enfrentado tudo sozinho? Ficam espantados pelas revelações de Fiodor e o os objetivos que ele perseguia. Nicolai raramente se enganava com as pessoas, mas admitiu haver se equivocado em relação a Fiodor. Fica a pensar o que acontecera a ele, assim como a Lelek. Haviam muitas perguntas não respondidas, como onde estariam os dois e o que estariam fazendo, agora que Fiodor havia amealhado tantas informações sobre o outro lado. Poderiam estar correndo grande perigo. Precisava reunir o conselho em breve, para que pudessem tomar decisões. Conversam muito, trocam impressões, quando Nicolai resolve ordenar as providências a serem tomadas.
— Terei que seguir a Kraków. Preciso falar com Christina, para que ela esteja preparada para o desenrolar dos próximos acontecimentos.

Quando Nicolai profere essa sentença, Lidja o interrompe:
— Antes precisamos conversar sobre outro assunto, Nicolai.
— Outro assunto? De que se trata, Lidja?
— Eu sabia que esse fato estava por ocorrer, mas não pensei que fosse dessa forma.
— Como é que sabia?
— Mokosz.
— Você a invocou aqui em casa, Lidja? Quando fez isso?

Lidja então expõe demoradamente as suas razões a Nicolai, que a ouvia e questionava em tom grave. Ultrapassadas as explicações, que Igor ouvia atentamente, mas se limitando a observar os dois – sabia que a conversa poderia tomar rumos tormentosos – Lidja passa a contar as predições de Mokosz. Primeiro a que se cumprira, que era o alerta vindo das mãos daquele que se tinha por inimigo. Depois, explica do recado a Christina, e da necessidade de, ao falar com ela, desde já fosse alertada, ainda que de forma cifrada, a avançar mais nos estudos do livro. Terminando isso, ela se cala, ocasião em que Nicolai a interpela:
— Está bem, e a terceira predição, o que dizia?
— Terceira predição?

Lidja tentou fazer ares de surpresa, como se não soubesse do que Nicolai falava. Havia decidido que se tratava apenas de um alerta, e que não precisava preocupar mais Nicolai. Engano seu. Nicolai a olha fixamente e indaga:
— Sim, a terceira predição. Mokosz nunca faz menos do que três predições, quando invocada. Por que não haveria de ser assim dessa vez?

Lidja então sucumbe, abandonando a idéia de omitir a terceira profecia. Explica que entendera a terceira predição como um alerta, e a transmite a Nicolai, que a recebeu com um olhar sombrio. Lembrando-se da dor pela perda da esposa amada, Nicolai deixa escapar:
— O que mais haveria de me amargurar, de sangrar meu coração?

E com olhar longínquo vai até o alpendre, onde fica por alguns minutos, como a digerir aquela última profecia e as antigas lembranças, retornando logo após, de forma decidida.
— Está bem, vamos nos mexer. Irei falar com Christina agora mesmo, pelo rádio. Vou passar somente as informações essenciais, como o dia que irei para Kraków. Direi também para avançar nos estudos, e qualquer coisa para que entre em contato diretamente com você, Lidja. Está bem assim?

Lidja concorda, um pouco sem jeito pela maneira com que Nicolai lhe dirigira a palavra. Ele pouco pedia permissões ou aprovações a ela, e essa atitude demonstrava um pouco da fragilidade que ele sentia nesse momento. Era um guerreiro preparando-se para a próxima batalha, mas que ainda não estava seguro de ter todas as armas necessárias à mão. Lidja pensa, e guarda para si tal impressão, de que o mundo de Nicolai lhe parecia de cabeça para baixo, mas ele próprio tinha que manter seu prumo, pois sabia que disso dependeria o destino de muitos.

¤

Christina, recolhida em seus aposentos na casa de Josef, em Kraków, recebe a comunicação do pai, avisando que iria à Kraków na sexta-feira, e que pretendia falar com ela antes que se encontrasse com Olek. Ela não ficou sabendo do que se tratava, pois o pai se recusou, por aquele meio, a tratar do assunto. O único que lograra descobrir era que deveria se dedicar mais aos estudos, como o pai dissera, obviamente referindo-se ao Livro. Assim ela entendeu como senha para sorver o seu conteúdo mais rapidamente do que havia, a princípio, combinado com Lidja, e dedicaria a sua semana para tal. Será que Nicolai estava inseguro quanto à tarefa que ele lhe havia outorgado? Ele deixara a segurança de Olek e outras providências em suas mãos, e lhe sobreveio um temor que ele estivesse voltando atrás, que retomaria as rédeas daquela parte da operação, o que demonstraria falta de confiança por parte dele. Porém Christina logo acalma seu coração, pois não podia mais por em dúvida as demonstrações do pai de que ela ocupava seu lugar, e então voltou ao estudo do livro. Tinha que estar pronta. Era claro o recado que recebera. Então deveria preparar-se com as armas que se lhe dispunham.

A duas coisas, posses, Christina atribuía agora valor inestimável. No mais era desprendida com relação a bens materiais. Trazia, contudo, sempre consigo e desde pequena, a boneca que carregava o nome da deusa Zywia, a deidade eslava da natureza primaveril, a mesma boneca a que se referiu quando contou a Olek sobre sua infância. Esta deusa, que era tida na Polônia antiga como a protetora da natureza e da vida, sempre despertava com a chegada da primavera, conclamando a todos para a vida nova.

Em momentos importantes de sua história, como a morte da mãe, as suas primeiras regras e a sua iniciação com Lidja, nos assuntos do oculto, Christina sempre sentia a presença da deusa, por duas vezes em visões durante a vigília, e por outras em seus sonhos, quando a deidade a consolava, orientando-a sempre para uma postura franca e positiva em relação à existência, frisando nessas ocasiões que ela tinha o dom. Mas isso não perturbava Christina, e nem fazia com que ela se tornasse uma pessoa mística ao extremo, reservada ou fanática. Encarava tais coisas com a naturalidade de quem se sabia inserida num contexto maior.

Agora, além da boneca, ela trazia consigo outro bem, do qual não se distanciava um dia sequer, pois o incorporara como parte de si mesma: o livro que Lidja lhe dera para o seu aprendizado. Enquanto avança o ritmo da leitura, seguindo a recente recomendação de Lidja e Nicolai, surpresa ela observa que já detinha, desde muito, alguns dos ensinamentos ali descritos, graças, talvez, aos conceitos que Lidja lhe passara amiúde durante toda a sua adolescência, e ainda pelo dom de que sua mãe lhe falara, quando do Natal em que a presenteou com a boneca de Zywia. Faltava-lhe, talvez, a segurança da prática constante.

Christina, nos seus momentos de estudo recolhia-se, e concentrada seguia todas as recomendações de Lidja, mas nunca deixando de colocar à sua frente Zywia, com quem, literalmente, conversava sobre os ensinamentos que ávida sorvia, domando a sua curiosidade e o impulso de devorar o Livro todo de uma só vez.

E assim a boneca e o livro se juntavam ao destino de Christina, que se dedicava em absorver a maior gama de conhecimentos possível para o enfrentamento que estaria por vir. Eles se completavam. Dois ícones eleitos por Christina para lhe dar um norte no construir o seu destino. Ambos seriam armas poderosas para enfrentar as realidades – a vivida por todos, e as conhecidas somente por aqueles que não temem abraçar o dom de perceber e interagir com o oculto ancestral.

O que Christina não sabia, ainda, era qual o exato papel que teria que desempenhar, ao dominar as virtudes desse seu carisma. Pelos exemplos de vida que percebia a sua volta, era-lhe cristalino que era Lidja quem dava apoio a Nicolai, e não o inverso. Tudo isso deixava Christina profundamente pensativa. Formara-se. Como qualquer garota em sua idade, deveria já estar integrada no mercado de trabalho, e agora deveria dar atenção ao seu coração, começar a pensar em um amor, em uma família, em um futuro previsível e feliz. Mas não conseguia fazer com que tais preocupações fossem o centro de sua vida, e talvez por isso possuía poucas amigas de sua idade. Apesar de muito bela, as atividades consideradas corriqueiras para toda a juventude não a atraíam. Ao contrário, desdenhava por vezes das mazelas enfrentadas pela maioria em busca de algo comum. O seu envolvimento na missão do pai sempre fora intenso, e agora que conseguia ter uma participação real e ativa não estava disposta a trocar nada disso por outros interesses, que considerava menores.

Sentada em sua cama, pernas cruzadas, o livro no colo e a boneca Zywia ao seu lado, Christina pergunta-se: — Será que o seu talento deveria ser empregado apenas para apoiar Olek no resgate do tesouro do seu avô Julek Kowalski? Ela realmente queria apenas isso? Seria seu destino semelhante ao de Lidja, ou ainda da pitoresca Mirika, que se punha à sombra de Josef? Não pretendia ser apenas a sombra de alguém. Até quando, e como, deveria se postar ao lado de Olek, respeitando o que seus destinos ditassem? E o que faria com as sensações que tinha quando estava ao lado dele, com aquele bem estar e alegria que antecedia agora cada encontro? O que estaria, afinal, acontecendo com ela?
Ainda sobre a cama, imóvel, o livro aberto esperando-lhe a leitura, ela se responde, firmando o pensamento como se estivesse dando a entonação de quem repreende: — O seu papel, por hora, seria aquele ao qual seu pai a orientara e, quanto ao que sentia por Olek, isso não deveria ter a menor importância, afinal ele ainda estava apaixonado por Maricha, estivesse ela viva ou morta.

Christina sabia, no seu íntimo, que Maricha vivia. Sempre o soubera, tentara dizer aos outros, mas não a ouviram então. Agora estavam investigando, e sobre isso interpelaria seu pai quando ele chegasse a Kraków.

Percebendo que as respostas que se dava não a satisfaziam, Christina sorri de si para si, dando de ombros para as próprias preocupações: — Decerto, em uma noite dessas, a deusa viria fazer a sua visita, em visão ou em sonhos, e a orientaria. Até lá, permanecia alerta para os acontecimentos que tão rapidamente se desenvolviam, e se concentraria na leitura e nos rituais para acelerar seu progresso.

Christina respira e expira profundamente, como a afastar as suas aflições, baixa os olhos para o livro, e alheia a tudo mais que a inquietava, põe-se a decifrar um a um os seus mistérios.

 

XXIII – Confirmações

 

Quando naquela manhã Piotr atravessa o portão, Nicolai pressente que teria muito mais a tratar em Kraków do que encaminhar Olek e alertá-lo sobre os planos do Sacerdote. Piotr era um dos melhores informantes de Nicolai, e raramente trazia pessoalmente notícias. A sua chegada repentina em Arkadja, sem prévio aviso, significava graves novidades. Ele estava encarregado de investigar sobre a morte de Maricha, e a presença dele ali somente poderia indicar que ele descobrira algo de extrema relevância. Não se enganara. Recebendo Piotr e seguindo diretamente ao escritório, acompanhado pelo arguto olhar de Lidja, ele ouve do amigo o desenrolar daquela acidentada e misteriosa história. É Piotr quem inicia a conversa:
— As suas suspeitas, Nicolai, não eram infundadas quanto à moça desaparecida.
— Na verdade as primeiras suspeitas foram levantadas por Christina, mas que novidades você me traz, Piotr, que nos brindem com a sua vinda de Warszawa até aqui?
— As mais relevantes, Nicolai. Saiba que não era, definitivamente, Maricha quem embarcou naquele fatídico vôo.
— Não era? Você tem certeza? Isso indica que ela está viva!
— Provavelmente indique.
— Como assim?
— A princípio nós confirmamos que alguém que usou a sua identidade, e tomou o seu lugar naquela viagem.
— E quem iria tomar o lugar dela? E se ela não embarcou no avião, onde ela está agora?


Piotr assente silenciosamente às questões formuladas por Nicolai, como que esperando que ele chegasse ao ponto que desejava para poder continuar, pois, como costumava fazer, apresentava cada fato a seu tempo.
— Maricha foi seqüestrada no hotel do aeroporto, Nicolai. E logo em seguida uma sósia tomou-lhe o lugar. Foi essa sósia quem morreu no acidente aéreo, com as bagagens e documentos de Maricha.
— Mas quem iria seqüestrá-la?
— Pelo que consegui levantar, o outro lado, com ajuda de um grupo estrangeiro.
— E por que razão? Para afetar Olek? Não faz sentido...
— Não, desta vez não era a Olek que eles queriam atingir.
— Então quem poderia ser? Ari?
— Exatamente. O alvo era o irmão de Maricha, que por sinal é um oficial do exército israelense, agente do Mossad, responsável por sérias baixas do pessoal deles, quando se envolveram com um grupo terrorista árabe, há alguns anos. Provavelmente queriam vingança.
— Virgem mãe! Eles iriam usar a identidade de Maricha para chegar até Ari e matá-lo, é isso?
— É o que tudo indica. Caso pretendessem matá-la, simplesmente, o teriam feito já no quarto do hotel, ou em algum lugar ermo, para não levantar suspeitas.
— Como sabe que não a mataram? O que fizeram com ela?
— Eles a levaram para um escritório de apoio que ainda mantinham em Kiev. O que aconteceu, enquanto ela esteve lá, não sabemos.
— E para onde a levaram, então?
— Não a levaram. Ari havia designado um agente para acompanhar, à distância, a viagem de Maricha, devendo dar-lhe cobertura até Tel-aviv. Ele falhou na proteção que deveria ter dispensado a ela quando estava no quarto de hotel, mas percebeu a tempo a movimentação, quando do seqüestro, e a seguiu. Após ter localizado o escritório, recebeu orientações do próprio Ari para não procurar a polícia da cidade, formando-se formado um grupo de resgate que invadiu o cativeiro, poucas horas depois, resgatando Maricha sob forte tiroteio, onde vários agentes, dos dois lados, morreram. A polícia local registrou o incidente como acerto de contas entre traficantes e ficou por isso.
— Então, se ela está em segurança com Ari, por que não dá notícias?
— É o que nos perguntávamos, e conseguimos uma resposta, embora não a que esperávamos.
— Diga logo!

Nicolai conhecia Piotr e o amor que ele tinha pelos detalhes. Mas já estava perdendo a paciência com o informante, por ele se prolongar tanto em fornecer as informações que ele queria. Olha para Piotr com certa impaciência, mas o amigo faz não notar a expressão, e prossegue calmamente:
— Após muito buscar, conseguimos contato com um informante do pessoal de Ari, em Kiev, que disse estar autorizado a revelar que a operação de resgate não foi um sucesso absoluto, pois Maricha saiu gravemente ferida do episódio.
— Meu deus! Onde ela se encontra, afinal?
— Embora ferida, ela foi resgatada pelos homens de Ari, como lhe disse, e estes a teriam levado a uma clínica particular, a fim de que recebesse tratamento necessário para poder prosseguir viagem até seu destino.
— Tel-aviv?
— Sim.
— É onde ela está agora Piotr? Em Tel-aviv?
— Infelizmente não, Nicolai. Ela ainda não deve ter chegado ao seu destino. Até que conseguissem que Maricha fosse socorrida, ela perdeu muito sangue e entrou em choque. Quando recobrou a consciência não conseguia lembrar de nada do que havia acontecido recentemente. Quando despertou, ela chamava e perguntava pelo pai.

A indignação toma conta de Nicolai, que vê a filha de Andrzej tratada sem a consideração devida. Então irrompe em desabafo:
— Mas eles teriam que ter contatado conosco! Nós poderíamos ajudá-la no resgate e na recuperação! Conviver conosco certamente restituiria a sua memória!
— Eles não podiam entrar em contato com ninguém, pois temiam pela segurança dela, depois do ocorrido.
— Mas que diabos, Piotr! A família e os amigos dela a deram por morta, sem direito sequer a um funeral, enquanto os inimigos a sabiam viva e a seguiam de qualquer maneira! Se ela precisa se recuperar, que seja entre nós! Este tal Ari não pode ser tão teimoso em querer levá-la agora, nesse estado, para uma viagem dessas. Ela deve voltar e se restabelecer aqui, inclusive recuperar a sua identidade, para que possa decidir se quer ou não prosseguir essa viagem insensata.
— Não pode ser assim, Nicolai. Caso a família e os amigos soubessem que ela vive, ficaria mais fácil para o outro lado encontrar Maricha. Entenda que eles agiram para assim para o bem dela.
— Dela não, Piotr. Para o bem deles, que não poderiam se expor.
— Também é verdade. Mas veja que da família dela poucos restam. O pai morreu, do marido ela se separou. Só Janina e Tadeusz são da família e, como você sabe, ele é inimigo de Olek, e nunca se mostrou uma pessoa confiável. Estamos verificando seus passos, pois ele tem entrado em contato com o a fraternidade. Espero que não tenham escolhido por confiar justo nele, a família direta dela, pois Olek, para eles, é apenas o primo.

Nicolai pondera as últimas palavras de Piotr. Realmente Piotr estava a par de tudo que ocorria. Era um bom homem e um ótimo informante. Mas a pergunta que queria ver respondida era simples:
— Sim, mas onde ela está agora, Piotr? Isso você conseguiu saber?
— Infelizmente não, Nicolai. Nós perdemos o contato. Tudo que sei é que quando ela estivesse bem o suficiente seria levada a Tel-aviv. Onde está internada, ou por que rota ou meio viaja, não tenho como lhe confirmar. Sequer posso afirmar que ela ainda esteja na Ucrânia.

Nicolai silencia, pondera sobre as informações que recebera. Deveras, para os seqüestradores, caso Maricha vivesse seria a prova de que eles pretendiam mandar um agente para assassinar Ari, e que eles estariam utilizando pessoas inocentes para atingir seus objetivos. Configurado um crime como esse, seria possível o auxílio das autoridades institucionais para desbaratar a sua organização. Além do que Nicolai dá razão a Piotr, quando este lhe apresenta o argumento de que Maricha teria muitas informações a dar sobre as horas que passou com eles. Com certeza eles iriam ao seu encalço, se pudessem, e tentariam dar cabo de sua vida. Nicolai também esperava que eles não procurassem Tadeusz, por ser o parente mais próximo de Maricha, pois o próprio Tadeusz mandara a mãe viajar a Zacopane.

Maricha estava viva, porém desaparecida, ferida, e aos cuidados de desconhecidos, agentes profissionais de espionagem, seguranças treinados para matar, e não preservar para vidas, e destinada a uma viagem sem precedentes a outro continente. Eles não tinham como se por em contato com ela, a não ser que tentassem se comunicar com Israel.

Mas como se mobilizar sem alvoroçar o inimigo, aquele que queria, provavelmente, ver morta a testemunha de sua tentativa fracassada? Nicolai não sabia o que pensar a respeito, e sopesa ainda os argumentos do amigo, que o aconselha a deixar baixar a poeira dos acontecimentos, para então tentar entrar em contato com os responsáveis por Maricha, sobretudo com seu irmão, Ari.

Agora Nicolai teria algo mais delicado a tratar em Kraków. Como colocar Olek a par de tudo isso, e ao mesmo tempo assegurar que ele não perderia o equilíbrio, nesse momento delicado do grande confronto? Como falar para ele de Maricha, e ao mesmo tempo conseguir sua mente e coração para as revelações que o esperavam na Capital dos Reis? Estas dúvidas o preocupavam muito, e sabia que, mesmo que trocasse idéias com Lidja e Igor, pouco avançaria, mas tinha que ouvir a ambos. Precisava também deslocar-se para Kraków, pois estava evidente que a partir de lá que se formaria o cenário da grande batalha.

¤

A casa de Arkadja abrigava muitas preocupações. Ao mesmo tempo em que Nicolai tinha que se preocupar com os próximos acontecimentos em Kraków, não poderia descuidar das coisas que ocorriam em Warszawa. Fiodor, que agora ele sabia se chamar Alex Benk, poderia estar correndo perigo de vida, caso descobrissem que ele repassara aquele dossiê. E Lelek também. Resolve então ter uma longa conversa com Igor, saber de sua disposição de comprometer-se claramente com a confraria, além dos laços de sangue que os uniam, a fim de encarregar o rapaz de investigar o paradeiro e as atividades de Lelek e do amigo.

Igor aceita o encargo que o tio lhe propunha. Em sua missão deveria ser discreto, parecer desinteressado perante Lelek, ou que Nicolai apenas deixasse transparecer suas preocupações naturais de pai, aparentando a fragilidade da qual ele tanto fugia. Foi uma conversa difícil de iniciar, mas Nicolai precisava contar com todas as pessoas à sua volta. O sobrinho, porém, demonstrou uma maior compreensão do que o esperado. Satisfeito, Nicolai o orienta:
— Aqui, nesse envelope, estão os nomes de dois informantes meus em Warszawa, que você poderá contatar em meu nome. Com isso poderá fazer os levantamentos necessários mais rapidamente. Somente os procure nos endereços e horários indicados aqui, e nunca fora deles. Caso consiga ter contato direto com Lelek, não demonstre que sabemos o que está acontecendo. Deixe que ele fale, e se ele precisar de ajuda, ofereça, mas com cautela. Afirmar isso é muito penoso para mim, mas sabendo dos envolvimentos e aspirações dele, e depois de tudo que aconteceu, não tenho nenhuma confiança nas atitudes dele.
— Pode deixar, tio Nicolai. Eu procurarei descobrir o máximo possível. Eu e Lelek nunca tivemos problemas, e talvez ele se abra comigo. Vou mantê-lo informado de tudo que acontecer, enquanto estiver em Kraków.

Eles fazem os acertos finais, e Igor se despede. Nicolai permanece em sua biblioteca, pois as suas preocupações eram muitas. Ele sabia que Piotr estava muito perto de concluir o quebra-cabeça do desaparecimento de Maricha, e isso exigiria uma resposta eficaz à barbaridade do seqüestro. Tão logo tivesse o quadro formado, tentaria entrar em contato com Ari, e esclarecer tudo. Antes, porém, queria estar seguro da seqüência dos acontecimentos em Kiev.

Olek e Christina já estavam em Kraków, ele seria preparado, sutilmente, para o encontro com Miroslaw Tchenka, o que finalmente poderia dar um rumo ao rapaz, fazendo com que ele abraçasse seu destino. Pressentia isso, mas não tinha idéia de como o encontro de ambos iria refletir na alma de Olek, e isso o preocupava. O único fato de que tinha segurança sobre Olek, em Kraków, era que ele estava muito bem adaptado na Escola de Limnologia, chefiando a equipe de pesquisas. O quanto antes Nicolai conseguisse resolver o mistério que envolvia Maricha, melhor seria, pois daria mais estabilidade à vida de Olek. O que não entendia ser leal de sua parte era deixar de passar as informações que já possuía, pois ele estava ávido por notícias da filha de Andrzej. Sabia que deveria fazê-lo, apenas tinha que achar a maneira correta, e isso o consumia, como o consumiu confirmar, tempos atrás, a notícia da morte de Maricha.

Nicolai estava cansado. Vai até a cozinha e encontra Lidja sentada, pensativa, com o olhar perdido, diferentemente do jeito que normalmente a encontrava: ativa e agitada. Mas assim que ele se aproxima e se assenta à mesa, ela muda sua postura e lhe serve, com presteza, a ceia. Ele aceita a atenção que Lidja lhe dispensa como um refrigério às suas aflições, mas assim que termina a leve refeição, retira-se para o alpendre. Precisava refletir, repor as suas energias. Precisava estar na sua melhor forma para o que estava por vir.