Mar de Olek
XXI – Desconfianças
Longe dali, no escritório comandado pelo Senhor Sacerdote em Warszawa, o ambiente tenso, gerado pela chegada dos dois guardiões que seguiram Olek pela estrada, até serem detidos pelos policiais, sob o pretexto de excesso de velocidade, inundava o mezanino do velho galpão, estrategicamente alugado na saída norte da capital polonesa pela fraternidade. Eles tentam explicar-se como podem, diante daquele homem alto, magro e sisudo, que parecia a ponto de entrar em colapso:
— Nós não tivemos outra saída se não retornar. Ficamos detidos por duas horas, e encontrá-los novamente seria como procurar uma agulha num palheiro!
— Mas como permitiram se capturar assim? Será que não entendem a importância do que estavam fazendo?
— Acontece que o homem não ficou sozinho um minuto sequer, para que o pudéssemos abordar.
— Não? Quem estava com ele?
— A mesma jovem que interferiu quando, há tempos, nós o drogamos na taverna, e que na exposição chegou e atrapalhou a conversa, quando os rapazes que mandou lá tentavam convencer Olek a ir até ao apartamento que foi do Tadeusz. Ela seguiu com ele no carro. Viajaram juntos.
— Será possível? Isso só pode ser coisa daquele Nicolai! Até onde será que ele sabe de nossas ações? Pois sigam essa moça também, e me tragam tudo que souberem dela. Precisarei deslocar quatro de vocês para Kraków, a fim de encontrá-los o mais rápido possível. Não quero que Olek tome ciência do que ocorre antes de nos revelar onde seu avô guardou a herança. Era só o que faltava!Nesse momento Tadeusz entra na sala, ouvindo as últimas palavras ditas, e indaga, curioso:
— O que é que meu primo tem para revelar?O sacerdote, ante a intromissão do recém-chegado, ironiza:
— Ora, ora, pan Tadeusz! O que faz aqui?
— Recebi uma convocação para estar aqui para uma reunião...
— Sim, mas ela se dará à noite apenas, não acha que chegou muito cedo?Tadeusz na verdade não mais suportava ficar entre as quatro paredes do quarto em que a fraternidade o tinha colocado, a esperar indefinidamente por um chamado deles. Queria colocar-se em ação, ir ao encontro de Maricha. Tinha esperanças de que a reunião fosse para isso, mas pelo visto ele não fizera bem em chegar antecipadamente. Tadeusz tenta retomar a conversa de quando ele havia chegado, perguntando o que pretendiam de Olek, ao que o sacerdote responde:
— Essa preocupação não é sua, Tadeusz. Você está conosco porque quer que encontremos Maricha. E a estamos procurando, bem sabe. Basta, para você, que tiremos Olek de seu caminho. É o que você quer, não é? É como deve ser.
— Não, engano seu, senhor Sacerdote. Não me basta que tirem Olek do meu caminho. Preciso recuperar Maricha e ter condições de viver com tranqüilidade fora daqui. Este foi o nosso trato. Enquanto isso, não me é agradável ficar alheio a tudo que acontece, esperando indefinidamente naquele quarto sórdido onde me colocaram. Gostaria de voltar para meu apartamento, agora que minha mãe já partiu. Eu liguei para ela e recomendei que viajasse, como sugeriram que eu o fizesse.
— Não. Você não pode voltar para lá. Para todos os efeitos, está fora de Warszawa, lembra? Tivemos muito trabalho para fazer constar na fábrica que você viajou para fazer um curso, não irá estragar isso se expondo por aí. E quanto ao resto, você saberá o que for preciso, na hora certa, que já não tarda. Agora deixe-nos, que temos muito que fazer. Aguarde lá em baixo, no galpão, vá passear, faça qualquer coisa, mas esteja aqui na grande reunião. Vai ser um grande evento, pode estar certo. Todos terão novidades.Tadeusz não discute. Ao contrário, mostra-se submisso. Sabia onde tinha entrado, que havia vendido sua alma, agora era tarde para pudores. Iria até o fim, e o fim era sua obsessão por Maricha. Ele assente e sai da sala no mezanino, descendo as escadas até o galpão.
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A noite vem e Tadeusz vê as pessoas chegando uma a uma. Como a atender a um impulso, contabiliza-as. Já eram vinte e uma pessoas, ali reunidas, contando com ele. Seis mulheres, o restante homens. Uma barulhenta motocicleta estaciona com estardalhaço ao lado do galpão, e dela desmontam Lelek e seu inseparável amigo, Fiodor. Vinte e três. Todos aguardavam com expectativa a razão daquele encontro. A espera parecia causar ansiedade em todo o grupo. Normalmente encontravam-se com o Senhor Sacerdote, além dos dois que diretamente o assistiam, apenas aos pares, nunca antes num grupo tão grande. Não era o método de trabalho deles, e pelo visto ninguém sabia a razão daquela conferência. Deveria tratar-se de algo muito importante. O Senhor Sacerdote chega ladeado por seus seguranças e toma assento na mesa. Vinte e seis, conclui Tadeusz para si, enquanto o Sacerdote abria a reunião.
— Em breve estaremos centrando nossas ações em Kraków. É preciso que todos vocês estejam prontos para seguir para lá, quando chamados. A hora do confronto se aproxima, e estaremos na iminência de dar um grande passo ao encontro do nosso verdadeiro destino. Não temos mais tempo, precisamos nos agrupar. E saibam que de lá poderemos seguir para outro lugar, fora da Polônia. Estejam prontos. A grande batalha se avizinha. Está chegando o momento de retribuírem tudo o que a fraternidade tem feito por vocês.O espanto toma conta dos ouvintes. Alguns poucos deixam escapar exclamações de júbilo, pois compreendiam perfeitamente o significado daquelas palavras. A maioria, entretanto, entre eles Tadeusz, ficara intrigada e esperava esclarecimentos do que ocorria, pois nada entendiam. Estes apenas se uniram àquele grupo por motivos próprios, por interesses próprios que os fizeram prisioneiros daquela intrigante organização. Não o fizeram por seus antigos ideais, os quais, ademais, desconheciam. Tadeusz foi atraído pela promoção fácil, permanecera por causa do que ocorrera com Maricha e se comprometera pelo dinheiro recebido. Nada mais. Agora ouvia, assustado, o pronunciamento do Senhor Sacerdote, como se este estivesse por anunciar o fim dos tempos. O líder continua:
— Essa mudança brusca para Kraków não era esperada. É fruto de uma emergência. Infelizmente os planos que tínhamos tiveram que ser repentinamente mudados, por razões de segurança, porque dentre nós há alguém que ousou nos trair ontem. Corremos perigo agora, pois uma das ações necessárias para nosso avanço foi descoberta.O pânico toma conta de Tadeusz. Teria sido o assassinato de Brunick, com sua arma, que fora descoberto? Estaria ele correndo perigo? Começa a tremer, sentindo o suor escorrer de sua testa. Olhos vidrados no Sacerdote, ele aguarda a confirmação de seu temor, enquanto um frio agudo lhe percorre a espinha, enquanto um burburinho percorre a audiência.
— Não vou falar aqui do episódio que foi revelado ao inimigo, mas da traição. Vocês sabem o que acontece a quem nos trai? Irão saber. Com ele não será diferente, ainda que se trate de um iniciado. Não ofereço saída honrosa, não ofereço misericórdia porque ela não integra o nosso vocabulário. Os séculos nos esconderam, e não será misericordiosos que nos revelaremos agora, mas poderosos. Eu quero a vingança. Nós queremos a vingança e hoje ela nos será dada, com a suprema desonra do sacrifício do traidor perante todos vocês.O Sacerdote faz uma longa pausa e sentencia.
— O traidor está aqui, e daqui não sairá. Que então se apresente!Diante da dureza das palavras, a platéia entreolha-se atônita a procurar em seu seio o desafortunado traidor, fazendo com que o silêncio opressor que se instalara fosse rompido com o correr de um homem à porta do barracão que, para seu infortúnio, estava trancada. O Senhor Sacerdote, com os olhos brilhando de satisfação, ordena:
— Tragam Fiodor até aqui!Tadeusz fica pasmo com o acontecimento. Não esperava que este fosse o objetivo da reunião. Ao mesmo tempo em que sente a tensão suprema do ambiente, intimamente goza do alívio por não se tratar de um vazamento sobre o assassinato de Brunick, o que o envolveria irremediavelmente.
Lelek, por sua vez, fica lívido, sem nada entender do que se passava. Vê o amigo ser arrastado por dois homens até a frente do Senhor Sacerdote e, já com as mãos atadas às costas, é posto de joelhos perante o poderoso chefe. A muito custo, Lelek avança entre as pessoas até ficar próximo ao sacerdote, e recosta-se numa pilastra do galpão, pois suas pernas lhe faltavam. — O que estaria acontecendo? Estava tudo pronto para que os dois seguissem juntos para Viena, com sua bolsa de estudos paga pela organização. Estava tudo pronto para que eles realizassem seus anseios, para começar uma vida nova juntos e longe de todos aqueles que reprovariam as suas aspirações. Agora parecia que tudo estava arruinado! Que fizera Fiodor, razão verdadeira de seu rompimento total com o pai, com toda a sua família? Havia traído tudo e a todos, inclusive a ele mesmo, e posto em jogo a organização que iria tornar o sonho deles possível? Não entende o que está acontecendo, apenas assiste, calado e atônito, o desenrolar dos acontecimentos.
O Senhor Sacerdote deixa Fiodor de frente para todos, interpelando-o:
— Agora, se quer que sua agonia seja abreviada, revele a todos a sua traição!Fiodor mantém-se altivo, e sabendo-se perdido, permite que a ira tome conta de si, vociferando as suas razões:
— Eu não me chamo Fiodor. É certo que há muito tempo carrego este nome, e dele me vali para atingir o meu objetivo, e não importa o que fizerem comigo, eu o alcancei. A crueldade de vocês foi revelada, e não mais poderão prosseguir nessa aventura insana. Vocês não passam de um bando de assassinos cruéis, travestidos em sacerdotes do passado, que não medem as conseqüências de seus atos para alcançar seus intentos podres!No calor de suas declarações, quando proferiu impropérios, Fiodor é atingido por um soco na boca, desferido por um dos seguranças. Sangra. Antes que prosseguisse com a reprimenda, contudo, o homem foi detido pelo Sacerdote, que ordena:
— Que ele continue! Deixe que ele fale.E dirigindo-se a Fiodor, pergunta qual o seu nome verdadeiro.
— Sou Alex Benk. O meu sobrenome lhe diz alguma coisa?O Sacerdote não responde, mas o seu olhar revela uma centelha de lembrança.
— Pois eu vou refrescar sua memória. Cerca de quinze anos atrás, em Laba, o meu padrasto, Titus Benk, que era pescador, um dia descobriu os seus asseclas em uma cerimônia, na praia. O que ele viu não poderia ser visto, e deve ter atrapalhado os seus planos. E vocês o mataram por isso. Minha mãe foi à polícia para denunciar o sumiço dele, e vocês a sacrificaram cruelmente, largando seu corpo, mutilado, na sala de estar da casa. Eu estava passando uns dias com meus primos quando isto aconteceu, e quando voltei, dias depois, fui eu quem encontrou o corpo dela, já em estado adiantado de decomposição. Fiquei internado, em choque, afinal eu tinha apenas nove anos. Minha tia então me acolheu. Mudou meu nome para que eu pudesse crescer sem a marca dessa infâmia. Anos depois descobri dentro de um livro, nas coisas de minha mãe que minha tia guardara num baú, uma carta que ela não conseguiu enviar, contando tudo que havia acontecido, e tudo que ela sabia da organização insana de vocês, pois Titus, temeroso, lhe segredara. Eu então jurei vingança. Somente não sabia como chegar até vocês, mas por notícias tiradas de recortes de jornais pude acompanhar algumas das suas atividades. Um crime parecido com os cometidos contra meus pais foi a grande pista. Depois fui em busca de informações, livros antigos, tudo. Assim descobri como me aproximar de vocês.O Sacerdote muda suas feições. A recordação da primeira das suas decisões dolorosas o fere. Não tinha nada contra o homem que mandara matar, mas ele sabia demais sobre o culto secreto, e não saberia ficar calado. Era um falastrão. Não podia arriscar tudo por conta disso, e ordenou a sua execução. Quanto à mulher, fora um amargo acidente. Nada teria sido feito a ela se não tivesse procurado a polícia. Ele pretendia, sim, socorrer a família de Titus, como se fosse um amigo dele, e daria o amparo financeiro necessário. Como faria com a mulher de Brunick. Nada lhe aconteceria de mal, mas ela antecipou-se e fez aquela denúncia insana.
— Eu não sabia que Titus tinha um filho!
— Não sou filho dele. Sou seu enteado, mas o amava como a um pai. E o que você fez com minha mãe não tem perdão.
— Como chegou até nós?
— Ora, você me trouxe, quando mandou seus homens me abordarem com a proposta de entrar para a fraternidade, e de ganhar uma boa quantia para trazer um colega da escola, o Julek Ianovich, para vocês. Não importa o quão difícil foi a tarefa, mas eu atingi vocês. Minha mãe e Titus podem agora descansar, porque serão vingados.Não estando em condições de compreender que Fiodor tentava desvinculá-lo dos próprios atos, Lelek sente as afirmações do amigo como se este lhe esbofeteasse. Era verdade, ele o amava em segredo, e traíra tudo por ele, e agora essa revelação o enchia de ódio e rancor. Estava sem chão e sem volta, não saberia mais o que fazer da sua vida, a ira e o desespero o cegavam, quando ele saca do bolso uma navalha e corre em direção a Fiodor, sendo detido pelos seguranças do Sacerdote, que o desarmam e imobilizam. Os demais ficam comentando entre si a cena, sem entender o pandemônio que havia se tornado aquela reunião inusitada. O Sacerdote retoma a palavra, exigindo num brado que todos se calassem. Quando o silêncio se restabelece ele se dirige a Lelek:
— Você sabia da verdadeira identidade de Fiodor?
— Não! Juro que não sabia! Eu não sabia de nada, senão eu os teria prevenido! Ele traiu a mim também, não entende?!Mal profere estas últimas palavras, Julek se dá conta de como se expunha perante os demais, que zombavam dele em cochichos, até que o silêncio absoluto foi novamente exigido pelo Sacerdote, que se dirige desta vez a Lelek.
— Está claro para mim que você não sabia. Acalme-se. Nós cuidaremos bem de você, não tenha medo. Mas agora fique quieto até que resolvamos tudo isso aqui.Sem saber o que o aguardava, Lelek se encolhe, apoiando as costas contra a pilastra, deslizando até ficar de cócoras, e se põe a soluçar. O desespero se instalava de tal forma no rapaz que ele não conseguia se conter. O Senhor Sacerdote volta-se para Fiodor, indagando o que ele pretendia com essa traição.
— Eu queria matá-lo, Sacerdote. Mas já me basta ter desbaratado tudo isso aqui. Eles vão acabar com vocês! Isso pagará a repulsa que senti ao me fazer um de vocês e ter que arcar com as tarefas que me davam. Fingir como fingi, todo esse tempo, até conquistar a confiança do rapaz e tudo o mais, passar informações, trair, tudo para que vocês pensassem que eu era mais um da fraternidade, mas agora vocês estão perdidos!
— Por que acha que nós estamos perdidos?
— Porque durante todos esses anos eu estudei vocês à distância. Anotando, gravando, fotografando. A carta que minha mãe deixou deu-me grandes pistas, foi um excelente ponto de partida. Depois eu dediquei minha vida a isso. Estudando, seguindo, documentando, descobrindo tudo que vocês faziam, onde e como agiam. Eu descobri. Eu sei quem são e o que querem, mas não vão conseguir. Vocês estão perdidos!
— E você fez tudo isso sozinho?
— Não, não fiz sozinho. Contei com a ajuda de uns poucos amigos que se convenceram da verdade do que eu investigava.
— E onde eles estão agora?
— Por que quer saber? Você chegou ao fim, Sacerdote! Mais cedo ou mais tarde será levado a um Tribunal, e eles comparecerão para falar tudo! Eu elaborei um dossiê que entreguei, antes de vir para cá, a um agente especial do governo que também investigava vocês, e mesmo que me mate aqui, a verdade vencerá. Vocês estão derrotados, e pagarão por todos os crimes que cometeram!Diante de tais palavras um assombro geral toma conta da platéia, enquanto o Sacerdote se volta para a mesa, abrindo lentamente uma pasta que seu segurança havia deixado ali. Dela retira uma pasta volumosa e a apresenta para Fiodor, exclamando com sarcasmo:
— É a este dossiê a que você se refere?Enquanto a platéia assistia a tudo estupefata, Fiodor, aterrorizado, solta um grito como se sua alma saísse pela boca, como a negar que aquilo estivesse acontecendo, berrando que não podia ser, enquanto o Sacerdote fitava-o friamente com satisfação. A sentença estava dada.
Ainda que em desespero por ver seu plano de denúncia naufragar, e perceber a situação em que se encontrava, ali, ajoelhado, mãos amarradas às costas, Fiodor percebe que não tem alternativa a não ser se preparar para morrer com a dignidade que lhe restava: a dignidade dos derrotados.
Lelek, o único que poderia ajudá-lo nesse momento, contemplava-o com ódio, pois havia se sentido como mero joguete nas mãos de Fiodor para alcançar sua vingança. O rapaz ainda não entendera que o discurso, desfazendo dele, fora justamente para preservá-lo, deixá-lo à parte daquela confusão, da mesma maneira que agira quando interveio ao seu favor, quando expulsos da casa de Nicolai. Pensando em tudo isso, Fiodor levanta a sua cabeça e encara o Sacerdote, aguardando o pior.
O Sacerdote, por sua vez, se coloca à frente de Fiodor e em meio sorriso fala não só para Fiodor, mas para todos que dele esperavam o desfecho:
— O agente que o abordou não era do governo. Era nosso. Eu acompanhava seus movimentos já faz tempo, e queria ver onde poderia chegar. Sua vingança foi em vão, e você vai pagar por sua traição, e por não ter entendido o que nós vamos fazer. Você é a prova de que eu estava certo em mandar executar Titus e sua mãe. Alguns ousaram me contestar à época, a ponto de muitos conservarem dúvidas ao meu respeito até hoje, por causa do episódio. Mas agora você mesmo comprova que eu estava certo. As pessoas de sua cepa não aprendem mesmo. É o seu fim Fiodor. Vou usar você para mostrar a todos aqui presentes como tratamos um traidor!E olhando para dois dos homens que estavam à frente:
— Preparem-no para o sacrifício!Nesse momento, avança a passos largos o Ancião, o maior dos representantes do conselho da fraternidade que secretamente a tudo assistia, um senhor de longas barbas grisalhas e um corpanzil que por si só sustentava a sua autoridade, postando-se diante da mesa, e interrompendo os preparativos ordenados pelo Sacerdote:
— Não! Esperem um momento! Este homem não vai ser sacrificado aqui. É claro que deve pagar pelo gravíssimo erro que estava por cometer, mas não com o sacrifício da morte, e sim através do trabalho, da abnegação e do claustro, pois é um iniciado.A intervenção do Ancião deixara o Sacerdote lívido. Como poderia admitir que fosse desautorizado perante todos? Logo ele, que se dedicara totalmente à causa, agora estava sendo desmoralizado perante os homens que recrutara a ferro, fogo e ouro? Com tais exclamações a corroerem-lhe o espírito o Sacerdote ensaia um protesto, mas o Ancião o toma pelo braço, convidando-o a conferenciar sobre o destino que seria dado a Fiodor, ou melhor, a Alex Benk. Enquanto isso, todos deveriam aguardar em silêncio no salão em que se encontravam. Ao subirem ao mezanino, O Ancião olhou fixamente para o Sacerdote e discorreu:
— Nós nos conhecemos há muitos anos, e deve me ouvir, já que fui o maior responsável por você ocupar o lugar que hoje ocupa. Pondere. As batalhas medievais, por muitas vezes, tinham seu destino selado antes que se iniciassem, caro Sacerdote. Isto porque o seu resultado se devia primordialmente pela adoção das estratégias de seus generais, pela disposição das forças de que se dispunha para o enfrentamento. Não é muito diferente a situação por que passamos agora.
— Mas é justamente isso! Caso se permita tratar com indulgência uma traição que poria a todos em grandes dificuldades, logo estaremos nas mãos de qualquer chantagista que acabe surgindo entre nós. E se permitir agora que a vida dele seja poupada, após eu já ter sentenciado o seu sacrifício, ficarei com a autoridade abalada perante meus homens, e o momento não é para isso, nobre Ancião!Não considerando os argumentos do Sacerdote, o Ancião prossegue com sua explicação, sem nunca tirar os olhos dos do Sacerdote.
— Entenda o que eu quero lhe dizer. Voltando às batalhas medievais, sabemos que por muitas vezes o elemento surpresa era utilizado, e o exército que se mostrava em superioridade numérica acabava sucumbindo diante do adversário que apresentava uma estratégia mais acurada. Tudo contava: arqueiros, cavaleiros, legiões, armas de guerra, e também o moral dos soldados, que ofereciam sua vida por seu rei, por seu senhor, ou mesmo pelo butim que poderiam obter, caso lograssem sucesso na batalha.O sacerdote, por se irritar com a maneira indireta que o ancião sempre utilizava para manifestar suas idéias, tenta interrompê-lo afirmando:
— Sem a autoridade do general nenhuma batalha era ganha!Sem tomar conhecimento do aparte, o Ancião prossegue:
— Abater, muitas vezes, o moral do próprio exército não daria, pois, um bom resultado, e o sacrifício do enteado de Titus, à vista de todos, poderia surtir efeito contrário ao desejado por você.
— Isso não aconteceria! Todos temeriam a represália e se portariam de acordo daqui para diante!
— Ah, não aconteceria? Com certeza o sacrifício, diante de todos, incutiria até a admiração em uns poucos, medo em alguns, revolta em outros, e todos se sentiriam inseguros, propensos a abandonar a luta nesse momento tão importante. Eles têm que saber que a punição existe, que a autoridade se impõe e que o plano prossegue porque é o plano da história. Eles precisam estar convictos, não vulneráveis. A lealdade não se consegue pelo medo nem pelo dinheiro, mas pela certeza da vitória. Se em algum momento eles pensarem que estaremos perdidos, debandarão, e então estaremos sós. No passado isso já aconteceu.
— Mas como irei explicar isso ao meu pessoal, que está lá, boquiaberto, esperando o sacrifício de Fiodor, enfim, a nossa decisão?
— O rapaz causou dano real? Estamos correndo grave perigo?
— Não. Interceptamos as provas, o dossiê..., ele não teve tempo de divulgá-las, pois achou que já o estava fazendo quando as entregou para o nosso soldado, que se fez passar por agente secreto do governo.
— Então você já se respondeu. Ele será levado por mim ao Templo, e lá ele deve ser interrogado, para termos certeza de que ninguém mais sabia o que ele fazia, nem esse Julek Ianovich, que você deve tratar bem, mas manter em estreita vigilância. Quanto a Alex Benk, caso seja aprovado no interrogatório, ficará lá, preso, servindo à causa, até que decidamos qual o destino que ele irá ter... quando o tempo passar e nós tivermos tudo dele, deixaremos que você decida, então, o seu destino.
—Mas como falar do Templo? É um segredo! Muitos deles nem sabem que sequer existe, como posso falar dele agora?
— Não tardará a hora em que todos saberão, ainda que superficialmente, quem realmente somos. Eles precisam começar a ter idéia do tamanho da guerra que enfrentamos, e verem-se pertencentes a isso tudo, pois o grande embate se aproxima, quando teremos que contar com cada um deles.
— Mas muitos só são serviçais, nem iniciados são, estão aqui por dinheiro e por compromisso, em virtude de uma ou outra dificuldade que tiveram, e nós intervimos, só isso! Os que já sabem é que são os leais, os que conhecem a história, os que poderemos contar na hora da revelação, e não são nem a metade dos que estão aqui hoje. Não devemos expor o Templo Secreto a todos!
— Não se iluda, Sacerdote. Nossos inimigos não hesitarão em lançar contra nós as Instituições. Irão nos chamar de visionários, criminosos e outras coisas. Precisaremos de todos para contra-atacar. E você não pode esquecer que Alex Benk já é um iniciado. Sacrificá-lo seria um erro! Não acabou de falar que os iniciados nos são leais?
— Na hora do embate poderíamos recorrer aos nossos amigos palestinos! Não precisamos tentar cooptar os nossos serviçais para a batalha maior.
— E você confia mais na ajuda do Oriente do que nos seus próprios homens? O que você está fazendo por aqui, para chegar a esse ponto, Sacerdote? Que general confia mais nas tropas mercenárias estrangeiras, trazidas apenas pelo ouro e interesses, que nos seus próprios nacionais? Quando bem mais jovem, ao receber a missão que hoje exerce, a sua fé e determinação eram diferentes das que você me mostra hoje. Você tem que corresponder às expectativas que depositamos em você, e não agir como um mafioso qualquer, sacrificando pessoas a seu bel prazer, sem que isso seja absolutamente necessário para o desenvolvimento de nossos planos! Você precisa se lembrar do objetivo final, Sacerdote. Jamais esqueça o porquê de tanto poder ter lhe sido outorgado pelo Conselho de Anciãos.A essas últimas palavras se seguiram segundos de um pesado silêncio. A acusação do Ancião fora recebida como se uma agressão física fosse, pois ficara claro para ele que o velho referia-se ao episódio de Titus, ocorrido há tantos anos. O Sacerdote se deixa cair numa cadeira, aparentemente vencido.
— Está bem, falarei com meus homens. Espero que me acompanhe.
— Não, não o acompanharei. Estarei no carro aguardando o prisioneiro Alex Benk, e seguirei direto com ele para o Templo. Eu o sedarei. Não quero sequer que ele saiba para onde está sendo levado. Ficará na mais completa vigilância, eu lhe asseguro.
— Essa certeza eu guardo comigo, Ancião. Apenas temo porque nunca agimos dessa forma, levando um traidor para dentro do nosso reduto mais secreto...
— ...de onde jamais sairá, a não ser que isso nos seja útil, Sacerdote. Não tenha temores vãos. Ele, queiramos ou não, é um iniciado, e está comprometido com a causa, embora por motivos pessoais fortes tenha tentado nos trair. Não vai fazer isso novamente, eu asseguro.
— Está bem, Ancião. Submeto-me à vontade do Conselho. Agora vou até os homens comunicar a decisão que tomamos, e dissolver a reunião.Ao retornar ao grande salão, tão logo o Sacerdote comunica que, por vontade do conselho maior da fraternidade, Fiodor será levado e interrogado pelo Ancião. Inconformado, Lelek berra:
— Não! Matem-no! Ele me traiu, ele nos traiu! Matem-no agora!Mas é interrompido pelo Sacerdote:
— Admiro sua lealdade, meu jovem, mas esse não é o momento para vinganças. O Ancião trouxe a posição do conselho, e me fez ponderar o que seria melhor para a fraternidade, e assim vai ser feito. Aquiete-se. Eu o procurarei em até dois dias, e então saberá o que terá que fazer. Você é valioso para nós, não se esqueça.Tadeusz, que a tudo observara, sentira pena de Lelek. Sabia que os dois dias prometidos não se cumpririam, a exemplo do que acontecera com ele. O Sacerdote dá por encerrado o assunto de Lelek, não lhe permitindo mais argumentar. Dirige-se então a todos os presentes encerrando a reunião. O episódio provocaria uma mudança de planos, e todos deveriam continuar com seus afazeres normais, mantendo-se em alerta. Decretava também que o galpão não era mais considerado um lugar seguro, e que seriam mais tarde comunicados sobre o novo local do escritório da fraternidade.
Com essas últimas palavras, o Sacerdote faz um sinal em direção a Fiodor que, abatido, é conduzido por dois homens até o carro do Ancião. Eles partem em seguida, desaparecendo na escuridão da noite por uma estrada secundária que iniciava nos fundos do galpão abandonado onde se encontravam. Tão logo o carro afasta-se o suficiente, Fiodor, ladeado no banco traseiro pelo próprio Ancião e por um guardião, nada entende do que estava acontecendo.
O Ancião, enquanto o guardião desamarrava as mãos de Fiodor, comenta:
— Você fez uma trapalhada terrível, meu rapaz. Eu diria que um erro imperdoável, embora você acredite que foi movido por motivos nobres. Beba isso e acalme-se. Temos uma longa viagem pela frente.Perplexo, Fiodor segura o copo, mas no momento em que vai sorver seu conteúdo pára, e olha com temor para o Ancião, que diz:
— Beba tudo. Não irá fazer mal. Apenas adormecerá, pois não deve saber o caminho para o Templo. É para lá que vamos.Fiodor hesita. Aquele homem estava prestes a dopá-lo, e não fazia segredo disso. Avalia, em segundos, a sua situação: — iria ser sacrificado, quando fora salvo pelo Ancião, e agora estava sendo levado para o templo cuja localização exata desconhecia. Com que finalidade? Não tinha como escapar, o guardião ao seu lado apontava-lhe uma arma, e o motorista o observava pelo retrovisor. O Ancião olhava fixamente para ele, e então toma a única decisão razoável para o momento.
Vagarosamente Fiodor sorve a vodka. Todo o conteúdo que lhe fora oferecido, largando o copo no assoalho do carro. Olha para o Ancião, que aprova a sua atitude, e pergunta:
— O que pretende de mim?
— Quero esclarecê-lo. E também quero a sua expiação.¤
Havia chovido durante a madrugada. O carro deslizava na auto-estrada, produzindo aquele ruído característico e constante das rodas em contato permanente com o asfalto. Alex Benk, que aproveitara a segunda identidade para cumprir seus desígnios, encontrava-se em estado de sonolência no banco traseiro do carro, do outro lado o Ancião. Cada curva ou pequeno solavanco do veículo despertava a sua mente confusa, o vidro do carro ainda prendendo algumas gotículas da chuva, a própria escuridão da noite somada aos reflexos das luzes, a lhe ferir os olhos que se apresentavam hipersensíveis, não permitiam que ele soubesse para onde estava sendo levado. Adormecia. Acordava momentaneamente e logo se entregava ao entorpecimento. Aquilo durou horas, para ele eternidades, até que no início da manhã se abrissem os portões de uma antiga propriedade rural, e ele ser trancado num quarto de um palacete antigo que aquela propriedade abrigava.
Alex sentia-se completamente atordoado, incapaz de esboçar qualquer reação. Não fazia idéia de onde se encontrava, sua cabeça girava e ele sentia muito frio. Deixou-se desabar em uma cama e, antes de perder novamente a consciência, ainda tem condições de refletir que estava agora nas mãos do Ancião, que evitara seu sacrifício no próprio galpão onde fora desmascarado. Mas a todo custo deveria resistir, e não revelar que enviara um dossiê idêntico para Nicolai Ianovich. Disso dependia o sucesso ou o total fracasso de sua vingança. Isso era mais importante que sua própria vida, nesse momento. Os pensamentos se confundem, e ele tenta se agarrar à determinação de nada revelar, e com esse querer adormece profundamente, entregando-se por completo ao entorpecimento que o dominava.
Por dois dias permaneceria nesse estado.