Mar de Olek
XIX – A exposição
À tarde de domingo, Victor, Mabel e Olek partem para o local da exposição. Seria o dia em que ela seria aberta ao público, pois nos dias anteriores Victor efetuara os acertos finais e na sexta-feira recebera algumas autoridades, imprensa, artistas e convidados especiais. Contudo era com a abertura das portas do salão do Palácio é que ele considerava o seu grande teste: submeter-se às impressões do público. Era boa a expectativa quanto à mostra, que já repercutia na imprensa metropolitana e nas revistas especializadas. Victor efetuara uma exposição tendo por tema o trabalhador na sua lida, nos mais variados ofícios, firmando uma relação com cada uma das atividades a um dos deuses eslavos da antiguidade, formando todo um simbolismo referente à era pré-cristã.
A originalidade da relação, relembrando os alicerces da cultura eslava, com destaque para a polonesa, aliada à beleza das fotos obtidas por Victor, fez com que a mostra alcançasse pleno êxito. Os olhos e a alma de Olek se embevecem diante da obra de Victor. Durante a visita, Olek comenta com o irmão:
— Eu não sabia que você conhecia tanto da nossa história antiga.
— Realmente eu recebi uma boa ajuda. Até Andrzej me deu alguns conselhos, quando veio para cá se tratar do seu mal...
— Verdade?
— Sim, conversamos bastante sobre isso, quando ele estava disposto, claro.
— Eu achei a sua idéia esplêndida!
— Obrigado, meu irmão. Quis fazer este trabalho porque passamos por vários processos de desintegração cultural nos últimos mil anos. A conversão coletiva promovida por Mieszko I, em 966, foi o ponto de ruptura com a antiga cultura. Criamos a nova, e nos integramos no continente europeu, firmando-nos no novo cenário. Mas de lá para cá por duas vezes a nossa nação foi partilhada, desaparecemos do mapa, numa das vezes por mais de um século. A constante luta em defesa do nosso solo, as guerras, e mais recentemente o horror nazista seguido da internacionalização comunista, dentro da cortina de ferro, fizeram com que todos nós desenvolvêssemos uma verdadeira obsessão pelo resgate e preservação de nossa história e cultura. Acho que eu não consegui furtar-me desse diapasão.
— Pelo visto não, Victor. Graças a Deus você não ficou alheio a isso. Tentaram fazer com que desaparecêssemos, chegando até, quando da segunda partilha, a proibir que se usasse a expressão “Polônia” para se referir às terras que à Alemanha coube na partilha com a Áustria e Rússia. Mas ninguém conseguiu, em nenhum momento, sufocar o amor polaco por sua terra natal. E posso dizer que a impressão que você deixou em suas fotos é muito forte, Victor. Você conseguiu.Victor brinca, já um pouco encabulado com os elogios de Olek.
— É bom saber que meu irmão compreendeu meu trabalho. Ou apenas conhece o irmão...Mas era verdade. Muito lhe aprazia a aprovação do irmão mais velho, era a voz da sua família a apreciar sua realização. A irmã deles, depois que casou, morou em Kraków, e depois, com a morte da mãe, mudou-se para uma cidadezinha próxima a Praga, onde morava a família do esposo. A partir de então ela não mais travara contato com os irmãos. Agora que Olek voltara de Moscou os dois reencontravam, um no outro, o senso de família. Com a ida de Olek a Kraków, porém, e pela proximidade da viagem de Victor a Londres, os irmãos sabiam que iriam enfrentar a solidão que já conheceram antes desse breve reencontro, que fora intenso o bastante para reafirmar os fortes laços que os uniam.
Vez por outra, enquanto conversavam, eram interrompidos por algum visitante ilustre, que teria vindo prestigiar a exposição, a quem Victor ou Mabel tinham que dar atenção especial. Entre tais interrupções, Olek pergunta para Victor:
— Como você teve a idéia de fazer tal correlação entre as profissões e os deuses?
— Na verdade a idéia surgiu de uma conversa minha com o falecido tio Andrzej, em que ele me contava as histórias dos antigos deuses eslavos. Desde lá venho amadurecendo o projeto.
— Não me diga!
— Sim, como lhe falei antes, trocamos idéias quando ele veio para cá, e pude mostrar-lhe parte do trabalho que já tinha elaborado. Ele contava coisas que ouvira do dziadzio Julek, sempre que eu o acompanhava no tratamento. Chegou a comentar que você sabia também algumas dessas coisas, e até alguns segredos desses deuses.
— Eu? Tio Andrzej disse isso?
— Disse.
— Eu me recordo, sim, de histórias que dziadzio Julek contava. Dizia-me que eram verdades, e que eu deveria aprender as características e histórias dos deuses, que eles me acompanhariam durante toda a minha vida. Eu me divertia com isso, mas o ar dele sempre era de gravidade quando tratava desses assuntos, e enquanto crescia eu notava que ele não comentava essas histórias com os demais, apenas quando estávamos a sós. Andrzej chegou a falar mais alguma coisa?
— Sim, estou lembrando, agora que você me perguntou. Ele disse algo como: “seria uma benção se eu realizasse esta exposição e você a visse, porque as histórias dos deuses iriam trazer-lhe recordações, e que você iria entender o significado de algumas coisas de seu próprio destino”.
— É mesmo? E ele chegou a explicar do que se tratava? Porque depois do episódio do trem, Victor, e tudo o que aconteceu depois, aprendi a dar mais atenção a esses sinais...
— Não, não disse mais nada, ao menos que eu lembre agora... ele, por mais de uma vez, lamentou o fato de você estar tão distante, em Moscou. Apenas comentou isso certa vez, quando eu ainda planejava preparar a exposição.Nesse momento Victor é novamente interrompido. Era Mabel que vinha buscá-lo para apresentar-lhe um crítico londrino que estava em Warszawa, e viera prestigiar a exposição. Olek fica a pensar nestas novas perguntas: — O que ele deveria ver, na exposição de Victor? — Quais os símbolos que deveria assimilar, correlacionar com seu próprio destino? Começa a passar em revista toda a exposição, em busca de respostas. Desta vez detinha-se mais e mais em cada uma das fotos, procurando nelas achar algum indício do que Andrzej sinalizou existir, através da lente de Victor. Olek demorou-se também nos textos que acompanhavam os retratos, e relembrava as histórias fantásticas que dziadzio Julek lhe contava.
Enquanto percorria o salão, Olek é chamado. Vira-se, a fim de identificar quem por ele chamava, e depara-se com Lelek e Fiodor, que conhecera rapidamente quando da primeira ida à casa de Nicolai. Responde, então, ao cumprimento:
— Olá rapazes, como vão? Que surpresa em vê-los aqui!É Lelek quem responde, aproveitando para sondar Olek:
— Soubemos da exposição de Victor e viemos prestigiar o evento. Muito bonitos os retratos, não? Pensei que você estivesse em Kraków, trabalhando...
— E estava. Voltei para cá apenas para ver a exposição de meu irmão. Devo regressar já no domingo. Já falaram com Victor?
— Não, ainda não... Você volta para Kraków de trem?
— Não, irei de carro mesmo.
— Pois é... eu soube que Nicolai deu-lhe o land rover antigo, depois de finalmente restaurá-lo...Lelek deixa pairar no ar um certo desconforto, como a permitir que ficasse subentendida a sua desaprovação pelo presente que Olek recebera. Antes de receber uma resposta de Olek, porém, Fiodor leva a conversa para outro rumo:
— Então você esta trabalhando na Jagellonica?
— Quase isso. Na verdade estou desenvolvendo uma pesquisa junto à Escola de Limnologia, ligada à Universidade.Vendo que os rapazes já quase o interrogavam sobre seus planos, e não estando disposto a abrir-se, Olek tenta inverter a conversa:
— E vocês, o que tem feito desde que vieram à Warszawa?E é Fiodor, novamente, quem responde:
— Trabalhando, um pouco aqui, um pouco ali..., enquanto tentamos conseguir uma bolsa para ir à Viena, estudar.
— É mesmo? Uma bolsa? E tem já tem alguma instituição em vista para o patrocínio?Lelek franze o cenho pelo comentário de Fiodor, pois também não estava disposto a abrir-se com Olek. A conversa seguia superficial, e Olek já pensava num meio de desvencilhar-se de ambos e prosseguir no estudo da exposição de Victor. Foi então que Lelek conduz a conversa por um terreno estranho:
— E sua namorada, teve notícias dela?Olek sente uma intensa emoção tomar conta de si, quando se lembra de Maricha.
— Que namorada?Lelek prossegue:
— Maricha, não é assim que ela se chama? Pelo que eu soube, quando a conheci, ela estava de partida para Israel, não é isso?Consternado, Olek responde:
— Você não soube? Ela estava naquele avião que caiu sobre a Moldávia...
— Puxa, é mesmo? No Tupolev? Nossa..., sinto muito... é que eu... Engraçado, me pareceu ter entendido que seu primo iria encontrá-la em Kiev... devo ter entendido mal...
— Tadeusz?
— Sim, ele mesmo. Encontramos com ele, por acaso, na semana passada, acho, e ele me falou algo dela e que estaria indo para Kiev... Parece que ele voltou a morar no apartamento com a mãe. Por que não vai até lá, ver se ele sabe alguma coisa?Enquanto Fiodor observa as reações de Olek, Lelek completa, ante um Olek estupefato:
— É, mas vá sozinho, porque talvez assim vocês consigam conversar e resolver diferenças. Parece que você e seu primo não se dão muito bem, não é mesmo? Vá lá, e quem sabe ele lhe diga algo sobre Maricha...Nesse momento Christina entra na exposição e estava cumprimentando Victor, quando este aponta para Olek e ela o vê conversando com o irmão e Fiodor. Este último também percebe a presença de Christina e, a um sinal de Fiodor, Lelek pára de falar e rapidamente se despede lamentando o mal entendido. Partem imediatamente, deixando a dúvida para Olek, antes que fosse possível Christina os alcançar e interpelar. Desaparecendo entre os freqüentadores da exposição, e seguem para uma saída secundária. Olek estranha a maneira brusca como eles se vão, pois por estar de costas não percebera a aproximação de Christina. Fica intrigado com os últimos comentários de Lelek sobre Maricha e Tadeusz, e pensava em visitar a tia antes de regressar a Kraków.
Conseguiram. Se o objetivo dos dois rapazes era plantar o tormento na alma de Olek, haviam alcançado o intento. Ele fica tão absorto que ainda não se dá conta da chegada de Christina, que vem em sua direção. Aflige-se com a possibilidade de Maricha estar viva, e Tadeusz estar indo ao seu encontro em Kiev, sem ter avisado a ninguém. Será que haveria alguma possibilidade de ela não haver embarcado naquele vôo fatídico? E se tal ocorreu, porque ela não entrou em contato com Olek, com Janina ou com qualquer outro? A fim de acalmar o espírito, Olek resolve descer e tomar o ar da noite, ordenar os pensamentos, mas é interrompido pelo cumprimento de Christina. Surpreso, Olek a cumprimenta, ao que ela responde com outra indagação:
— Tudo bem, Olek? Parece abalado..., para onde foram Lelek e Fiodor?
— Creio que embora. De repente ficaram aflitos para partir.
— É mesmo? E o que lhe falavam?Olek conta a conversa que acabara de ter com os rapazes, mostrando-se confuso diante da possibilidade de Maricha ter sobrevivido ao desastre. Christina ouve-o atentamente, inquire para saber mais detalhes. Ela sabia haver mais coisas ali que o próprio Olek pudesse compreender. Urgia que ele falasse com Miroslaw, no retorno, e ela iria cuidar para que isso acontecesse. Olek, sem o saber, corria grande perigo, e Christina precisava alertá-lo. Nicolai estava certo, não era mais o bastante protegê-lo ao longe, permitindo que ele levasse sua vida. Agora precisava encontrar um meio para que o alerta fosse feito de uma maneira que Olek não refutasse seus apelos, mas sim aceitasse o seu apoio.
Christina questionava-se sobre os porquês do irmão ter ido até lá encontrar com Olek, querer saber de seus movimentos e, sobretudo, dizer tais coisas sobre Tadeusz e Maricha. Por que faria isso, se nunca se importara muito com as pessoas ao redor? Ela, por fim, comenta:
— Estou estranhando muito essa conversa. Ao que me consta, Olek, nem Julek nem Fiodor conheciam Tadeusz. Somente eu e meu pai conversávamos com ele, quando Andrzej havia iniciado o tratamento em Warszawa. Seria melhor falarmos com papai sobre essa história.
— Você acha que ele poderia ajudar em algo?
— Claro que sim, ele e baba Lidja, aliás.
— Mas como? Fazendo o ritual da tenda, como vocês me contaram?Propositadamente ignorando a ponta de ironia no comentário de Olek, Christina responde:
— Olek, eu não sei bem como, mas provavelmente não através do ritual, e sim de uma medida mais prática. Tenho claras, comigo, duas coisas: a primeira é que devemos investigar esta história até o fim, e papai e Lidja podem nos ajudar muito. Eu sempre intuí algo sobre o desaparecimento de Maricha, devo confessar. Cheguei até a comentar com baba Lidja, quando soubemos do acidente, mas ela achou que eu estava impressionada com a tragédia e não me deu ouvidos. Depois falei com Igor, naquele dia em que você recebeu o carro de papai, e ele chegou a me dar certa razão.
— Então você acha que existe mesmo a possibilidade de Maricha estar viva, em algum lugar?
— Acho, Olek. Sinceramente eu acho o suficiente para não conseguir ficar de braços cruzados, conformada. A segunda coisa que para mim é cristalina é que você não deve ir procurar Tadeusz, como Lelek sugeriu. Isso não soa bem. Não parece seguro. Há algo por trás disso que não está certo, sobretudo por terem pedido, como me contou, para ir lá sozinho. Eu lhe peço que não vá, Olek.
— Mas eu tenho que investigar isso. Talvez minha tia saiba de alguma coisa. Enquanto eu não tiver certeza do destino de Maricha eu não terei paz, Christina!
— Eu não peço que não investigue, Olek, somente que não vá sozinho até o apartamento de Tadeusz. Isso parece mais uma armadilha. Depois que meu irmão passou a andar com Fiodor, sobretudo quando saiu de casa, eu passei a não mais confiar nele.Christina então conta com detalhes a Olek como foi a saída de Lelek de casa, a discussão que ele tivera com o pai e depois com ela, quando tentava contemporizar. Olek ouve a história, e por fim o pedido de Christina:
— Não vá até lá, Olek. E eu temo por você.Olek, depois dessa última afirmativa, não pode deixar de lhe dedicar um olhar de carinho à Christina. Aquela bela moça de fato se preocupava com seu bem estar.
— Está bem, talvez não deva encontrá-lo mesmo, afinal eu não conseguiria nada de Tadeusz. Ele me odeia. Não consegui entender as insinuações de seu irmão, e como ele pode saber tanto sobre como eu me relaciono com Tadeusz, se você afirma que ele nem o conhece. Acaso você, que foi meu anjo da guarda quando retornei a Warszawa, ou Nicolai, comentavam com ele sobre mim?
— É claro que não, Olek. Eu não sei como ele soube dessas coisas. Não sei mesmo. E temo pelos motivos que o levaram a agir dessa forma. Diga-me: quando você volta à Kraków?
— Amanhã. Mas antes tenho que entender o que está acontecendo. Preciso saber de Tadeusz. Houve um episódio estranho envolvendo meu primo, pouco antes de eu viajar.
— Episódio estranho?Olek então põe a par Christina sobre a conduta do primo quando o encontrou na taverna na estrada, naquela noite que retornava de Arkadja com o carro, e o que ele e Victor achavam. Ao ouvir, e sabendo o proceder das pessoas do outro lado, termina por pedir que Olek conte o episódio a Nicolai. Quando ele concorda que Nicolai, pelo seu conhecimento, poderia realmente decifrar o enigma, Christina reúne intimamente sua coragem e, de uma maneira superficial, a fim de não deixar transparecer nenhum interesse outro, fez seu pedido a Olek.
— Eu também tenho que ir a Kraków, eu gostaria de saber se ainda está de pé aquela carona. Assim poderíamos passar por Arkadja, e falaríamos com papai sobre estes incidentes. O que acha?
— Acho ótimo! Será muito melhor viajar em sua companhia. O tempo passa mais depressa. O que vai fazer em Kraków?
— Vou para lá atender às necessidades do grupo, Olek. Você sabe do que eu falo.
— Sei, sim. Cheguei até a procurar Miroslaw, como seu pai havia me pedido, porém não consegui encontrá-lo. Vou voltar a fazer isso semana que vem.
— É mesmo? Papai vai ficar feliz em saber.Logo depois encontra Victor e Mabel, e voltam a conversar sobre a exposição. Olek aos poucos se descontrai, resolvendo não mais se atormentar com o assunto e nem comentar com Victor, para não ofuscar com preocupações a alegria que o mesmo sentia com a exposição. Olek então passeia pelo salão com Christina, comentando o que Andrzej falara a Victor. Quando findo o horário de visitação, fecham-se as portas e ainda por algum tempo atendem as pessoas que relutam em deixar o local. Depois, os quatro saem para jantar, não sem antes Christina ligar para o Posto Telefônico de Arkadja e deixar um recado para Nicolai.
Quando saem do restaurante Victor, ao invés de deixar Christina no Hotel em que esta deixara suas bagagens, convence esta a apanhar as malas no lugar e a aceitar pernoitar em sua casa, pois assim ela e Olek partiriam de lá cedo para Arkadja. No caminho do Palácio ao restaurante, e de lá até o hotel e depois para o estúdio, os dois casais foram discretamente seguidos por dois homens. Ninguém notou, a não ser Christina, que se limitou a observá-los, sem alarmar qualquer um dos outros. Ela sabia muito bem quem eram e o que pretendiam. Tinha que estar alerta para que Olek não ficasse só. Quanto a Victor ela estava tranqüila, pois este também tinha, agora, a companhia de Mabel. Enquanto houvesse mais de um, nada aconteceria. Ao chegarem no estúdio, já bem tarde, o telefone tocava insistentemente. Era Nicolai, chamando por Christina. Enquanto esta o atende, os demais se aprontam para dormir. Olek cede seus aposentos para Christina e se acomoda no sofá do estúdio. Logo que desliga o telefone, Christina efetua outra ligação, desta vez para um informante do grupo, que verificaria sobre os últimos movimentos de Tadeusz. O quadro estava ficando claro para ela e Nicolai. Claro e amargo. O filho de Andrzej, e o do próprio Nicolai, cediam para o outro lado.
A manhã chega, e com ela as despedidas de Olek e Victor. A volta de Olek a Kraków foi precipitada pelas circunstâncias, e ele não mais passaria o domingo com o irmão, mas em Arkadja e em viagem. Eles se despedem, já com saudades. Eles se despedem como se por muito tempo não fossem se reencontrar, pois o destino os levava para longe. Eles se emocionam, a ponto de desconcertar aquelas duas mulheres, Mabel e Christina, que os observam na longa despedida e forte abraço que trocam.
Não eram apenas irmãos. Eram almas irmãs. E isto os fazia próximos. E encontrar-se os fazia fortes. — Pois que sigam! Abençoa Christina em pensamento. — Os dois, fortes e decididos, a realizar os seus destinos. Que suas almas hão de se encontrar ainda, e se regozijar pelas suas conquistas.
XX – Deusas
Christina e Olek iniciam a sua viagem para Arkadja. Era impossível a Olek deixar de lembrar da viagem que fizera com Maricha, quando da primeira vez que para lá seguiu. A paixão por Maricha e a curiosidade em conhecer Nicolai, ouvindo o que ele tinha a dizer sobre seu avô, sobre seu próprio passado ainda estavam gravados em sua mente. Mas não fica acabrunhado ou silente pela lembrança, ao contrário, desfruta com alegria a companhia de Christina na viagem de retorno a Kraków.
Eles conversam muito, e logo ao sair de Warszawa ela o fez observar um carro que os seguia à distância, esclarecendo-o que eram pessoas que serviam ao outro lado. Pouco mais que isso. A certa altura ela pede que eles parem num posto de gasolina. Após afastar-se de Olek a fim de fazer uma rápida ligação telefônica, Christina sugere que eles façam um pequeno lanche, demonstrando a Olek que está sem pressa. Passados cerca de vinte minutos, ela convida-o para que prossigam a viagem. Olek observa, depois de algum tempo já ter saído do posto, que o outro carro não mais os seguia, comentando que poderia ter sido mera impressão de Christina. Ela, porém, nada comenta, limitando-se a um sorriso enigmático. Tomara as suas providências para que aquelas companhias indesejáveis deixassem de segui-los.
A viagem avança descontraída, Olek a recordar a infância, a vida familiar, e por fim os grandes encontros de Natal que se davam com as bênçãos de dziadzio Julek, que a todos congregava. Christina era boa ouvinte, envolvendo-se com os relatos de Olek. A certa altura ela também narra um Natal que ficara gravado para sempre em sua memória e coração. Ela lembra que há muitos anos, quando o inverno e a época das festas se aproximavam, a sua euforia infantil aumentava exponencialmente. A mãe de Christina ainda vivia, e o seu amor emprestava um calor especial àquele lar. Àquela época eles já moravam em Arkadja, mas em uma casa menor, pois ainda se restaurava o antigo casarão onde até hoje moravam. Era um chalé pequeno e acolhedor, de cinco peças e com um enorme fogão a lenha, o mesmo fogão que depois foi montado no casarão restaurado.
Aquele ano específico trouxe um inverno prematuro e muito rigoroso. A escassez de alimentos era grande, pois grande parte dos alimentos era compulsoriamente “exportada” para a União Soviética, gerando tumultos, sobretudo nas cidades desabastecidas. Nicolai trabalhava muito pelo grupo, na clandestinidade, o que o deixara por dias ausente do lar. E foi essa ausência que o fizera notar, pela primeira vez, o brotar dos talentos da filha.
Foi nesse Natal que Christina, ainda criança, por seus pais foi encarregada pela preparação da árvore natalina e pelo presépio. Ela recorda-se do quanto se esmerou, contando apenas com a ajuda de baba Lidja, que somente a amparava, deixando que ela criasse tudo por si mesma. Christina obteve muitos elogios de sua mãe e surpreendeu Nicolai. A surpresa do pai fora tamanha que lhe causara um misto de satisfação e mágoa, pois entendeu que seu pai não esperava que ela fosse capaz de se sair tão bem assim.Christina não sabia se era pelo presente que recebeu naquele ano, ou se por estes sentimentos opostos em relação ao seu pai, que aquele Natal tornara-se inesquecível para ela, e de certa forma a fizeram querer, sempre e cada vez mais, procurar o aperfeiçoamento de si mesma, a fim de superar as expectativas que Nicolai tinha em relação a ela.
Mas o presente que recebera naquele ano também foi inesperado e especial. Christina foi surpreendida com uma boneca de louça e pano, ornada com lindas vestes típicas. O brinquedo remetia à Zywia, a deusa eslava da natureza primaveril. Esta boneca, que estava ricamente embalada sob a árvore, rendeu também história: quando ela o recebeu, sua mãe contou que São Nicolau, de tempos em tempos, presenteava uma menina em especial com aquela boneca, porque a criança demonstrava possuir algum dos dons da deusa eslava que lhe levava o nome, como um sinal de que ela teria um futuro abençoado, e que traria a alegria da primavera por onde passasse, enquanto cumprisse o seu destino. Esta história mais tarde fora confirmada por baba Lidja, e Christina a tinha como verdade em seu coração. Reverenciaria a deusa Zywia por toda a sua vida, e com ela contaria nos seus momentos de dificuldade.
Christina contou em detalhes, para Olek, aquele seu Natal marcante, e este a ouviu atentamente, por vezes surpreso e comovido por descobrir o lado sensível daquela jovem combativa.
Mas não apenas de histórias da infância consistiam os temas dos diálogos de Olek e Christina, na longa viagem empreendida. O presente muito lhes falava também. Olek, aos poucos, se inteirava das influências do que ambos convencionaram chamar “do outro lado”, e que seriam responsáveis pelas tentativas de fazê-lo perder o verdadeiro rumo de sua vida. A decisão de voltar à Polônia, contudo, fora conseqüência do grito interior a que Olek atendia, algo que tinha sido há muito plantado em seu íntimo, por seu avô Julek. E quando finalmente o fez, recebeu como sinal a aparição de seu tio Andrzej, e depois teve sobre si a avalanche de acontecimentos que hoje o levavam a Kraków. Olek comenta com Christina o teor daquela conversa com o tio, que agora começava a perceber tudo dizer dos acontecimentos de sua vida.
— Ele me falou coisas cifradas, que eu não compreendia. Cheguei a guardar apontamentos do que ele me disse, isto é, do que consegui lembrar, após saber que tinha sido uma visão.Diante da indagação silenciosa de Christina, Olek prossegue:
— Tio Andrzej comparava a minha vida a uma caminhada, a travessias, e me disse que eu não deveria me esconder, que as ondas me atingiriam pelas costas, ou algo assim, nem fugir para o deserto, nem me desviar do que ele chamou do curso do rio verdadeiro, para que eu encontrasse meu mar.
— E você vê sentido, agora, nessas coisas que seu tio lhe disse?
— Não vejo, propriamente, mas algumas coisas eu tenho que reconhecer que tem coincidido com o curso de minha vida. Veja bem: ele simbolizou tudo com águas, e com águas estou trabalhando em Kraków. E é tudo que eu quero. Viver e trabalhar em paz. Quanto às outras coisas, ainda não tenho respostas.Segue-se um silêncio, quebrado apenas pelo roncar do velho land rover wolf que desliza pela auto-estrada. Seguem para Lowicz, passando Sochaczew, como quem vai a Poznan, a fim de pegarem a estrada que leva a Arkadja. Partindo dali, à tarde, cortariam por uma estrada menor, que passaria por Skierniewice até retornarem à estrada principal e o entroncamento em Piotrów, rumo a Kielce e dali direto para Kraków. Com isso, a partir de Arkadja eles se voltariam para o leste, aproximando-se novamente do vale do rio Vístula, que banha tanto a capital polonesa como a antiga capital dos reis. Christina comenta este fato com Olek, o que o faz ficar pensativo por saber que, de alguma forma, ela poderia estar se referindo às palavras do tio: as águas, o rio Vístula, a alma da Polônia. Christina então volta ao assunto:
— E recorda-se de algo mais que ele tenha dito? Enigmas, coisas que para você não tenham feito sentido imediato, mas que tenha recebido em sua alma como algo a ser considerado?
— É difícil dizer agora, Christina. Eu me recordo de algumas coisas sim, como lhe falei, quanto aos detalhes, considere, eu nunca consigo me lembrar bem deles. Como notei que tentava me dizer alguma coisa, através desses símbolos, escrevi a conversa, tentando ser o mais fiel possível às palavras dele. Um dia mostro as anotações a você. Aliás, wujek Andrzej sempre nos fazia enigmas, e as respostas eram simples, quando se descobria, mas eram difíceis de procurar. Eu lembro, também, que ele falou – e nesse momento Olek sorri – que eu deveria saber ouvir as pessoas novas que cruzariam meu caminho, e saber distinguir depois das que querem me ajudar das que querem me perder.Christina entende o sorriso de Olek e se alegra com o fato dele ter visto em seu pai, Nicolai, e por extensão nela mesma, pessoas nas quais ele poderia ouvir e confiar, mas fica intrigada com o fato dele ter mencionado outras pessoas que o tentariam perder. Então – ela pergunta de si para si – haveriam pessoas que se aproximariam de Olek a fim de perdê-lo? Ela precisava refletir sobre isso. Não revela essa sua reflexão, perguntando à Olek se este teria outras lembranças, pois tudo que tivesse sido trazido à baila naquela ocasião certamente lhes teria valor. Olek responde:
— Sim, sim. Ele falou algo bem em linguagem de enigma que, como lhe disse, cheguei a anotar à época. Li algumas vezes, mas não cheguei a uma conclusão.
— E do que se tratava?
— Bom, era algo assim como mandamentos, sabe? Primeiro, fugir aos olhos ocultos; segundo, ouvir as súplicas do templo; que eu deveria me proteger; que eu não deveria me iludir com coisas pequenas; não confiar em promessas fúteis; que eu não deveria parar no meio do caminho; e algo mais, que não me recordo bem... eram sete observações...
— Algo mais? O que seria?
— Eu não consegui lembrar, por mais que tentasse, Christina, e por isso não anotei. Agora é que não me recordo mesmo. Lembro que ele falou algo sobre sinais, mas o que exatamente não consegui trazer à memória. O que recordo é que ele pediu para dar um recado para Maricha, se eu a visse... e àquela altura eu nem tinha idéia de que eu iria reencontrá-la em Warszawa, como aconteceu, e muito menos que ela estaria livre e que viveríamos a história que vivemos...Olek se emociona e eles se calam. O rugir do motor volta a tomar conta da cabine, e estava claro para Christina que Olek pensava no que vivera com Maricha. Eles param, logo depois, para reabastecer e verificar o carro. Agora faltava pouco para chegarem em Arkadja.
Olek continuara silencioso, e Christina sofria por saber que nada poderia fazer para aliviar a dor que ele sentia. Ela se compadecia em ver com que resignação ele carregava aquela perda. Queria fazer algo, mas sabia estar fora de seu alcance. O máximo que poderia fazer era instruí-lo para seus combates, protegê-lo dos asseclas do outro lado, mas não tinha como proteger Olek das próprias dores e lembranças. É um lugar, ela o sabia bem, que ninguém alcança.
Ao retornarem à estrada, Olek desabafa:
— Eu preciso tirar a limpo essa história de Maricha e Tadeusz, Christina. Preciso, senão eu jamais terei paz. Desculpe, mas ainda acho que deveria ter ido ao apartamento, como Lelek sugeriu. Se Tadeusz não estivesse lá, ciocia Janina poderia, talvez, dar uma informação a respeito disso!Christina tenta apaziguá-lo, afirmando que existiam pessoas trabalhando nisso, que ele teria as respostas que procura, mas Olek mal ouvia suas ponderações, e prossegue:
— Será possível que ela esteja viva? E se estiver, que ela tenha sido capaz de se deixar passar por morta, provocando todo esse sofrimento dos que ficaram? Não falo só por mim, mas por Victor, Janina, pelo seu pai, e até o Tadeusz? E se Tadeusz realmente recebeu noticias dela, seria ele capaz de ficar em silêncio somente para se vingar de desentendimentos passados?
— Não sei, Olek, não tenho essas respostas ainda...
— O que seu irmão falou, Christina, é muito sério! Ele chegou a insinuar que Tadeusz estaria indo encontrar com Maricha em Kiev, e que se eu fosse até o apartamento teria as respostas!
— Existem muitas coisas estranhas nessa história, Olek, para que você a dê como verdadeira. Primeiro, como já lhe disse, nem meu irmão, muito menos o amigo dele, pelo que me consta, conheciam Tadeusz. Como podem ter se encontrado e conversado com ele sobre essas coisas? E depois, mesmo que conhecessem, sem que soubéssemos, como iriam saber das diferenças entre você e ele? E mais, como saberiam que Tadeusz saiu em viagem e voltou? Foi somente após a tragédia do Tupolev é que você soube que Tadeusz tinha viajado. Essas respostas ainda não temos, e provocar você para ir ao apartamento de Tadeusz, ressaltando para você ir sozinho, faz parecer tratar-se mais de uma sórdida armadilha.
— É isso que não entendo, Christina. Por que seu irmão iria querer me prejudicar?
— As histórias que envolvem Lelek, meu irmão, são muito complexas, e a resposta que eu tenho a lhe oferecer eu mesma temo, Olek.
— Você acha mesmo que ele...Christina então, entre os lábios, sussurra a realidade que ela relutava em aceitar.
— Infelizmente, Olek, eu acho, sim, que meu irmão Lelek foi seduzido pelo outro lado. Sofro muito com isso, sobretudo com o sofrimento que esse fato irá causar a meu pai. Ele já perdeu minha mãe, que ele tanto amava, não sei o quanto a constatação dessa realidade irá custar para ele. Eu tenho medo.Olek tenta encontrar palavras para amenizar a angústia demonstrada por Christina, quando expôs o seu grande temor em palavras, como nunca fizera.
— Mas talvez não seja nada assim..., pode ser que apenas esse amigo dele, o Fiodor, esteja envolvido, e ele esteja inocentemente colocado nessa história, induzido, não sei...
— Tente consolar meu pai com tais palavras, Olek. Eu cresci com Lelek. Eu conversei com ele no dia em que partia. O caráter de meu irmão eu conheço bem. Eu sei qual a natureza dele, e a dor que eu sinto é pelo meu pai.Diante das palavras de Christina Olek se cala, como se estivesse se concentrando na estrada. Tinha que respeitar aquela dor, quando Christina se via afirmando que seu irmão agia não só em desacordo, mas literalmente se contrapondo àquilo que ela mesma aprendera a acreditar e defender, e que brotara dos ensinamentos de seu pai que muito amava: Nicolai. Ela prossegue, tentando livrar-se de seu amargor.
— Eu, na verdade, não estou tão surpresa, somente eu não esperava que meu irmão chegasse a esse ponto. Sabia que um dia ele iria renegar abertamente toda a tradição e se envolver até o pescoço com as suas próprias ambições. Ele se diz ateu. Ele se diz comunista. Mas a verdade é que sempre foi apenas um fraco. Eu não pensava que ele chegasse a esse ponto, mas acho que até meu pai já sabe. Ele sabe muitas coisas antes de todos nós. E eu temo pelo fim de tudo isso. Pelo fim que Lelek vai arrumar para si.
— Você acha que Nicolai tem consciência das atitudes de Lelek?Christina assente, em silêncio.
— Então é chegada a hora de eu retribuir a seu pai tudo que ele tem feito por mim, se é que está ao meu alcance lograr confortá-lo nessa hora.
— Você já é um conforto para ele, Olek. Tem, aos poucos, agido como ele sempre esperou que meu irmão agisse. Ele gosta de você como a um filho.Desta vez, ao chegar em Arkadja, apesar de contar sempre com a acolhida calorosa de Nicolai, Olek pôde perceber o tom grave com o qual este o recebia. Era a urgência que Nicolai tentava transmitir, e também deixava transparecer a amargura por seu filho ter se bandeado para o outro lado. Dirigem-se, os três, para a biblioteca, onde Olek lhe faz perguntas sobre o que tanto o incomodava, e Nicolai não se esquiva, ao contrário, pareceu sentir alívio em compartilhar com Olek e a filha a sua tragédia pessoal.
— Meu filho Lelek, a quem eu brindei com nome do meu mais nobre e valoroso amigo, Julek Kowalski, desonrou as tradições e nos abandonou.
— Eu não entendo o porquê dele ter agido da maneira que fala, e nem como pode ter certeza do que ocorreu. Não haveria, Nicolai, meios de trazê-lo de volta?
— Caro Olek, Christina adiantou-me ontem à noite, quando telefonei, sobre o encontro que você teve com ele, e investigamos algo da história que ele lhe contou.
— Vocês investigaram?
— Sim, através dos contatos que tenho em Warszawa. Eu já lhe posso adiantar que o apartamento de Tadeusz, hoje, encontra-se fechado. Segundo me informaram, sua tia Janina comentou com a vizinha que o filho havia ligado, dizendo-se preocupado com ela, e pedido que ela passasse uns tempos com a irmã, em Zacopane, porque não gostava que ela ficasse só em Warszawa, onde não conhecia ninguém. Ela já viajou, e o apartamento está desocupado há dois dias.
— Então Lelek mentiu?
— É o que parece. Ou os queriam enganá-lo, ou agiam como pombos-correio de alguém, talvez até do próprio Tadeusz.Nesse momento é Christina que intervém:
— E Tadeusz, onde está, então?
— Pelo que pude descobrir até agora, ele estaria em algum lugar no subúrbio de Warszawa. Não conseguimos localizar o lugar. Devo receber mais informações amanhã ou depois. Essas coisas são demoradas. Conseguimos muito desde ontem à noite.Olek retoma a palavra, interpelando Nicolai:
— E Maricha? Existe mesmo a possibilidade dela estar viva, em algum lugar? Será que está na mão desses criminosos?
— Lamento, Olek. Até agora não temos nenhum elemento que nos dê segurança quanto a isso. Não sabemos se falar dela foi apenas uma isca para atraí-lo ao suposto apartamento de Tadeusz, ou se, realmente, há verdades no que lhe foi dito. Mas teremos uma resposta. Muitas pessoas estão empenhadas nisso, tenha certeza.
— Caso esteja viva, ela pode estar correndo perigo! Não seria melhor ir até a polícia de uma vez?
— Não, Olek. Não podemos ir à polícia nem a nenhum lugar com uma história como essa. Que elementos teríamos para que eles pudessem investigar um acidente aéreo na Moldávia? Iriam nos achar loucos, uns desocupados, e nós sim é que seriamos investigados por eles. Andaremos mais rápido se seguirmos sozinhos, sem a burocracia a ingerir-se em nossas investigações. Colhamos nós mesmos os indícios e, aí sim, caso tenhamos pistas concretas, poderemos acionar as forças institucionais. Antes seria perigoso e improdutivo.Era verdade. E Olek sabia que sim. Nada tinham, a não ser uma mínima esperança, para acreditar Maricha viva. Sem fortes elementos, nada obteriam da polícia. Ofereceu-se então para retornar a Warszawa, e auxiliar pessoalmente nas investigações, e a muito custo cedeu aos últimos argumentos de Christina e Nicolai, quando estes o fizeram ver que em vinte e quatro horas haviam conseguido mais informações sobre o acontecimento do que Olek obteria em semanas. Nicolai finalmente sentencia:
— O melhor que você pode fazer para ajudar, Olek, é ir para Kraków, seguir o seu caminho, centrar-se em seu trabalho e visitar Miroslaw. Christina o acompanhará, e será sempre a ponte entre você e eu. Você não está sozinho, lembre-se disso.Olek aquiesce, e eles seguem à cozinha, onde baba Lidja servia uma leve refeição, para que eles seguissem viagem. Lidja observa demoradamente Olek. Quando finalmente ele e Christina partem, ela comenta com Nicolai.
— Este moço vai trilhar o caminho, Nicolai, e tudo fará para recuperar o amor que perdeu, se houver possibilidade de fazê-lo nessa vida. Só espero que nossa menina não se machuque demais com essa história.O velho land rover se afasta, levando Olek e Christina. Em hora e meia ou duas os jovens chegariam a Kraków. Nicolai e Lidja ficam ainda a contemplar silenciosamente o veículo a se distanciar, até que nem a vista e nem os ouvidos os alcançassem. Retornam para dentro do casarão, quando Nicolai comenta:
— É difícil, Lidja, muito difícil, quando temos que deixar que nossos filhos encarar as lutas, quando somos nós que temos a experiência e a vivência para enfrentá-las.
— Você ainda não aprendeu a confiar verdadeiramente em Christina, Nicolai. Deposita mais confiança no neto de Julek Kowalski do que em sua própria filha.
— Não é verdade, Baba. Você sempre tentando me ver pelo lado pior! É claro que eu deposito toda minha confiança em Christina, mas Olek...você sabe...
— Se o mestre Miroslaw conseguir despertar nele o desejo de enfrentar esta batalha até o fim... Nem nós sabemos, na verdade, o que isso custará ao rapaz, e se ele vai aceitar o que lhe cabe.
— Nós nem sabemos o que isso tudo custará a todos nós, Lidja. A mim já custou um filho, a Olek, a mulher de sua vida, o que custará a Christina? Por vezes eu me sinto cansado, Lidja, e somente a você, fiel amiga, eu posso isso revelar.Lidja olha-o profundamente, com todo carinho que sentia por aquele homem. Com as mãos calejadas toca seus ombros e lhe sorri:
— Eu sei, Nicolai. Como eu sei o quanto você deseja a paz. Não desanime.Eles então se separam com esses pensamentos. Nicolai se recolhe à biblioteca, e Lidja aos seus afazeres, nem sempre domésticos.
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Lidja havia prometido aos pais de Nicolai que cuidaria dele e de sua descendência. Estava, pois, na hora de cumprir a promessa. Segue até o pequeno aposento dos fundos, com acesso através da despensa, e lá se fecha. Precisava saber do futuro, e para isso iria invocar Mokosz, e de suas profecias tiraria suas conclusões. Desta vez não iria pedir a permissão de Nicolai, pois era justamente a ele quem Baba queria socorrer nesse momento.
Mokosz era uma lendária e caprichosa deusa eslava, que fiscalizava a tosquia, e que, já na Polônia convertida, ainda se manifestava durante o período da quaresma, vagando pelas casas onde se reuniam as tecelãs, e essas reconheciam a sua presença pelos ruídos do tear e pela lã velha em torno dos mesmos, que a deusa deixava como sinal.
Era a protetora das mulheres e do trabalho, recebia oferendas e profetizava. Quando contrariada, perturbava tanto a casa que a convivência sob aquele teto se tornava insuportável, até que seus desejos fossem atendidos e sua ira aplacada, com atitudes e oferendas. Ao pretender invocá-la, Lidja estava ciente do risco de provocar perturbações, mas Christina precisava ser protegida, e Nicolai ter um bálsamo para suas dores ante a deserção do próprio filho. Estava próxima a época da tosquia, o que favorecia a consulta à divindade, que já se manifestava pelos campos.
Lidja penetra no aposento cujo acesso se dava por dentro da despensa, e acomoda-se em frente a um velho tear, que pertencera à avó, e antes à bisavó, e antes ainda à tataravó da falecida esposa de Nicolai. Como a iniciar o ritual, Lidja se põe a cantar uma música antiga, muito antiga, num polonês arcaico, oriundo de um dialeto local, que pouco seria inteligível para um homem preso ao seu tempo.
A cantilena prossegue no ritmo ditado pela roca. Repetindo-se tal qual uma ladainha, Lidja pouco a pouco tem alterado seu estado de consciência, enquanto as batidas do tear vão se alternando em velocidades maiores e menores, obedecendo a um ciclo que se renova. Em dado momento Lidja percebe que o tear está se movimentando independente de seu impulso, sentindo a presença de quem o comandava. Ela levanta-se lentamente e segue até o baú que se encontra do outro lado do pequeno aposento, e dele retira uma tesoura antiga de tosquia e um novelo de lã, depositando-os ao lado da banqueta do tear, como oferenda. Ela então se afasta novamente, inclinando a cabeça em direção ao tear, e ao mesmo tempo dando três passos para trás, em atitude de respeito. Saúda devidamente a Deusa e apresenta as suas questões à divindade. Hoje ela teria algumas respostas sobre o futuro que aguardava a todos da família.
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Ao chegar em Kraków, naquele entardecer de domingo, Olek se despede de Christina quando pára defronte à casa de Josef, onde ela ficaria hospedada, combinando encontrarem-se apenas no sábado seguinte, quando almoçariam juntos. Ambos tinham muito que fazer durante aquela semana. Ao sair, Olek ainda pode observar Christina ser acolhida com um breve sorriso pela desconfiada Mirika, a qual dirige a Olek um olhar desconfiado, o mesmo olhar que lhe lançara quando, dias atrás, chegara naquela casa pela primeira vez. Embora Josef o tivesse recebido muito bem, Olek não perdera a impressão ruim que Mirika lhe deixara. Ele não gostava daquela criatura, que lhe inspirava um não sei quê de temor. Considerou, contudo, naquele momento, que Christina estaria bem, pois Josef era amigo de Nicolai e, portanto, ela estaria segura enquanto lá permanecesse.
Ao chegar, finalmente, ao seu apartamento, Olek sente o cansaço tomar conta de si. Ele sabia que os sonhos que tinha de uma vida tranqüila em Kraków teriam que ser adiados, pois isso somente ocorreria depois que tudo isso acabasse. Ele só não sabia o quando, e o que mais o inquietava era a possibilidade de Maricha estar viva. O dia seguinte, todavia, começa cedo e faz com que Olek mergulhe nas atividades do Centro de Pesquisas, quase nenhum tempo lhe restando para pensar em tudo que ocorrera. A reorganização do trabalho, a implantação de novos métodos, a iminente chegada do amigo Jean Claude do Canadá, as atividades da equipe o absorviam de tal maneira que sua rotina se restringia ao trabalho, com os intervalos breves de repouso, que invariavelmente passava no próprio apartamento. Gostava do que fazia, e encontrava nessas atividades um bálsamo para a sua vida tão agitada, embora sua alma continuasse intrigada quanto ao destino de Maricha. Atenderia, contudo, ao pedido de Christina, e deixaria, por ora, nas mãos de Nicolai a procura de respostas para esse enigma.
Não duvidava, porém, que teria que se cuidar muito com as pessoas que dele se aproximassem, como acontecera na exposição, lembrando das palavras de seu falecido tio, em relação às pessoas que o cercavam: saiba distingüí-las, pois haverá aquelas que o pretendem perder.