Mar de Olek
XVII – Primeira semana em Kraków
As cidades milenares trazem em seus meandros muitas histórias conhecidas por todos e outras tantas ocultas, sussurradas nos vãos dos seus grandes muros, insuspeitadas, muitas vezes, pela esmagadora maioria dos que as habitam. Ambas, histórias proclamadas e secretas, delineiam as características do lugar.
A antiga cidade de Kraków, patrimônio da humanidade, tem guardada em si fatos e lendas, adquiridas ao longo de sua existência, e muitos segredos, posto que importante centro de poder por séculos. Uma cidade que esteve envolta em inúmeros conflitos, incluindo os dois mundiais, e escapou ilesa. Uma cidade pela qual passaram tantos exércitos inimigos por mais de um milênio, e que mesmo assim permaneceu em pé, tem muito a contar de si a quem nela chega. Ela se revela e encanta. Ela conta os muitos passos da nação que a abriga. Chegar a Kraków é ouvir os ecos da própria civilização européia. É mergulhar em sua magia.
Ao entrar na cidade, Olek ouviu os sinos de Zygmunt, que desde 1520 badalam na torre do Castelo Real de Wawel. Um sino de dezoito toneladas que, dada a sua envergadura, logrou escapar da voracidade dos invasores alemães nas duas grandes guerras, e permanece nos seus mais de 480 anos ressoando aos ouvidos atentos dos cracovianos.
Também não deixou de ouvir o corneteiro de Kraków, que é uma das mais antigas e belas tradições polonesas, quiçá européias, e remonta à segunda metade do século XIII. Naquela época as invasões tártaras eram constantes, sobretudo as expedições de pilhagem. Os tártaros tinham verdadeira fascinação por esta cidade e seu esplendor, e a acossaram por diversas vezes, a fim de saquear as suas riquezas.
A tradição remete a uma ocasião em que esses tártaros, vindos da Ásia e que haviam ocupado Kiev, se aproximaram das muralhas de Kraków no meio da noite, e a cidade que então dormia seria fatalmente capturada, caso um heróico corneteiro, que estava de vigia, não tivesse soado o alarme para despertar os cracovianos.
Tal ato de bravura, contudo, custou a vida do corneteiro, pois ao repetir o alarme, no afã de a todos conclamar à luta, teve uma flecha certeira de um arqueiro tártaro atravessada na garganta, interrompendo assim o toque de alerta. Graças a esse aviso, porém, a cidade despertou e resistiu, rechaçando o ataque e dispersando a força inimiga. Depois desse evento, na grande praça de Kraków, ouve-se, da mesma torre, um corneteiro soar o toque de alerta que, ao começar a tomar corpo, é inesperadamente interrompido, deixando a melodia incompleta, a simbolizar a seta mortal atingindo o alvo. Essa tradição se repete por mais de setecentos anos na cidade de Kraków, e a melodia executada toca a alma de cada um dos milhões de pessoas que a ouviram.
Esses e tantos outros encantos brindaram Olek desde que chegara a Kraków, e este não deixou de rever, em suas folgas, os pontos da cidade que lhe despertavam saudades, posto que a conhecia desde menino. A primeira semana na cidade, contudo, não fora de passeios. Ao contrário, transcorrera agitada. Mal chegara no final de semana anterior, tivera de cuidar de seu alojamento, assim como da sabatina na terça-feira, na Escola de Limnologia. Estabelecera alguns contatos profissionais e aguardara a resposta final da entrevista.
Olek fora muito bem recepcionado pela equipe que comandaria na pesquisa, quando da visita que efetuou na segunda-feira. Lograra êxito na entrevista do dia seguinte, e imediatamente ocupara o seu posto. Assumia assim a chefia de uma pesquisa sobre a água potável do planeta, com ênfase nas Américas, sobretudo a do Sul. Um vultoso trabalho desenvolvido pela Escola, e que proporcionaria a Olek um grande prestígio no meio. Os seus anos de estudo, e os trabalhos que publicara quando ainda em Moscow, começavam a dar um retorno, e isso muito o satisfazia, instando-o a mergulhar ainda mais no trabalho, de tal forma a não permitir que muito mais houvesse em sua vida. Parecia que nenhuma das preocupações ou dores que antes lhe tomavam o espírito, agora ocupavam sua mente, a não ser no fim do dia, quando a sós, antes do adormecer. O seu empenho nas novas atividades era tal que, quando muito, fazia breves passeios no final da tarde.
Instalara-se num pequeno apartamento nas proximidades da Escola, o que terminava por tornar maior ainda seu envolvimento com as pesquisas. As suas angústias atuais vinham da constatação que tudo tinha por fazer, ao verificar em relatórios que o processo desenvolvido até então fora elaborado baseado em métodos que considerou ineficazes. Teria um grande trabalho pela frente, recopilando dados e traçando novas metas, mas percebia que entre os envolvidos poderia contar com ótimos assistentes. Estava cheio de ânimo, e nem percebera a semana passar.
Agora que chegava ao seu primeiro fim-de-semana, Olek sabia que não iria descansar propriamente, pois deveria voltar a Warszawa, e lá passar o final da semana, a fim de prestigiar a exposição de Victor. Os dez dias concedidos ao irmão para que ocupasse um espaço nobre do Palácio da Cultura e da Ciência de Warszawa poderiam determinar os rumos da sua carreira, pois era a primeira mostra individual de Victor, embora já tivesse participado de várias coletivas, que lhe valeram alguma projeção.
Seis horas da manhã de sábado e Olek está no estacionamento do prédio, preparando o carro para a viagem de retorno a Warszawa, e relembra o pedido de Nicolai para que procurasse um senhor em Kraków. Era algo que com que ele se comprometera, porém nem sequer pensara no assunto durante a sua agitada semana na capital dos reis. Sabia já de muitas coisas a respeito do que deveria lhe contar o ancião, porém relutava em trazer mais isso para sua vida. Sentia-se ambíguo, como querendo se alienar dessa realidade e paradoxalmente tendo a curiosidade a lhe aguçar a mente.
Chegara em Kraków, na semana anterior, determinado a, dali para frente, fazer uma coisa de cada vez. Avalanches de acontecimentos não mais o atrairiam às suas armadilhas. Não seria mais vítima de sua própria vida, onde os fatos o engolfariam como as ondas às pedras. Queria agora sossego. Trabalhar. Produzir. Repensar sua vida. Viver em paz.
Mas havia o pedido de Nicolai, e teria que procurar o ancião. Ele se comprometera a isso. Enquanto verifica o carro, satisfeito com o seu desempenho na viagem de vinda, Olek abre o porta-luvas e verifica que lá está o papel com o endereço de Josef, em Kraków. Termina de preparar o carro e sobe para tomar seu desjejum, voltando com uma pequena mala. Ao entrar no veículo Olek traz no semblante a expressão de que o compromisso com Nicolai e a curiosidade o haviam vencido: iria procurar Miroslaw Tchenka, antes de seguir para Warszawa. Ao menos iria até o fim dessa história, colheria as últimas peças desse quebra-cabeça, e poderia levar sua vida adiante.
O endereço era do outro lado da cidade, que Olek atravessa calmamente. Chega finalmente a uma pequena e antiga vila, percorrendo as vielas curvas e estreitas de seu interior. Encontra a casa sem dificuldades, subindo uma pequena escada curva que dava para uma pesada porta. Bate e aguarda até que se abra uma viseira inserida na própria porta, um par de olhos o analisam com desconfiança, e a porta se abre, por fim, expondo uma mulher de idade indefinida. Ela era muito pequena, quase uma anã, e se pôs a fitar Olek, esperando que este desse início ao diálogo.
— Bom dia, senhora.
— Bom dia. Em que posso ajudá-lo?
— É a casa do senhor Josef? Estou procurando o Sr. Miroslaw Tchenka. Ele está?
— O que quer com ele?
— Apenas fazer uma visita, atendendo a um pedido de um amigo meu.
— Amigo seu?
— Sim, Nicolai Ianovich, de Arkadja.
— Espere um momento.A minúscula criatura cerra a porta, deixando Olek para lado de fora. Pouco depois a porta se abre e um senhor magro, na casa dos setenta anos, abre a porta. Vendo-o, Olek pergunta:
— Senhor Miroslaw?
— Não. Sou Josef. Em que posso ajudá-lo?O diálogo se repete, ainda no beiral da porta. Quando Olek se apresenta como neto de Julek Kowalski e volta a mencionar Nicolai, o senhor sorri e o faz entrar, acomodando-o numa cadeira da sala e, de uma poltrona, do outro lado de uma mesa de centro de fórmica, fica a analisar Olek, que a essa altura já estava arrependido de ter ido procurar este professor Miroslaw naquele lugar estranho. O homem, em voz alta, quase aos berros, fala em direção ao interior da casa:
— Mirika! Traga um chá e biscoitos para a visita!Depois, sorri par Olek e pergunta em que poderia ajudá-lo. Olek, procurando referências que fossem comuns, lembrou dos relatos de Nicolai, e por cautela diz apenas que procurava Miroslaw apenas para transmitir as lembranças de Nicolai.
— Então está entre nós o neto de Julek Kowalski! Mas que grata surpresa! Haviam me dito que você tinha partido para Moscou e estava trabalhando lá!Olek, prolongando a conversa, confirma que estivera na Rússia, trabalhando, e comenta que estaria agora na Escola de Limnologia, e que estava morando em Kraków. O homem assente com aprovação.
— Conheci seu avô desde quando ele era moço. Era uma pessoa muito boa e sensata. Miroslaw me contou como foi o passamento dele. Achei muito triste. Mas então quer transmitir as lembranças de Nicolai? Pois bem, fique certo que o farei. Ele ficará muito contente em saber que o neto de Julek veio aqui a sua procura.
— Então ele não está? Não posso vê-lo?
— Na verdade ele não está mais morando comigo, Olek. Está muito velho e cansado e foi para outro lugar, onde pode ser cuidado com maior zelo e eficiência do que eu e Mirika poderíamos oferecer.
— Onde ele está agora?
— Ele está muito doente, e até pela idade avançada isso faz com que a situação dele seja delicada. Ele se encontra numa abadia, onde os irmãos estão cuidando do seu conforto e bem-estar. Não sei se ele poderá recebê-lo, mas, caso volte aqui na semana que vem, terei notícias dele para você.
— Ele está correndo perigo de vida?Esquivo, o Josef responde:
— Todos nós corremos perigo, não é mesmo? Principalmente quando estamos velhos e sós. É importante nunca estar só, Olek. Lembre-se sempre disso.
Josef faz uma pausa para que seu conselho seja bem assimilado por Olek, que não o ouvia pela primeira vez. Depois de certificar-se que Olek dera a importância devida para a recomendação, Josef conclui:
— Quanto a Miroslaw, ele está lá onde pode ser cuidado por muitos. É importante para todos nós que ele esteja bem, você entende?Mesmo sem entender exatamente o significado daquela última afirmativa, Olek assente com um sinal, porém objetando:
— Sim, sim... Mas o meu compromisso com Nicolai era visitá-lo pessoalmente, e disso levar notícias quando eu retornasse à Warszawa. Estou voltando para lá hoje, e queria vê-lo antes de partir. Pelo visto não será possível.
— Peço-lhe um pouco de paciência, Olek Kowalski. Na semana que vem terei notícias dele para você. Volte aqui e o informarei sobre a possibilidade de visitá-lo.
— Está bem. Peço que me desculpe, mas preciso partir agora.
— Foi um prazer conhecê-lo. Vá com cuidado. As estradas sempre são povoadas de perigos, sobretudo quando seguimos sozinhos por elas.¤
Apesar das reiteradas advertências do sombrio Josef, a viagem transcorre tranqüila, e Olek se permite o gozo das duas companhias de quem viaja só: música e devaneios. Agora que regressava, dele se apodera a sensação de que sua partida de Warszawa tivesse alguma relação com uma fuga de si mesmo, e agora ele precisasse retomar a sua vida quando chegasse à capital polonesa, para só então seguir de lá senhor de si. Era a vida em progresso que lhe mandava sinais.
Maricha se faz presente em suas lembranças. Não importava que ela o tivesse deixado para seguir para Israel. Não importava que, na viagem para lá, ela tivesse morrido no acidente aéreo sobre a Moldávia. Importava, sim, tudo que ela deixara vivo dentro dele. E com isso seguiria até o fim de seus dias, sem importar qual rumo daria para sua vida, com quantas pessoas se encontrasse, por quais caminhos seguisse. Maricha estaria com ele até o fim de seu navegar.
¤
O simples fato de retornar a Warszawa, para Olek, sempre seria um prazer. Aliás, uma cidade que nasceu de uma estalagem e entreposto comercial, o ponto de descanso de reis, quando estes, saindo de Kraków, rumavam para o báltico, só poderia ter uma aura acolhedora, hospitaleira. E Olek estava feliz por seu irmão firmar-se em sua profissão. A expectativa de conversar com Victor o fazia se apressar. Queria apenas o bem para o irmão amado.
Estaciona. Atravessa a praça da Stara Miasto e bate à porta do estúdio do irmão, ansioso que estava por revê-lo. Mas quem a abre não é Victor, e sim uma bela jovem, de olhos castanhos, profundos e argutos, que o cumprimenta num polonês com grande sotaque estrangeiro.
— Boa tarde!
— Boa tarde..., onde está Victor?
— Você deve ser Olek, o irmão dele!
— Sim, sou eu. E você?
— Entre, entre, eu sou Mabel. Victor precisou ir ao Palácio da Cultura, e eu fiquei um pouco no estúdio para por ordem para ele...Ao entrar, Olek logo nota algumas modificações no ambiente. Tudo parecia mais em ordem, deixando evidente que o talento feminino passara por ali. Olek surpreende-se por Victor ter permitido tal coisa, pois sabia o quanto o irmão amava seu espaço. — Parece que ele havia aberto uma exceção para a inglesinha, pensa Olek, entremeando um sorriso. A moça prossegue.
— Venha, você deve estar cansado e com fome, vou preparar algo para comer. Victor me falou que você chegaria, e que sentia muito não estar aqui, mas teve que resolver um pequeno problema na sala da exposição e logo estará de volta.
— Que bom, obrigado. Mas me perdoe, ele não me falou de você.
— Ah! Por favor, desculpe-me. Eu sou Mabel Stings, da revista Photos, de Londres. A minha revista está muito interessada no trabalho de Victor, e eu estou auxiliando-o nos preparativos para a exposição. Sou a responsável pela divulgação da obra dele na Inglaterra e demais países comunidade britânica. Foi aí que nos conhecemos e... bem, estou aqui.Olek sorri. Por que Victor nunca mencionara Mabel? Como é que tantas coisas puderam acontecer, com ele e Victor, em apenas uma semana? Aguardaria o irmão, e ele teria que lhe explicar tudo. Estava curioso para saber mais sobre tal reviravolta na vida dele. Ficara tão bem impressionado quanto surpreso com a presença de Mabel. Sentira-se bem com aquela jornalista, que lhe parecera uma pessoa bem tranqüila e afável. Mas gostaria de ter mais detalhes do irmão quanto a essa aparição súbita. Olek delicadamente agradece a pequena refeição que lhe foi preparada e sobe para um rápido banho e trocar de roupa. Grande era a expectativa quanto à chegada de Victor. Queria colocar em dia os acontecimentos em suas vidas.
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Uma semana sem se ver, quando a volta e o convívio do retorno são certos, nem provocam tantas saudades. Mas a partida com ares de definitividade, quando interrompida uma semana após, faz com que as pessoas que se amam tenham a sensação de que o tempo que passou foi bem maior. Assim ocorreu com Victor e Olek, com o retorno deste último a Warszawa.
Os irmãos tinham assuntos intermináveis para conversar. Sobre a Universidade e a pesquisa que Olek coordenaria; sobre a exposição e a repercussão que ela alcançava; sobre o estranho desaparecimento do primo; sobre a família, e a saudade dos antigos tempos, quando todos se agrupavam, felizes e unidos; sobre os estranhos acontecimentos a cercar a vida de Olek; sobre Maricha; sobre Nicolai, Lidja e Christina. Sobre o oculto. Mabel participava das conversas mais como espectadora, porém as suas colocações eram sempre bem vindas, e Olek simpatizava cada vez mais com a namorada do irmão.
Depois, enquanto os dois irmãos resolvem sair para comprar um vinho para o jantar, falam sobre Mabel, Victor narrando que ela surgira em sua vida de uma forma inesperada, e com quem havia se envolvido profundamente. Com ela Victor iria para Londres, a fim de fazer uma tournée com sua exposição, tão logo esta fosse encerrada em Warszawa. Talvez ficasse fora um ano ou mais. Talvez não mais regressasse para residir em Warszawa. Já havia conquistado espaços em Londres, e de lá estava sendo efetuada uma programação internacional, e que num segundo momento poderia abranger até o Canadá e Austrália, a depender da repercussão que teria na primeira fase da tournée. Os planos eram muitos, e neles Victor sempre se via incluindo Mabel. Olek se admirava com esse fato, posto que já havia se acostumado com a vida propositadamente solitária do irmão, com a sua quase necessidade de estar e fazer as coisas só. Parece que havia brotado em seu ser o anelo de compartilhar. E isso Olek achava bom, tranqüilizava-se ao perceber que Victor passava a admitir alguém ao seu lado para os bons momentos e com quem contar para os difíceis. Olek sentia falta disso, e alegrava-se pelo irmão se abrir para esta realidade.
Embora Victor tivesse muitos planos, entre eles não estava o de desfazer-se do estúdio na praça da Stara Miasto. O lugar serviria de apoio, talvez Victor arrumasse assistentes para manter a atividade do local. E como um ponto no tempo, a testemunhar as histórias ali vividas, não somente pelo próprio Victor, que tinha neste estúdio um marco de sua carreira, mas também por Olek e Maricha.
Um ponto de referência no coração de Warszawa.
XVIII – Tempos urgentes
A preocupação de Nicolai, demonstrada apenas pelo seu silêncio e o tamborilar dos dedos na mesa enquanto a refeição estava sendo servida, faziam com que Lidja se mantivesse reservada, e Christina o observasse de soslaio. Ele agia assim sempre que iria expor decisões sobre assuntos delicados. Havia um silêncio incômodo na casa, somente quebrado pelos talheres e pedidos da mesa. Este estado somente foi interrompido pelo próprio Nicolai ao final da refeição e, com a naturalidade que lhe era possível para o momento, dirige-se à filha:
— Tenho pensado muito em você nesses dias, Christina. Desde o ritual da tenda. Concluí que tenho errado ao tentar preservar demais você, pois agindo assim a impedia de mostrar a sua verdadeira capacidade e dedicação. Desde que Lidja passou-lhe o livro, eu refleti muito, e revi estas coisas: Está na hora de você assumir o papel que lhe pertence na confraria. Está pronta para arcar com maiores responsabilidades, ainda que isso importe em mais riscos.
E complementa, com um sorriso quase imperceptível:
— Já que você cresce de qualquer forma, que seja junto a mim.Lidja, ao ouvir as palavras de Nicolai, pára o que está fazendo e observa Christina. O brilho nos olhos dela deixava visível o contentamento. A filha mal podia acreditar no que ouvia. Sempre quisera o reconhecimento do pai, e ele agora o dava, da mesma forma como pedira para ela alcançar o porco com repolho, minutos antes, durante a refeição. Mas não importava a forma, e sim que o reconhecimento havia sido dado. Ela não iria desapontar Nicolai, que agora a instruía:
— Como sua tarefa inicial, preciso que neste final de semana você reassuma seus cuidados com Olek, e de uma forma bem mais intensa do que aconteceu até agora. A partir de hoje você o acompanhará, não mais o seguirá à distância. Responderá às suas indagações até onde souber, irá protegê-lo, prepará-lo para que ele assuma o próprio papel. Não terá que convencê-lo. Apenas esclarecer as dúvidas que ele lhe apresentar.Christina indaga se ele não pretendia, como dissera antes, aguardar até Olek recuperar-se da morte de Maricha, ao que Nicolai responde:
—O tempo que podíamos conceder para o seu luto já findou, e os acontecimentos se precipitam.
— Devo, então, seguir para Kraków já este final de semana?
— Não exatamente para Kraków, Christina. Hoje Olek voltou para Warszawa. Amanhã certamente estará na exposição de Victor, e pensei que seria bom que você nos representasse lá.
— Devo encontrá-lo?
— Sim, naturalmente. Só depois de amanhã é que você deverá seguir para Kraków, hospedando-se na casa de Josef. Precisamos nos reagrupar lá. Falei hoje com Josef, de Kraków, pelo rádio. Olek esteve lá, à procura de Miroslaw.
— Esteve? Isto quer dizer que ouviu seus conselhos! Como será que reagiu?
— Não conseguiu falar com ele. Os guardiões levaram Miroslaw para a Abadia, pois além de ele estar com a saúde debilitada, temiam por sua segurança, pois observaram muitos movimentos do outro lado. Josef então pediu a Olek que retornasse lá em sete dias, para colocá-los em contato. Como Olek em breve irá falar com o velho, o que ainda lhe está oculto será esclarecido, e ele precisará agir. Quero que você esteja perto dele nessa hora, e alerta. Começará a utilizar os conhecimentos que Lidja lhe passou por todo esse tempo. Eu preferiria que você se preparasse mais, estudasse mais, porém agora sei que Lidja a instrui faz muito tempo. Os tempos estão ficando urgentes, e preciso contar com sua força, filha.
— Por que diz que os tempos estão ficando urgentes?
— Porque a hora do confronto não se irá adiar mais. A cada meio século, aproximadamente, as forças se chocam frontalmente, e muito do destino de nosso povo é conseqüência desse choque. Assim foi no passado, e assim vai ser agora. Temos que estar prontos. Depois quero lhe passar instruções na biblioteca, precisamos nos organizar melhor, somos poucos no momento, e temos que agir com a máxima cautela.Christina se envaidece com o convite do pai, e da maneira como ele passa a tratá-la. Tanto esperara por este momento, achara por vezes que talvez nunca o vivesse, e agora ela se enchia de contentamento.
Nicolai, por sua vez, ficara pensativo, deixando transparecer tristeza no olhar. — Se ao menos pudesse contar com seu filho caçula nessa hora..., pensa ele. — Mas não. Lelek se mostrara indigno das funções, zombara das tradições, no seu trôpego caminhar destruíra as vias que o poderiam trazer de volta à casa do pai. Talvez todas. Ele e seu amigo Fiodor agora viviam juntos em Warszawa e, desde que Nicolai os expulsou, nunca mais recebeu notícias. Nicolai não podia entender o porquê de tanta ingratidão do filho que amara e instruíra, mas que por fim o obrigara a tomar a mais severa das atitudes. Nessa hora ele percebe que todos à mesa o observam, como a adivinhar seus pensamentos, e então, ao invés de se preservar, mudando o assunto, pergunta sobre o que corria em sua mente:
— Algum de vocês tem notícias de Lelek?Igor, que se mantivera calado observando o diálogo entre pai e filha, endireita-se na cadeira e assente com a cabeça, afirmativamente. Ante o olhar de Nicolai, ele comenta:
— Julek de fato está dividindo um apartamento com aquele outro rapaz, o Fiodor. Parece que conseguiu que uma Instituição financiasse seus estudos em Viena, dele e do Fiodor, e eles estariam de partida para lá daqui a umas três ou quatro semanas.
— Instituição? Sabe qual instituição?
— Não, não sei. Na verdade eu encontrei com eles por uma incrível coincidência, no centro de Warszawa, quando fui até lá dias atrás. Julek comentou comigo rapidamente o fato e disse que estava com pressa, indo logo embora.
— Ele... perguntou de nós?Igor dá uma pequena pausa antes de responder, a fim de preparar o ouvinte para a resposta. Christina não queria ouvir. Levantou-se e começou a ajudar baba Lidja, que prestava atenção à conversa, a retirar a mesa. Igor conclui.
— Na verdade não, tio. Ele não perguntou. Mas indagou, sim, sobre Olek, e se ele havia partido ou ainda estava em Warszawa, e então lhe contei do carro que você lhe deu, e que ele tinha partido para Kraków... ele pareceu ficar contrariado com minha resposta.Nesse momento as duas mulheres param o que estão fazendo para prestar atenção no relato de Igor. Nicolai se admira:
— Ele perguntou de Olek? Estranho ele querer saber disso... nunca mostrou interesse nos nossos assuntos.
— Perguntou. Não só ele como o Fiodor pareciam estar interessados. Não vi o porquê da pergunta, mas enfim... acho que você e Lelek tinham que se reaproximar, sabe? Isso faz muito mal para vocês dois...
— Não, Igor. As pessoas escolhem seus caminhos. Ofereci tudo para o meu filho, mas ele não soube aproveitar nada. Sei das muitas escolhas, sei das muitas ambições e desejos dele, e reprovo-as quase todas. Não posso acolher sob meu teto e meu afeto aquele que luta contra o que eu acredito. Nem que seja um filho, pois ao fazer tais coisas, ele deixa de sê-lo. Lelek não tinha mais, nem queria ter, um lugar nessa casa. Por todos esses anos dei-lhe todas as chances, mas ele deixou de corresponder há muito. Eu sei os caminhos perigosos que ele tem trilhado. E lamento muito pelo que ele está fazendo. Tentei alertá-lo em nossa última conversa. Logo será um caminho sem volta, e eu só posso esperar que ele saiba fazer suas escolhas, agora que se acha dono de seu nariz. Eu tenho uma responsabilidade maior, não posso passar a vida fazendo concessões a ele.Dito isso, Nicolai se levanta e vai até sua biblioteca, sem chamar Christina, cerrando a porta. Precisava ficar só. Perdera um filho em vida, e isso era muita dor a suportar. Os outros não entendiam algumas das coisas que Nicolai falava, mas todos sabiam que ele tinha o dom, e meios, de saber o que acontecia ao seu redor do que os demais, portanto respeitavam as suas ponderações.
Nicolai era sobretudo um líder, e tinha que agir, todo o tempo, como tal. Ele teria que descobrir o porquê de Lelek ter tanto interesse nas coisas de Olek, que ele mal conhecera. Uma forte intuição o leva a pensar no pior, e por mais que relutasse, não conseguia afastar os pensamentos que lhe acorrem. — Será que Lelek e Fiodor cederam ao outro lado? Tal pensamento o dilacera. — O filho que ele criara com tanto amor seria capaz de trair tão indignamente a sua própria casa, a sua família, a sua nação? Nicolai sentia-se amargurado diante de tais perspectivas, tão amargurado que, entrincheirado em sua escrivaninha, deixa a cabeça apoiar-se nas mãos que a suportam, em completo abandono. Teria que ter esta certeza, e se o pior se comprovasse, saber superar a dor e impedir que uma aresta se formasse na cerrada defesa da fraternidade. Na verdade, já começava a tomar as providências junto aos seus informantes em Warszawa. Nicolai refaz-se. Vai até a porta da biblioteca e chama Christina.
A filha atende prontamente e vai à biblioteca, sentando-se na poltrona que ficava defronte à escrivaninha de Nicolai. Olhando-o, Christina suspira profundamente, como a querer se livrar do peso que sente sobre seus ombros. Mal iniciara os estudos, mal Lidja lhe entregara o livro, mal atravessara a primeira noite de lua cheia, e teria que usar estes parcos conhecimentos em uma missão das mais delicadas e importantes para a confraria. Resolve ponderar com o pai:
— Precisarei me preparar melhor, pai. Será que Lidja não poderia me acompanhar até Kraków, ao menos no começo, para que eu possa aprender mais rápido?
— Lidja não deve sair daqui. Ela é um dos sustentáculos desse lugar. Temos muito que fazer, a hora do confronto está se aproximando, Christina. Não podemos descuidar.
— Mas nós sabemos que não devemos andar sozinhos, que eles podem nos abordar. Como farei? Com quem irei atuar em Kraków?
— Chegando lá você irá se hospedar na casa de Josef. Estará segura lá. Quanto à sua viagem até lá, caso seja necessário, eu pedirei a Igor para encontrá-la em Warszawa e acompanhá-la, mas creio que tal providência não será necessária.
— Por que pensa assim?
— Como você, Olek estará na exposição de Victor, e depois voltará para Kraków. Você pode acompanhá-lo. O que acha?
— Seria perfeito, mesmo porque eu deverei cuidar de sua segurança, em Kraków! Mas será que Olek concordará com isso?
— Ele já concordou, não lembra?
— Já concordou? Não, não me lembro. Como poderia saber disso?
— Ora, você mesma pediu uma carona para ele, na última vez que ele esteve aqui. Esqueceu?Christina se desconcerta ao lembrar que pedira, brincando, uma carona para Olek, no carro que Nicolai lho dera. O que afinal acontecia com ela, cada vez que um assunto que se referisse a Olek deixava-a desconcertada? Ela se perguntava, mas se recusava a admitir a resposta que beirava a obviedade: ela sentia-se atraída por Olek, mas não aceitava isso, pois tal poderia perturbar a sua objetividade quando se tratasse da sua proteção. Resolve que iria vigiar-se dali para frente, a fim de não trair a confiança que Nicolai depositava na sua eficiência para o papel que teria que desempenhar. Ela não podia misturar as coisas, mesmo porque Olek estava totalmente voltado para o seu amor perdido: Maricha.