Mar de Olek

 

 

Olgierd Sokolowski

 

 

 

Depois que abençoara a decisão de Lidja em fazer de Christina a sua pupila, Nicolai cuidara para que a filha mais e mais atuasse ao seu lado, para contar com seu auxílio e, ao mesmo tempo, ele ter a chance de, com novos olhos, avaliar seu desempenho. Ele reconhecia que a filha era, como ele, dada a ímpetos, e temia que ela tomasse decisões erradas por conta dessa característica. Quando Christina vai até ele, que se encontrava concentrado na biblioteca do casarão e, resoluta, dispara que vai ao encontrar-se com Olek, Nicolai vê uma oportunidade de refreá-la, mostrando-lhe o valor da ponderação.
— Vou até Warszawa amanhã para procurar Olek, papai.
— Por que deveria, minha filha?
— Ele pode não estar bem. Desde que soube da morte de Maricha não mais entrou em contato conosco. Não sei como ele está reagindo a isto. Estou preocupada.
— Muito preocupada, pelo visto...

Christina cora, lindamente. Não gostara da divertida insinuação do pai. Ele não entendera o que ela pretendia, e dera outro significado à sua preocupação. Nicolai, por sua vez, finge não notar a reação da filha, que continua a argumentar:
— Ora, meu pai, eu ainda sou responsável pela segurança de Olek, e não posso ficar assim, isolada, enquanto coisas importantes podem estar acontecendo.
— Nada está acontecendo de anormal com ele, Christina. Quando eu lhe dei a notícia da confirmação de que Maricha embarcara naquele avião, ele reagiu nobremente. Ele está bem, talvez só precise de um tempo para se aprumar.
— Como pode saber?
— Como eu sei dessas coisas, filha?
— Você por acaso me substituiu, então, nos cuidados a Olek?
— Naturalmente que não. A você cabe a mesma tarefa, mas por ora nada há para ser feito. O irmão dele chegou de Gdansk, e Olek deve estar tomando decisões importantes. Temos que respeitar o rapaz. Espere que ele venha até nós. Isso poderá acontecer em breve.
— E se não vier?
— Ele virá. E se acaso não o fizer, é porque eu me enganei quanto a ser ele quem deve desempenhar a tarefa, embora seja o neto eleito por Julek Kowalski, meu saudoso amigo.
— Mas ainda assim acho aconselhável ir até ele, apenas para verificar se está bem.
— Não há necessidade, Christina. Precisa aprender a esperar, é uma arte que salva vidas e respeita outras. Aquiete-se. Victor já chegou e está com ele. Nada há para ser feito no momento. Não tarda e ele vai entrar em contato conosco.

Vendo que o pai mostrava-se inflexível, Christina assente, contrariada, e retira-se da biblioteca, indo refugiar-se sob uma manta, em frente à lareira da sala.

Naquela mesma tarde chega em Arkadja a notícia da vinda de Olek, e Nicolai se compraz. Não errara na sua avaliação, e pudera ensinar um pouco de ponderação à Christina. Como estava vindo a Arkadja, provavelmente Olek aceitara a Escola, e com isso estaria pronto para as revelações que ainda estavam por vir. O homenzarrão se espreguiça em sua poltrona, deixando escapar um sorriso de aprovação. O velho Julek Kowalski não errara em eleger o neto – o rapaz tinha fibra e bom coração. Em seguida chama Christina, que não detém seu contentamento com a notícia. Nicolai então lhe pede para ir até a estação telefônica dar um retorno ao telefonema de Olek, avisando que ele estaria sendo esperado na estação de Lowicz. Ela pega a sua bicicleta e em pouco tempo está na estação telefônica, mas não Olek, e sim Victor, foi quem a atendeu, anotando o recado. O irmão já havia se recolhido.

¤

Descendo na estação de Lowicz, Olek não vê Christina a esperá-lo, como supunha, diante do recado de Victor, mas sim Igor, que logo vem ao seu encontro. Cumprimentam-se e seguem para a casa de Nicolai. Olek não deixa de contemplar a beleza do caminho, e se distrai. Lá chegando seguem direto à garagem, onde Nicolai está às voltas com um velho jipe do exército inglês, um land rover wolf, que ele restaurara.
— Um belo carro, Sr. Nicolai!
— Ah! Seja bem vindo, Olek! Então também gosta de utilitários antigos?
— São os meus carros favoritos, enfrentam qualquer terreno, são robustos, a mecânica é simples. Bem cuidados nunca nos deixam na mão. Onde conseguiu esta maravilha?
— Eu arrematei a sua carcaça em um leilão informal, há dois anos atrás, e somente agora consegui concluir todos os acertos, a fim de que funcionasse como deveria. É muito difícil conseguir as peças necessárias para isso. Você nem imagina as peripécias que eu tive que fazer para consegui-las todas.
— Imagino sim, esses carros são raros, e as peças ou são conseguidas em depósitos ou tem que ser adquiridas no exterior. Mesmo assim não deve ter sido nada fácil encontrar tudo que precisava, além do que exige um grande conhecimento dos carros dessa época, para que nada dê errado.
— Vejo que tem jeito para a coisa. Tire este casaco e vista o macacão que está pendurado logo ali, e venha me ajudar.
— Com todo o prazer. Mas me diga, o que significa um leilão “informal”?

Nicolai ri, e explica que é um encontro de amigos, que ocorre esporadicamente nas fronteiras, onde bens são trocados sem controle do Estado. Acrescenta que foi desta forma também que conseguiu a maioria das peças para restaurar o veículo.

Olek sorri, entendendo o que Nicolai quisera dizer, e em seguida veste o macacão sobre a roupa e vai até ele, que volta a centrar sua atenção no carro, e eles prosseguem nos reparos. Passadas duas horas, concluem o trabalho, e satisfeitos fazem o veículo funcionar. Nicolai convida Olek para uma volta, e eles vão pelas cercanias, Olek impressionado com o desempenho do carro. Quando voltam, param na garagem, e Nicolai retira uma garrafa de vodka de um pequeno armário onde havia ferramentas, e dois copos, servindo a Olek o precioso líquido, brindando pelo sucesso da restauração concluída. Ficam em silêncio alguns instantes, como se Nicolai estivesse a organizar as idéias para dizer algo importante. Olek aguarda, paciente, sorvendo a bebida. O vento, lá fora, anunciava com seus uivos a sua presença naquela gélida tarde de inverno.
— E então? Decidiu seguir para Kraków, meu rapaz?
— Sim, recebi o convite da Escola de Limnologia, graças à sua recomendação. Estou realmente entusiasmado com a idéia.
— Quando pretende ir para lá?
— Pretendo seguir amanhã à tarde, assim terei algum tempo para me concentrar na entrevista. Quero aproveitar e fazer uns estudos na biblioteca da Universidade.
— Muito bem, muito bem... Chegando lá eu gostaria que me fizesse um favor, Olek.
— Pois não, tudo que estiver ao meu alcance, Nicolai.
— Quero que você procure Miroslaw Tchenka, um velho professor da Universidade de Kraków. Ele já está com a idade bem avançada, e reside com outro amigo meu, Josef. Eu lhe dou mais tarde o endereço.
— Sim, mas por que devo procurá-los? Você quer que eu leve algo, um recado seu, talvez?
— Na verdade não, Olek. O que quero que faça é que o encontre, e se apresente como o neto de Julek Kowalski. É muito importante que o faça.
— Ele conheceu o dziadzio?
— Sim, foram grandes amigos. Miroslaw era contemporâneo de Julek. Eu era bem mais novo, e convivi menos com ele que com seu avô.
— Eles formavam o grupo de resistência de que me falou, da outra vez?
— Perfeitamente.
— Mas o que devo dizer a ele?
— Você? Nada... Quero que o ouça, ele deve ter muito a dizer a você.
— Está bem, farei isso, mas antes eu tenho perguntas que preciso que você me responda, Nicolai. Desta vez não estamos em nenhuma situação de emergência, e acredito que tenha muito para me contar.
— Você está certo Olek: devo-lhe respostas. Mas agora vamos entrar e comer algo, a hora é boa e estou um bom tempo aqui na garagem. Queria terminar este carro hoje.

Olek, não gostando muito da interrupção, mas disposto a sair dali, desta vez, com as respostas que queria, segue com Nicolai até a casa. Lá chegando é recebido por baba Lidja, que lhe dá os sentimentos pela perda de Maricha. Olek se surpreende com a afabilidade de Lidja, pois a última impressão que tivera dela, quando esta estivera com Nicolai no estúdio, não fora das melhores. A achara intrometida e rabugenta, e agora ela se apresentava cordial e parecia compreender profundamente como ele se sentia em relação à morte de Maricha. Os olhos dela passavam isso. Quem sabe – pensa Olek – ela era uma daquelas pessoas cuja candura se escondia atrás de uma espinhosa carapaça, erigida graças a um mundo hostil que a tivesse ferido em momentos decisivos de sua vida. Olek então responde no mesmo tom, desfazendo qualquer mal-estar que reinasse entre ambos.

Nesse momento Christina descia as escadas e vem cumprimentá-lo, sorrindo. Olek sente-se contente em vê-la, e retribui com gentileza, agradecendo pelo apoio que ela lhe dera no dia em que acontecera a tragédia com Maricha. Christina afirma que não poderia ser de outra forma e se despede, alegando iria resolver algumas pendências em Lowicz. Ela então convida Igor a acompanhá-la, o que este aceitou com prazer.

Nicolai e Olek assentam-se à mesa, enquanto Lidja a guarnece com um pão fresco, recém saído do forno de pedra, um queijo enorme, redondo e defumado, um salame inteiro, já seco, além de um pão doce e um pote de nata, convidando-os a se servir enquanto conversam. Nicolai pede que Lidja faça-lhes companhia, pois acreditava que ela poderia ajudar a responder às perguntas que Olek pretendia formular. Ela assente, colocando uma garrafa de vodka e dois copos para os homens, e servindo-se de uma chávena de chá. Nicolai fica sério, então, e pergunta para Olek:
— Está bem, meu rapaz, o que você precisa saber?

Olek tinha agora a oportunidade que esperava para poder entender toda a dimensão do que acontecia à sua volta, então passa a discorrer longamente sobre as suas dúvidas. Queria entender os estranhos acontecimentos pelos quais passara desde a sua chegada a Warszawa, cujas respostas sempre urgentes o impediam de obter explicações plausíveis. Queria saber quem eram os homens da confraria, quem fora Julek, seu avô, em todo este quadro, contra quem lutavam, o que pretendiam. Precisava saber em que estava tão envolvido. E pergunta sobre tudo, conta novamente seus incidentes, inclusive o estranho sonho que tivera com o avô, e ao final Maricha, pronunciando aquelas estranhas palavras, despertando, nesse ponto, uma maior atenção por parte de Lidja.

O esforço de Olek, desta vez, porém não foi em vão, pois recebe muitas das explicações que pretendia. De Lidja, a forma como se comunicam com os ancestrais, o lado místico de tudo aquilo, a magia antiga, o sonho e seus personagens, o episódio da tenda e muito mais, o que o fez ficar boquiaberto, e, por muitas vezes, manifestar incredulidade diante do fantástico que se lhe apresentava, e Lidja sempre asseverando a veracidade do que lhe contava. De Nicolai ouviu as façanhas do grupo, algumas referências a fatos históricos, o ressurgimento durante a Segunda grande guerra, a relevância de seus membros durante os anos a que a Polônia esteve submetida à cortina de ferro. Isto fez com que aumentasse a sua admiração pelo grupo, mas para a frustração de Nicolai, Olek não conseguia se sentir ainda como parte integrante desse mundo.

Nem mesmo o apelo às lembranças de Julek Kowalski, seu amado avô, surtiam os efeitos desejados. Olek se mostrava pouco entusiasmado, quase refratário, contrariamente às expectativas do patriarca da casa de Arkadja. Talvez a dor da perda de Maricha o tivesse amortecido para esta realidade, e talvez não, poderia ser que faltasse um liame que definitivamente demonstrasse estarem ligados os destinos de Olek e do grupo, a fim de que ele compreendesse que estaria tratando da própria sobrevivência. Nicolai não se contém, e questiona Olek quanto à sua resistência, ao que Olek reage prontamente.
— Esta não é a vida que eu quero para mim, Nicolai. Não procuro por novas aventuras. O que eu quero são outras coisas, não isso. Meu avô, agora sei, deu sua vida por esta causa, mas eu sinto que falta algo que me diga que eu deva seguir este caminho.

Nicolai tenta contemporizar:
— Você ainda não sabe de tudo... Eu entendo como se sente, Olek. Seu avô, você deve bem lembrar, contou-lhe histórias dos nossos ancestrais na época em que faleceu. Nós sabemos disso, pois ele nos informou que o preparava para continuar com seu trabalho. Ele passou-lhe uma herança, informações cifradas de grande importância, através de lendas, as quais você deveria saber fazer uso quando chegasse o momento. É verdade que ele não pôde concluir a sua iniciação, pois a morte o alcançou. No entanto, sabemos que ele teve tempo de lhe deixar uma herança.
— Eu lembro, sim, de muitas histórias que dziadzio Julek contava, mas não consigo ver a relação delas com o que acontece, Nicolai, nem entender a que tipo de herança você tanto se refere.
— Sei que lhe é difícil. Julek não teve tempo de prepará-lo, como eu disse, mas nós o ajudaremos a alcançar esta compreensão. Todavia, o mais importante é que Julek se foi antes de completar a sua própria tarefa, e a você, neto dele, e eleito por ele como seu sucessor, cabe concluí-la.
— De que tarefa você está falando, Nicolai?
— Esta é uma resposta que não tenho condições de lhe dar. Para obtê-la, Olek, você deve procurar Miroslaw Tchenka, de quem lhe falei na garagem. Ele terá condições de esclarecer você acerca de tudo isso. Ele é uma espécie de nossa memória, sem contar a proximidade que ele tinha com Julek Kowalski. Seu avô conversava com ele sobre a sua preparação. Você talvez não se lembre dele, mas ele também o conheceu, quando pequeno.
— A mim? Não, pelo nome não saberia dizer se o conheci. Dziadzio Julek tinha muitos amigos, eu não lembro mais da maioria de seus nomes, pois isso foi há muito tempo.
— Não deixe de procurá-lo, Olek. Vou lhe dar o endereço de Josef, em Kraków, onde você poderá encontrar-se com Miroslaw.

Nicolai levanta e vai até uma cristaleira, retirando um papel que estava preso sob o vaso, com o endereço do amigo. Entregando-o a Olek, afirma:
— Tenho certeza que fará muito bem, aos dois, esse encontro.
— Eu irei, Nicolai. Ainda que pela amizade e respeito que tenho por você. Não deixarei de fazê-lo.
— Muito obrigado, Olek.

Lidja observa, com brilho nos olhos, as mudanças sutis que se operaram em Olek desde a última vez que o vira. É certo que era a dor de uma grande perda o formão que o talhara nestes últimos dias, mas a figura que se delineava transmitia a Lidja uma grata sensação de maturidade, que entendia tão necessária nesse momento. Lembrava de Nicolai, muito moço, a se debater com os seus primeiros passos no grupo, a sua tenacidade juvenil se mesclando mais e mais com o duro aprendizado pela vivência. Relembra ocasiões em que precisou auxiliá-lo, e como seus conhecimentos foram úteis para tanto. Os temores, os dilemas enfrentados por Nicolai durante toda a sua trajetória é que o transformaram no homem e no líder que hoje é.

¤

Christina estava agitada. Fora à escola, em Lowicz, depois seguiu às compras, procurando suprir a casa de tudo o que era necessário. Normalmente combinava com Nicolai o que deveria comprar, mas dessa vez resolvera por si mesma. Quando regressavam, Igor arrisca fazer uma pergunta para Christina:
— Christina, não entendi porque você resolveu fazer estas coisas hoje, justo quando Olek chegou. Nada me pareceu tão urgente.
— Ora, porque tinha coisas a fazer em Lowicz, como você mesmo viu.
— Mas não era nada inadiável, que você não pudesse retardar por um dia ou dois.
— Onde você quer chegar?
— Em nenhum lugar. Apenas não pude deixar de notar que nos últimos dias você tem se preocupado muito com Olek, e até quis procurá-lo em Warszawa, e agora que ele vem a nosso encontro, você mal o cumprimenta e sai, sem sequer conversar com ele? Apenas estranhei...
— Ele veio até aqui para conversar com papai. Eu não quis atrapalhar.
— Será só isso?
— Como só isso, Igor? Não o estou entendendo, e se estou, não estou gostando nem um pouco da idéia que você está formando.
— Você está me entendendo, sim, Christina. Você teve oportunidade de se inteirar sobre como está Olek e não o fez. Não é do seu feitio deixar as coisas para depois. Além do mais a minha pergunta é muito natural, pois você é responsável por Olek, frente ao grupo, ao que me consta. Suas respostas é que não estão parecendo naturais.

Christina olha para Igor de soslaio, voltando depois seu olhar para a estrada. Não adiantava disfarçar, o primo a conhecia muito bem para que ela dissimulasse suas preocupações com evasivas.
— Está certo, Igor. Tem algo mais que me preocupa. Na verdade eu sei que Olek não está bem, que recentemente perdeu Maricha e ficou muito abalado com isso, como não poderia deixar de ser. Eu quis deixá-lo à vontade para, se for o caso, desabafar com papai. Mas acontece que eu também me sinto muito mal com o acontecido, pois tivemos um aviso da tragédia e não soubemos interpretar, não conseguimos evitar esse mal. Talvez se os meninos não tivessem interrompido o ritual da tenda...
— Você não pode se culpar por isso, Christina.
— De qualquer forma, essa história ainda está atravessada na minha garganta, e tem coisas que não se encaixam na minha mente. Já tentei conversar com baba sobre isso, mas ela achou que estava com estas idéias por ter sido afetada pelo acontecido. E eu tenho algumas opiniões que talvez não conseguisse guardar para mim, e uma conversa com Olek a esse respeito, nesse momento, iria ser muito dolorosa para ele, para nós dois, e também para papai, pois se trata da filha de Andrzej. Então preferi não estar presente, entende? Para não me precipitar, e acabar manifestando certas idéias.
— Que idéias são essas?
— Eu não estou certa da morte de Maricha. Algo me diz que o acidente não aconteceu como pensamos, mas não sei bem o quê está fora de lugar.
— Mas como pode, Christina? Todas as verificações foram feitas, ela embarcou, os registros confirmaram isso, e a companhia aérea a tem na relação dos passageiros que foram do hotel ao aeroporto, naquela madrugada. Você mesma verificou pelo rádio. Como pode achar que ela pode estar viva, se o avião explodiu antes de chegar ao solo? Não consigo entender as suas dúvidas.
— Eu também não, Igor. É mais uma intuição que uma idéia, mas algo de errado ocorreu. A senhora da tenda falou de algo como destinos misturados, algo como Maricha não deveria estar lá. Ela fez uma escolha ruim, mas se não era hora dela partir pode ter acontecido alguma coisa – algo que nós não façamos idéia – e ela pode estar viva, sofrendo, em algum lugar. Não me peça para explicar, mas é o que eu estou sentindo...
— Entendo, Christina, perdão, mas eu precisava perguntar, embora, sinceramente, não sei como poderia ajudá-la. Acho esta sua estória muito confusa, embora eu quisesse que fosse verdade.

Depois de algum tempo, Igor comenta:
— Mais dez minutos e estaremos em casa. Talvez cheguemos em tempo de nos despedir de Olek.
— Ele não vai ficar até amanhã?
— Não, não. Pretende retornar hoje mesmo para Warszawa, pois se prepara para viajar para Kraków talvez antes de sábado.
— Para Kraków, antes de sábado?
— Sim, ele me falou sobre isso quando fui buscá-lo na estação. Esta noite ele já retorna para Warszawa, perguntou se um de nós poderia levá-lo de volta a Lowicz.
— Entendo...

Christina se cala, concentrando-se em suas próprias emoções, a perquirir-se sobre o que sentia com a partida de Olek. Era muito honesta consigo mesma para achar que se tratava apenas da preocupação com a segurança dele. Todavia, o que mais acontecia dentro de si, fugia à sua compreensão. Simplesmente não admitiria ter despertado em si o interesse por Olek, ao menos não que a envolvesse a ponto de perturbar a sua objetividade, pois isso poderia afetar o papel que deveria desempenhar ao lado dele. Melhor seria se tivesse permanecido incógnita – se ao menos não tivesse ter se deixado apanhar tão estupidamente na Nowy Swiat... – ela pensa, enquanto estaciona em frente ao casarão.

Christina e Igor, carregados dos pacotes com as compras, irrompem na sala, ela já perguntando à Lidja:
— Onde estão papai e Olek, Lidja? Na biblioteca?
— Não, menina. Estão no galpão. Parece que Olek é tão aficcionado por carros velhos quanto Nicolai. Passaram horas hoje mexendo nele, e agora que conversaram, comeram e beberam bastante – metade do salame e quase todo o pão doce –, voltaram para lá. Eu guardei um pedaço do pão que fiz para vocês.
— Obrigado, baba. Vou ao encontro deles, depois eu como.
— Agasalhe-se! A temperatura caiu muito, e você não pode adoecer. Amanhã é dia da lua, não se esqueça.

Dia da Lua. Era como elas chamariam daqui para frente o dia em que Christina deveria dedicar ao estudo do livro, da primeira parte que lera. Seria sua primeira noite de meditação. Estava ansiosa por absorver o que ele ensinava, e eram apenas as recomendações de baba Lidja que a continham, para que não fizesse a leitura do mesmo de uma só vez. Era como homeopatia, baba explicara. Deveriam os conhecimentos ser administrados lenta e continuamente, para que a compreensão de seus poderes pudesse ser absorvida pela iniciada.

Ao entrar no celeiro, Christina ouve Olek explicando-se para Nicolai.
— Não, Nicolai. Eu não posso aceitar. Sei que lhe custou muito tempo e trabalho, não seria certo que eu ficasse com ele!
— Do que estão falando?

Olek, interrompendo-se, saúda Christina.
— Ah, olá Christina! Resolveu suas coisas em Lowicz?
— Sim, obrigada, mas fiquei curiosa sobre o que vocês falavam quando cheguei.

Nicolai também se manifesta:
— Olá, minha filha. Quero presentear Olek com este belo carro, e ele recusa! Será que ele não gostou e está ofendido?

Christina sorri diante do último comentário do pai e resolve entrar na brincadeira dele.
— Olek! Não deve recusar uma oferta de papai. Se ele a fez, aceite porque foi feita de coração. E se não aceitar, ele realmente vai ficar muito contrariado.

Ao dizer isso franzindo a testa, faz com que Olek fique ainda mais constrangido com a situação.
— Eu estou realmente lisonjeado, somente achei que seria muito aceitar este carro. Não fiz nada para merecê-lo, e nem teria como retribuir este gesto.
— Quando eu o comprei, Olek, foi por dois bons motivos: pelo prazer de restaurá-lo e pela oportunidade de dar-lhe um destino bom. Você me ajudou a terminar minha primeira tarefa, com sua boa vontade, e agora eu posso dar a este carro um bom destino, que será levá-lo para Kraków. Aceite-o, ainda que seja por um empréstimo. Quando ele não lhe tiver mais serventia, traga-o de volta, que verei o que fazer. Está bem assim?
— Assim está bem. Eu o aceito. Obrigado. Muito obrigado, Nicolai. Eu cuidarei bem dele, e quando eu o trouxer até você, ele estará tão bom quanto está agora.
— Não duvido que o traga ainda melhor. Está muito bem. Agora estou feliz. E vá com cuidado para Warszawa.

Olek abraça Nicolai em despedida, e então se dirige para Christina, que assistia a cena. Pelo visto, ela observa em silencio, a conversa entre ambos fora muito proveitosa, e agora selavam a amizade com um forte abraço.
— Adeus, Christina. Lamento que não tenhamos conversado. As primeiras vezes que nos vimos eu fui rude com você, espero que tenha me perdoado.
— Não se preocupe com aquilo, Olek. Já passou e está esquecido. Não começamos bem, foi só isso.

Christina o abraça, beijando sua face em despedida, e sorrindo lhe pergunta se agora, tendo um carro, dar-lhe-ia uma carona quando tivesse assuntos em Kraków. Olek, não a levando muito a sério, responde:
— Claro que sim, terei imenso prazer em levá-la comigo. Amanhã, no final da tarde, partirei de Warszawa para Kraków. Onde posso pegá-la?

Christina vê-se na condição de consertar a brincadeira, diante da pronta resposta que recebera:
— Não, não. Amanhã ainda não posso ir a Kraków. Mas é bom saber que posso contar com sua carona, quando precisar.

Olek fecha seu casaco, envolve-se na manta, põe as luvas e o chapéu, despede-se mais uma vez de Nicolai e entra no carro, dando-lhe a partida. O veículo ruge, Olek sorri e segue em frente, acenando para ambos. Ruma para Warszawa, no seu novo carro antigo.

Na estrada Olek se depara com o frio intenso, e o carro, apesar de andar bem, não atingia altas velocidades. Já era noite e Olek ainda estava na estrada. Pensa que sequer avisara Victor que voltaria de carro, e esperava que o irmão não o fosse buscar na estação. Apesar da baixa temperatura, o tempo não estava ruim. O vento, que persistira a tarde toda, afastou as nuvens que se faziam presentes desde o dia anterior, e a noite se abrira estrelada. A lua iluminava o caminho, e Olek contemplava aquele espetáculo noturno.

Cansado, faltando ainda bons quilômetros para chegar a Warszawa, Olek pára em uma lanchonete, à beira da estrada, a fim de se alimentar e beber algo que o aquecesse, espantando assim o cansaço. Mal entrava e levou um esbarrão de um homem que saía apressado, o que lhe chama atenção. Ao fitá-lo novamente, verificou que se tratava de Tadeusz, que estava com a barba por fazer. Chama-o, mas ele não se volta, apressando o passo em direção ao carro. Olek tenta chamá-lo mais uma vez, mas o carro arranca em alta velocidade em direção à auto-estrada no sentido de Warszawa. Olek, surpreso, logo o perde de vista, mas poderia jurar que havia sido Tadeusz que nele havia esbarrado, e estranhou muito o fato dele não ter atendido ao seu chamado. Por mais que estivessem brigados, a ocasião merecia um comportamento diferente do primo.

¤

Chegando em casa, encontra o irmão a trabalhar na câmara escura do estúdio. Cumprimentam-se efusivamente, e no afã de contar seu dia, e falar do carro que Nicolai lhe dera, Olek acaba por esquecer do incidente de Tadeusz. Somente na manhã seguinte, quando já conversavam na cozinha durante o desjejum, é que Olek lembrou de mencionar o episódio da taverna da estrada.
— Você está certo de que era mesmo nosso primo, Olek?
— Naturalmente, eu estive face a face com ele. A diferença é que ele estava com a barba por fazer, e foi isso que me fez vacilar naquela hora. Por mais que tenhamos nossas diferenças, com a recente morte de Maricha era para pelo menos termos trocado impressões, não sei, qualquer coisa, menos ignorar a presença, solenemente.
— É verdade, Olek. O mais estranho, entretanto, é que ele falou a Janina que iria viajar por mais de um mês, e você encontra com ele a caminho de Warszawa. Será que já estava voltando?
— Não faço idéia, mas não consigo entender o comportamento dele, viajando de repente e sem deixar referencias, não é coerente.
— É verdade, ele sempre foi meticuloso, e desde a adolescência não lembro de um dia em que ele tenha deixado de fazer a barba ou de se programar detidamente para qualquer coisa. Você está certo que era mesmo ele?

De fato, Tadeusz não costumava ter comportamentos imprevisíveis, não vivia em sobressaltos, aliás, os odiava. Era metódico, despótico até, cheio de regramentos de convivência, que chegavam a aborrecer as pessoas que o cercavam. Decididamente aquela conduta não se coadunava com a personalidade fixa de Tadeusz, contrariava a sua previsibilidade latente, e fazia com que os irmãos desconfiassem de atitude tão estranha por parte do primo.

Deveria haver um lado de Tadeusz que os irmãos não conheciam. E de fato havia.