Mar de Olek

 

Olgierd Sokolowski

 

 

A história de Olek Kowalski ainda não tem seu fim.
Ela acontece.
É contada e publicada na medida que minhas lembranças,
e o entendimento real dos acontecimentos, lho permitem,
para então eu transferir para a narrativa.
Levei muito tempo para entender o porquê de Olek ser tão reservado,
e perceber as forças que se chocavam nas profundezas
do tormentoso mar que ele navegara.

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Prefácio

 

Vivemos todos. Gastamos nosso tempo margeando o curso natural da vida, conforme a maré nos delimita. Chega para muitos de nós um momento, porém, em que desrespeitamos os perímetros traçados pela preamar, e invadimos o pélago, enfrentando-lhe as ondas. Então loucamente mergulhamos, integramos por instantes o próprio oceano, ficando em contato com o lado velado da existência, quando alargamos um pouco mais a nossa compreensão do todo.

Ao regressarmos para a caminhada comum, como que a seguir a linha da espuma que se deposita na areia, pode ser que nela não consigamos permanecer, porque instintivamente fugimos para o seco, rezando ao deus Sol, implorando que retire a marca líquida daquela loucura, e nos devolva a inocência perdida pelo nosso próprio arrebatamento. Mas o sal já impregnou a pele, e aprendemos a reconhecer um lado secreto em nossas vidas, que antes ignorávamos por completo.

A história de Olek Kowalski ainda não tem seu fim. Ela acontece. É publicada na medida que as lembranças, e o entendimento real dos acontecimentos, lho permitem, para então transferir para a narrativa. O que posso dizer de Olek é que ele mergulhou profundamente naquele mar, e carrega por isso cicatrizes na alma – o preço pela sua ousadia.

 

I - O homem circunspecto

 

Pelo terceiro ou quarto ano, aquele homem calado, de aproximadamente 38 ou 39 anos e 1,85m de altura, cabelos lisos e claros, olhos negros, simples mas elegante no vestir, se destacava naquele cenário praiano da parte nobre de Fortaleza. Ele era visto em noites calmas a caminhar, já a altas horas, indo e voltando, silencioso, no calçadão da avenida que une aquela faixa das praias urbanas, do mercado de peixes do Mucuripe até a Ponte dos Ingleses, no final da praia de Iracema, passando pela Jurema e Meirelles e Diário. Em dado momento toma assento ao lado da estátua de Iracema, aguardando o primeiro raio de sol. Depois desaparece com seu velho cão, dirigindo o Troller negro, ninguém sabendo seu destino. O certo é que se você quisesse vê-lo, deveria caminhar às terças ou quartas-feiras, à beira-mar e, perto do nascer do sol, poderia divisar Olek e seu fiel cão, e quem sabe até entabular uma conversa com ele, embora isso raramente acontecesse. Atualmente, essas aparições se tornaram escassas, mas ainda acontecem, como afirmam.

Por vezes, eu mesmo divisei Olek Kowalski ao longe, mas nunca havia pensado em me aproximar para tentar entabular uma conversa. Talvez até por minha própria natureza retraída. Não era só a curiosidade que despertava em mim. Eu nutria uma inexplicável simpatia por aquele estranho, ou pela solidão que ele tão confortavelmente ostentava.

Pouco ou nada se sabia de Olek, mas aquilo que se descobria bastava para as especulações e diz-que-disses, a alimentar bucólicas conversas nos fins-de-tarde. Tudo nele despertava comentários, desde seu comportamento, que o tornava uma pessoa impenetrável às afáveis, insistentes e inconvenientes abordagens dos curiosos, e até pelo seu físico, se não atlético, ao menos vistoso, que se sobressaía. Homem circunspecto, não logrou por isso escapar da notoriedade, e por ser incisivo e verdadeiro quando questionado, era considerado exótico. As lendas sobre Olek se multiplicavam.

Um porteiro de hotel afirmou ter visto, em uma noite de chuva, Olek no passeio da avenida beira-mar, cantando uma música numa língua que ele não entendia, quando ao lado da banca de revistas surgiu um bêbado à sua frente, que falou algo para ele. Olek então teria segurado o homem pela camisa e gritado, depois largando o pobre ébrio contra a cigarreira e seguido o seu caminho. De outra feita, afirmavam que ele morava numa cabana de uma pequena praia no litoral leste, só porque o teriam visto passar com seu carro pela Washington Soares, na altura das Seis Bocas, no começo da manhã, com seu cão no banco de trás. Outros ainda chegaram a asseverar que ele ficava sentado junto à estátua de Iracema a conversar com espíritos. O dono da loja de conveniências, localizada na mesma avenida, comentou que Olek mantinha uma coleção de selos, guardada meticulosamente em álbuns de aprimorada encadernação, dos quais jamais se desfaria. Não havia limites para as histórias que giravam em torno desse personagem, fruto, no mais das vezes, da própria ignorância dos fatos que cercavam a vida Olek, o que o tornou, involuntariamente, uma lendária figura do lugar.

As primeiras informações que tive a respeito de Olek, passíveis de crédito, eram fruto de uma conversa com o Seu Oliveira, um arguto funcionário da Agência Central dos Correios. Oliveira teria observado que as quartas-feiras eram especiais para Olek. Era sempre nesse dia da semana que ele aparecia para receber encomendas vindas do continente europeu. Por semanas deixava de vir, mas quando aparecia, era em uma quarta-feira. Certa feita, uma caixa ficou dez dias aguardando que ele viesse buscá-la. Em meados do ano passado, Olek teria recebido, ao invés de encomenda, uma carta, onde seu nome estava grafado em bela letra. O agente dos Correios lembra até hoje daquele homem olhando fixa e demoradamente para o envelope, antes de voltar a si, entremear um sorriso silencioso, agradecer e sair. Desde aquele dia somente foi visto mais uma vez na Agência, quando postou uma pequena caixa para o exterior. Depois disso, pararam de chegar as encomendas para Olek Kowalski.

Quando a ocasião assim o exigia, ele se apresentava mencionando seu nome completo, Olek Kowalski, polonês, que estaria efetuando pesquisas ambientais no litoral do Ceará e adjacências. Não muito mais que isso. Possuía um passaporte que assegurava sua permanência no país para desenvolver esta atividade, e era só.

Sempre conseguia manter as pessoas a uma distância segura, protegido por uma barreira indefinida e intransponível.

Porém houve uma ocasião em que um pequeno incidente fez com que conversássemos, e foi a partir daí que comecei a conhecê-lo. Mas foi só quando Olek e eu já solidificávamos nossa amizade, é que comecei a entender o porquê de suas reservas, e pouco a pouco perceber as forças que se chocavam nas profundezas do mar tormentoso da sua alma, e esta é uma história que merece ser contada, e o farei desde o seu princípio.

 

II – Olek Kowalski

 

Era noite. Com a vodka do cálice entre os dedos Olek aquecia o peito, enquanto a sorvia perdido em pensamentos. Sonhos que terminaram em perdas. Irreparáveis perdas eram a sua herança.

Deixou a taverna da estação de trens, caminhou a esmo, lentamente, pelas ruas moscovitas. Enfrentava as turbulências do seu íntimo, aquelas que antecedem as grandes decisões, aquelas que determinam o rumo das vidas que as envolvem.

Caíra o Muro de Berlim. Olek pensava então na possibilidade de regressar à Polônia. As ilusões, ou as promessas, já não tocavam seu coração. Se antes havia motivos para estar tão longe de sua terra – o terminar os estudos, o esquecer as suas dores e o proteger o irmão e o primo que militavam em Gdansk –, agora nada mais restava que uma realidade cinza: a de lutar com unhas e dentes para conquistar um lugar na nova burocracia. Não era isso que queria para si, e muito menos ser um franqueado da nova economia. Tampouco pretendia recomeçar outra luta. — Ah, Não! Pensou. Desta vez não o engajariam. Desta vez não seria levado a sacrificar-se por algum ideal.

Caminhava resolutamente, atravessando a Praça Vermelha, sob a navalha do vento. Era o clima de fim de outono que cortava a sua face, avisando do rigor do inverno que estava por vir. Partiria, sim. Da mesma forma como caminhava agora, iria embora dali. Nada mais o prendia. Ao contrário, tudo o empurrava para longe, e para longe iria. Fecharia as portas da alma para seu passado, tendo como marco aquele tumultuado fim da década de oitenta, – o que não evitaria que permanecesse preso a um passado mais remoto e doloroso.

As suas referências haviam desaparecido. A família, que na infância era numerosa e unida, era hoje reduzida e dispersa. Forte nostalgia o assaltava, a lembrança do irmão, dos primos, dos avós e tios, dos lagos gelados no inverno, as brincadeiras de trenó e o caminhar até a escola, fugindo de emboscadas nas guerras de bolas de neve. Os natais, as páscoas e as missas de véspera, que enchiam o coração de todos. Estava muito distante de tudo isso, e até dos símbolos que se apresentavam nessas festas, e que fortaleciam aquela união por uma tradição longínqua e una. Contrapunha então suas coloridas lembranças de infância com os anos que vivera ali, estes últimos comparáveis ao gris opressor daquele outono russo. Tudo ali lhe parecia feio, tudo estava distante das pessoas e das paisagens que povoaram seus sonhos antigos, de quando era alguém cheio de esperança, antes que da vida lhe tirassem as cores suaves. Mesmo sem querer, começa a reviver tais reminiscências.

O círculo familiar de Olek, além de seus pais, sua irmã mais velha e irmão caçula, consistia nos avós, pais de sua mãe, três tios maternos e as esposas, além dos oito primos e vários amigos, que comumente se reuniam na casa do avô. E Olek ia bem assim, protegido por toda aquela estrutura sólida. Ele, desde pequeno, era muito apegado ao avô. Seu pai, oficial da marinha mercante, ficava longas temporadas sem aparecer em casa. Quando chegava de viagem, porém, era para ficar por um período em que podia se dedicar totalmente à família. A festa era grande, e sua mãe ficava radiante, fazendo daquela professora rígida uma garotinha brincalhona. Durante todo o tempo em que o pai de Olek ficava fora, era com o avô que o menino contava. Aquele senhor sábio e paciente, disposto a tudo lhe ensinar e responder.

Sua vida, recordava-se cheio de amargura, adquirira tons fortes a partir da dor pungente causada pela perda de dziadzio Julek, que por sua culpa, assim sentia, teria morrido só e tragicamente. Olek se recordava daquela tarde gelada, em que eles, avô e neto, embrenharam-se na floresta a passeio, e objetivando achar uma bela árvore para enfeitar, dada a proximidade do Natal. Naquele dia o avô decidira mostrar a Olek uma parte da floresta que ele ainda não conhecia, e que Julek dizia ser bela e misteriosa, e que também continha grandes segredos que paulatinamente iria lhe revelar. Distraídos, foram surpreendidos por uma súbita nevasca, que os deixou isolados da aldeia. Ao tentarem regressar açodadamente, seu avô caíra ao enfiar a perna num buraco oculto pela neve, quebrando-a. Como a tarde avançava, Olek se separou dele com o intuito de buscar ajuda, antes que a noite chegasse e dificultasse ainda mais o salvamento.

Deixara o avô ao abrigo da neve, uma tosca proteção feita com galhos apoiados em uma grande pedra enegrecida, bem próxima do local do acidente, para a qual Julek insistiu em ser levado. Como estava escurecendo, o lusco fusco da floresta, as sombras, o desconhecimento daqueles lados da mata, fizeram com que Olek perdesse o rumo, dando voltas enormes sem conseguir chegar ao povoado. O desespero também o desnorteava, pois a pessoa que ele mais amava no mundo dependia dele, e ele não conseguia fazer nada.

O tempo piorava, a escuridão tornava impossível a Olek orientar-se, e ele vagava a esmo, buscando alguma luz que lhe indicasse onde estaria a aldeia. Quando a nevasca amainou, a mãe de Olek deu o alarma da ausência dos dois, afirmando que haviam seguido juntos à floresta naquela tarde. Logo um grupo de busca foi formado pelos tios de Olek e por vários amigos de Julek, e não tardou até Olek ser encontrado, já próximo ao povoado. Quase desfalecido, Olek, seguindo as orientações dadas pelo avô, explicou que ele havia quebrado a perna, e estava junto à pedra negra, no caminho do lago maior. Falando isso desmaiou. O lugar indicado surpreendeu o grupo, pois era distante dali. Um dos homens retornou carregando Olek, enquanto os outros foram ao encontro de Julek, para socorrê-lo.

Olek, por quatro dias, ficou refém de uma febre alta, que o deixara em delírios. Somente quando se recuperou é que soube que o avô fora encontrado, mas que os lobos o tinham encontrado antes do grupo de busca. Não tivera chance sequer de se despedir, somente o fazendo na missa de sétimo dia. Olek não conseguira, e seu avô estava morto. Com pouco mais de doze anos deixara de ser menino, e da maneira como via, carregava dentro de si a maior das culpas. Ao sair da Igreja, Olek deixara lá parte de si. A partir daí tornar-se-ia quieto, introspectivo. Continuava a vida em família, mas sofria ao ver a sua avó lamuriosa pela perda do marido. Pouco ele brincava, voltando-se para os estudos e para a leitura, onde se refugiava.

Os dois anos seguintes à morte de dziadzio Julek povoaram de perdas a vida de Olek. Primeiro foi a avó, que morreu de tristeza seis meses após o falecimento de Julek, e poucos meses depois o pai fora morto em uma escaramuça no Báltico, quando a embarcação que tripulava fora atacada por contrabandistas. Sua mãe definhava ante o peso dos acontecimentos, envelhecendo precocemente. A irmã mais velha casara com um tcheco, indo morar em uma pequena cidade nos arredores de Praga. A família já não era unida, nem seu seio tão aconchegante. Dois de seus três tios partiram do povoado, aproveitando uma oportunidade de trabalho, e com eles cinco dos primos de Olek. O núcleo familiar agora se reduzia à mãe, ao pequeno Victor, e à família do tio Andrzej, sua esposa Janina e os primos Tadeusz e Maricha, filhos destes.

No terceiro ano após a morte de Julek, Olek deixa a sua cidade e segue para Warszawa a fim de estudar, morando num pensionato para rapazes desde então. A sua mãe foi morar com sua irmã na Tchecoslováquia. Anos depois, seu irmão Victor seguiu a Warszawa com os primos Tadeusz e Maricha, quando Olek saiu do pensionato e os quatro passaram a dividir o apartamento que Andrzej adquirira na capital.

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Com um respirar profundo, Olek passa a mão em frente ao rosto e meneia a cabeça, como a afastar os pensamentos que o atormentam, e passa a refletir sobre as providências para a sua partida de Moscou. Em duas semanas resolveu todas as questões que o prendiam na capital russa, comprara a passagem e passara um telegrama ao irmão, avisando do seu retorno.

Opta por regressar à Polônia de trem.

Vendeu o que tinha de valores, tomando o cuidado de depositar quase toda a quantia em um banco francês, preservando consigo apenas alguns pertences pessoais e dinheiro para as primeiras despesas. Punha-se em viagem sentindo-se um novo homem, embora com velhas máculas. Inicia sua peregrinação ao embarcar no trem para Warszawa, de onde, após visitar seu irmão, seguiria para Kraków , aonde pretendia encontrar trabalho e refletir sobre os rumos que daria à sua vida.

Finalmente deixara Moscou, após viver seis anos na capital soviética, União que agora se esfacelava. Não foi difícil a Olek demitir-se do Jornal em que trabalhava. Há muito seus modos não agradavam ao redator-chefe, nem aos colegas. Mal quisto era seu agir e até seu pensar. Sabia disso, e que ali não havia mais lugar para ele. Sequer a sua formação ajudava, pois entrara no jornal graças a conhecidos, a guisa de manter-se enquanto concluía ali seus estudos, e eles haviam terminado há dois anos. Olek não se fizera jornalista, preferindo a Geografia, mas o seu tempo no jornal também lhe rendera um bom aprendizado quanto à forma pela qual tratavam a informação naqueles tempos.

Caminha na plataforma da estação, como quem marcha resoluto em triunfo, e embarca no trem que o levaria dali, e em seu íntimo repetia que seria para sempre. Esta era a sua intenção. O trem parte, levando consigo aquele decidido passageiro em busca de seu destino.


III – Conselhos de viagem

 

O cadenciado ruído do trem em movimento criava uma atmosfera, entre o monótono e o hipnótico, na viagem que já estava avançada. Olek ouvia-se. Enquanto o olhar fugia pela janela, defrontava-se com seus anseios e medos. Estava tomando o rumo de casa. Agora ele era outro. Saíra-se um homem mais amargo que o jovem que havia sido em terras polonesas, porém mais maduro, mais experiente com as fraquezas e paixões humanas, ao menos as suas. Assim, envolto em pensamentos, nem percebe, já pelo meio da viagem, que a seu lado se assenta um senhor, chapéu à cabeça, a luz do trem a lhe fazer sombra à face, a olhá-lo fixamente. Quando por fim Olek se dá conta que está sendo observado, move a cabeça em direção ao homem, quando este exclama:
— Olek? Olek Kowalski!

Olek fica admirado ao reconhecer o tio que não via há mais de dez anos, exclamando, enquanto se volta para ele e abre um largo sorriso:
— Wujek Andrzej! Mas que benção encontrá-lo! De onde está vindo?

O tio de Olek responde com outra indagação, sempre olhando fixamente para o rapaz, querendo saber se ele voltava para casa.
— Sim, tio Andrzej. Faz muito tempo que estou fora de casa, e achei que chegou a hora de voltar, conseguir um bom trabalho, fixar-me, viver em paz.

Olek, normalmente reservado sobre seus planos, estava muito à vontade para conversar com o tio, e desata a contar a sua história e as suas resoluções.

Andrzej estava com ótima aparência, nem parecia que tanto tempo havia se passado desde a última vez que se viram. Apesar de ser o tio mais moço, Olek nascera quando esse se tornava um jovem adulto. Andrzej, contudo, não se alongava nesses pormenores, quase não falava de si. Ao contrário, tentava sempre sondar Olek e dar-lhe conselhos, diferentemente daquele contador de histórias, o tio brincalhão de sua infância, que gostava de confundi-los com suas adivinhações, caçoando dele e dos primos quando não conseguiam decifrar as suas charadas.
— Está na hora de abandonar velhas culpas, Olek. Quando se quer dar um novo começo à vida, temos que estar prontos para o que ela nos apresenta, e não para exigir o que queremos tirar dela. Ouça bem: muitas águas você terá que atravessar até que encontre o seu mar. Não se esconda porque um vagalhão poderá surpreendê-lo pelas costas; não fuja para o deserto, que a falta dessa água o matará. Procure sempre seguir o curso do rio verdadeiro, para que você possa encontrar o seu mar.
— O que quer dizer com isso? Olek questiona, embora soubesse que a velha culpa a que o tio se referia era a maneira como ele se sentia em relação à morte do avô.
— Preste atenção. São tantas as coisas que quero lhe dizer, Olek, que logo chega minha estação, e eu posso não ter terminado.

Assim interpelado, Olek se espanta e atenta às palavras do tio, querendo extrair-lhes o sentido.
— Você terá que caminhar muito para encontrar a paz que procura. As lutas que você irá travar daqui para frente serão diferentes das que enfrentou no passado. O que busca está mais além do que você pensa procurar. Lembre sempre dos ensinamentos dos mais antigos, dos bons conselhos e dos segredos confidenciados por dziadzio Julek, e também saiba ouvir as pessoas que logo lhe surgirão no caminho. Saiba distinguí-las, porque haverá aquelas que o pretendem perder, e aquelas que o poderão auxiliar na busca por seu destino.
— Do que está falando, tio?
— Guarde bem o que eu digo, Olek. Mesmo que não entenda agora, você entenderá adiante, lhe asseguro. Todos nós temos nosso momento certo. Eu demorei muito. Você poderá compreender antes, se não deixar de refletir sobre os sinais que se apresentarem na sua caminhada.

Olek fica ainda mais intrigado com Andrzej, mas não o contesta. Sabia que ele não gostava que o fizessem, quando falava sério. Põe-se, então, a escutar os enigmas que o tio estava propondo, como antigamente fazia. Era o mesmo jeito, o mesmo espírito. Após discorrer longamente sobre a vida de Olek, fazendo com que esse por vezes se emocionasse ao ver-se diante de passagens marcantes, Andrzej finalmente complementa:
— Querido Olek, a sua própria história nos diz que você tem muito a realizar, não tenha medo de seguir adiante. Não se prenda a nada, furte-se aos olhos ocultos na noite, ouça as súplicas formuladas no Templo, guarde-se, não se deixe iludir por coisas pequenas e promessas fúteis, não pare no meio do caminho, até que um lenço verde lhe seja oferecido em conforto, aí você saberá ter chegado o momento de desvendar seu destino. Porque se prestar atenção nessas palavras, saberá dar o rumo devido à sua vida. Eu passei a compreender muitas coisas Olek, e agora estou em paz. Diga isso a Maricha quando vê-la em Warszawa, quero que ela saiba que encontrei minha paz, e ela poderá lhe auxiliar a entender as minhas palavras.

Impressionado sobremaneira com as predições, e diante de tantos enigmas, Olek tem desviada a sua atenção para apenas um fato, dizendo de si para si que dificilmente encontraria a prima em Warszawa. Há muito que não tinha notícias dela, desde que esta partira para estudar na Alemanha.
— Não estou entendendo as coisas que me diz, tio. Estou, como lhe contei, fechando uma fase de minha vida, voltando para casa. Mas com tudo que me aconselha, sinto como se não estivesse consciente disso.
— É um enigma Olek, um enigma como nas brincadeiras que fazíamos quando nos reuníamos todos para o almoço de domingo, na casa de meu pai. Basta escutar com atenção, e se compreender quais são as perguntas, você encontrará as respostas certas e triunfará.

Andrzej e Olek se entreolham, sorrindo. Calam-se. Muitas lembranças da infância voltam a povoar a mente de Olek, e como mágica surge não a dor da perda do avô, e as tragédias que se sucederam, mas sim o tempo em que Julek estava entre eles, e com sua força e serenidade mantinha aquela família unida. Era ele o centro, e com seu magnetismo atraía a todos para junto de si. A felicidade da infância se fazia rediviva. Os dias em que um dos adultos da família, quase sempre o tio Andrzej, agora ao seu lado, ficava a entreter as crianças, propondo charadas e brincadeiras de adivinhação, enquanto a neve e o frio castigavam lá fora. Eram horas e horas que Olek, seus irmãos, primos e primas, reunidos no casarão do avô, jamais queriam que acabasse. Com tais pensamentos, Olek adormeceu sob o embalo do vagão em movimento.

De repente, com um solavanco do trem, Olek acorda, percebendo que este saía de uma estação. Olha para o assento ao lado, e seu tio Andrzej lá não se encontra. Fica inquieto. Pensa que o tio pode ter ido ao banheiro, mas lembra-se dele ter comentado que sua estação logo chegaria, e decerto não quis perturbar seu sono para se despedir. Pena. Daria o recado a Maricha, acaso um dia a encontrasse. Olek fica admirado ao se dar conta que nada soubera dele, para onde seguia, onde estava morando, que nada conversaram sobre o que acontecera com o tio nestes anos em que estiveram afastados.

Apenas o enigma ele lhe deixara.

O trem já corria em solo polonês, restando poucas horas para chegar ao destino. Logo Olek estaria diante de seu irmão. Seu coração estava em júbilo. Abandonara o amargor que lhe era característico por um inexplicável otimismo que se lhe impregnara na alma. Folheia uma revista distraidamente, procurando assim fazer com que o tempo passe mais rápido.