Despedidas
Rodolpho e Yolanda eram amigos dos pais de Luca, e ele os tinha em alta conta. Desde a infância Luca festejava quando iam visitá-los, pois gostava muito de ir a casa deles, sempre alegre, muito bonita e bem tratada, e de onde havia um imenso terreno, deliciosamente acidentado, na Vista Alegre das Mercês. Eles moravam perto de onde é hoje o Bosque Gutierrez, onde fica o Memorial Chico Mendes.
Naquela época, dava-se para se dizer que era uma chácara dentro da cidade, e a casa podia muito bem receber o nome de mansão. Além disso, Rodolpho e Yolanda tinham uma filha, quase da idade de Luca, dois anos mais nova, Beatriz, e eles mantinham uma gostosa amizade. E agora se foram, o casal, um depois do outro, ocupar um lugar no cemitério parque Iguaçu, lá no Barigüi, um cemitério horizontal muito belo, bucólico, para terem o grande repouso, lado a lado, assim como passaram a vida inteira.
E de saudades deles Beatriz não se continha, e por vezes chorava. Não tanto por tristeza, mas pela saudade da beleza dos dois. Do amor dos dois. Beatriz não se sentia capaz de conquistar um amor assim, de irradiar tanto amor quanto eles irradiavam, de ser merecedora dos pais que tivera, de levar adiante a prática do amor daquela maneira natural, espontânea, simples e direta de se relacionar com o mundo. Gostaria de um dia poder ensinar isso a um filho seu, e lamentava que os pais não mais estariam ali para mostrar ao neto o verdadeiro e simples significado do amor.
Primeiro foi o pai de Beatriz. Rodolpho parecia bem, para a idade, e não apresentava nenhum problema mais sério de saúde. Era cuidadoso consigo, fazia longas caminhadas habitualmente, deixara de fumar fazia anos, exceto o cachimbo de dias muito especiais, quando o acompanhava com um copo de um bom conhaque, cuidava de sua alimentação, atendia aos apelos de Yolanda para tomar as vitaminas na hora certa. Ele gostava de viver, de estar ao lado de Yolanda, de desfrutar a vida que construíram.
Mas, nos três dias antes de morrer, Rodolpho se mostrara diferente. Passou horas na biblioteca arrumando todos seus papéis, não saia de casa, chegado a desmarcar compromissos com os amigos sem razão aparente, e ficava rodeando Yolanda de atenções, falando do amor eterno que por ela sentia. No terceiro dia foi deitar cedo, pois se dizia cansado. Mesmo assim chamou Yolanda para deitar-se com ele, para emprestar-lhe seu calor. Yolanda foi. Rodolpho faleceu dormindo. Yolanda, no despertar da manhã, o encontrara frio. Havia partido. Sem sofrer, sem um gemido. Ele a beijara antes de adormecer.
Os dias que se seguiram foram de muita atribulação e tristeza. Luca estava no enterro. E na missa de sétimo dia também. Beatriz, nessas ocasiões, se apoiou no amigo de infância, pois não conseguia chegar até sua mãe, que se mostrara firme durante todo o tempo, a dor espelhada no rosto, mas resoluta em dar uma despedida digna ao seu amor. Dali para frente seguiria só, pois a filha teria que seguir seu próprio destino.
Desde a missa, Luca não havia mais se encontrado com Beatriz. Ela, após um mês da partida do pai, viajou para a França, onde fez um curso complementar, já agendado um ano antes. Não queria deixar a mãe só, mas foi a mesma quem mais incentivou Beatriz a seguir seu caminho. Dizia que estaria bem, que o amor de Rodolpho a sustentaria ainda por muito tempo, após a partida dele. E assim foi. Beatriz foi à França, lá ficou por seis meses, regressando em seguida para a casa da mãe. Depois do regresso de Beatriz, Yolanda em cinco semanas definhou e morreu. Vários problemas de saúde começaram a surgir, e ela recusou o internamento. O médico havia confidenciado à Beatriz que Yolanda parecia ter desistido de viver. Tratou-se, mas em casa, e para contentar a filha. Era de lá que ela queria partir, do seu lar, como Rodolpho fizera. Não queria hospitais. Não queria ficar cercada de impessoalidade, mas sim das boas lembranças que acumulara na vida, e que se espelhavam em cada detalhe daquela casa. E Beatriz não conseguiu dissuadir Yolanda, por maiores que fossem seus apelos. E ficou ao lado da mãe, até a partida, que também foi serena, só que mais sofrida.
E foi naquela manhã de garoa fina que Luca reencontrou Beatriz, quando Yolanda estava sendo velada. De lá seguiram para o enterro. O gramado do Cemitério estava escorregadio. Era meio-dia, mas o Sol não se manifestava. O dia era cinzento, e a garoa persistiu durante todo o tempo.
Haviam cortado recentemente a grama, que exalava aquele perfume agreste. Os guarda-chuvas, pretos e coloridos, se perfilavam constritos quando proferidas as palavras de adeus a Yolanda. Repousaria ao lado do amado. Com o amado. Como fizera por décadas.A amizade conta muito nessas horas. Beatriz se via só na caminhada da vida, e dentro de si o apelo de ser merecedora de ter sua origem no amor puro daqueles que lhe geraram.
Finda a cerimônia, Luca a leva dali e eles passeiam. Ela não quer ir para casa. Sob o guarda-chuva de Luca, caminham em silêncio, braços dados, agora pela Rua das Flores. Por vezes comentam algo trivial, e o tempo passa. Já eram duas horas da tarde quando Luca consegue convencer Beatriz a se alimentar, e a leva para uma confeitaria, a fim de que tomasse um bom chá com uma torta saborosa, que a revigorasse. Deu certo. Aos poucos Beatriz se solta e começa a falar dos pais, contando histórias antigas da família. Uma viagem, um aniversário, um outro natal, e assim Beatriz desfiava as lembranças que tinha dos pais. Luca a ouvia, comentava, e deixara qualquer pressa de lado. Somente precisava estar ali. Beatriz, por sua vez, como que se refazendo, começa a contar episódios cada vez mais recentes, até conseguir falar do passamento do pai, do seu curso na França, a sua volta e os as semanas que passara ao lado da sua mãe.
Nas três primeiras semanas desde a sua chegada, a mãe de Beatriz ia toda quarta-feira, dia da semana que Rodolpho falecera, e todo sábado também, ao cemitério, onde passava um bom tempo a conversar com Rodolpho, sempre depositando uma flor sobre o túmulo de grama. Por duas vezes Beatriz chegou a acompanhá-la, mas das outras fora só. Da última vez que Yolanda foi só, chegou em casa impressionada, e se pôs a contar a Beatriz algo que lhe sucedera dias atrás.
Yolanda havia lhe contado que, em certa manhã, dias atrás, bateram ao portão e ela foi atender, e se tratava de uma senhora bem vestida, a idade avançada a marcar-lhe rosto e mãos. Aquela senhora lhe teria então pedido água para beber, pois estava com muita sede. Prontamente Yolanda a fez entrar em casa, assentar-se, e lhe serviu a água que lhe fora pedida. Conversaram cordialmente. A senhora teria comentado que se sentia muito cansada, que viera de muito longe, apenas porque desejava visitar o filho, que segundo ela estava precisando muito dela, e agora vinha buscá-lo para cuidar dele. Afirmou, também, com muita gratidão nos olhos, que a água de Yolanda revigorara suas forças, e ela então poderia socorrer o filho, levando-o com ela. Yolanda não soube explicar a Beatriz o porquê de não haver perguntado de onde ela viera, ou quais as dificuldades que seu filho estava enfrentando. Apenas aceitou o que a velha lhe falara. E ela logo foi embora. Não sabe para onde.
No outro dia, quando Yolanda já fazia o caminho de volta no cemitério, depois de visitar o local de repouso de Rodolpho, reconheceu uma menina sentada na grama, à beira de uma árvore, com o rosto triste, abatida, pois já a vira ali das últimas vezes que fora visitar o jazigo. Decidiu ter com a menina, e com muito jeito perguntou o que teria acontecido para ela estar tão triste, e o que fazia ali sozinha, ao que a menina respondeu que estava lá porque tinha muita saudade, que as pessoas que ela amava haviam ido embora. Contou que seu pai e sua avó tinham morrido num acidente de automóvel quando vinham de Ponta Grossa para Curitiba, na descida da serra, e estavam lá, no cemitério parque. A menina fugira da escola, lá perto, para ficar ali, pois não queria que seu pai fosse embora, e ela achava que ele apareceria para levá-la para casa. Que estava fazendo isso todos os dias durante o horário de aula e ele não havia aparecido, mas que hoje decidira ficar lá o quanto fosse preciso, pois seu pai teria que vir ao seu encontro.
Muito custou a Yolanda explicar à menina o que a morte significava – pois essa dor ela também sentia –, e como deveria ser a despedida que se devia dar aos que morrem, para que eles sigam em paz a caminhada no além. Mas Yolanda insistiu com a menina, sempre de uma forma amorosa e persuasiva, até que a pequena se resignou e concordou que Yolanda a levasse para casa, e falasse com a mãe dela.
Ao ver a filha chegar pelas mãos de Yolanda, a mãe acorreu ao portão, e após Yolanda contar-lhe o acontecimento, a mãe se comoveu profundamente, e rodeou a filha de atenção, mantendo-a apertada em seus braços. Quando Yolanda já estava de partida, a menina desceu do colo da mãe e a abraçou, mostrando em seguida uma foto dela com os avós, o pai e a mãe, que estava no porta-retratos da sala, momento esse em que Yolanda sentiu suas pernas fraquejarem, pois reconheceu na foto a senhora, era a que fora à sua casa beber água, como sendo a falecida avó da menina. Não comentou nada com elas, desculpou o fraquejar das pernas com a idade e a saúde debilitada, e se despediu, entrando no táxi que a levou diretamente para casa, quando então contou à Beatriz o que havia acontecido.
Luca ouviu a história atentamente, e depois fez a Beatriz ver com melhores olhos a partida da mãe, que com certeza encontraria o caminho para a luz, pois já sabia, ainda quando entre nós, ouvir a voz dos anjos e atender-lhes o apelo. A neta com seu sofrer prendia o filho, que a mãe zelosa viera buscar para que esse retomasse o caminho do além. E Yolanda havia ajudado a desatar os liames que prendiam o rapaz.
Já é fim de tarde quando Luca leva Beatriz para casa, e ali se despedem. Sabe que ficará muito tempo sem vê-la novamente, pois em mais dois meses ela deve voltar à França, com certeza já refeita e com a vida em suas mãos. Ela tivera um berço que fora um refúgio, e com certeza continuará tendo os cuidados daqueles dois, que agora novamente reunidos pela lei do amor, a atenderão, soprando qual anjos nos seus ouvidos a orientação e o consolo, e a protegendo das sombras com que se defrontará, as escuridões que atravessará, ao tentar cumprir o seu destino.
No caminho de volta para casa, Luca, de si para si, reconhece a certeza de que Beatriz amará, e saberá distribuir o amor como lhe fora ensinado, pela inspiração daqueles que já partiram. Terá saudades, sim, do amor dos dois, mas também sentirá, em momentos ímpares, uma aquecer na alma que não será apenas uma lembrança, e sim a verdadeira presença do amor de Rodolpho e Yolanda.
O amor verdadeiro não tem fim nem limites. Simplesmente existe e ilumina, protege e alimenta.