São Paulo, 03 de janeiro de 2008
Mar de Olek
Capítulo 70
Na confraria de Gawel
Já se aproximava a aurora quando, bem longe de Tyniec, no palacete próximo ao báltico a que a confraria de Gawel chamava de Templo, chegaram dois novos visitantes: Erin, que sem prévio aviso, e seguindo as instruções do Sacerdote, trazia consigo Tadeusz, a fim de que este fosse iniciado na história e segredos da fraternidade. Ao não ser recebido pelo ancião, e sim pelo seu guardião, Erin se espanta e logo deduz que seu anfitrião não iria atendê-los.
— Mas ele afirmou ao senhor Sacerdote que nos receberia no templo! Onde ele está agora?A arrogância de Erin, o mais fiel seguidor do Sacerdote, surpreendia o iniciado que os recepcionava. Esse alega que o Ancião estava a resolver uma questão urgente, e que em breve os receberia. Até lá – afirmava o iniciado –, teriam que aguardar para que fossem definitivamente aceitos no Templo. Assim, os recém-chegados deveriam permanecer nos aposentos dos visitantes, até que conferenciassem com o Ancião.
Não tomando conhecimento da resistência do iniciado, e se planejando para cumprir, sem demora, as ordens do Sacerdote, Erin indaga onde fora aprisionado Fiodor.
— Estes assuntos vocês devem tratar diretamente com o Ancião. É melhor que o aguardem, como já disse.Erin perde a fleuma com o comentário, respondendo bruscamente:
— Não esqueça que também sou um iniciado, e estou aqui em nome do senhor Sacerdote! É melhor que me diga onde está o prisioneiro e me encaminhe até ele agora.No mesmo tom, ouve a resposta:
— E eu estou aqui em nome do Conselho, e respondo diretamente ao Ancião. Ele não tarda a recebê-los. Vou encaminhá-los ao refeitório, onde poderão comer algo, enquanto o aguardam.
— Não queremos comer nada. Antes precisamos nos acomodar. Libere-nos os aposentos dos iniciantes, pois Tadeusz deverá ser hospedado lá. É para isso que o trouxe.
— Impossível. O lugar está fechado e sob severa vigilância. Nem eu estou autorizado a entrar lá.Tadeusz, que até então a tudo observava silente, indaga:
— Vigilância? Mas qual o motivo?
E ouve a lacônica resposta do Guardião.
— É melhor aguardarem o Ancião.Erin demonstra impaciência ao questionar:
— Não vá me dizer que colocaram Fiodor justamente lá! Não é esse o tratamento que damos aos traidores. Espere só até o Sacerdote saber como estão tratando da questão, para ver o quão ele pode ficar furioso!O homem nada responde, e os guia até o refeitório. Na verdade estava totalmente desconcertado diante da inesperada situação. Conhecia bem o Ancião, o que corria em sua alma em relação ao Sacerdote. Sabia que a situação se tornaria insustentável, caso o Ancião não chegasse logo. Ele ordena a um serviçal que sirva uma ceia aos visitantes, e desaparece pelo corredor, entrando em uma das saletas. Precisava contê-los a qualquer custo, pois estavam prestes a exigir uma entrevista com Fiodor, e o Ancião deixara instruções expressas para que ninguém, sob nenhuma hipótese, falasse com ele antes de sua volta.
Um carro ultrapassa os portões do templo, e Erin fica a imaginar se seria o Ancião, e que por estar ausente é que não os recebera. Contudo mais meia hora se passa e eles continuam a aguardar no refeitório. Impaciente, chama Tadeusz, que cochilava mal equilibrado em duas cadeiras.
—Acorde! Está na hora de descobrir o que está havendo, e porque Fiodor ainda não foi castigado, mas premiado com os aposentos dos iniciantes, enquanto nós ficamos aqui, sem sermos recebidos pelo Ancião.Tadeusz, ainda sonado, pergunta:
— Mas e o que faremos?
— O que o senhor Sacerdote ordenou. O que deveria ter sido feito ainda no galpão.Assustado, Tadeusz pensa em perguntar se Erin pretendia executar Fiodor, mas se interrompe pela entrada do Ancião no refeitório. Após rápidos cumprimentos, Erin não se contém:
— Onde o senhor estava? Venho aqui em nome do Sacerdote e a mais de hora que o aguardo!
— Por que pergunta onde eu estava? Não foi devidamente recebido no Templo pelo guardião? Não lhe foi servida uma ceia acolhedora? Muito me espanta você desconhecer a nossa tradição hospitaleira, Erin.A firmeza da resposta fizera com que Erin perdesse a empáfia da qual se revestira desde sua chegada. Sentira-se lembrado que falava com o Ancião, mentor e conselheiro maior daquela irmandade, e senhor daquele templo, o mesmo templo que o iniciara. Sente-se vexado pela situação, ante o olhar reprovador do seu anfitrião. Tadeusz não conseguia perceber tudo que acontecia naquele momento, porém nota que Erin, apesar de ser um dos mais próximos seguidores do Sacerdote, nutria profundo respeito pelo Ancião. Erin, então, já mudando o tom com o qual se expressara, responde.
— Sim, fomos bem recebidos, embora não acomodados. Trago aqui uma apresentação do Sacerdote, recomendando a iniciação de Tadeusz nos segredos da Irmandade.Erin entrega a carta, e sob o interrogativo olhar do Ancião, prossegue:
— Este é Tadeusz Kowalski, esteve comigo em Kiev e provou seu merecedor de integrar a irmandade, por isso o Sacerdote o recomenda.
— Sim, eu sei bem quem ele é.Tadeusz sente-se desconfortável com o comentário, e Erin com o tom lacônico do Ancião, mas prossegue:
— ...quis, quando chegamos, que fôssemos instalados nos aposentos próprios, enquanto o aguardávamos. Mas fomos informados que aquele recinto está fechado e com severa vigilância.
— De fato.
— Por que razão, posso saber? Acaso estão dando tratamento especial ao traidor?
— Creio que se excede em suas perguntas e quebra a disciplina para a qual foi treinado, Erin. Aqui sabemos o momento certo de encaminhar o futuro iniciado para os aposentos. Por ora vocês ficarão no dormitório dos visitantes, onde devem descansar por esta noite, e amanhã falaremos sobre a iniciação de Tadeusz.
— E o que direi ao Sacerdote? Ele pediu que eu avisasse quando da nossa chegada!
— Não dirá nada. Eu falarei com ele e avisarei sobre a chegada de vocês. Amanhã nos reunimos. Boa noite a ambos.Antes, porém, que o Ancião se retirasse, Erin comenta:
— Sou também portador de grave notícia...Surpreso, volta-se para os visitantes, aguardando o desfecho, quando Erin prossegue:
— Julek Ianovich, filho de Nicolai, foi morto ontem, ao resistir à polícia num trem que seguia para Viena. O Senhor Sacerdote mandou que lhe transmitisse pessoalmente a notícia.O Ancião emudece. Era como se Erin lhe houvesse golpeado o peito, tamanho o choque sentido. Não poderia, porém, manifestar a sua reprovação, pois certamente revelaria suas opiniões sobre as atividades do Sacerdote, e seu possível envolvimento nesta morte. Consegue perguntar como tal acontecera, demonstrando uma indiferença que não sentia, e ouve o relato de Erin, que sabia ser ensaiado e mentiroso.
Para se resguardar e à Confraria, apenas balouça a cabeça, a fim de simbolizar que ficara ciente do acontecido e, sem dar chance a prosseguir a conversa, o Ancião faz com que eles sejam acompanhados a um aposento, tomando após o cuidado de determinar severa, porém discreta, vigilância.
Acertara ao confiar em Nicolai. Ele ajudaria a resgatar Fiodor das garras daqueles facínoras do outro lado. E isto deveria acontecer o quanto antes possível. Mas como contar com ele agora, que se enlutava pela trágica morte do filho? Já recolhido, o Ancião se convence que não seria mais possível aquela postura conciliadora. Se pretendesse evitar que sua confraria sucumbisse de vez à ambição do Sacerdote, deveria se opor publicamente às suas atividades. Convocaria uma reunião de todo o conselho dos guardiões de Gawel para tentar refrear as atividades deste que fazia do crime um dos lemas da fraternidade.
¤No dormitório, Tadeusz tinha consciência que sabia dessa história apenas o que Erin lhe contara no caminho de volta de Kiev. Espantava-se cada vez mais com as dimensões da luta em que se envolvera. Não desejava participar de nada disso. Não queria o poder, não pretendia se tornar parte daquela máfia, nem ambicionava seus tesouros. Apenas queria o ajudassem a ter Maricha para si, e já não mais acreditava que estes o ajudariam nisso.. Sentia-se um tolo de ter se tornado um deles. Apenas não via meios de se desvencilhar de tudo aquilo, e bem sabia que tal sentimento não poderia confidenciar a Erin. Passa a noite em claro, não pela iniciativa da tal iniciação, mas tentando encontrar uma saída do imbróglio em que se metera num momento de insensatez.
(continua no próximo número)