São Paulo, 10 de janeiro de 2010



Mar de Olek
 
Olgierd Sokolowski


Capítulo 71




O funeral de Lelek

 

 

Quando Olek e Christina já cruzavam Kraków, a caminho de Arkadja, para o funeral de Lelek, ele resolve quebrar a tristeza que reinava, anunciando:

— Não partirei para a América, Christina. Voltando a Kraków, buscarei a face de Swarozyc, atendendo ao último desejo de dziadzio Julek. As pesquisas que coordeno na universidade logo poderão caminhar sozinhas, por um tempo, na Escola. Pedirei afastamento temporário, e me dedicarei unicamente à herança que recebi.

Dar tal notícia, retomando a conversa tida na casa de Josef antes de sua ida a Tyniec, era a forma encontrada por Olek para distrair a moça, fazendo com que se desligasse, por momentos, da dor que sentia pela morte do irmão. Ela percebe a intenção e sorri, aceitando a proposição. Demonstra contentamento pela decisão de Olek, e pergunta detalhes sobre Tyniec, que ele narra com os pormenores possíveis tudo o que lá descobrira, reforçando a sua decisão de permanecer na Polônia até cumprir o papel que lhe era destinado.

Conversam mais um pouco, e o silêncio volta reinar, agora leve. O zunir das rodas no asfalto e o conforto que recebera fizeram com que Christina se permitisse adormecer, apoiando a cabeça no ombro de Olek.

A nossa vida possui episódios tão distintos, pensa Olek. Em alguns, somos os senhores absolutos e as dirigimos com maestria ou desastradamente, tanto faz, porque o importante é que ditamos as direções. Em outros, porém, somos de tal forma levados por acontecimentos fortuitos que chegamos a duvidar do próprio arbítrio. E era num desses momentos que se sentia mergulhado. Bem que tentara ditar os rumos, acomodando a sua vida, tentando restringi-la a uma vida acadêmica, sem grandes tropeços, até se sentir seguro para prosseguir. Mas não lhe permitiam isso. A invasão do seu apartamento, a tentativa de sequestro, e tudo que se seguiu mudaram os rumos antes almejados, e agora descobrira que retomaria o curso de sua vida após cumprir os desejos de seu falecido avô, e aquilo para o que ele havia sido destinado.

Christina desperta quando eles se viam adentrando aos portões de Arkadja.


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O corpo de Lelek já se encontrava no casarão, onde seria velado. Antes havia que se respeitar o tempo para que baba Lidja preparasse as invocações a Weles, a fim de garantir o repouso do jovem nos braços dos seus ancestrais, o que fazia em sala apartada, antes que fosse colocado no lugar de honra da sala do casarão, para as orações, as despedidas e as últimas homenagens ao morto, por parte dos familiares e dos poucos amigos que deixara.

Christina, após abraçar seu pai demoradamente, vai se encontrar com baba Lidja, a fim de auxiliar nas invocações ao deus dos antepassados.

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O dia já dá seus últimos sinais quando o cortejo fúnebre segue ao local do sepultamento. À frente Nicolai e Igor. O corpo desce à cova, e se efetuam as últimas encomendas. Findo o ritual, as pessoas começam a se dispersar. Ouvem-se murmúrios e lamentos, dentre eles sobressaindo o de Nicolai:
— Os pais passam a vida divididos entre educar os filhos para o mundo com o qual vão se deparar, ou então se os preparam para o mundo pelo qual eles sonham um dia florescer. Desde que Lelek nasceu vivi este dilema. Eu não tinha com quem compartilhar esta dúvida, pois minha esposa morreu no parto. Acho que não soube fazer nem uma coisa nem outra e, como resultado, colho este momento...

Christina e Olek confortam Nicolai, mas este apenas meneia a cabeça. Percebendo que ele quer ficar a sós, afastam-se discretamente em direção à baba Lidja que caminha com dificuldade, apoiada a Igor, rumo ao casarão. Nicolai, por sua vez, segue em sentido oposto, rumo ao bosque próximo dali. Pretendia andar, andar, como se os passos firmes, batidos qual marcha, exorcizassem a sua dor. Volta-se ao perceber que alguém o segue, e se surpreende quando vê o Ancião vindo ao seu encontro.
—O que faz aqui?
— Apenas trago o meu mais profundo pesar, Nicolai. Coisas como essa não deveriam acontecer entre nós.
— Estou surpreso com a sua presença, mas agradeço as suas condolências.
Nicolai segue pelo caminho do bosque, agora ladeado pelo Ancião, que desabafa:
— Houve um tempo em que éramos capazes de nos proteger, Nicolai. Era esse o pacto. Agora acontece isso... já não é possível contemporizar.
— Não, não é possível contemporizar, sobretudo quando se enterra o próprio filho, Ancião. Mas vejo que não teme por sua ou pela nossa segurança, vindo até aqui, quando há dois dias quis que nos encontrássemos às escondidas.
— Vim até aqui também para propor que deixemos nossas desconfianças e lutemos contra o real inimigo, contra aquele que vem nos infligindo tais sofrimentos. Temos que agir agora, Nicolai!
— Agir agora? Será que não se permite mais a um pai chorar seu filho, antes de lhe cobrar os seus deveres? Por agora não quero pensar em estratégias, Ancião. Ao menos por agora quero apenas me despedir de Lelek. Porém o convido a seguir à minha casa, para que se reúna aos demais, em volta da mesa, em homenagem ao meu filho que partiu. Siga até lá, logo irei ao encontro de todos.

Dito isso, Nicolai segue em frente, enquanto o Ancião, visivelmente decepcionado por não dizer a que veio, faz meia-volta, rumando ao casarão, enquanto o amigo se embrenha mais pela floresta.

O Ancião sabia o que deveria ser feito, e não mais retardaria sua ação, tendo ou não o apoio de Nicolai ou de qualquer outro. Correria o risco, pois o tempo corria contra eles. Ao invés de ir para a casa, segue até o posto telefônico, liga para o Templo e dá a senha a seu assistente.
Estava feito.
Agora sim poderia retornar ao casarão, e prantear a morte do jovem, antes de retornar aos seus domínios.



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(continua no próximo número)


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