O estado da alma de Luca oscila como o clima da primavera curitibana. Caminhando sob a chuva, ocasionada pela frente fria que se instalara na capital paranaense há dois dias, ele segue apressadamente para o carro que deixara no estacionamento do supermercado, pacote protegido pelo braço, guarda-chuvas esquecido no interior do veículo. O dia está cinza. A vida lhe parece cinza. Era como se algo cinza lhe fosse acontecer. Resolve, como sempre faz nessas ocasiões, passear pelas cercanias da cidade, procurando um lugar onde a natureza possa realimentá-lo, onde haja um nicho de energia que o faça seguir adiante. Já na altura da Getulio Vargas vai pela Marechal Floriano, sentido bairro, até sentir que a cidade vai ficando às suas costas. Ao passar pelo último grande terminal de ônibus daquela avenida, aproxima-se das cavas do Boqueirão, que contempla de cima do curvo viaduto sobre a linha férrea. Nesse momento, diminui sensivelmente a velocidade, apreciando a paisagem e refletindo como está abandonada pela administração municipal aquela região tão bela e agreste.
À direita, sabe que pegará uma das estradinhas entre as cavas, e que ela o conduziria até o zoológico da cidade. Uma delas, ouvira dizer, estaria interditada, mas outra permitiria o acesso. Não sente vontade de seguir por aquele caminho, então liga a seta para a esquerda, se posiciona no meio da pista, aguarda a passagem dos veículos que vinham da mão contrária e ingressa no caminho que beira o lago: um conjunto de cavas unidas e alargadas, formando uma lâmina d’água outrora aparelhada para as competições náuticas, e onde até hoje esportistas comparecem nos fins-de-semana em que o tempo se apresenta firme. Encontra um bom lugar para estacionar, próximo à margem. Põe em baixo volume o Madredeus no som do carro, e fica ouvindo os tristes poemas em bela orquestração e voz.
Era ali que queria ficar, a deixar o pensamento flutuar até que as preocupações do dia-a-dia se afastassem, e dessem lugar para o gostoso vazio que o ondular das águas proporcionava. Após algum tempo, pega em sua pasta um livro e seus óculos de leitura. Desfrutando o espaço, retoma do porta-luva um romance, cuja leitura abandonara a algum tempo, e que resoluto resolve concluir. Já por três semanas o livro vagara intocado, e agora ele pretendia desfrutá-lo até o final.
O ar fresco circula através das janelas semi-abertas, e Luca se deixa absorver por completo pela música e pela leitura. Já a mais de uma hora ali, em sobressalto, percebe um vulto a bater, com o nó do indicador, no vidro de seu carro.
Ao virar a cabeça, se depara com uma menina. Uma menina estranha, de dez ou doze anos, talvez, pele dourado-escura, como que indiana, na cabeça uma espécie de turbante. Toda vestida de branco, não alvo, aquele branco de tecido rústico, tendendo muito levemente para o bege. Ela o observa. Seu olhar é profundo, fixo, inquisidor, não condenando, mas também não aprovando um não sei quê. Luca não sabe explicar o que sente, mas algo naquela menina desperta toda a sua atenção. Sentia como se ela já estivesse ali a observá-lo há algum tempo, e que tivera que chamar a sua atenção com o toque no vidro, para que ele saísse do envolvimento da história que lia. Ele abre o vidro e lança um olhar inquisitivo à menina que indaga:
— Tem um trocado moço?
— Desculpe, menina, mas eu não dou dinheiro para crianças. E não acho certo que você tenha que pedir.
— Não é para mim. É para você!
— Para mim?Ela, séria, assente com a cabeça. Luca se surpreende com aquela afirmação. Havia algo nela que ele não compreendia, uma dureza no olhar da menina que o perturbava. Ele resolveu mudar o rumo da conversa, até que tomasse pé da situação.
— Como você se chama, menina?
— O meu nome é Antiga.
— Antiga?
— É. Minha mãe me disse que quando eu nasci eu tinha a cara de Antiga. Ela queria me chamar de Maria das Dores, mas que na hora que foi dizer o meu nome pela primeira vez, só lhe vinha Antiga na cabeça. E o seu nome é Luca.
Assombrado com esta última afirmação, Luca perde a linha de raciocínio que tentava desenvolver com aquela criança, como muitas vezes já fizera no foro. Faz, então, a indagação óbvia:
— Como sabe meu nome?
— Sei de muitas coisas, mas as pessoas quase nunca querem ouvir. Nem minha mãe.
— E onde está sua mãe?
— Morreu quando eu era pequena. Eu tinha sete anos.
— E quem cuida de você? Onde você mora?
— Ninguém cuida. Eu moro aqui.
— Aqui?
— Perto do meu irmão.
— Ah, você tem um irmão. Ele é mais velho?
— Era. Cinco anos mais velho. Morreu o ano passado, afogado aqui no lago. Ele foi nadar, teve uma câimbra, eu acho, e afundou. Nunca mais saiu dali.
— Não chamou socorro? Não resgataram o corpo?
— Não. Ele está lá agora. É onde ele fica. E eu bem que avisei.
— Avisou?
— Eu quis dizer para ele, mas ele também não me ouviu. Simplesmente seguiu em frente. Nem quis saber o que eu tinha para ele.Luca fica olhando para aquele ser estranho, que definitivamente não mais considerava uma criança, mas um ente que se dirigia a ele de forma enigmática, e tentava entender o que estava acontecendo. É certo que a experiência, que tinha em virtude de tudo que vivenciara pela Irmandade, lhe trouxera algum conhecimento, mas aquilo lhe despertava sensações muito densas e confusas. Havia muito poder ali, e ele não conseguia identificar de onde vinha. Resolve então desafiá-la, para saber mais, e então dispara:
— Eu que lhe ouvir. O que tem a dizer para mim? Por que veio até mim?Ela então repete, o mesmo olhar sério:
— Tem um trocado, moço?A essa altura Luca já havia aberto a porta do carro, e sentado com os pés para fora, encarando Antiga. Acende um cigarro e fica olhando para a menina, que não deixa de encará-lo, rosto sério, por um momento sequer. Parecia que estava a esquadrinhá-lo, corpo e mente. Por um momento pensara se tratar de uma criança ardilosa que lhe tentava extorquir alguns trocados, com uma história fantástica e bem elaborada. Embora não soubesse explicar como ela sabia o seu nome, isso não deveria ser o suficiente para espantá-lo. Mas aquele olhar, aquela firmeza, fizeram com abandonasse a idéia da criança levada.
Permitindo que a curiosidade despertada vencesse seu princípio de não dar dinheiro à crianças, resolve atender ao pedido. Para não interromper aquele processo, tirou uma nota de dois reais da carteira e o estendeu para a menina. Ela afirma que não poderia ser nota; deveriam ser moedas. Já um pouco aborrecido, Luca revolve os bolsos do blazer até encontrar duas moedas de vinte e cinco centavos, que sabia estarem por ali, e faz menção de entregar à menina, perguntando se era suficiente.
— Não. Não são para mim. São para você. Jogue no lago.
— Como é?
— Jogue no lago, meu irmão guardará.Luca contém o espanto e não pergunta mais nada. Obedece.
Sai do carro e caminha até a beira do lago, atirando as moedas. Ainda se sente meio tolo em atender às ordens da menina, a ambigüidade a lhe dominar o espírito mas, mesmo assim, age como determinado, a fim de chegar ao final daquele enigma.
Quando se volta, porém, em direção ao carro, a menina não mais se encontrava lá. Olhou ao longo da estrada, em ambas as direções, não a encontrando. Sobe o barranco do outro lado da estrada, até enxergar o leito do rio que corria adiante, e nada vê. Ela simplesmente sumira. Desaparecera. Não havia nenhum lugar onde ela pudesse haver se ocultado. Chega até a olhar dentro do carro. Nada. Fica desconsertado.
Nada mais resta a fazer ali. A música já se repetia. O livro, largado no banco do passageiro, já não convidava para o prosseguimento da leitura. Ele queria entender o que havia acontecido. Dá de ombros e resolve voltar para casa. Lá ele poderia se refugiar, deitar sua cabeça no colo de Lígia, e nos seus afagos abandonar aquele desconforto que sentia na alma.
Entra no carro e tenta dar a partida. Ele falha. Uma, duas, três vezes. Ele sai do carro, abre o capô, remexe nos cabos, e repara que dois ou três carros passaram velozmente na pista da avenida logo adiante, buzinando e roncando os motores, como a fazer um racha. Volta para o carro e tenta dar a partida. O carro funciona normalmente. Ele não entende que falha havia ocorrido. Faz a volta na estreita estrada, engatando uma marcha pesada para vencer a saída íngrene e sem sinalização, de acesso para a Avenida. No que seu carro desponta na pista, um ônibus extra, sem passageiros, passa bem à sua frente, atingindo lateralmente o paralama dianteiro esquerdo do carro, o ônibus momentaneamente perdendo o controle, mas o recuperando após ziguezaguear na pista e seguindo adiante, sem se preocupar com o ocorrido. O carro de Luca, porém, que estava na subida, derrapa com impacto e cai para fora da estrada, ficando inclinado no barranco ao lado do acesso. Ele não se fere e, com grande esforço devido à inclinação, sai do carro.
Após verificar que nada lhe ocorrera, a não ser uma leve contusão no braço ao forçar a saída, Luca vai à beira da estrada para ver se alguém pararia em seu socorro, mas como isso não ocorreu de imediato, pegou seu celular e ligou para companhia de seguros, solicitando um agente e um guincho, e também para Lígia, pedindo que ela viesse buscá-lo. Dois ou três carros chegaram a parar na pista, mas ao verificarem que ele estava bem, iam embora. Lígia, apesar de estar mais distante, chegou antes da seguradora e, com toda preocupação, apalpa-o, verificando se nada havia acontecido com ele, se não tinha batido a cabeça ou torcido o pescoço, e ele a tranqüilizou, achando graça com tanto cuidado da parte dela. Enquanto esperavam, Luca contou para Lígia o insólito encontro com a menina, ao que ela ouviu atentamente, sem interrompê-lo com perguntas. Logo a seguradora chega, com o reboque providenciado, e retira o carro, levando-o para uma oficina autorizada.
Luca faz menção de entrar no carro com Lígia, mas ela o segura vigorosamente pela mão e eles seguem até a beira do lago. Ela abre a bolsa e retira uma moeda, atirando-a com vigor para o meio do lago, sorrindo em seguida para Luca, enquanto dizia:
— Quando as coisas correm bem, Luca, a gente não sabe o quanto elas deram certo. As tragédias evitadas muitas vezes passam desapercebidas. Eu percebi. E quero agradecer.Dito isso, ela abraçou Luca e seguiram até o carro. Iriam até a casa de Lígia, onde ela lhe passaria um gostoso café.