São Paulo, 25 de outubro de 2004

 

O Dagens Nyheter, — que em português significa: Notícias do Dia —, foi o primeiro jornal no mundo a publicar estas fotos de um asilo para velhos em Cuba. Trata-se de um dos grandes jornais da Suécia, que equipara-se ao Estado de São Paulo.


O Jornaleco está linkando todos os nomes citados na reportagem às respectivas biografias, na sua maioria publicada na ONG Repórteres sem Fronteiras. Ela própria, uma vítima de Fidel, que pediu sua suspensão, quando protestou contra a escolha da Líbia e, conseqüentemente do Coronel Kadhafi, para presidir a Comissão de Direitos Humanos da ONU, em julho de 2003.

A verdade proibida sobre Cuba

14 de outubro de 2004

por: Selman Vallejo

( o autor escreveu sob pseudônimo para evitar represálias do governo cubano)

Fotos: Luis Alberto Pacheco Mendoza

( As fotos foram feitas em junho de 2004 no "Hogar Provincial de los Ancianos Marina Ascuy”, um asilo de velhos local na província de Pinar del Rio, a 3,5 km de Pinar, perto da Carretera de Viñales)


Tradução direta do sueco: Janer Cristaldo

 

Segundo a propaganda oficial a assistência médica é um exemplo para o mundo. O que estas fotos não põem em questão depende de uma impiedosa repressão dos jornalistas independentes, escreve Selman Vallejo, pseudônimo de um cidadão cubano, residente em Havana.

Parece emocionante envelhecer em Cuba. A maioria das pessoas viu o filme “Buena Vista Social Club”, esses alegres e sorridentes velhotes na pitoresca pobreza de Havana que cantarolam suas músicas nostálgicas. Privilegiados do Musikstudion Egrems que são favorecidos pelo regime e podem viajar ao estrangeiro, podem admirar os arranha-céus de Manhattan e receber aplausos em pé nos concertos no Carnegie Hall. Segundo o filme, começa-se quase a querer envelhecer em Cuba. Tão romântico, tão meridional, tão macho e no entanto tão amável.

Adolfo Fernández Sainz entendeu estas fotos. Ele é um tradutor estatal que se tornou um jornalista de oposição. Quando o filme surgiu e destacou-se por suas qualidades musicais, ele escreveu em uma reportagem para “Repórteres sem Fronteiras”: "O violonista americano Ry Cooder correu atrás deste completamente esquecido círculo de velhos que vive na pobreza e na fome, limpam sapatos, pedem esmolas e afogam sua nostalgia dos velhos bons tempos em álcool barato".

Pobreza? Fome? São as últimas palavras que o governo cubano escolheria quando se gaba de sua assistência à velhice. O regime nega que existam pobreza e fome em Cuba, e que isto seja algo de que sofrem os velhos. Na última primavera foram criados inclusive "os-clubes-dos-120-anos", que promoverão uma crescente longevidade.

Lençóis com manchas de urina. Assoalho, paredes e camas imundas de dejeções.


Lema sobre a velhice: Envelhecer em Cuba é digno e tranqüilo. Mas o lema mente: não é nem digno nem tranqüilo: "— Durante toda minha vida trabalhei no porto de Havana e agora recebo uma pensão miserável. Eu preciso vender café e cigarros que recebo com meu cartão de racionamento. A polícia nos persegue mas não pode nos impedir pois somos obrigados a isso, a fome nos leva a isso", disse um homem de 72 anos ao jornalista independente Julio César Galvez.

Escondidos. Segundo a propaganda oficial a assistência cubana à velhice é um exemplo. As fotos mostram uma realidade completamente diferente.

Jorge Olivera, que trabalhou no setor estatal de mídia, viu em 2001 um programa de TV onde eram homenageados velhos matrimônios, e comparou as brilhantes fotos com a realidade cotidiana: “Velhos tristes que são obrigados a vender sua cota de mercadorias do Estado para conseguir comida e poder sobreviver”. José Izquierdo, que pertence ao grupo independente de jornalismo Decoro escreveu há dois anos que os velhos em sua cidade natal Güiness, próxima a Havana, “reclamam de maus tratos nas casas”. Por que permanecem então lá?

Izquierdo explica: “geralmente eles não voltam para casa simplesmente porque as pensões não são suficientes para suas necessidades básicas”. É bastante sabido que os salários em Cuba são tão baixos que é matematicamente impossível comprar o suficiente para alimentar-se: os salários correspondem a oito dólares por mês, enquanto uma garrafa de óleo ou um litro de leite custam dois e só podem ser encontrados nas dolarbutiques. A propaganda oficial cubana assegura que crianças até sete anos têm direito a comprar leite nas lojas estatais, mas isto não vale mais para os velhos.


Os que denunciam abusos nos asilos de velhos cubanos arriscam longas penas de prisão

2001 – Escreveu um outro repórter: “No centro diurno “Alegria da Vida” (!) para velhos, na rua Enrique Barnet, em Havana, os pacientes não recebem mais leite nos lanches”

Cerca de 14% dos 11 milhões de habitantes de Cuba têm mais de 60 anos. Eles pertencem ao grupo mais exposto da sociedade, não somente porque têm dificuldade de cuidar de si próprios, mas também porque não têm nenhuma possibilidade de fugir à sua sorte. Crianças, inclusive crianças de peito têm a alternativa de escapar para a Flórida (por exemplo, Elián González). Mas não os velhos. Eles ficam.

 

“Estou morrendo de fome. É muito pobre aqui. Não existe nem mesmo um pedaço de açúcar para dissolver e beber com água".

E para sobreviver eles precisam nutrir-se como puderem – inclusive vendendo o pouco que têm. Muitos perderam os dentes, o que pode ser uma benção, pois podem então vender sua cota de creme dental. E os que têm pressão alta vendem também o seu café.

Muitos tentam ganhar algo permanecendo na fila para os outros (um “fileiro” diante dos escritórios das autoridades pode ganhar 20 pesos, - 0,75 dólar - guardando um lugar), ou comprando um jornal por 0,20 pesos e vendendo-o de novo por um peso. Um destes pequenos empresários, Nestor, que recebe uma pensão de 110 pesos por mês (menos que 5 dólares) foi preso no ano passado por três policiais em um terminal de ônibus. Foi maltratado, teve as mãos algemadas com correntes, foi arrastado e depois libertado, mas foi obrigado a pagar 70 pesos por comércio ilegal de mercadorias.

Alguns, muito poucos, beneficiam-se do trabalho social da igreja católica, que dirige abrigos para idosos como o que se chama em Havana “La Milagrosa”, onde os velhos, desde 1997, podem receber comida, albergue e cuidados médicos básicos. Mas nos últimos anos as autoridades cubanas proibiram essas igrejas de fazer trabalhos sociais. Na igreja Pastora, em Santa Clara, o padre espanhol Fidencio fez uma declaração: “A partir do 1º de junho, fica desativado o departamento de medicina, pois a assembléia não permite mais oferecer tais serviços.” Ele explicou que lhe disseram que Cuba é uma grande potência medicinal e por isso não tem necessidade alguma de distribuir remédios.

Estas medidas parecem ser parte de uma tentativa maior de limitar o trabalho de diferentes igrejas com prisioneiros, velhos e pobres. Em maio do ano passado, Caridad Diego – responsável por questões religiosas junto ao Comitê Central do Partido Comunista Cubano – explicou que é imoral receber presentes (isto é, divisas fortes) dos turistas.Isto é obviamente não-realista, pois as igrejas não poderiam sobreviver sem auxílio do estrangeiro.

A maior parte dos idosos em Cuba não pode contar com nenhuma ajuda de parentes no estrangeiro, e o Estado não pode ter a seu cargo aqueles que agora não podem nem ao menos contar com o apoio da Igreja.

Alguns anos depois, Victor Rolando Arroyo, um ativista de oposição de Pinar del Rio, falou sobre este fenômeno: “Observamos uma inimizade do regime contra certas instituições eclesiásticas que tentam fornecer comida, fazer reformas de casas ou oferecer outros simples serviços para o crescente grupo de idosos da província de Pinar del Rio”.

Ele toma como exemplo uma casa onde existe uma lista de espera: se nenhum idoso morre ninguém pode alojar-se nela. Ele descreve a cena seguinte: “Olhos tristes, sujos, roupas puídas e sapatos rotos são coisas a não serem exibidas por um governo que, em sua propaganda política em todo o mundo espalha a imagem de Cuba como exemplo para as outras sociedades”. Edel José García é jornalista no escritório independente Centro Norte Press. Ele descreve as condições físicas dos idosos na casa Villa Clara: os banheiros são sujos e têm um fedor insuportável, os lençóis não são devidamente lavados e baratas, ratos, moscas e mosquitos podem ser vistos dia e noite no imóvel.”

Normando Hernández falou com alguns moradores da casa de repouso de Camagüey: “Estou morrendo de fome. É muito pobre aqui. Não existe nem mesmo um pedaço de açúcar para dissolver e beber com água”, disse um deles, de 89 anos. “Os velhos isolados estão sujos e o lugar fede a urina e dejetos”, contou um morador em uma instituição na aldeia de Céspedes para Normando.

Se esta é a verdadeira situação, por que Cuba é sempre vista na opinião internacional como um exemplo luminoso em matéria de assistência aos idosos? Por que este quadro sombrio é tão desconhecido? A resposta é simples. Fidel Castro não quer que isto seja conhecido, e então prende todos os escritores pouco conhecidos e os joga na prisão após processos sumários que nada têm de justos: Adolfo e Julio César receberam 15 anos cada um, Jorge e José 18 anos, Victor Rolando recebeu 26 anos (ele é jornalista e ativista, de modo que as autoridades cubanas pensaram em puni-lo com uma pena extremamente severa), Edel recebeu 15 e Normando 25.

Mas alguns que ainda estão livres (isto é, relativamente livres), continuam a escrever e juntar documentação fotográfica sobre a situação dos idosos em Cuba. Entre estes corajosos repórteres estão Adela Soto Alvarez e o fotógrafo Luis Alberto Pacheco Mendoza, ambos de Pinar del Rio.

Luiz Alberto, que fez as fotos aqui publicadas, esclarece porque quer ter seu nome publicado: “Alguém precisa fazer isto; alguém precisa mostrar abertamente essas agressões. Eu não sou nenhum herói, não penso em expor-me ao perigo e não quero parar na prisão, mas faço isto por minha família, por minha filha e por meu país.” E acrescenta: “O que acontece nestes lugares é, claramente, puro assassinato. Trata-se dos ângulos escondidos da vida em Cuba que ninguém, nem mesmo a maioria dos cubanos, conhece. E isto pode ser ainda apenas uma parte; é pena que as fotos não possam mostrar sons e, principalmente, odores.”

No último dezembro, sua colega Adela descreveu o estado das instituições que as fotografias mostram. “As casas são mal-construídas, móveis defeituosos e as cobertas agravam as condições sanitárias catastróficas e os maus tratos das pessoas... Os lençóis estão sujos de urina, assoalho, paredes e camas estão sujas de dejetos e ninguém impede os idosos de usá-los...

“Seus pertences foram empacotados em caixotes de papelão, pois não existem cabides ou gaveteiros. Os deficientes, físicos ou psíquicos, não têm nenhuma cadeira de rodas ou sofás para sentar, muito menos roupas ou sapatos convenientes a suas idades, muito menos velas ou cobertas para o inverno... Os que estão presos a camas deitam diretamente no náilon, o que provoca infecções de pele e escaras.”

Alguns meses mais tarde, em fevereiro deste ano, Adela e Luis Alberto voltaram à mesma instituição e testemunharam que “agressões contra os idosos não são punidas, pois eles têm funcionários que não ousam apresentar críticas. Eles têm medo de perder o emprego e expor-se a represálias.”

Sobre a questão disse um outro jornalista em março deste ano: “Um enfermeiro, Carlos Rodríguez, foi submetido a um comitê de disciplina da administração de um asilo de velhos na Rua de la Reina, em Havana, por ter criticado a conservação da casa... Ele protestou contra o salário dos enfermeiros (198 pesos, ou seja, sete dólares ao mês), contra a comida servida aos idosos e falta de uniformes para os enfermeiros. Além de todos esses problemas – disse Rodríguez – faltavam-nos remédios, material e o equipamento exigido para poder dar cuidados adequados aos idosos”. (É preciso acrescentar que esta é uma queixa recorrente, apesar de os medicamentos e equipamentos, depois de 2001, estarem isentos do embargo comercial dos Estados Unidos).

No filme-homenagem, “Comandante”, de Oliver Stone, é mostrado como Fidel Castro “espontaneamente” é submetido a um electrocardiograma e, “de passagem”, faz saber que ele pode viver até os cem anos.

Esta é uma pavorosa visão de futuro para a maioria dos cubanos, que entendem desde há muito que as transformações necessárias a Cuba acontecerão antes deste “fato biológico” (isto é, a morte de Castro) ocorrer, e quanto mais isto demorar, mais sofrimento significa para seus súditos. A maioria dos residentes na ilha espera, por este motivo, que este “fato” aconteça logo.

Mas muitos guardam também um secreto desejo de ver Castro viver muito, muito mais tempo, desde que sem poder e sem favores especiais – se possível em alguma dessas instituições, para que ele possa sentir em sua própria pele o que o conceito de “dignamente e tranqüilamente” chegou a significar sob seu regime.