São Paulo, 01 de março de 2012
Helder Júnior
Javé falou para Moisés e Aarão: “Quando alguém tiver na pele uma inflamação,
um furúnculo ou qualquer mancha que produza suspeita de lepra,
será levado diante do sacerdote Aarão ou a um de seus filhos sacerdotes.
O sacerdote examinará a parte afetada. Se no lugar doente o pelo
se tornou branco e a doença ficou mais profunda na pele, é caso de lepra.
Depois de examiná-lo, o sacerdote o declarará impuro.”
Levítico, 13 1-3
A “lepra”, antiga e pejorativa designação da hanseníase, assustou Getúlio Vargas dentro do Palácio do Catete. Em fevereiro de 1938, o governante, com uma ferida no dedo, apertou a mão um pouco deformada do interventor federal que havia nomeado para o Estado do Maranhão, Paulo Martins de Souza Ramos. Um médico confidenciou ao presidente da República que se tratava de um “leproso”. Foi o suficiente para deixá-lo temeroso e enojado por dias.
O combate à hanseníase era prioritário no Estado Novo de Vargas. A criação de “campos de concentração”, expressão utilizada pelo arquiteto Abelardo Soares Caiuby para se referir aos leprosários que ajudou a construir, foi o meio – consagrado mundialmente na época – encontrado pelos governantes brasileiros para tentar erradicar (ou ao menos isolar) o mal. Todo doente deveria ser capturado e trancafiado nesses locais. Em São Paulo, os órgãos de saúde ergueram cinco asilos-colônia para enfermos em regiões distantes de centros urbanos: o Aymorés, em Bauru; o Cocais, em Casa Branca; o Pirapitingüi, em Itu; o Padre Bento, em Guarulhos; e o Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes. E levaram a profilaxia da doença a sério como não se repetiu em nenhum outro lugar do Brasil.
Com o mesmo afinco que o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) batalhava contra manifestações antivarguistas no Estado Novo, o Departamento de Profilaxia da Lepra (DPL) passou a caçar leprosos em São Paulo, fazendo uso de suas temidas ambulâncias negras.
Como a que parou diante do lar da família Mercúrio em abril de 1935.
***
Nivaldo Mercúrio tinha sete anos quando aquela ambulância negra estacionou em frente à sua casa, em Itápolis, interior do Estado de São Paulo, e sua vida mudou. O menino ainda não conseguia ler a sigla DPL, grafada em letras brancas e garrafais nos dois lados do enorme camburão, porém já sabia que sua presença significava a existência de um leproso nas redondezas.
Dois homens vestidos com uniformes pretos e jalecos brancos, com laços e armas de fogo em punho, desceram do veículo e ordenaram que a porta do lar da família Mercúrio fosse aberta. Era uma residência rústica, de madeira, no estilo colonial. Naquela tarde, nenhum dos quatro filhos de Rodolfo e Rosalina estava no quintal, onde Nivaldo e seus irmãos passavam a maior parte do tempo. Todos aguardavam com a mãe a chegada do pai. Ninguém se mexeu para atender os guardas. O silêncio se repetiu nos arredores.
Em 1928, ano em que Nivaldo Mercúrio nasceu, um censo realizado pelo Instituto Oswaldo Cruz constatou que havia séculos o Brasil já abrigava milhares de portadores de hanseníase entre os seus habitantes: cerca de 50 mil dos 40 milhões de brasileiros eram “leprosos”. Na rua onde o garoto vivia, ninguém mais tinha dúvidas: um desses doentes habitava a casa diante da ambulância negra. Alguns vizinhos fecharam suas portas e janelas com a chegada do camburão, horrorizados ou temerosos. Outros espiaram, curiosos mas reservados, a ação da guarda sanitária. Ente eles, estava um delator. Talvez vários.
Uma carta anônima enviada à Avenida Doutor Arnaldo, 87, sede do DPL na capital paulista, ou um telefonema para o número 5-7650 havia acionado a ambulância negra em Itápolis no dia 12 de abril de 1935. Rodolfo Mercúrio ainda trabalhava quando o camburão parou em frente à sua casa. Ele se incumbia da lavoura, do gado, dos cavalos, galinhas e porcos de um fazendeiro da região. Foi o marido quem, ao notar as manchas brancas no braço de Rosalina, encaminhou a mulher para o doutor Moacir Porto. O médico de Araraquara, cidade próxima, conhecido da família e dos moradores da região, diagnosticou o sintoma como o primeiro da hanseníase.
Rosalina, que só conhecia o mal que contraíra do livro de Jó e do milagre da ressurreição de Lázaro por Jesus Cristo, escondeu-se o quanto pôde. Era uma mulher de 27 anos, pele clara e cabelos escuros, lisos até os ombros, que os amigos e vizinhos já pouco avistavam nas ruas de terra de Itápolis. As deformidades e mutilações decorrentes da hanseníase aparecem somente anos após o contágio, porém Rosalina já havia pedido muita sensibilidade tátil e tinha o corpo cada vez mais coberto por manchas. Embora ela evitasse sair de casa, logo alguém percebeu o que o doutor Porto constatara. Naquele tempo, o DPL já espalhava cartazes sobre a doença em todo o Estado de São Paulo e contava com amplo espaço cedido por jornais e rádios para incentivar a delação dos doentes.
Os guardas sanitários arrombaram a porta da casa dos Mercúrio antes que alguém pudesse abri-la. O motorista da ambulância laçou Rosalina, na época ainda amamentando o filho caçula, e a carregou nos ombros até arremessá-la na traseira do veículo. Ela foi trancada a cadeado, como se fazia para impedir possíveis fugas. Não relutou nem gritou. Uma vez caçada a doente, os homens ordenaram que as crianças saíssem de casa e derramaram galões de gasolina pelos cômodos. Besuntaram os móveis e o chão com o combustível e atearam fogo, para salvaguardar que ninguém na vizinhança fosse contaminado.
Nivaldo, Augusta e Izabel, a irmã mais velha que amansou no colo o choro desesperado do caçula Sebastião, assistiram ao carro que levava a mãe se perder no horizonte. Ela não os viu. O espaço reservado à pessoa capturada na ambulância negra tinha uma barreira antes dos bancos dianteiros, tal qual um carro de policia, e era completamente escuro. Além de ser impregnado pelo cheiro de álcool. Uma pesada cortina negra (que, com o vento, batia na carroceria e chegava a competir em barulho com o motor) protegia a única janela da lateral traseira.
Os filhos de Rosalina permaneceram na rua até que o fogo consumisse todos os seus bens e Rodolfo retornasse. O pai recolheu as crianças, os cinco apenas com as roupas do corpo, à casa do avô.
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*Trechos do livro-reportagem “Lázaros – Histórias de portadores de hanseníase no Estado de São Paulo”, apresentado como projeto de conclusão do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em 2006, em parceria Juliana Albuquerque, Luiz Ricardo Silveira e Rodrigo Rodrigues.
Helder Júnior tem 26 anos e é natural de Santos (SP). Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalha no Portal Gazeta Esportiva.Net e na Agência Gazeta Press desde 2005. Também já escreveu para o Portal Terra e para as revistas Getúlio, Diálogos&Debates e Visão Jurídica, além de ter colaborado com contos do livro Sete Doses, publicado em 2010.