São Paulo, 10 de outubro de 2008
O biopoder dos Castro
(uma conversa por e-mail entre Régis Bonvicino e o poeta cubano Pedro Marqués de Armas)
Por que Fidel e Raúl não libertam seus duzentos presos políticos? Entre eles, há quarenta condenados à morte e vinte e dois jornalistas. Lembre-se que Fidel e Raúl fuzilaram (além das mortes induzidas pelo mar e pela fome) quatro mil e trinta e oito pessoas desde 1º de janeiro de 1959 até 2003. Dados disponíveis em qualquer website de direitos humanos. Lembre-se que o Código Penal ilhéu sanciona, com penas de reclusão, quem se encontra para discutir economia ou eleições ou para pedir, sem violência, liberdade aos prisioneiros políticos. Havana está cheia de “buzos” (mergulhadores) – doutores cubanos que vasculham latas de lixo à noite.
Proponho, para usar a mesma linguagem, a Raúl e a Fidel – essas excrescências – que não só libertem seus prisioneiros políticos mas também suspendam proibições, como as impostas a Yoani Sánchez, webmaster do blog GenaraciónY, de receber o “Premio Ortega y Gasset”, do jornal espanhol “El País”, e a Cuesta Morúa de participar de Congressos socialistas. Sobre Sánchez Fidel afirmou que não a deixaria receber o prêmio, porque oferecido pela imprensa neoliberal, que “solapa o comunismo”.
Pedro Marqués de Armas, 43, é um dos melhores poetas não só cubanos mas de toda a língua espanhola. Viveu como um pária na ilha, por ser dissidente “literário”, até exilar-se na Itália em 2001, com apoio do Parlamento europeu. Em breve, um de seus livros, “Cabeças”, será lançado no Brasil pelas Edições Sibila. Hoje, esse médico psiquiatra, que estuda o suicídio em Cuba, reside e trabalha em Barcelona, tentando retomar sua carreira profissional. Ele não acredita em transição democrática e pacífica em Cuba. Publicou os livros de poesia: Fondo de ojo [1988], Los altos manicomios [1993] e Cabezas [2001] e o ensaio Fascículos sobre José Lezama Lima [1994]. Foi redator da revista alternativa Diásporas, publicada em Cuba entre 1997 e 2003. Poemas e ensaios seus saíram no Diario de Poesía, Crítica, Tsé-tsé, Encuentro de la Cultura Cubana, Lichtungen ou Oficina de Poesia. Entre 2005 e 2007 residiu em Coimbra, ao abrigo do projeto Rede Internacional de Cidades Refúgio.
Régis Bonvicino: Você acredita que Raúl Castro fará uma transição para a democracia em Cuba, com a fundação de partidos políticos novos?
Pedro Marqués de Armas: Não creio nessa possibilidade. A lógica do sistema totalitário cubano é, e seguirá sendo, exclusivamente política. Morto Fidel, Raúl tentará promover mudanças econômicas tangíveis (as de agora são farsas), no entanto, aumentando – simultaneamente – o controle e a repressão. E, se essas mudanças implicarem qualquer risco para o sistema, serão cortadas. Uma transição para a democracia só será possível depois da morte dos irmãos Castro, isto é, de quem encarna o “biopoder” em Cuba, por quaisquer que sejam as causas.Régis Bonvicino: O novo Presidente dos EUA terá papel decisivo em alguma transição cubana?
Pedro Marqués de Armas: Quem deve ter papel central na transição cubana são os cubanos. Quando está em jogo um desastre de meio século, são os cubanos que devem acelerar o processo de reconciliação nacional. Isto implica que se reconheçam – publicamente – os crimes e o sofrimento causado às pessoas e que, também, as liberdades se tornem concretas e falem diversas linguagens. O papel dos EUA e da Europa são importantes do ponto de vista humanitário e econômico, mas nem um nem outro pode ser protagônico. A reconciliação cubana deve, por outro lado, ser um processo de reafirmação de sua nova soberania democrática no mundo.Régis Bonvicino: Há partidos políticos nos múltiplos exílios cubanos?
Pedro Marqués de Armas: Existem partidos e numerosas organizações em todos os exílios cubanos: EUA, Espanha, França, Suécia etc. Por exemplo, União Liberal Cubana, Partido Democrata Cristão, Coordenação Social Democrata de Cuba, Diretório Democrático de Cuba, Partido da Renovação Ortodoxa, The Cuban American Nacional Foundation, entre outros.Régis Bonvicino: É possível a existência de um partido social democrata numa Cuba sem operários?
Pedro Marqués de Armas: Há mais de dez anos existe o Partido Social Democrata em Cuba, de dimensão nacional. E há sindicatos no país, dependentes do Estado, sem moral para o trabalho, infelizmente. O importante, todavia, é que haja uma esquerda democrática forte em Cuba – muito distinta da castrista – para equilibrar a avalanche neoliberal que a tomará. Essa esquerda deve se preparar para os novos desafios sociais que estão por vir.Régis Bonvicino: O fato de Yoani Sánchez não ter sido autorizada a sair de Cuba para receber o “Premio Ortega y Gasset” é sintoma de que os intelectuais e artistas cubanos ainda seguem censurados e perseguidos?
Pedro Marqués de Armas: Óbvio. O regime castrista sempre meteu seu focinho na vida dos intelectuais e artistas independentes. Todos são controlados. Sánchez é muito lúcida a respeito disso e, então, não lhe permitem sair da ilha e o próprio Fidel a desmerece e incita hackers a atacarem seu blog. Há poucas coisas mais terríveis, como observa Michel Foucault, do que o “poder de desqualificação” dentro de um sistema totalitário e, acrescento, do sistema cubano.
Dois poemas de Marqués de Armas:
Clarabóia
e sem embargo
segue gente trepando
pela escada (que dava)
em vazio (ou que dizem) quedava
junto ao gancho maior
(Mandrágora)
No limite interior da fronteira, que outros
preferem chamar beco sem saída, — B. se
matou.Claro que todas as fronteiras são mentais
e no caso de B. melhor seira falar de duas.De modo que B. se matou entre o limite
interior e a crista de um pensamento que
já não se lhe desviava.Para catapultar-se, tomou aquelas
pequenas raízes de um alcalóide que
havia classificado, e, lançando-se sobre
o catre de troços fusiformes, por fim
encontrou o que buscava: rua de mão
única na qual todos os números estão
apagados, e os brancos pedúnculos
mentais se desvanecem em uma matéria
de sonho.
Tradução de Marcelo Flores
*esta matéria foi publicada originariamente no jornal eletrônico Último Segundo. Agradecemos ao autor e ao Jornal a autorização para republicá-la aqui.