O menino e o monge
Capítulo 6
(último capítulo)
Tristeza
Após o jantar, que mal tocara, Jongir sentiu-se mal. Levantou-se da mesa cansado, sedento e com frio. Foi andando pelos corredores, triste a abatido, em direção ao seu quarto, ao seu novo quarto, com uma enorme saudade de algum outro lugar que ele não conhecia, mas imaginava que existia. Apertou contra o peito o papel que o Oráculo lhe dera, e pensou que quando o iaque virasse gente de novo, eles poderiam passar mais tempo juntos.
Odiou Kam. E ao mesmo tempo se puniu um pouco pelo sentimento de ódio que sentia. Um ano rezando, meditando, e agora, de repente, se deparava com essa raiva de Kam. Pensou em procurar Bangor, mas sentiu-se pouco à vontade. Afinal o monge deveria também estar cansado e já passara o dia todo com ele.
Abriu lentamente a porta do quarto, e esta lhe pareceu muito pesada. Colocou na mesa a lamparina que carregava. Olhou em volta de si e quis gritar, chamar por alguém. Não gritou. Apenas fechou a porta atrás de si, ouvindo-a ranger, se jogou na cama e chorou.
E depois de chorar, dormiu.
Febre
E dormindo, mergulhou num sonho aonde, sozinho, andava pelas montanhas. Bandos de pássaros passavam por ele e gritavam seu nome. De repente eles começaram a soltar fitas pelos bicos e com elas formaram uma escada. Jongir subia lentamente por essa escada, olhando para baixo, e ao chegar ao seu fim, viu Kam caminhando com alguém que ele não sabia quem era. Desceu correndo e ao chegar lá embaixo Kam havia desaparecido. Saiu correndo na direção em que achava que o noviço poderia estar e tropeçou numa pedra. Quando ia cair ouvia alguém chamando por ele:
— Joooongggirrrrr, abre logo a janela que está frio.
Ele acordou assustado e abriu os olhos.
— Droga, é Rinchen aí fora. Droga de iaque! Droga! Droga! Está aberta, é só empurrar e entrar.
— Opa, disse o iaque, todo sorridente, e pulando para dentro do quarto.
— Opa, respondeu o garoto, encolhido embaixo das cobertas.
— Xiiii...Não estou gostando nada...Essa sua voz...
— Está tudo bem, só que estou com muito frio e queria continuar dormindo. Sabe, essa sua mania de vir aqui de madrugada....Porque não podemos conversar à tarde?
— Eu tenho insônia, retrucou o iaque, e à tarde eu durmo....Além do mais, alguém poderia nos ver...iriam achar que você fala sozinho.
— Me faz um favor? Pega um pouco de água pra mim. Está na moringa. Estou morrendo de sede.
Rinchen pegou a água e quando entregou o copo a Jongir, reparou que o menino estava muito vermelho e tremia muito.
— Jongir, você está doente....E encostou seu focinho gelado na testa do menino. E está com muita febre, muita mesmo. O que aconteceu?
— Não sei...não deve ser nada...
— Febre muito alta mesmo. Você espera eu ir buscar uma coisa?
— Claro que espero. Antes de ir me dá mais um pouco de água.Assim que o garoto terminou de tomar a água de novo apareceram os pássaros do sonho, e Jongir disse-lhes que trouxessem a escada para perto, para que ele tentasse de novo subir. Mas os pássaros não o ouviam ou não lhe davam atenção e, mais e mais, se distanciavam. Então Jongir ouviu a voz de Rinchen, e depois da voz, voltaram os pássaros, vezes e vezes e vezes.
Muitas vezes mais.Até que acordou com uma sacudidela:
— Toma, beba isto, disse Rinchen, e estendeu-lhe um copo com um líquido de aspecto repelente.
O menino abriu os olhos devagar:
— Rinchen...amanheceu?
— Amanheceu, anoiteceu e amanheceu outra vez. Você delirou mais de 24 horas. Mas, está bem agora. A febre cedeu.
— Nossa, o que aconteceu comigo?
— Acho que você está estressado.
— E o que é isto aqui? perguntou o garoto olhando o copo.
— Cascas de briófitas selvagens e quelidônias, com um pouco de alho e gengibre. Também tem folhas secas de eucalipto e ovos de ganso, além de cauda de...
— Pode parar. Eu tomo, mas não diga mais nada. É para abaixar a febre?
— É para um monte de coisas, mas sobretudo pra fortalecer você.
Jongir tomou tudo e olhou em volta:
— Tem alguma coisa para comer?
— Claro, e o iaque deu a ele um prato de sopa que estava em cima da mesa. Tem também queijo de soja, sementes de girassol importadas, tem...
— Tem Big Mac?
— O que é Big Mac? perguntou o animalzinho peludo, fazendo cara de espanto.
— Também não sei. Eu sonhei com isso. Em algum lugar do mundo eles comem isso. Queria experimentar. Mas passa a sopa, as sementes, o pão, e tudo mais que tiver.
Jongir caiu de cabeça em cima daquilo tudo. E depois de comer adormeceu outra vez.Quando acordou, viu Bangor sentado à sua frente, com um livro antigo, lendo à luz de uma lamparina. Nada de Rinchen por ali.
O menino espreguiçou e disse ainda sonolento:
— Mestre, que bom ver o senhor aqui!
— Ah, meu rapazinho..que bom digo eu! Que susto você nos deu. Quer comer alguma coisa?
— Acho que preciso de um banho.
— Também acho. A água leva todas as coisas ruins que ficaram em nosso corpo e também nos acalma e nos renova. Muda o nosso estado de espírito.Nisso o iaque bateu na janela, e Bangor abriu-a para que ele entrasse.
— Oi, Bangor, disse o iaque.
— Vocês...se conhecem????? perguntou Jongir.
— Claro, disse o iaque. Desde que você ficou doente começamos a conversar muito.
— Isso, completou Bangor.
— Ah...tá...!!!!!
— Conte a ele a novidade, Jongir, disse Bangor, fechando o livro.
— Novidade??? e o iaque arregalou os olhos.
— Ah, sabe o que é?....nós fomos à casa do Oráculo e ele deu uma receita, Rinchen. É para você virar gente de novo.
O iaque deu um salto e um grito:
— O quê????? Não acredito!!! Ebaaaaaaaa!!!!!
— Verdade. Pega ali no bolso do meu casaco.
O iaque foi até aonde estava o casaco de Jongir, pegou-o, e entregou-o ao menino:
— Pega você, não costumo mexer nas coisas dos outros.
O garoto riu, pôs a mão no bolso, e de lá tirou um papel que estendeu a Rinchen:
— Está aqui. Era isso que você tanto queria. Pronto.
O iaque agradeceu com uma lambida, pulou a janela e sumiu.Bangor levantou-se então e começou a caminhar em círculos pelo meio do quarto. Vagarosamente.
— Jongir, precisamos conversar. Talvez não seja o momento mais oportuno este, afinal você nem sarou direito ainda, mas enfim...se aborrecer você me diga e prosseguimos amanhã.
O garoto olhou para o teto e sorriu satisfeito. Gostava desse jeito do Mestre de abordar as coisas. Sereno, mas ao mesmo tempo um pouco preocupado e, sobretudo, ao seu modo de não querer adiar nada e de nunca minimizar problemas.
— Você conheceu o monastério dos dois lados. Do lado de fora e do lado de dentro. Creio que quando você estava do lado de fora tinha uma visão idealizada daqui. Creio que achava que os monges eram pessoas mais espiritualizadas do que as outras, apenas por serem monges. Viu que nada disso é verdade. Somos como os demais homens. Ninguém precisa de um monastério ou algo semelhante para ser espiritualizado. Muitas vezes fico imaginando como devem ser as pessoas que estão lá fora com tantos problemas. A diferença entre eles e nós é o caminho que cada um escolheu. Por uma razão que não conheço ainda, o meu caminho foi este. Temos um prazer imenso em ter você aqui conosco e gostaríamos que ficasse, mas receamos que seria bom você conhecer mais alguma coisa lá fora. Como são as outras pessoas, o que fazem, como se divertem. Estar aqui não foi uma escolha sua. Foi uma circunstância.
— Mestre, eu gosto daqui, gosto do senhor, gosto desse lugar.
— Esqueceu de dizer que gosta de Kam também. Está magoado, ressentido, e eu entendo isso. Mas gosta dele. Foi ele quem trouxe você para cá.
— Foi sim, mas não porque ele gostasse de mim naquela época. Trouxe porque não ia pegar bem para um monge largar um menino semimorto, abandonado aos urubus.
Bangor deu um largo sorriso:
— Me diz uma coisa, Jongir, você não gostaria de conhecer as meninas da aldeia?
Jongir olhou para o lado, sem graça. O monge continuou:
— Nós nunca falamos de meninas. Eu já sou um velho, mas acho que ainda sei falar sobre isso.
O garoto mais uma vez admirou a leveza e a acuidade de Bangor.
— Mestre, eu não sei o que dizer, eu só conheci uma menina: Yamide.
— E se apaixonou por ela?
— Também não sei a resposta, eu não sei direito como é paixão. Yamide é mais velha do que eu, e jamais teria me notado.
— Isso não impediria de você ter se apaixonado por ela.
À medida que a conversa se adensava a luz da lamparina ia ficando cada vez mais bruxuleante, e as vozes dos dois iam ficando mais baixas e graves.— Acho que não vou poder explicar o que é paixão, disse Bangor. Acho que não vou conseguir. Só mesmo o coração de cada um sabe bem essas coisas. Querer entendê-las ou ensiná-las a alguém é impossível. Sei que ficou claro para mim uma coisa: você e Kam se apaixonaram por ela e por causa disso se distanciaram. Morrem de ciúmes de Yamide.
— Não, Mestre!!!! Eu jamais...
E da voz que havia se elevado saiu um longo suspiro:
— É verdade, Mestre. Se ela um dia tivesse de se apaixonar, seria por Kam e não por mim. Kam é alto, é forte, é bonito. Então eu fiquei com ciúmes. Mas foi Kam quem me expulsou do lado dele. E eu sou um menino.
— Isso não quer dizer nada para o ciúme. Você crescerá rápido e Kam sabe disso. E então aconteceu o seguinte: você tinha ciúmes dos passeios de Kam com Yamide e não contava nada a ele sobre os seus próprios passeios com ela. Kam, por sua vez, também tinha ciúmes, e por isso, acho, mudou você do quarto, com a desculpa de que você precisava ter seu próprio quarto.
Jongir dobrou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos, pensativo:
— Que chato isso..que chato Kam fazer isso...Ele deveria ter falado comigo.
— Claro que foi. Mas se ele fez isso, você tem de entender que ele devia estar sofrendo muito. E ele é duro, não quer dar o braço a torcer. Desde que você e ela se tornaram amigos, ele ficou diferente com todos. Queria lhe pedir que relevasse as coisas um pouco.
O orgulho de Jongir veio com tudo dentro dele:
— Relevar eu relevo, aliás nem briguei com Kam nem nada. Mas não vou esquecer que ele me mandou embora.
— Mas ficou duas noites, aqui do seu lado, enquanto você esteve doente.
O garoto ficou em silêncio.
A fuga
Pouco depois de Jongir ter se recuperado, ele estava em seu quarto estudando quando ouviu um alarido de vozes vindo do corredor. Abriu a porta e deparou com uma balbúrdia de monges descendo escadas, falando alto, olhando pelas janelas, e no meio da confusão Kam gritando para ele:
— Pegue umas roupas, Jongir, porque vamos fugir! Os chineses estão subindo a montanha.
— Para a biblioteca?
— Não, para a biblioteca não! Eles sabem dela à essa altura. Vamos atravessar o desfiladeiro de Thantren, lá existe outro monastério aonde podemos ficar.
Jongir nem piscou, subiu correndo as escadas, pegou apenas uma muda de roupa e um casaco. Desceu ofegante e assustado:
— Kam, você sabe quem avisou os chineses sobre a biblioteca?
— Sei, depois eu digo, vamos indo.
— Aonde está Bangor?
— Já foi, encontraremos com ele mais tarde.
Um a um os monges passaram pela porta principal do monastério e tomaram o caminho do desfiladeiro enquanto Kam fiscalizava a saída para ter certeza de que não havia ficado ninguém lá dentro.
— Vamos Jongir, acho que todos já foram, falta apenas nós.
— O iaque?
— Já foi. Corre.
— E você?
— Eu ainda vou fazer uma coisa aqui, já te encontro na estrada. Vai indo e não me desobedeça.E dizendo isso, Kam começou a tirar palha de um monte que havia ali perto, e a espalhar a palha sobre o monastério. Depois pegou uma lamparina e jogou sobre a palha. Grossas nuvens de fumaça formaram-se rapidamente e o fogo se espalhou numa velocidade espantosa. Um clarão vermelho iluminou a noite. O vento espalhou brasas e levou a fumaça para o alto. O monastério ardia. Arderia ainda nas próximas horas, depois restaria dele apenas um monte de cinzas.
Kam saiu correndo e alcançou Jongir na estrada:
— Vem atrás de mim que eu sei por onde temos de ir.
O menino parou um minuto e olhou para trás, para ver o monastério pela última vez.
Kam apressou-o:
— Rápido, que essa fumaça toda pode nos fazer mal.
Os dois andaram durante muito tempo. Quando olharam pra trás já não viam mais o monastério. Uma nuvem de fumaça e a noite densa encobriam o que havia restado dele.
Aí Kam disse para Jongir:
— Ali, atrás daquelas pedras. Vamos descansar um pouco.
Os dois escalaram algumas pedras e caíram do outro lado delas.
— Ufa, disse Kam. E sentou-se no chão.
Jongir imitou-o, um pouco apreensivo:
— E se os chineses vierem até aqui?
— Aqui é muito alto, não vão aguentar. Vão se cansar logo, vão sentir falta de ar.
— Para onde nós vamos, Kam?
— Olha, fique tranqüilo, nós estamos indo para um outro monastério, muito mais seguro. Amanhã estaremos lá. E lá ninguém vai nos achar.
Nisso ouviram um som familiar. Era o iaque:
— Muito bonito! Não deu pra me esperar né?
— Você sabia que nós viríamos pra cá, respondeu Kam.
— Sabia? perguntou Jongir surpreso.
— Sabia, eu avisei ele na hora do almoço.
— Então estava tudo planejado? espantou-se o menino.
— Estava. Faz meses que estamos mudando.
— Mudando???
— Sim, disse Kam, sorridente, faz quatro meses que, diariamente, eu faço esse caminho. Consegui trazer toda biblioteca para cá.
— E porque não me contaram?
— Você não ia acreditar, disse Kam, passando a mão na sua cabeça.
— Não ia acreditar no quê?
— Se eu contasse o que aconteceu....suspirou Kam.
— O que aconteceu?
— Você faz idéia de quem contou sobre a biblioteca para os chineses?
— Não, respondeu o menino. Quem foi?
— Foi Yamide.
— Yamide???????????
— Ela mesmo, ela mesmo, Jongir.
O iaque deu uma risadinha.
— E ela sabia da biblioteca como? perguntou o garoto.
— O tonto aqui contou, disse Kam, meio sem graça.
— Hahahahahahaha.....E você estava apaixonado por ela, disse Jongir.
— Eu também estava. Nós dois estávamos, Jongir.
— Mas eu não ia ser besta de contar, Kam. E como você soube que foi ela quem dedurou?
Kam apontou o iaque.
— Ele me avisou que ela estava namorando um soldado chinês. E ouviu-a contar para ele.
— E não disse nada pra mim??? Traidor, murmurou Jongir para o iaque. Depois de tudo que eu fiz para você.
— Hehehehe...sorriu o iaque.
— Então o Oráculo tinha razão!!! disse Kam.
— É...interrompeu o iaque...Mas foi sorte. Pura sorte. Porque a porcaria da poção que ele me deu não fez efeito nenhum.
— Você fez a poção? Tomou? perguntou Jongir.
— Claro! disse o iaque. E não aconteceu nada.Enquanto o menino e o iaque conversavam, Kam levantou-se:
— Vou fazer uma fogueira, vamos passar a noite aqui. E não discutam, nem gastem muita energia, porque comida só amanhã quando chegarmos ao novo monastério.
— Estou de regime mesmo, disse o iaque, pouco me importa.
E sentaram-se os três, em frente à fogueira, conversando debaixo da noite estrelada.
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