O Menino e o Monge
capítulo 4
![]()
A surpresa
No dia seguinte uma surpresa esperava por Jongir. Assim que ele entrou na sala, para as aulas, e cumprimentou Bangor, curvando-se respeitosamente, este lhe disse:
— Olá, meu jovem. Esta é Yamide.
Kam olhou para o lado, ainda com a cara inchada de sono, e uma linda jovem, que parecia saída do nada, sorriu para ele. Depois cumprimentou-o, curvando o corpo para frente com muita leveza e graça, as mãos postas no peito.
— Sou Yamide. Que bom conhecer você, Jongir. Bangor estava me falando de você.
O menino ficou maravilhado com a beleza da moça, que parecia ser bem mais velha do que ele. Mas que na verdade não era.
— Sou Jongir, muito prazer, Yamide.
— Bom, disse Bangor, já estão apresentados. Yamide é a filha do nosso jardineiro, mora na aldeia, mas sempre vem nos visitar. Ela nos faz o favor de trazer notícias e cartas, além de nos ajudar, quando necessário, em alguma costura mais difícil. Você vai gostar muito dela. Ela andou fora, visitando uma tia que mora longe, mas, finalmente, voltou para o nosso convívio.
— E como vai Kam? perguntou Yamide a Bangor. Eu não o vi hoje.
— Pareceu-me preocupado com alguma coisa. Não conversou durante o café, disse o Superior.
— É o jeito dele, disse a moça. Bom, eu vou dar uma mexida no jardim, ver se está tudo em ordem lá. Depois da sua aula conversamos, Jongir.
E dizendo isso, saiu com a graciosidade de uma flor, deixando no ar um perfume adocicado, que fez Jongir dizer baixinho:
— Nunca mais vou esquecer esse perfume.
— Falou comigo, Jongir? perguntou Bangor.
— Não, Mestre, desculpe. Pensei alto.Depois da aula o menino foi ao encontro de Yamide, e encontrou-a mexendo em flores e plantas no jardim atrás do monastério. O dia estava particularmente lindo. A presença da moça não permitiu que o iaque se aproximasse de Jongir. Ele ficou ao longe, olhando os dois conversarem, visivelmente contrariado. E quando os dois saíram para andar pelas montanhas, resolveu segui-los, já que não tinha nada de muito especial para fazer mesmo.
— Você conhece tudo sobre flores, Yamide?
— Tudo? Imagine, eu aprendi um pouco com meu pai. Mas o meu parco conhecimento nem se compara ao dele.Ela falou das flores, das montanhas, e dos lagos. Jongir lhe contou que haviam lugares na terra onde a água era salgada e em maior quantidade e volume do que os lagos que eles viam. E que naquelas águas salgadas era possível dar a volta ao mundo todo, de navio. Ela mostrou-lhe pedras que antes ele nunca reparara e explicou-lhe que pedras também têm uma função importante na natureza. Quando pararam no lago ela disse:
— Vem, vamos nadar. O dia está bonito e a água não deve estar muito gelada. Eu vim com uma roupa de banho por baixo dessa.
— Nadar? Será que eu sei nadar?
— É fácil e eu vou te ensinar. Olha aqui.
E dizendo isso Yamide tirou a roupa plaft! pulou na água. Saiu nadando como um peixe.
s Jongir morreu de vontade de fazer o mesmo.
— Da próxima vez eu trago uma roupa para nadar, ele disse.
Yamide nadou por um bom tempo até que resolveu sair do lago, e foi se trocar atrás de umas pedras.
Quando voltou, pôs as mãos na cintura e disse:
— Sabe que tem um chato de um iaque atrás da gente?
— Não ligue para ele. Quando Kam me encontrou ele começou seguindo a gente e ficou por aqui. Ele é legal.
— Mas não se toca, não é? Não gosto de gente bisbilhoteira e menos ainda de iaques xeretas...
E olhou feio em direção a uma pedra aonde só se viam os dois chifres de Rinchen.
Quando ela se virou ele mostrou-lhe a sua grossa língua de iaque.
A reunião
Kam chamou todos os monges e contou o que o Oráculo havia falado. Eles se entreolharam e depois voltaram os olhos para o noviço.
— Sei o que vocês estão pensando. Que eu fui imprudente em ter mostrado a biblioteca a Jongir. Que ele pode ser a pessoa que, no futuro, poderá nos trair. Mas também pode não ser.
Lethi, um dos monges, que nunca simpatizara muito com Kam, aproveitou para criticá-lo:
— Você é muito impulsivo, Kam. Devia ter-nos consultado antes de mostrar a biblioteca ao garoto. Afinal, ele é um estranho. Essa história de perder a memória...
Os outros se entroalharam. Uma dúvida havia sido lançada. E ninguém conhecia Jongir. Ninguém sabia nada a respeito dele.
— Eu consultei Bangor e ele me autorizou, retrucou Kam.
Todos olharam para o Superior, que tomou a palavra:
— Concordo com Lethi. O menino é um estranho. O que não significa que ele vá contar aos chineses sobre o nosso esconderijo. Afinal, ele é tão tibetano quanto nós. E também não podemos começar a desconfiar uns dos outros, achando que há entre nós um traidor. Ou melhor, um futuro traidor. O que ganharíamos, o que cada um, particularmente, ganharia revelando aos chineses o nosso segredo? Proponho que examinemos com cuidado os lugares sombrios das nossas mentes e almas, à procura das nossa fraquezas. E há uma outra coisa: a possibilidade do Oráculo haver se enganado.
Era a primeira vez que alguém duvidava do Oráculo. Pelo menos em voz alta. Todos os monges olharam para Bangor, um pouco espantados.
Lethi tornou a falar, secamente:
— Não temos notícia do Oráculo haver errado.
Bangor retrucou:
— Isso não quer dizer que ele tenha de acertar sempre, indefinidamente. Ou que o rumo das coisas não possa ser mudado. Se temos de colocar o menino sob suspeita, devemos fazer o mesmo com todos nós e com o Oráculo.
Lethi estava com o semblante alterado, mas teve de concordar com o velho monge.
— Alguém quer dizer mais alguma coisa? perguntou Bangor.
Todos balançaram a cabeça negativamente.
— Então vamos às nossas práticas de meditação. Precisamos mais do que nunca.Depois do jantar, Kam chamou Jongir:
— Parece que complicou um pouco.
— Desconfiam de mim, não é? perguntou o menino.
— Acho que todos vão desconfiar de todos agora. Não só de você. A conversa com os monges foi pesada.
Jongir olhou para o chão meio chateado.
— Mas sempre serei o principal suspeito.
O monge pôs a mão no ombro dele:
— Me promete uma coisa, Jongir?
— Se eu puder cumprir, prometo.
— Se você souber de algo, se ouvir alguma coisa estranha, me conta imediatamente tá?
— Claro, Kam, claro.
links para:
capítulo 5
capítulo 6
capítulo 1
capítulo 2
capítulo 3