O Menino e o Monge




capítulo 3

Os monges

No dia seguinte os monges mais velhos sentaram-se à mesa, ao redor do superior, que segurava uma roda de orações na mão, e cujo nome era Bangor, e conversaram, longamente, sobre o menino.

Ficou decidido que ele ficaria no monastério, até que se lembrasse quem era, ou, caso isso não acontecesse, até que crescesse e decidisse o que faria da sua vida. Enquanto estivesse ali, com os monges, ele ajudaria nos trabalhos mais simples, adequados a um menino da sua idade, e estudaria.
Bangor iria ensinar ao garoto os sutras, gramática, religião, história, poesia, canto. Kam ensinaria física, química, biologia e matemática. Jongir teria também de aprender a fiar, pois eles mesmos faziam suas roupas.

Também ficou decidido que ele passaria a dormir com Kam.

 

O pedido

Já eram quase nove horas da noite quando Jongir levantou. Ele havia dormido o dia inteiro. Ao abrir a janela, viu Kam debruçado no parapeito do terraço e foi até lá, com a cara inchada de sono.
— Olá, Jongir. Descansou?
— E como descansei, Kam, e como!
— Está vendo aquelas luzes lá embaixo? É a nossa aldeia.
— E se os chineses vierem até aqui? perguntou Jongir.
O noviço levou um susto com a pergunta.
—O que você sabe sobre os chineses? Quem conversou com você sobre eles? Você viu algum chinês? continuou Kam, bastante intrigado.
Jongir se deu conta que havia falado demais e tentou consertar:
— Eu não sei de onde eu tirei isso... não sei mesmo.
— Não sabe???
— Não, não sei. Talvez eu esteja começando a lembrar de algumas coisas...Você não me respondeu: e se eles vierem?
— Não virão. O caminho é difícil e acidentado, e para quem não o conhece bem quase impossível. Poderiam vir uns dois ou três, mas nós os veríamos subir e teríamos como nos defender.
— Vocês têm armas?
Kam pensou um pouco antes de responder:
— Não temos as armas convencionais que você imagina. Não temos fuzis, nem canhões, mísseis, ogivas nucleares. Mas garanto que nos defenderíamos.
— Como? perguntou o garoto.
— Nos escondendo.
E dizendo isso Kam deu um sorriso e mudou de assunto:
— Já que você vai ficar aqui com a gente, eu e Bangor vamos nos encarregar da sua educação. Você vai estudar matemática, química, física, biologia, gramática, literatura, poesia, línguas, enfim, um monte de coisas. Vai aprender a fiar, pois terá de fazer suas roupas. Nós também cozinhamos, plantamos, colhemos, cuidamos dos búfalos, dos iaques, dos porcos, dos cães. Quando você crescer, ou quando se lembrar de quem é, veremos o que acontecerá.
Jongir ficou um pouco pensativo, deitou a cabeça no parapeito e pensou consigo mesmo, um pouco chateado: “ estudar...eu nem me recuperei ainda da perda da memória e vou ter de estudar....”

E tentando desviar a atenção do noviço da palavra estudo, perguntou:
— Você sempre morou aqui, Kam?
— Vim para cá há sete anos. Quando tinha treze.
— E você tem família?
— Tenho, mas todos fugiram para a Índia.
Jongir percebeu que a entonação da voz de Kam ficou diferente, um pouco mais grave e baixa, por isso mudou de assunto:
— Sabe, eu notei que o iaque que nos seguiu ontem ainda está zanzando por aqui.
— Também notei. Ele não parece muito disposto a ir embora. Agora vamos tomar uma sopa quente e ver as coisas que separei para você: pincéis, roupas, tintas, uma lamparina.

Mais tarde quando todos foram dormir e Kam saiu para a biblioteca, o iaque bateu na janela:
— Jongir....
— Oi, Iaque! Sabia que você viria. Olha o que eu guardei para você!
E dizendo isso, Jongir tirou debaixo do travesseiro, um pedaço bem grande de queijo e pôs na boca do iaque, que rapidamente o mastigou e engoliu.
— Hummmm....bom...tem mais?
— Pára de ser guloso. Você está muito gordo. Precisa fazer regime.
— Eu agora sou um iaque e iaques não fazem regime.
— Mas quando você se livrar do feitiço e virar gente outra vez vai estar enorme de gordo. Acho melhor você começar a andar mais em vez de ficar parado o tempo todo.
O iaque ficou meio chateado com a observação:
— Você acha é?
— Claro. E antes que eu me esqueça, qual é o seu nome mesmo?
— Rinchen. Agora preste atenção: você precisa ir à biblioteca do monastério, e descobrir nos livros de magia como eu faço para virar gente de novo.
— Muito simples mesmo...Eu mal cheguei aqui, ainda não conheço ninguém além de Kam, e já vou me espalhando e fuçando a biblioteca. E por acaso, eu vou recuperar a memória com esses livros?
— Espero que sim, respondeu o iaque. Não sei se a sua memória tem algo a ver com a poção que eu preparei. Pode ter acontecido alguma outra coisa.
— E se na biblioteca não tiver esses livros que você precisa?
— Tenho certeza que tem.
— E se não tiver? insistiu Jongir.
— Aí pensaremos noutra coisa. Talvez a gente precise da ajuda de Kam.
— Está certo, assim que der, que me mostrarem a biblioteca, que me deixarem circular por ela, eu procuro. Livros de magia, né?
— Isso mesmo, sorriu o iaque .
— Quero deixar bem claro que não estou nem um pouco convencido dessa história toda. Só vou saber o que aconteceu mesmo quando recuperar a memória. Isso de ter um iaque como irmão....
— É melhor você ter um irmão-iaque do que irmão nenhum, disse o animal.
Jongir pensou um pouco.
— Não sei não...


A biblioteca

Embora Jongir não acreditasse muito nessa história de livros de magia e fórmulas que deram errado, passou um bom tempo animado com a perspectiva de poder recuperar a memória. Dia e noite ele não falava em outra coisa a não ser na biblioteca. Bangor dizia-lhe que, quando chegasse a hora Kam o levaria até ela. Claro que o menino bisbilhotou o monastério inteiro, e não encontrou nada. A biblioteca parecia pertencer ao terreno dos mistérios, e também por isso era muito sedutora.

Uma noite, Jongir estava no terraço, seu lugar predileto, quando ouviu passos atrás de si. Era Kam que se aproximava, silencioso, trazendo consigo duas lamparinas. O monge parou à sua frente e estendeu-lhe uma:
— Pega aqui. Sabe aonde nós vamos agora?
— Aonde? perguntou o garoto.
— À biblioteca.

O coração do menino acelerou, suas faces ficaram vermelhas, e ele abriu um sorriso enorme ao pegar a lamparina da mão do rapaz. Finalmente ia conhecer a biblioteca.
— Me acompanha sem fazer barulho, disse o noviço.
Ele saiu atrás de Kam. Percorreram o corredor e, ao final dele, desceram uma escada que dava em um outro corredor, o do segundo andar. O monastério estava em completo silêncio. Depois de atravessarem o segundo andar, Kam abriu uma porta que dava numa sala com duas mesas grandes. Na parede havia vários desenhos dos olhos de Buda. Kam olhou para o menino e disse:
— O que você vai ver aqui não pode ser dito lá fora, para ninguém, entendeu? Ninguém sabe da existência desse lugar. Só os monges, eu, e daqui a pouco você.
O menino fez que sim com a cabeça.
Então Kam tocou com a mão o ponto que ficava no meio dos olhos de um dos desenhos de Buda, e uma porta se abriu. O rapaz ergueu a lamparina bem alto e chamou Jongir:
— Vamos. Toma cuidado com a escada, que lá dentro é escuro.
O menino olhou extasiado:
— Uma passagem secreta!!!

Depois que os dois atravessaram a porta, Kam tocou numa roda de oração desenhada na parede interna e ela se fechou. Não fosse pela luz da lamparina e tudo estaria na mais profunda escuridão.
— Kam...murmurou o menino.
— K a m m m m , respondeu o eco.
O monge percebeu que Jongir estava um pouco assustado. Desceu bem devagar para evitar que ele escorregasse e caísse. A escada fora construída em dois planos. Na metade dela, existia um patamar e uma curva para a esquerda. À medida que desciam, um forte cheiro de mofo subia às suas narinas. Quando a escada acabou, eles se encontraram numa sala muito grande, cheia de estantes, com várias mesas bem largas. Em cima delas haviam pergaminhos, papéis, livros abertos, penas e tinteiros.
— Esta é a sala principal, disse o monge.
E, solenemente, sentou-se e começou a manipular o líquido dos vidros, passando-os de um para outro, enquanto o menino olhava fascinado. Sem tirar os olhos do que fazia, o monge explicou:
— É para que a tinta não empelote. Ela deve manter a consistência. Bobagem eu fazer isso, porque fiquei a tarde inteira aqui e verifiquei todos os tinteiros. Mas não custa nada.
E continuou:
— Este é o nosso esconderijo. Caso os chineses cheguem até o monastério. Nenhum soldado iria se lembrar de procurar uma passagem secreta. E isso nem deve passar pela cabeça dos chineses.

— E se puserem fogo em tudo? O fogo não chega até aqui? perguntou o menino.
— Não, a parede isola bem o fogo. Pode esquentar muito, mas não atravessa a parede.

Quando acabou de mexer nas tintas, Kam levantou-se:
— Toda a nossa sabedoria está aqui. Muitos de nós conhecem algumas línguas ocidentais — inglês, francês, italiano — por isso temos vários livros que vieram do ocidente.
O jovem monge pigarreou e continuou:
— Nesta primeira estante estão os textos sagrados tibetanos.
As prateleiras eram bem altas. De vem em quando um minúsculo inseto passava entre os livros.
— Nas estantes do outro corredor, matemática, física, ciências. Depois, no terceiro corredor, poesia, literatura, gramática. Vem cá.
O garoto seguiu-o. Kam tirou um livro, e leu um poema para Jongir.
— É Milarepa, nosso principal poeta.
— Muito bonito aqui, disse Jongir, sempre olhando para os lados, para cima, para baixo. Você vem sempre aqui, né Kam?
— Sempre que posso, claro. Comecei a estudar medicina em Lhasa. E quero continuar aprendendo, mesmo sozinho. Acho que logo poderei montar um herbário aqui no monastério.
— Aaaahhhh....disse Jongir, lembrando do iaque e da história do herbário do seu pai.
— O que foi? e Kam virou-se para ele.
— Nada.... É que eu....
— Você o quê?
— Às vezes acho que vou me lembrar de alguma coisa....e quando vou ver não lembro...
— Não se aflija com isso, um dia a lembrança volta.
— Você entende de ervas, Kam?
— Mais ou menos. Mas não quero que você comente isso com ninguém.
— Porquê? quis saber o garoto.
— Porque eu continuo aprendendo com o Oráculo e ele não quer que ninguém saiba.
— O Oráculo? quem é o Oráculo?
— O Oráculo é a pessoa que nos transmite os recados dos deuses.
Jongir fez uma cara de quem não estava compreendendo nada, e Kam continuou:
— Algumas vezes os deuses nos mandam mensagens, e escolhem alguém para transmiti-las. Olha aquela estante ali. Vou te mostrar os livros ocidentais. Dizendo isso, Kam pegou um livro grosso, cujo título era História da Magia e o mostrou a Jongir, que achou muito bonita a capa de couro vermelha com letras douradas.
— Este livro, continuou ele, está escrito em latim. Era a língua do ocidente no que eles chamam de Idade Média.
— Idade Média?
— Eles dividem a História do Mundo de uma forma diferente da nossa.
— E onde se fala latim?
— Não se fala mais latim. É uma língua que é necessário conhecer o básico porque deu origem a outras, e porque coloca-se nomes científicos em plantas e animais, em latim, uma convenção entende? Mas falar mesmo, ninguém fala. É uma língua morta.
Os dois continuaram por ali, vasculhando tudo, andando por corredores labirínticos, e ao fundo de cada um deles havia uma mesa, e em todas elas uma lamparina apagada, uma moringa com água e um copo, tinteiros, papéis, livros espalhados. Kam verificava, ao passar por cada uma, se estava tudo em ordem.

— Você fala alguma língua ocidental Kam?
— Falar não, mas leio bem francês.
Então puxou um livro grosso de uma das estantes.
Sentou-se à mesa e chamou o menino:
— Olha aqui. É um atlas. Aqui é a França e lá se fala francês. Aqui é a Bélgica aonde também se fala francês e aqui o Canadá. Nós estamos aqui, e apontou com o dedo.
— Será que um dia poderemos conhecer a França?
— Acho que sim.
— Aquele livro de magia que você me mostrou, disse Jongir, tirando os olhos do atlas, que fala sobre magia é em francês?
— É em latim.
— E ensina a gente a transformar pessoas em bichos?
— Hahahahahhahahahah! Kam riu muito. Para que você quer transformar pessoas em bichos?
— Foi só uma pergunta....Ensina isso? Há algum livro tibetano que ensine?
— Sabe, Jongir, magia aqui para nós, tibetanos, faz parte da tradição oral. Não se ensina em livros. Não se escreve livros sobre isso.
— Porquê?
— Porque esses conhecimentos, se escritos, podem cair na mão da pessoa errada. Então são transmitidos oralmente. Os magos, ao escolher um discípulo, vêem bem que tipo de pessoa é.
— Então não vou aprender a desfazer feitiços?
— E para que desfazer feitiços?
— Andei pensando...E se eu perdi a memória porque alguém me enfeitiçou?
— Porque alguém iria te enfeitiçar? Porque alguém faria isso?
— Isso eu não sei...
E o menino resolveu ficar quieto, porque Kam sempre perguntava muitas coisas e ele tinha medo de sem querer acabar falando do iaque.

— Agora eu vou te mostrar os livros que nós fizemos. São estes.
Kam tirou de uma estante livros que eram tiras compridas de pergaminho, e mostrou-os ao menino. Cuidadoso, Jongir pegou um deles e levou-o perto da lamparina.
— Vou aprender a fazer um desses?
— Vai sim.

Nisso ouviram um barulho. Parecia uma ave voando.
— Não se assuste, disse Kam. É só um barulho. Isso sempre acontece quando o Oráculo precisa falar com um de nós. No caso, eu. Amanhã vou procurá-lo.
— Posso conhecer o Oráculo?
— Vou ter de falar com ele antes, perguntar se posso levar você até lá.
Então Kam subiu em uma escada, até alcançar a última prateleira, retirou de lá um livro e mostrou-o à Jongir:
— Botânica. Propriedades medicinais das plantas. Olha este outro aqui: pássaros.
Jongir olhou para o livro cheio de figuras e deu um longo bocejo. Pediu para ver o de botânica, pois pressentiu que seria aí que teria de começar sua pesquisa.
— Posso ir ler na mesa?
— Claro, disse Kam.
O menino foi muito devagar até a mesa com o livro de botânica e sentou-se.

Começou a folhear o livro, suas pálpebras começaram a pesar, ele ainda ouviu o barulho de uma ave voando e pensou: será que o Oráculo vai falar com Kam agora?
E dormiu.

Quando acordou, viu Kam na cabeceira da mesa, anotando fazendo anotações em um papel. Ficou olhando, com os olhos entreabertos. O monge nem percebeu que ele havia acordado.
— Oi Kam...eu dormi, acho.
— Dormiu e muito. Já são oitos horas. Do dia seguinte, claro.
— Nossaaaaaa..Dormi tudo isso?
— Sim, disse Kam.
— Eu acho que foi o livro de botânica, aquele que tinha um cheiro estranho.
— Não foi não. Você estava cansado, apenas isso.
— E você? Não dormiu?
— Claro que dormi. Eu deitei no chão e dormi. Acordei faz uma meia hora.
Jongir espreguiçou, aproximou-se e falou baixinho no ouvido de Kam:
— Onde é o banheiro?

 

A profecia

Lá fora o sol brilhava e a primeira pessoa que Jongir viu ao sair foi Bangor, que veio sorrindo ao seu encontro.
— Olá, Jongir, dormiu bem? Que cara amassada...Aposto que dormiu na mesa da biblioteca!
— Como o senhor sabe?
O velho monge apenas sorriu:
— Vai comer alguma coisa, espero você na sala de estudos.

O menino foi correndo tomar o seu café da manhã. Que na verdade era chá. Um chá muito gostoso com bolinhos de semente de girassol, queijo de iaque e frutas. Que ele devorou. Depois ficou meio envergonhado de haver comido tanto. Em seguida foi encontrar Bangor na sala de estudos.

— Você precisa estudar mais matemática, Jongir.
— Eu vou melhorar, prometo. Agora, posso perguntar uma coisa, Mestre? O senhor sabe alguma
língua ocidental?
— Não me diga que você quer aprender uma língua ocidental?
— Ah, quero sim....Sabe, ontem Kam me mostrou uns livros escritos em latim. E fiquei com vontade de aprender, para ler aqueles livros todos.
— Não se fala mais latim no ocidente, hoje em dia. Nem no ocidente, nem em lugar nenhum.
— Mas acho que seria bom, de qualquer jeito.

Depois do almoço Jongir saiu atrás do iaque pra contar sobre a noite na biblioteca. Encontrou-o perto do lago.
— Oi, Jongir, como estão as coisas? Alguma novidade?
— Oi, Iaque.
— Meu nome é Rinchen. Eu já disse mais de mil vezes. R-i-n-c-h-e-n.
— Olá, Rinchen.
— Isso...
— Bom, eu estive na biblioteca ontem à noite. Na verdade, até dormi lá.
O rosto do iaque se iluminou.
— Mas...continuou o garoto.
— Mas?
— Kam disse que a verdadeira magia pertence à tradição oral. Mas eu achei uns livros em latim. Só que não leio latim e demora para aprender.
— Eu sei um monte de coisas em latim. Papai me ensinou, seu tonto. Pegue os livros e traga aqui que eu leio.
— Ficou louco, é? Você acha que eu vou ter permissão de trazer aqueles livros para cá?
— Bom, então copie o que está escrito.
— Copiar???? Copiar aquela letra complicada dos ocidentais? São milhares de livros...Eu demoraria séculos fazendo isso.
— Milhares é exagero....
— Se fosse apenas um, pense no tempo que isso demoraria. Vamos ter de achar outro meio. E o Kam? Que tal falar com ele sobre isso?
— Acho muito cedo. Vou pensar melhor no assunto.

Naquela noite, Kam entrou no quarto e ficou andando de um lado para outro. Depois sentou-se na cama, os cotovelos nos joelhos, o olhar perdido num ponto qualquer da parede.
— Jongir, escute bem.....Fui ver o Oráculo. Ele disse que recebeu uma mensagem que dizia que alguém pode contar aos chineses aonde está escondida nossa biblioteca.
— Alguém quem, Kam?
— Não sei quem é esse alguém. Só nós, os monges mais velhos, alguns poucos noviços, e agora você, é que sabemos aonde ela está. E eu não tenho nenhuma razão para duvidar de alguém. O Oráculo disse que essa pessoa pode, sem querer, é claro, cair numa armadilha. Vou ter de reunir todos e conversar com eles.
— Kam, como é isso mesmo do Oráculo?
— Ele apenas ouve uma mensagem dos deuses e transmite a nós. Como ele ouve, eu não sei.
— Você está preocupado?
— Muito. Chegar aqui não é impossível. É apenas difícil. Agora, chegar aqui com a informação de que existe uma biblioteca escondida seria o fim. O nosso fim. E depois o fim de todos os nossos livros, o que significa que um pouco da nossa cultura estaria, mais uma vez, morrendo.
— E se o Oráculo se enganou, Kam?
— Vamos jogar com a possibilidade dele não ter se enganado.
— Logo agora que eu cheguei acontece isso. Vai sobrar pra mim, já vi tudo.

Kam nem ouviu a última frase. Deitou-se, disse boa-noite, e apagou a lamparina.


links para:

capítulo 4

capítulo 5
capítulo 6
capítulo 1
capítulo 2