O Menino e o Monge

Capítulo 2


O monastério

 

Um muro de pedras, com uma porta de madeira, cercava o Monastério de Lukhin.

Kam empurrou-a e abriu-a de par em par. Jongir olhou para dentro, admirado:
— Que bonito!

E tinha razão. Era um edifício colorido, de três andares, com terraços muito amplos que contornavam os aposentos. O terreno era muito limpo, com um jardim de areia na frente. Atrás havia um outro, cheio de plantas.

Parados na porta, alguns monges, alegres, acenavam para os dois.

Kam, delicadamente, pôs a mão no ombro do menino, e levou-o em direção à entrada do monastério.
Apresentou-o aos monges e contou-lhes como o havia encontrado. Os monges, por sua vez, alegraram-se com a inesperada visita e trataram de acomodá-lo o melhor possível. Dormiria ali, naquela noite e nas outras, até que se lembrasse quem era. Providenciariam algumas roupas para ele.
E adivinhando sua enorme fome, conduziram-no à mesa aonde seria servido o jantar.

O garoto fez uma reverência com as mãos postas junto ao peito, agradeceu seu bom carma de ter encontrado Kam e os monges e, baixinho, disse uma oração.

 

A primeira noite

Jongir ia dormir no quarto de Kam, que ficava no terceiro andar, e cujas janelas, bem grandes, davam para o terraço que circundava o andar inteiro. No quarto havia um armário de madeira rústica, duas camas, uma lareira, uma mesa cheia de papéis, e um altar com quatro lamparinas acesas e uma vareta de incenso, que deixava no ar um suave perfume de sândalo.
As paredes estavam cheias de desenhos, alguns dos quais Jongir identificava:
— É, não estou tão ruim assim. Algumas coisas eu ainda sei o que são. Aquele ali é o Buda da Compaixão. Maravilha!
Nunca uma cama pareceu tão quente, confortável e acolhedora. O menino mergulhou nela com uma cara que irradiava felicidade. Assim que deitou, fixou os olhos na dança das sombras que as chamas da lamparina, em cima da mesa, projetavam na parede:
— Um pássaro voando pelo céu...
— Um peixe...
— Um...

De repente a porta abriu e Kam entrou, interrompendo os devaneios de Jongir:
— Olá garotão, vou trocar de roupa que a minha está muito suja. Fique deitado, não se mova daí!
E dizendo isso foi tirando a roupa poeirenta e pondo uma calça de flanela e uma túnica comprida. Fazia muito frio e ele agachou junto à lareira, esfregando as mãos uma na outra. Jongir observava tudo sonolento.
— Kam, me diz uma coisa...Se você desistir de ser monge, vai fazer o quê?
Antes de responder o rapaz parou, pensou, olhou as chamas da lareira, suspirou fundo:
— Boa pergunta. Eu estudava medicina em Lhasa, antes da invasão do Tibete, agora nem sei se a faculdade ainda existe.
— Invasão? perguntou o menino sem entender a que Kam se referia.
— Já é tarde, outro dia eu conto a história da invasão do Tibete, disse Kam olhando para o menino, com o carinho de um irmão mais velho. Agora você vai puxar as cobertas até o nariz e dormir. Desconfio que precisa descansar bastante. Ainda vou fazer umas coisas antes de deitar.
— Olha, você não vai acreditar, mas não estou com o mínimo sono. Nem me sinto cansado. Podemos conversar a noite inteira se você quiser. Você quer?
— Com ou sem sono você vai dormir. Eu ainda tenho de fazer umas consultas na biblioteca.
Tudo que Kam falava, falava sorrindo, mas punha na entonação da voz uma seriedade e um vigor tão grandes, que não deixava margem para contestações. Jongir entendeu isso de cara, sabia que nem adiantaria protestar. O jovem noviço chegou até a cama e passou a mão nos cabelos do menino:
— Durma bem, Jongir. Eu vou à biblioteca mas logo estarei de volta, e quando chegar quero encontrar você roncando, está bem?
— Está. Boa-noite, Kam, e muito obrigada por tudo. Por ter cuidado de mim, por ter me trazido para cá, por...
Mas Kam já havia saído do quarto e o menino caiu num sono profundo.

Tão profundo que nem havia lugar para sonhos. Tão intenso que nada parecia poder despertar o garoto. Mas, de repente, lá do fundo desse sono, ele ouviu uma voz:
— Jongiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrr!!! Jongiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrrrr!!! Acordaaaaaa!!!
O menino virou um pouco na cama, mas nem se deu ao trabalho de abrir os olhos. “Deve ser um sonho...Estou sonhando que alguém me chama!”, pensou. E voltou ao mesmo sono profundo de antes.
De novo veio a voz, que a julgar pelo som, estava muito próxima:
— Jongiiiirrr!!! Jongiiiiiiiiiiirrrrrr!!!
Ele se mexeu de novo, mas recusava-se terminantemente a abrir os olhos.
— Deve ser o Kam...murmurou, e na mesma hora voltou a dormir.
— Jongiiiiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrr!!!!
Então ele levantou um pouco o corpo, abriu apenas um olho e se apoiou nos cotovelos:
— Kam? Kam? Onde você está?
Olhou em volta e não viu nada. Nem sombra de Kam. A lareira ainda tinha bastante lenha e deixava o quarto bem aquecido.
— Comi demais. Foi isso. Amanhã como menos, maneiro um pouco. Acho até que ficou feio, os monges podem ter pensado que não tenho educação e eu tenho. Sou apenas um pobre garotinho faminto...hehehe...
Seus olhos de “pobre garotinho faminto” fecharam-se, e ele sentiu que ia mergulhar, de novo, naquele mundo onde nem os sonhos chegam, quando a voz que o chamava voltou, mais intensa e mais forte:
— Jonggiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr.....!!!!!!!!!
Duas batidas muito leves na janela, atrás da sua cama, foram ouvidas. O menino deu um pulo da cama:
— Será possível? Não pode ser Kam batendo na janela!!!
Abriu a janela, e olhou a noite imensa e estrelada à sua frente:
— Kam? É você?

Dois olhos plácidos e amistosos aproximaram-se. Jongir recuou um pouco, assustado:
— Quem está aí?
Sem o menor constrangimento um monte de pêlos apareceu na janela e o iaque, o mesmo iaque que os havia seguido, à tarde, até o monastério, enfiou a cabeça pelo vão que o menino deixara aberto e disse, sorrindo:
— Oi!

Jongir sentou-se na cama, ou melhor, deixou-se cair pesadamente sobre ela:
— Não acredito...Estou tendo um pesadelo! Estou vendo um iaque na janela, dizendo oi...Comi demais. Ou então é o cansaço mesmo.
E lá veio de novo a voz do iaque:
— Não é pesadelo, sou eu mesmo, o iaque de hoje à tarde. Preciso falar com você, Jongir. Me escute. É muito importante.
O menino virou-se, olhou para a cama de Kam, certificou-se de que estava vazia e depois olhou de novo para o iaque, entre o cansado e o resignado:
— Como você sabe meu nome? e pensou: “Bom, pelo menos meu nome deve ser esse mesmo, não inventei”.
— Logo mais você vai saber como eu sei. Posso entrar?
— Entrar? Ficou louco, é? E se o Kam chega e encontra você aqui?
— Está certo, eu não entro. Falo daqui mesmo.
— E seja rápido. E olha, iaques não falam.
— Alguns falam, respondeu o iaque.
“Mas que droga”...conjecturou o menino consigo mesmo, “podia ter me aparecido um anjo, uma deusa, uma criatura etérea, doce, esvoaçante..mas não!...me aparece um iaque gordo e peludo...só comigo acontece essas coisas”.
Olhou bem para o animal à janela, que agora, à luz das estrelas e da lua cheia, mais parecia ter saído de um livro mitológico:
— Escuta aqui, Iaque, antes demais nada, como você chegou aqui?
— Ora, eu segui vocês, não lembra?
— Isso eu lembro. Quero saber como você chegou aqui em cima, no terraço?
— Isso é segredo. Nem adianta insistir que...
— Não estou insistindo.
— Certo, certo. Bom, tenho meus truques.
— Vamos direto ao assunto então. O que você quer me falar?
O iaque pigarreou, olhou para os lados e sussurrou:
— Você sabe quem sou eu?
— Sei, disse o menino, impaciente. O iaque que nos seguiu hoje à tarde!
— Além disso, tem outra coisa...
— Qual, Iaque?
— Eu deveria saber uma maneira sensata de contar isso para não chocar você, mas não sei, então vou ter de ser direto e seco: SOU SEU IRMÃO!
— Rárárárárárárárárárárárá!
A risada de Jongir deixou o iaque desconcertado.
— Qual a graça?
— Rárárárárárárárárárárárá! repetiu o menino. E continuou rindo, divertido da cara sem graça que o iaque fazia.
— Pára de rir desse jeito escandaloso que você ainda vai acordar o monastério inteiro, e preste atenção na história que eu vou contar.
— É verdade, disse o menino, parando de rir. Os monges podem acordar com esse barulho. Meu Deus do céu, isso aqui que está acontecendo é efeito daquela comida toda, só pode ser...Ou então estou com febre... alguma virose que eu peguei.
Olhou fixamente para o iaque:
— Eu sou um menino e você é um iaque! Não há a menor possibilidade de sermos irmãos. Nem meio-irmãos!
— É isso que preciso explicar, respondeu o iaque calmamente. Quando eu contar a nossa história, você vai entender tudo.
— A “nossa” história? Sei, sei..É, está com jeito de virose.
— Eu era um menino como você e virei um iaque. Preciso voltar a ser um menino. Menino não, já sou um rapaz. É isso que quero e preciso lhe contar.

Nisso o vento começou a assobiar muito forte, enregelando os dois, e quase apagou a chama da lamparina, que tremulou. Sombras muito grandes ergueram-se na parede. Jongir teve uma arrepio, e talvez movido pela curiosidade própria dos garotos da sua idade, olhou para o iaque, que agora tiritava, e disse:
— Está bem, pode entrar. Mas se ouvirmos passos no corredor, você sai na hora, ok?
— Combinado, respondeu o animalzinho peludo e..PLAFT! deu um pulo, caindo ao lado da cama. Mas para surpresa de Jongir foi um pulo silencioso. Ele esperava que um animal tão grande fosse fazer um barulhão.
— Aprendi muito na minha vida de iaque...
O menino correu para fechar a janela, e feito isso deitou-se:
— Isso tudo não está acontecendo comigo..Tenho certeza de que é um pesadelo ou o efeito da virose da montanha...Amanhã eu acordo e vai estar tudo ok...
O iaque esticou-se no chão, ao lado da cama:
— Posso contar então?
— Pode. Conta. Estou ouvindo.


A história

O iaque olhou em volta, pigarreou, ajeitou-se no chão, e com uma voz um pouco gutural, compenetrada, de contador de histórias, começou:
— Um dia as tropas chinesas invadiram o nosso pequeno país, e naquele época ainda éramos dois garotos. Crianças o suficiente para não entender o que estava se passando e quais riscos estávamos correndo.
— Nós dois?..interrompeu Jongir, tapando a boca para esconder um sorriso.
— Isso, disse categórico o iaque.
— Sei...
E Jongir riu de novo.
—Será que dá para eu contar sem ser interrompido? perguntou o animal, já meio impaciente.
Com muito esforço o menino fez cara de sério:
— Claro, claro. Me desculpe. Prossiga.

“Como eu estava dizendo, um dia as tropas chinesas chegaram e ocuparam o nosso país. Morávamos na montanha de Dresang. Era um lugar muito chuvoso, nevoento, e cheio de lama. Tínhamos pouca coisa: uma casa, um porco, um cachorro e dois iaques. Nem precisávamos de mais nada. Nossa mãe morreu quando você tinha um ano de idade. Lembro dela muito vagamente. Fomos criados pelo nosso pai e por uma tia, irmã dele, que sumiu quando os chineses chegaram. Papai era um herborista, manipulava ervas e com isso tornou-se uma espécie de farmacêutico do povoado de Dresang. Diariamente ele descia a montanha para ir à aldeia e ao final da tarde voltava. Quando chovia muito ele chegava molhado, enlameado e tremendo de frio. Uma vez ele pegou uma gripe tão forte que pensamos que fosse morrer. A partir dessa gripe, ficou estabelecido que ele faria um quarto a mais no herbário e, aos poucos, todos nós nos transferiríamos para a aldeia. Mesmo porque já estava na hora de freqüentarmos regularmente a escola. Papai resolveu manter a casa da montanha porque ela seria um excelente esconderijo se, por uma infelicidade, os chineses chegassem até o povoado.

Claro que o herbário era um mundo encantado para mim. Eu ficava horas olhando papai mexendo nas ervas, macerando-as, preparando-as, misturando-as e receitando-as para as mais diversas doenças e dores. Ele ficava feliz porque devia ver em mim uma espécie de sucessor. Quando papai saía para ver algum doente mais grave, ou alguém que não podia mais andar, me deixava tomando conta de tudo.

Nesses momentos, sozinho no herbário, comecei a ler os livros que ele tinha, a maioria muito antiga e empoeirada. E fui penetrando, lentamente, naquele mundo, descobrindo que plantas são coisas mágicas, que possuem, entre outras coisas, propriedades curativas, que agem no nosso corpo e no nosso espírito.

Claro que eu lia e assimilava tudo com muita lentidão. Alguns livros estavam trancados num grande armário, no quarto dos fundos, aonde provisoriamente dormíamos até que o nosso quarto ficasse pronto. E esses livros me fascinavam. Coisas proibidas sempre me fascinam. Nesse caso nem era pelo proibido em si, mas porque eu sabia que aqueles livros tão bem guardados deveriam conter segredos fantásticos, que na minha pouca idade eu não poderia entender, mesmo que quisesse.

Lógico que eu era um menino normal, como os demais, que brincava e aprontava. Estou apenas me detendo na parte que vem ao caso, no principal.

Quando o tempo estava bom, subíamos a montanha e dormíamos na nossa casa lá de cima. Que estava meio abandonada, cheia de mato em volta. Mas ainda assim, a casa nos dava a ilusão de termos um esconderijo. Parecia ser inatingível a quem não conhecia o caminho. Tínhamos certeza de que, caso a aldeia fosse invadida, ninguém se atreveria a tentar chegar lá”.

— Você está ouvindo Jongir?
Jongir olhou para o iaque:
— Claro que estou. Pode continuar.

“Na verdade, eu estava pouco me importando com os chineses. A única coisa em que eu pensava, dia e noite, era em como abrir o armário, sem que papai percebesse, para ler os livros proibidos. Até que um dia, descobri um jeito. Era muito simples. Um amigo me ensinou a fazer um molde da chave, em cera. Depois pegava-se o molde e pedia-se ao ferreiro para fazer a chave propriamente dita. Não foi fácil, mas acabei conseguindo. Tive de esperar papai sair e esquecer o molho de chaves, o que custou bastante. Nesse dia peguei a chave e fiz o molde. Eu já tinha uma caixa de cera preparada para isso. Daí foi só pedir ao filho do ferreiro, que era meu amigo e já sabia fazer algumas coisas, que me fizesse uma cópia a partir do molde. Ficou perfeita.

A partir de então, todas as vezes que papai saía e me deixava tomando conta do herbário, eu corria até o armário e pegava um livro. Passei a ler todos os livros “proibidos”. Eram muito velhos, com o pergaminho bem sujo, mas dava para ler. Escolhi aqueles que falavam sobre plantas e magia. Claro que eu não entendia nada do que estava escrito lá, mas passei a anotar uma série de coisas, principalmente as fórmulas. E antes de dormir pegava minhas anotações e relia tudo. Reli tanto aquilo que até decorei boa parte do que havia escrito.

Numa tarde de verão, nós dois, eu e você, sozinhos, subimos até nossa casa da montanha para dar uma arrumada nas coisas. Pouco depois de chegarmos, ouvimos um barulho estranho vindo da aldeia, e uma nuvem de poeira se levantou do chão. Era o Exército Vermelho da China chegando. Milhões de soldados a cavalo. Lá vinham eles. Cada vez mais perto. E quanto mais se aproximavam, mais podíamos distinguir as bandeiras chinesas. Quando entraram no povoado, começaram a atirar para todos os lados e a pôr fogo em tudo. Sabíamos que não iam tentar subir a montanha. Não daquela vez. As armas que carregavam eram muito pesadas e dificultariam mais ainda a subida.

Pouco antes o Dalai Lama havia ido à China e conversado com o presidente Mao, que lhe havia prometido não invadir o Tibete. Mas descumpriu sua palavra, e invadiu o nosso país. O Dalai Lama se refugiou na Índia e muitos tibetanos foram com ele. Outros, como papai, resolveram ficar. Era o carma do Dalai Lama tornar-se nosso dirigente em tempos tão duros. E era o nosso carma ficar.

Naquele dia em que os chineses vieram, papai estava no herbário e morreu. Ou penso que morreu. Talvez até esteja vivo em alguma prisão, talvez tenha conseguido escapar. Mas eu vi o herbário, ao longe, ser destruído, bem como boa parte da aldeia. E fiquei com muito medo. Chegou a noite e o meu medo aumentou. Titia havia desaparecido. Dois garotos sozinhos numa montanha...Comecei a achar que precisávamos nos esconder rapidamente. Mas aonde? A aldeia estava em chamas. Você soluçava e perguntava por papai e por nossa tia, e eu dizia que eles voltariam no dia seguinte. Não acendi as lamparinas para não chamar a atenção dos chineses lá embaixo. Inclusive as que estavam no altar foram apagadas no início da noite. Começou a esfriar muito e nós dois ali, tiritando de frio. Então abracei você para nos aquecermos um ao outro e nesse momento me veio uma brilhante idéia...os livros de magia!!! Os livros que eu havia lido, copiado e decorado!!! Ia ser a nossa salvação. Rapidamente me pus a lembrar de tudo que lera. Havia uma fórmula que nos tornaria invisíveis: a receita de uma poção usada para desaparecer. Era muito simples: desapareceríamos e reapareceríamos em outro lugar.
Fui correndo à cozinha, e mesmo correndo o risco de ser notado pelas tropas chinesas, acendi o fogo. Pus um caldeirão com água para ferver e peguei as coisas que precisava para fazer a poção. Joguei uma por uma na água fervendo, e fiz desenhos mágicos no chão, como dizia o livro. Você olhava tudo com muita atenção. Eu estava maravilhado com a perspectiva de desaparecer e reaparecer. Quando tudo se transformou numa pasta gosmenta e amarelada, dei um copo a você e pedi que bebesse tudo de uma vez, e que ficasse bem no meio do desenho que eu havia feito no chão, enquanto eu punha a mão na sua cabeça e repetia algumas palavras. Você tomou tudo com cara de nojo e dormiu na hora. Então peguei meu copo, disse as tais palavras que tinham de ser ditas, fiquei no meio do círculo, e tomei tudo. Mas alguma coisa deu errado...”

— Tão errado que quando me dei conta, muito tempo havia se passado e eu estava lá, naquela planície, e era um iaque. Como é que eu fui virar um iaque?
Jongir escondeu a cabeça no travesseiro para que ninguém ouvisse a gargalhada que ele estava dando:
— Rárárárárárárárárárárárárárá!
— Não vejo graça nenhuma nisso, disse o iaque, com uma cara meio fechada.
— É muito engraçado...Rárárárárárárárá!
— Agora preciso virar gente de novo...
E uma lágrima rolou pela face do iaque.

Jongir empurrou as cobertas, sentou-se na cama e começou a passar a mão pela cabeça do iaque:
— Escuta, disse Jongir, continuo achando que isso tudo é um sonho. Se não for, vamos ver o que é possível fazer, sendo você meu irmão ou não. Está certo? Nós vamos dar um jeito, não fique triste.
— Você não sabe como é duro ser iaque...
— Já te falei que vamos dar um jeito.
O iaque, mais animado, parou de chorar e puxou um pedaço do cobertor do menino e assoou o nariz:
— Mesmo?
— Se você não assoar mais o nariz no meu cobertor!
— Ops..desculpe...
— Agora me diz uma coisa...eu perdi a memória....Supondo que nada disso seja um sonho, você acha que a minha perda de memória se deve à alguma burrada que você fez enquanto preparava a poção?
— Pode ser, respondeu o iaque. Aliás, é o mais provável mesmo. Algo eu fiz de errado...E você cresceu tanto...está tão diferente daquele garotinho chato e chorão...
— Você deve ter feito VÁRIAS coisas erradas, para não dizer tudo...E depois ainda diz que tinha inclinação para mexer com ervas...
— Foi um acidente...eu estava nervoso e com medo...Acidentes acontecem com todo mundo. E eu não lembro de ter dito que tinha inclinação para mexer com ervas.
— Insinuou.

Nisso ouviram um barulho no corredor. Jongir deu um pulo da cama e abriu rapidamente a janela:
— Deve ser o Kam. Depressa, vai embora! Se ele te pega aqui dentro, estou frito!
O iaque precipitou-se pela janela e assim que ele saiu, Jongir fechou-a e pulou de volta pra cama, fingindo que dormia. Nem teve tempo de ver se havia ficado algum vestígio do iaque por ali.

A porta então se abriu e Kam entrou.
Tudo parecia estar absolutamente normal. O jovem noviço parou no meio do quarto, olhou para um lado, depois para outro, olhou, olhou, chegou até a cama do menino, abaixou-se um pouco e pegou um pêlo de iaque que estava no cobertor. Examinou-o longamente à luz da lamparina, e coçou a cabeça:
— Tem alguma coisa errada aqui.


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