O Menino e o Monge

 

(novela infanto-juvenil)

 

Texto: Mécia Rodrigues
Ilustrações: Mauricio F. Berni

 

Capítulo 1

 

Lá no alto, uma camada de gelo, um pouco derretida por causa do sol, escorria desigual pelas encostas de uma montanha chamada Sherab, que em tibetano significa sabedoria.

Montanhas são atalhos entre o céu e a terra. A ligação visível entre o nosso mundo e o mundo que não vemos. O lugar onde a energia que desce do céu para a terra encontra a energia que sobe da terra para o céu.

Quando estamos — supondo que, de fato, possamos estar— no pico de uma delas, ou próximos a ele, enxergamos as nuvens maiores e mais perto de nós, com uma forma bem diferente da que veríamos se estivéssemos cá embaixo.

Há muitos séculos, nas altas montanhas de um país chamado Tibete, cujas aldeias foram construídas sobre uma geografia de muitas pedras e muita aridez, monastérios começaram a surgir aqui e ali, dando à paisagem monótona um colorido que combinava com a natureza alegre do povo.

A cada primavera, os sons da Terra do Ar e das Águas, misturavam-se cada vez mais às vozes dos monges, às rodas de orações, enfeitando assim as encostas pedregosas. Os monges achavam que pisavam nas nuvens, e talvez pisassem mesmo. Nós, habitantes de cidades cheias de prédios altos, ruas calçadas e planas, não acreditamos que seja possível andar acima das nuvens. Porque só cremos naquilo que vemos.
E às vezes, duvidamos até do que vemos.



Em 1950 a China invadiu, dominou e anexou o Tibete. Gradualmente começou a destruir seus monastérios e templos. Apenas aqueles que estavam situados em lugares de difícil acesso foram poupados.

A maioria dos monges que sobreviveu à sanha dos chineses, buscou asilo em outros países, principalmente na Índia. Outros optaram por continuar no Tibete.

Uns poucos, respondendo a desígnios para nós incompreensíveis, conseguiram reconstruir seus monastérios em lugares tão secretos que até hoje não sabemos direito aonde estão.

 

 

O menino perdido

Alheio à montanhas e chineses, um garoto de uns treze anos dormia profundamente, deitado no chão, ao pé da montanha de Sherab, com a cabeça encostada numa pedra, como se ela fosse um travesseiro. A melodia de uma flauta vinha em ondas até os ouvidos do menino que parecia embalado por ela, dado seu meio-sorriso.

De repente a música parou e o garoto abriu as olhos.

Viu ao seu lado duas pernas longas, cobertas por uma grossa calça de lã vermelha. Ergueu a cabeça e deu de cara com um rapaz bonito, alto, sorridente:


— Acordei você?
— Não...eu já estava acordado faz tempo. Quando ouvi a música fechei os olhos de novo. Questão de concentração, sabe como é?
— Sei. Muito prazer, sou Kam.
— Oi Kam, respondeu o menino, pondo-se de pé num salto e começando a bater as mãos na roupa para tirar o pó:
— Quem sabe tirando um pouco do pó, eu fico apresentável. Detesto causar má impressão. Eu sou Jongir, prazer. Era você quem tocava?
— Era eu sim. Gosto de tocar enquanto passeio.
— Toca bem, parabéns.
— Que nada, ainda estou aprendendo.
Kam fez uma pausa, olhou em volta e perguntou:
— Agora me conte, por que você está dormindo aqui, neste chão duro? Onde você mora?
— Pois é...E o garoto olhou para o pico da montanha, pensativo. Estou tentando lembrar onde eu moro para poder voltar. Mas não lembro de absolutamente nada. Acho que esqueci tudo a meu respeito. Devo ter caído e batido a cabeça numa pedra e daí...
Kam examinou a cabeça do menino:
— Não, não há nenhum inchaço, nenhum galo. Quer dizer que não bateu a cabeça. Você não se lembra de nada? Não se lembra da sua casa, dos seus pais?
— Nadica de nada, disse o garoto. E agora, o que eu vou fazer?
— Não se preocupe, a gente dá um jeito, eu te levo pra minha casa até você lembrar aonde fica a sua.
— E você mora aonde Kam?
— No monastério de Lukhin, você conhece?
— Não, não conheço. Quer dizer, posso até conhecer mas não lembro. Não lembro de absolutamente nada....que coisa...Aonde fica o monastério?
Kam apontou para o alto:
— Fica na outra encosta da montanha.
— Você é monge? perguntou o garoto com um ar respeitoso.
— Ainda não, por enquanto sou apenas um noviço.
Nisso um barulho de pedras trituradas por alguma coisa muito pesada, próxima a eles, assustou o menino. Ele se virou, apreensivo, para ver o que era e deu de cara com um iaque que olhava atentamente para ele. Jongir deu um passo para trás e se escondeu atrás de Kam. Que riu do jeito do menino:
— Não fique com medo. É só um inofensivo iaque.


O iaque peludo olhava para os dois como se entendesse o que falavam. Mas diante do olhar interrogador de Kam ficou meio constrangido, deu meia volta e foi embora. Ou fingiu que ia.
Jongir riu de si mesmo:
— Como eu sou bobo, me assustei à toa.
— Acontece, Jongir.
— Escuta, Kam, será que meu nome é Jongir mesmo? Quando você perguntou, eu nem sei porque respondi Jongir. Posso ter dito Jongir e nem ser.
— Isso não é importante agora, disse Kam, meio paternalista, se sentindo um pouco responsável pelo garoto que havia “achado”. Passou a mão com carinho no rosto do menino e continuou:
— Se seu nome for outro, um dia saberemos. Mas tenho certeza de uma coisa: você é daqui mesmo, deve morar num desses povoados. Porque não carrega nem uma mochila e não poderia ter vindo de muito longe sem nada.
Fez uma pausa e continuou:
— Diga uma coisa..o que você comeu hoje?
— Não sei também. Nem sei se comi, acho que não, porque estou com fome.
— A esta hora já estão pondo a mesa no monastério. Acho melhor você ir comigo para lá.
— Não vão achar ruim?
— De maneira nenhuma. E deve ter sopa de nabos, arroz, legumes cozidos, bolinho de sementes, queijo de iaque, chá.
Jongir sorriu:
— Nossa, agora sim é que a minha fome aumentou de vez. Depois que você falou em comida. Nós temos de subir essa montanha enorme?
— Temos, mas é só um pedaço. Como eu disse agora pouco, o monastério fica na outra encosta. Não fique preocupado com o tamanho dela, não é até o pico que nós vamos.
Juntando ação às suas palavras Kam começou a caminhar. Sem outro remédio, Jongir acompanhou-o.

Começaram a subir uma estrada de terra e pedras, parecia que tinha mais pedra do que terra. A cada passo que davam a planície ia se distanciando.
— Kam, olhando assim do alto, a paisagem ficou bonita né? Mas esfriou...brrrrr....Quando você vai virar monge?
— Ah, isso depende de muita coisa. Inclusive de eu ter certeza de que quero mesmo ser monge.
— Você não tem certeza?
— Nenhuma...e, dizendo isso, o jovem riu alto, muito alto, tão alto que ecoou pelo Tibete
inteiro.

De repente, Kam parou:
— Tem uma coisa estranha...
— O quê? perguntou Jongir.
— Parece que alguém está nos seguindo.
— Também tive essa impressão, disse o garoto, e olhou para trás.
E atrás estava o iaque, que por sua vez, também olhou para trás.
— Aquele iaque ali... disse Jongir.
— É, aquele iaque...completou Kam.
— É o mesmo de lá debaixo, que me assustou?
— Não sei.
Aí o iaque, sentindo-se incomodado com os comentários, olhou para o lado e começou a assobiar.

Como dissera Kam o monastério não era longe e eles foram subindo devagar, conversando enquanto subiam. O jovem noviço fez um monte de perguntas ao garoto, tentando assim fazer com que ele lembrasse de alguma coisa a seu respeito: onde morava, quem era, quantos anos teria. Em vão. O garoto esquecera tudo mesmo.
— Com fome? perguntou Kam.
— Agora estou mesmo, sorriu Jongir. Antes até dava para disfarçar, mas depois de todas essas léguas que andamos, meu apetite abriu de vez.
— Léguas? Hahahahaha. Já estamos chegando.

Um vento muito frio começou a soprar e os três, o menino, o noviço e o iaque, que continuava atrás deles, se encolheram.
— Brrrrrr.....fez Jongir.
— Brrrrrrrr....fez o iaque logo atrás.
Mas um brrrr tão alto que o menino e o rapaz se entreolharam rindo.
Percebendo a mancada o simpático animal disfarçou imediatamente. Assobiando alto, como vinha fazendo desde a planície.

Uma rajada de vento passou por eles arrastando as folhas secas caídas no chão. O pó bateu no corpo e rosto deles.
Jongir puxou o noviço pela manga:
— Ô Kam...escuta....iaques assobiam?

Kam não escutou a pergunta, e se escutou não respondeu. Pôs a mão no ombro do menino e apontou para a frente:
— Está vendo aquela curva ali? Depois delas está nosso monastério.

 

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