São Paulo, 05 de maio de 2007
Pintando histórias
"No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério... arranjei este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. Minha impressão dominante é puramente visual".
— monteiro lobato —
Eu não sabia, na época de meus dez anos, dos autores dos livros que então amava. Nunca pensei que um dia, pudesse me encantar tanto com uma biografia quanto com as histórias de um escritor. Quando eu me embrenhava no Sítio do Pica-pau Amarelo transformada na doce Narizinho ou na serelepe Emília, não pensava em seu criador ou talvez pensasse que fosse ele uma criança, tamanha a capacidade de transformar meus sonhos e fantasias em um livro inteirinho de histórias mágicas. Histórias que eu parecia já conhecer.
Hoje sei que Monteiro Lobato queria estudar arte, que gostava de pintar e que começou a escrever, pois sentia estar pintando com as palavras. E com isso, ele mesmo traduziu o encanto de seus personagens e suas aventuras, pois, como criança, visualizei esses quadros de pura fantasia e eles ainda estão gravados em minha memória até hoje. Grande escritor-pintor que usou cores nunca antes utilizadas e nuances tão delicadas que transformou a infância de pequenos leitores, como eu, em um conto de fadas brasileiro.
Inventor, advogado, escritor, pintor e desenhista, homem de visão futurista, brasileiro consciente das mazelas e necessidades de seu país. E o que mais ele quisesse ser, pois foi. E este homem de mil facetas e talentos criou uma boneca de pano que, ao falar, atropela as palavras com graça. Um menino valente chamado Pedrinho que caça sacis e adora ouvir histórias contadas por sua avó. Um sabugo de milho sabido, como os que ele brincava em criança, verdadeira enciclopédia ambulante. Personagem que o representa, suponho, visto que este homem não se cansava de estudar e se informar, dividindo este saber com seus leitores. Um professor que ministrava verdadeiras aulas de matérias várias em suas narrativas maravilhosas. Um pioneiro do movimento editorial brasileiro.
Monteiro Lobato soube, como nenhum outro, resgatar o folclore brasileiro e faze-lo mais vivo e presente nas vidas das pessoas. E ainda misturar a tudo isso contos de outras origens sem, contudo, causar confusão ou espanto nas crianças. Essa miscelânea já fazia parte do imaginário infantil e isso me faz pensar que neste homem tão diverso havia também um menino. Uma criança como eu fui, pois só mesmo assim se explicaria a receita encantadora e atemporal de cada uma de suas histórias. E se ele não cursou a Belas Artes, para satisfazer os planos do avô, nem isso o impediu de ser um grande artista, pois o talento jorrou mesmo assim, teimosamente.
A primeira vez que ouvi falar de Monteiro Lobato, ainda menina, pensei ser ele o dono do Sítio do Pica-pau Amarelo. Quis ir até lá e achava mesmo que seus personagens existissem de uma forma menos mágica, porém que estivessem por lá. Dona Benta, tia Nastácia, a vaca Mocha, tio Barnabé e até o Quindim. Por muito tempo acreditei ser assim. Acho que suas histórias têm o poder de se eternizarem e fazerem presentes em nossos corações. Elas sobrevivem ao tempo e apesar do tempo e quando penso no momento exato em que foram escritas, percebo que Monteiro Lobato estava muito a frente daquela época. Sobre o que escreveu para adultos, é fato que os problemas brasileiros por que lutava enquanto escrevia tais como o trabalho infantil, a violência contra as minorias e as mulheres, o crescimento desordenado das cidades, a empáfia dos que mandavam, que dizer senão que ainda se luta por mudar tudo isso?
Como uma pessoa tão consciente das necessidades de seu país e de seu povo encontrava tempo para fantasiar histórias de tanta riqueza e onde buscava a paz necessária para deixar que a magia dos personagens viesse se fazer presente nas páginas de seus livros é uma pergunta sem resposta. Havia neste homem, muitos homens dividindo a missão única de deixar ao Brasil, um legado de ensinamentos e magia. O advogado, o pintor, o escritor, o homem a frente de seu tempo, o adido cultural, o inventor, o menino. Tanto talento e determinação resultando numa herança que beneficia geração após geração, sem desbotar com o tempo. De Monteiro Lobato não resta dizer senão que se fez atual e eterno em cada uma de suas obras.
“Escrever bem é mijar. É deixar que o pensamento flua como o à vontade da mijada feliz.”
Monteiro Lobato — Carta a Erico Verissimo, 1931.