História e Lenda


Tito Lívio Ferreira


Meu irmão Lobo


Há em São Francisco de Assis a mística da alma humana a florir em todo o esplendor da fé e da piedade nazarenas. Emocionantes e profundas homenagens rende-lhe, com alta devoção, a humanidade através dos tempos. O mundo anseia, de alma contrita, ao recolher as bênçãos do pobrezinho de Assis. E quando as suas graças descem sobre a terra, brancas e benditas aleluias adentram os umbrais dos corações inquietos, a espalhar nas consciências dos homens perenemente convulsas, um pouco de calma e de suavidade transitórias.

Na humildade sagrada e irradiantes da Glória ei-lo que recebe, desprevenido e apiedado, com divina candura, as derramadas e gritantes homenagens da vaidade humana. porque nem todos recordam o dileto discípulo de Jesus, a figura clara e cordial do santo e de poeta do amor e do perdão, da beleza e da harmonia, cuja palavra ungida sempre de claridade entoava hinos de maravilhosa doçura. Lembram a juventude alegre e belicosa do moço fidalgo afeito ao luxo e ao prazer, cuja varonia “tinha a elegância branda e luminosa de um florete”. E, no entanto, esquecem o seu espírito de renúncia às falsas e fáceis alegrias mundanas, renúncia que o impeliu a procurar no recolhimento do claustro, no sacrifício de tudo e no silêncio da pobreza, a paz suavizadora, a bondade purificante, a piedade humanitária.

Todavia, os altos exemplos, a mansuetude acolhedora, a palavra inspirada — filha direta do “espírito chão como a água, como a luz”, — entretecem de misticismo, como um global resplandecente, a rendilha miraculosa da existência sofredora e simples de “Il poverello”, porque nele estremecem e vivem “ a simplicidade e a pureza dos lírios dos campos”. Tudo isso andeja, por entre cânticos e louvores, nas coisas e nos recônditos dos nossos irmãos da terra e do espaço. E nem sempre o homem, o meu irmão lobo...Mas São Francisco de Assis continua. Do alto de sua eterna claridade baixam, para os atribulados corações humanos, cintilas suaves de sua alma límpida e bem-aventurada. E, como sempre foram em vida, “as mãos enxutas e brancas, esvoaçavam abrangendo a humanidade, erguem-se implorando misericórdia pelos erros dos homens e acabam unindo-se, numa prece a Deus, pelos tristes e pelos inconsolados”.

À medida que os séculos mergulham nas sombras do passado e o tempo desfia o rosário de contas brancas e pretas, dos dias e das noites, São Francisco de Assis não esquece jamais os seus irmãos perdidos nas preocupações terrenas, porque os recorda sempre, entre os irmãos encontrados na paz do Senhor. E lá está o reino do Céu, a lembrar os anos vividos na terra, quando percorria aldeias e estradas, montes e vales, chapadas e ladeiras “em que o caminho se adelgaçava sobre a boca azul dos precipícios” faiscantes.

Essa figura sóbria e simples tem inspirado os poetas e os prosadores de todos os tempos. Vergados sobre a beira branca do papel ei-los a reconstruir essa grande vida, para exemplo e edificação das gerações que passam. Seduzidos pela sua obra plena de infinita misericórdia, dourada pelos sóis brilhantes de muito séculos, ei-los a reviver esse homem ímpar, “bom como a broa, a água do poço e a claridade do dia”. Entre os maravilhados por essa existência palpitante de luz, se destaca, sem favor, Afonso Schmidt, escritor consagrado e conhecido. Artista de talento anseia atingir, pela simplicidade criadora, a perfeição clarificada e singela da beleza imperecível. Estilista empolgante sabe, como poucos, evocar o pretérito, colorindo-o. Daí ter escrito “Reino do Céu”, obra de carinho e de sentimento, onde a fantasia surpreende as tintas da realidade, romanceando-a. Nela se alteiam visões longínquas, claridades tranqüilas, horizontes perdidos. Adeja em cada ritmo dessa prosa uma ironia e flutua um sonho em cada frase. Os trechos acima, entre aspas, fixam, em palavras insinuantes e florentes, o momentos supremos dessa vida e desse homem poderoso pela humildade e santificado pela pureza e pela bondade intuitivas e harmoniosas. E senhor da sua arte, Afonso Schimdt reaviva cenas e paisagens medievais, diálogos de sombras perdidas no fundo cinzento do passado, miniaturas delicadas como esta: “A meio da galeria, lobrigou, por dentro da sombra fina dos arcos, um ângulo de pátio onde a luz se havia coagulado em jardim. Salgueiros de ouro velavam o sono das fontes azuis”.

Certo nem sempre o autor afina as suas idéias sociais pelas suas dúvidas religiosas. Raiam aquelas pela anarquia. Estas resvalam pela incredulidade. Desliza, entre ambas, o seu pensamento através do caminho ascensional para “ascender os mais altos picos da espiritualidade”. Contudo, ninguém deixa de sentir a atenção solicitada pela evocativa galeria de imagens góticas ali erguidas, tontas de luz, saudosas dos nichos ensombrados, recolhidos e tranqüilos, onde se viram envoltas ao alvorecer claro e doce da religiosidade fervorosa e primitiva. Daí Afonso Schmidt reacender-lhe os vestígios da pintura dourada com que o medievo imaginativos as recamou, iluminando-as. Ressaltam nimbadas agora de luzes limpas, na penumbra distante do retábulo aberto em plena Idade Média. Projeta-se, em avançado relevo, a imagem serena, sublime e singular de São Francisco de Assis. “Il poverelo” prega, como sempre, a doutrina do Nazareno. Os irmãos da terra e do espaço atendem à sua palavra, escutando-a. No entanto, meu irmão lobo, o homem, esse jamais encontra, em sua vida, instantes para ouvir os ensinamentos de Cristo. E enquanto diferentes gerações passaram indiferentes os homens continuaram...

O cabo maior dos paulistas

Aureliano Leite, infatigável no seu amor às letras patrícias, e, por igual infatigável no seu alto afeto aos homens e coisas de São Paulo antigo, nasceu nas saudáveis eminências de Ouro Fino. Dedicou, por esse motivo, à terra natal, formosas páginas repassadas sempre de fina emotividade em seu bem feito livro: “São Francisco de Paula de Ouro Fino das Minas Gerais”. Aviventou, na paisagem paulistana do século dezessete, a figura tranqüila de “Amador Bueno — o Aclamado”, esse paulista que não quis ser rei, com exaltar-lhe a personalidade ativa, nobilitando-a. Revive assim, nos dias tumultuários de hoje, os remansosos dias de outrora, cochilantes no fundo remoto do passado e batidos pelas claridades serenas das tardes magníficas e alongadas. E daí viverem, nos seus livros, homens e fatos esquecidos nos documentos, nas memórias e nas monografias dos pesquisadores arquivais.

Essa constante e clara admiração do mineiro apaulistado pela gente de Piratininga, Aureliano Leite a explica e enobrece nestes períodos harmoniosos: “Assim, a maior demonstração de amor ao Brasil será por muito ainda manter-se a sua estrutura territorial, que repousa no fundo e largo alicerce do regionalismo bem entendido, construtivo e unificador. Casa, bairro, cidade, Estado, nação, produzem-me o efeito de um conjunto esférico, formado por camadas concêntricas de que p lar é o centro e a pátria a crosta, possuindo cada uma a sua tintura própria, com exceção da externa que envolve e sintetiza as demais, decompondo-se com a luz do sol, em todas as suas cores externas. Com efeito, ouve-se invariavelmente de cada cidadão do país isto: “O Brasil é a minha pátria. Dentro da minha pátria está o meu Estado, dentro do meu Estado a minha cidade, dentro da minha cidade o meu bairro, dentro do meu bairro a minha casa”. Disto a consciência nacional. O segredo de nossa integridade reside no respeito ao que o passado estabeleceu e consolidou”. (“São Francisco de Paula de Ouro Fino das Minas Gerais”.) E o passado estabeleceu e consolidou tradições gloriosas plasmadas na alma brasileira e pulsantes nos corações de nossa gente esparsa por todos os quadrantes de nossa terra. Nessa imagem sugestiva e palpitante, vive o pensamento cordial de nós outros, brasileiros aquecidos ao calor irradiante da lareira comum acesa no altar da pátria. Tem razão o ilustre autor de “Pequena História da Casa Verde”, mimo de arte tipográfica e consciencioso trabalho histórico-social da vida paulistana ao cair do século dezoito e no soerguer da centúria seguinte. Porque de todos os pedaços fundamentais do país se estira, para cima e para o alto, a flama luminosa e lesta do amor ao torrão natal. E essa flama radiosa irradia de cada parcela integrante da comunidade pátria, se confunde e se amplifica na lareira ardente da consciência nacional.

Assim Aureliano Leite entoa louvores ao sentimento de brasilidade palpitante nas unidades pátrias, porque nelas viça e nelas se respira o hálito da terra uma e indivisível, conformada como foi pelos nossos maiores. Daí o autor brilhante de “O Brigadeiro Couto de Magalhães” prosseguir, sem desfalecimentos, no caminho redivivo do passado, iluminando-º E com esse intuito evidente de aclarar “novos e inéditos aspectos da historia de São Paulo e Minas”, por serem “até agora desconhecidos ou mal apreciados”, Aureliano Leite dá a lume o admirável estudo: O cabo maior dos Paulistas na guerra com os Emboabas”.

O distinto escritor não se limita apenas a focalizar a personalidade gloriosa de Amadeu Bueno da Veiga, o cabo maior dos paulistas na guerra com os Emboabas. Perquire, através de documentário agora revelado, a ascendência e a descendência desse bandeirante do século dezoito, ramificada pelos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás, onde “cerca de dois mil nomes de famílias conhecidas derivam do notabilíssimo tronco paulista”. Une assim a linguagem desse paulista ao velho e ao novo mundo, entrelaçando-os. E se o trabalho do genealogista se apresenta incompleto, no dizer do historiador, completo se afigura o estudo concernente ao homem e ao seu tempo.

Dessa paciente e bem elaborada pesquisa histórica o autor conclui: “Pode-se pois considerá-lo um vero mameluco, o que vale dizer, “um português de São Paulo” e não um senhor de Portugal”. Ele trai, no físico, o indígena enquanto sua alma deita raízes na península ibérica. Refere, a seguir, os primeiros anos vividos por Amador Bueno da Veiga, na recolhida e colonial Piratininga. Descreve, depois, o início dos atritos entre Paulistas e Emboabas, a ensangüentar o ouro rutilante das minas. Recorda os acontecimentos decorrentes desse entrechoque rubro e rumoroso. Narra os embates violentos entre os dois exércitos. Revive o drama sombrio do “Capão da Traição”. Exalta a arrancada incisiva dos Paulistas contra os invasores, colorindo-a. Rastreia-lhe os passos firmes através da Mantiqueira e dos trilhos mineiros. Expõe, com honestidade, os entreveros travados nas minas. Considera a retirada dos Paulistas para São Paulo, “operação digna das páginas históricas”. Quando os fatos ganham brilho e majestade, cede a palavra a Júlio Ribeiro, o admirável estilista de “ O padre Belchior de Pontes”. E nem assim Aureliano Leite refoge à verdade e à justiça da história.

Essa retirada merece de Aureliano Leite estudos e pesquisas, para bem explicá-la. Assim, cumprido o seu dever, castigado o audacioso invasor, resolve a gente de Piratininga regressar ao altiplano. São esperados aqui por mães, esposas, filhas, irmãs, e noivas ansiosas. Houvera, da outra vez, o terrificante episódio do Capão da Traição. Pereceram ali homens de Piratininga, covardemente degolados. Agora não. “Bipartidos em colunas, os expedicionários, a despeito de castigados pelos temporais diluvianos de fevereiro e quiçá de março, os quais tornam as montanhas ainda hoje intransitáveis, executaram a retirada, essa difícil operação de guerra, com admirável perícia”.

Emociona essa marcha em retirada, feita com disciplina e segurança, pela ausência de sacrifício, que se saiba, de um só combatente de qualquer das duas colunas em que os piratininganos se repartiram. Chegaram todos, com seus pendões e insígnias de guerra desfraldados, a São Paulo. Desfilam com garbo e ordem pelas ruas da vila. Se vencidos fossem, a mães, as noivas, as irmãs, as filhas e as esposas não os receberiam de boa vontade. Falseadores da verdade histórica, certos historiógrafos quando noticiam a retirada feita por Amador Bueno da Veiga e sua gente, chegam a chamá–la de fuga e covardia. Esquecidos, porém, desses epítetos, sob o imperativo da justiça, dizem que os homens de Piratininga chegaram, “são e salvos”, à vila nobreguense. Ora, argumenta Aureliano Leite, o objetivo precípuo a que obedece qualquer retirada é realizá-la com sacrifício de vidas, armas e bandeiras. Chegaram os expedicionários “são e salvos”, ao ponto desejado, reconhecem os traidores da verdade. Logo, o que os guerreiros paulistas lograram praticar, com eximia perícia e perfeita estratégia, não obstante a perseguição tenaz dos adversários, merece louvores, por se tratar de assinalado feito de campanha, afirma Aureliano Leite. Só a crítica despropositada poderá discordar desse conceito justo. “Ou então, aventa o autor deste livro, os Paulistas voltaram quando quiseram, livres e desembaraçados, totalmente incólumes e coletivamente íntegros, depois de pregarem aos adversários uma lição tremenda, o que também não deixa de ser uma retirada”.

Dentro desse honesto e admiravel livro o assunto adquire as suas características empolgantes. “O Cabo maior dos Paulistas na guerra com os Emboabas” restaura o sentido verdadeiros das ocorrências verificadas na região da minas, enobrece a personalidade equilibrada e firme de Amador Bueno da Veiga, com retraçar-lhe o perfil sobranceiro e sereno, em páginas significativas e encantadoras. E assim Aureliano Leite sente o clima histórico-social dos dramas rubros vivido nas mina, nesse recuado século dezoito, revivendo-os.



Fora de forma


Com seu último e interessante livro “Fora de forma”, Sérgio Milliet situa, nas letras nacionais, as suas latas qualidades, bem características, de ensaísta e sociólogo, de crítico de arte e pensador. Familiarizado com os problemas da vida, gosta de expô-los, discuti-los e vivê-los no minuto em marcha. E surpreendê-los constitui, para a sua aguda inteligência, a expressão mais insatisfeita de seu talento arejado.

Trai-lhe o pensamento, em certos aspectos, o traço impressivo da formação cultural do escritor vivida às margens civilizadas e contemplativas dos lagos suiços. Daí seus estudos se vestirem de terna e séria sobriedade, mesmo quando produz, sob o imperativo do momento, a autodefesa de sua personalidade literária e científica. E daí se animarem de realidade palpitante os temas de meditação versados com agilidade pelo seu espírito claro e pragmatista.

Jamais Sérgio Milliet se preocupou, segundo parece, com problemas de ordem mística ou religiosa. Não os comenta nem os discute. Deixa-os à margem de suas cogitações filosóficas. Cético sem ser pessimista, volve as atividades objetivas de seu intelecto disciplinado e flexível, para os assuntos de sentido científico e sociológico, interpenetrando-os. Poderia empregar todo o seu marcante esforço intelectual em sintetizar idéias conforme a fórmula impossível de Maurice Barrés: “Sentir le puls possible en analysant le plus possible”. Todavia, prefere amplificar a emoção da beleza e conjugá-la com o prazer estético, quando afirma: “Ora, eu me bato exatamente contra os desenvolvimentos inúteis, contra os embelezamentos retóricos, que escondem ou mascaram idéias, que não raro cobrem com brilho minguadas carnes”. Refoge assim á miséria dourada. E louva, com equilíbrio e justeza, o preciso, o elegante, o sóbrio a pulsar na frase elegante, plástica e enxuta.

Por isso mesmo aguarda ser “julgado em relação à meta que tenho em mira — diz ele — e esta meta é a da propriedade da expressão, a da pesquisa de uma verdade”. Incriminado por outros críticos, Sérgio Milliet não se contenta com defender-se. Em contacto com o mundo, com as coisas efêmeras, com a vida trepidante, esgrime dialeticamente no domínio espiritual, para clarificar idéias, enobrecendo-as. Tal atitude, explica ainda, com honestidade, não é, original nem inédita. Assim reafirma o seu ceticismo científico ao declarar: “Tenho fé em alguns fatos, acredito em algumas teorias, não aceito nenhuma doutrina inteiriça, porque tudo, e principalmente a razão, me leva à certeza da relatividade das coisas, à convicção de sua complexidade e à idéia de que somente em campos muito restritos nos é dado pretender a uma conclusão definitiva”. Com este postulado coloca-se o autor de “Fora de Forma” no posto exigido pela ação e para o combate. Reduz, pelo raciocínio crítico, o pensamento lógico ao valor objetivo das idéias, interpretando-as. E daí o cunho de realidade social existente nestes ensaios produzidos por esse espírito analítico-reflexivo.

Para atingir a essa etapa intelectual, Sérgio Milliet transitou do subjetivismo para o objetivismo. Desceu ao nível humano. Através da poesia e da prosa foi da síntese à análise. Deixa as areias movediças das hipóteses axiomáticas para firmar-se bem no terreno batido e firme das coisas definidas e ensolaradas. Porque a sua arte emocional “afere a realidade vivida com a literatura lida”, (Fidelino de Figueiredo — “Notas para um Idearium Português”). Assim, após ter demonstrado a tendência espiritual de suas atitudes nítidas, conclui por achá-la plena “de poesia no sentido novo de penetração de verdade interior, de expressão do essencial. E também científica porquanto em virtude da dúvida permanente dos sábios ante as afirmações metafísicas e místicas, foi possível progredir nos conhecimentos das formas naturais até certo ponto”.

Nessa viagem ao redor de seu espírito, Sérgio Milliet traça, dentro da forma, o ponderado “Prefácio em tom de polêmica”, para abrir o desfile de “Fora de Forma”. Refere-se, é bem de ver, nesse toque de alerta, ao livro anterior, “Sal de Heresia”. No entanto, envolve toda a obra publicada nos últimos anos de sua atividade intelectual. E vale por uma profissão de fé, nestes tempos vazios de caridade humana.

Em “Intimidade com a natureza”, o sociólogo conceitua: “À conquista do sertão que foi o lema de nossos avós, devemos opor, agora, outro mais inteligente e fecundo: o do entendimento cordial do sertão. É preciso não termos em mira explorá-lo depressa, com sofreguidão dos que se acham de passagem, mas explorá-lo bem, com o carinho dos que se radicam”. E o seu pensamento sentencia: “Pois é quando a árvore passa a pertencer à sua família que o homem do campo está de posse de uma consciência rural”.

Desse tema rico de sugestões Sérgio Milliet passa a outros. Andeja à margem de livros, de artigos, de autores, comentando-os. Prossegue seus estudos de arte social, em torno de pintores e de artistas apaixonados irredutíveis do decorativismo. Fala de Renoir, de Manet. E exalta Cézanne, o mestre de Aix.

Fosse embora o grande mestre, o primaz da nova geração de artistas disposta a reagir contra o classicismo estéril e formal, a arte de Cézanne passara por desajeitada e rude, na opinião de críticos de arte. A disposição das cores nas telas apresentava contrastes chocantes. E com o passar do tempo, o desequilíbrio se converteu em harmonia de rara delicadeza, assim como a aspereza do tímido, ostentada por Cézanne, se transformou em sedutor acolhimento.

Adiante, em “Walt Whitmann, poeta da América”, há o esboço da conferência feita na Praça da República, cujos conceitos arrojados surpreenderam e escandalizaram inteligências amigas. Nessa síntese ei-lo a estigmatizar a Europa desses dias sombrios. Dessa velha e caduca Europa, “que transformou a comida em munições”. Em conseqüência disso “fez coisa pior: vive de literatura, na literatura e para a literatura. Esta precede a vida, e a domina inteiramente. A voz da América diz que antes de mais nada é preciso respeitar a vida.”. Ora, para respeitar a vida é preciso respeitar a dignidade humana. E a Europa de há muito perdeu o sentido humano da vida.

Magnífico se me afigura o ensaio: “Em torno de Varnhagen”. Nele Sérgio Milliet viaja, espiritualmente, ao redor desse bandeirante da história pátria. Devassa-lhe, aqui e ali, claros-escuros até agora desconhecidos. Considera, com justiça, a “História Geral do Brasil” do laborioso sábio sorocabano, “a primeira e mais completa história do nosso país”. Porque, “depois de ter feito o Brasil, o paulista sentiu-se no direito de escrever o que fizera. Coube-lhe plasmar a terra e contar como a plasmou. A quem melhor do que ao paulista era permitido fazê-lo? Pois di-lo tão bem e com tanta paixão que até agora ninguém lhe passou à frente. Era uma bandeira arriscada: Varnhagen a tentou e venceu e trouxe ouro do mais puro quilate, embora de roldão viessem alguns índios preados”.

Sucede, em “Fora de Forma”, caso análogo. Também nas páginas desse livro Sérgio Milliet bateou ouro de fino quilate, viessem embora, de permeio, alguns índios preados. De resto, constituem eles em linguagem técnica, “manchas” pitorescas nesses coloridos e luminosos ensaios de arte e literatura.




Duas cartas no meu destino

Novela ou romance, mais novela que romance, “Duas cartas no meu destino” abertas aos nossos olhos descerraram, na suavidade envolvente das linhas em fuga, três destinos tangidos pelas angustias, pelas inquietudes, pelas decepções do momento que passa. Delicado, hábil e discreto, Sérgio Milliet sabe escrever e descrever, em cenas rápidas e pacientes, violentas e densas, a síntese psicológica, sentimental e amarga dos instantes em marcha batida pelo movimento e pela progressão dramática. E os três personagens do livro — Fernando, Ana Maria e Linda — destacam-se do passado, recortam as silhuetas agitadas na claridade viva do presente e continuam, depois de unidas por um minuto, distanciando-se.

Narrativa simples, realista, desenvolve os sentimentos dos personagens, em suas manifestações exteriores, projetadas do interior sacudido e torturado para a existência humilde e cotidiana. Reveste-se, quase sempre, o estilo do escritor, do tom familiar, sem perder a linha elegante e preciosa do pudor da alma e do espírito e sem descair na familiaridade banal e comunicativa. Assim Sérgio Milliet consegue exprimir o “longínquo interior”, como dizia Michaux, na ressonância clara de sua prosa fluente e fácil. E daí a analise psicológica dos três personagens apresentar a unidade profunda e verossímil dos elementos constituintes do inconsciente, através da transparência evocadora da narração sóbria, introspectiva e cheia de presença.

Fernando, o único homem do livro, não apresenta nem representa o drama do amor e do ódio, entre as duas mulheres palpitantes de ternura e de voluptuosidade. Joguete do acaso, deixa-se levar pela corrente dos acontecimentos, a eles se prendendo. O destino estala, uma a uma, todas as amarras que o prendiam à ilusão, à serenidade, ao conformismo. E ei-lo que, procura, na intriga complexa da existência, o seu lugar na cena, o seu papel na peça, para representar a sua parte de comparsa e de espectador, sem ensaios desnecessários.

Casado com Linda, Fernando destrói o passado tecido por ambos no bastidor domestico de suas existências comuns. Quebrado o fio desse amor, o galã se precipita na voragem da vida. Procura outro fio para nele enrolar o seu desejo e o seu destino. E deixa-se levar pela canção da angústia e da esperança.

Nessa tentativa ansiosa de evadir-se de si mesmo, Fernando só encontra, na alucinação de sua ventura, propício e único refúgio dentro de si mesmo, numa tentativa esfarrapada e insatisfeita de explicar ao seu “eu” inquieto, o motivo daquele inexplicável desequilíbrio sentimental. Sua alma insatisfeita procura novos rumos, “a violência das dedicações malucas e o estouro das aventuras ofegantes...” E nessa angústia suprema tudo nele procura “fugir! Largar a vela da saudade! Jogar sobre a pupila cansada das insônias a paisagem das ilhas e dor mares...”

Contudo, ele espera. Espera, agrilhoado ao desejo, sobre o cais da vida, o instante ímpar em que largaria as sombras da terra pelas claridades faiscantes do amar efêmero da aventura inexorável e anônima. E quando chega a partir, solta a vela ao vento e ás ondas, mergulha no oceano de indecisões, remorsos, conflitos de consciências...

“A complexidade da situação foi condensando dentro de mim a vontade de romper” e de fugir à órbita do destino, esquivo e indecifrável. E Fernando foge à solução desse problema obsedante, sem afinal “destruir esse estigma do passado”.

Aí Sérgio Milliet revela-se mais dissecador de almas e de pensamentos, do que o condutor de personagens, cujas fisionomias, situações e caracteres se entrelaçam, se confundem, se exaltam, se individualizam, através das exigências espirituais da criação psicológica da técnica romanesca. Presentes e vivas, as três criaturas das “Duas cartas no meu destino” respiram o hálito civilizado das cidades onde vivem, suam, sofrem e passam. E passam algo espiritualizadas.

Enunciados pelo autor, dois problemas são postos em equação e desenvolvidos pelo raciocínio lúcido e frio do escritor, através das linhas de sua novela. Ei-los. Como se pode atingir a felicidade? Neste ponto sem dúvida os dois enunciados procuram a fórmula única, porque encerram, no seu corolário, a mesma interrogação, o mesmo anseio e a mesma inquietude. E daí as três fisionomias revelaram, na expressão particular de suas angústias, o mistério de seu drama, a angústia de seu desejo, a tortura da sua vida.

Todavia, “Duas cartas no meu destino” encerra, em suas páginas, movimento, vida e expressões. Daí Sérgio Milliet nos dar, em capítulos nervosos, instantâneos coloridos, pontas de diálogos, sensações rápidas e profundas. E isto bem dosado, bem esclarecido, para aflorar o tema geral e subterrâneo da novela jamais exposto, em toda a sua plenitude, na seqüência da narrativa.



De Montaigne a Shakespeare

“Teut ce que des Anglais, la muse inculte e grave,
Tout ce que des Toscans la voix fière et suave,
Tout ce que les Romains, ces rois de l´Univers,
M´offraient d´or et de soie, a passé dans mes vers”.


André Chernier, grego de França, confessou, nestes clássicos alexandrinos, as fontes de seus poemas, reveladores dessa natureza muito rica e muito preciosa, onde latejava o poeta do fim da renascença, ainda muito distante do romantismo, mas prenunciador do parnasianismo e, pela parte mística, do simbolismo remoto. E por isso, em versos admiráveis, disse: “Tudo o que dos Ingleses a musa inculta e brava, Tudo o que dos toscanos a voz soberba e suave, Tudo o que dos Romanos, esses reis do Universo, Me ofereciam de ouro e seda, passei para o meu verso”.

Dois indivíduos havia em Chenier: o homem do século dezoito, renascentista; e o outro encantado pela antiguidade, por isso mesmo convertido em primeiro dos poetas modernos. Entre os antigos achou os mistérios da grande arte, donde lhe veio a eterna juventude da verdade revelada em suas estrofes. Se ele não é, como se disse erradamente, o primeiro dos românticos, também não é o último dos clássicos. Situa-se como o primeiro dos poetas contemporâneos, pelo sopro de sua poesia lírica e épica. Férvido e sereno poeta e pensador, soube passar para a língua francesa o gênio da Helade e da latinidade. E entre o classicismo decadente e o romantismo revolucionário, André Chenier permanece como o “missing link”, anel partido, arrancado à cadeia eterna da poesia imortal.

Ora, o grande poeta francês, cuja cabeça rolou da guilhotina, foi sincero e honesto, ao divulgar, em versos belíssimos, as fontes de sua inspiração e de seus poemas. Com ele, Shakespeare enriquecera, cerca de dois séculos antes, o seu gênio e as suas obras, com a leitura de trabalhos alheios, de muitas idéias contidas neles se apropriando. Assombrosa parece a cultura desse talento raro. Ela atordoa e desorienta os pesquisadores mais audaciosos, empenhados em descobrir as origens desta ou daquela obra do grande poeta da Inglaterra. E daí Joyce afirmar, com mais ou menos humor: “Shakespeare é um maravilhoso terreno de caça para espíritos desequilibrados”.

Porém, os exegetas da literatura shakesperiana continuam. Estabelecem, para esses estudos, critérios de ordem estética, juízos sobre imagens e ritmos, além de procurarem o conhecimento íntimo da era elisabetiana. De leitura intensiva dos textos depreende-se que Shakespeare haja concebido o plano de escrever “A Tempestade”, uma de suas derradeiras peças, após ter lido “Aurélio e Isabela”, romance muito em voga por esse tempo. Fora traduzido para o inglês, por volta de 1530, mais ou menos.

Esse romance fora escrito em italiano. Passara pelos idiomas francês e espanhol. E, contudo, parece não ter sido o modelo do escritor estratfordiano.

Foi de certo romance grego-búlgaro, que teriam saído, possivelmente, no começo do século XVIII, três obras nele inspiradas, afirma o sr. Henri Grégoire, professor belga da Universidade. Estão inspirados nele: “A Tempestade” de Shakespeare, a “Bela Sidéa” de Jacob Ayrer, autor alemão, e a quarta narrativa, de Antonio de Eslava, publicada em 1609, sob o nome coletivo de “Noches de Invierno”. O mais curioso é que o erudito universitário belga depois de sua luminosa conferência referente às fontes grego-búlgaras da “Tempestade”, da “Bela Sidéa” e das “Noites de Inverno”, recebeu da Biblioteca Nacional de Viena um exemplar da obra do abade Mauro Orbini, publicada em Pesaro em 1601 e intitulada “Regno degli Slavi”. E nesse livro se menciona certa personagem encontradiça na suposta fonte grego-búlgara, e nas obras referidas acima. (Mathias Morhardt — “A la Rencontre de William Shakespeare” — in “Mercure de France” — nº 934 — T CCLXXVI — 15 Mai 1937).

Fosse este ou aquele o texto colhido pelo imortal autor inglês, certo é que Michel de Montaigne colaborou com Shakespeare na elaboração espiritual de “A Tempestade”. Quanto a isso as provas documentais não falham. Ao aparecerem “Les Essais”, essa obra revolucionou a Europa. Traduzidos em alemão e italiano, Fegjoo apresenta a primeira versão espanhola. Surgem logo em inglês, na corte de Ana da Dinamarca, mulher de Jacques I da Inglaterra. Foram traduzidos por Giovanni Florio, gentilhomem italiano, livre pensador e hábil manejador de quatro idiomas, inclusive o inglês. E ele oferece aos intelectuais da Grã-Bretanha “Les Essais”, vertidos sob o título: “The Essays of Michel Montaigne, Knight”.

Destaca-se, na portada elegante do volume, o rosto bem fiel do perigordino. O tradutor ficou impressionado com a aparente desordem do humanista social francês, freqüentemente perdido em “les routes doux-fleurentes”, da erudição e das lembranças. Daí recear que os ingleses não lessem o francês tão andejante. Para evitar esse escolho resolveu contorná-lo, com advertir os leitores das qualidades e dos defeitos dotados em Montaigne. Não fossem os ingleses apanhados assim desprevenidos. Por isso imaginou e fez gravar no frontispício do livro, desordenado conjunto, numa perspectiva singular de ruínas antigas, templos devastados, escadarias em elipse, edifícios erguidos sem ritmo, mas com estética. E a complexidade penetrante dessas coisas atabalhoadas pareceu-lhe representar o símbolo natural e vivo do método ondulante empregado do perigordino.

Em versos explicativos abertos ao alto da gravura, Giovanni Florio convida: “Penetrai nestes pórticos franceses: aqui tendes a chave inglesa. Inteiramente aberta, a porta vos incita a curiosidade: entrai. Dar-vos em epítome o que há de precioso nesses recantos, nessas voltas, nesses trilhos, constitui obra, a meu ver, dificílima. Percorrendo esse palácio da inteligência, levantando pelo talento de Montaigne, admirareis a beleza das coisas ignoradas. Enumerá-las seria impossível. Entrai e nessas curvas e ângulos colhei a sabedoria”.

Shakespeare ouviu o conselho de Florio, aproveitando-o. Fez dessa tradução de Montaigne o seu livro de cabeceira. Conservado hoje no “Britsh Museum” o exemplar de “The Essays of Michel Montaigne, Knight” que pertenceu ao autor de “A Tempestade”, lêem-se nele a data e a assinatura, escritas de próprio punho: “1600, William Shakespeare”. E as notas marginais, feitas com a letra do escritor inglês, traduzem o seu pensamento.

Estudadas em conjunto, as obras de Shakespeare parecem ter sofrido, ao menos dessa data em diante, profunda influência nas entrelinhas. E principalmente na “A Tempestade”, de Montaigne disfarçada ali se acha, bem nítida, a tradução integral de trecho do capítulo “Des Cannibales”, existente em “Les Essais”.

Vejamo-lo no original francês: “C´est une nation, diroy-je à Platon, en laquelle il n´y a aucunte espece de trafiques; nulle cognoissance de lettres; nulle sciences des nombres; nul nom de magistrat, ny de superiorité politique: nul usage de service, de richesse ou de pauvreté; nuls contrats; nulles sucessions; nuls partages, nulles occupations qu´oysives; nul respect de parenté que commun; nuls vestements; nulle agriculture; num metal; nul usage de vin ou de bled; les paroles même que signifient le mesonge, la trahison, la dissimulation, l´avarice, l´envie, la detraction, le perdon, inouies”. (“Essais”. Livre I, chp. XXXI, pag 267).

Confrontemos o texto inglês com as linhas acima, na réplica de Gonzalo a Alonso:

"A Tempestade — ato II, cena I"

 

In the commonwealt I would by contraries
Execute all things;

Dans ma république je voudrai contrairement
Exécuter toutes choses;

Would I admitt: for no kind of traffick;
Aucune espèce de trafiques; il n´y aurait

Letters should be known; no name of magistrats;
Nulle cognoissence de lettres; nul nom de magistrats;

Of riches or of poverty; no use of service
De richesse ou de pauvreté; null usage de service,

Sucessions: bound of land, tilth,
vineyard, none; no contracts;
Nulles sucessions, nuls partages;
nulle agriculture, nulle vigne;

N o use of metal, corn, or wine, or oil;
Nul metal; nul usage de bled, de vin ou d´huile;

No occupation: all men, idle, all;
Nulles occupations, qu´oisives;

Há quem veja nesse empréstimo de Shakespeare outro feito por Montaigne a vários autores de seu tempo. Cita-se, nesses caso, a “História das Índias”, de autoria de Banzoni, traduzida para o francês, por Chauveton. Outros escritores são apontados. Principalmente viajantes, cujas obras foram publicadas anteriormente. Assim Pierre Villey comenta: “Bien que les relations imprimés ne fissent pas défaut à cette époque sur les pays de Cannibales (la côte actuelle du Brésil où avait abordé en 1557 la fameuse expedition de Villegaignon), il est à remarquer que, confromément à sa déclaration, Montaigne, dans la premiére redaction de son essai, semble n´avoir rien emprunté ni aux cosmographes comme Thevet, Belleforest et Munster, ni aux relations des compagnons de Villegaignon comme le même Thevet ou Jean de Lery; il parait parler des cannibales uniquement d´aprés des témoignages oraux”. (“Essais de Montaigne”. Tome I — chap XXXI — 1922).

Pierre Velley firisa bem: Montaigne parece falar...como homem de “bonne foy”. E assim a exegese literária leva à hipóteses envoltas na fantasia.

Voltemos a Shakespeare. Ele viajara pela Itália, em 1593, mais ou menos. (Sir Edmund Gosse — “Litterature Anglaise”. trad. francesa de Davray). Ora, desde 1561 corria pela península uma tradução italiana, impressa em Veneza, da obra de Thevet. E do livro de Léry havia, desde 1586, uma versão latina, embora tivesse aparecido em inglês o resumo da edição francesa de 1578.

No entanto, quando se trata de Shakespeare todas as suposições são admitidas. Elas se perdem sempre nos domínios das conjecturas, porque essa figura díspar da literatura inglesa desliza por entre névoas espessas. E daí adquirir, às vezes, o aspecto de mito literário.

Mesmo assim o gênio de Shakespeare encerra em si todo o potencial do gênio da Inglaterra, consubstanciado no seu evidente imperialismo intelectualista. Palpita nele a capacidade assimiladora da rapina inteligente; a facilidade estupenda com que se apossa do material necessário, onde o encontra, para criar, com os despojos recolhidos, a obra maravilhosa, a obra universal, a obra eterna do espírito humano. E assim o poeta da humanidade está situado sempre onde haja homens capazes de sentir a beleza da vida e o encanto da verdade.