História e Lenda


Tito Lívio Ferreira




A questão da “Língua Brasileira”



O dialeto brasileiro


Amadeu Amaral publica, pelas alturas de 1920, o “Dialeto Caipira”. Logo de início o conhecido autor de “Espumas” explica: “Fala-se muito num “dialeto brasileiro”, expressão já consagrada até por autores notáveis d´além-mar; entretanto até hoje não se sabe ao certo em que consiste semelhante dialetação, cuja existência é por assim dizer evidente, mas cujos caracteres ainda não foram discriminados”. Se não se sabe ao certo, como quer Amadeu Amaral, em que consiste o “dialeto brasileiro”, pois seus característicos ainda não foram estudados, segue-se que a sua existência é hipotética. E para melhor assinalar o seu pensamento, o autor do “Dialeto Caipira”, pouco adiante frisa: os fonemas do dialeto (brasileiro) são em geral os mesmos do português, se não levarmos em conta ligeiras variantes fisiológicas, que existem entre povos diversos e até entre frações de um mesmo povo; variantes essas de que, pela maior parte, só a fonética experimental poderá dar uma notação precisa”. Reconhece Amadeu Amaral que os fonemas brasileiros são os mesmos do português, apenas com pequenas variantes na pronúncia. E assim sendo, o idioma empregado por brasileiros e portugueses é uno e indivisível.

A língua nacional

Dois anos depois, João Ribeiro dá a lume à “Língua Nacional”. O pensamento do erudito filólogo patrício lá está: “Língua Nacional é essencialmente a língua portuguesa, mas enriquecida na América, emancipada e livre de seus movimentos”. Para o notável gramático, a Língua Nacional é, virtualmente, a língua portuguesa. Dela não se afasta, nem há razões bastantes para segmentar o que está incluído no todo. E daí a língua nacional ser apenas um complemento do idioma português.

O linguajar carioca em 1922

Por esse mesmo tempo, o sr. Antenor Nascentes edita o seu “Linguajar carioca em 1922”, onde se lê: “Pouco nos interessa a língua das classes cultas, primeiro lhe falta a naturalidade, a espontaneidade da língua popular”. Como se vê, o conhecido romanista cuida, exclusivamente, da linguagem popular, da maneira característica do povo carioca exprimir seus pensamentos. E o ilustre professor do Pedro II confina-se na geografia lingüística da terra carioca, quando positiva: “Os fonemas (cariocas) são por assim dizer os mesmos de Portugal; não houve criação de fonema novo algum”.

A língua do nordeste

Com “A língua do nordeste” (Alagoas e Pernambuco) o sr. Mário Marroquim restringe as investigações dialetais à determinada região do nordeste brasileiro. Considera: “Não está ainda feito o estudo do dialeto brasileiro”. Todavia bate-se pela “nossa saborosa língua brasileira”, onde ressaltam “modismos sintáticos peculiares ao nosso falar”. E assevera: “O dialeto vai se armando assim para resistir à força conservadora da língua culta”. Talvez o sr. Marroquim tenha razão. Entre o dialeto e a língua culta ele ressalta as suas claras preferências.

A língua brasileira

Surgiu há alguns anos, na Câmara Federal, a questão da “Língua Brasileira”. O debate empolga os legiferantes da época. O prof. Edgard Sanchez bate-se pla nacionalização do idioma. Depois concatena em volume, o seu brilhante arrazoado, e entrega ao público a “Língua Brasileira”.

Nesse interessante livro o seu autor esclarece: “O dialeto brasileiro é a língua que o clima, a glote e o ouvido brasileiros criaram, modificando a fonética da fala portuguesa, aumentando-lhe para o dobro o vocabulário, dando à linguagem outra construção e giro”. Paladino da nova expressão, o ex-parlamentar pugna, com ardor, com entusiasmo, com veemência, pela boa linguagem brasileira, porque, a seu ver, “todo o DIALETO de nação independente, soberana, é LÍNGUA”. Este argumento não parece muito científico, nem muito provado. Os próprios países hispano-americanos o contestam. Neles se enraizou o idioma dos conquistadores, isto é, o velho e puro castelhano, de que tanto se enobrecem os povos descendentes da Espanha, independentes, soberanos, mas ligados pelo traço comum da mesma língua. E nenhum deles fala ou escreve uma língua característica de povo.

Estudos da Língua Nacional

“Por fim, mais recente é o livro de Artur Neiva: “Estudos da Língua Nacional”. Logo nas primeiras páginas o conhecido escritor justifica o seu pensamento: “Quase não me faz frio ou calor chamar-se o que se fala no Brasil de língua brasileira, portuguesa ou dialeto”. E com isso a língua nacional chega a perder-se nos domínios amplos da algaravia sem nome.

Pensamento comum dos dialetólogos

Ora, o pensamento comum dos dialetólogos prende-se ao delicado fio da pronúncia dos elementos sonoros da nossa língua. Esse fio abrange num ou noutro pesquisador, a sintaxe do idioma. No entanto, a idéia geral se trava aos fonemas ainda não dicionarizados. Este problema está bem encaminhado com a publicação do “Pequeno Dicionário da Língua Brasileira”. Resta o caso da modificação da fala portuguesa. Este assunto dá pano para mangas e para a língua. Façamos alguns comentários a respeito. E para isso vamos recorrer a filólogos franceses, com eles argumentando.

A pronúncia dos franceses

No prefácio de “Comment on prononce le Français”. Mr. Ph. Martinon “Doctteur en lettres”, cuida, carinhosamente, do assunto, elucidando-o. Refere-se à pronúncia parisiense. Critica-a. E diz: “La prononciation parisiennse est la bonne, mais à condition qu´elle no soit pas EXCLUSIVEMENT parisienne auquel cas elle devient simplement dialectale”. Porque, para que essa pronúncia merecesse foros de boa, precisaria ser adotada, ao menos, por grande parte da França do norte. Porém, ela não é. Há ainda outras coisas dignas de serem consideradas. “Paris est grand, et il y a bien des mondes à Paris”, continua Mr. Martinon. Por ser grande varia muito.

A língua dos parisienses

Mr. Martinon continua: “La langue varie, en effet, dit l´abbé Rousselout, suivant les quartiers, les conditions sociales, et les intentions du sujet parlant. Un Parisien de la haute ne parlera pas comme un homme du peuple. Et l´homme du peuple se gardera bien de parler devant un étranger, une personne qu´il respecte, comme avec un camarade...Donc le Français à conseiller tous est celui de la bonne societé parisienne”.

Diversidade de pronúncia

Com esse judicioso argumento Mr. Philippe Martinon procura, no limite do possível, uma fórmula experimental para apoiar a sua tese referente à unificação das diversidades da pronúncia, bem marcantes nas variadas regiões da França. Justifica ainda, por essa forma, a publicação de seu outro livro “Comment on parle en Français”, quando assevera: “Suivant une hereuse formule d´un de mes amis, nous devons tâcher de parler un peu mieux que n´écrivent ceux qui écrivent mal, et des pas écrire plus mal que ne parlent ceux qui parlent bien”.

A unidade da língua

No primeiro volume da “Encyclopedie Française”, publicada há cerca de dois anos, sob a direção de Abel Rey, Antoine Meillet e Paul Montel, deparamos logo nas primeiras páginas com este esclarecimento de Meillet: “Là où sont employés les mêmes mots, la même manière de varier la forme des mots suivant l´usage qui en est fait et la même manière de grouper les mots, on dit qu´il y a unité de langue; ainsi une langue se définit par le vocabulaire employé et par la manière de faire varier et de grouper les élèments de ce vocabulaire”. Essa unidade de linguagem está, é bem de ver, sujeita à transformações de conseqüência vária, bem como na diferenciação e no agrupamento das palavras.

Variedade na unidade

Porque o vocabulário floresce, vivaz e robusto, em conformidade com a evolução social e lingüística do povo. Todavia, a estrutura da língua não é atingida. Não é atingida, porque a originalidade da língua reside, em casa fase do seu desenvolvimento contínuo, no sistema de seus fonemas e no sistema de seus processos gramaticais. Assertiva esta comprovada no mesmo volume da “Encyclopedie Française” pelo professor Michel Lejeune, “maître de conférences à la Faculté de Poitiers (França), com este exemplo: “Soit une phrase comme on en peut aujourd´hui recontrer dans plus d´un des jornaux. “La star flirtait au bar avec le recordman du looping”. Tous les mots significatifs en sont des emprunts à l´anglais (ou à l´anglo-américain). La phrase cependant, est française, non anglaise: la flexion du verbe (flirt-ait et non flirted) la forme des mots acessoires, articles et prépositions, la caracterisent comme telle. De plus, dans la mesure où les termes empruntés s´incorporent au vocabulaire français ils y reçoivent une prononciation qui souvent n´a plus de commum avec celle de leur langue d´origine; nous prononçous “star” et “record” avec le voyelles et les consonnes du français; or, de l´anglais au français, le timbre des voyalles, l´articulation des comsonnes telles que t, d, ou r, deffèrent notablement; de plus le mot anglais “record” porte, sur la syllabe initiale, un accent d´intensité très marqués: em français, l´accent est moins marquée et porte sur la syllabe finale; l´écriture masque ces divergences; mais elle ne doit pas faire illusion: un mot empruté est, le plus souvent, un mot défiguré” (Julho de 1937)”.

Vocabulário, por si só, não é língua

Daí, na mesma época, sob o domínio da mesma língua, os vocabulários individuais se tornarem extensos, diversos e variados, conforme a profissão, a cultura e as condições próprias de cada pessoa. Vocabulário, por si só, não constitui língua. Falta-lhe a sintaxe de regência, de concordância e a semântica. Assim, por muito profundas que sejam as variações do vocabulário, não atingem a estrutura íntima da língua. Esta não se altera, nem se dessora.

O enriquecimento da língua

“Enriquecer a língua não é deturpá-la, desconjuntá-la ou transformá-la na algaravia grosseira das ruas, preceitua Olavo Bilac (Discursos e Conferências). Enriquecer a língua é conservar-lhe a linha sóbria, a elegância nobre, a dignidade esbelta, embelezando-a. Isso fazemos, em nossa terra, com a língua dos nossos antepassados. Reconhecem esse fenômeno os próprios portuguêses. Notável orador do século passado, Antonio Cândido, (Discursos) fala: “Transplantada para o sul da América, não perdeu (a língua) o caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de profunda, indefinível melancolia que lhe imprimiu a esforçada e trágica aventura de nossos avós e ainda adquiriu precisos elementos de encantadora suavidade, de frouxa, dolente e maviosa ternura”.

A língua de ouro velho e a terra de ouro novo

Este verso de Martins Fontes (Verão) exalta o idioma português em terras brasileiras. Este, não se metamorfoseia em língua nova. Apenas sangue novo renova-lhe, através de processos biológicos e sociológicos, as células mortas, sem modificar-lhe a constituição íntima, sem decompor-lhe o cerne, sólido e vivo. Em contacto com a terra moça, com a gente bárbara e com a Natureza bravia, ela perde a sua ancianidade e rejuvenesce. Vede-a na forma sedutora e esbelta de Afonso Arinos, no estilo ousado e colorido de Monteiro Lobato e na maneira desenvolta e sacudida de Euclides da Cunha.

Dever dos brasileiros

Nosso dever precípuo é estudar o nosso idioma. Conhecê-lo e cultivá-lo com carinho. Distribuídos pelo amplo território brasileiro, os dialetos e subdialetos apresentam, na sua expressão comum, ares da família-tronco, de onde se originaram e de onde não se afastam. Patrícios distintos e notáveis estudam esses regionalismos familiares, esses modismos populares, esses neologismos da língua comum. E essas investigações dialetológicas constituem matéria vultosa e atraente para o estudo sereno do nosso idioma: a língua portuguesa.

Esse e outros estudos são postos em evidência pelos próprios portugueses. Esta folha (“O Estado”), há cerca de cinco anos publicava, em telegrama de Lisboa, o tópico seguinte, de artigo publicado no “Diário de Lisboa”: A língua portuguesa é una, indivisível, autônoma e em perfeita maturidade de cultura, muito devendo a brasileiros ilustres durante os últimos 150 anos”. E por isso, “a língua nossa, apesar das tão apregoadas mas tão pequenas diferenças semânticas, prosódicas e sintáticas, é tanto a em que proseia Camilo, como Euclides, tanto a em que ora Latino como Rui; tanto a em que canta Bilac como Junqueiro...E essa se chama, se chamou e se chamará língua portuguesa. (Aureliano Leite — “Língua Brasileira? Não, Língua Portuguesa!”).




Textos e Contextos


Dois campos distintos situam, no tempo e no espaço, “la querelle d´auteurs”. Em ambos se combate, e, entre ambos ficam espectadores impávidos a assistir, emocionados, ao desenrolar dos acontecimentos. Por vezes misturam-se com os lidadores, ávidos por entrar no prelo literário, quando o momento se torna interessante. E, outras vezes, com o desejo de sacudir a estupidez convicta dos indiferentes a todas as pugnas intelectuais.

Assim, na paisagem movediça das idéias e das polêmicas, os espíritos continuam se debatendo. Se em “la querelle des sources” os primeiros procuram, pela pesquisa, pela análise, pela comparação e pela síntese, fontes próprias de idéias alheias, os segundos se degladiam em torno de idéias alheias, como se elas fossem, de cada um, propriedade exclusiva. Daí se formarem opiniões firmes, feitas e frondosas, à respeito de fontes e autores. E daí espirrarem erudição acabada, as autoridades dogmáticas, hirtas e heráticas.

Certo, acusados e acusadores entremeiam a sabedoria viva dos idiomas contemporâneos, com citações gregas e latinas, línguas erroneamente chamadas mortas. Por isso mesmo, o visconde de Santo Tirso cujas crônicas tanto brilho deram à estas colunas do “Estado”, quando aqui escrevia com o pseudônimo de Zeno, sentenciou: “Os autores conhecidos só servem para citações”. Nem sempre elas, as citações, ficam bem junto deles, os autores. Estes e aquelas se divorciam, sem no processo entrar o consenso mútuo. Prova-o, o escritor de “Cartas de Algures”, em “De rebus pluribus” ao referir-se, com estranheza, a ilustre homem de letras de sua terra, cuja pena ligeira iniciara o período: “Como disse Mirabeau, nem só de pão vive o homem!...” Santo Tirso lamenta o fato de Nosso Senhor Jesus Cristo ter, com sua divina paciência, plagiado o grande orador da revolução francesa, cerca de dezoito séculos antes deste haver nascido. E assim o “nec solo panem...” passa, por ouvir dizer, de lábios divinos para lábios humanos.

Todavia, se em “la querelle des sources”, nem sempre a questão se prende a aspas de mais ou de menos, pois o pensamento também entra no jogo mágico do raciocínio, em “la querelle d´auteurs” o caso simplifica-se, embora o debate o complique e o desentendimento o obscureça. Clarificar o assunto, expô-lo à luz meridiana, eis a dificuldade magna, porque os advogados da causa empenham-se, com ardor, em torná-la confusa e indecisa, apenas argumentando. E com todos os recursos de sua inteligência consegue o advogado do diabo defender o constituinte para inocentar o plagiário.

Outrora o delito não se enquadrava em nenhuma figura jurídica. Avançar em idéias alheias não chegava a ser reparado, nem comentado. Na Renascença, outra coisa não fizeram os imitadores dos gregos e latinos. E o pensamento antigo passava por novo e por inédito.

Esse modo de ver explica e ilustra o fato de “Maître Jacobus Thomasius, professeur en l´école Saint-Nicolas de Leipzig”, ter composto, pelas alturas de 1684 um tratado de “De Plagio Literario”, onde se encontra, conforme diz Furetiére, licença para qualquer pessoa apoderar-se do bem alheio, quando o bem é espiritual. (Anatole France — “La vie literáire”). Porque, para o autor de “Les dieux ont soif”, o plagiário age como surrupiador, sem gosto e sem discernimento, das idéias de outrem. E logo se defende, explicando: “Mais quant à l´écrivain qui ne prend chez les autres que ce qui lui est convenable, et profitable, et qui sait choisir, c´est un honnête homme”. Homem honesto possui discernimento na escolha, conveniente e proveitosa. E, neste caso, desaparece o plágio no estilo do escritor de talento.

Ora, em “la querelle des sources”, M. Lanson emprega métodos de história literária, aplicados em estilos de épocas diversas, para chegar a conclusões objetivas. Assim pesquisa rastos diferentes em seara alheia. Estes versos de Lamartine, colhidos nas “Meditações”, emprega ele o processo referido:

“Imparfait ou déchu, l´homme est le grand mystère.
Dans la prison des sens enchainé sur la terre,
Esclave il sent un coeur né pour la liberté;
Malhereux il aspire a la felicité;
Il veut sonder le monde, et le monde est débile;
Il veut aimer toujours, ce qu´il aime est fragile!”

Primeiro verso: “mistério” está aí empregado no sentido da tradição cristã (Quatro citações, de Pascal a Baour-Lormian). Segundo verso: É platônico pela inspiração (citação de Cícero). Terceiro verso: Pertence, inteiramente, a Rousseau (Citação de Emílio”). Quarto verso: Coincide com outro verso de Louis Racine (Citação do verso de Racine). Quinto verso: Voltaire trata do mesmo assunto. Sexto verso: fórmula abstrata, resumo do “Lac”. Sétimo verso: A imagem deste e dos verso seguintes está em Milton. (Citação de Milton). Para M. Lanson o poeta das “Meditações” coloca Pascal sobre Cícero; Cícero sobre Platão; Platão sobre Rousseau; Rousseau sobre Louis Racine; Louis Racine sobre Voltaire; Voltaire sobre Lamartine; Lamartine sobre Milton. (Arbert Thibaudet — “Réflèxions sur la critique”). E para chegar a este resultado é preciso a gente dispor de erudição, lazer e boa-vontade.

Ora, os maiores criadores do pensamento francês e inglês, não escaparam à pecha de plagiários. Grande e incompleta, a lista se ilustra com Rabelais, Montaigne, Voltaire, Anatole France, Zola, Sardou e Alphonse Daudet. Baudelaire integra a companhia, soba acusação de ter plagiado Stendhal. E os textos de ambos são postos lado a lado, para confronto, análise e estudo.

Comentadores vários têm pesquisado “Midsummer Night´s Dream” (Sonho de uma noite de verão), de Shakespeare, para descobrir onde o grande autor inglês teria encontrado a flor miraculosa, cujo suco torna loucos os dois amantes da peça. Fora, segundo os perquiridores, descoberta no livro de Jorge Montemayor, “Diana enamorada”, um romance do século dezesseis, muito difundido por toda a Europa. Referências outras surgem em peças várias do autor de “Como for de seu agrado” e dos “Dois Gentishomens de Verona”. Interessante é que Alfred de Vigny, admirador e leitor de Shakespeare, certo havia gravado a frase do autor inglês: “Chorarei por nada como Diana, ao pé da fonte...” (“Como for de seu agrado”), quando fechava sua “Maison du Berger”, com esses dois versos célebres:

“Pleurant, comme Diane, au bord des ses fontaines,
Ton amour taciturne et toujours menacé”.

Se o fenômeno literário existe na França e na Inglaterra, também se encontra em Portugal e no Brasil. Eça de Queiróz ouviu, entre dois períodos irônicos e sarcásticos, a leitura estilizada de libelos acusatórios referentes a plágios por ele cometidos. E a defesa vinha sempre envolta numa carta de alfinetes farpeantes.

Citado como plagiador de Sterne, Machado de Assis nem contrafé exige para sua defesa. Deixa correr o processo à sua revelia. E os acusadores ficam sozinhos falando. Léo Vaz foi, certa vez, chamado a plenário, por motivo idêntico. Notificavam-no por ter imitado o escritor de “Memorial de Aires”. Encaramujado em seus pensamentos, o autor de “O professor Jeremias” raciocina sorrindo. E desconcerta os seus acusadores...

No entanto, a Rui Barbosa é atribuído o mais curioso plágio de nossos dias. Entre Rui Barbosa e José do Patrocínio travava-se, na imprensa carioca, forte polêmica a respeito de problemas políticos e sociais. Enveredavam os dois por terrenos privados. Direta e pessoal, a linguagem resvala pela violência. Perdem os contendores a compostura e descem à descompostura. Patrocínio fere o adversário, insultando-o. Rui revida a injúria. Arrasta o inimigo pelos declives do ridículo e da raiva. Nesse memorável artigo, o autor de “Cartas de Inglaterra”, compara o gigante da Abolição a Pietro Aretino, famoso intelectual italiano. E o ilustre baiano mereceu, de seus admiradores, as consagrações do triunfo.

Tempos decorridos, críticos esmiuçadores descobrem a fonte límpida onde o autor de “A Réplica” se inspirara para esmagar o tribuno da raça preta. Em De Sanctis, escritor italiano, estava a página imitada pelo talentoso discípulo de Vieira. Os dois textos foram publicados, frente a frente, para o devido exame. E assim a “Águia de Haia” venceu o “Tigre da Abolição”.

Explica-se o caso. Rui terminara a leitura do livro de De Sanctis, cuja pena reviveu o cínico e glorioso satírico da Renascença. Escandaloso pelas suas liberdades, Aretino foi bem o homem do seu tempo. Melhor: foi a imagem de sua época. Sua obra literária exerceu marcada influência, em toda Itália e em todos os espíritos contemporâneos. Montaigne e Rabelais sentiram o efeito dessa literatura. Inspirado no teatro desse toscano sutil e sensual, Moliére escreveu “Tartuffe”, cujo original está em “L´ipocrito”. E as suas obras distraíam a humanidade angustiada e triste.

Aretino criou, por assim dizer, o jornalismo profissional. Foi ele o primeiro escritor que exigiu o pagamento de seus artigos, ao entregá-los na redação, para serem publicados. Calculara ele a potência em ação existente na imprensa. Grandes capitães de seu tempo não se celebrizaram tanto pela ponta da espada, quanto ele se tornara famoso pela ponta aceradissíma da pena. E ninguém como o ilustre filho de Arezzo representa a Itália renascentista, violenta, lasciva, risonha e magnífica.

Sob a forte sugestão dessa figura ávida e amoral, mas generosa e mística, Rui traça a resposta arrasadora. Impelido pela envergadura robusta de sua imaginação arejada em remígios violentos, ei-lo que talha, ajusta, cose e veste no tribuno preto a roupa inconfundível de Pietro Aretino. Sua emoção intelectual fora profunda e incisiva. Porisso repete, inconscientemente, conceitos alheios, com empregar, no viço da linguagem, mais colorido, mais causticidade, mais sarcasmo. Vibrante e poderosa antena, sua sensibilidade espiritual captara a mensagem prestigiosa de lúcido talento a serviço de causa idêntica. Todavia, no desgaste nervoso dessa inteligência viril, reconheceram os comentadores que Rui empregara todo o potencial fremente de seu estilo transbordante, com iluminá-lo de beleza, vida e claridade. E tanto De Sanctis como Rui Barbosa viveram sob clima semelhante, para alcançar objetivo idêntico.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, o autor de “Cartas da Inglaterra” jamais fez a defesa dos imitadores. Desse trabalho se encarregou Anatole France, ao tratar de plágio, como se advogasse em causa própria. Sem condená-lo, o autor de “Le jardin d´Epicure” considera o senso estético agrilhoado ao espírito de imitação, pura e simples. Daí afirmar em “La vie literaire”: “A estética não se alça em bases sólidas. Castelo no ar querem apoiá-lo na ética. Não há sociologia. Não há biologia. A perfeição das ciências jamais existiu, a não ser no cérebro de Augusto Comte, cuja obra é uma profecia. Quando a biologia existir, isto é, daqui a alguns milhões de anos, então poder-se-á edificar uma sociologia”. Vivera ele os dias longos da luta pertinaz sustentada por E. Gurkheim contra G. Tarde, em favor, cada um de seu postulado. Concordara com C. Bouglê e J. Raffault: “Science contestée, science en formation, elle (la sociologie) n´a pas encore mis debout, dit-on um système de vérités positives où l ón puisse faire pénétrer les jeunes esprits”. (Avant-propos — “Eléments de sociologie”). Anatole France não concorda com ninguém; duvida. Duvida e examina, com filosofia cética, a ciência dos homens negando-a. Nega à inteligência humana o divino poder de criar, para permitir-lhe, por favor, o direito de imitar apenas. No entanto, esse exagerado negativismo desperta solertes suspeitas. E daí S. de Saint-Adolphe comentar: — “Para compreender Anatole é preciso apanhá-lo pelo avesso de suas idéias, mesmo quando cita”...


Poemas de guerra


Paz, filha de Deus, olha como a guerra continua a ronda sinistra e sombria através do mundo abalado pela hecatombe universal. Ei-la como destrói, arrasa, aniquila. Ei-la como fecunda, com as perpétuas florações humanas ceifadas nas transitórias sementeiras da paz, as esplendidas sementeiras da morte. E eis como fenecem os homens nos túmulos horríveis dos morticínios formidáveis.

Todavia, repara como por entre os combatentes passam os poetas. Sentem, na guerra ou na paz, o misterioso pulsar das idéias sacudidas pela emoção a arder no recôndito inquieto de suas almas palpitantes. Deslembrados agora dos poemas floridos da paz, captam os altos poemas da guerra, na antena irradiante do cérebro sintonizado. Combatem e cantam. O toque de sentido alerta-lhes os corações impetuosos. Desperta neles, animoso e dinâmico, o arrojo indefinido. Ficaram para trás as poesias brancas de serenidade, porque estuam agora as canções escarlates dos assaltos resolutos. Tingem-se os campos verde-claros de papoulas flamejantes. E eis como esses homens de coração alto e luminoso desaparecem nas chamas sôfregas do incêndio violento e crepitante.

O desespero imperativo leva os poetas a viver, nos instantes agudos, o pensamento e a beleza tocados pelo prestígio divino da eternidade. Compreendemos então, porque a alma contemporânea se debate, cheia de amargor, nesses poemas imperfeitos, onde se reflete o caos destes dias grisalhos. Porque turbilhonante e insatisfeito é o Espírito do homem, diria Verhaeren. E daí W. B. Yeats vê-lo mergulhar na desordem, nas trevas e na confusão dos tempos que passam.

No entanto, os poetas justificam, em toda a plenitude, a sua predestinada missão de levantar almas e corações, enobrecendo-os. E o fazem, com a graça de Deus, para defender e dignificar os valores morais e espirituais da Humanidade conturbada.

Ao clarão dos obuses e na pausa das metralhadoras, o poeta italiano Arturo Marpicati escreveu “Poemas da Guerra”. Combatente, assiste a cenas de heroísmo, desempenha missões perigosas, comove-se com os horrores, com os desastres, com as vitórias.. Descritivos e impressionistas, seus versos latejam com as esperanças, os lutos, as alegrias, o respeito aos mortos e os temores dos vivos. E eles celebram, principalmente, a altivez do Espírito, a dignidade humana e o orgulho do solo natural, onde as “doces terras invadidas — foram banhadas de glória; — quais platibandas floridas — marcam sendas da vitória”.

Outras poetas, lutam, pela mesma causa, em outras frentes de batalha. O delírio apocalíptico dos combates os atira nas arrancadas decisivas. E mergulham, em silêncio, no cataclismo caótico dos choques vertiginosos.

Desses poetas heróicos tombados em meio das trincheiras sanguissedentas, o sr. Abgar Renault traduziu, brilhantemente, uma coletânea de “Poemas Ingleses da Guerra”. Saiu-se bem dessa áspera prova de fogo, o conhecido poeta patrício. Daí o sr. Carlos Drummond de Andrade, poeta não menos ilustre, esclarecer na abertura: “Rigorosamente, Abgar não traduziu os poemas; fê-los de novo. Têm a serenidade, a compassada beleza, o sentimento sutil da língua que há na poesia do caro e esquivo poeta”. Assenhoreado assim do idioma em que é mestre acabado, o tradutor surpreendeu o pensamento subterrâneo e a emoção comunicativa dos poetas ingleses, ao passar para a língua portuguesa, em versos harmoniosos, “as coisas simples pelas quais os homens morrem”. E ainda mais o sr. Drummond de Andrade evidencia: “Abgar Renault fez bem em captar essas vozes graves e límpidas, emergindo do rumor das metralhadoras, aviões de mergulho e discursos de propaganda”.

Laurence Binyon puxa a fila dos poetas com o poema: “Pelos que tombaram”. Recorda-os, revive-os, realça-lhes as virtudes, porque eles são

“Como as estrelas que, quando formos pó,
na planície do céu, rodando, ficarão,
e à hora de nossa treva, ainda são estrelas,
até o fim, até o fim, eles continuarão”.

Segue-se-lhe Rupert Brooke. Morre este poeta a 23 de abril, dia de Shakespeare. Está sepultado sob o céu luminoso da Grécia, em Lemnos. Redoirada pelas cores vivas da legenda radiosa, a sua fulgida glória encerra algo de profético. Em “The Greatter Lover”, ele dissera:

“My night shall be remembered for a star
The outshomes all suns men´s days”.

(“minha noite será lembrada por uma estrela — que ofuscará todos os sóis de todos os homens”).

De seus contemporâneos teve Rupert Brooke a consagração mais alta e mais significativa. Considerado símbolo do heroísmo nacional, poetas cantaram-lhe o sacrifício, exaltando-o. Como ele também Charles Péguy foi, na França, exalçado pela abnegação, pelo desprendimento, pelo impulso heróico. Poeta, sabia dizer as coisas simples e nobres como as sentia no mais profundo do seu coração, no recesso de sua alma. De ambos, a querer irmaná-los no mesmo pressentimento de seus destinos e de duas vocações para a morte prematura, Edmund Goves refere: “O natural instinto dos leitores para ilustrar o espírito poético da grande guerra tomou, no grau superlativo, o nome de Rupert Brooke”. Saído em maio de 1915, poucas semanas após a sua morte, o seu livro póstumo teve talvez maior êxito que outros poemas de guerra.

Tornou-se logo uma espécie de símbolo. Representa, para o sentimento inglês, o que Charles Péguy significa para a França: a auriflama da bravura de sua pátria. Curiosos é que nem Péguy nem Brooke tiveram ensejo de lutar por muito tempo. Tombaram ambos, conforme pareceu na ocasião, obscuramente. Rupert Brooke empenhara-se na dolorosa luta de Antuérpia. E veio a morrer no Egeu, entre o Egito e Galipoli, sem ter visto o inimigo turco. Péguy desapareceu na antemanhã da batalha do Marne. Todavia, cada um desses moços foi imediatamente reconhecido como a encarnação do heroísmo de suas pátrias. E o sentido real dessa atitude viril explica-se: “Porque ele é a vida em oposição às doutrinas alucinantes que dominam o mundo e tentam impor-se pela destruição”. (Sérgio Milliet — “Charles Péguy” in “Sal da Heresia”).

Atravessam os versos de Brooke, fulgurantes clarões perdidos nos horizontes remotos da alma convulsa pela emoção pronunciada. E os três poemas desse poeta traduzidos pelo sr. Abgar Renault assinalam estados de alma confrangida e sobressaltada.

Em “Os Mortos” (The Dead). “O Soldado” (The Soldier) e “Fragmento”, vibram através de versos evocativos e serenos, as idéias varonis do poeta. Ele fala dos mortos porque

“De humanas alegrias e cuidados
foram tecidos estes corações”.

Sentiram a vida; viveram, em toda a plenitude, a realidade e o encantamento dos sonhos e das desilusões e:

“Depois, com um gesto, a geada fez parar
ondas que dançam e a beleza a errar,
e deixa um resplendor alvo e contínuo,
um brilho recolhido, uma amplidão,
uma paz luminosa sob a noite”.

Em seguida outros poetas desfilam. Alguns de 1941. Bem recentes. Situa-se entre os da guerra anterior. Allan Seeger com “I have a rendez-vous with death”. Quando “na noite de 30 de junho para 1º de julho de 1916, o regimento de Allan Seeger, atacou Beloy, viram por muito tempo, dizem seus camaradas, viram por muito tempo o americano destacar-se no fundo verde dos campos de trigo; muito pálido, ele sobressaía acima dos outros, pelo seu alto porte; corria de baioneta calada e caiu no primeiro choque”. (“Paul Hazard — “Amis étrangers soyez avec nous...” — in “Les Nouvelles littéraires”, 16 Septembre 1939).

Dias antes escrevera à sua mãe aflita: “Arrivez à aimer la France et à comprendre la noblesse de l´effort que fait son peuple, car se sera pour vous le plus reconfort pour ce que je suis prêt à souffrir en defendant sa cause”. Até o derradeiro alento defendeu a França, porque defendia a causa da civilização e da Humanidade. Por isso antes do supremo instante escreveu “I have a rendez-vous with death”, ora traduzido com tanto equilíbrio e sobriedade, pelo sr. Abgar Renault. Leiamo-lo.

“Terei uma entrevista com a Morte
em certa barricada em que se lute,
quando com suas sombras murmurantes
de novo a Primavera regressar
e as flores de macieira encherem o ar...
Terei uma entrevista com a Morte,
quando trouxer de novo a Primavera
os dias azulados e brilhantes.

Talvez ela me tome pela mão
e me conduza na escuridão
de seu país, feche meus olhos, corte
minha respiração...Talvez eu passe
ao lado dela silenciosamente.
Terei uma entrevista com a Morte
na escarpa recoberta de feridas
de uma colina destroçada, quando
este ano a Primavera vier chegando
e abrir nos prados as primeiras flores.

Fora melhor estar entre perfumes
e almofadas de seda mergulhado,
onde o amor vibra em seu sono encantado,
numa só pulsação, num só respiro,
de que é tão grato o suave despertar...
Mas tenho uma entrevista com a Morte
numa cidade em fogo à meia-noite,
ao ir a Primavera para o norte;
serei fiel à palavra que empenhei:
jamais a essa entrevista faltarei”.

Como os outros poetas da coletânea, Rupert Brooke teve, na poesia do sr. Abgar Renault, verdadeira correspondência espiritual, plena de ressonância. Pulsam, nos versos do tradutor, a grave emotividade, a “compassada beleza”, a psicologia mística do poema, onde se concentra o pensamento digno, tranqüilo e cheio de expressividade. E ressaltam, nesse idealismo robusto do autor, a atitude refletida, a afirmação consciente da existência ativa e a simplicidade lírica e ponderada.

Deformada e impressionante, a imagem do mundo convulsionado, do mundo aberto em ruínas fumegantes, trabalha a inteligência dos poetas da guerra e grava-lhes na alma atribulada, com a água forte das angústias, a realidade rude e destrutiva. E daí esses poemas diferentes conterem, na sua estrutura inacabada, algo de generoso, de impressionante, de altruístico.

Ademais, “esse livro que foi mandado editar pelos amigos de Abgar Renault”, representa singular homenagem aos poetas revividos e ao esforço criador do poeta patrício em viver, nestes dias crepusculares, sacudidos pelas rajadas frias da guerra, auroras de vida e de pensamento, sintetizadas com emoção e beleza. E por isso os leitores de “Poemas Ingleses da Guerra” devem reverenciar o poeta que bem soube traduzir os poetas compreendendo-os, interpretando-os, clarificando-os.