História e Lenda
Um tradutor de Homero
Homero descreve, nos versos imortais da "Odisséia" e da "Ilíada", a evolução política, social, econômica e religiosa do povo heleno, através de meio milênio. Dividido em clãs, agrupado em fratrias e em tribos, o "genos" conservaria, ainda por muito tempo, a célula constitutiva da sociedade grega. E a desagregação se processaria, lenta e seguramente, pela ruptura da solidariedade familiar e pelo imperativo das lutas de classes. Todavia a epopéia homérica merece bem ser considerada como o primeiro capítulo da história da Grécia, escrita e vivida pelos próprios gregos. Daí o poeta ser reconhecido como o primeiro e o maior de seus historiadores. Para a antiguidade clássica, a "Ilíada" e a "Odisséia" constituim "Bibles de toutes verités" e "sources de toutes sciences (V. Bérard - "Ithaque et la Gréce des Achéens"). Para os pesquisadores de hoje representam, em sua admirável síntese, incomparável acervo de informações preciosas. Porque esses poemas retêm, condensam e narram, em versos luminosos, o reflexo, vivo e arfante, de diferentes idades em cujo dilatado período se realiza o laborioso desenvolvimento dos grupos sociais da Grécia. Coloca-se nos séculos homéricos, o mais nobre esforço de "raison créatrice", (Picard - "Les Origines du polyth. hellenic".) que jamais haja sido empreendido. E Homero canta, no madrugar radioso dessa idade épica, o ciclo feliz, em que os aqueanos, mesmo longe da pátria, se entregam à doce alegria de viver, sem a preocupação da vida.Gregos e latinos consagram a Homero a mais alta, a mais pura e a mais comovida admiração. Traduzido e comentado, lido e amado, as belezas de seus versos apaixonam as almas, enlevando-as.
E daí o entusiasmo dos maiores poetas, ao exaltar-se a unidade clara e o potencial do gênio. Para os espíritos verdadeiramente sensíveis ao belo poético, a "arte helênica sobrevive com a recordação de um paraíso perdido, que é preciso reencontrar (H.S. Chamberlain - "A Gênese do século XIX"). E essa vivência animada constitui, na poética de todos os tempos, o panorama do mundo remoto, onde estuam a emoção, a inspiração e a graça, palpitantes de humanidade.
Modelo eterno, ímpar e perfeito, Homero jamais foi simples coordenador de lendas e tradições helênicas, poetizando-as. Contra essa idéia se opõe o gênio intuitivo de Schiller, com declarar simplesmente bárbara tal hipótese.
Copiosa é a lista dos que, inclinados à beleza poética, buscaram, na fonte perene da "Odisséia" e da "Ilíada", o contacto emotivo, com o sentido estético de penetrar-lhes o pensamento, ou com o objeto de verter-lhes, em idiomas peregrinos, os hexâmetros eloqüentes das rapsódias soberbas. Multiplicam-se os tradutores. Surgem versões em línguas várias. E essas tentativas heróicas de transportar Homero para idioma outro, asseguram a perpetuidade da obra e do modelo clássico. Em vernáculo conseguiram esse intento, Odorico Mendes e, posteriormente, os padres E. Dias Palmeira e M. Alves Corrêa.
Fizeram-no, diretamente, do original, com "felicidade e talento, esse ambicionado propósito. Verte, do original para o nosso idioma, a "Odisséia, no mesmo metro em que foi vazado o poema. No entanto, posição privilegiada ocupa esse tradutor, para levar a cabo o trabalho, como o fez, vitoriosamente. Enamorado poeta da inspiração e da emoção estética de que as rapsódias homéricas representam modelo, imperecível e fascinante, Carlos Alberto Nunes revela-se o épico nacional, quando publica o poema das bandeiras, consubstanciado em os "Brasileidas". Consagra-o Afrânio Peixoto, com estas palavras: "Um grande poeta nos nasceu, e, o que é mais, uma raridade nacional, um poeta épico. Alvíssaras!". E Júlio Dantas o exalta: "O poeta é simplesmente extraordinário. Que dignidade de expressão, que nobreza de imagens, que alto sentido do estilo épico, que vigor e que movimento nas narrativas, que conhecimento substancial da língua, que domínio absoluto do verso branco, quase sempre escultural".
Poeta, ele cria, unifica e entretece o místico-histórico, configurando-o. Não se limita o poeta das "Brasileidas" a escrever a cronologia de nosso imortal bandeirismo. A harmoniosa estrutura da obra revela a estética do edifício monumental, em cuja unidade e simetria se projeta o espírito luminoso do criador de beleza, do plasmador de cenas e de lendas, argamassadas no todo, palpitante do ideal artístico e emotivo. Concretiza assim, com os recursos de sua alada imaginação, de verdadeiro criador, o que poetara Shakespeare: "A imagination bodies forth - The forms of things unknow, the poet´s pen - Turns them to shape".
Credenciado dessa forma, como o "configurador", Carlos Alberto Nunes toca a fonte original da "Odisséia", e, no próprio metro em que ela foi escrita, nos dá primorosa tradução em nosso idioma. Difícil se nos afigura, nestas rápidas notas, retalhar a obra do poeta patrício, para esmiuçar-lhe o mérito intrínseco. Todavia, força é assinalar, nesse árduo trabalho, além da dificuldade real do metro, que o tradutor quis em conformidade com o original, há outras de grande relevância. Verifica-se, de passagem, a arcaização dos termos, a dignidade de expressão, do texto e a vertida, o criterioso emprego de termos não rebuscados, encontradiços numa língua morta, empedrada ou alheia a nossos ouvidos e ao nosso entendimento. Só este ponto, o do ajustamento plástico de outro idioma ao verso original, sem alterar-lhe o equilíbrio, a beleza, a fluência, a inspiração, constitui, evidentemente, prova cabal de seguro domínio da palavra escrita. Domínio esse conseguido à custa de porfiada leitura, gosto de expressão e adequado senso de equilíbrio. E assim a lira de Homero tem acentos da mais variada tonalidade: ora a pintura vivaz da paisagem colorida, ora a movimentação dos acontecimentos, ora a ternura das situações humanas, esplendidamente vividas.
O tradutor alcança, plenamente, esse passo difícil, vencendo-o.
E por isso verte, para encantamento de nossa alma, a "Odisséia", sem querer quebrar a majestade, a harmonia e a beleza do verso original; sem descer, nesse laborioso esforço intelectual, a puerilidades de expressão, que enfeiam traduções outras. Nem ficou preso, por isso mesmo, ao jogo fastidioso de neologismos de severa construção gramatical, belos sem dúvida, porém alheios à linguagem normal, comum, clara e elegante. E vence, com galhardia todas essas dificuldades, sobrepujando-as. Vale transcrever aqui um dos mais vivos episódios do poema, em que o poder descritivo-emotivo de Homero se apresenta insuperável. Passagem altamente impressionante, sobremaneira sugestiva e cheia de vigor narrativo, desdobra-se através das rapsódias do canto 5º, quando Odisseus alcança, enfim, depois de cruentas amarguras, a hospitaleira terra dos Feácios.
"Eis que uma vaga maior o lançou contra os duros recifes;
e lacerara, sem dúvida, a pele, ou quebrara ali os ossos,
se a de olhos glaucos, Athena, o expediente não lhe sugerisse,
de se atirar para a rocha, abarcando-a com ambas as mãos,
onde gemendo ficou, até que a vaga potente passasse.
Dessa maneira escapou; mas, ao vir novamente, em refluxo,
fere-o com força, atirando-o bem longe, no meio do mar.
Bem como o polvo, quando é do esconderijo com força arrancado,
traz nas ventosas um grande número de pedras pequenas,
dessa maneira nas pedras a pele da mão de Odysseus
se lacerou, ficando ele coberto pela onda gigante.
E, contra o próprio destino, teria morrido o infeliz,
se a inspiração não lhe desse a donzela de Zeus de olhos glaucos.
Tendo emergido das ondas, que se iam quebrar contra a terra,
nada ao comprido da costa, a espiar para ver se podia
porto abrigado encontrar, ou terreno de viável aclive.
Mas logo o nadador de uma bela corrente alcançou
a embocadura, o lugar pareceu-lhe o mais próprio de todos,
por não ter pedras e estar resguardado da fúria dos ventos.E esta súplica:
"Reconheceu que era um rio, e a seguinte oração lhe dirige:
- Quem quer que sejas, senhor, a quem muitos invocam, escuta-me!
Venho fugindo do mar, das ameaças do divo Poseidon.
São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens,
quando errabundos suplicam, tal como eu agora, que chego
à tua corrente, depois de sofrer, e teus joelhos enlaço.
Tem compaixão que eu também necessito de amparo nesta hora".Não sabemos de outro que possa alcançar maior fidelidade, lidima expressão e nobre elegância na transposição de Homero para o vernáculo, como o conseguiu o consagrado cantor das "Brasileidas", o poema épico dos sertanistas gloriosos. Dignifica o emérito obreiro, o simples fato de amar a beleza poética e de cultivá-la com acendrado carinho. Carinho esse transbordante de anseio e de vontade, para assenhorear-se, sozinho, da língua grega, a fim de traduzir, como o fez, o seu autor predileto. E o faz, justamente, quando a poesia despe a forma primitiva e simples da ingênua e luminosa pureza, para vestir a túnica transparente de batida originalidade.
Vede como o povo heleno humaniza o divino rapsodo. Rebenta, implacável e indômita, a cólera de Odisseus contra os dilapidadores de seu patrimônio. Homero narra essa passagem da epopéia, no canto 22. Fêmio, para fugir-lhe à ira revolta, atira-se aos pés do herói:
"e suplicando lhe diz estas palavras aladas:
- Os teus joelhos abraços, Odysseus, tem piedade e respeito!
Arrependido virás a ficar se matares a um vate,
cujas canções sempre foram dedicadas aos deuses e aos homens.
Fiz-me por mim, tão-somente, que um deus em minha alma inspirou
muitas canções. Dá que eu possa cantar junto à tua pessoa
como ante um deus; não procures, portanto, privar-me de vida".Fêmio é poupado. O símbolo desse passo atesta a dignidade excelsa do cantor, no quadro artístico da velha e tranqüila Helade. Imortal e divino, o vate canta, pela sua voz potente e ritmada, o próprio povo, onde pulsam aspirações, palpitam, ideais, vibram anseios de eternidade. Eternidade essa baseada na comum imitação do modelo privilegiado. Daí a pergunta: porque os santos têm imitadores, e porque os grandes homens de bem impelem multidões a segui-los? Eles nada pedem e conseguem tudo.Não exortam. Não suplicam. Precisam apenas existir: sua existência é o apelo. Este chamado ressoa misteriosamente. no fundo remoto do passado, atravessa o presente e atira-se para o futuro. E porquê? Porque se concentra, se identifica e se integra na perfeita unidade moral do santo, do herói, ou do grande homem de bem, o anseio universal do povo, em cuja consciência se agita, se solidariza e se funde o sentido, simples e irradiante, do amor da Humanidade.
Com essa concepção mística dos bens humanos e divinos, Homero forja, nas rapsódias, a vida heróica dos homens e dos deuses da pátria, exaltando-os. Insufla-lhes, graças ao poder de seu gênio, a alma inquieta, emotiva e fecunda, humanizada pelo devotamento, pela renúncia, pelo espírito de sacrifício, enfim, pelas paixões desencadeadas na alma dos indivíduos e das sociedades. E daí ele se tornar, através dos séculos, o mestre discutido, comentado e imitado por discípulos ávidos sempre de estudar-lhe as arrojadas sínteses, de sentir-lhe a emotividade criadora e de interpenetrar-lhe o ideal artístico, universalizado pelos tempos afora.
Contudo, o poeta da "Odisséia" e da "Ilíada" continua. Continua apesar da crise das almas, da crise de fé e da crise moral em que se debate o mundo de hoje, quando esfuzia a metralha, roncam aviões e chovem bombas, no tropel confuso dos combates heróicos, manchados pelo sangue vivo dos homens tangidos pelo egoísmo estéril e bloqueados pelo progresso material.
Possa o entusiástico esforço de Carlos Alberto Nunes enquadrar-se na alta e serena compreensão do valor sobrenatural do verso, como o teve, não apenas a antiguidade clássica, mas também os apaixonados humanistas da Renascença e mesmo os espíritos cultos de todos os tempos. E que Homero, traduzido com tanto acuro e encantamento pelo poeta dos "Brasileidas", passe a constituir, entre nós, motivo de beleza, de preocupações intelectuais e de finalidade espiritual, porque, ninguém como o aedo grego soube imortalizar em rapsódias magníficas, a antemanhã promissora da mais nobre e da mais harmoniosa das civilizações humanas.
Para além das fronteiras da vida
Há uma página do padre Manuel Bernardes, muito conhecida através das seletas literárias, por andar nas mãos e sob os olhos da mocidade estudiosa. Esse admirável trecho de prosa clássica, "O frade e o passarinho", acha-se contado em duas versões pelo mesmo autor, nos "Sermões" e no "Pão partido em pequeninos", dos "Vários Tratados". Bernardes funde, nesses períodos, cristalinos e sonoros, o encanto, a graça e a harmonia da beleza espiritual e da beleza formal, com explicar a passagem do salmo 89, onde se diz: que mil anos diante de Deus são como o dia de ontem que passou.
Para bem penetrar o sentido dessa expressiva frase, religioso de certo convento quedou-se, junto à cerca, pensativo e solitário. Quebra-se-lhe o fio do pensamento ao ouvir, por entre a folhagem do arvoredo, meiga modulação de invisível passarinho. Tudo esquece o frade para deliciar-se com o suave e sentido, variado e saudoso canto da misteriosa avezinha. Decorrido algum tempo, bem curto ao parecer do religioso, desfaz-se o encanto ambiente, com o extinguir-se o gorjeio do cantor alado. O monge desperta.refaz o caminho do claustro. Depara-se, porém, aos seus olhos maravilhados, outro mosteiro. Outros os monges, diferente o abade, desconhecidas as portas. Tudo ali respirava desconfiança. Parecia, o recém-chegado, suspeito peregrino de passagem por aqueles lugares. Negavam-se os religiosos a reconhecê-lo, quer pelo nome, quer pelo rosto. Desesperançados, recorrem enfim às memórias e aos anais do convento. Lá encontraram, após minuciosa busca, a ocorrência registrada ao tempo do abade referido pelo estranho monge. Este ausentara-se dali, havia muitos anos. Dele jamais se houve notícia. Calculado o tempo, verifica-se, com pasmo geral, haver passado cerca de trezentos anos. Fez-se luz no pensamento do frade. Ele se lembra da idéia que o empolgara, naquele remoto dia em que saíra da cela. Entende agora o mistério. Narra o fato aos irmãos, explicando-o. Comunga. Fecha os olhos e morre; "que foi o mesmo que abrir os da alma para lograr aquele bem, que mil anos de sua vista são como o dia de ontem que passou", conclui Manuel Bernardes.
Informa ainda Leite de Vasconcelos existir duas versões portuguesas anteriores às do padre Bernardes: a do "Baculo Pastoral" e a do "Alívio de Tristes". Embora resumidas, aproximam-se muito das antecedentes. E apenas a forma apresenta diferente colorido.
Em "Céu de Allah", Malba Tahan, conhecido pseudônimo literário do sr. Júlio César de Melo Souza, consagrado escritor patrício, revive o mesmo assunto na "Lenda de frei Rogério". Frei Rogério discorre sobre a eternidade e chega ao salmo 89 de David. Para explicar a sentença bíblica, o religioso recorre à história do "Monge e o passarinho". Ao terminá-la sai do salão onde ficam os ouvintes, ansiosos por se divertirem à custa do ingênuo frade. Concordam todos em convencer frei Rogério, quando ele regressasse, de que cinqüenta anos se passaram durante a sua ausência. E todos ali ficaram esperando.
Perdido nas alamedas florejantes do jardim e nos círculos concêntricos das próprias reflexões, o frade segue, embalado pela corrente, sossegada e simples, dos claros pensamentos. De volta à sala onde estivera, havia poucos momentos, encontra ali mudança completa. Pessoas desconhecidas o recebem. Surpreso e comovido, indaga dos antigos amigos. Estes se dispersaram. E os restantes verificaram, cheios de pasmo, haver decorrido cinqüenta anos após a partida singular de frei Rogério.
Esta narrativa segue de perto as anteriores. E ressurge, florida e arejada, no estilo imaginoso e fluente do sr. J. C. de Melo Souza.
Ora, tanto os escritores portugueses, como o brasileiro, adornaram, com as louçanias da linguagem acurada, a velha lenda medieval, remoçando-a. Todavia, ela é bem velhinha, segundo conta o R.P.H. Faure, em "Les problèmes de la Vie devant la Science, la Raison et la Foi". Muito antes da reforma, quando se erguiam, nas colinas aprazíveis da Alemanha os tranqüilos conventos da Idade Média, frei Alfus vivia no mosteiro de Olmutz. Homem simples, como todos os que muito sabem, porque a ciência muito se parece com o mar: quanto mais penetramos nele, mais se dilata o horizonte marinho, e mais pequeninos e humildes nos sentimos diante do oceano ignoto. Alfus embranquecera os cabelos e enrugara a fronte, nos árduos labores do raciocínio e das pesquisas filosóficas. Sopravam, nas suas tentações espirituais, rajadas soltas de insidiosas dúvidas. Assaltado por essas crises da alma, o monge invoca, ansioso e vacilante, a fé angelical das criancinhas. Nuvens escuras velavam-lhe o sol da consciência atribulada e inquieta. Nos momentos de agudo e vivo desespero, indagava: - Que é a eternidade? Procurava a resposta desejada nas deduções lógicas dos pensamentos sublimados. Roga a Deus que lhe dê forças para vencer as incertezas da alma atormentada. Desesperado, perguntava: - Eternidade, tu que na terra fazes chorar, que podes significar no céu, que encerras, afinal? Nem passado, nem presente, nem esperança, nem saudade.
Abismado em conjecturas, certa manhã frei Alfus deixa o convento. O canto matinal dos pássaros despertavam os campos semi-adormecidos. Em gotas luminosas, suspensas das folhas verdes, o orvalho tremulava. Regatos corriam cantando. As belezas do dia nascente levam o monge para além da realidade flagrante. Ei-lo que penetra na espessa floresta erguida na orla da ondulante campina. Caminha por entre os velhos troncos. Envolve-o a sombra, o silêncio e a serenidade. Ouve, de repente, sons longínquos e harmoniosos. Vêm do fundo verde-escuro da folhagem adensada. Atraído pela sonoridade remota, o frade avança. Longe, numa clareira perdida, brilha maravilhoso lume. O religioso se aproxima do foco resplandecente. Inefável canto ressoa no espaço. envolvendo-o. Deslumbrado, frei Alfus entrepara. Nem o gorjeio das aves, nem a música humana encerravam acordes tão divinos. Depois a luz e a harmonia foram minguando. Desaparecem. Quebra-se o encantamento. De novo o silêncio embala o bosque secular, em cujos ramos o vento passa resmungando.
O monge pensa em regressar à clausura. Apressado e inquieto, deixa a floresta misteriosa. Atravessa o campo ensolarado. Chega ao mosteiro de onde partira. Atônito, não acredita em seus olhos. Surpreendido, não encontra a porta. Desaparecera do lugar costumado. Contudo, entra no claustro. Admiram-se os monges ao ver aquele pobre velho com o hábito da Ordem. Ninguém mais ali o reconhece. Alfus procura o abade. Este jamais o vira. Todos são estranhos. O recém-chegado quase perde o juízo. Enfim, depois de angustiado esforço de memória, o mais idoso da comunidade revela ter escutado outrora, havia muitos anos, a história contada pelo recém-vindo. Desaparecera, com efeito, um irmão com o nome de Alfus. Sábio e sonhador, amava a solidão e a tranqüilidade. Certa vez desceu ao vale. Mergulhara para sempre no bosque distante. Esperaram-no em vão: jamais regressou. Passara um século sobre esse acontecimento.
Alfus compreende e exclama: - Como se fosse um dia, cem anos deslizaram sobre a minha existência. E com estas palavras, fecha os olhos para não mais reabri-los. Aligeirado enfim, das incertezas terrenas, penetra no outro lado da vida.
A lenda cristã da Idade Média vive na linguagem, límpida e esbelta, do padre Manuel Bernardes; ressurge na estilizada eloqüência do R. P. H. Faure, antigo professor de retórica e filosofia e palpita na forma, clara e radiosa, do sr. Melo e Souza. A harmonia, a beleza e a universalidade empolgante do assunto arrebatam esses espíritos, dominando-os. Ele envolve, na amplitude e profundidade os magnos problemas da Vida e da Morte, cuja metafísica ainda escapa à nossa limitada inteligência. De resto, essas duas sedutoras incógnitas atraem sempre, pela sua transcendência, às vãs filosofias humanas. Daí Ruben Darío em "El Canto Errante" sintetizar: "O dom da arte é um dom superior que permite entrar no desconhecido de aquém e no ignorado de além, no ambiente do sonho e da meditação. Há a música ideal, como há a música verbal. Não há escolas; há poetas. O verdadeiro artista compreende todas as maneiras e expõe a beleza sob todas as formas. Toda a glória e toda a eternidade estão em nossa consciência". E mesmo posto em equação o binômio da Vida e da Morte, a solução do problema foge a todas as fórmulas e perde-se no campo infinito das hipóteses e dos raciocínios infinitos.
Mas esse dom universal da arte nos revela, consubstanciado no milagre da fé, o espiritualismo da alma, via-láctea misteriosa que desce do trono do Criador até nós, para ligar a terra ao céu, o homem a Deus, o tempo à eternidade.
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De Jean de Léry a Anchieta
Traduzida por Sérgio Milliet aparece nas livrarias, em bem revista e muito bem composta edição, a celebrada "Viagem à Terra do Brasil", de autoria de Jean de Léry. Anteriores a essa tradução existem a de Alencar Araripe e a de Monteiro Lobato. Monteiro Lobato empreende e publica a "História de uma viagem à terra do Brasil", ordenada literariamente. Alencar Araripe nem sempre é feliz no desempenho de sua tarefa. Falta-lhe familiaridade com o francês do século dezesseis. E as três traduções assentam alicerces na edição feita por Paul Gaffarel.
Todavia, a derradeira tradução, feita por Sérgio Milliet, coloca-se, sem favor algum, em primeiro lugar, por motivos de ordem vária. Destes assinalam-se os mais importantes, pela simples leitura da obra ora vertida para o vernáculo. Sobreleva às outras porque, além de conter o texto integral enriquecido com notas do tradutor, traz ainda, em apêndice, o colóquio da língua brasílica e notas tupinológicas de Plínio Airosa, o erudito lente da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
Etilista de prol e perfeito sabedor do francês antigo, Sérgio Milliet acomete e vence, com galhardia, as passagens difíceis do texto, superabundantes de formas sintáxicas obsoletas e de terminologia arcaica. Assim verte o original completo e acrescenta-lhe, para elucidação de trechos mais ou menos obscuros, inúmeras anotações, necessárias à boa clareza do trabalho, enaltecendo-o. E destarte se valoriza e se ilustra a excelente tradução do distinto escritor e penetrante ensaísta. Do valor e do interesse da obra de Jean de Léry já se tem dito muita coisa verdadeira. Encontra-se nela preciosa fonte de informações precisas para o estudo, ainda incipiente, de nossa história colonial e da etnografia brasileira. E daí a valiosíssima contribuição que ela presta aos estudiosos do primeiro século da colonização da nossa terra.
Gaffarel refere ter sido Léry cognominado, com justiça e inteligência, o Montaigne dos viajantes. Há, nesse apelido, evidente boa vontade, porque faltam ao autor de "Viagem à Terra do Brasil", as qualidades filosóficas e eruditas do célebre escritor de "Essais". Assim, Michel de Montaigne jamais perde a dignificante linha de equilíbrio e serenidade, por ele traçada e seguida até à derradeira página. Eis porque ele informa, de início, ao precavido leitor: "C´est icy un livre de bonne foy, lecteur". Dessa linha, tranqüila e honesta, foge às vezes Léry, com dirigir ao seu ilustre companheiro de viagem, André Thévet, invectivas e acusações acrimoniosas. E, além disso, fulmina católicos e ateus, em mordentes e golpeantes apóstrofes, dispersas pelo texto afora.
Calvinista acabado Jean Léry não tolera o católico André Thévet. Compatriota, mas de religião contrária, Thévet anda atravessado na garganta e na frase de seu ilustre patrício. Juntos chegam à baía de Guanabara. Contudo, estão separados pela crença, cujo ideal objetiva levá-los, por caminhos diferentes, a Cristo. Para o protestante Léry o religioso Thévet encarna o protótipo completo do refinado mentiroso, superlativamente atrevido em afirmativas redundantes de falsidade. E é bem de ver como o autor da "Viagem à Terra do Brasil" não poupa nem tolera o colega, porque autor de "Singularidades da França Antártica".
Jean de Léry aporta ao Rio de Janeiro quando Nicolau Durand de Villegaignon ergue o forte "Coligny", na ilha de Serigipe, defronte ao continente. católicos e protestantes arribam, irmanados na mesma expedição, à terra brasileira. Outros elementos vieram como voluntários. Destes receia tudo o calvinista. Justifica esse temor, pois se trata de antigos criminosos, condenados à morte pelos tribunais de França e escolhidos entre os prisioneiros das cadeias de Paris, Ruão e adjacências, animados firmemente do alto propósito de alargar a fé e o amor do próximo. E a ilha regurgita de indivíduos formigantes de interesses vários.
Ora, cerca de um século mais tarde, João Mauricio de Nassau-Siegen, o assinalado governador dos domínios holandeses, no nordeste brasileiro, envida esforços junto à Companhia das Índias Ocidentais para que sejam enviado para o Recife "condenados das galés e penitenciárias holandesas" afim de povoarem Pernambuco. E assim esvaziavam-se as cadeias em benefício da terra fértil e dadivosa.
Villegaignon domina, com decisão e segurança, o grupo heterogêneo confiado à sua guarda e assistência. Sua energia férrea resvala, às vezes, pela crueldade. Todavia, Léry recrimina-o pelos excessos cometidos. Daí a surpresa de todos transformar-se em indignação quando o cavalheiro de Malta e fundador da colônia francesa reingressa, no catolicismo e abandona a seita de Calvino. O autor da "Viagem ao Brasil" não lhe perdoa a apostasia, "nem o zelo inconsiderado". E assim Thévet ganha a partida, enquanto Lery sai perdendo.
Agora o vice-rei da França Antártica se desfaz de seus ex-companheiros de religião, de trabalhos e de lutas, renegando-os. Despejado, com outros, da ilha, Léry procura, em terra firme, todos os meios para se afastar do chefe inconstante e desumano.
Enquanto aguarda o navio contratado para o regresso ao Havre, Léry interna-se na floresta e visita os selvagens das aldeias circunvizinhas à Guanabara. Aproveita a excursão forçada para jornadear pelas tabas onde comia e bebia. Em meio dos índios, observa-lhes os usos e costumes, os ritos, a cultura, e as técnicas. E recolhe, desse turismo primitivo, copioso material etnográfico, narrativas excelentes e análise arguta de vida social das tribos por ele estudadas.
Com esse objetivo, mal desce na ilha de Serigipe, anota, para logo a ordem baixada por Villegaignon, assim concebida: "nenhum cristão deve, sob pena de morte, juntar-se às mulheres dos selvagens". Tal medida fora tomada pelo chefe da colonização francesa, porque alguns marinheiros normandos, naufragados, havia alguns meses, naquelas paragens, viviam entre os bugres, amasiados com índias. Daí o historiógrafo asseverar, muito seriamente, que, durante a sua estada na Guanabara, esse preceito foi cumprido. E assim Villegaignon impede, pelo menos, durante o período por ele governado, o cruzamento de "mayrs" com o elemento feminino nacional.
Cerca de alguns anos mais tarde, o regulamento do cavalheiro de Malta parece não ser mais obedecido. Pelo menos Anchieta depõe: "A vida dos franceses que estão neste Rio - já não somente hoje apartada da Igreja Católica, mas também feita selvagem; vivem conforme os índios, comendo, bebendo, bailando e cantando com eles, pintando-se com suas tintas pretas e vermelhas, adornando-se com as penas dos pássaros, andando nus às vezes, só com uns calções, e finalmente matando contrários, segundo os ritos dos mesmos índios, e tomando nomes novos como eles, da maneira que não lhes falta mais que comer carne humana, que no mais sua vida é corruptíssima, e com isto e com lhes dar todo gênero de armas, incitando-os sempre que nos façam guerra e ajudando-os nela, o são ainda péssimos", (José de Anchieta - "Cartas-informações, fragmentos históricos e sermões").
Verifica-se, das palavras aí transcritas, a existência real dos homens trazidos pelo vice-rei da França Antártica, para povoar com eles a nossa terra. Aliás, Lescarbot em arrazoadas observações a respeito de Villegaignon comenta: "Je reconnais un grande défaut, soit au chevalier de Villegaignon, soit en ceux qui l´avaient envoyé. Car que sert de prendre tant de peine pour aller à une terre de conquête, si ce n´est pour la posséder entièrement? Et pour la posseder il faut se camper en la terre ferme et la bien cultiver; car en vain habitera-t-on un pays s´il n´y a de quoi vivre. Que si on n´est assez fort pour s´en faire à croire, et commander aux peuples qui occupent le pays, c´est folie d´entreprendre, et des s´exposer à tand de dangers. Il y a assez de prison partout, sans aller rechercher si loin". (Southey - "História do Brasil"). Judiciosa e clara é a crítica de Lescarbot. Por que, afinal, tantos trabalhos para chegar ao sítio da conquista e não se fixar em terra firme, para bem cultivá-la e bem possuí-la? Como se pode habitar uma região aonde não há meios de vida? Existem prisões por toda parte. E para que a gente ir meter-se num presídio tão remoto?
Desse presídio consegue escapulir o autor do "Viagem à Terra do Brasil", para demorar-se um ano entre os selvagens, com eles habitando. E desse tempo vivido entre os bárbaros guarda a melhor lembrança, aviventada uma vintena mais tarde, como se fosse uma janela aberta para o passado longínquo e tumultuário da nossa terra.