História e Lenda

 

 

Tito Lívio Ferreira

Sob a doirada cinza da poesia

 


Debate-se a velha e grisalha Humanidade na crise moral e espiritual de todos os tempos. As almas ávidas e sobressaltadas perquirem, indagam e duvidam. E, perdida a fé, vivem acorrentadas às renovadas inquietações, aos eternos problemas do bem estar social, à complexidade crescente dos dias de hoje, determinantes imperativos das atividades políticas, intelectuais, religiosas, econômicas e sociais, consubstanciadas em potencial na atividade humana. Por isso, as sociedades estáticas ou dinâmicas, se multiplicam, se desenvolvem e se interpenetram. Vivem do intercâmbio permanente dos povos situados em latitudes e longitudes várias, em climas diversos, em territórios diferentes. Daí os homens se dividirem, desde os tempos mais remotos, em conquistadores e contemplativos. Prendem-se aqueles à materialidade grosseira da vida, gozando-a. Vivem estes acima do claro-escuro da vida, mergulhados na luz espiritual, atraídos pelo esplendor dos céus, pela beleza do universo, sob o encantamento espetacular do sol e das maravilhas divinas. Objetivistas e subjetivistas realizam, na esfera irradiante de suas atividades características, o trabalho contraditório, próprio da cultura de cada grupo, onde se fundem todos os projetos de conquista e de domínio, todos os sonhos transcendentais da Humanidade, todas as construções movediças da inteligência. Civilização, cultura, arte, progresso, ciência, tudo as criaturas articulam e conjugam, para elaborar, no silêncio remoto das almas insatisfeitas, o maior anseio desta existência bem pequena. E o homem se abisma, graças às técnicas mais aperfeiçoadas, na conquista do espaço, para dominar a terra; na conquista do distante, para dominar o próximo e na conquista do homem, para dominar o homem.

Daí todos os anseios da Humanidade inquieta e dispersiva atribularem as almas, possuindo-as. Bloqueado pelas paixões materiais, o espírito procura romper as barreiras do mundo real para precipitar-se no mundo irreal. Esta evasão interior movimenta os pensamentos. E da cinza ardente das idéias, surge, pura e luminosa, a flama da poesia.

Nesta ruptura de equilíbrio íntimo tudo muda: menos as exigências da arte, subjetiva e empolgante, criadora da metáfora luminosa e da imagem plástica e animada. Obra de paciência, de conhecimento, de sacrifício, da renúncia e de amor, ela não ornamenta os ócios da existência, porque requer, exige e impõe todo o esforço de energia criadora. Por isso, quando o homem exercitado pelas durezas da existência, pela injustiça e pela hostilidade, comuns em seus semelhantes, refugia-se no ideal para alcançar o mundo sonoro dos ritmos, ele antepõe pela graça de Deus, mesmo nas crises espirituais do mundo, o impossível ao possível, o irreal ao real, a imagem ao fato. Em todo o movimento intelectual, a sensibilidade se apura. E, com base no sentimento, o homem constrói, mesmo na maior desordem dos acontecimentos, a ordem universal característica dos pensamentos vivos, do coração arejado e da alma comovida.

Todavia, as épocas vincam os espíritos, penetrando-os. Eles fixam, simbolicamente, um estado íntimo, introspectivo e preponderante, consubstanciado na síntese essencial dum pensamento, onde a limpidez precisa de uma imagem nova e surpreendente. Ora, na paisagem intelectual dos dias escuros de hoje, cuja atmosfera asfixiante quase impõe o uso de máscaras de ar oxigenado, ondas luminosas projetadas acima dos entreveros das sociedades em conflito, sarjam as horas sombrias em que vivemos, arejando-as. Demarca nessas claridades espirituais, projetadas nos turbilhões do espaço universal, ou restritas ao “eu” absorvente, as realidades decepcionantes, as emoções vividas, os sonhos redivivos, polarizados no ambiente onde as criaturas se debatem e lutam. Tangidos pelas tempestades violentas, os contemplativos entreparam. Refugiam-se nos jardins das Musas. Ali dispõem do máximo espaço vital, sem pensarem em disputar aquele porque tanto morrem os conquistadores de todos os tempos. E nesse clima, o silêncio muito límpido e muito puro adormece as almas sobressaltadas sob a dourada poeira das idéias, batidas pela chama da espiritualidade.

Essa espiritualidade elabora, com ardor imaginativo, a corrente contínua dos pensamentos, onde as imagens e emoções se refletem. Flutuam, no consciente, como neblinas translúcidas. Exteriorizá-las na forma viva e radiosa é mobilizar sensações, através da literatura e da arte. Nestas se universalizam, de idade em idade, a alegria ou a tristeza dos homens. Porque, se “la littérature s´accorde au mouvement de l´univers, ce mouvement de l´univers s´accorde au dramme interieur de Dieu. (Albert Thiaudet — “Reflexions sur la critique”). Esta condicional equilibra, na harmonia da forma, o ritmo, a serenidade e a beleza das obras criadas ou sugeridas por um estado de alma em contacto com o espetáculo maravilhoso do cosmos. E daí, para representar esse drama divino, consubstanciado no movimento do universal, cada geração literária trabalha o mundo emotivo das idéias inacabadas que a arte completa em beleza, plasmando-as. Criado por essa forma concreta o ideal de beleza, procura, na renovação transitória das imagens visíveis, a maravilha do que não é visível, o esplendor do que não está à vista, para perpetuar a poesia cuja influência nas almas é bem profunda. E por isso mesmo, “influence glorieuse, encore qu´elle soit forcément passagére, car sans cesse les esprits dérivent, évoluent, se déprennet, changent, vont ailleurs, comme les vagues dans la mer”. (Georges Rodenbach — “L´Elite”).

Como as vagas do mar os espíritos velejam todos os oceanos, devassam todos os horizontes, refletem todos os céus. Perdidos na contemplação da vida, ei-los que se encontram e desabrocham em estados de alma preparadores intuitivos da arte emocional e vivida. Daí os poetas colherem, com lucidez intelectual, a verdadeira flor da espiritualidade, embelezando-a. E, muito embora esta época seja de homens carregados de trabalho, sem muita educação ou quase sem cultura, os espíritos contemplativos realizam a missão do pensamento, com observar o universo, através de atitudes próprias da alma fascinada pela Beleza.

Fiel ao seu destino, integrado na arte, atraído pelas formas encantadas da beleza, José Lannes realiza, de maneira sábia e macia, a sua missão espiritual de criar, solitário e sereno, imagens lépidas e plásticas vivendo-as. Daí a sua arte surpreender “essa primordial simplicidade de expressão, a que já não corresponde a mesma espontaneidade de emoção. A intervenção do elemento intelectual, aliás muito equilibrada, condensou o sentimento em uma atmosfera de névoa e penumbra, propícia à expansão discreta de toda a gama interior de emoções e pensamentos”. (Tristão de Ataíde — in “Revista do Brasil” — publicação de São Paulo). Este julgamento crítico a respeito de “Vana”, o primeiro livro de versos de José Lannes, sintetiza, com justeza, a arte poética onde a “poetry is emotion remembered in tranquility”. E daí as idéias e as emoções de José Lannes deslizarem fluidas, límpidas e tranqüilas, na serena harmonia da forma ática e sugestiva. Ele trabalha com materiais onde se alçam, plenas de colorido e claridade, as imagens radiosas, os ritmos clássicos, adaptados aos movimentos vivos e acariciantes do pensamento. Seu sonho espiritualizado e emotivo, reflete na paixão elevada, a idéia mais alta ainda, onde paira a imaginação consciente e clara. Esta acorda, na angústia de um minuto, o passado perdido, ou a presença de um anseio discreto. E daí aflorarem nessa poesia de impressões pessoais, as sombras harmoniosas dos dias distantes.

José Lannes trai, nas gradações, coloridamente acentuadas, a lembrança longínqua dos momentos vividos em contacto espiritual com os fascinantes poetas da Hélade. E esse impressionismo, estilizado e sutil, revive, luminoso e nobre, no desejo fugidio, na ansiedade amarga e na renúncia emotiva.

Altiva e soberana, livre e nobre, sua alma se humaniza em:


Não Condenes A Mulher Que Te Abandona

“Não condenes a mulher que te abandona
Se ela te fez sentir, em todo o seu passado,
o inefável sabor da suprema ventura,
não a condenes por te haver abandonado.
Não a maldigas. Antes, abençoa
a mulher que por tanto tempo foi tão boa
para o teu coração abandonado.

Se em tua vida má, que a dor depura,
algumas horas houve em que ela docemente,
se esqueceu, amorosa e infantil, a teu lado,
não a censures por te haver deixado.
Pensa, com gratidão, nisto somente:
— algumas horas ela foi toda ternura
para o teu coração amargurado.

Não tem conta, infeliz, os males que sofreste
e que envenenam o teu pão de cada dia!
Enlouqueces! Mas, ah! se um pouco de alegria
por um momento só, em seus lábios sorveste,
não a desprezes por não ter voltado.
Recorda esse minuto bom! Revive-o!
Que talvez, na lembrança, encontres um alívio
para o teu coração despedaçado!”

Resignado, o espírito filosófico do poeta recorda o verso de Alfred de Vigny: “Aimez ce que jamais on ne verra deux fois”. Esta amarga doçura, este sofrimento suave, esta lembrança apaziguadora, afeiçoada pela sensibilidade e pela recordação, exterioriza-se na forma simples e clara, onde sentimentos vários se fundem em serenidade.

Perpassa no ritmo expressivo do verso, a tranqüilidade e grave ressonância do coração espiritualizado. A imagem harmoniosa dos instantes passados revive, docemente, na recordação generosa da mulher amada. E a lembrança desses momentos vividos outrora alivia a amargura do presente.

Trabalhados ao jeito de mármores gregos, a presença divina da idéia luminosa estremece, alada e tranqüila, na elegância natural e singela do verso concebido pelo espírito do poeta, cujo gosto subjetivo amadurece em graça, encanto e beleza. Daí a sua emoção guardar a nobreza e o sentido estético do pudor intuitivo. E por isso mesmo não se prende à visão introspectiva do sonho, em cuja corrente subterrânea, deslizam as sombras misteriosas da vida.

Poeta da renúncia, José Lannes evidencia velado e penetrante ceticismo quando mergulha nas profundezas sombrias da alma, para retornar, avisado e prudente, à realidade amarga da existência. Todavia, não se decepciona. Medita. E a efêmera forma do pensamento deflui, expressiva e brilhante em

Filosofia

“A nossa pobre vida nos ilude:
— A maior alegria ainda é pequena,
guarda no âmago, um gérmen que envenena:
porque jamais atinge a plenitude...

Eis que enfim a Renúncia nos acena
e diz: — Eu sou a máxima virtude.
Só é feliz o que se desilude,
e tem, ante o mistério, a alma serena.

Mas a vida nos foge...e é quando basta,
para na dor cruel que nos devasta,
nesta insidiosa e trágica incerteza,

gozarmos nossa mísera alegria,
ainda a mais ilusória e fugidia,
com uma ansiedade, que já é tristeza...”

Porque a ilusão é a vida e a renúncia é a máxima virtude. E a tristeza desfeita em ansiedade cai de leve, como finíssima neblina, sobre os ombros nus e palpitantes da alegria. Filosofia sentimental e serena, ela penetra as idéias do poeta; envolve-as como a sombra misturada à claridade: “sublustri noctis in umbra”. (Virgílio). No entanto a imaginação andeja na penumbra enluarada. E ei-la que surpreende, nos arcanos espirituais, a alma “curvada sob a angústia de si mesma”. (Aníbal Teófilo)

Assim, nesse aspecto vigilante de calma transcendente, a alma de José Lannes fere a nota passional e emotiva, onde a forma se caracteriza pela impressão pessoal colorida e criadora. E daí esta vida espiritual propagar-se de onda em onda, de vibração em vibração, de alma em alma, interpenetrando-as.


Roteiro do Café


Nascido em Serpa, vila do município de Alemtejo, no estado do Pará, o sargento-mór de milícias, Francisco de Melo Palheta realiza, em começos do século dezenove, extraordinária façanha, de impressivas e relevantes conseqüências econômicas, sociais, políticas e históricas, para a terra brasileira. Coube-lhe a glória de introduzir no Brasil, mudas e sementes de café, trazidas da Guiana Francesa. Floriram e frutificaram, pela primeira vez, esses arbustos na região norte do país. Do Pará o cafeeiro passa ao Maranhão. Surge no centro, na antiga província do Rio de Janeiro, de onde se vai, lentamente, irradiando. Espalha-se por toda a serrania fluminense. Investe pela zona da Mata, em Minas Gerais. Avança pelo Vale do Paraíba. Domina Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Taubaté, Caçapava, Jacareí. Derrama-se pela zona chamada Norte de São Paulo. E forma, com Bananal à frente, o centro da atividade e do progresso dos paulistas do século dezenove.

Todos esses núcleos de população se adensam, prosperam, florescem. Alinhados e altivos, os cafeeiros rompem a marcha através da paisagem serrana, modificando-a.

No período imperial ressurgem, nas antigas sesmarias em decadência, os latifúndios agrícolas, onde se começa a cultivar o café, prenunciador de novo e imponente ciclo econômico em terras paulistas. Descendentes dos velhos troncos bandeirantes, quando a miragem do ouro se apaga, nas sombras dos anos distantes, e se dilui, nas cinzas douradas dos horizontes perdidos, recolhem-se à vida sedentária da família e vão, pelos tempos adiante, pacientando. Afazendam-se. E pela tarde alongada, o Paulista

“Via lenta subir do fundo do horizonte
A clara procissão dessas bandeiras de ouro”.


(Olavo Bilac — O caçador de Esmeraldas)

Transmuda-se, em breve, a procissão das bandeiras de ouro, no tropel cadenciado e incisivo dos verdes batalhões em marcha batida. Ei-los que abrem o passo, avançando. Descem dos espigões arejados. Invadem chapada e taboleiros. E selecionam, com rigor crescente, as capacidades humanas, ativando-as.

Dessa avançada majestosa emerge novo e notável tipo, cujas qualidades marcantes se acentuam, se firmam e se caracterizam. Enérgico, inteligente e progressista, ele organiza, dirige e domina. Complexa e absorvente se desenvolve a existência no interior das fazendas. Nela o homem se exercita, com sinergia moral e intelectual, para se adaptar à vida pública. Conjugam-se aptidões, fundem-se energias, acumulam-se experiências. Estas, revelariam, em suas leis gerais, meios para conhecer a sua evolução ao longo do passado, ou deduzir a sua evolução através do futuro.

Andejado o vale do Paraíba, o café continua a sua marcha penetrante. Alcança Campinas. Encontra na formosa terra roxa o “habitat” natural. Nada mais o detém nesse caminhar povoador. Processa-se, lenta e seguramente, o progresso econômico da “Princesa do Oeste”. Percorre a bacia do Mogi-Guaçu. Reflui e irradia para o oeste. Em plena ascensão monárquica o senador Vergueiro republicaniza o café, com introduzir, em suas propriedades agrícolas, extensos latifúndios dominadores dos municípios de Limeira, Piracicaba, Rio Claro e Araras, elementos livres, em substituição ao escravo, e, com eles, os primeiros maquinários modernos para o benefício do produto. Intensifica-se a vida rural, em prejuízo do crescimento urbano. O advento dessa lavoura vai modificar, por completo, a vida social do século dezenove, em seus aspectos geográficos, étnicos e culturais. Constituem-se, no interior, verdadeiros centro vitais, pronunciadoramente expansivos, de irradiação demográfica acelerada. Iriam construir a infra-estrutura da aristocracia ruralista, para fornecer, por cerca de um século, à política imperial, elementos de alto relevo intelectual e cultural, na administração do País, da Província e do Município. E “daí formar nas regiões, onde essa cultura se faz a base fundamental da atividade econômica, uma elite de homens magnificamente providos de talentos políticos e capacidades administrativas”. (Oliveira Vianna — “Evolução do Povo Brasileiro”).

Afim de elucidar, clara e inteligentemente, esse movimento étnico, social e histórico, eminente historiógrafo paulista demarca, desde o início, a evolução nítida e lógica, da sociedade paulista, dentro dos ciclos do índio, do ouro e do gado, para culminar no fenômeno do café. A curva ascensional, descreve, em linhas de força e de fraqueza, o auge, a decadência, e a regeneração dos povos bandeirantes. Esse gráfico aprofunda a raiz nos séculos transcorridos. E situa no tempo e no espaço, o traçado ondulatório percorrido pelas variadas situações econômicas, em sua função social: ascensão, clímax, decadência e regeneração.

Oscilam, nesse traçado característico, onde vivas e fortes se consubstanciam as virtudes raciais dos homens do altiplano, todas as lutas dos temerários dilatadores das fronteiras do Brasil. Na linha ascensional, para atingir o clímax, predominam, indômitas e conquistadoras, as forças caldeadas na alma ousada e altiva dos intrépidos sertanistas, desbravadores dos sertões brasileiros. realizada a conquista, a linha de ímpeto vai enfraquecendo. Vingado o período cinzento do declínio, opera-se nova revivescência, com o despertar das energias adormecidas. Processa-se agora o período intenso de franca regeneração, graças à sinergia moral dos paulistas do século dezenove, profundos modificadores da paisagem social, como já o foram, nos séculos anteriores, os homens da era das bandeiras.

Ei-los que operam o milagre renovador da economia nacional. Ei-los que abrem, nas zonas florestais, o caminho fecundo por onde irá transitar, através da terra-roxa, o exército verde-escuro dos cafezais. Destruídas as matarias virgens, com a abertura de fazendas, cultiva-se o café, valoriza-se a terra, povoam-se as vilas, crescem as cidades, transformam-se os usos e costumes, rasgam-se novos horizontes econômicos. Possibilita-se a formação da riqueza. Intensifica-se a indústria urbana. Fervilham as fazendas, com o recebimento de imigrantes. E paulistas, portugueses e italianos avançam planalto adentro.

Esse movimento eficiente e incoercível faz surgir, pelo deslocamento humano, novas zonas, formigantes de gente ousada e galharda. Derrubada a mata, passado o fogo, coveado o terreno, plantadas as mudas, em breve, por cima desse extenso e ondulante oceano verde, começam a branquear as floradas promissoras da fartura e da riqueza. E a riqueza denuncia, revela e exalta o fenômeno maravilhoso, com desatar-lhe a marcha rítmica através dos sertões do oeste paulista.

Estudar a passagem do café, como objetivo imediato de investigação econômico-social, constitui, sem dúvida, trabalho exaustivo, onde a observação e a estatística prestam relevantes serviços às sínteses gerais, para se verificar o dinamismo expansionista do maior “rush” agrícola de todos os tempos, analisando-o. E monografias, pesquisas, e investigações abrem luminosas perspectivas para estudos sobre a evolução do homem e das sociedades em marcha.

Com esse objetivo científico, Sérgio Milliet surpreende os grandes números através de relatórios, censos e estatísticas referentes ao caminho percorrido pelo café, no espaço de cem anos, isto é, de 1836 a 1935. Realiza esse formidável trabalho de observação, comparação e generalização em o “Roteiro do Café e outros ensaios” (3º edição — revista aumentada — Contribuição para o estudo da História Econômica e Social do Brasil, in coleção do Departamento de Cultura). Para a pesquisa desejada, o sociólogo divide o Estado de São Paulo, na “Introdução”, em sete zonas arbitrárias. Esse zoneamento se completa com gráficos, mapas e quadros pormenorizados, necessários para os estudos parciais das regiões delimitadas. O estado incipiente da agricultura e a sua situação em princípios do século XIX ocupam exato resumo. Veremos a seguir a estrada percorrida pelo cafeeiro, através de esquemas e números, pois, “o café caminha para o oeste, para o norte do Paraná, sempre e cada vez mais à cata de terra virgem, do rendimento milionário que compense os preços baixos”. Riqueza imensa, fabulosa, atinge o café à grandeza, e a decadência lhe sobrevém por falta de visão dos governos. Essa principal fonte de riqueza, embora descurada, não encerra, mesmo decadente, o seu grande ciclo civilizador. Continua. Daí Sérgio Milliet procurar, através das zonas velhas e novas, “compreender e delinear as conseqüências demográficas da grande trajetória do café”. Joga, para esse fim, com dados estatísticos e demográficos, colhidos em épocas diversas, ao longo do século. E depois de análises profundas atinge as grandes sínteses gerais.

Estudado o abandono das zonas velhas, pela diminuição das colheitas, pela baixa dos preços e pelo empobrecimento das terras, verifica-se perfeita analogia no crescimento das zonas novas, com aumento da produção, alta nos preços, riqueza fácil, demografia elevada. Termina Sérgio Milliet por achar cedo ainda para prever qual seja o futuro do café, no “ubérrimo hinterland paulista”. Depende tudo, afinal, de dois poderosos fatores: política geral cafeeira e mercado de algodão, os quais equilibram a economia paulista.

E estes dois fatores constituem, para os economistas e sociólogos, assunto de estudos acurados, cuja solução prática ainda escapa às previsões dos observadores atuais. Todavia, nota-se a tendência para a policultura e para a subdivisão do latifúndio. E esse retalhamento da grande propriedade constitui objeto da comunicação feita à Sociedade de Sociologia, subordinada ao título: “O desenvolvimento da pequena propriedade no Estado de São Paulo”. Complemento do estudo ecológico anterior, Sérgio Milliet evidencia, nesse trabalho, “a possível relação entre a marcha do café para o oeste, o fracionamento do grande latifúndio e o fenômeno demonstrado, em números absolutos, pelas estatísticas. Segundo o critério preestabelecido na divisão por zonas, esta pesquisa distribui as propriedades em: pequena, média, grande e latifúndio.

O fenômeno da fragmentação dos latifúndios e das grandes propriedades caminha, paralelamente, ao avanço dos cafezais, em conformidade com a situação geográfica. Assim se a região oferece “boas terras, fáceis comunicações, centros consumidores próximos, ausência de culturas extensivas”, verifica-se a tendência para o crescimento do latifúndio. Há também fatores de maior ou menor resistência econômica, o empobrecimento da terra, as glebas ruins, a falta de amanho dos terrenos, a carência repentina de crédito.

Na zona norte, inclusive Mogi-Jacareí, e zona fronteiriça, assinala-se o êxodo permanente do grande fazendeiro, para dar lugar ao sitiante. Café e colonos afluem para terras mais novas. Na zona central do Estado, compreendida pelos municípios de Piracaia, Bragança, Campinas, Piracicaba e Itapetininga, predomina a propriedade média. Apesar da investida crescente do algodão e da cana, o café ainda resiste. Paulista e Mogiana apresentam o panorama da pequena propriedade em crescimento, concomitante, com o aumento das grandes propriedades e do latifúndio. Em certos municípios explica-se o fenômeno: qualidade inferior das terras e extensos campos onde viça apenas barba-de-bode. E esses tratos de chão podem ser utilizados apenas para pastagens.

Zonas pioneiras, desbravadoras recentes do sertão bruto, a Araraquarense, a Alta-Sorocabana, a Noroeste e a Alta-Paulista, continuam, apesar da derrocada anterior a 1930, em pleno dinamismo, mau grado as depressões econômicas. Sítios, fazendolas, fazendas e latifúndios se abrem com a alta dos preços. Das regiões lindeiras, riquíssimas e inexploradas, pouco se pode induzir, pois a floresta primitiva cobre ainda grande extensão territorial.

No litoral a divisão da propriedade se processou de maneira diversa. Propriedades grandes se subdividem. Subsistem, porém, áreas extensas de terras ainda disponíveis e incultas. Daí a conclusão a tirar: “a pequena propriedade se tem desenvolvido num ritmo promissor, bem mais acentuado que o das outras classes. Por outro lado. o latifúndio cresce mais lentamente e contribui com uma importância cada vez menor para o conjunto das propriedades do Estado”.

Muito embora Sérgio Milliet deposite relativa confiança nas unidades colhidas em documentários especializados, “Roteiro do Café e outros ensaios”, revelam o honesto estudioso de assuntos sociológicos e econômicos, o pesquisador sereno e ponderado, o observador consciencioso e atento, o espírito investigador e racionalista. E daí esse estudo ecológico representar, sobre todos os aspectos, interessantíssima e valiosa contribuição cultural, de acurada investigação sociológica, pois situa em grandes linhas, o ritmo evolutivo do café, em marcha batida para oeste.


Dom Francisco Manuel de Melo e o Brasil


Clássico das línguas portuguesa e espanhola, Dom Francisco Manuel de Melo foi bem o tipo representativo do espírito renascentista educado nos moldes formais dos estudos humanísticos do século dezessete. Inicia antes dos dezoito anos a sua carreira de aventureiro, poeta, prosador, e soldado. Percorre a Espanha, a Itália, a França e a Holanda. Segue os caminhos da fortuna e da vida. De repente opera-se surpreendente reviravolta em sua fácil existência. Envolvido nas malhas compactas do infortúnio, é preso em Lisboa. O príncipe esteve na Torre de Belém. Transferido mais tarde para a Torre Velha, na Outra Banda, transita enfim para o Castelo, onde afinal por mais tempo se demora.

A causa desse imprevisto enclausuramento anda envolta em romântico mistério. Acusam-no de homicídio, ou de mandante de assassínios. Disso não foi feita prova provada. Todavia, a história se prende a semivelados amores. O galã não era bonito. Despejado e galanteador, conquistava pela simpatia os corações das suas admiradoras. Por isso, era bem querido das mulheres. Daí toda a invisível trama tecida ao redor da sua liberdade, enredando-o. Por longos anos o cárcere o reteve. Detiveram-no para evitar-lhe as livres manobras cerca de certa “senhora de muito bem fazer a quem lho pedia”. E se ele era influente junto aos poderosos do tempo, de não menos prestígio gozavam os seus inimigos poderosos.

Condenado, apela da sentença inicial para superior instância. Agrava. Embarga. Depreca. Alcança ao cabo de seis demorados anos de ferrenha lide judiciária, o julgamento decisivo, com ser sentenciado ao degredo na Índia. A seu pedido, a pena foi-lhe comutada em exílio para o Brasil.

Durante os vagarosos fazeres da prisão escreve, em média, de vinte a trinta cartas diárias. Epistológrafo notável e de fôlego, não desanima nem desfalece. A empresa é árdua, porém o gentilhomem espera alcançar a vitória. Peleja duramente, com a pena, enegrecendo-o. Recorre com ela a pessoas amigas, aos reis, às rainhas, aos cardeais, aos príncipes, aos ministros. Solicita-lhes, com empenho e com insistência, seus bons ofícios junto à morosa e complicada justiça do rei Dom João IV, seu disfarçado inimigo real. Bons ofícios e justiça jamais se acrecavam. E a persistência alerta do prisioneiro não esmorece nem arrefece.

Escreve, durante a sua reclusão, entre missivas tantas, a “Carta de Guia de Casados”. Celibatário avisado, permite-se, graças à sua incisiva experiência, dar conselhos a esposos menos cautos. Aliás, nesse assunto, pode ser comparado a magnânimos pedagogos sem filhos, cuja idéia precípua e preponderante se resume em coordenar teorias educativas para as crianças dos outros experimentarem. E dignos de louvores são sempre esses desvelos pelas criaturinhas alheias, de ambos os sexos, de idades várias.

Decorridos doze anos de cárcere e de copiosa e fluentíssima correspondência, cumpre-se, enfim, o mandato executório da Mesa da Consciência. O prisioneiro deixa o Castelo, rumo à Bahia.

Permanece três anos na cidade do Salvador. Emprega o tempo em escrever os “Apólogos Dialogais”, a sua melhor obra no dizer de vários críticos. Teria carpintejado ainda interessante obra cujo manuscrito foi perdido. O título do original era: “O Brasil, inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos”, e das mulatas, acrescenta o prudente Antonil (1), porque assim a frase corria, como provérbio, na sociedade do tempo. Da pena do elegante prosador e excelente poeta havia de ter saído primoroso trabalho literário. Nele talvez se estudasse a força dinâmica dos grupos sociais dessa época, com reviver usos e costumes do período colonial, onde o latifúndio construía o prestígio, o poder e a riqueza, sobre a escravaria derreada no eito, ou no engenho.

Dois anos depois de sua arribada ao exílio, morre Dom João IV. Nem por isso o degredado se apressa em regressar à sua querida Lisboa. Deixa correr mais um ano. Com isso, revela a sua prudência, bem experimentada. Retorna, enfim, à Europa. Fixa residência em Roma, onde publica as “Cartas Familiares”. Reúne, em volume, a abundantíssima correspondência, selecionando-a. Nos primeiros seis anos de cadeia, escreve apenas vinte e duas mil e seiscentas cartas. O número é respeitável. Contudo não sobejam, nesses documentos de uma época, derramados comentários sobre os acontecimentos desses anos. Em cento e quinze missivas dessa escolhida seleção, somente nove trazem sóbrias referências ao Brasil. Mesmo assim, em minguada linha de uma delas o epistológrafo confessa a sua desafeição à terra brasileira. Esse desabafo reveste-se de sinceridade, porque Dom Francisco era discreto mesmo discreteando.

Escreve galhardamente nos dois idiomas, o português e o espanhol, durante a carreira da vida. Em ambos e com ambos se defende. Lê, com avidez, os clássicos gregos e latinos, inclusive os escritores da Renascença. No cárcere ia “ escrebiendo unos librillos”. Impressos uns, manuscritos outros, todos muito lidos por esse tempo. De certa obra sua, dada à publicidade, narra o seguinte: “No primeiro dia se gastaram trezentos volumes”. Admiram-se os editores de hoje, desse alvoroçado êxito de livraria. Talvez a tiragem fosse pequena e talvez o hábito da leitura séria fosse comum, no século dezessete. Ainda assim, o autor de “Epanáforas de vária história” queixa-se dos livreiros do tempo, isto é, os editores de hoje, dependentes por sua vez, das oficinas gráficas. Ligeiros no prometer e demorados no cumprir, são os livreiros dessa época. E alega: “Porque os livreiros cortam e cosem; e pegou-se-lhes, pela semelhança dos ofícios, o mentir dos alfaiates”. Trata-se dos tipógrafos e dos encadernadores, boníssimas criaturas afeitas a lidar com tipos vários. Aliás, o mentir não é privilégio de ninguém, por ser patrimônio de todos. E se a mentira é filha natural da verdade a verdade é mãe desnaturada de todas as mentiras espúrias.

Trabalhadas “c´ol senno e con la man”, (Torquato Tasso — “Jerusalém Libertada”) isto é com a inteligência e com a mão, as eruditas e literárias obras de Dom Francisco Manuel de Melo são sempre lidas, com ávido interesse e especial agrado, pelos estudiosos do nosso idioma. E as cartas de seu talento e de sua desgraça constituem, sem dúvida, escorreitos modelos de boa e clara linguagem literária.

 

 

Nota do Jornaleco: 1. Antonil: André João Antonil, jesuíta, nasceu na Itália em 1649, veio para o Brasil aos 32 anos, e faleceu na Bahia aos 77 anos. Foi Reitor do Colégio de São Salvador, Visitador e Provincial do Brasil. Figura destacada na Companhia de Jesus, escreveu o importante “Cultura e Opulência do Brasil”.