História e Lenda


Tito Lívio Ferreira


Mestres e salários

Não é de ontem, nem de hoje, mas de todos os tempos, essa debatida e secular questão de salários devidos aos educadores, pelo seu trabalho. Renova-se, de quando em quando, o problema. Discute-se o caso. Consulta-se a classe, por meio de questionários. As respostas aos quesitos formulados por técnico, variam de Estado para Estado. Variam conforme o custo de vida. Dessa desigualdade econômica não é fácil extrair a média. Todavia, recorre-se a processos vários. Espera-se organizar, com os resultados obtidos, as apreciáveis bases da “remuneração condigna”. Como se vê o problema é complexo, e delicado. É necessário atender às várias regiões do país, onde os interessados labutam. E diante dessa complexidade os professores ficam perplexos.

Vale a pena remontar, nesta altura, a correnteza do passado, para reviver no presente, alguns aspectos desse milenar litígio econômico, digno de ser bem estudado em futuro não remoto.

Na Grécia o assunto constitui verdadeiro quebra-cabeças dos filósofos de Atenas e adjacências. Mestres e estudantes complicam o dissídio, sofismando. Protágoras, na manhã luminosa de sua pátria, propunha aos discípulos, cujos interesses estavam diametralmente opostos aos do proponente, silogismos com premissas falsas e corolários verdadeiros. No entanto, resumia, em termos claros, a cobrança feita aos devedores relapsos. Estes não eram poucos. O seu trabalho, dizia ele, precisava ser pago conforme o contrato previamente ajustado. Os alunos ouviam e calavam-se. Mas se esta forma não lhes conviesse, continuava o mestre, havia outro meio, se fosse preferido. Bastava irem ao templo. Em face dos deuses deviam jurar em quanto estimavam as aulas recebidas. Os estudantes alegavam não ter preferências. Esta ou aquela forma era-lhes indiferente. Redundava sempre em remunerar o serviço prestado. Perdiam-se os alunos em conjecturas. Filosofavam. Mergulhavam nos becos tenebrosos das cismas dispilscentes. Hesitavam na estimativa. Entre as aulas dadas e o aproveitamento obtido, devia existir a ponte do pagamento, para ligar os direitos do mestre aos deveres do aluno. Contudo, entre as partes faltava esse traço de união, decorrente das obrigações contraídas. Por ele transita, em determinadas oportunidades, a sabedoria. Ora, a solução de continuidade nesse pagamento punha tempo em meio, por onde os dias deslizavam sorrateiramente. Os querelados deixavam o querelante com a palavra. Esperavam, sem dispêndio algum, obter ganho de causa. Na sábia lei do mínimo esforço e respectivas alíneas, repontava a melhor defesa. Surge, daí, em direito consuetudinário, o ponto manso e pacífico: pertence ao discípulo, independente de remuneração e a título precário, o usufruto do capital e do trabalho do mestre. Mesmo que o ensino esteja errado, o usufrutuário colhe o benefício. Representado pelo saber, o capital do mestre acumula-se de maneira abstrata. Ele forma, com a energia consumida pelos cérebros em atividade, o patrimônio cultural dos educadores. Este capital de produção está sujeito a desgastes, através dos tempos. E o professor aumenta a riqueza intelectual para esbanjá-la, com os aproveitadores de todas as épocas e de todas as espécies.

Acusado pelos seus inimigos de receber dinheiro dos discípulos, Sócrates não se defende. Criatura perdida em transcendentais cogitações, não fica bem ao filósofo interessar-se tanto pelos bens materiais, alegavam os maldizentes do inventor da maiêutica. Injuriado pelos seus adversários, passava adiante os desaforos. Hippias, vangloria-se, certa vez, de ter recebido na Sicília, boa quantia, com exercer o magistério. Sócrates zomba do colega afortunado. Nem sempre fora favorecido pela sorte. Antes estivera em Esparta. Estúpidos como eram, os lacedemônios cuidavam, tão-somente, de exercitar-se para a guerra. Viviam apenas combatendo. Não se dedicam, por absoluta falta de tempo, a outra espécie de entretenimento. Dispensam, com muito prazer, os passatempos espirituais dos atenienses. Com esse desprezo pelas coisas da inteligência não se conformam os filósofos de Atenas. Procuram viver, nem sempre com facilidade, à custa da ignorância alheia. Exercem, com alto engenho, a nobre arte de desasnar talentos embrionários. Lucram, por igual, com esse trabalho esfalfativo, os alunos e a didática. Homens de muito boa vontade, os mestres às vezes saem perdendo. E, conforme, a ocasião, recolhem alguma esperança e muita experiência.

Mas, se assim era na Grécia, em Roma pequena diferença havia. Um século antes de Cristo, o Senado romano decreta, para o bem-estar social, a expulsão dos mestres, cuja atividade era perniciosa à cidade. Diminui o número dos abnegados servidores da educação alheia. Um ou outro continua, sob a vigilância das autoridades, a matar o tempo e o ensino. Ressona, por ordem superior, a pedagogia da época. E com isso as crianças muito lucravam.

Horácio freqüenta, em Venúsia, sua terra natal, a escola de mestre Flávio a quem leva, nos idos do mês, os honorários devidos. Outro tanto não se verifica em Roma. Os professores da urbe viviam, sabe Deus como, para não morrerem de fome. Todas as desgraças lhe caíam sobre as frontes aureoladas pelo saber e pela miséria. No entanto, era o maior dos males. O educador não colhe nem come o fruto de seus pesados labores, muito embora semeie a ciência e a regue com o suor do seu rosto. Juvenal, o mestre da sátira e da torpeza ressalta, em cores vivas, os costumes e usos da sociedade romana. Deslumbrados, os pobres contemplam a dissipação e o luxo dos ricos. Esses gastos não chegam, porém, para pagar os mestres dedicados à educação da mocidade.

Celebrado pelos contemporâneos e pelos pósteros, Quintiliano recebe, de alunos cujos pais esbanjam fortunas, dois chorados sestércios, todos os meses. Não se conforma o eminente mestre, com essa penúria da riqueza. Consegue, para logo, a primeira subvenção paga pelo tesouro do Império Romano, para dar aulas públicas de retórica. Insignificante deve ser o ordenado. Contudo, o mestre da retórica percebe melhor ordenado que o de gramática. Assim mesmo o satírico poeta considera mínimo o sacrifício dos menosprezados educadores. Devem eles derrear-se, altruisticamente, em prol dos perdulários egoístas, recomenda Juvenal. O “pater-familias” deve exigir do professor de seus filhos, o máximo de ensino em troca de hipotético salário mínimo. Daí, se na Grécia era ponto pacífico em direito natural, não retribuir o trabalho dos servidores da inteligência, em Roma esse costume se enraíza. Os pais resolvem não pagar os mestres. Bem intencionados, os juízes procuram distribuir justiça entre os litigantes. Eternizam-se os pleitos. Recalcitrantes devedores rabuleiam. E as ações executivas para cobrança de honorários devidos aos educadores cochilam entre autos de natureza vária.

Foi Vespasiano, informa Suetônio, o primeiro imperador magnânimo. Delibera olhar um pouco pela classe dos mestre-escolas. Fixa-lhes ordenado. Contribuem, assim, governo e educadores, para o desenvolvimento da Universidade de Roma. Tempos depois, o imperador Graciano uniformiza os vencimentos dos professores, melhorando-os, mesmo assim funcionam escolas particulares de todos os tipos. Os imperadores Teodósio e Valentim determinam, por édito especial, abolir o ensino provado. Compete aos governos, dessa data em diante, a criação e o provimento das escolas. Quem procurasse viver de aulas particulares estava sujeito aos rigores da lei vigente. Utilitário e prático, o romano prefere sempre adaptar os meios aos fins, para obter a satisfação de seus ideais. Os mestres eram necessários. Não lhes pagavam os responsáveis pela educação da mocidade, logo o poder constituído devia chamar a si esse encargo. Daí os educadores passaram a receber, no fim de cada mês, pelos cofres públicos, a paga de seu trabalho. Roma resolve uma situação de fato, porque entre o direito e o dever coloca, de olhos vendados, a justiça, para equilibrar a organização social dos povos. E assim as nações civilizadas vêm a beneficiar-se da sábia instituição do Direito.

Perecem, com a decadência romana, todas as organizações educacionais dos primeiros séculos de nossa Era.

Na Idade Média a situação econômica e social do professor permanece inalterada. Com o advento das Universidades, há excessos de pedagogos. Transbordam para as ruas e estradas. A divisão do trabalho educativo cria o desemprego profissional. organiza-se a folgada ordem dos mestres vagabundos. Estes se unem, agora, aos goliardos. Ei-los a correr Universidades e castelos. Passam os tempos. No século XVI Erasmo de Rotterdam refere-se, em tom desabrido, aos pedantes e gramáticos da época, denodados mestres do humanismo. Erasmo considera-os dignos das cinco pragas e dos flagelos de epigrama grego, além de outros males de contrapeso. Bem miserável deve ser a condição desses maltratados servidores da inteligência. Ninguém os defende. Por isso o azedíssimo humanista aproveita a oportunidade. Juvenal da Idade Média vergasta em prosa os adversários. Derramada generosidade vibra em seus períodos, quando trata os mestres de sórdidos indivíduos, de estúpidas as mães e de idiotas os pais que lhes confiam os filhos. E com elogiar os seus pobres semelhantes, o perdulário holandês exalta o seu próprio talento.

Em pleno século XVII, João Maurício de Nassau-Siegen, natural de Dillenburg, na Alemanha, dirige os destinos da capitania de Pernambuco, dominada pelos holandeses. Com a sua esclarecida visão política, o governador solicita dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais, a remessa de capitais necessários à prosperidade latente da Colônia. Os precavidos holandeses não atendem aos insistentes pedidos feitos por Nassau. Para eles as riquezas deviam ir daqui para lá; jamais o contrário. Daí mandarem para cá indivíduos de todas as espécies e todas as categorias. Esse capital humano vinha na companhia de soldados e comerciantes. Eram artífices, aventureiros e aventureiras do mais baixo nível social, arrebanhados nos cais holandeses. João Maurício protesta, inutilmente, contra essa invasão de gente desclassificada. O desaforo chega ao cúmulo. O próprio Conselho Político de Recife movimenta-se. Escreve, em termos enérgicos, aos diretores da Companhia das Índias Ocidentais. E diz: “A nossa impressão é, francamente, que a Metrópole (holandesa) considera o Brasil como uma cloaca destinada a receber toda a sua imundície”.

Todavia, aparece, vez por outra, algum licenciado em letras, em direito ou em medicina. Por acaso, como indesejável, surge na colônia a figura, erradia e estranha do mestre-escola. Numa cidade onde os funcionários recebem muito bons ordenados e o comércio enriquece, o educador mendiga. Ele continua como sempre: bem explorado e mal pago. “E não se explica como esses pobres diabos podiam viver ante a carestia reinante na Colônia”, comenta Hermann Watjen, em sua obra, “O Domínio Colonial Holandês no Brasil”.

Pobres diabos no século XVII, diabos pobres nos séculos passados, a situação econômica dos educadores particulares, desde os tempos imemoriais de Pitágoras, continua a ser um problema complexo e delicado. Desafia o tempo e os homens. Estes acenam a aqueles, de quando em quando, com a esperança de melhores dias em futuro, mais ou menos próximo. Os dias passam. A esperança alimenta a classe. E nessa expectativa os mestres vão vivendo.


De Soror Mariana a Marília


Há entre Soror Mariana, a freira portuguesa, e Marília de Dirceu, a noiva de Tomás Antônio Gonzaga, a afinidade feminina do amor e do infortúnio, a ressaltar no destino e no contraste dessas duas existências paralelas. Nasce a primeira em meados do século dezessete; a segunda vê a luz quase ao descambar da centúria seguinte. Morrem ambas octogenárias e solteiras. Da morte de Mariana ao nascimento de Marília oitenta anos decorrem. A freira descansa, definitivamente, em 1723. Em 1853 a noiva de Gonzaga fecha os olhos para sempre. Soror Mariana escreve, na exuberância da mocidade, com a tinta escarlate de seu coração, as cartas de seu amor e de sua desventura. Cartas sem resposta, nelas palpitam a juventude ardente e a inteligência radiosa da grande apaixonada. Através do tempo, as palavras frementes dessa alma vibrante guardam o soluçado ritmo do anseio perdido no encantamento da ilusão decepcionada. Escritas em português, foram traduzidas para o francês e publicadas em Paris, onde se tornaram célebres. Servem de modelo para os romances epistolares publicados mais tarde. E entre eles está a “Nouvelle Heloise” de Rousseau.

Henri de Bayle, mais conhecido pelos pseudônimo de Sthendal, em “De l´Amour” cita como exemplo do amor-paixão, “celui de la Religeuse Portugaise”, o da Religiosa Portuguesa. Todavia, Jean-Jacques Rousseau em “Lettre à M. d´Alembert sur les spectacles”, depois de ter falado, muito cordialmente, bem mal das mulheres, conclui por achar que as “Cartas” da Religiosa Portuguesa não lhe parecem labor de cérebro feminino. Porque, diz ele, “esse fogo celeste que aquece e abrasa a alma, esses transportes sublimes que levam o deslumbramento até ao recesso dos corações faltam sempre aos escritos das mulheres. Páginas femininas são frias e bonitas como as suas autoras. Elas terão toda a inteligência que se desejar; porém jamais possuem alma. Os escritos da mulher, são cem vezes mais sensatos que apaixonados”. Daí o autor do “Contrato Social” afirmar: “Elles ne savent ni décrire ni sentir l´amour même”. Para Rousseau, portanto, as mulheres não sabem descrever o amor, quanto mais senti-lo. Com esse conceito a respeito da sensibilidade e da inteligência do sexo oposto, o grande genebrino termina por apostar que as “Cartas” de Soror Mariana foram escritas por homem e não por mulher.

Psicólogo acabado, Sthendal em “De l´Amour” pode responder a esse juízo, com dizer “Un homme ne peut presque rien dire de sensé sur ce que se passe au fond du coeur d´une femme tendre”. Para a experiência amorosa de Henri Beyle, um homem não pode quase nada dizer de sensato, a respeito do que se passa no íntimo do coração da mulher afetuosa.

Todavia, indiferentes aos juízos dos homens, essas duas grandes figuras femininas se curvam sob a angústia infinita do infinito isolamento de suas almas despedaçadas.

Abandonadas e esquecidas por seus respectivos namorados, Soror Mariana e Marília tiveram, no decurso da existência, destinos dolorosos. Freira, bloqueada pela vida, Mariana se apaga na penumbra e no silêncio do claustro, até desaparecer no silêncio e na penumbra da morte. Marília deixa correr o tempo. Dela diz o Barão do Rio Branco, nas “Efemérides Brasileiras”: “Morreu solteira e foi sepultada na matriz de Antônio Dias, na antiga Vila Rica”. E repousam afinal, purificadas pela dor: uma na capela do convento onde vivera e sofrera, outra na matriz onde sonhara receber um dia a benção nupcial. Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, a Marília do poeta da Inconfidência Mineira, era, no dizer dos cronistas da época, a mais linda moça da cidade serrana. Ídolo da lira alpestre do vate desembargador, ela irradia, cheia de claridade, em bucólicas ingênuas, em odes campesinas, os versos repassados de ternura, de graça e de beleza. Encantam-lhe a alma de menina e moça, o colorido, a serenidade e o lirismo das trovas gonzagueanas. Deslizam assim, por entre a bem-aventurança afetiva dessas rimas plácidas, os dias alegres de sua mocidade embevecida. Nas tardes tranqüilas das montanhas mineiras, Gonzaga e Marília desfolham, suavemente, as palavras de seu amor, dialogando. Esses diálogos dos corações sobem, no espaço profundo, para se unirem ao diálogo das estrelas. Todos os passos perdidos dessa paixão florescente ressoam nas cadenciadas sílabas desses versos votivos. E quando o poeta confessa, “Eu tenho o coração maior que o mundo”, é porque nele estua o ideal de amor da Humanidade inteira.

De janela a janela, as palavras dos namorados entreteciam o sonho das suas vidas: “por cima das flores que se abriam, no vale, por baixo do céu que se cobria de estrelas”, escreve Bilac, em “Crítica e Fantasia”.

Circunspecta e recatada, sob as vistas diretas da sociedade colonial desse tempo, Marília cresce na admiração e no conceito de todos, porque é bela e porque é noiva do desembargador Gonzaga. Ele dá sombrias audiências aos seus jurisdicionados, a quem distribui justiça e assiste às audiências luminosas dos olhos dela, a quem depreca, em verso, justiça para o seu foro íntimo.

Desembargador, poeta e árbitro da elegância, o noivo de Marília se impunha ao meio social onde pontificava, pela cultura, pela elegância e pelo bom gosto. Daí a cidade acompanhar, com interesse, todos os preparativos desse importante casamento, quando as autoridades transtornam os projetos de ventura dos nubentes, com a repentina prisão de Gonzaga. Borda ele, por esse tempo, o seu traje de casamento. Tomados nos autos da devassa, os depoimentos das testemunhas confirmam esse fato. Diz uma: “(o acusado) se chegava a negar a alguma visita por estar ocupado a bordar um vestido”. Outra é mais precisa: “(Gonzaga) tinha dado ordem para não falar, por estar muito ocupado a bordar um vestido, que dizia ele lhe havia de servir daí a oito ou dez dias para seu casamento”. (Autos da Devassa da Inconfidência Mineira).

Encarcerado, não se esquece o poeta de sua Marília bela. Todavia, a realidade presente recorda-lhe o passado perdido, quando sonhos mentirosos, diz ele, “pintam que estou bordando um teu vestido”. Essa idéia volta, mais tarde, aos seus versos, e escreve: “Mas ao menos será o teu vestido — por mãos de amor, por minhas mãos bordado”. E o anseio se perde, nas rendilhas do verso, por entre as amarguras do presídio. Prisioneiro dos homens, Gonzaga manda propor à sua noiva a realização do casamento, conforme haviam combinado. Escreve-lhe a esse respeito. Qual fosse a resposta depreende-se dos versos do poeta: “Tu me dizes que siga o meu destino: — que teu amor, na ausência, — será leal e fino”. E ela cumpre, fielmente, a promessa derradeira.

Condenado, Gonzaga segue para o desterro, onde se casaria com outra musa. Marília continua o seu viver, modesto e retraído. Ficam na alma da moça, batida pelo vento do infortúnio, a imagem do homem enamorado e as lágrimas silenciosas da ilusão desfeita. Estas com os anos vão secando. Aquela com o perpassar do tempo se vai delindo. Somente fica a saudade, tênue réstia de luar perdida, no fundo cinzento da memória. Pelo declive do esquecimento resvala aos poucos, a lembrança dos dias felizes de outrora. E, resignada, Marília se conforma com o destino.

Do passeio de sua casa situada a meia-encosta, a noiva do inconfidente olha, perdida em alongadas cismas, as frias névoas da tarde serena. Elas sobem dos vales quietos para envolver, no espaço, os recortes, os contornos, os perfis distantes das serras sobranceiras. Recorda, talvez, no outono de sua existência, a primavera de sua alma, quando o poeta um dia lhe dissera:

“Nas noites de verão nos sentaremos
c´os filhos se os tivermos à fogueira;
entre as falsas histórias que contares,
lhe contarás a minha, verdadeira;
pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto”.

A história verdadeira seria lembrada apenas pela noiva esquecida. No entanto, os anos deslizam. Nas arejadas alturas ouropretanas Marília envelhece. Outrora ali vivera o poema de sua mocidade, iluminado pelo talento do poeta escolhido pelo seu coração de moça. Desmaia a manhã de sua vida envolta nas luzes mortiças da tarde tranqüila, quando Marília, entra, por entre as sombras da noite acolhedora, no sagrado silêncio da morte.

E assim, redimidas pela ventura terrena, essas duas almas sofredoras desaparecem no mistério da eternidade.


Duas traduções de um soneto


Rejuvenescido e lépido, o cediço e expressivo — “traduttore traditore” — não envelhece nem caduca. Apesar do tempo evoluir e dos vendavais literários perpassarem, com fúria intensa, pelos mundos espirituais, ele se conserva, espacial e temporalmente. Fez e faz a fortuna dos editores, à custa do empobrecimento intelectual dos homens de letras consumidos sempre pela angústia de viver. Constitui, para os tradutores de todos os tempos, o espantalho permanente de possível traição mental, porque nem sempre é fácil penetrar, compreender e atingir o sentido íntimo de palavras, de imagens e de idéias em que estremece e irradia algo intraduzível do pensamento alheio. Mesmo assim, “traduttore traditore” resiste. Resiste, impávido e firme, a todos os entrechoques e conflitos sociais, morais e intelectuais, dominando-os. E por isso continua.

Todavia, nem todos os tradutores cometem traições espirituais em seus trabalhos. Assim, muitos se esforçam por espelhar, na forma vernácula, emoções, idéias ou pensamentos de autores estrangeiros. Diversas traduções temos de célebre verso de E. Rostand, em “Cyrano de Bergerac”, colhido na cena do beijo: “Un point rose qu´on met sur l´i du verbe aimer”. Lúcio de Mendonça traduziu: (beijo) “ponto róseo no “i” da palavra paixão”. No entanto, Carlos Porto Carrero verteu: (beijo) “Um ponto róseo no “i” do lábio que se adora”. Daí, em certos passos do poema, a versão portuguesa deste poeta brasileiro sobrelevar, com mais vigor e mais colorido, o consagrado original do poeta francês, universalmente conhecido.

Em “Cyrano de Bergerac”, o gênio de Rostand floresce. Por isso esplende, na poesia francesa, esta imagem clara, arfante e sugestiva:

“Elle vient. Je me suis déjà botté der marbre,
— Ganté de plomb!”

Reveste-se de lume, harmonia e claridade, o vers de Porto Carrero, ao traduzir o verso de Rostand:

“Vem. Já me calça os pés de mármore dormente,
Enluva-me de chumbo.”

Trepidante e fremente, o verbo bate no começo do segundo hemistíquio. Recobra o impulso inicial. Alça o ritmo, para alcançar o vocábulo “dormente” no fim do verso, escandindo-o. O primeiro hemistíquio, “enluva-me de chumbo”, explica, vivamente, o frio da morte a envolver o calor da vida, arrefecendo-a. Ei-lo que sobe. Das extremidades inferiores, passa aos membros superiores, já decaídos, frouxos e inertes. E assim o artista verte, para o vernáculo, a obra imortal de Rostand, sem quebrar-lhe a unidade e a estrutura íntimas, porque na tradução de Porto Carrero a vida estremece, respira e circula.

Esse esforço emocional de sentir o pensamento alheio através de alheio idioma foi plenamente conseguido por dois poetas e filólogos brasileiros, com o soneto “Rêves Ambitieux” de Joséphin Soulary. E saíram-se bem desse labor ingrato.

O soneto de Soulary traduz o anseio do poeta. E resume, sereno, a ambição e o sonho.

Rêves Ambitieux


“Si j´avais un arpent de sol: mont, val ou plaine,
J´y voudrais un peu d´eau: torrent, source ou ruisseau;
J´y planterais un arbre: olivier, saule ou frêne;
J´y construirais un toit: chaume, tuile ou rouseau.

Sur, cert arbre un doux nid: gramen, duvet ou laine,
Retiendrait un chanteur: pinson, merle ou moineau:
Sous son toit un doux lit: hamac, natte ou berceau,
Retiendrait un enfant: blonde, brune ou châitaine.

Je ne veux qu´un arpent: pour le mesurer mieux,
Je dirais à l´enfant la plus belle à mes yeux:
Tients toi debout devant le soleil qui se léve;

Aussi loin que ton ombre ira sur le gazon,
Aussi loin je voudrais borner mon horizon:
Tout bonheur, que la main n´atteint pas, est un rêve!”

Estes catorze versos limitam os sonhos ambiciosos do poeta. Tudo que a gente anseia, deseja e não alcança, é sonho, é fantasia. E a emotividade, serena e clara, desses catorze versos tocou a alma e o coração de Silva Ramos e de Sílvio de Almeida, impressionando-os. Silva Ramos traduz o soneto de Soulary, sob o título:

Ambições

“Se eu tivesse um torrão: monte, vale ou clareira,
Quisera-lhe água ao pé: fonte, arroio ou caudal;
Uma árvore eu plantaria: olmo, freixo ou limeira,
E ergueria um teto a par: colmo, telha ou palhal.

Na árvore um doce ninho: algodão, musgo ou touceira,
Reteria um cantor: pisco, melro ou pardal:
Na choça um leito a arfar: rede, berço ou tabual,
Guardará uma criança: alva, rósea ou trigueira.

Contenta-me um torrão: por bem traçar-lhe a meta,
Eu diria à criança, a mais bela e dileta:
Fica em pé contra o sol que além sobe risonho;

Onde te vir eu na relva a sombra produzida,
Aí limitarei o horizonte da vida:
Ventura, além da mão, não é ventura é sonho”.

Sílvio de Almeida também verteu para o nosso idioma, “Rêves Ambitieux”. Subordinou a tradução à epígrafe

Sonhos Ambiciosos


“Se eu tivesse um terreno, ou plaino ou monte ou val,
Nele eu quisera ter — veio, arroio ou ribeiro;
Uma árvore plantar — freixo, oliva ou salgueiro;
Uma casa fazer, de paus, telha ou colmeal.

Nessa árvore prender, de lã, grama ou palheiro,
Um ninho e um bom cantor — melro, tordo ou pardal.
Desejara inda mais — berço, rede ou sendal,
Para ter um bebê, róseo, claro ou trigueiro.

E, para que o meu chão pequenino medisse,
Eu diria à mulher mais formosa que visse:
— Põe-te diante do sol, que além surge em fulgor;

O círculo que a sombra em derredor te marca,
Todo o meu horizonte exatamente abarca...
Que o bem que não se atinge, é sonho enganador!”

Os dois tradutores procuraram aproximar-se, o mais possível, da caprichosa forma do original, e atingiram o objetivo colimado, com precisar o termo justo, exato e perfeito, para viver a emoção, o desejo e o sentimento de Soulary.

Seguiram, ambos, a seqüência dos três termos, relacionados nos hemistíquios finais dos oito primeiros versos. Apenas a rima “pardal” figura nas duas versões, traduzida no mesmo lugar do original. Em todos os versos das traduções quase se notam, com pequenas variantes, as mesmas palavras. E a rima do último verso do segundo quarteto, passa de “trigueiro” a “trigueira”.

Todavia, a meu ver, a tradução de Sílvio de Almeida, nos tercetos, parece mais feliz, com ser mais humana e mais profunda. Ganha, em nitidez e beleza, pois se dirige não à criança, mas à mulher mais formosa que visse, para lhe dizer:

“— Põe-te diante do sol, que além surge em fulgor;
o circulo que a sombra em derredor te marca,
todo o meu horizonte exatamente abarca...
Que o bem que não se atinge, é sonho enganador!”

Chegados a este magnífico final, ambos os tradutores visualizaram, na imaginação, o vulto dessa mulher formosa, diante do sol, chamejante de claridade, a projetar, na terra, a sombra suave de seu corpo fremente de energias, irradiantes e criadoras. Ele delimita, no tempo e no espaço, o horizonte luminoso da ventura, onde se ergue, envolta pelo ouro do sol, a silhueta sedutora da criatura sonhada. E ela simboliza a emoção, o sonho e o anseio do homem, circunscritos ao horizonte demarcado pelo vulto da mulher eleita.